24 dezembro 2009

O Evangelho segundo a Internet




A foto é bonita e a intenção também.
O texto, porém, deve ter sido retirado na base do "copy-paste" da Internet... ou então já há muitos brasileiros a residir em Óbidos!

Obrigada, Matilde, e feliz Natal a todos os leitores!

22 dezembro 2009

Feliz Natal a todos!

E porque a língua portuguesa também é gestual, aqui fica uma bela mensagem de Natal. Até breve!



18 dezembro 2009

Com o pé na argola da sintaxe

É fácil pormos o pé na argola da sintaxe, porque ela nos ilude constantemente com armadilhas muito bem montadas.

Num documento do Ministério da Educação, por exemplo, as autoras escrevem esta frase: «as tentativas infantis de escrita inventada [...] levam as crianças a analisarem as palavras para decidirem quantas e quais as letras que, do seu ponto de vista, são adequadas escrever
Penso que nenhum dos leitores passa por esta frase sem a achar estranha, porque aquele final («são adequadas escrever») não soa lá muito bem. Contudo, e mesmo assim, deve haver quem se interrogue sobre a sua correcção. Porque já sabemos que, frequentemente, o que soa "mal" está correcto. Por isso mesmo, há quem opte, como as autoras, por deixar operar a hipercorrecção, elegendo como versão preferível da frase (entre «quais as letras que [...] são adequadas escrever» e "quais as letras que é adequado escrever") aquela que incorre na falha gramatical.
Mas, se a frase que soa pior é a escolhida, há decerto um bom argumento que o justifique. Esse argumento será a concordância entre o adjectivo adequado (que é flexionado em número e género, adequadas) e o nome letras, que parece exigir essa concordância.
Acontece, porém, que o verbo escrever é que comanda a flexão do adjectivo, pois aqui é o sujeito da oração «que é adequado escrever», na qual pronome que representa a expressão «quantas e quais as letras» da oração anterior. Os restantes elementos são: sujeito (escrever), verbo (é) e predicativo (adequado). Ora, se o sujeito da frase é um verbo no infinitivo, naturalmente o predicativo que com ele concorda só pode estar no masculino singular.
Terá um falante comum de saber tanta gramática para optar pela concordância correcta? Não. Bastar-lhe-á tirar a palavra "que" à oração para perceber de imediato que a sequência original não faz sentido: *são adequadas escrever. Ou, invertendo a ordem dos elementos, para facilitar mais ainda: *escrever são adequadas.

17 dezembro 2009

Desafio


Para quem ainda não se cansou, aqui fica mais um texto com alguns erros para caçar!


Tal como o homem pré-histórico, temos necessidades fisiológicas de cuja satisfação dependemos para sobreviver. Por isso, em pleno século XXI, a vida continua a ser o grande valor a perservar. A necessidade de sobreviver-mos continua a ser a nossa primeira e última necessidade, ainda que muitos não tenham consciência disso.
Efectivamente, o homem moderno, civilizado, urbano, vive rodeado de todos os confortos e munido de enúmeros meios que lhe permitem “superviver”, pelo que tende a esquecer-se de que a morte o espreita, a todo o momento, como sempre espreitou. Para além disso, as suas preocupações quotidianas, mais ou menos supérfulas, tornam-no egoista, ou pelo menos indiferente às ameaças à vida de outrém. 
 
 

11 dezembro 2009

Portinglês aos pontapés no Moodle

Na plataforma Moodle, como seria de esperar, usa-se e abusa-se de estrangeirismos. Mas, para além disso, dão-se alguns pontapés na nossa gramática - como este excerto demonstra:

Mostrar a janela de Mensagem automaticamente quando houverem novas mensagens (o seu browser necessitará de estar definido para permitir popups neste site)

Não há ninguém que faça a revisão e correcção deste portinglês?!






04 dezembro 2009

Afinal, qual é o plural de item?


A palavra item não parece suscitar dúvidas entre os falantes que conheço - pelo menos nunca ninguém me perguntou como é que se deveria pronunciar, escrever ou flexionar no plural. No entanto, o facto de ouvir bastantes vezes o plural "ítemes" (sobretudo por parte de pessoas letradas e eruditas) - e, menos frequentemente, o singular "íteme" - levou-me a pensar que talvez fosse útil prestar aqui um esclarecimento.

Item é uma palavra latina cujo significado original é «igualmente, do mesmo modo; além disso; segunda vez, de novo, outra vez». Mas faz parte da língua portuguesa, com a mesma forma, pelo menos desde o século XIV (com o significado de «cláusula, artigo ou unidade, numa enumeração»). Portanto,  sendo palavra grave terminada em -em, pronuncia-se "ítãi" (na variante padrão lusa), ou seja, o núcleo da sílaba final é idêntico aos de abrem, contem ou nuvem. E, se vem do latim e já cá anda pelo menos há 600 anos,  é  absurdo pronunciá-la à inglesa ("aitam"), como se fosse um estrangeirismo acabadinho de chegar.
Quanto ao plural de item, este não pode, naturalmente, ser *items, pois o português não admite esta combinação entre o m final do nome no singular e o s do plural, sendo necessário substituir a primeira das duas consoantes por n, para manter o ditongo nasal, à semelhança do que sucede com um/uns, nuvem/nuvens, batom/batons e por aí fora.
Talvez porque a palavra item conserva a sua forma latina original pareça ser "errado" flexioná-la segundo a gramática do português. Em todo o caso, é preciso rendermo-nos à evidência: dizer ou escrever "items" não faz muito sentido. Não dá jeito nem soa melhor!

02 dezembro 2009

E aberto sem acento



Tal como nem tudo o que luz (ou reluz) é ouro, nem todo o e aberto precisa de acento. Por duas razões:

Por um lado, o acento agudo (que "sobe" para a direita) serve SEMPRE, isto é,  EXCLUSIVAMENTE, para marcar a vogal tónica de uma palavra: a mais forte, a que se ouve melhor, a que prolongamos quando gritamos essa palavra.
Se quando gritamos a palavra pedicure não prolongamos o e, então isso significa que não podemos colocar sobre ele um acento gráfico, pois a vogal tónica é u (pedicuuuuuuuuuure!).

Por outro lado, uma vogal aberta, como [ɛ], [ɔ], ou [a], não leva necessariamente acento agudo, mesmo quando é o núcleo da sílaba tónica. Precisa dele quando a palavra em questão poderia ser pronunciada de outra forma, sem o acento, como se pode verificar com médico, que sem acento gráfico passa à forma verbal (eu) medico; cópia, que se transforma em (ele) copia; e o célebre cágado, que já estão a ver no que dá...
Mas se não há margem para erro ou dúvida, por exemplo, quando não há mais nenhuma vogal na palavra (e a vogal existente não é a última letra), como acontece em gel, mel, mal e dar, então o acento agudo é dispensável. Seria absurdo escrever már, sál, quér e sól, tal como é absurdo escrever gél.

Obrigada, Matilde, pela foto!




26 novembro 2009

Aos alunos que foram avaliados hoje

Eis o texto prometido.
Mas, claro, para que faça sentido colocá-lo aqui, deixo-o com alguns erros, para descobrirem... já que houve tantos e tão entusiasmados comentários ao desafio anterior...!



