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14 maio 2023

A grafia de lilás e lilases


O nome lilás vem do árabe lilak, que significa «azulado». Chegou até nós por via da língua francesa, através da palavra lilas. Em português, escreve-se com s, portanto. 

O plural é lilases, sem acento agudo, pois deixa de ser necessário marcar a vogal tónica, como acontece no singular. Isto porque se acentuam graficamente, em português, as palavras agudas (com tónica na última sílaba) terminadas em -a(s), mas não as palavras graves (com tónica na penúltima sílaba) terminadas em -e(s). Estas regras ortográficas aplicam-se igualmente ao adjetivo que designa algo de cor arroxeada, entre o rosa e o violeta.

Assim, escreva-se, sempre:

singular - lilás

plural - lilases



12 fevereiro 2023

Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que dispensa ou dispensam apresentações?

 


Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que ___ apresentações.

Que opção escolheriam para completar a frase acima?

a) dispensa     b) dispensam


Creio que algumas pessoas tendem a escolher a opção a), confiando que o singular é mais adequado, tendo em conta que o sujeito mais importante da frase é Luísa Ducla Soares, correspondente à 3.ª pessoa do singular.

No entanto, quando queremos caracterizar uma pessoa, coisa ou situação, associando-a a um grupo de outras que têm as mesmas características, dizendo que é “daqueles” ou “daquelas que”..., o verbo que se segue tem de estar sempre no plural.

O predicado, efetivamente, concorda com o sujeito. Mas o verbo usado a seguir à palavra que tem de estar no plural, por concordância com a expressão que está antes - “daquelas pessoas” - uma vez que o pronome que representa esse sujeito plural: Daquelas pessoas que não precisam de apresentações, Luísa Ducla Soares é uma (delas).

Ao fazermos esta inversão de constituintes na ordem da frase, percebemos que nela existem duas orações, cada qual com o seu sujeito e o seu predicado:

1. Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas - oração subordinante (principal), com um sujeito singular (Luísa Ducla Soares).

2. que não precisam de apresentações - oração subordinada adjetiva relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo que (sujeito plural, pois representa a expressão "daquelas pessoas", presente na oração anterior).

Portanto, mesmo que estejamos a falar de uma só pessoa, coisa ou situação, se optarmos por dizer que é daqueles que... ou daquelas que..., temos de conjugar o verbo plural: fazem, dizem, merecem, trabalham, etc.

Se queremos, realmente, destacar o caráter único de tal sujeito, então devemos usar uma construção mais simples, na qual o pronome que se refira a essa pessoa, para que o verbo possa estar no singular: Luísa Ducla Soares é uma pessoa que dispensa apresentações.

Espero não ser uma das pessoas que contribuem para vos confundir!


02 dezembro 2018

Filhós e filhoses - a norma e o uso... outra vez!


O José Pedro Vasconcelos tinha tido recentemente uma discussão com a Tânia Ribas de Oliveira sobre a palavra filhós: seria esta o plural (de filhó) ou o singular (sendo filhoses o plural)?

Quando me entrevistaram no programa Agora Nós, no dia 29 de N/novembro de 2018, ele aproveitou para me perguntar qual era a forma correta. Ora, eu dei a resposta que me pareceu desejada: disse que filhó era o singular e filhós o plural.
Porém, o José Pedro tinha feito umas pesquisas na Internet e descobriu que já na década de 1960 Rebelo Gonçalves reconhecia que filhoses era um plural tão usado, inclusivamente por certos escritores que reproduziam nas suas obras o discurso popular, que se podia considerar como variante. Assim, a palavra tem hoje duas formas possíveis:

singular: filhó /  plural: filhós
singular:  filhós / plural: filhoses

Isto é perfeitamente aceitável e é o que acontece numa língua viva, usada (e abusada também!) diariamente por milhões de pessoas. Como eu tinha referido, no início da minha intervenção, a língua é democrática - é o conjunto de falantes que acaba por decidir para onde vai e como vai (e isto é um facto e não uma opinião...).

