12 dezembro 2010

Conhecem o verbo "dippar"?

 
 
Mais um bom exemplo do portinglês que hoje se cultiva...

03 dezembro 2010

Registos ou níveis de língua

  Os registos de língua ou variações diafásicas resultam da adequação do uso da língua a cada situação particular de comunicação. Assim, um mesmo falante pode adoptar diferentes registos no mesmo dia, consoante o grau de familiaridade que tem com os interlocutores, o tipo de situação em que fala (ou escreve) e até a mensagem que pretende transmitir. Um exemplo: enquanto aos amigos podemos dizer bué, aos professores já diremos muito e num trabalho escrito ainda poderemos optar por deveras ou extremamente. Podemos, então, falar de graus ou níveis de língua: do mais baixo (popular) para o mais elevado (literário). Porém, a mudança de registo não se verifica apenas no léxico. Também na construção das frases e até na pronúncia das palavras há diferenças, de uns registos para os outros.


Registo popular:        Este registo está associado a grupos sócio-culturais menos letrados, ou  pouco escolarizados, e pode, por isso, ser considerado uma variante diastrática (normalmente, as pessoas que o utilizam não conseguem mudar para outro registo, quando a situação de comunicação assim o exigiria). É caracterizado por incorrecções ("há-des/há-dem", "fiz-os", "pus-os", "dêiamos", "póssamos") e por um conjunto de termos pitorescos, caracteristicamente usados pelas camadas ditas “menos cultas” da população (o "tiosque" onde se vendem jornais", o "castrol" no sangue, as "parteleiras", os ovos "móis"). É sobretudo ouvido, mais do que lido, mas pode ser reproduzido por escritores de obras literárias que procuram caracterizar as personagens por meio da linguagem que estas utilizam no discurso directo.

Registo familiar:             É utilizado em situações de informalidade, em família ou entre amigos (os “migos”). Emprega um vocabulário simples, pouco variado, e construções frásicas igualmente simplificadas (“tudo bem?”), deixando transparecer emoções, afectividade (“'tá igualzinho!”, "obrigadinho").  Apresenta expressões idiomáticas (“ele não me passou cartão”, "estou-me nas tintas") e abreviaturas que simplifiquem a pronúncia e facilitem a escrita, como ‘'tive" e "prà" em vez de “estive” e “para a”, e tende a ser escrito apenas em mensagens informais (e-mails, cartas, SMS).

Registo corrente:         Corresponde ao tipo de discurso utilizado nas situações do quotidiano, sempre que comunicamos com alguém que não conhecemos bem. É caracterizado pelo emprego de palavras, expressões e construções gramaticais simples e vulgares (chato e ok estarão a transitar do familiar para o corrente), formas verbais de substituição (“vou-te levar” em vez de levar-te-ei, “gostava” em vez de gostaria), sem a preocupação de variar o léxico ou embelezar a expressão. Pode ser considerado corrente o discurso dos professores nas aulas, ou o dos jornalistas na televisão, embora alguns usem já um registo mais cuidado.

Registo cuidado:          É o que escolhemos em ocasiões formais ou solenes (comunicações, discursos políticos, conferências científicas, etc.), quando pretendemos causar a melhor impressão possível e há uma grande distância social a separar-nos dos nossos interlocutores. Este registo caracteriza-se por um vocabulário mais erudito e variado (alternamos entre penso, considero, julgo, parece-me, estou em crer), pelo cuidado na aplicação dos tempos e modos verbais apropriados (peço que façam em vez de “peço para fazerem”, dar-lhes-ia em vez de “dava-lhes”) e por uma construção gramatical complexa, denunciando a sua preparação escrita, mesmo quando é transmitido oralmente.

Registo literário:          É linguagem escrita por excelência, exprimindo-se através dos idiolectos particulares de romancistas e poetas, que procuram surpreender os leitores por meio de termos raros ou desusados, de construções sintácticas invulgares (que porventura seriam consideradas incorrectas, se formuladas noutro registo), de flexões impossíveis e de sentidos inesperados, marcadamente conotativos, cuja carga simbólica e metafórica depende da capacidade de interpretação e da sensibilidade de cada um (pode inclusivamente dificultar o entendimento da mensagem). Por vezes, o discurso publicitário recorre a este tipo de registo para captar a atenção do público, ou para o surpreender.

16 novembro 2010

"Cristovão"? Não será "Cristo vai"?!



As palavras graves (ou seja, cuja vogal tónica está na penúltima sílaba) que terminam em <ão> ou <ã>, incluindo os respectivos plurais, escrevem-se sempre com acento gráfico. Caso contrário, teriam de ser pronunciadas como agudas, ou seja, com a tónica na última sílaba.
Assim, escreva-se Cristóvão, órfão, órfã, órgão, orégãos, acórdão, sótão, etc. - porque a sílaba pronunciada com mais força não é a mesma de palavras como então, coração, sensação, algodão e violão - essas, sim, sem acento gráfico, porque a vogal tónica já tem o til e não há qualquer margem para dúvidas.

E, já agora, quando há dúvidas sobre a grafia da terminação de certas formas verbais, como estão, entram, serão, andam, entre outras (que muito boa gente já escreve mal: "estam", "entrão" e por aí fora), o truque é precisamente verificar qual a vogal que se pronuncia com mais intensidade: se for a penúltima, a forma verbal escreve-se com (entram, andam, contam, deram); se for a última, então não há que enganar: escreve-se com <ão> no fim: estão, serão, dão, cantarão.

05 novembro 2010

"Pode haver mais casos" ou "podem haver mais casos"?


Qual a forma mais correcta para preencher o espaço na frase que se segue: "pode haver" ou "podem haver"?


Foram já confirmadas duas situações, mas _______________ mais casos, que provavelmente serão detectados até ao final da semana.


26 outubro 2010

Escuteiro e escoteiro

Eis uma subtileza ortográfica que pode causar alguma hesitação e, talvez, perplexidade, porque o mais comum é pensar-se que apenas uma das formas, entre escuteiro e escoteiro, está correcta.

