18 dezembro 2008

Boas festas!



Desejamos a todos os nossos leitores uma excelente quadra natalícia, com muita saúde, boa disposição e melhor companhia!

Beba-se champanhe ou champagne, ponha-se maquilhagem ou maquillage, diga-se pais natais ou "pais Natal", comam-se filhós ou "filhoses", enfim...

...O que é preciso é que todos passem bons momentos e, é claro, que se lembrem de voltar no Ano Novo!

15 dezembro 2008

Quem tem medo do Torneio ISEC de Língua Portuguesa?

Não há que ter medo, trata-se de uma competição amigável, através da qual alunos do 4º ano do Ensino Básico, do 12º ano do Secundário e de qualquer ano do Ensino Superior podem mostrar o que sabem e aprender um pouco mais!

E nada como experimentarem resolver uma prova para ficarem a saber com o que contam. Vamos a isso?

1. Qual das seguintes palavras não existe em português?
A – Beneficência
B – Cônjugue
C – Encapuzado

2. O feminino de «pardal» é:
A – Pardaleja
B – Pardoca
C – Ambas as formas anteriores

3. Qual das seguintes frases está gramaticalmente correcta?
A – Apenas 18% dos professores apresentou queixa à polícia.
B – Apenas 18% dos professores apresentaram queixa à polícia.

4. Na frase: «Se não formos ao cinema, avisar-te-emos»:
A – «Formos» está no futuro do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
B – «Formos» está no presente do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
C – Ambas as formas verbais estão no condicional

5. O verbo «mugir» significa:
A – Ordenhar
B – Soltar mugidos
C – Ambas as anteriores

10 dezembro 2008

Língua viva

Na esteira dos parlapiês e das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas!), há, entre tantas outras, mais uma palavra de uso bastante frequente, mas que, para grande surpresa de todos nós, não se encontra consagrada nos nossos dicionários: salganhada!
Imaginem! Trata-se de uma deturpação da palavra salgalhada! Esta, sim, representa o conceito que atribuímos a salganhada: «confusão, mixórdia, trapalhada» e é o único termo atestado nos dicionários (à excepção do Dicionário da Academia das Ciências...). Diz a etimologia que provém de salgar + -alho + -ada.
A troca de um lh por um nh, que se deveu - presumo eu - a um maior conforto fónico, deu origem a uma nova palavra, que apesar de não ter encontrado o seu lugar nas páginas dos dicionários, vingou entre os falantes!
E vamos lá ver. São ou não os falantes que fazem a língua?!
Será que uma palavra só existe se estiver consagrada nas obras lexicográficas?
Do léxico de uma língua fazem parte não só as palavras atestadas, mas também todas as palavras que já caíram em desuso (os arcaísmos), todas as palavras novas (os neologismos), todas as palavras das variedades dialectais, todas as palavras de registo popular e calão, todas as palavras possíveis... E por palavras possíveis entende-se as palavras que inventamos, mas que respeitam as regras morfológicas da língua.
Basta estarmos atentos às produções linguísticas das crianças! Cada palavra por elas inventada é, com certeza, uma palavra!
Inventam-se palavras, criam-se novos significados para as já existentes! E a língua é assim mesmo: viva e com vida em abundância!

04 dezembro 2008

Um parlapiê escanifobético

Há palavras tão engraças e tão expressivas em português, que é uma pena não existirem!...

É o caso de "parlapiê", um substantivo usado em registo informal para designar uma conversa ou maneira de falar que demonstra capacidade ou vontade de persuadir os outros por meio do discurso, ainda que esse objectivo não seja conseguido. Pode, portanto, ter uma conotação negativa, na medida em que seria usado num frase deste tipo: «Ele pôs-se com um grande parlapiê, mas não me convenceu a comprar o computador.» "Parlapiê" será, assim, sinónimo de conversa, quando esta palavra tem, também, o significado de "discurso de intenção persuasiva não necessariamente convincente" (sobretudo em registo familiar).
De onde vem não sei, mas é provável que esteja relacionado com parlapatão e parlapatice, que por sua vez vêm do verbo parlar - cujo étimo é provençal (daí o parler francês). De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, parlar é «falar muito sobre assuntos, geralmente, de pouco interesse e com entusiasmo», sendo o parlapatão um impostor, que se vale de um discurso cheio de palavras falsas para tirar proveito da credulidade dos outros. O parlapiê será, portanto, esse mesmo discurso.
Quanto ao adjectivo "escanifobético", o Ciberdúvidas esclarece que começou a ser usado por jovens nos anos 50 e designava algo estranho, esquisito. É um termo que foi caindo em desuso, apesar de ter sobrevivido por várias décadas e de ter conseguido ficar registado em obras de escritores portugueses como Mário de Carvalho. Nos meus tempos de escola, ainda se dizia, o que me faz sentir um bocadinho velha... e talvez mesmo um pouco escanifobética por tê-lo usado!