No entanto, quando as pessoas me perguntam "qual é a forma corre(c)ta?", parto do princípio de que querem saber qual é a mais rigorosa, a mais antiga, a mais legítima do ponto de vista etimológico, histórico, gramatical, etc. E essa, neste caso, é filhó. Vem do latim foliōla, ou foliōlu-, diminutivo de "folha", que significava "bolo folhado". A forma filhoses (que deu origem ao singular filhós) é popular e consagrou-se pela generalização do uso equivocado (tal como esparguete, bêbado, púdico, febra e tantas outras). Aliás, como observou Carolina Michaelis, este vocábulo foi masculino e dizia-se, em tempos antigos, «não vai por aí a gata aos filhós»(1).

Em todo o caso, o que sucede é que, quando eu começo por dar como resposta à tal pergunta que "ambas as formas são possíveis", as pessoas costumam ficar descontentes e desconfiadas. "Não pode ser!", dizem. "Tem de haver uma forma mais corre(c)ta do que a outra!" Por outras palavras, tenho a sensação de que, se eu tivesse dado essa resposta, o José Pedro teria contraposto às minhas palavras a evidência de que, afinal de contas, filhó é a forma do singular mais legítima, e o plural filhós é o mais corre(c)to!



(1) - Machado, José Pedro,Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Horizonte, 1.ª edição: 1952, 6.ª edição: 1990.

Nota - apresento neste texto as duas grafias alternativas (pré- e pós-) para as palavras que foram afe(c)tadas pelo Acordo Ortográfico de 1990.

08 maio 2017

Despesas extras ou despesas extra?


Quando me perguntam qual o plural do adjetivo extra, não posso evitar sentir algum desconforto. Quem pergunta quer uma resposta simples e objetiva, que não deixe margem para dúvidas... mas por vezes a resposta é em si mesma uma dúvida. Agora talvez mais do que antes, pois não me lembro de ter dado com esta disparidade há uns anos, quando fiz uma pesquisa sobre o assunto.

Hoje, o Priberam mostra-nos que, enquanto adjetivo, a palavra extra pode ser flexionada no plural, dando o exemplo das "despesas extras".


Por seu turno, a Infopédia diz-nos que extra é um adjetivo invariável, o que significa que não se altera no plural. Depreende-se, pois, que o correto será "despesas extra".

Então, em que ficamos?!

No meu entender, e pela lógica, o plural do adjetivo extra deveria ser "extras", pois não me parece que haja motivo para defender que esta palavra, se entendermos que se formou por truncação a partir do adjetivo extraordinário, seja invariável. No entanto, também podemos entender que na sua origem está antes um prefixo e, como tal, defender que por esse motivo o adjetivo também é invarável, à semelhança do que sucede com outros os prefixos (por exemplo, mini, hiper, super, etc.), mesmo quando os utilizamos com a função de adjetivos (como na frase "comprei umas cervejas mini").

Neste, como noutros casos, o uso é que acaba por comandar as regras linguísticas e a verdade é que se nota uma certa resistência de muitos falantes quanto à utilização da forma flexionada extras - a menos que seja como nome. Isto é, muitas pessoas dizem, sem hesitar, "o carro vinha com muitos extras", mas preferem falar de "horas extra" ou de "despesas extra".
Daí que a Infopédia ateste isso mesmo. Aliás, sempre me pareceu que este dicionário segue mais o uso (é mais descritivo), comparativamente ao Priberam, que é mais conservador e normativo. Posso estar enganada, claro. Mas é a leitura que faço, a partir das minhas consultas a um e a outro.

Então, quando encontramos num e noutro dicionário - como neste caso - informação contraditória, o que devemos fazer?
Bom... depende do tempo que tenhamos. Se há pressa, talvez seguir o nosso instinto e escolher a forma que nos soa melhor. Se há tempo, procurar desempatar, usando uma terceira fonte de consulta!






22 fevereiro 2012

Tal ou tais?

Os valores já não são reconhecíveis como tais ou

Os valores já não são reconhecíveis como tal ?