No entanto, ambas existem em português. Os "seguidores" de Baden-Powel, o general inglês que fundou o escutismo, são os escuteiros: indivíduos que pertencem a uma associação cujo objectivo é o «aperfeiçoamento moral, intelectual e físico das crianças e dos jovens, pelo desenvolvimento do seu espírito cívico» - citando o Dicionário de Língua Portuguesa da Infopédia.
 Mas existe também o escoteiro, que é «aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote nas estalagens», de acordo com o mesmo dicionário. (E o que é isso de "escote"? - podemos perguntar-nos... já lá vamos!). Mais: também há escotismo com o. Trata-se de um  «sistema filosófico e doutrina de João Duns Escoto, filósofo irlandês (1274-1308), seguida pelos franciscanos» (a fonte é a mesma).
Quanto ao escote, é uma «quota individual para uma despesa comum» e tem origem no francês antigo escot (que significava «contribuição em dinheiro»), ainda de acordo com a Infopédia.

Bom, e se não for para dissipar dúvidas, isto serve para demonstrar como as palavras nos dicionários são como as batatas fritas: cada uma que se "prova" leva-nos a procurar mais e mais...!

18 outubro 2010

"rails" para quê?

Será mesmo necessário empregar o estrangeirismo rails a torto e a direito, ao ponto de ele já aparecer nos dicionários?
Num livro para crianças, fará sentido fazê-las tropeçar na pronúncia de uma palavra intrusa no meio de um texto em português?
O que é que falta aos trilhos e aos carris, que sempre nos serviram tão bem?

06 outubro 2010

Translineando...


A translineação obedece a certas regras, implicando que não se pode truncar palavras em qualquer parte, quando a linha não tem espaço para as escrever inteiras.
Regra geral, devemos respeitar, na translineação, a divisão silábica, partindo, por exemplo, a palavra complicação de acordo com as seguintes possibilidades: com-plicação; compli-cação; complica-ção.
Porém, no caso de haver no meio da palavra duas consoantes iguais, estas devem manter-se juntas - é aqui que a translineação apresenta diferenças relativamente à divisão silábica. Por exemplo, a palavra autocarro, que tem as sílabas au-to-ca-rro, não deve ser translineada desta forma: autoca-rro; mas antes assim: autocar-ro. Isto para evitar que, no início de uma linha, encontremos uma palavra (ainda que partida) iniciada por duas consoantes iguais, o que se afigura como algo muito estranho. Por outro lado, as vogais que consituam, por si só, uma sílaba também não devem ser deixadas sozinhas no começo de uma linha. Logo, devemos dividir Maria apenas de uma maneira: inserindo a quebra entre a primeira e a segunda sílaba, para evitar que a terceira, o -a-, fique isolada na linha seguinte.

28 setembro 2010

Oralidade e correcção linguística


Sabemos, é claro, que o registo oral, sobretudo o informal, permite certos desvios à norma e algumas construções que na escrita seriam consideradas incorrectas. Ainda assim, há limites para aquilo que se pode considerar aceitável.
Imaginem, então, que alguém enuncia esta frase, a propósito do que outra pessoa acaba de dizer:

«Há dois anos atrás, eu subscrevia por baixo do que você está a dizer.»

A minha pergunta é: esta frase é aceitável, do ponto de vista da correcção linguística? Se não, porquê?

23 setembro 2010

Atentamente e Atenciosamente

A fórmula de despedida de ofícios e cartas formais inclui, com frequência, um destes dois advérbios. Porém, há quem condene atenciosamente, alegando que é uma espécie de "deturpação" de atentamente, há quem diga que é atentamente que se deve utilizar em Portugal, ao passo que atenciosamente se usa no Brasil, há quem defenda que atenciosamente é para empregar quando conhecemos o destinatário e atentamente quando o destinatário da carta é alguém desconhecido, e finalmente há quem fique na dúvida e não saiba por qual dos dois deve optar.
O Ciberdúvidas esclarece que ambos se podem usar em Portugal, pois os seus significados são bastante próximos. O Curso de Redacção de J. Esteves Rei (2.º volume, edição de 2000, da Porto Editora, página 160) indica que as fórmulas de cartas comerciais tanto podem incluir atenciosamente, como, «para mais delicadeza», atentamente.
A nossa opinião é a de que, se o falante está consciente do significado destas palavras (atenciosamente: "com cortesia, com deferência"; atentamente: "de forma atenta", "com atenção"), deve fazer uso de alguma liberdade para poder escrever de forma minimamente pessoal, dentro do espartilho que são as regras para a redacção de cartas formais. A reacção do destinatário será sempre, em certa medida, imprevisível: a menos que lhe perguntemos antes, não temos maneira de saber se será uma das pessoas que acreditam apenas em atentamente, ou uma das que preferem atenciosamente...

16 setembro 2010

Coisa, coiso e coisar


O verbo coisar, pelo menos em Portugal, é dos mais úteis que há. E a sua utilidade prende-se, obviamente, com a fantástica versatilidade do substantivo coisa, que por ser tão versátil se usa também no masculino, pois há coisas e coisos, dependendo, claro, do que se pretende designar, em cada caso. Quando no discurso (convém que seja oral) optamos por fazer uso da coisa, a indeterminação daquilo que se pretende designar pode estar relacionada com a intenção de não explicitar o que é, ou quem é («tenho uma coisa para ti»), mas sente-se sempre a enorme vantagem que essa mesma indeterminação representa, dado que as coisas nem sempre são fáceis de definir, sobretudo quando temos de nos exprimir depressa.

No nosso quotidiano linguístico, uma coisa pode ser um objecto, uma ideia, um sentimento, uma criatura animal, vegetal ou mineral. Pode designar tanto uma ferramenta («onde é que está aquela coisa para abrir tampas de frascos?») como uma pessoa de cujo nome não nos lembramos («Hoje vi a coisa... a...a Simone!»), uma dor («sinto uma coisa esquisita aqui»), uma atitude («foi uma coisa parva o que fizeste»), um assunto («falemos de coisas sérias»), ou mesmo uma acção que cabe ao ouvinte decifrar, de acordo com o contexto, a expressão facial de quem utiliza a expressão, o seu tom de voz e sabe-se lá que outros sinais («e depois eles... coiso!»).