Informamos que, a partir do início do mês de Outubro, as crianças deverão chegar imperetrivelmente até às nove e meia, afim de evitar distúrbios nas actividades e desiquilíbrios na formação das crianças. Os atrasos poderão ser comunicados telefonicamente, mas os pais estão proibidos de entrar nas salas após a hora estipulada.
Embora estejamos, à priori, sempre ao dispôr dos pais, convém que nos avisem através de um telefonema que fazem tensão de nos ver, para pudermos dispender do tempo que com certeza será necessário para uma conversa. Assim, será possível definirmos um horário adquado, em que não haja simultaniedade entre o atendimento e a assistência aos educandos. Se aparecerem de repente, e sem querer subestimar os vossos motivos inadiáveis ou a vontade espontânea de resolver alguma questão, será mais provável que o encarregado e o respectivo cônjuge tenham de aguardar. Em caso algum as crianças serão deixadas sózinhas enquanto a educadora conversa com pais, avós ou outrém.
Se os vossos filhos forem alérgicos a algum alimento, como côco, amendoins, pêra, perú, etc., agradecemos que nos comuniquem por escrito. Se houver algum desfazamento entre as vossas instruções e o menú diário servido na escola, a responsável pela cozinha encarregar-se-á de fazer os devidos ajustes.
No dia desassete, salvo se acontecer algum precalço, e se as núvens o permitirem, iremos observar o vôo das aves migratórias ao parque da cidade. Se puderem, as crianças devem levar binóculos, além de chapéu e óculos de sol. Porém, agradecíamos que não mandassem objectos supérfluos, como jogos electrónicos.
Em caso de dúvidas ou perguntas, não exitem em contactar-nos, pois encontramo-nos à vossa disposição.

25 novembro 2009

Para os alunos que vão ser avaliados amanhã...

... aqui fica um texto com erros gramaticais, para treinarem. Quais são?




Muitos de nós concerteza já fomos assedeados por mendigos, que de repente surgem a pedir-nos uma esmola. A maioria tem um ar miseravél e enquadra-se no estereótipo do sem-abrigo, embora hajam enúmeros pedintes bem vestidos, que não se adeqúam à imagem pré-concebida construida pela experiência. Se dependesse de nós deixar-mos de os encontrar, quase todos obtariam por nunca os vêr. Mas se todos trouxessemos connosco uma moeda para despensar, um bolo, ou uma sandes, seríamos todos mais felizes.

24 novembro 2009

Os crioulos dos séculos XX/XXI






Os crioulos, como sabemos, nasceram da necessidade de comunicação por parte de pessoas que falavam línguas diferentes e pretendiam, essencialmente, estabelecer trocas comerciais. Derivam de códigos linguísticos simplificados e mistos (conhecidos como pidgins), ou seja, baseados nos idiomas dos intervenientes na sua criação.
Mas hoje em dia, os crioulos ainda estão na moda, apesar de o inglês ser a língua franca do mundo dito civilizado. São criados pelas pessoas que traduzem os textos das instruções de produtos comerciais fabricados em série, sobretudo os mais baratos e/ou de qualidade duvidosa, e cingem-se à comunicação escrita.
Nos crioulos desse tipo aparentados com a língua portuguesa, os acentos gráficos estão nas palavras erradas ou simplesmente não aparecem, há palavras que são abreviadas ou simplificadas, o ç é frequentemente substituído por um c, a ortografia aproxima-se da de outras línguas cujo léxico seja semelhante (normalmente, as línguas que o tradutor domina melhor) e a sintaxe pode apresentar particularidades bizarras, que por vezes dificultam a interpretação da mensagem.
O exemplo da imagem ainda apresenta semelhanças muito fortes com a língua portuguesa, mas, nos casos mais sofisticados, a boa utilização do produto exige a aprendizagem prévia do crioulo em que as instruções estão escritas, apesar de, à primeira vista, parecer português!

20 novembro 2009

Qual a forma correcta?




O desafio de hoje é identificar a palavra grafada correctamente, em cada par:

condicente / condizente
cônjuge / cônjugue
podesse / pudesse
carrocel / carrossel
despoletar / despultar
magestoso / majestoso
obcessão / obsessão
perscrutar / prescrutar
precariedade / precaridade
resplandecente / resplandescente
subestimar / substimar
torácico / toráxico




17 novembro 2009

Cuidado com a escrita!


No livro que estou a ler, O Priorado do Cifrão, de João Aguiar, aparecem, de vez em quando, algumas falhas ortográficas. Nesse sentido, aproveito, não para criticar a editora, mas para chamar a atenção para essas palavrinhas que, pelos vistos, pregam rasteiras aos mais capazes:

Página 103: «foi guardar a vassoura na dispensa»
A dispensa é o acto de dispensar. O lugar onde se guardam víveres é a despensa.

Página 104 (e outras): «Não tardariam as perseguições aos herejes».
A palavra hereges escreve-se com g.

Página 176: «Mesas com tampo de formica»
A formica (palavra grave) é uma doença. A resina sintética que se usa para revestir móveis chama-se fórmica – palavra esdrúxula.

Página 179: «Mas que não tentasse tomá-lo por tótó»
Em português, as palavras não podem ter dois acentos agudos, porque não têm mais do que uma sílaba tónica. Totó, como popó e bebé só leva acento na última vogal, a que é pronunciada com mais intensidade.

Página 242: «tombava uma moínha fria» (e p. 243)
Moinha, tal como rainha e bainha, não leva acento agudo no i tónico que não forma ditongo com a vogal anterior, porque este é seguido do dígrafos nh.

Páginas 251: «Eugénio Graínha» (e p. 254)
Este apelido também não deve ser escrito com acento agudo no i (portanto, Grainha), pela razão enunciada atrás.

Página 296: «Julgo que para muito espanhois é uma questão estética»
Espanhóis, por enquanto, ainda leva acento agudo no o. Porque o ditongo tónico é semiaberto, “ói” (como em caracóis), e não semifechado, “oi” (como em pois).


12 novembro 2009

Dicas para a comunicação eficaz

Porque a comunicação não envolve apenas o uso da língua, hoje resolvi deixar-vos um contributo diferente...

ANTES de comunicar, certifique-se de que:

- tem algo novo e interessante para dizer

- há alguém interessado em ouvi-lo

- consegue arranjar maneira de interessar os desinteressados, sobretudo se constituírem a totalidade dos ouvintes

- o tempo que leva a falar não é superior ao tempo (e paciência) que os ouvintes têm para lhe dispensar

- a sua aparência não vai distrair o público: não há nódoas na sua roupa, não calçou um sapato de cada cor, nem tem restos de pastel de nata nos dentes


DURANTE a sua comunicação, veja se:

- fala em vez de ler (gosta de ouvir os outros lerem por si quando o texto está à sua frente?)

- não volta as costas ao público (a menos que tenha asas ou cabeça de coruja)

- não fica mais do que 10 segundos em silêncio (na verdade, 5 segundos já é muito!)

