20 Novembro 2009

Qual a forma correcta?




O desafio de hoje é identificar a palavra grafada correctamente, em cada par:

condicente / condizente
cônjuge / cônjugue
podesse / pudesse
carrocel / carrossel
despoletar / despultar
magestoso / majestoso
obcessão / obsessão
perscrutar / prescrutar
precariedade / precaridade
resplandecente / resplandescente
subestimar / substimar
torácico / toráxico




17 Novembro 2009

Cuidado com a escrita!


No livro que estou a ler, O Priorado do Cifrão, de João Aguiar, aparecem, de vez em quando, algumas falhas ortográficas. Nesse sentido, aproveito, não para criticar a editora, mas para chamar a atenção para essas palavrinhas que, pelos vistos, pregam rasteiras aos mais capazes:

Página 103: «foi guardar a vassoura na dispensa»
A dispensa é o acto de dispensar. O lugar onde se guardam víveres é a despensa.

Página 104 (e outras): «Não tardariam as perseguições aos herejes».
A palavra hereges escreve-se com g.

Página 176: «Mesas com tampo de formica»
A formica (palavra grave) é uma doença. A resina sintética que se usa para revestir móveis chama-se fórmica – palavra esdrúxula.

Página 179: «Mas que não tentasse tomá-lo por tótó»
Em português, as palavras não podem ter dois acentos agudos, porque não têm mais do que uma sílaba tónica. Totó, como popó e bebé só leva acento na última vogal, a que é pronunciada com mais intensidade.

Página 242: «tombava uma moínha fria» (e p. 243)
Moinha, tal como rainha e bainha, não leva acento agudo no i tónico que não forma ditongo com a vogal anterior, porque este é seguido do dígrafos nh.

Páginas 251: «Eugénio Graínha» (e p. 254)
Este apelido também não deve ser escrito com acento agudo no i (portanto, Grainha), pela razão enunciada atrás.

Página 296: «Julgo que para muito espanhois é uma questão estética»
Espanhóis, por enquanto, ainda leva acento agudo no o. Porque o ditongo tónico é semiaberto, “ói” (como em caracóis), e não semifechado, “oi” (como em pois).


12 Novembro 2009

Dicas para a comunicação eficaz

Porque a comunicação não envolve apenas o uso da língua, hoje resolvi deixar-vos um contributo diferente...

ANTES de comunicar, certifique-se de que:

- tem algo novo e interessante para dizer

- há alguém interessado em ouvi-lo

- consegue arranjar maneira de interessar os desinteressados, sobretudo se constituírem a totalidade dos ouvintes

- o tempo que leva a falar não é superior ao tempo (e paciência) que os ouvintes têm para lhe dispensar

- a sua aparência não vai distrair o público: não há nódoas na sua roupa, não calçou um sapato de cada cor, nem tem restos de pastel de nata nos dentes


DURANTE a sua comunicação, veja se:

- fala em vez de ler (gosta de ouvir os outros lerem por si quando o texto está à sua frente?)

- não volta as costas ao público (a menos que tenha asas ou cabeça de coruja)

- não fica mais do que 10 segundos em silêncio (na verdade, 5 segundos já é muito!)

- o seu tom de voz é audível (para quem está no fundo da sala, não para si)

- não há mais do que 2 pessoas em cada 20 a bocejar ou a dormir

- as pessoas acordadas não esboçam esgares de impaciência ou incompreensão


DEPOIS da comunicação, não se esqueça de:

- deixar bem claro que chegou ao fim (se ainda estiver alguém a ouvi-lo, claro)

- se oferecer para responder a perguntas da assistência

- deixar algo com que o público possa recordar a sua comunicação no futuro (por boas razões, entenda-se)