Ora, era de prever que, com tanta coisa que a coisa pode significar, o verbo coisar havia de revelar-se útil em muitas situações. E eis que surgiu na nossa língua!
Se vem ou não no dicionário que consultamos, pouco importa. No da Academia das Ciências de Lisboa, como é de esperar, está contemplado. É para usar em registo popular e significa, antes de mais, «fazer reflexões», o mesmo que matutar, pensar. Segundo a mesma fonte, é no Brasil que coisar tem o sentido de «preparar ou fazer alguma coisa». E há coisas surpreendentes, como não aparecer em determinado dicionário de língua portuguesa, mas constar do dicionário de português-inglês da mesma editora, para que os estrangeiros saibam o que de facto significa esse verbo tão expressivo  que não é exclusivo do nosso idioma (coisar = to do em inglês; tun em alemão; cosare em italiano), e cujo significado também pode ser «ter relações sexuais», voltando ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea.
E agora, se não se importam, vou coisar esta coisa, porque tenho de coisar um coiso antes que fique coisado!




10 grandes mitos da Língua Portuguesa

Mito 1 – Um dia de sol é um dia “solarengo”.
Verdade – Um dia de sol é um dia soalheiro.

Mito 2 – Cada um dos caracteres tipográficos designa-se “caracter”.
Verdade – Cada um dos caracteres tipográficos designa-se carácter.

Mito 3 – A palavra “açoreano” escreve-se com E, porque deriva de Açores.
Verdade – A palavra açoriano escreve-se com I, porque à base açor se associou o sufixo -iano.

Mito 4 – A presença de álcool no sangue designa-se “alcoolémia”.
Verdade – A presença de álcool no sangue designa-se alcoolemia.

Mito 5 – Uma assinatura abreviada designa-se “rúbrica”.
Verdade – Uma assinatura abreviada designa-se rubrica.

Mito 6 – Uma grande confusão é “uma grande salganhada!”
Verdade – Uma grande confusão é “uma grande salgalhada!”

Mito 7 – O plural de DVD é “DVD’s”.
Verdade – O plural de DVD é DVD. As siglas não têm plural.

Mito 8 – Os meios de comunicação social designam-se os “m[i]dia”.
Verdade – Os meios de comunicação social designam-se os m[é]dia. Trata-se de uma palavra latina.

Mito 9 – A palavra cessão designa o acto de cessar, acabar.
Verdade – A palavra cessão designa o acto de ceder. O acto de cessar designa-se cessação.

Mito 10 – A uma pessoa indesejável (numa família, por exemplo) designamos “ovelha ranhosa”.
Verdade – A uma pessoa indesejável (numa família, por exemplo) designamos ovelha ronhosa. O nome ronha, que designa uma doença, deu origem ao adjectivo ronhoso, cujo sentido literal é: «que tem ronha». Este sentido literal, por sua vez, deu origem ao sentido figurado «pessoa indesejável».

30 agosto 2010

Qual o plural de acordo? Ac[ô]rdos ou Ac[ó]rdos?

O plural de acordo é ac[ô]rdos – com ô fechado.
E porquê?
Porque esta é uma palavra formada por derivação regressiva a partir do verbo acordar, cuja vogal o se pronuncia /u/.
Quando se formou a palavra acordo (já no século XIV), o som da vogal o passou a /ô/, por a vogal passar a pertencer à sílaba tónica. No plural, naturalmente, a vogal mantém-se fechada (/ô/): ac[ô]rdos.
A regra mantém-se, por conseguinte, para outras palavras: a vogal o da sílaba tónica das palavras terminadas em o formadas por derivação regressiva de outras cujo radical tinha esse som fechado pronuncia-se /ô/ e, como regra geral, mantém essa pronúncia no plural: adorno, adornos (de adornar), consolo, consolos (de consolar), encosto, encostos (de encostar), acordo, acordos (de acordar)!

05 agosto 2010

Estrangeirismos, para que vos queremos?


- O que é "pazal", filha?
- Puzzle, mãe! - Emendou ela, como se a mãe estivesse a ver mal.
- Aaaah! - Fez a mãe, entre desgostosa e maravilhada. Sentia raiva dos estrangeirismos, que atrapalhavam os primeiros esforços ortográficos da criança... já bem bastava a não correspondência entre tantas letras e tantos sons!
- Sabes, filha, - explicou - é que puzzle é uma palavra inglesa, não se escreve como... como se escreveria em português. Olha, como tu a escreveste!

A menina olhou a mãe com incredulidade e respondeu com determinação:
- Então, mas nós falamos português e estamos em Portugal, por isso devia escrever-se assim!

28 julho 2010

Desafio morfossintáctico

Algumas das frases que se seguem não respeitam as regras gramaticais do português. Quais são? E que incorrecções apresentam?

a) Devem haver muitas regiões do globo que se transformaram em zonas desertas por causa do “El Niño”.

b) O facto dos encarregados de educação não se queixarem não quer dizer que estejam satisfeitos.

c) Ainda é desconhecido o motivo porque o director abdicou recentemente das suas funções.

d) Nalguns países, as crianças delinquentes são perseguidas e mortas, como se de animais irracionais se tratasse.

e) Xenofobia designa o sentimento de medo ou repulsa por tudo o que é estranho ou estrangeiro.

f) O Primeiro-Ministro absteu-se de comentar a notícia publicada no Expresso sobre a compra dos submarinos.

g) Como via mal, a directora pediu-me que lê-se a carta que lhe fora enviada pela Associação de Pais.

h) Senão mudar-mos rapidamente os nossos hábitos de vida, os recursos naturais extinguir-se-ão em menos de um século.

i) O incêndio ocorreu derivado a uma fuga de combustível num camião que estava estacionado.

j) Os jornalistas têm de se convencer de que têm uma enorme responsabilidade como influenciadores da opinião pública.

21 junho 2010

Afinal, o que significa "drástico"?


Há certas palavras que nos pregam verdadeiras partidas. Quando pensamos que sabemos perfeitamente o que significam, porque as ouvimos e usamos regularmente, há muito tempo, podemos ter uma grande surpresa, se apenas consultarmos um dicionário.

Foi o que me acabou de acontecer, quando procurei no Priberam* o sentido do adjectivo "drástico", que todos certamente conhecem. Quando falamos, por exemplo, numa solução drástica para determinado problema, decerto não teremos dúvidas de que o sentido do adjectivo, nesse caso, é semelhante ao de "radical", ou "de último recurso", porque talvez demasiado "violenta", ou "excessiva", o que poderá envolver aspectos negativos, indesejáveis, mas que foram requeridos pelo momento ou pelo contexto em que se aplicou a tal solução.
Enfim, tudo isto para dizer que resolvi confirmar o significado do adjectivo e eis que, quando abro a página que lhe é dedicada, me confronto com esta única definição:
 «Diz-se dos purgantes muito enérgicos».