Resposta:

   A palavra tal pode pertencer a várias classes gramaticais. Frequentemente é usada enquanto determinante ou pronome demonstrativo, podendo ser substituída por outros como este, esse, aquele / esta, essa, aquela / isto, isso, aquilo. Se tivéssemos uma frase como “tais valores deixaram de ser considerados”, não teríamos dúvidas de que “tal valores” seria incorrecto: o determinante tal está antes do nome valores e por isso tem de concordar com ele em número.
   Mas a frase é “os valores deixam de ser considerados enquanto tal/tais [?]”, o que significa: “os valores deixam de ser considerados enquanto isso (mesmo), que é o facto de serem valores. Neste caso, podemos desde logo desconfiar da flexão do pronome no plural, porque ele não antecede o nome valores...
  Na verdade, a expressão  “como tal”, bem como a expressão “enquanto tal”, é fixa e invariável, devendo ser entendida como uma locução adverbial cujo sentido é o mesmo da palavra assim. Para comprovar isso, podemos fazer a substituição daquelas duas palavras – a expressão fixa – por esse advérbio: “Os valores deixaram de ser considerados assim.”

20 setembro 2011

Ateéis e epimis

Sabem o que são "ateéis"?
Vários A.T.L.

As siglas são assim... achamos que se trata de um funcional conjunto de iniciais, sem direitos gramaticais, porque não são palavras a sério, e elas pregam-nos esta partida: põem na boca das pessoas um plural como deve ser, ou seja, flexionado de acordo com as regras da língua.
Se ATL ("á-tê-el") é uma unidade significante (e de que maneira! O que seria da maior parte dos pais e mães sem eles?!), um conjunto de sons verbais com tónica na penúltima sílaba e que termina em vogal + l - tal como papel, pincel e hotel - o seu plural, pois então, não deve ser A.T.L. (que não é plural nenhum), nem "A.T.L.'s", que soa a erro infantil, como "papeles" e "pinceles", mas "ateéis", como pincéis e hotéis.

E agora acrescento, depois de um prezado leitor me ter chamado a atenção para o facto de parecer que, no parágrafo anterior, eu defendo que o plural de ATL deve ser "ateéis": era a brincar, estava a ser irónica! Na verdade, as siglas não devem ser usadas no plural: o plural de ATL é ATL (repare-se que não há diferença nas iniciais entre Atelier/Ateliê de Tempos Livres e Ateliers/Ateliês de Tempos Livres).


E uma vez que acrescentei este aviso, posso agora perguntar: saben o que são "epimis"?
Essa ouvi ontem, com estes ouvidos que a terra (não) há-de comer: «dois epimis com bongos, nâguetes e cenoura», confirmou o funcionário da caixa de pagamento, depois de ouvir o pedido.
Já estão a ver o que são "epimis"?

Claro! É o plural de Happy Meal :)

12 setembro 2011

Guarda-chuvas, guarda-redes e guardas-mores... porquê?

O plural dos nomes compostos cujo primeiro elemento é a palavra “guarda” não se forma sempre da mesma maneira, ao contrário do que poderíamos pensar.

Se “guarda” é verbo, este termo não muda, pelo que o plural afecta apenas o segundo elemento do composto (e assim temos guarda-chuva/guarda-chuvas, guarda-cama/guarda-camas, guarda-roupa/guarda-roupas).

Porém, a palavra guarda pode ser um nome (ou substantivo). Isto significa que ela poderá ser flexionada no plural. Isto acontece nos compostos cujo segundo elemento é um adjectivo (que está precisamente a qualificar o nome que o precede), como guarda-nocturno, guarda-mor e guarda-florestal, que passam a guardas-nocturnos, guardas-mores e guardas-florestais.

No entanto, estes compostos começados por “guarda” costumam ser invariáveis, porque o mais frequente é a segunda palavra estar já no plural, mesmo quando o nome está no singular, ou seja, quando designa apenas uma pessoa ou coisa. É o caso de guarda-redes, guarda-costas, guarda-jóias, etc.