- o seu tom de voz é audível (para quem está no fundo da sala, não para si)

- não há mais do que 2 pessoas em cada 20 a bocejar ou a dormir

- as pessoas acordadas não esboçam esgares de impaciência ou incompreensão


DEPOIS da comunicação, não se esqueça de:

- deixar bem claro que chegou ao fim (se ainda estiver alguém a ouvi-lo, claro)

- se oferecer para responder a perguntas da assistência

- deixar algo com que o público possa recordar a sua comunicação no futuro (por boas razões, entenda-se)





05 novembro 2009

Imperetrivelmente

Ora aqui está um advérbio relativamente comum na oralidade, mas que leva muita gente a hesitar (ou a enganar-se), quando passa para a escrita.
A dúvida reside, essencialmente, nas duas sílabas que se seguem ao prefixo im-, pois no discurso oral costumamos "comer" alguns sons (sobretudo vogais fracas, como o "e" átono) e trocar outros - por exemplo, confundindo as sequências pre- e per- .
Assim, e porque dizemos e ouvimos qualquer coisa como "imprtrivelmente", quando pretendemos escrever a palavra sabemos que falta ali a letra "e" algures entre as consoantes, mas não temos a certeza do lugar exacto, nem da quantidade de vogais que estão em falta. Então poderemos arriscar:
"imperetrivelmente"...?
Por hipercorrecção, a tendência é a de colocar "és" a mais na grafia.
No entanto, o advérbio vem do adjectivo impreterível, que talvez se ouça pouco, e cujo significado é «que não se pode preterir», ou seja, «que não se pode adiar». Aqui, talvez vejamos uma relação entre este adjectivo e o nome pretérito, que designa precisamente o passado. Portanto, escreva-se IMPRETERIVELMENTE - sem medo, sem dúvidas, sem risco!

03 novembro 2009

Scanear?!

Todos os dias me surpreendo e isso, à partida, é bom.
O problema é que nem tudo o que me surpreende é bom, por isso talvez devesse dizer que todos os dias me admiro com algo que vejo.
E há uma editora que, ultimamente, tem sido a causa de boa parte da minha perplexidade. Na sua base de dados em linha (expressão paradigmática da débil recusa, por parte de alguns portugueses mais "cotas", de cair no estrangeirismo fácil, que espero seja entendida pelos leitores), apresenta por vezes informações caricatas e inesperadas, para não dizer duvidosas... pelo menos por enquanto.
Há dias, descobri, de boca aberta, que o verbo scanear já lá constava, todo conjugadinho, da primeira à última flexão: eu scaneio, tu scaneias, ele scaneia...; eu scaneei, tu scaneaste, ele scaneou... e por aí fora. Lindo!
E para quem não saiba o que significa esta nova aquisição no nosso léxico, a definição aparece no dicionário de língua portuguesa: significa converter texto ou imagens, através de um aparelho que lê os dados em papel, em informação digital, que poderá ser consultada e usada no computador. Usa-se no âmbito da informática, mas não necessariamente em registo informal ou familiar, pelos vistos. Ao que parece, pode aparecer em relatórios, em documentos oficiais, em publicações, etc., porque será um legítimo sinónimo de digitalizar.
O aparelho com o qual o verbo está relacionado lá está igualmente dicionarizado na sua forma gráfica original: scanner (mas sem o itálico!) . Quer isto dizer que o verbo poderia ser scannerizar ou, aportuguesando a grafia, scanerizar, usando-se a combinação entre SCANNER + -IZAR. Inclusivamente, há quem prefira scanar e quem diga, com bom humor, sacanear...
Ora, pergunto-me, por que razão a editora não consagrou todas essas variações? Porque fez uma recolha rigorosa de dados e concluiu que a forma escolhida é usada com mais frequência do que as outras? Ou porque não lhe apeteceu? Trata-se de uma pergunta de quem tem curiosidade em perceber como é que estas decisões são tomadas!




























30 outubro 2009

Desafio verbal


Há certas flexões verbais que têm uma sonoridade um pouco estranha, senão mesmo cacofónica. Umas são engraçadas, outras levam-nos a hesitar, quando as pretendemos dizer ou escrever, mesmo quando se trata de verbos de uso corrente.
Que tal experimentarem conjugar os verbos entre parênteses, tendo em conta os contextos fornecidos? Ao que parece, o tempo/modo mais traiçoeiro é o Presente do Conjuntivo...


O professor de ginástica quer que eu _______ mais as pernas. (FLECTIR)

Sou eu que ________ este blogue há mais de três anos. (GERIR)

Tenho de gritar, senão ainda ________. (EXPLODIR)

O júri ________ a criatividade e a expressividade das apresentações. (PREMIAR)

É preciso que deste caos ________ uma nova esperança! (EMERGIR)

Queres que eu ________ já a carne toda? (FATIAR)

Convém que o formato do esquema se ________ ao conteúdo. (ADEQUAR)

27 outubro 2009

O já e o agora que são depois

Interessante, como as palavras tão frequentemente não dizem o que supostamente deveriam dizer. Parece que os falantes se empenham em subverter a lógica da língua, para a tornar mais imprevisível, traiçoeira e... bela, porque não?

Reparem como a palavra pode, paradoxalmente, significar depois, em frases como «deixa-me só acabar de escrever isto e te ajudo», ou « vou, espera só um bocadinho!». É ou não é engraçado?
E vejam como também o advérbio agora foge ao seu sentido imediato (literalmente!), para adquirir um significado imprevisto, sobretudo para os falantes pouco habituados a estes ziguezagues pragmáticos: «fiquei de baixa e agora tenho de ir ao médico na semana que vem!» Isto é como quem diz "e em consequência terei de ir ao médico na semana que vem".
Digo que se trata de "ziguezagues pragmáticos" porque se prendem com usos não previstos nas gramáticas nem nos dicionários, mas que os falantes entendem, porque são suficientemente frequentes, embora estejam relacionados com certos tipos de registo, certas entoações, certos contextos, tornando-se por isso muito difíceis de descrever. São aqueles usos que baralham os estrangeiros, quando eles pensam que já dominam o nosso idioma. E um dos mais curiosos será a palavra bom, que com determinada entoação interjeccional significa precisamente o oposto: "mau!"

23 outubro 2009

Erro à vista II


Decididamente, estou a ficar um pouco lerda.
Então, há dias, quando consultei aquele artigo da Infopédia, não reparei num outro erro gritante, mesmo junto ao "reinvindica"?

"Em 1948, com o apoio da ONU, nasce o Estado de Israel, novamente um centro político para os Judeus. Dão-se, por outro lado, início a novos tormentos, resultantes da oposição árabe a esta nação, com a qual se envolvem em guerras frequentes e duras."

Os leitores atentos encontraram-no com certeza.
Já não sei se devo censurar os profissionais da editora em causa, que publicam textos cheios de "gralhas", se me devo censurar a mim própria, que não reparo em metade delas... de qualquer modo, e censuras à parte, uma coisa é certa: trata-se uma boa fonte de desafios gramaticais para este blogue!



22 outubro 2009

Verbos defectivos


Hoje caiu-me a alma aos pés.
Estava eu a explicar à turma o que era um verbo defectivo, dando o exemplo dos verbos abolir e falir - que só se devem conjugar nos tempos e pessoas em que as formas verbais mantêm a vogal tónica do infinitivo (i), - quando, para meu enorme espanto, ao consultar os dicionários Priberam e Porto Editora, e depois a Mordebe, deparo com esses dois verbos conjugados em todos os tempos e em todas as pessoas. Como é possível?!