Pensei que não estava a ver bem (talvez fosse da vista cansada, pelas muitas horas à frente do monitor), ou que havia ali um engano qualquer.Por isso, abri a Infopédia. E lá, para meu descanso, estava o tal sentido que eu pensava ser o mais comum («violento, radical»), mas apenas em segundo lugar, porque o mais imediato significado da palavra (o primeiro, o mais antigo) é mesmo «que tem propriedades enérgicas», associado ao tal medicamento purgante - que é o sentido de drástico enquanto substantivo (e que vem do grego).
Foi uma pesquisa deveras interessante e educativa. Porém, parece-me que à definição do Priberam falta acrescentar o significado do adjectivo que é mais frequentemente utilizado hoje em dia, na linguagem corrente: «radical».


* Alguns dias depois de escrito e publicado este texto, o dicionário citado foi actualizado e passou a incluir mais acepções da palavra drástico.


04 junho 2010

Homófonos

Apreçar - avaliar ou estimar o preço de. Exemplo: Há concursos televisivos em que os concorrrentes têm de apreçar certos produtos à venda no mercado, como electrodomésticos.
Apressar - dar pressa a. Exemplo: Tive de apressar o meu amigo, para não perdermos o comboio das cinco.

Ceara - Pretérito Mais-Que-Perfeito do verbo cear, equivalente à forma composta "tinha ceado". Exemplo: Naquela noite, Jacinto ceara mais tarde do que o habitual.
Seara - extensão de cereal cultivado no campo. Exemplo: As searas de trigo brilhavam ao sol.

Caçar - perseguir alguém ou alguma coisa com a intenção de o/a apanhar e/ou matar. Exemplo: Caçar animais em risco de extinção é uma falta de respeito pela natureza.
Cassar - anular ou apreender uma licença. Exemplo: A Polícia pode cassar a tua carta de condução, se fores apanhado a cometer uma infracção.

Pontoar - marcar ou coser com pontos. Exemplo: Vou usar linha amarela para pontoar a gola da blusa.
Pontuar - colocar sinais de pontuação em; marcar pontos (numa competição). Exemplo: Fizemos um exercício em que era necessário pontuar um breve texto.

Sediar - estabelecer sede. Exemplo: A empresa, sediada em Lisboa, tem sucursais por todo o país.
Sedear - limpar (normalmente peças de ourivesaria) com escova de sedas. Exemplo: Depois de arrumares esses colares, podes sedear os anéis que estão nesta caixa.



Fonte: Infopédia

27 maio 2010

Qual a diferença...


entre:

apreçar e apressar

ceara e seara

caçar e cassar

pontoar e pontuar

sediar e sedear

?

15 maio 2010

Jornada da Leitura

Na próxima terça-feira, dia 18 de Maio, quem quiser assistir à primeira Jornada da Leitura no ISEC só tem de se dirigir às nossas instalações no Lumiar e procurar o edifício D, que fica ao fundo do parque de estacionamento.
Haverá comunicações de escritores e professores, oficinas e exposições. Apareçam!

11 maio 2010

"Deixá-los falá-los, que eles calalão-se hão-se!!"


Outra das dificuldades sentidas pelos meus alunos - relacionada com a que expus no texto anterior - é a conjugação pronominal.
Percebe-se porquê: na linguagem corrente (que é praticamente o único registo que utilizam, acima do coloquial ou familiar) substituem-se habilmente as formas verbais que dificultam a utilização de pronomes (como o Futuro do Indicativo e o Condicional) por outras, que acabaram por adquirir o mesmo valor semântico - precisamente para evitar o embaraço de hesitar, ou de usar uma combinação errada de verbo-pronome, e até para não cair na cacofonia de certas construções perfeitamente correctas mas muito mal sonantes.
Dou exemplos: dizemos "fazia-te jeito" em vez de "far-te-ia jeito", "tinha-vos dito" em vez de "ter-vos-ia dito" e "vão dizer-vos" em lugar de "dir-vo-lo-ão".

E a progressiva raridade das formas pronominalizadas do Futuro do Indicativo e do Condicional, em que os pronomes são incomodamente "entalados" entre o radical do verbo e a respectiva marca de tempo e pessoa - um verdadeiro dinossauro das línguas latinas - faz com que as gerações mais novas não as reconheçam, não saibam construí-las, nem vejam a sua utilidade.

Porém, hoje, em vez de me lamentar, resolvi deixar aqui alguns exercícios práticos, para quem queira desenferrujar (ou começar a treinar) a sua capacidade para pronominalizar os verbos conjugados.

Reescreva as formas verbais, substituindo os complementos sublinhados por pronomes, conforme o exemplo:
Ex.: Comunicarão o resultado da prova a vocês todos em breve.
       Comunicar-vo-lo-ão

a)     Eles dão os livros à biblioteca.
b)     Fiz as colagens ontem.
c)     A professora quer as respostas a azul.
d)     A minha avó faz a cama ao meu irmão todos os dias.
e)     Comes a sopa tão depressa, que nem a aprecias!
f)      O chefe de mesa aconselhou o prato do dia à minha sogra.
g)     Devolve já as bonecas à tua irmã!
h)     Recomendei um livro aos alunos.
i)      Daria uma guloseima a vocês os dois, se comessem a sopa.
j)      Obrigada por teres trazido os livros.
l)      É melhor deixares a gata sossegada.
m)    Traz lá a salada!

04 maio 2010

O pretérito mais-que-perfeito simples: uma espécie em extinção?

Reparo que os meus alunos têm cada vez mais dificuldades em reconhecer e utilizar as formas dos verbos no pretérito mais-que-perfeito simples, muito provavelmente porque se tem preferido utilizar as formas compostas, ficando as simples reservadas para um registo formal cada vez menos usado, mesmo na escrita.

Parece-me que, hoje, só quem lê textos literários escritos há mais de 50 anos tem a oportunidade de ir assimilando essas flexões verbais, de modo a poder reconhecê-las e usá-las com naturalidade.