05 Novembro 2009

Imperetrivelmente

Ora aqui está um advérbio relativamente comum na oralidade, mas que leva muita gente a hesitar (ou a enganar-se), quando passa para a escrita.
A dúvida reside, essencialmente, nas duas sílabas que se seguem ao prefixo im-, pois no discurso oral costumamos "comer" alguns sons (sobretudo vogais fracas, como o "e" átono) e trocar outros - por exemplo, confundindo as sequências pre- e per- .
Assim, e porque dizemos e ouvimos qualquer coisa como "imprtrivelmente", quando pretendemos escrever a palavra sabemos que falta ali a letra "e" algures entre as consoantes, mas não temos a certeza do lugar exacto, nem da quantidade de vogais que estão em falta. Então poderemos arriscar:
"imperetrivelmente"...?
Por hipercorrecção, a tendência é a de colocar "és" a mais na grafia.
No entanto, o advérbio vem do adjectivo impreterível, que talvez se ouça pouco, e cujo significado é «que não se pode preterir», ou seja, «que não se pode adiar». Aqui, talvez vejamos uma relação entre este adjectivo e o nome pretérito, que designa precisamente o passado. Portanto, escreva-se IMPRETERIVELMENTE - sem medo, sem dúvidas, sem risco!

03 Novembro 2009

Scanear?!

Todos os dias me surpreendo e isso, à partida, é bom.
O problema é que nem tudo o que me surpreende é bom, por isso talvez devesse dizer que todos os dias me admiro com algo que vejo.
E há uma editora que, ultimamente, tem sido a causa de boa parte da minha perplexidade. Na sua base de dados em linha (expressão paradigmática da débil recusa, por parte de alguns portugueses mais "cotas", de cair no estrangeirismo fácil, que espero seja entendida pelos leitores), apresenta por vezes informações caricatas e inesperadas, para não dizer duvidosas... pelo menos por enquanto.
Há dias, descobri, de boca aberta, que o verbo scanear já lá constava, todo conjugadinho, da primeira à última flexão: eu scaneio, tu scaneias, ele scaneia...; eu scaneei, tu scaneaste, ele scaneou... e por aí fora. Lindo!
E para quem não saiba o que significa esta nova aquisição no nosso léxico, a definição aparece no dicionário de língua portuguesa: significa converter texto ou imagens, através de um aparelho que lê os dados em papel, em informação digital, que poderá ser consultada e usada no computador. Usa-se no âmbito da informática, mas não necessariamente em registo informal ou familiar, pelos vistos. Ao que parece, pode aparecer em relatórios, em documentos oficiais, em publicações, etc., porque será um legítimo sinónimo de digitalizar.
O aparelho com o qual o verbo está relacionado lá está igualmente dicionarizado na sua forma gráfica original: scanner (mas sem o itálico!) . Quer isto dizer que o verbo poderia ser scannerizar ou, aportuguesando a grafia, scanerizar, usando-se a combinação entre SCANNER + -IZAR. Inclusivamente, há quem prefira scanar e quem diga, com bom humor, sacanear...
Ora, pergunto-me, por que razão a editora não consagrou todas essas variações? Porque fez uma recolha rigorosa de dados e concluiu que a forma escolhida é usada com mais frequência do que as outras? Ou porque não lhe apeteceu? Trata-se de uma pergunta de quem tem curiosidade em perceber como é que estas decisões são tomadas!




























30 Outubro 2009

Desafio verbal


Há certas flexões verbais que têm uma sonoridade um pouco estranha, senão mesmo cacofónica. Umas são engraçadas, outras levam-nos a hesitar, quando as pretendemos dizer ou escrever, mesmo quando se trata de verbos de uso corrente.
Que tal experimentarem conjugar os verbos entre parênteses, tendo em conta os contextos fornecidos? Ao que parece, o tempo/modo mais traiçoeiro é o Presente do Conjuntivo...


O professor de ginástica quer que eu _______ mais as pernas. (FLECTIR)

Sou eu que ________ este blogue há mais de três anos. (GERIR)

Tenho de gritar, senão ainda ________. (EXPLODIR)

O júri ________ a criatividade e a expressividade das apresentações. (PREMIAR)

É preciso que deste caos ________ uma nova esperança! (EMERGIR)

Queres que eu ________ já a carne toda? (FATIAR)

Convém que o formato do esquema se ________ ao conteúdo. (ADEQUAR)

27 Outubro 2009

O já e o agora que são depois

Interessante, como as palavras tão frequentemente não dizem o que supostamente deveriam dizer. Parece que os falantes se empenham em subverter a lógica da língua, para a tornar mais imprevisível, traiçoeira e... bela, porque não?