A minha pergunta tem o seguinte motivo: aceito que a gramática vá mudando conforme o uso dos falantes e parece-me necessário que as bases de dados lexicais, morfológicas e sintácticas vão sendo actualizadas, em vez de permanecerem rigidamente presas ao passado, quando os falantes já não se identificam com elas.
No entanto, parece-me que as alterações efectuadas a essas bases de dados só se justificam na medida do uso, ou seja, não faz sentido registar as formas "abulo, aboles, abolem" (para abolir), ou "falo, fales, fale" (de falir), se ninguém as passou a usar, se ninguém as reconhece.
Isto porque a gramática explícita, enquanto instrumento de consulta, deve ser uma descrição do conhecimento linguístico dos falantes, não uma "invenção" da autoria de uma minoria de "especialistas".
Posso estar redondamente enganada, mas não ouço dizer, nem nunca li, que "cada vez falem mais empresas", nem que "é preciso que o Governo abula as leis obsoletas"...

Senti-me mais confortada quando verifiquei que o Ciberdúvidas me dá razão, ainda que num texto de 2003. Pelos vistos, já não é actual!













20 outubro 2009

Erro à vista!

Ontem fiquei levemente chocada ao deparar com um erro de ortografia nesta frase, que li na Infopédia, da Porto Editora:

"A Organização de Libertação da Palestina (OLP) reinvindica também um espaço político e nacional para os Árabes da região, secundarizados e vítimas de certa repressão e indiferença hebraica."

Consultei de imediato o respectivo dicionário de língua portuguesa e verifiquei que apresenta a palavra em causa devidamente grafada. Depois, procurei na página um cantinho onde fosse oferecida aos leitores a oportunidade de enviarem comentários e sugestões (que existe no Priberam) e inicialmente não encontrei nenhuma indicação que me permitisse enviar para a equipa a chamada de atenção. Mais tarde descobri: basta clicar em "Centro de contacto", na página principal. Vou enviar à Infopédia uma mensagem!


Por enquanto, a gralha lá continua, indiferente. Pode ser uma falha tipográfica involuntária, mas não deixa de ser grave, considerando que se trata de uma enciclopédia divulgada no mundo inteiro!
Conseguem identificá-la?


15 outubro 2009

O mistério da "perna extra"



Já me referi aqui, em tempos, ao facto de certas palavras "mágicas" utilizadas em embalagens de produtos comercializados em Portugal, como "plus", "extra" e "seleccionado", parecerem funcionar como atractivos para os consumidores, embora na realidade não dêem nenhuma informação que interesse sobre a origem ou a qualidade dos produtos.

E dos produtos cujas descrições nas embalagens são acompanhadas destes pseudo-atributos, o mais engraçado, sem dúvida, é o "fiambre da perna extra".
 Extra, como sabemos, é abreviatura de extraordinário, dado que neste caso não se trata de um prefixo. Um anúncio recente explica que é o próprio fiambre (da perna) que possui essa qualidade fora do normal, mas quem não teve a oportunidade de ouvir o esclarecimento pode pensar que o fiambre provém de uma "perna extra" dos malfadados suínos.
Pode então entreter-se a imaginar porcos mutantes, ou geneticamente modificados, e cuja quinta perna serve assim para proporcionar um lucro ainda maior aos produtores. Outros poderão considerar a hipótese de a expressão "perna extra" constituir um recurso estilístico, não sei se uma metonímia, se uma perífrase, que designaria.......... é melhor não dizer!

Pergunto-me se a tal palavrinha mágica, extra, não deveria ter sido colocada noutra posição ("fiambre extra da perna"), para evitar por completo os mal-entendidos...






13 outubro 2009

"há-des reparar nas gramas"...

Ensina o Ciberdúvidas - e eu acho bem - que o substantivo grama, quando se aplica à unidade de medida de massa, (tal como o quilograma), pertence ao género masculino. Portanto, devemos dizer que «o bebé pesava, à nascença, três quilos e duzentos (gramas)» e não «três quilos e duzentas».

Grama só deve ser empregado enquanto substantivo feminino quando designa "relva", por exemplo na frase «o cão está deitado na grama».

No entanto, o uso, como sabemos, tem um poder imenso sobre a gramática. A história das línguas está cheia de exemplos de palavras e construções que se modificaram ao longo das décadas e dos séculos, por causa do "mau" uso que os falantes lhes começaram a dar. Foi assim que as formas latinas semper, insulsu- e per + ad deram origem a sempre, insosso e para, respectivamente.
Também assim se explica que bêbedo tenha passado a bêbado, que desestabilizar venha sendo reduzido para destabilizar, que a biopsia passe a biópsia e a conjunção comparativa enquanto esteja em vias de se tornar locução, pois tem-se preferido usar enquanto que.

Voltando aos gramas, é interessante notar que já em 1989 (3.ª edição), na sua Breve Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha e Lindley Cintra esclareciam: «Embora a palavra grama se use também no género feminino (quinhentas gramas), os seus compostos mantêm-se no género masculino: um miligrama, o quilograma.» Isto será talvez surpreendente, para quem tem levado a vida a arrepiar-se com quem se refere "às gramas" e aos quilos...

Mas repararam no verbo? «Embora a palavra grama se use»...
Quer isto dizer que tudo o que se use, independentemente de ser correcto ou atentar contra as regras da língua, deva ser registado nas gramáticas? Devemos achar natural que um dicionário de verbos registe que se usa "há-des" e "há-dem" para as flexões do presente do indicativo do verbo haver na segunda pessoa do singular e na terceira do plural (hás-de e hão-de)?!

09 outubro 2009

Acordo para quê?


Muitas são as ocasiões em que me apercebo, com satisfação, de que não sou a única a pensar que o Acordo de 1990, que tarda em fazer-se sentir em Portugal, não vai servir para nada que valha a pena.
E para ilustrar o meu ponto de vista, gostaria de dar aqui alguns exemplos de palavras de uso corrente que, apesar das boas intenções de uniformização ortográfica, vão continuar a escrever-se de forma diferente, em Portugal e no Brasil:

P                     B

aluguer            aluguel
amnistia          anistia
averiguam       averíguam
catorze             quatorze
conceção         concepção
desporto          esporte
encontrámos    encontramos
facto                fato
íman                ímã
indemnizar      indenizar
maioritário       majoritário
metro               metrô
planear            planejar
polémico         polêmico
quotidiano       cotidiano
receção            recepção
registo             registro
soutien             sutiã
stress               estresse
subtil               sutil
...

É uma lista curta, mas poderia ser muito maior. E nem sequer contém palavras que são completamente diferentes (para designar as mesmas realidades) num e no outro lado do Atlântico e que obrigarão à "conversão" dos textos escritos em Português do Brasil, no futuro, tal como agora.
Digam lá se vale a pena gastar tempo, dinheiro e recursos num esforço para uniformizar o que não é uniformizável?


07 outubro 2009

À pesca de erros...