A que é que me refiro? Por exemplo, a palavras como dissera e frequentara (formas simples do pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo), vulgarmente conhecidas como "tinha dito" e "tinha frequentado" (formas compostas).
Como resultado da queda em desuso deste tempo verbal na versão simples, alguns dos meus alunos (do ensino superior) têm sérias dificuldades em apresentar-me formas de verbos irregulares, mas frequentes, como dar, fazer e pôr no mais-que-perfeito do indicativo. Mesmo sabendo de antemão qual é a desinência que se usa, -ra, cometem erros de abrir a boca, como "darara", "fazera", e "pora".
Será importante salvar o pretérito mais-que-perfeito do indicativo simples da extinção, promovendo o seu uso e a sua aprendizagem explícita na escola?
Para muitos, provavelmente não. Para mim sim, quanto mais não seja para melhor se poder "decifrar" o que escreveram os nossos escritores de ontem. Ou será que qualquer dia se vai achar natural "traduzir" para o português de hoje os contos de Miguel Torga, por exemplo, para que os adolescentes os possam ler e perceber?

Talvez me digam que não vale a pena ler os contos de Miguel Torga...

25 abril 2010

E as vírgulas?


Tenho reparado que o manual escolar da minha filha, que está no primeiro ano do 1.º Ciclo, traz textos cuja pontuação parece ter sido esquecida, pelo menos em parte.
Confesso que me custa ver orações relativas explicativas, por exemplo, ou orações condicionais, sem quaisquer vírgulas a isolá-las. Chamem-me picuinhas ou retrógrada, mas a mim incomoda-me essa ausência!

19 abril 2010

Sandeu? Santo Deus!

Sabiam que a palavra sandeu, que significa «idiota, palerma, mentecapto» tem origem na exclamação "Santo Deus!", uma invocação de piedade que essa pessoa suscita nas outras?

Esta é daquelas curiosidades sobre a língua que parecem mera brincadeira, mas podem confirmar por exemplo aqui, que é verdade!

12 abril 2010

O que é a língua?


  Quis o acaso que hoje eu lesse, por sugestão do título (que encontrei na base de dados da Biblioteca Nacional), um breve e interessante texto de 1986 sobre o ensino do Português nos liceus. Nele, Luís Mourão faz algumas afirmações propositadamente "escandalosas", que visam agitar as consciências e levar à mudança do que não está bem no ensino da língua e da literatura. Escreve, então, estas linhas, que resolvi partilhar convosco:

   Se a língua é o instrumento primordial do entendimento do mundo e de si próprio, há que fazê-la ser de cada um de nós para que o mundo e nós mesmos nos pertençamos. Eis o que poderia ser a síntese do programa de Português para o unificado. Mas que implicaria isso?
  Por exemplo, esvaziar o programa de Português de quaisquer conteúdos. E na sequência disso, permitir que o professor seja não o legislador ou a representação do Pai, mas a ternura acolhedora e atenta da Mãe. Quer dizer, deixar que cada aluno elabore o seu próprio texto a partir das suas próprias necessidades e problemas, que prolongue os textos que mais directamente lhe dizem respeito. [...] Se o aluno, através do apalavramento dos seus problemas, não vir por si próprio que o «Tio Patinhas» não tem nenhuma resposta que lhe interesse e não sentir necessidade de procurar outros textos, ele nunca largará os quadrinhos e, mesmo quando obrigado, nunca lerá verdadeiramente «Os Lusíadas» ou qualquer outra obra do género.
  Insistir, pois, na escrita, numa espécie de diário que seja a reflexão e a construção de um mundo e de um sujeito. E comunicá-lo, inter-comunicá-lo, ler e prolongar o texto (do) outro. Porque afinal a língua é, radicalmente, isso: o espaço de experiência do mundo e de mim mesmo, de apropriação produtiva de sentido.

Luís Mourão, «Poiética da Língua: (insónias sobre o ensino da língua e da literatura nos liceus)», Separata de Diacrítica, n.º 1, Braga: Centro de Estudos Portugueses da Universidade do Minho, 1986, pp. 201-204.

31 março 2010

Assento-lhe o acento... ou não?!


Ao ler uma história aos meus filhos, deparei com este «avôzinho», que é erro muito frequente.

Nas palavras terminadas em -zinho e -zito, o acento tónico recai sempre na sílaba "ZI". Por esse motivo, não podemos colocar acento gráfico noutras vogais, ainda que estas sejam "quase" tónicas, ou seja, subtónicas (porque são, na verdade, as vogais tónicas das palavras das quais essas derivam).

Assim, não se devem escrever com acento  as palavras avozinho, avozinha, cafezinho, chazinho, pezinho e sozinho, mesmo sabendo que avô, avó, café, chá, pé e levam acento gráfico!

26 março 2010

"Crianças abusadas" ou "vítimas de abuso"?

“Crianças abusadas” é uma expressão incorrecta do ponto de vista sintáctico. E porquê?
Abusado é o particípio passado de um verbo que rege a preposição de (por exemplo: «não abuses da minha paciência!»). O verbo abusar não tem, pois, complemento directo, pelo que não pode ser conjugado na voz passiva.
Tal como não é sintacticamente correcto dizer “ele abusou a criança”, também não é possível transformar essa estrutura activa numa passiva: “a criança foi abusada por ele”.
Assim, para se exprimir a ideia de «maltratar sexualmente, violar», devem utilizar-se expressões como «crianças que sofreram abusos» ou «crianças vítimas de abuso».