Reparem como a palavra pode, paradoxalmente, significar depois, em frases como «deixa-me só acabar de escrever isto e te ajudo», ou « vou, espera só um bocadinho!». É ou não é engraçado?
E vejam como também o advérbio agora foge ao seu sentido imediato (literalmente!), para adquirir um significado imprevisto, sobretudo para os falantes pouco habituados a estes ziguezagues pragmáticos: «fiquei de baixa e agora tenho de ir ao médico na semana que vem!» Isto é como quem diz "e em consequência terei de ir ao médico na semana que vem".
Digo que se trata de "ziguezagues pragmáticos" porque se prendem com usos não previstos nas gramáticas nem nos dicionários, mas que os falantes entendem, porque são suficientemente frequentes, embora estejam relacionados com certos tipos de registo, certas entoações, certos contextos, tornando-se por isso muito difíceis de descrever. São aqueles usos que baralham os estrangeiros, quando eles pensam que já dominam o nosso idioma. E um dos mais curiosos será a palavra bom, que com determinada entoação interjeccional significa precisamente o oposto: "mau!"

23 Outubro 2009

Erro à vista II


Decididamente, estou a ficar um pouco lerda.
Então, há dias, quando consultei aquele artigo da Infopédia, não reparei num outro erro gritante, mesmo junto ao "reinvindica"?

"Em 1948, com o apoio da ONU, nasce o Estado de Israel, novamente um centro político para os Judeus. Dão-se, por outro lado, início a novos tormentos, resultantes da oposição árabe a esta nação, com a qual se envolvem em guerras frequentes e duras."

Os leitores atentos encontraram-no com certeza.
Já não sei se devo censurar os profissionais da editora em causa, que publicam textos cheios de "gralhas", se me devo censurar a mim própria, que não reparo em metade delas... de qualquer modo, e censuras à parte, uma coisa é certa: trata-se uma boa fonte de desafios gramaticais para este blogue!



22 Outubro 2009

Verbos defectivos


Hoje caiu-me a alma aos pés.
Estava eu a explicar à turma o que era um verbo defectivo, dando o exemplo dos verbos abolir e falir - que só se devem conjugar nos tempos e pessoas em que as formas verbais mantêm a vogal tónica do infinitivo (i), - quando, para meu enorme espanto, ao consultar os dicionários Priberam e Porto Editora, e depois a Mordebe, deparo com esses dois verbos conjugados em todos os tempos e em todas as pessoas. Como é possível?!

A minha pergunta tem o seguinte motivo: aceito que a gramática vá mudando conforme o uso dos falantes e parece-me necessário que as bases de dados lexicais, morfológicas e sintácticas vão sendo actualizadas, em vez de permanecerem rigidamente presas ao passado, quando os falantes já não se identificam com elas.
No entanto, parece-me que as alterações efectuadas a essas bases de dados só se justificam na medida do uso, ou seja, não faz sentido registar as formas "abulo, aboles, abolem" (para abolir), ou "falo, fales, fale" (de falir), se ninguém as passou a usar, se ninguém as reconhece.
Isto porque a gramática explícita, enquanto instrumento de consulta, deve ser uma descrição do conhecimento linguístico dos falantes, não uma "invenção" da autoria de uma minoria de "especialistas".
Posso estar redondamente enganada, mas não ouço dizer, nem nunca li, que "cada vez falem mais empresas", nem que "é preciso que o Governo abula as leis obsoletas"...

Senti-me mais confortada quando verifiquei que o Ciberdúvidas me dá razão, ainda que num texto de 2003. Pelos vistos, já não é actual!













20 Outubro 2009

Erro à vista!

Ontem fiquei levemente chocada ao deparar com um erro de ortografia nesta frase, que li na Infopédia, da Porto Editora:

"A Organização de Libertação da Palestina (OLP) reinvindica também um espaço político e nacional para os Árabes da região, secundarizados e vítimas de certa repressão e indiferença hebraica."