Repare-se na subtil diferença entre guarda-nocturno e guarda-redes. Em ambos os casos, diríamos, a palavra guarda é nome e não verbo, porque designa uma pessoa (o “guarda”). No entanto, o guarda-nocturno vem seguido do tal adjectivo, que comprova a sua qualidade de nome, e por isso o plural é guardas-nocturnos. O guarda-redes não é, na verdade, um “guarda”, mas antes aquele (jogador) que protege, ou guarda, as redes – está portanto subjacente, na estrutura do composto, a acção de guardar as redes: pelo que temos então o verbo, e não o nome. Assim se explica que o plural não seja "guardas-redes" (porque se trata daqueles que guardam as redes, e não dos "guardas de redes"). Foi por isso que chamei a atenção dos leitores para o facto de estar um adjectivo (e não um nome), a seguir à palavra guarda, quando esta é um nome: é apenas nesses casos que ela pode ir para o plural.


13 abril 2011

O plural dos adjectivos compostos

É uma dor de cabeça. Ou um quebra-cabeças.
Matéria que detesto ensinar, porque invariavelmente acabo a confundir os alunos, em vez de os esclarecer.

E como é que poderia ser de outra maneira, se as gramáticas, os dicionários e as bases de dados morfológicas se contradizem? Por mais que eu tente sistematizar, a pesquisa no sentido de legitimar as minhas explicações leva inevitavelmente à sua questionação.

Com base na minha investigação pessoal, tentei estabelecer regras coerentes deste tipo:

a) O adjectivo é um composto morfossintáctico - ambos os termos se flexionam. Exemplos: alunos trabalhadores-estudantes; crianças surdas-mudas

b) O adjectivo é um composto morfológico - apenas se flexiona o primeiro termo. Exemplos: indivíduos luso-brasileiros, razões histórico-sociais

c) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é um nome ou adjectivo - nenhum dos termos se flexiona. Exemplos: camisolas verde-garrafa, cartolinas vermelho-vivo

d) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é claro ou escuro - só se flexiona o segundo termo. Exemplos: calças castanho-claras, vestidos azul-escuros

Esta "arrumação", contudo, tem um problema: apesar de se basear nas recomendações que encontrei em fontes diversas, o consenso entre elas, na globalidade, não existe. Assim, quem tenha tempo e paciência pode sempre dedicar-se a procurar provas de que, na realidade, vale tudo, pelo menos no que respeita às últimas alíneas, c) e d). E aqui fica a irritante prova:


O plural de azul-marinho é azul-marinhos

O plural de azul-marinho é azul-marinho

O plural de azul-marinho é azuis-marinhos

Cada um que decida, portanto, o que prefere usar. Procedimento assaz democrático, sem dúvida, mas muito nefasto, em termos pedagógicos...

19 março 2010

Qual o plural de "sem-abrigo"?


Hoje, uma aluna fez-me uma pergunta muito interessante. Tinha lido num jornal uma frase do tipo "Sem-abrigo têm nova instituição de apoio" e achou estranho que o verbo estivesse no plural, pois não havia "s" no nome e a ausência de determinante não ajudava a esclarecer a dúvida, pelo contrário.

Quando me perguntou se aquilo fazia sentido, confesso que tive dúvidas. Parecia-me que sim, mas não conseguia encontrar nenhuma regra, na minha cabeça (influenciada pela gramática CUNHA & CINTRA) que justificasse o singular "abrigo", quando se trata de um nome, que supostamente deve ser flexionado no plural. Então, inclinei-me para o plural "sem-abrigos" (tendo em conta a lógica C&C: se um dos termos do composto é palavra invariável e o outro um substantivo, só se flexiona o substantivo), mas aconselhei-a a consultar o Ciberdúvidas, porque ainda me restavam dúvidas.