21 março 2010

Ensaio sobre o Medo

O novo trabalho de Isilda Paulo, levado ao palco pelo Grupo Artes Cénicas, em cena no Auditório da Associação de Moradores do Bairro 18 de Maio, na Outurela (Carnaxide), é um "ensaio" em duas partes, que nos convida desde logo a tomar uma posição crítica por meio do título, que é como um imperativo intelectual: "ensaio sobre", ou seja, "reflexão para reflectir". Que é como quem diz: "isto é o que eu pensei, e vocês, o que pensam?"
Unindo Brecht a Pirandello, esta peça revela-se bem mais original do que à partida poderia parecer. A vida e o teatro misturam-se num arriscado movimento de fusão, que conduz os actores a um empolgante clímax do qual nem o público sai incólume, pois não há ninguém que não esteja envolvido neste drama surpreendente, em que afinal se encena muito mais do que o medo, embora este seja o leit-motiv explicitamente eleito.
O medo, sabemo-lo, pode ter inúmeras facetas e estar relacionado com tudo o que fazemos e tudo o que somos. Não há ninguém no mundo que nunca tenha sentido medo.
Podemos ter medo de alguém em particular ou de tudo e todos os que nos rodeiam, como na Alemanha de Hitler, podemos ter medo de assumir um erro cometido e de sofrer as consequências, como os amantes adúlteros, podemos ter medo de nós próprios e do que poderemos ser capazes de fazer, em situação de crise. O medo compõe uma paleta de infinitas tonalidades que nos colora permanentemente a alma, desde os tons mais suaves, do medo que os outros sentem da nossa falta de medo, passando pelos tons vivos e fortes do medo da rejeição, de não sermos amados, até aos mais sombrios e carregados, do medo autodestrutivo, aniquilador. Porque o medo é a primeira e mais íntima forma de violência, aquela da qual somos vítimas antes de qualquer outra. Tolhe-nos a racionalidade, vira-nos contra os outros e contra nós próprios. De nada nos serve, pois a inocência torna-se ainda mais frágil, minada pela certeza antecipada da vitimação; e a culpa denuncia-se, enquanto agoniza na incerteza na sua descoberta. O medo é a nossa grande fraqueza, o nosso defeito de fabrico. E a força que possamos reunir contra ele, longe de o poder anular, será a força de o compreender.
Como é hábito, os actores percebem-se fortemente empenhados, este é um trabalho de amadores profissionais. Mas entre todos, destaco Jorge Aurélio, mais uma vez. Provavelmente, por ser o único que conheço (e mal) fora do palco. Ainda assim, tento explicar o que me entusiasma no seu desempenho: a dicção impecável, a postura séria, empenhada, que me faz sorrir, mesmo quando ele é dramático. A sua arrebatada e arrebatadora forma de ser em palco. Sem excessos, sem falhas, sem fraquezas. Sóbrio, elegante, pura e simplesmente genial. Todo o elenco, porém, está de parabéns!

 
Não desperdicem a oportunidade de ver esta peça, por apenas 5 euros, durante este mês, em Carnaxide!

19 março 2010

Qual o plural de "sem-abrigo"?


Hoje, uma aluna fez-me uma pergunta muito interessante. Tinha lido num jornal uma frase do tipo "Sem-abrigo têm nova instituição de apoio" e achou estranho que o verbo estivesse no plural, pois não havia "s" no nome e a ausência de determinante não ajudava a esclarecer a dúvida, pelo contrário.

Quando me perguntou se aquilo fazia sentido, confesso que tive dúvidas. Parecia-me que sim, mas não conseguia encontrar nenhuma regra, na minha cabeça (influenciada pela gramática CUNHA & CINTRA) que justificasse o singular "abrigo", quando se trata de um nome, que supostamente deve ser flexionado no plural. Então, inclinei-me para o plural "sem-abrigos" (tendo em conta a lógica C&C: se um dos termos do composto é palavra invariável e o outro um substantivo, só se flexiona o substantivo), mas aconselhei-a a consultar o Ciberdúvidas, porque ainda me restavam dúvidas.

E ainda bem! Afinal, a expressão "sem-abrigo" pressupõe uma oração de tipo adverbial (o sem-abrigo é aquele "que não tem abrigo") e por isso não se considera necessário referir "abrigos" quando quem não tem onde se abrigar são várias pessoas em vez de uma.  Ao que parece, é  por ter carácter adverbial que esta expressão é invariável, tal como os advérbios. Se por um lado isto pode parecer estranho, porque afinal estamos a falar de um nome e não de um advérbio, acaba por ter lógica, quando comparamos esse nome com uma expressão semelhante. Optar por dizer "os sem-abrigos" será mais ou menos como, em vez de "os de além" dizermos "os de aléns"... não faz sentido!
Infelizmente, muitas gramáticas são omissas quanto a este e outros casos semelhantes, como sem-terra e sem-tecto, que são compostos igualmente uniformes.

E assim se vai aprendendo sempre, e também com os alunos!





15 março 2010

As partidas que os "és" nos pregam


Este, confesso, é dos erros que a mim me apanham desprevenida. Até já publiquei algures neste blogue um texto onde escrevi "vêm" em vez de "vêem", ou vice-versa. Só muito mais tarde corrigi o erro e foi preciso que alguém me alertasse para isso! Assim, não é para condenar ou ridicularizar ninguém que aqui coloco esta fotografia, mas apenas para ilustrar o texto, com uma imagem colorida e elucidativa.
Mas a pronúncia, se dissermos a palavra muito devagar, não engana, ainda que em nenhum dos casos (vêm ou vêem) as letras tenham uma correspondência lógica ou inequívoca com os sons. 
No caso da flexão do verbo vir (e na pronúncia-padrão para o português europeu), temos, nas duas sílabas, o mesmo ditongo nasal: [vαjαj] (por favor, imaginem que há um til por cima dos ditongos, que eu não consigo lá pô-lo!). Já na flexão de ver, temos apenas um ditongo, sendo que a primeira sílaba nem sequer é nasal: [veαj] (agora imaginem o til apenas sobre as duas vogais finais).
Ora, à partida, não faz propriamente sentido que, vêem, de ver, se escreva com dois "és", ao passo que vêm, de vir, se escreva apenas com um, dado que, em ambos os casos, há mais do que um som vocálico em causa. Porém, eu costumo dizer aos meus alunos: quando há dois sons diferentes para o e - [ve]-[αj] - precisamos de duas letras e: vêem. Quando o e tem o mesmo som, [vαj]-[αj], basta uma: vêm.
Será que isto ajuda? Espero que sim!

09 março 2010

Sediada ou sedeada?


   Não é raro ver-se escrita uma frase cujo sujeito é «A empresa X, sediada/sedeada em...», e também não são raras as dúvidas sobre a vogal que vem a seguir ao d, por parte de quem precisa de escrever o verbo em questão e por parte de quem o lê com uma determinada grafia em detrimento de outra.