Consultei de imediato o respectivo dicionário de língua portuguesa e verifiquei que apresenta a palavra em causa devidamente grafada. Depois, procurei na página um cantinho onde fosse oferecida aos leitores a oportunidade de enviarem comentários e sugestões (que existe no Priberam) e inicialmente não encontrei nenhuma indicação que me permitisse enviar para a equipa a chamada de atenção. Mais tarde descobri: basta clicar em "Centro de contacto", na página principal. Vou enviar à Infopédia uma mensagem!


Por enquanto, a gralha lá continua, indiferente. Pode ser uma falha tipográfica involuntária, mas não deixa de ser grave, considerando que se trata de uma enciclopédia divulgada no mundo inteiro!
Conseguem identificá-la?


15 Outubro 2009

O mistério da "perna extra"



Já me referi aqui, em tempos, ao facto de certas palavras "mágicas" utilizadas em embalagens de produtos comercializados em Portugal, como "plus", "extra" e "seleccionado", parecerem funcionar como atractivos para os consumidores, embora na realidade não dêem nenhuma informação que interesse sobre a origem ou a qualidade dos produtos.

E dos produtos cujas descrições nas embalagens são acompanhadas destes pseudo-atributos, o mais engraçado, sem dúvida, é o "fiambre da perna extra".
 Extra, como sabemos, é abreviatura de extraordinário, dado que neste caso não se trata de um prefixo. Um anúncio recente explica que é o próprio fiambre (da perna) que possui essa qualidade fora do normal, mas quem não teve a oportunidade de ouvir o esclarecimento pode pensar que o fiambre provém de uma "perna extra" dos malfadados suínos.
Pode então entreter-se a imaginar porcos mutantes, ou geneticamente modificados, e cuja quinta perna serve assim para proporcionar um lucro ainda maior aos produtores. Outros poderão considerar a hipótese de a expressão "perna extra" constituir um recurso estilístico, não sei se uma metonímia, se uma perífrase, que designaria.......... é melhor não dizer!

Pergunto-me se a tal palavrinha mágica, extra, não deveria ter sido colocada noutra posição ("fiambre extra da perna"), para evitar por completo os mal-entendidos...






13 Outubro 2009

"há-des reparar nas gramas"...

Ensina o Ciberdúvidas - e eu acho bem - que o substantivo grama, quando se aplica à unidade de medida de massa, (tal como o quilograma), pertence ao género masculino. Portanto, devemos dizer que «o bebé pesava, à nascença, três quilos e duzentos (gramas)» e não «três quilos e duzentas».

Grama só deve ser empregado enquanto substantivo feminino quando designa "relva", por exemplo na frase «o cão está deitado na grama».

No entanto, o uso, como sabemos, tem um poder imenso sobre a gramática. A história das línguas está cheia de exemplos de palavras e construções que se modificaram ao longo das décadas e dos séculos, por causa do "mau" uso que os falantes lhes começaram a dar. Foi assim que as formas latinas semper, insulsu- e per + ad deram origem a sempre, insosso e para, respectivamente.
Também assim se explica que bêbedo tenha passado a bêbado, que desestabilizar venha sendo reduzido para destabilizar, que a biopsia passe a biópsia e a conjunção comparativa enquanto esteja em vias de se tornar locução, pois tem-se preferido usar enquanto que.

Voltando aos gramas, é interessante notar que já em 1989 (3.ª edição), na sua Breve Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha e Lindley Cintra esclareciam: «Embora a palavra grama se use também no género feminino (quinhentas gramas), os seus compostos mantêm-se no género masculino: um miligrama, o quilograma.» Isto será talvez surpreendente, para quem tem levado a vida a arrepiar-se com quem se refere "às gramas" e aos quilos...

Mas repararam no verbo? «Embora a palavra grama se use»...
Quer isto dizer que tudo o que se use, independentemente de ser correcto ou atentar contra as regras da língua, deva ser registado nas gramáticas? Devemos achar natural que um dicionário de verbos registe que se usa "há-des" e "há-dem" para as flexões do presente do indicativo do verbo haver na segunda pessoa do singular e na terceira do plural (hás-de e hão-de)?!