02 dezembro 2008

Secretária de Estado americana ou secretária de Estado americano?

Será possível atribuir duas leituras a esta expressão?

1. [secretária de Estado] americana – em que o adjectivo americana modifica «secretária de Estado»
2. secretária de [Estado americano] – em que o adjectivo americano modifica apenas o nome «Estado»

Na minha opinião, a forma mais correcta é: «secretária de Estado americana». Explico porquê:
Se tivéssemos a contracção da preposição de com o artigo definido o, teríamos um significado mais específico, logo, o adjectivo americano modificaria apenas o nome Estado: «secretária [do Estado americano]».
No entanto, a preposição simples de exprime um sentido mais genérico, pelo que a leitura mais imediata é considerar o constituinte [secretária de Estado] uma unidade linguística coesa. Esta unidade linguística tem como elemento central o nome secretária, logo, o adjectivo americana deve concordar em género e número com esse nome, por exemplo: «secretárias de Estado americanas»; «secretários de Estado americanos».

Concordam ou discordam desta análise?

26 novembro 2008

A importância dos dois pontos



- Filho, o que fizeste aos iogurtes que eu te comprei ontem?
- Deitei fora...
- O quê?! Mas a que propósito?
- Então... Já não podia comê-los!
- O que é que estás a dizer?! Mas que disparate! Explica-te lá!
- Então: eu olhei para a tampa, não consegui evitar. E só depois é que reparei que a embalagem dizia "CONSUMIR ANTES DE VER TAMPA"!

24 novembro 2008

Dose para doze


O "Bacalhau a Braz" já é banal... Mas que dizer daquela nota final na ementa, sobre a "doze" com mais um talher?

Só prova uma coisa: não é preciso escrever correctamente para alcançar a compreensão dos leitores. Afinal, quem é que precisa de ler a frase duas vezes para perceber o seu significado?
Ninguém. Fica muito claro que, quando a dose for servida com mais um talher, será cobrado o valor adicional de 1 euro. É mais bonito, mas o resultado é o mesmo...

Resta saber se o tamanho das doses justifica pedir mais onze talheres, se formos doze a comer!

21 novembro 2008

Material de escritório quietinho...


Esta loja vende produtos e presta serviços na área gráfica, mas, a avaliar pela montra, não presta lá grande serviço à língua portuguesa...
Alguém sabe o que são "estacionários"?!
Parece que é material de escritório, ou de papelaria: canetas, blocos, borrachas e afins. E porquê "estacionários", que é o mesmo que dizer "parados" ou "imóveis"?
Trata-se de uma leviana tradução do nome inglês stationery - com e, pois não é o mesmo que stationary...
Já viram coisa mais absurda?


18 novembro 2008

Desafio de vocabulário

O nome relativo ao verbo adquirir é aquisição. E qual o nome relativo aos seguintes verbos?

- assumir
- convencer
- interceder
- manter

E agora, o exercício ao contrário. Qual o verbo correspondente aos seguintes nomes?

- transfusão
- circuncisão
- intuição
- rescisão

12 novembro 2008

Tiago

Nós também estamos de luto pelo Tiago.

Também o conhecemos, também o admirámos, também acreditámos nele.

Temos estado em silêncio, porque a notícia da sua morte nos calou. Ficámos muito tristes e não quisemos deixar de registar aqui pelo menos estas palavras de apreço por alguém que merece o respeito e a admiração de todos os que prezam a língua portuguesa.

Não esqueceremos a sua presença tranquila, mas marcante. A sua capacidade para ouvir, a sua permanente disponibilidade para ajudar. E os seus ensinamentos serão sempre fonte de inspiração para nós.

05 novembro 2008

Um carácter que dá para os dois lados...


Na inocência do nosso limitado conhecimento sobre a língua que falamos, podemos andar uma vida inteira enganados sobre a pronúncia, a grafia, ou mesmo o significado de uma palavra.

Isso não tem mal nenhum. Afinal, se toda a gente se entende, há coisas bem mais importantes na vida do que andarmos a confirmar, a toda a hora, aquilo que dizemos ou escrevemos.