Querem procurar os erros ortográficos presentes neste texto? São oito...


Com as novas tecnologias, muita gente exita entre dispender o seu tempo de laser em frente à televisão e navegar na Internet. Na faixa etária dos 20 aos 30 anos, há pessoas que já exibem um comportamento obcessivo face ao computador, que as afasta do contacto inter-pessoal e as torna fisicamente debéis devido à falta de exercício. Haverá, concerteza, excepções. Mas é necessário que dê-mos mais importância ao problema, se não queremos correr o risco de assistir ao envelhecimento precoce da população.

02 outubro 2009

Concordância, concordância...

  Muito sinceramente, venho confessar uma dúvida que me assaltou hoje, enquanto lia A Arte de Ler, de José Morais, um livro de 1997, mas interessantíssimo e extremamente completo sobre psicologia cognitiva da leitura. Deparei com esta frase:

Tudo isto constitui factores de diferenciação. (p. 256)


  A minha primeira reacção, ao ler «constitui factores», foi voltar atrás e confirmar que não havia ali nenhuma falha de concordância, dado que estava em presença de uma forma verbal no singular («constitui») e de um nome no plural («factores»). Quando verifiquei que o sujeito era a expressão «Tudo isto», lembrei-me da regra ditada por Celso Cunha e Lindley Cintra: «o verbo ser concorda com o predicativo [...] quando o sujeito do verbo ser é um dos pronomes isto, isso, aquilo, tudo ou o (= aquilo) e o predicativo vem expresso por um substantivo no plural» (p. 354, na 3.ª edição Breve de 1989).
Está bem, na frase em questão não temos o verbo ser, mas sim o verbo constituir. Porém, se o correcto, com o primeiro verbo, seria Tudo isto são factores de diferenciação, isso não sugere que a mesma regra se deveria aplicar ao verbo constituir, que aqui tem exactamente o mesmo significado?!

  Ao que parece, a resposta é não. E é verdade que ler "Tudo isto *constituem factores de diferenciação" não me agradaria mais...
   No entanto, parece-me que se trata de um daqueles casos em que a emoção deve pesar mais do que a razão. Aliás, Cunha e Cintra explicam que a concordância do verbo ser com o predicativo, no caso acima referido, se explica «pela tendência que tem o nosso espírito de preferir destacar como sujeito o que representamos por palavra nocional, pois esta alude a realidades mais evidentes».
  Então, se o que está certo não tem uma sonoridade agradável, eu optaria por modificar a frase, até que ela me soasse bem. Por exemplo, usando o verbo ser...





29 setembro 2009

Beijos, beijinhos e beijinhos grandes

   Se é verdade que as redundâncias saltam mais à vista (há dias um candidato a uma junta de freguesia prometia "enfrentar os problemas de frente"), não é menos certo que os contra-sensos são de evitar.
As pessoas que se despedem com "beijinhos grandes", por exemplo, ainda não devem ter reparado que assim se denunciam como mentes contraditórias, o que naturalmente não abona em seu favor.


  Devo dizer, porém, que a interjeição de despedida que se criou recentemente na nossa língua, "beijinhos!", é bastante afectuosa e original. Para além disso, dizer a palavra "beijos" é uma forma forma bastante prática e indubitavelmente mais higiénica de substituir o acto de beijar outra pessoa na face (podíamos até passar a dizer "beijos" também quando nos encontramos!). Finalmente, é uma forma eufemística de pormos fim à conversa sem mandarmos a outra pessoa para o Além, com o terminal  "adeus", e também sem nos comprometermos ao reencontro, através de um "até logo" ou de um  "até amanhã" que poderia, em muitos casos, revelar-se inconveniente, ou dar azo a mais dez minutos de diálogo.

   Os beijinhos são simpáticos e educados qb, embora tenham o inconveniente de serem desaconselhados para o uso estritamente masculino, a menos que a relação entre os intervenientes dite o contrário.
  
    Estou em crer que a despedida dos "beijinhos" terá surgido nos contextos em que as pessoas comunicavam sem se verem, como por exemplo ao telefone, e assim começaram a pronunciar o nome que se tornou interjeição. Daí até se ter instalado no nosso léxico como uma das palavras que mais vezes pronunciamos ao longo do dia (nós, mulheres, está claro), em paralelo com "não" e "aaah..." foi um instantinho.

     Logo surgiram as variantes, como os "beijos" (para uma despedida mais formal), o "beijo" (mais sedutor), os "beijinhos grandes" (das tias?) os "jinhos", as "beijokas" e as "jokas" (para a malta jovem), os "beijos, queijos e alfaces fresquinhas" (para amigos com mais tempo e criatividade) e outras versões mais económicas, como "bjks" e "bjs", para mensagens de correio electrónico e telemóvel.
 

     Parece-me que, perante uma fórmula de despedida tão agradável, eficaz e versátil, mas que infelizmente fica melhor às mulheres, os homens precisam urgentemente de encontrar algo semelhante, para poderem beneficiar das mesmas vantagens nas despedidas verbais. Permitam-me, leitores, que vos deixe as seguintes sugestões: "aperto-de-mão", "toque-no-ombro" e "palmadinha". Que tal?
  

25 setembro 2009

Maldito hífen


Acreditam que há certas coisas na língua portuguesa que me fazem odiá-la?

Uma delas é certamente o hífen, esse tracinho malvado que nunca se sabe muito bem quando é que vai aparecer, nem porquê.
Deixo apenas alguns exemplos que espero sejam elucidativos da minha quezília:

Se casa de banho se escreve sem hífenes, porque é que casa-comum, que tem exactamente o mesmo significado (mas nunca ouvi ninguém usar), há-de ter?

A propósito, como é que o falante comum percebe que deve escrever há-de e hei-de (com hífen), mas havemos de e haveis de (sem ele)? Traz uma cabulazinha no bolso para se lembrar de que o hífen só se usa no verbo haver + de quando as suas formas são monossilábicas? Ou tira primeiro um curso de gramática em 10 lições, para poder perceber o que isso significa?

Se cor-de-rosa é assim, enfeitadinho com ele, qual a razão para que cor de laranja não tenha direito ao mesmo tratamento? É mesmo um mistério, considerando que até a cor-de-burro-quando-foge já foi promovida...

Por que motivo o hífen não se usa com a camisa de noite nem com a camisa de dormir, mas já acompanha a camisa-de-forças e... a camisa-de-vénus?

Qual é a lógica de sala de estar e salada de frutas serem palavras às pinguinhas, sem nada a ligar os termos que as compõem, quando outras semelhantes têm direito a hífenes nos dicionários, embora apenas dezasseis pessoas vivas em Portugal saibam que elas existem, como sala-e-três-quartos (mais conhecida por «apartamento T3»), ou sal-e-pimenta (que designa, pasmem, um tecido feito com fios brancos, pretos e cinzentos)?

Serei apenas eu que desespero com o hífen, ou há mais quem se enerve ligeiramente com a ideia de ter de ir sete vezes por dia ao dicionário (reparem: é mais do que o número de vezes que vou à casa de banho...) verificar se as palavras compostas por justaposição levam, afinal, os malditos tracinhos ou não?

Enfim, como esclarece o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, «somente um vocabulário afro-luso-brasileiro delimitará praticamente a questão»!