09 Outubro 2009

Acordo para quê?


Muitas são as ocasiões em que me apercebo, com satisfação, de que não sou a única a pensar que o Acordo de 1990, que tarda em fazer-se sentir em Portugal, não vai servir para nada que valha a pena.
E para ilustrar o meu ponto de vista, gostaria de dar aqui alguns exemplos de palavras de uso corrente que, apesar das boas intenções de uniformização ortográfica, vão continuar a escrever-se de forma diferente, em Portugal e no Brasil:

P                     B

aluguer            aluguel
amnistia          anistia
averiguam       averíguam
catorze             quatorze
conceção         concepção
desporto          esporte
encontrámos    encontramos
facto                fato
íman                ímã
indemnizar      indenizar
maioritário       majoritário
metro               metrô
planear            planejar
polémico         polêmico
quotidiano       cotidiano
receção            recepção
registo             registro
soutien             sutiã
stress               estresse
subtil               sutil
...

É uma lista curta, mas poderia ser muito maior. E nem sequer contém palavras que são completamente diferentes (para designar as mesmas realidades) num e no outro lado do Atlântico e que obrigarão à "conversão" dos textos escritos em Português do Brasil, no futuro, tal como agora.
Digam lá se vale a pena gastar tempo, dinheiro e recursos num esforço para uniformizar o que não é uniformizável?


07 Outubro 2009

À pesca de erros...

Querem procurar os erros ortográficos presentes neste texto? São oito...


Com as novas tecnologias, muita gente exita entre dispender o seu tempo de laser em frente à televisão e navegar na Internet. Na faixa etária dos 20 aos 30 anos, há pessoas que já exibem um comportamento obcessivo face ao computador, que as afasta do contacto inter-pessoal e as torna fisicamente debéis devido à falta de exercício. Haverá, concerteza, excepções. Mas é necessário que dê-mos mais importância ao problema, se não queremos correr o risco de assistir ao envelhecimento precoce da população.

02 Outubro 2009

Concordância, concordância...

  Muito sinceramente, venho confessar uma dúvida que me assaltou hoje, enquanto lia A Arte de Ler, de José Morais, um livro de 1997, mas interessantíssimo e extremamente completo sobre psicologia cognitiva da leitura. Deparei com esta frase:

Tudo isto constitui factores de diferenciação. (p. 256)


  A minha primeira reacção, ao ler «constitui factores», foi voltar atrás e confirmar que não havia ali nenhuma falha de concordância, dado que estava em presença de uma forma verbal no singular («constitui») e de um nome no plural («factores»). Quando verifiquei que o sujeito era a expressão «Tudo isto», lembrei-me da regra ditada por Celso Cunha e Lindley Cintra: «o verbo ser concorda com o predicativo [...] quando o sujeito do verbo ser é um dos pronomes isto, isso, aquilo, tudo ou o (= aquilo) e o predicativo vem expresso por um substantivo no plural» (p. 354, na 3.ª edição Breve de 1989).
Está bem, na frase em questão não temos o verbo ser, mas sim o verbo constituir. Porém, se o correcto, com o primeiro verbo, seria Tudo isto são factores de diferenciação, isso não sugere que a mesma regra se deveria aplicar ao verbo constituir, que aqui tem exactamente o mesmo significado?!

  Ao que parece, a resposta é não. E é verdade que ler "Tudo isto *constituem factores de diferenciação" não me agradaria mais...
   No entanto, parece-me que se trata de um daqueles casos em que a emoção deve pesar mais do que a razão. Aliás, Cunha e Cintra explicam que a concordância do verbo ser com o predicativo, no caso acima referido, se explica «pela tendência que tem o nosso espírito de preferir destacar como sujeito o que representamos por palavra nocional, pois esta alude a realidades mais evidentes».
  Então, se o que está certo não tem uma sonoridade agradável, eu optaria por modificar a frase, até que ela me soasse bem. Por exemplo, usando o verbo ser...





