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18 abril 2023

Proposital ou propositado? E o verbo "reticenciar" existe?

Já vos aconteceu isto?

Por vezes, ouço usar (ou leio) certas palavras e sou levada a desconfiar da sua existência nos dicionários. Parece-me que a pessoa que a empregou tomou a liberdade de a inventar, por ser a primeira vez que deparo com esse vocábulo. Creio que a estranheza que me provoca advém do facto, contraditório, de essa palavra estar bem formada e, ao mesmo tempo, ter um aspeto ou uma sonoridade algo bizarra. Hoje aconteceu-me isso, ao deparar com o termo "proposital" no trabalho de uma aluna. Estive quase para o corrigir, propondo antes propositado. Porém, como essa aluna é brasileira, decidi verificar primeiro se aquele (para mim insólito) adjetivo, formado como "intencional", estaria dicionarizado. Já aprendi que o português do Brasil é suficientemente diferente do português europeu para ser sempre recomendável fazer essa verificação. E proposital é, realmente, um adjetivo legítimo no português brasileiro. Aquele teria sido o único senão num texto que, de resto, estava perfeito. Afinal, não tinha nem esse senão. Nota 20 para o trabalho!

Prossegui com as minhas tarefas e, daí a pouco, estava a ouvir a gravação de uma entrevista que tinha feito a um contador de histórias. A dado momento, ele referiu-se à forma particular de narrar de outro contador, explicando que ele "reticenciava" as frases. Surgiu-me, portanto, a dúvida: ao transcrever aquela intervenção, eu deveria usar aspas, por se tratar de um neologismo, ou grafar a palavra normalmente? Abri novamente a página da Infopédia e confirmei: o verbo "reticenciar" também está dicionarizado!

Gosto que isto me aconteça. É uma surpresa agradável, que me permite ampliar o conhecimento lexical, sendo também um alerta para a importância de dar aos outros, sejam quem forem, o benefício da dúvida.





16 fevereiro 2015

O que é um "catrapázio"?



   Curiosamente... NADA!

   Confesso que fiquei surpreendida, ao verificar isso mesmo, nos dicionários que consultei. Porque já muitas vezes ouvi dizer esta palavra e presumi que o significado fosse "cartaz muito grande". Admito que soava a corruptela, mas são tantas as corruptelas que acabam por consagrar-se pelo uso, que me pareceu o caso provável desta.
   Afinal, não existe mesmo. O que de mais próximo se pode utilizar é cartapácio, vocábulo erudito, que designa um livro grande, antigo, um alfarrábio. Ora, não é nada disto que pretende quem gosta de falar de "catrapázios" escarrapachados nas paredes e nos muros, como aquele a que eu queria referir-me hoje. Acabei por dizer «cartaz gigante», que não tem metade da graça... E suspeito que muito boa gente nem teria desconfiado do mau português, caso eu tivesse optado por empregar aquela sugestiva combinação de sons, afinal "proibida".
   Talvez possamos começar a usar "catrapázio" com tanta frequência, que a palavra seja finalmente reconhecida na língua portuguesa, o que me dizem?!


21 junho 2012

Arguição ou arguência?



O que diriam, referindo-se ao "acto de arguir": a arguição da tese ou a arguência da tese?















Parabéns aos que escolheram arguição!
Desenganem-se todos os que, como eu, pensavam que se trata de sinónimos...
A palavra arguência não está atestada em português. Soa bem, mas não é necessária, dado que temos o substantivo arguição, proveniente do latim arguitione, cujo sentido original se prende com a ideia de criticar ou censurar - aquilo que faz o arguente.
"Arguência" poderia designar algo como "qualidade de arguente", como a paciência é a qualidade de paciente, ou a decência é a qualidade de decente. Seria um termo bem formado e aceitável, mas não se sentiu ainda necessidade de o consagrar.

26 fevereiro 2009

Resserção, ressarço, ressarcimento... afinal, como é?!

O verbo ressarcir (que significa compensar, indemnizar) terá, ou não, um nome correspondente?

Que esse nome faz falta, não há dúvida. Em frases como aquela que vos forneci no desafio anterior, aparece pelo menos uma tentativa de aproximação, no sentido de referir o "acto ou efeito de ressarcir". Mas é usado o termo "resserção", que não só não existe em português, como não está bem formado, do ponto de vista morfológico, pois a vogal que se segue à consoante "s" deveria ser um "a", como acontece na forma de base, e não um "e".
Posto isto, e tendo em conta as sugestões de correcção dadas por alguns leitores nos comentários, temos as seguintes hipóteses: ressarço e ressarcimento. Ambas estão - aparentemente - bem formadas: ressarço é uma derivação regressiva, como empenho, de empenhar, uso, de usar, ou apelo, de apelar. Ressarcimento é derivada por sufixação, pois acrescentou-se o sufixo nominal "-mento" ao radical verbal "ressarc(i)". Mas será que existem nos dicionários de língua portuguesa?
Ressarcimento sim, é mesmo o que pretendemos: acto ou efeito de ressarcir, o mesmo que compensar ou indemnizar.
Ressarço, porém, não existe (enquanto nome)... e por que motivo? Tradicionalmente, a forma verbal "ressarço", da qual adviria o substantivo idêntico, não era considerada legítima. É que o verbo ressarcir tem sido considerado defectivo, só se podendo conjugar nos tempos e pessoas em que se mantém o "i" após o radical (ressarcimos, ressarci, ressarcíssemos...). Ora, esse i não está presente em "ressarço".
Contudo (e lá vem a controvérsia, a ambivalência, a confusão!), há dicionários e bases de dados que contemplam todas as flexões do verbo ressarcir, incluindo as tais "proibidas" - basta ir à Mordebe. Ao que parece, portanto, o nome "ressarço" tem já consagrada a flexão que lhe daria origem. Ainda assim, não o encontrei atestado enquanto substantivo. Será apenas uma questão de tempo?

21 novembro 2008

Material de escritório quietinho...


Esta loja vende produtos e presta serviços na área gráfica, mas, a avaliar pela montra, não presta lá grande serviço à língua portuguesa...
Alguém sabe o que são "estacionários"?!
Parece que é material de escritório, ou de papelaria: canetas, blocos, borrachas e afins. E porquê "estacionários", que é o mesmo que dizer "parados" ou "imóveis"?
Trata-se de uma leviana tradução do nome inglês stationery - com e, pois não é o mesmo que stationary...
Já viram coisa mais absurda?


29 setembro 2008

"Prequela"???

Um destes dias perguntaram-me se conhecia a palavra "prequela", supostamente o oposto da sequela.
Admiti a minha ignorância, fazendo uma nota mental para verificar se os dicionários que consulto já a registavam. Mas antes de ir ao dicionário, lembrei-me de abrir o Ciberdúvidas, esse valiosíssimo manancial de perguntas e respostas sobre a língua portuguesa.
Verifiquei, com agrado, que os seus consultores repudiavam a existência de tal termo em português, chamando-lhe «mamarracho» e condenando a sua importação do inglês.

Percebo que, para quem usa jargão televisivo por motivos profissionais, a palavra "prequela" seja prática, sobretudo para traduzir rapidamente esse neologismo inglês, prequel, tão em voga actualmente a propósito dos filmes cujo enredo consiste numa analepse relativamente à história contada em filmes anteriores.

Mas concordo com o Ciberdúvidas: tem de haver limites para a ignorância e a preguiça que insistem em desvirtuar a nossa língua!