23 setembro 2009

Meio-dia e meio e setecentos e oitenta e um euro

Há duas tendências portuguesas para o erro de expressão que me parecem particularmente engraçadas, enternecedoras, até.

Uma é o «meio-dia e meio». Acho bonita esta vontade incosciente de harmonizar a expressão, que ganha sem dúvida uma musicalidade mais interessante, fica com uma prosódia mais rica, quando a última palavra se torna o eco perfeito da primeira. «Meio-dia e meia», depois de ouvirmos «meio-dia e meio», torna-se esquisito, mal-sonante, quase absurdo.
Fora de brincadeiras: «meio-dia e meio»... quê? Se for meio-dia, mais outro meio, estaremos a referir-nos, afinal... à meia-noite?! Se dissermos «meio dia e meia», fica subentendida a palavra hora. Pode não soar tão bem, mas é correcto.

Outra é o «euro» singular dos número cujo último algarismo é 1. Por exemplo, no extenso dos cheques: «setecentos e oitenta e um euro». Uma questão de concordância, pois claro!! Se o numeral um é singular, não ficaria nada bem segui-lo do nome plural euros. E no tempo dos escudos havia já quem se regesse por essa lógica: «novecentos e noventa e um escudo
Dá vontade de perguntar: se só um é que é euro, os setecentos e oitenta são o quê? Palhaços?




18 setembro 2009

Acresce ao desafio



Imaginemos que um dos nossos prezados leitores tem a seu cargo a tarefa de redigir um aviso semelhante ao da imagem e se interroga sobre a forma mais correcta de o fazer... «jipes, carrinhas e monovolumes pagam mais dois euros. Como é que eu escrevo isto sem ser como se estivesse a falar?»
Ora, o verbo acrescer é bonito e soa bem, é, sim senhor. Mas como não se usa muito em linguagem corrente, é normal que hesitemos ao tentar construir com ele uma frase clara e ao mesmo tempo correcta. Se o nosso leitor acabasse por escrever aquilo mesmo que ali se reproduz, teria feito um bom trabalho ou deveria tentar melhorar o resultado?


16 setembro 2009

Propriedade global

   Iniciámos este blogue com plena consciência de que o respectivo conteúdo poderia ser lido e, na medida do interesse dos leitores, reproduzido, aproveitado e usado das mais diversas maneiras, por um número incontável de pessoas em todo o mundo. E é para isso mesmo que serve a Internet, bendita seja.
  No entanto, como pessoas respeitadoras dos outros (e ingénuas?), esperámos que quem copiasse os nossos textos e os divulgasse noutro lado se preocupasse em referir a fonte, ou seja, que mencionasse a nossa autoria junto aos textos que fossem reproduzidos ou publicados noutras páginas (virtuais ou impressas).

  Assim, foi com alguma indignação que descobrimos que este nosso texto, por exemplo, consta de um blogue pessoal cujo autor mais não refere além do facto de lhe ter sido enviado por e-mail por alguém chamado “Kriatividades”. Um nome que não deixa de ser irónico, tendo em conta a situação...
   Mas não temos ilusões: na era da globalização, não há trabalho intelectual que se preze que não seja do mundo inteiro. Se há teses de mestrado e doutoramento que são copiadas na íntegra e apresentadas a júris como se fossem originais, como é que um pequeno esclarecimento sobre uma dúvida linguística poderia escapar à voracidade dos "info-incluídos"?

10 setembro 2009

Ponto, vírgula e acento

Mais uma vez, a foto não serve para criticar gratuitamente os outros, mas apenas de pretexto para esclarecer quem queira ser esclarecido sobre aspectos relacionados com o uso da língua - neste caso, com a acentuação e a pontuação.
Aqui, houve a preocupação de colocar um vírgula... mas erradamente, pois interpõe-se entre o predicado («agradecemos») e o complemento directo («que avance»...). No entanto, foi esquecido o ponto (ou vírgula) a separar a oração principal (que termina em «abastecer») da interjeição de agradecimento («obrigado»), bem como o ponto final após essa interjeição.
Ora, isto acontece frequentemente: textos que pecam pelo uso acrítico e incoerente da pontuação. E o que é que isso importa? - Perguntarão alguns. Nada, talvez, para muita gente. Mas se queremos exprimir-nos com correcção e rigor, a pontuação não deve ser descurada.
Por outro lado, há aqui mais um esquecimento: o nome «veículo» leva acento agudo, por ser palavra esdrúxula (a tónica recai na antepenúltima sílaba: VE-Í-CU-LO), e assim se distingue da forma verbal (eu) veiculo, que é grave (isto é, acentuada na penúltima sílaba: VE-I-CU-LO). Trata-se, também, de uma falha frequente nos textos escritos: acentos a menos... por vezes (embora não seja aqui o caso) alternados com acentos a mais!

07 setembro 2009

"Vir ao de cima" ou "ao de cimo"?

Qual será a construção correcta deste provérbio português tão conhecido?

«A verdade e o azeite vêm sempre ao de cima»
ou
«A verdade e o azeite vêm sempre ao de cimo»?

Ao de cima é uma locução adverbial que significa «à superfície». Cimo é um nome masculino que designa a parte mais elevada de alguma coisa. Seria correcto utilizar a expressão «ao cimo», mas não “ao de cimo”!
Por conseguinte, a construção correcta é «a verdade e o azeite vêm sempre ao de cima».
Azeite, de cima; mel, do fundo; e vinho, do meio!

02 setembro 2009

"Rugby" à portuguesa


Há palavras estrangeiras que não custa nada adaptar. É o caso do futebol e do andebol, que, por mais celeuma que tenham causado na altura em que se passaram a escrever à portuguesa, hoje não nos chocam, nem provocam hesitações, embaraços ou birras, pelo menos que se note.
Outras, como o nome do desporto britânico rugby, causam verdadeiro stress (setress? Stresse? Setresse? Estresse?!) a quem as pretende dizer ou escrever.
Mas as dúvidas na escrita resolvem-se mais facilmente. Basta consultar um dicionário para verificar que o aportuguesamento do nome inglês resultou na forma râguebi, que, se tem um aspecto cómico e pouco convincente, pelo menos resolve o problema ortográfico, uma vez que se encontra consagrada em diversos dicionários e é, portanto, 100% correcta. Isto não significa, porém, que não haja outras possibilidades para grafar o termo em português. O Dicionário Houaiss regista também rúgbi (só para gerar a polémica...) e, por enquanto, ainda podemos optar por escrever rugby, em itálico.
Contudo, quando alguém pronuncia a palavra - e aqui está mais uma daquelas singelas incongruências do nosso idioma falado - o que oiço, na maior parte das vezes (e não é coisa de agora), é "râibi", com ditongo no início e sem o g antes do b. Porquê? Não faço ideia.
Minto. Tenho uma ideia. O que sinto (é mais prudente dizer que se trata de um sentimento) é isto: as pessoas parecem recear que pronunciar rugby à inglesa seja um sinal de pretensiosismo e procuraram uma forma fazer com que o estrangeirismo lhes saia mais rápida e discretamente. Como se dizer "râguebi" estivesse ao nível de pronunciar ténis e hambúrguer como "téniss" e "hembârgar".
Experimentem: a boca até fica mais fechada quando dizemos "râibi", comparativamente a "râguebi", que também demora mais tempo a dizer. E reparem que, com muitos estrangeirismos, aconteceu o mesmo: a forma como os pronunciamos, em português, mstra bem que não temos a intenção de andar para aí a imitar os sotaques alheios. Dizemos "penálti" em vez de "pénalti", "lizing" e não "lissing" (leasing), "ultimaite" e não "âltimate" (ultimate). Ou seja, lemos as palavras à nossa maneira, até porque nem sempre sabemos como é que elas se pronunciam na língua de origem. Isto acontece sobretudo quando as palavras têm uma forma gráfica demasiado estranha ou imprevisível quanto à pronúncia. E para não arriscar fazermos rir os outros com a nossa tentativa de "falar estrangeiro", preferimos fazer ligeiras adaptações fonéticas às palavras que importamos.
Resta saber se o "râibi" ainda vai dar origem a mais uma variação gráfica do rugby...