29 Setembro 2009

Beijos, beijinhos e beijinhos grandes

   Se é verdade que as redundâncias saltam mais à vista (há dias um candidato a uma junta de freguesia prometia "enfrentar os problemas de frente"), não é menos certo que os contra-sensos são de evitar.
As pessoas que se despedem com "beijinhos grandes", por exemplo, ainda não devem ter reparado que assim se denunciam como mentes contraditórias, o que naturalmente não abona em seu favor.


  Devo dizer, porém, que a interjeição de despedida que se criou recentemente na nossa língua, "beijinhos!", é bastante afectuosa e original. Para além disso, dizer a palavra "beijos" é uma forma forma bastante prática e indubitavelmente mais higiénica de substituir o acto de beijar outra pessoa na face (podíamos até passar a dizer "beijos" também quando nos encontramos!). Finalmente, é uma forma eufemística de pormos fim à conversa sem mandarmos a outra pessoa para o Além, com o terminal  "adeus", e também sem nos comprometermos ao reencontro, através de um "até logo" ou de um  "até amanhã" que poderia, em muitos casos, revelar-se inconveniente, ou dar azo a mais dez minutos de diálogo.

   Os beijinhos são simpáticos e educados qb, embora tenham o inconveniente de serem desaconselhados para o uso estritamente masculino, a menos que a relação entre os intervenientes dite o contrário.
  
    Estou em crer que a despedida dos "beijinhos" terá surgido nos contextos em que as pessoas comunicavam sem se verem, como por exemplo ao telefone, e assim começaram a pronunciar o nome que se tornou interjeição. Daí até se ter instalado no nosso léxico como uma das palavras que mais vezes pronunciamos ao longo do dia (nós, mulheres, está claro), em paralelo com "não" e "aaah..." foi um instantinho.

     Logo surgiram as variantes, como os "beijos" (para uma despedida mais formal), o "beijo" (mais sedutor), os "beijinhos grandes" (das tias?) os "jinhos", as "beijokas" e as "jokas" (para a malta jovem), os "beijos, queijos e alfaces fresquinhas" (para amigos com mais tempo e criatividade) e outras versões mais económicas, como "bjks" e "bjs", para mensagens de correio electrónico e telemóvel.
 

     Parece-me que, perante uma fórmula de despedida tão agradável, eficaz e versátil, mas que infelizmente fica melhor às mulheres, os homens precisam urgentemente de encontrar algo semelhante, para poderem beneficiar das mesmas vantagens nas despedidas verbais. Permitam-me, leitores, que vos deixe as seguintes sugestões: "aperto-de-mão", "toque-no-ombro" e "palmadinha". Que tal?
  

25 Setembro 2009

Maldito hífen



Acreditam que há certas coisas na língua portuguesa que me fazem odiá-la?

Uma delas é certamente o hífen, esse tracinho malvado que nunca se sabe muito bem quando é que vai aparecer, nem porquê.
Deixo apenas alguns exemplos que espero sejam elucidativos da minha quezília:

Se casa de banho se escreve sem hífenes, porque é que casa-comum, que tem exactamente o mesmo significado (mas nunca ouvi ninguém usar), há-de ter?

A propósito, como é que o falante comum percebe que deve escrever há-de e hei-de (com hífen), mas havemos de e haveis de (sem ele)? Traz uma cabulazinha no bolso para se lembrar de que o hífen só se usa no verbo haver + de quando as suas formas são monossilábicas? Ou tira primeiro um curso de gramática em 10 lições, para poder perceber o que isso significa?

Se cor-de-rosa é assim, enfeitadinho com ele, qual a razão para que cor de laranja não tenha direito ao mesmo tratamento? É mesmo um mistério, considerando que até a cor-de-burro-quando-foge já foi promovida...

Por que motivo o hífen não se usa com a camisa de noite nem com a camisa de dormir, mas já acompanha a camisa-de-forças e... a camisa-de-vénus?