Mas, quando nem todos nos entendemos e começamos a discutir sobre o que está certo e o que está errado, porque uns dizem que é assim e outros dizem que é assado, é caso para dizer que... está o caldo entornado!

Gostaria, por isso, de esclarecer que a palavra carácter não serve apenas para designar o conjunto de características que constituem a personalidade de alguém, mas também, e até em primeiro lugar (por ser o seu sentido original), uma marca, um sinal gravado ou impresso numa superfície, representando um som ou uma ideia. No entanto, o plural de carácter é caracteres — que, além de divergir na sílaba tónica, também é diferente no facto de se pronunciar o c antes do t (ao contrário do que sucede com carácter, pois dizemos [karáter].

Acontece que muito boa gente prefere usar o nome singular “caracter” (com tónica na sílaba -ter e pronunciando o c antes do t) nos contextos em que a palavra se refere a uma letra impressa, reservando o carácter (com tónica na penúltima sílaba e c mudo) para as situações em que designa “personalidade”. O mesmo sucede, aliás, com a suposta “rúbrica”, a “assinatura” (que na verdade não existe), que seria diferente de rubrica (tema de um artigo ou programa). Por outras palavras, parece que os falantes não gostam que haja uma palavra com significados diferentes, arranjando maneira de a desdobrar em duas palavras distintas, cada uma com o seu sentido.

E há mal nisso?

Haver mal não há. Mas é no mínimo desconcertante, para os que usam o termo “caracter”, descobrir que, afinal, ele não existe na língua que falam. E é igualmente desconcertante, para os que têm a função de esclarecer os outros, verem-se a tentar persuadi-los de uma verdade que é pouco convincente, se não mesmo inconveniente.


03 novembro 2008

Cordelinhos à portuguesa



Um certo dicionário informava, na data em que escrevi esta nota, que esparguete era «forma vulgar e incorrecta de espaguete». E esta, hein?
Se, por um lado, é contraditório (para não dizer absurdo) que um dicionário registasse uma grafia que os seus lexicógrafos entendiam ser incorrecta para determinada palavra, por outro lado, perante esta informação, o mínimo que podíamos fazer seria procurar saber mais sobre o aportuguesamento do italiano spaghetti. Estará ao nível da “mortandela”?
Outro dicionário apresentava uma definição para esparguete: «CULINÁRIA massa de sêmola de trigo em forma de cilindros compridos e delgados» e acrescentava a seguinte informação etimológica: «Do it. spaghetti, «id.» ´espargo».
Curioso... repararam naquele “espargo” no final? Eu também! E o que têm os espargos que ver com esparguete, para além de haver uma óbvia semelhança na forma desses dois vocábulos?

Spaghetti é o plural de spaghetto, que por sua vez é o diminutivo de spago, cujo significado é «cordel». Spaghetti significa, portanto, à letra, «cordelinhos». Ora, como sabemos, de um cordel a um espargo vai alguma distância... tanto mais que, segundo a Infopédia, a palavra espargo vem do grego aspáragos, por via do latim asparàgu-, com o mesmo sentido.
O termo italiano spago, tanto quanto pude apurar, tem uma origem distinta, embora, curiosamente, no seu étimo houvesse também um “r”: era spartum. Em todo o caso, fica por explicar a alusão ao “espargo”.. é que dessa explicação depende a decisão de considerar ou não erróneo o “r” que nos apareceu no espaguete. E este, enquanto espera, vai arrefecendo!...


Nota: Passado algum tempo, voltei ao dicionário em linha que aludia a "espargo" na etimologia de esparguete e essa alusão tinha desaparecido sem deixar rasto!

30 outubro 2008

desfasamento e não “desfazamento”


Quem não hesitou já na grafia de palavras que incluem o som consonântico /z/, cuja representação gráfica tanto se faz por meio da letra s como do z propriamente dito (e escrito)?

Não falo de “cazas”, nem de “coizas” – palavras em relação às quais só quem acaba de aprender a escrever tem dúvidas. Mas entre os cozidos (ao lume) e os cosidos (com linha e agulha), já há muitos adultos que param para pensar. Ou, pior, que não param e escolhem a letra errada, sem darem por isso.

E o “desfazamento”? É uma tentação a que cada vez mais portugueses têm cedido!

Mas se desfasar é «desordenar as fases» (des + fase + ar), não há motivo para enganos. Afinal, quantos de nós escreveríamos “faze” em vez de fase?

28 outubro 2008

Prémio N[ó]bel ou Nob[é]l?