28 agosto 2009

Laura, de áurea aura

Áureo é «de ouro banhado»,
Aura é «sopro, emanação».
Portanto, áureo é dourado
E a aura etéreo clarão.

Mas, se o teu cabelo é louro
fico na dúvida, Laura!
Pois aúreo parece de ouro...
E se for dourada a aura?

Então, vamos lá ver:
se estou apaixonado
e é áureo o teu cabelo,
como é que devo dizer:
tens uma áurea de encanto
- ou no termo estarei enganado?

24 agosto 2009

O correcto que soa mal

No primeiro comentário ao texto anterior, um(a) leitor(a) sugere que determinada estrutura gramatical está incorrecta «porque soa mal». Esta é uma explicação simples e aparentemente eficaz, usada sobretudo por todos os que não dominam (nem têm de dominar!) a terminologia necessária para se aventurarem em explicações técnicas. Isto não é, portanto, uma crítica, nem faria sentido que o fosse. Também os linguistas, aliás, são apanhados a tentar decidir como se deve dizer uma expressão de acordo com o critério da boa ou má "sonoridade".
Ao longo da vida, mas de forma mais notória durante os anos da infância em que adquirimos o idioma materno, vamos seleccionando e guardando na memória as combinações e flexões que "soam bem" (porque são as que ouvimos mais) e descartando aquelas que, embora pudéssemos ter usado inicialmente, se revelam inadequadas, porque não encontram eco e por vezes são até apontadas como erradas "porque soam mal". E assim as crianças deixam de dizer "fazi" e "escrevido" para passarem a dizer fiz e escrito, esquecem-se dos "balãos" e das "cavalas" e registam balões e éguas.

Porém... a língua reserva-nos muitas surpresas, mesmo quando já somos adultos e julgamos saber tudo o que é preciso para falar correctamente. Se estivermos atentos e abertos, a revelação, para alguns interessante, para outros incómoda, é inevitável: nem tudo o que soa bem porque se ouve muito (pelo menos em certos meios) é necessariamente correcto. E vão-se acumulando os exemplos...
Ora, façam a experiência de tentar decidir o que ouvem mais e o que está certo, das seguintes possibilidades:

"Pesava três quilos e duzentos" ou "pesava três quilos e duzentas"?

"Ainda bem que eu intervim a tempo" ou "ainda bem que eu intervi a tempo"?

"Era bom que ela se entretesse" ou "era bom que ela se entretivesse"?

"Irei quando reaver o dinheiro" ou "irei quando reouver o dinheiro"?

"Foi condenado por ter matado o irmão" ou "foi condenado por ter morto o irmão"?

"Far-te-ia muita diferença" ou "faria-te muita diferença"?

E por aí fora...

18 agosto 2009

Que, de quem e cujo

Pedindo desculpa a todos por ter ido de férias sem avisar (!), aqui estou novamente, com uma pergunta: qual das seguintes opções não serve para completar a frase e porquê?

Aquele é o meu vizinho...

a) que a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

b) cuja filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

c) de quem a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

31 julho 2009

Chumbar… é não passar!

O verbo chumbar, do ponto de vista sintáctico, não encontra consenso entre os estudiosos da língua. Os puristas consideram-no um verbo transitivo directo, isto é, um verbo que pede um complemento directo, por exemplo: “O professor chumbou o aluno”. Construções como “o aluno chumbou” são, portanto, consideradas incorrectas.
Os linguistas contemporâneos, pelo contrário, consideram esse tipo de construções perfeitamente legítimas, designando-as «estruturas causativas”, semelhantes a: “A neve derreteu (com o calor)” = “O calor derreteu a neve” ou “O navio afundou-se (com a tempestade)” = “A tempestade afundou o navio”.
Ora, se no plano sintáctico se aceitam diferentes posições, no plano semântico declara-se tolerância zero! Principalmente aos profissionais da comunicação!
Jornalistas da nossa praça empregaram este verbo inapropriadamente, ao noticiarem o voto contra de alguns partidos relativamente ao relatório da Comissão Parlamentar ao caso BPN, referindo que “o relatório foi chumbado pela oposição”.
Ora, se o relatório tivesse sido chumbado, não teria sido aprovado!
Tal como viver é não morrer, desaprovar é não aprovar, também chumbar é não passar, logo, a notícia deveria ter tão-somente evidenciado que os diferentes partidos votaram contra o dito relatório!

29 julho 2009

A triste história da camisola em Portugal



Era uma vez uma camisola, que havia chegado há muitos séculos a Portugal. Viera de França, mas sem grandes pretensões nem ambições.
Entrara devagar, com discrição e humildade, no nosso léxico e nem se importara quando a obrigaram a substituir o seu e final por um a mais português. O que ela queria era mesmo ficar por cá, por isso achou bem assumir uma forma que a identificasse e confundisse mais com as palavras portuguesas. E a sua vontade e determinação foram tão fortes, que os falantes se esqueceram de que a camisola tinha vindo de fora, acarinhando-a como cidadã do léxico nacional.

Um dia, porém, quando ela própria já tinha esquecido as suas origens, os falantes começaram a impacientar-se com ela. Alguns deixaram de a querer usar, sem razão aparente. Outros acusavam-na de ser demasiado ambígua, de servir para tudo e para nada, de não satisfazer as suas necessidades vocabulares. Alegavam que outras palavras, frescas e sofisticadas, se revelavam muito mais eficazes para aplicar nos diversos contextos em que as camisolas não eram, afinal, simples camisolas. E as divertidas t-shirts, as confortáveis sweat-shirts, os bonitos pullovers, as frívolas sweaters e os jovens tops foram-se insinuando na cabeça dos falantes. Mas, como eram cheias de si, estas palavras fizeram uma exigência: que a sua forma e graça original fossem sempre mantidas, de modo que não admitiam mudanças ortográficas nem deslizes de pronúncia.
E as camisolas, que antes nos tinham servido tão bem, em todas as ocasiões, foram preteridas em favor dessas novatas impertinentes, que agora se julgam as melhores do mundo.

É uma história comum, infelizmente...