E ainda bem! Afinal, a expressão "sem-abrigo" pressupõe uma oração de tipo adverbial (o sem-abrigo é aquele "que não tem abrigo") e por isso não se considera necessário referir "abrigos" quando quem não tem onde se abrigar são várias pessoas em vez de uma.  Ao que parece, é  por ter carácter adverbial que esta expressão é invariável, tal como os advérbios. Se por um lado isto pode parecer estranho, porque afinal estamos a falar de um nome e não de um advérbio, acaba por ter lógica, quando comparamos esse nome com uma expressão semelhante. Optar por dizer "os sem-abrigos" será mais ou menos como, em vez de "os de além" dizermos "os de aléns"... não faz sentido!
Infelizmente, muitas gramáticas são omissas quanto a este e outros casos semelhantes, como sem-terra e sem-tecto, que são compostos igualmente uniformes.

E assim se vai aprendendo sempre, e também com os alunos!





02 março 2010

Eirós ou eiroses?


O que diriam?

a) Naquele restaurante servem umas eiroses deliciosas.

b) Naquele restaurante servem umas eirós deliciosas.

c) Nenhuma das duas anteriores, porque não sabem qual é o restaurante nem provaram essa suposta delícia.

d) Nenhuma das três anteriores, porque não sabem se o plural em questão é eirós ou eiroses.














A resposta correcta (para quem conhecesse o restaurante!) seria a b), pois eiró, como filhó, é a palavra feminina no singular. A forma do plural é eirós, como filhós.



04 dezembro 2009

Afinal, qual é o plural de item?

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A palavra item não parece suscitar dúvidas entre os falantes que conheço - pelo menos nunca ninguém me perguntou como é que se deveria pronunciar, escrever ou flexionar no plural. No entanto, o facto de ouvir bastantes vezes o plural "ítemes" (sobretudo por parte de pessoas letradas e eruditas) - e, menos frequentemente, o singular "íteme" - levou-me a pensar que talvez fosse útil prestar aqui um esclarecimento.

Item é uma palavra latina cujo significado original é «igualmente, do mesmo modo; além disso; segunda vez, de novo, outra vez». Mas faz parte da língua portuguesa, com a mesma forma, pelo menos desde o século XIV (com o significado de «cláusula, artigo ou unidade, numa enumeração»). Portanto,  sendo palavra grave terminada em -em, pronuncia-se "ítãi" (na variante padrão lusa), ou seja, o núcleo da sílaba final é idêntico aos de abrem, contem ou nuvem. E, se vem do latim e já cá anda pelo menos há 600 anos,  é  absurdo pronunciá-la à inglesa ("aitam"), como se fosse um estrangeirismo acabadinho de chegar.
Quanto ao plural de item, este não pode, naturalmente, ser *items, pois o português não admite esta combinação entre o m final do nome no singular e o s do plural, sendo necessário substituir a primeira das duas consoantes por n, para manter o ditongo nasal, à semelhança do que sucede com um/uns, nuvem/nuvens, batom/batons e por aí fora. Portanto: itens.
Talvez porque a palavra item conserva a sua forma latina original pareça ser "errado" flexioná-la segundo a gramática do português. Em todo o caso, é preciso rendermo-nos à evidência: dizer ou escrever "items" não faz muito sentido. Não dá jeito nem soa melhor!

