13 abril 2011

O plural dos adjectivos compostos

É uma dor de cabeça. Ou um quebra-cabeças.
Matéria que detesto ensinar, porque invariavelmente acabo a confundir os alunos, em vez de os esclarecer.

E como é que poderia ser de outra maneira, se as gramáticas, os dicionários e as bases de dados morfológicas se contradizem? Por mais que eu tente sistematizar, a pesquisa no sentido de legitimar as minhas explicações leva inevitavelmente à sua questionação.

Com base na minha investigação pessoal, tentei estabelecer regras coerentes deste tipo:

a) O adjectivo é um composto morfossintáctico - ambos os termos se flexionam. Exemplos: alunos trabalhadores-estudantes; crianças surdas-mudas

b) O adjectivo é um composto morfológico - apenas se flexiona o primeiro termo. Exemplos: indivíduos luso-brasileiros, razões histórico-sociais

c) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é um nome ou adjectivo - nenhum dos termos se flexiona. Exemplos: camisolas verde-garrafa, cartolinas vermelho-vivo

d) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é claro ou escuro - só se flexiona o segundo termo. Exemplos: calças castanho-claras, vestidos azul-escuros

Esta "arrumação", contudo, tem um problema: apesar de se basear nas recomendações que encontrei em fontes diversas, o consenso entre elas, na globalidade, não existe. Assim, quem tenha tempo e paciência pode sempre dedicar-se a procurar provas de que, na realidade, vale tudo, pelo menos no que respeita às últimas alíneas, c) e d). E aqui fica a irritante prova:


O plural de azul-marinho é azul-marinhos

O plural de azul-marinho é azul-marinho

O plural de azul-marinho é azuis-marinhos

Cada um que decida, portanto, o que prefere usar. Procedimento assaz democrático, sem dúvida, mas muito nefasto, em termos pedagógicos...

2 comentários:

světluška disse...

A solução dada pelo Ciberdúvidas parece-me bem lógica e convincente.

S. Leite disse...

Se se refere à citação da Gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra, concordo parcialmente. Porque me parece que estes autores não consideraram a possibilidade de os adjectivos poderem ser compostos morfossintácticos, o que implica a flexão de ambos os elementos no plural (e não apenas do segundo, como eles previram). É por isso que "surdos-mudos" parece uma excepção, mas na realidade está de acordo com a regra de flexionar ambos os elementos dos compostos, quando estes são morfossintácticos, ou seja, constituídos por palavras e não por radicais (ou radical-palavra) - como sucede no caso de "(alunos) trabalhadores-estudantes" e "(políticos) sociais-democratas". Assim, "azuis-marinhos" será um plural perfeitamente admissível, à luz do argumento de que se trata de um composto morfossintáctico.
Queira verificar esta outra resposta do Ciberdúvidas:
http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=15127