Bem sabemos que a pronúncia que por aí “grasna” é: N[ó]bel. Mas há duas boas razões para a pronúncia ser Nob[é]l:
1. Trata-se de uma palavra aguda, isto é, tem acento tónico na última sílaba, tal como: papel, anel, animal, etc. Se nobel tivesse a tónica na sílaba no, teria de ter obrigatoriamente acento gráfico na vogal o (reparem que, por exemplo, túnel tem acento no u).
2. A segunda boa razão é a etimologia: Nobel é o nome do senhor sueco – Alfred Nobel – que instituiu o prémio, e a pronúncia original deste apelido era precisamente Nob[é]l.

22 outubro 2008

O mal-aventurado verbo PRECAVER


O verbo precaver, que deriva do latim (praecavere), não está conjugado da mesma forma – PASMEMOS! - nos diversos dicionários de verbos portugueses. Não sendo dependente do verbo ver, do verbo haver, nem do verbo vir, a sua flexão suscita dúvidas e há controvérsia entre os linguistas.

Uns consideram que precaver é um verbo defectivo, só se conjugando nas formas em que a sílaba tónica está depois da raiz (tendo apenas duas flexões no Presente do Indicativo: precavemos e precaveis) e nenhuma no Presente do Conjuntivo. Outros, porém, defendem que precaver se pode conjugar em todos os tempos e pessoas, pelo que o Dicionário dos Verbos Portugueses da Porto Editora, assim como o Priberam (Texto Editores) apresentam formas como (eu) “precavo”, (tu) precaves, (que ele) “precava”.

Pessoalmente, não me agrada nada esta falta de coerência entre os dicionários, assim como não me convencem as formas “precavo”, “precava”, etc., que, apesar de estarem atestadas, não se usam.

Aconselharia, portanto, a substituição de precaver pelo verbo prevenir, sempre que o tempo/modo ou pessoa/número dão lugar à controvérsia.

20 outubro 2008

Ginginha ou ginjinha?


Não foi por ter bebido demasiado
do licor que dá nome ao estabelecimento
que ficou tudo turvo, desfocado,
mas por estar o carro em andamento!

Talvez aquele que escreveu,
tenha, sim, bebido uma garrafinha!
Porque, se é da ginja que deriva,
então, só pode ser ginjinha!

16 outubro 2008

Sofrerão os portugueses de falta de criatividade linguística?



A propósito de um artigo de Manuel Gonçalves da Silva, publicado no Diário Económico, cujo conteúdo subscrevo na íntegra e cuja leitura recomendo, chego a esta conclusão: falta-nos ousadia e criatividade no que toca ao uso da língua.

Que somos (cada vez mais) servis na adopção de estrangeirismos é inegável, é evidente. Ora são as pens, os downloads, os sites e os browsers, ora são os piercings, os liftings, os brushings, mas também os “graffitis” (este plural duplo é de arrepiar), os gangs, o shopping, o jogging, o mailing, o briefing, eu sei lá. Só sei que o inglês fica a ganhar falantes e, dentro do inglês, os nomes terminados em –ing são os mais populares.

E porquê?

Por preguiça mental, por incapacidade de tradução, por se fazer gala em usar termos estrangeiros (fica tão bem saber falar estrangeiro...) - muitas vezes incompreensíveis para quem ouve - mas decerto também por falta de imaginação e até por falta de ousadia.

O “elevator pitch” de que fala o autor do artigo é, realmente, uma expressão difícil de traduzir. Trata-se de uma exposição muito rápida de um projecto, com o objectivo de conseguir que o interlocutor – um financiador – se interesse por ele. O nome vem da circunstância de, tipicamente, estes mini-discursos de argumentação acontecerem nos elevadores, quando os jovens empresários tinham a oportunidade de encontrar um possível financiador e apenas 30 segundos, mais coisa menos coisa, para os tentar convencer a apoiar os seus projectos. Lembram-se de um programa da RTP2 chamado Audax? Era mais ou menos isso.

Então, hoje, em Portugal, chama-se (pasmem) elevator pitch a uma exposição desse tipo. Mas será assim tão difícil encontrar uma expressão válida em português para designar a mesma coisa? Que tal “apresentação-relâmpago”? A mim parece-me bem. Sugestivo e eficaz.

O problema é que não pega. Porque os portugueses não gostam de falar a sua língua, ao que parece...

14 outubro 2008

O que será melhor?

«É bom que ele se precaveja»

«É bom que ele se precava»

ou

«É bom que ele se previna»?