03 março 2009

"Graffitis", "pizzas" e frangos anglo-saxónicos


Se é verdade que os graffiti incomodam muita gente, não se pode propriamente dizer que os "graffitis" incomodam muito mais. No entanto, há pessoas que se enervam quando ouvem alguém falar de "graffitis" e têm uma certa razão: é que a palavra italiana graffiti já está no plural, sendo o substantivo singular graffito. Portanto, explicam esses ilustres defensores da nossa língua e da coerência gramatical, não faz qualquer sentido flexionar duplamente uma palavra no plural. É tão absurdo como dizer "verõesãos"...
Mas como fazer ver aos portugueses que a palavra que importaram já está no plural e, portanto, devem referir-se a um
graffito ou a vários graffiti? Decerto não será fácil, dado que para nós o plural dos nomes leva, por defeito (e salvo raras excepções), um -s no fim...
Afinal, se quisermos ser puristas, também devemos dizer
pizze no plural, dado que a forma pizza também não se flexiona em número, em italiano, por meio da junção do -s ao nome singular...
Podemos sentir-nos um pouco envergonhados por causa da "ignorância geral" e insistirmos em usar graffiti quando nos referimos a muitos desenhos feitos nas paredes e muros. Mas também podemos tolerar esse plural mal formado como um sinal da inevitabilidade das mudanças menos informadas que sempre ocorreram nas línguas. Afinal, não se pode esperar que os falantes saibam todos de onde vieram e como foram formadas as palavras que usam! E em todos ou quase todos os idiomas deve haver casos assim, de formas equivocadas que acabaram por vingar. Pensemos por exemplo em
chicken (frango), que era o plural de chick, em inglês (como child/children), e passou a designar o singular, sendo hoje normal usar-se o duplo plural (ainda que um deles agora passe despercebido) chickens.

22 setembro 2008

Apóstrofos e tecidos



Há muito tempo que os Portugueses revelam uma certa aversão, ou medo, ou ambos, de colocar os estrangeirismos no plural.
Quer se trate de collants, de boxers, de placards ou de bibellots, três em cada cinco portugueses optam por deixar o "s" do plural à margem do resto da palavra, destacando-o com um estiloso apóstrofo: "collant's", "boxer's", "placard's" e "bibellot's". Que é como quem diz: "eu sei muito bem que esta palavra é estrangeira e por isso não pode ficar como as nossas quando está no plural".
O uso de siglas e acrónimos confirma que o apóstrofo veio para ficar na nossa língua: agora proliferam os CD's, os DVD's, mas também os ATL's e os BI's. E o apóstrofo ri-se de todos os puristas que pretendem erradicá-lo do uso comum.
Quanto ao "tirilene", trata-se de um dos mistérios da língua portuguesa. Eu já vi "terilene" e "tirilene" muitas vezes, mas infelizmente nem os dicionários, nem a Mordebe, nem o Ciberdúvidas, nem o Corpus do Português me esclarecem sobre a existência e o significado dessa palavra em português...
No entanto, e em abono dos lojistas que lidam com tecidos e se vêem obrigados a escrever os nomes dos seus diferentes tipos, devo dizer que me compadeço com eles, pela sua ingrata tarefa. Devem morder os lábios, olhar para o tecto, roer a caneta e quem sabe até verter umas gotas de suor em sinal da sua perturbação, cada vez que precisam de colocar na montra um aviso de promoção das calças de "tirilene" ou dos veludos "cotelês"...

10 julho 2008

Plural de líder



Cada vez mais jornalistas e apresentadores de informação pronunciam o plural de líder (líderes), como “lidrs” em vez de “líders”. Porquê?

20 março 2007

“SMSs” ou “SMS’s”?

(Este texto foi escrito por sugestão do Jaime!)

Quem é que não teve já uma dúvida deste tipo, fosse com a sigla SMS, fosse com outra qualquer, como CD ou DVD...?

Se o plural de palavras estrangeiras leva algumas pessoas a franzir o sobrolho e a hesitar na escrita (e há quem não hesite e escreva barbaridades como “atelieres”, “collant’s” ou “design's”), o plural das siglas pode revelar-se ainda mais problemático para mais gente.

De facto, onde e como devemos colocar o s ?

A resposta mais lógica e rigorosa é... em lado nenhum! Na verdade, não se justifica adicionar a uma sigla uma letra a mais (que não é inicial de nenhuma palavra e, portanto, não faz parte dela). Devemos dizer e escrever vários CD e não “vários CDs”, muito menos “vários CD’s”. Porque, bem vistas as coisas, mesmo que o nome representado esteja no plural (por exemplo, bilhetes de identidade ou "ateliers" de tempos livres), as iniciais que compõem a sigla permanecem as mesmas, ou seja, temos os BI e os ATL. Portanto, sempre SMS – seja plural ou singular.

Este é um dos casos em que as gramáticas simplificam, mas os falantes complicam!