«Dúvidas? Mas porquê, se o verbo deriva do nome sede, que se escreve com e no fim?» - Perguntarão, talvez, algumas pessoas. Porém, como sabemos, a última vogal de um nome nem sempre se mantém nos respectivos derivados, ou por razões etimológicas, ou porque os sufixos começam frequentemente por vogal, sobrepondo-se esta à vogal final da palavra base. Exemplifiquemos:

pulso > pulseira
cabo-verde > cabo-verdiano
cabeça > cabecear
presença > presenciar

   Ora, como vemos, existem dois sufixos verbais com formas parecidas: -ear e -iar.
   Contudo, achamos que há uma diferença importante entre eles: o primeiro, -ear, exprime uma ideia de movimento, de deslocação, que está presente nos derivados que o contêm: cabecear (abanar a cabeça), pontapear (dar pontapés), folhear (passar as folhas), nortear (encaminhar para norte) - e inclusivamente o verbo sedear, que, com esta grafia, significa «escovar com sedas».
   Já o segundo sufixo, -iar, não transmite essa ideia. Em premiar (dar um prémio), presenciar (estar presente), remediar (dar remédio), chefiar (ser o chefe) e sediar (estabelecer sede) não há qualquer relação com movimento. Assim se justifica, no nosso ponto de vista, que o significado «ter sede em» seja veiculado pelo verbo sediar, com i.





02 março 2010

Eirós ou eiroses?


O que diriam?

a) Naquele restaurante servem umas eiroses deliciosas.

b) Naquele restaurante servem umas eirós deliciosas.

c) Nenhuma das duas anteriores, porque não sabem qual é o restaurante nem provaram essa suposta delícia.

d) Nenhuma das três anteriores, porque não sabem se o plural em questão é eirós ou eiroses.














A resposta correcta (para quem conhecesse o restaurante!) seria a b), pois eiró, como filhó, é a palavra feminina no singular. A forma do plural é eirós, como filhós.



27 fevereiro 2010

Norte ou norte?



NA FRASE «ESSE É UM PRATO MUITO TÍPICO DO NORTE», A PALAVRA NORTE DEVE ESCREVER-SE:


A – COM INICIAL MINÚSCULA (norte)

B – COM INICIAL MAIÚSCULA (Norte)

?
















A resposta correcta é Norte, com letra maiúscula.

Neste contexto, não se trata do ponto cardeal norte, mas sim da região Norte, que é um nome próprio. Do mesmo modo que se fala do Nordeste brasileiro, do Norte e do Sul de Portugal.

Numa frase como «esta casa está virada a norte», já estamos perante o ponto cardeal.

19 fevereiro 2010

O problema de pegar ao colo


... é que, quando queremos substituir o objecto, ser, criança, namorada, cão, ou seja o que for em que se pega por um pronome, é provável que tenhamos dúvidas quanto à correcção da frase que resulta dessa substituição.
Imaginemos que se trata de um bebé. Ao reformular a frase "Tirou o bebé da cama e pegou no bebé ao colo" sem referir pela segunda vez o nome bebé, devemos preferir:

a) Tirou o bebé da cama e pegou-lhe ao colo

b) Tirou o bebé da cama e pegou-o ao colo

c) Tirou o bebé da cama e pegou nele ao colo

?

16 fevereiro 2010

Registo formal em ambiente pré-lúdico


Este fim-de-semana fiz algo que há muitos anos não fazia: joguei à Batalha Naval. E o divertimento que o jogo me proporcionou não se deveu apenas aos momentos animados entre ensinar a minha filha a jogar e perder dois jogos consecutivos. Passou igualmente pela leitura das instruções que vinham na caixa, guardadas religiosamente durante décadas e cujo registo me fez pensar que, hoje em dia, talvez devessem ser "adaptadas" a um português mais coloquial - visto que a linguagem formal, cuidada, está cada vez mais longe dos olhos e ouvidos dos jovens.

Leia-se este excerto, por exemplo:

«Assim, os jogadores passarão a dar um palpite de cada vez, alternadamente, palpite esse que consiste em pronunciar ao adversário um NÚMERO e uma LETRA. Em resposta o adversário dirá se há «FALHA» ou «COLISÃO». [...] No caso de ter anunciado «COLISÃO», o José colocará um perno vermelho no furo da embarcação atingida enquanto que o António sinalizará também, com um perno vermelho, o seu quadrado de marcação. [...] Assim, conforme o jogo vai decorrendo, saberá quais os números já pedidos e bem assim quais os certeiros e não certeiros.»

Na próxima revisão do folheto, proponho que as frases acima citadas sejam escritas da seguinte forma:

«Então, cada jogador diz, à vez, um NÚMERO e uma LETRA, que é onde pensa que pode estar um barco do outro. O outro responde  «ÁGUA» ou «FOGO». [...] Se disser «FOGO», o Zé mete um pino encarnado no buraco do barco que levou o balázio,  e  o Tó também mete  um pino encarnado no mesmo sítio, no quadro onde marca os  tiros que dá.  [...] Assim, durante o jogo, sabe que números é que já pediu e, desses, quais é que foram em cheio e quais é foram na água.»




12 fevereiro 2010

Erros frequentes


As frases que se seguem exemplificam alguns erros gramaticais (num sentido lato) que encontro por vezes nas comunicações escritas. Conseguem detectá-los?

a) Informamos que a escola estará encerrada do dia 15 ao dia 17, inclusivé.

b) O projecto " Alimentação e hábitos de vida saudável" vai de encontro às boas práticas de convivência e saúde alimentar.

c) No caso da suspensão se verificar num período superior a 30 dias, a inscrição do utente será anulada.

d) É com grande prazer que anuncio que, o vosso educando, foi o aluno da semana pelo seu bom desempenho e comportamento.

e) A partir do próximo mês, debitaremos o valor de 5 euros na falta de devolução das toalhas do ginásio.

f) As máscaras dos alunos deverão ser o mais criativas possíveis e feitas com materiais reciclados.

07 fevereiro 2010

Poderem ou puderem?


Puderem seria a grafia correcta numa frase condicional, após a conjunção se, em que o verbo poder estaria no futuro do conjuntivo. Por exemplo, "Se a puderem beber, não se irão arrepender".

Poderem é a grafia correcta numa frase como a dos azulejos, em que o verbo está no infinitivo pessoal. Usa-se a seguir a preposições como para, de, por, etc. Portanto, «Corre, corre até à fonte / Para a poderem beber».