Qual é a lógica de sala de estar e salada de frutas serem palavras às pinguinhas, sem nada a ligar os termos que as compõem, quando outras semelhantes têm direito a hífenes nos dicionários, embora apenas dezasseis pessoas vivas em Portugal saibam que elas existem, como sala-e-três-quartos (mais conhecida por «apartamento T3»), ou sal-e-pimenta (que designa, pasmem, um tecido feito com fios brancos, pretos e cinzentos)?

Serei apenas eu que desespero com o hífen, ou há mais quem se enerve ligeiramente com a ideia de ter de ir sete vezes por dia ao dicionário (reparem: é mais do que o número de vezes que vou à casa de banho...) verificar se as palavras compostas por justaposição levam, afinal, os malditos tracinhos ou não?

Enfim, como esclarece o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, «somente um vocabulário afro-luso-brasileiro delimitará praticamente a questão»!

23 Setembro 2009

Meio-dia e meio e setecentos e oitenta e um euro

Há duas tendências portuguesas para o erro de expressão que me parecem particularmente engraçadas, enternecedoras, até.

Uma é o «meio-dia e meio». Acho bonita esta vontade incosciente de harmonizar a expressão, que ganha sem dúvida uma musicalidade mais interessante, fica com uma prosódia mais rica, quando a última palavra se torna o eco perfeito da primeira. «Meio-dia e meia», depois de ouvirmos «meio-dia e meio», torna-se esquisito, mal-sonante, quase absurdo.
Fora de brincadeiras: «meio-dia e meio»... quê? Se for meio-dia, mais outro meio, estaremos a referir-nos, afinal... à meia-noite?! Se dissermos «meio dia e meia», fica subentendida a palavra hora. Pode não soar tão bem, mas é correcto.

Outra é o «euro» singular dos número cujo último algarismo é 1. Por exemplo, no extenso dos cheques: «setecentos e oitenta e um euro». Uma questão de concordância, pois claro!! Se o numeral um é singular, não ficaria nada bem segui-lo do nome plural euros. E no tempo dos escudos havia já quem se regesse por essa lógica: «novecentos e noventa e um escudo
Dá vontade de perguntar: se só um é que é euro, os setecentos e oitenta são o quê? Palhaços?




18 Setembro 2009

Acresce ao desafio



Imaginemos que um dos nossos prezados leitores tem a seu cargo a tarefa de redigir um aviso semelhante ao da imagem e se interroga sobre a forma mais correcta de o fazer... «jipes, carrinhas e monovolumes pagam mais dois euros. Como é que eu escrevo isto sem ser como se estivesse a falar?»
Ora, o verbo acrescer é bonito e soa bem, é, sim senhor. Mas como não se usa muito em linguagem corrente, é normal que hesitemos ao tentar construir com ele uma frase clara e ao mesmo tempo correcta. Se o nosso leitor acabasse por escrever aquilo mesmo que ali se reproduz, teria feito um bom trabalho ou deveria tentar melhorar o resultado?


16 Setembro 2009

Propriedade global

   Iniciámos este blogue com plena consciência de que o respectivo conteúdo poderia ser lido e, na medida do interesse dos leitores, reproduzido, aproveitado e usado das mais diversas maneiras, por um número incontável de pessoas em todo o mundo. E é para isso mesmo que serve a Internet, bendita seja.
  No entanto, como pessoas respeitadoras dos outros (e ingénuas?), esperámos que quem copiasse os nossos textos e os divulgasse noutro lado se preocupasse em referir a fonte, ou seja, que mencionasse a nossa autoria junto aos textos que fossem reproduzidos ou publicados noutras páginas (virtuais ou impressas).

  Assim, foi com alguma indignação que descobrimos que este nosso texto, por exemplo, consta de um blogue pessoal cujo autor mais não refere além do facto de lhe ter sido enviado por e-mail por alguém chamado “Kriatividades”. Um nome que não deixa de ser irónico, tendo em conta a situação...
   Mas não temos ilusões: na era da globalização, não há trabalho intelectual que se preze que não seja do mundo inteiro. Se há teses de mestrado e doutoramento que são copiadas na íntegra e apresentadas a júris como se fossem originais, como é que um pequeno esclarecimento sobre uma dúvida linguística poderia escapar à voracidade dos "info-incluídos"?