27 julho 2009

O absurdo de suicidar outrem


Segundo o
Dicionário on-line da Língua Portuguesa, o verbo suicidar-se é sempre pronominal (não existe "suicidar") e tem as seguintes acepções:

1. Matar-se voluntariamente.
2. Fig. Arruinar-se, ser causa da própria ruína.

Outros dicionários acrescentam que "sui" é latim e significa "de si", pelo que o suicida é aquele que provoca a sua própria morte, ao contrário do homicida (e a esta luz a pronominalização até parece redundante, já que quem se suicida o faz necessária e exclusivamente a si próprio).
Ora, isto não será surpresa para ninguém... excepto talvez para os responsáveis pela definição do mesmo verbo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, para quem o verbo suicidar (de suicida + -ar) tem um terceiro sentido, que é «destruir completamente», podendo por isso ser sinónimo de «ANIQUILAR, MATAR, TRAIR». E para que não restem dúvidas, lá está o exemplo, a frase que citei na entrada anterior: «O tradutor suicidou o texto».

Os comentários a esta frase na semana passada não foram muitos, mas eu não tenho dúvidas de que, pelo menos ao falante comum, aquele emprego do verbo suicidar se afigura no mínimo estranho. E como não se trata de uma acepção de um domínio técnico ou científico, nem encontro outro dicionário que corrobore aquela informação, começo a pensar que a pessoa que a escreveu se encaixa num destes perfis:

a) abusador de drogas
b) criativo compulsivo
c) abusador de drogas e criativo compulsivo

Posso estar enganada, mas... quem é que me desengana?!


23 julho 2009

Suicídio homicida

Hoje apresento-vos esta frase:

«O tradutor suicidou o texto.»


Gostaria que nos dessem a vossa opinião sobre o emprego que nela se faz do verbo suicidar. Estará correcto? Será usual? A mim soa-me muito mal! Depois vos direi onde a encontrei...

21 julho 2009

A suspensão do suspense....


Desde criança que sempre ouvi dizer suspense com um u assobiado afectadamente, a atirar para o ditongo - [ju] -, um s bem sopradinho por entre os dentes e a letra e transformada em "ã", para tornar bem claro que era uma palavra francesa.
Há muitos anos, contudo, também ouvi alguém dizer (quem teria sido essa alma iluminada?) que andava tudo enganado, porque a palavra suspense era de origem inglesa e, como tal, a pronúncia afrancesada não fazia qualquer sentido e deveria ser prontamente substituida, claro está, por um sotaque muito British, em que o u afinal se tornava um "a".

Os falantes de português pareceram-me então divididos em dois grupos: o dos que faziam uma boquinha pequena para sussurrar o "siuspanse" franciú e o dos que a abriam corajosamente para vocalizar um "saspenssss" à bife. E era preciso decidir qual o lado a escolher, para poder usar aquele estrangeirismo. Porque, tenho de admitir, havia ocasiões em que me parecia que ele era necessário, por mais que me esforçasse por substituí-lo por palavras mais vernáculas, como "suspensão" ou "expectativa-angustiante-mas-que-ao-mesmo-tempo-dá-um-certo-gozo-relativamente-ao-desenrolar-dos-acontecimentos-sobretudo-nas-narrativas-literárias,-televisivas-dramáticas-ou-cinematográficas".

Um dia, resolvi consultar o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado e verifiquei, sem grande surpresa, que "suspense" não constava do rol de palavras sobre as quais se forneciam preciosos dados relativos à sua introdução na nossa língua. Mas o Houaiss confirma que se trata de um empréstimo do inglês, que por sua vez foi importado do francês, que por sua vez deriva, claro está, do latim.
Contudo, a origem não é o que mais importa, no fim de contas. Se estivéssemos à espera de saber de que língua vêm todos os estrangeirismos que utilizamos para os podermos pronunciar correctamente, teríamos de suspender o discurso a todo o momento para consultar fontes eruditas, por exemplo antes de dizer pijama, iate ou iogurte.
E o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea aí está para demonstrar que a contenda entre os sotaques francês e inglês para pronunciar "suspense" não se resolve por via erudita: o que conta é a forma como se convencionou dizer a palavra entre nós, ou seja, a pronúncia que nele se recomenda é a que foi consagrada pelo uso e que (lamentavelmente ou não, depende do ponto de vista), acaba por não ser fiel a nenhuma das duas: "suspanse".

Para mim, o "suspanse" perdeu a graça. Não é carne nem peixe, não aquece nem arrefece. Com a desvantagem de criar uma relação imprevisível entre o "a" sonoro e o "e" escrito, que dá azo a erros ortográficos.
Mas pelo menos já podemos pronunciar todos a palavra da mesma maneira, sem receio de que alguém nos venha dizer que estamos enganados. Valham-nos os dicionários com chave fonética!

17 julho 2009

tratar-se-á ou tratar-se-há?!

Numa mensagem em que nos faz a sugestão de abordarmos o tema de hoje, um leitor escreve o seguinte:

«tratar-se-há de uma dúvida tola ou ‘tratar-se-á’ de uma dúvida aceitável?»

Antes de mais, devo dizer que, para mim, e no que toca à língua portuguesa, nenhuma dúvida é simplesmente tola, todas são aceitáveis. Isto porque questionarmo-nos sobre a correcção ou incorrecção de uma forma ou estrutura linguística é um sinal de interesse e inteligência que nunca deve ser desprezado. Quem nos dera a nós, professores, que todos os alunos manifestassem as suas dúvidas, por mais tolas que as achassem!
Por outro lado, quem somos nós para avaliar o grau de relevância ou legitimidade de uma dúvida?... Quantas vezes as perguntas que fazemos sobre o que é certo ou errado parecem tolas e depois se revelam muitíssimo pertinentes? Esta até pode ser um bom exemplo.
Poderíamos dizer logo, sem pensar muito: «que disparate, "tratar-se-há"! Então aquele "á" não se vê logo que é a terminação do futuro do indicativo? Só lá está o pronome se no meio, mais nada! Tratará passa a tratar-se-á e pronto"!»
Mas também podemos ter calma e pensar um pouco. Podemos partir do princípio de que há sempre mais qualquer coisa por trás do óbvio e dar o benefício da dúvida à própria dúvida. Nesse sentido, este leitor até nos ajuda, pois escreveu o seguinte: «uns colegas falaram-me de umas contracções do ‘h’ e tal… que fiquei sem saber :)»
Pois é, caro leitor! As formas verbais que hoje identificamos como "futuro do indicativo" e "condicional" são na verdade o resultado da contracção dos verbos com o auxiliar haver, auxiliar este que identificamos sem dificuldade em construções como "hei-de encontrar", que é na verdade o mesmo que encontrarei (encontrar + hei). De igual modo, "há-de tratar" deu tratar + há, ou seja, tratará, com a supressão do h. Daí termos, com o pronome, tratar-se-á. Com o tempo, portanto, as duas formas verbais (verbo principal e auxiliar HAVER) aglutinaram-se, sendo que em muitos casos uma delas ficou reduzida, ou até ambas. É o caso de fazer + havia, que deu origem a faria = fa(ze)r(hav)ia.

Conclui-se, então, que tem muita lógica a grafia "tratar-se-há", embora seja incorrecta.