Note-se que o som do e é diferente, nestas duas formas verbais: quando se escreve com u, puderem tem [é] aberto, a seguir ao d. Quando se escreve com o, o som do e a seguir ao d é semifechado: [ê].

03 fevereiro 2010

A rima das sílabas e a rima dos versos

Quando falo da estrutura das sílabas aos meus alunos, há uma pergunta que eles fazem sempre:

- Não é estranho chamar-se "rima" a uma parte da sílaba, quando se confunde com a "rima" dos versos?!

A estranheza que eles invocam justifica-se, no fundo, na medida em que conhecem bem o conceito de rima enquanto consonância (embora não o consigam verbalizar senão dizendo algo impreciso como "é o mesmo som no fim das palavras), ao passo que a noção de rima da sílaba lhes é totalmente desconhecida.
Mas não é, decerto, por mera coincidência que ambas as noções têm o mesmo nome. A consonância das palavras que rimam não é estabelecida a partir de um ambíguo "fim da palavra" - que tanto pode ter duas letras, como em Maria/dormia, como seis, por exemplo em tétrico/métrico - mas define-se enquanto identificação total dos sons de duas palavras, a partir da vogal tónica de cada uma delas. A rima (dos versos) só começa "a contar", por assim dizer, não a partir da sílaba tónica, mas da vogal tónica dessa sílaba. Por isso, as consoantes distintas entre Ma-ria e dor-mia não a tornam imperfeita.

E onde é que entra aqui a tal noção de rima da sílaba? É que a rima de uma sílaba é precisamente a parte (mais importante), que inclui o núcleo (vogal ou vogais tónicas) e a coda (consoante que se lhe siga), mas exclui o ataque, que é a consoante ou consoantes que exista(m) numa sílaba antes da vogal.
Assim, a rima dos versos é estabelecida a partir da rima da sílaba tónica (sem o ataque), e não simplesmente da sílaba tónica inteira (ataque incluído).
Não tenho a certeza, mas algo me diz, posto isto, que o nome dado a esse constituinte da sílaba, a rima, provém da sua relevância para o estabelecimento de consonâncias rítmicas...

Para quem queira aprofundar os seus conhecimentos sobre a estrutura das sílabas do português, aqui fica uma sugestão de leitura: um livrinho muito interessante e útil, sobretudo para educadores e  professores, que inclui sugestões de actividades para desenvolver a consciência silábica adequadas a todos os níveis de ensino:
Maria João Freitas e Ana Lúcia Santos, Contar (Histórias de) Sílabas: Descrição e Implicações para o Ensino do Português como Língua Materna. Lisboa: Colibri/Associação de Professores de Português, 2001.

27 janeiro 2010

Desafio de pontuação


Das cinco frases que se seguem, apenas uma está integralmente correcta, no que respeita ao uso da pontuação. Qual é?


1 – Os jogos estimulam diversas capacidades tais como, a memória, o raciocínio, a destreza verbal, a rapidez de reacção e a socialização.
2 – A sociedade nos nossos dias, tende a favorecer cada vez mais as camadas jovens da população.
3 – O cérebro humano tem sido descrito como a estrutura mais complexa do universo, este encontra-se dividido em dois hemisférios sendo cada um deles responsável por deteminadas faculdades.
4 – Os alpinistas que já tinham escalado aquela montanha não usaram a velha ponte de madeira.
5 – Os alpinistas que já tinham escalado aquela montanha, não usaram a velha ponte de madeira.

19 janeiro 2010

A Maior Flor do Mundo, de José Saramago

O que acham deste vídeo e, claro, da história e da sua mensagem?


14 janeiro 2010

Novo desafio de caça ao erro

Antes de mais, desculpem a falta de textos, mas a minha vida tem sido complicada...!


Aqui vos deixo mais um desafio: quais são os erros gramaticais do texto que se segue?


Infelizmente, verificasse que a felicidade não está ao alcance de todos. A célebre constatação de que o dinheiro não trás felicidade tem hoje uma paradoxal terminação: “...mas ajuda muito!” Com efeito, um dos requesitos para se poder ser feliz é ter dinheiro suficiente para pagar todas as comodidades da vida moderna: sem casa, sem água, sem gaz e sem luz, quem é que consegue ser feliz? Contráriamente ao que muitos pensam, ainda à muito boa gente por esse mundo fora que não tem nenhuma dessas coisas. Depois, é preciso saúde, que muita gente também não têm. Se houver qualquer desiquilíbrio permanente, mental ou físico, na nossa vida, também será dificil alcançar a felicidade. Por fim, se analizarmos os (poucos) casos de pessoas que são realmente felizes, chegaremos à conclusão de que todas elas amam e são amadas. Ora, o amor não toca todos os corações... Lamentavelmente, muitos estão empedernidos e são impermiáveis aos sentimentos de afecto e amizade.

03 janeiro 2010

Ano novo, grafia nova... ou não?!

Parece que o Acordo continua a dormir em Portugal, embora não tenha propriamente um sono descansado!
Esta abertura do Ciberdúvidas deixa várias sugestões de leitura, para quem queira saber em que ponto as coisas estão, no que toca à aplicação da já serôdia norma de 1990. Destacamos o texto de Alexandra Prado Coelho e, em particular, este pequeno excerto:

«A nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, parece partilhar as convicções do antecessor, José António Pinto Ribeiro, e diz que quanto mais depressa o aplicarmos, melhor será para afirmar a língua portuguesa no mundo. A ministra da Educação, Isabel Alçada, pede tempo para a introdução das novas regras nas escolas. Em que ficamos?»

Ficamos na indefinição do costume, na confusão a que estamos habituados. E, para piorar as coisas, ficamos a saber ainda que vai haver mais do que um vocabulário ortográfico da língua portuguesa (obra supostamente esclarecedora quanto à unificação da grafia e à resolução das ambiguidades que o texto do Acordo lança para os falantes). Parece que há especialistas a trabalhar em simultâneo, o que seria muito bom... mas em grupos separados, o que é péssimo. Portanto, a pergunta vai continuar a pairar sobre nós, comuns utilizadores da língua: em que é que ficamos?!

Com ou sem Acordo... bom ano a todos!