09 outubro 2008

Aguando e desaguando



Que os rios desaguam no mar, já toda a gente sabe. Talvez seja esse o significado mais óbvio e imediato do verbo desaguar: vazar ou lançar as águas.


Mas desaguar também tem um outro sentido, essencialmente popular e porventura característico de determinados falares regionais: trata-se de «dar alguma coisa a comer (a crianças ou animais) para não aguardarem», segundo o Dicionário on-line Texto Editores.


«Toma lá um pedacito de pão, para desaguares», diz a avó para a neta. E faz todo o sentido: se quando estamos cheios de fome e, à vista da comida, até ficamos “com água na boca” (saliva, pois claro); esse pedaço de pão serve precisamente para a enxugar – ou desaguar! Afinal, o prefixo des- acarreta o sentido de “acção contrária”. Neste caso, o contrário de aguar.


E por falar em aguar e desaguar, vou mas é almoçar!

06 outubro 2008

Borradas e burradas


Em linguagem coloquial, diz-se por vezes que alguém fez uma burrada/borrada, quando o resultado da sua acção é desastroso ou pelo menos lamentável. E como se trata de um termo que se diz muito mais do que se escreve, surgem as dúvidas quando pretendemos registá-lo.

No dicionário Priberam (Texto Editores), borrada é «derramamento de borra; borratão; sujeira; porcaria; acção indecorosa». Mas também lá consta burrada, que além de designar um conjunto de asnos («burricada»), significa (em linguagem popular) «asneira, tolice, asnice». E há ainda, como sabemos, o termo burrice, que é «estupidez, asneira», além de «teimosia; casmurrice; amuo».

Conclui-se, portanto, que ambos os vocábulos são válidos para designar uma asneira, dependendo da asneira em si e do nosso ponto de vista sobre ela.

A borrada aplica-se à asneira resultante de um derramamento que causa sujidade (tinta, por exemplo); a burrada aplica-se simplesmente à parvoíce. Ora, bem vistas as coisas, se nem todas as burradas são borradas, quase todas as borradas são também burradas... ou não?!

01 outubro 2008

O privilégio e os privilegiados

Quem esteja disposto a pagar bem para ver o espectáculo "Cavalia" poderá optar por «LUGARES PRIVELIGIADOS» - é o que está escrito no portal www.cavalia.pt, na página relativa à compra de bilhetes.

Canso-me de ver este adjectivo mal escrito, mas ele não se cansa de aparecer. Parece que há muita gente que conhece a palavra "privelégios"... E também há os que preferem os "previlégios" e se referem aos "previlegiados"!

O substantivo privilégio, do latim privilegiu, sempre se escreveu assim. Naturalmente, o adjectivo dele derivado é privilegiado, também com dois is antes do e. Mas estas são daquelas palavras que nos pregam partidas quando menos esperamos, porque a forma como as pronunciamos não corresponde à sua grafia.

Cuidado, portanto, ao escrevê-las... não vá o erro tecê-las!

29 setembro 2008

"Prequela"???

Um destes dias perguntaram-me se conhecia a palavra "prequela", supostamente o oposto da sequela.
Admiti a minha ignorância, fazendo uma nota mental para verificar se os dicionários que consulto já a registavam. Mas antes de ir ao dicionário, lembrei-me de abrir o Ciberdúvidas, esse valiosíssimo manancial de perguntas e respostas sobre a língua portuguesa.
Verifiquei, com agrado, que os seus consultores repudiavam a existência de tal termo em português, chamando-lhe «mamarracho» e condenando a sua importação do inglês.

Percebo que, para quem usa jargão televisivo por motivos profissionais, a palavra "prequela" seja prática, sobretudo para traduzir rapidamente esse neologismo inglês, prequel, tão em voga actualmente a propósito dos filmes cujo enredo consiste numa analepse relativamente à história contada em filmes anteriores.

Mas concordo com o Ciberdúvidas: tem de haver limites para a ignorância e a preguiça que insistem em desvirtuar a nossa língua!

25 setembro 2008

“Mortadela” ou “mortandela”?




Há dias falei-vos do meu problema existencial relacionado com a grafia e a pronúncia da palavra espargata.

Hoje, com alívio - por se tratar de um equívoco que não é meu - partilho convosco a constatação de outro erro do mesmo género: a "mortandela". Conhecem-na?

O que será que faz com que algumas pessoas tornem nasal o a que se segue ao t na palavra mortadela, que deriva do italiano mortadella e portanto nunca se escreveu com n?

Talvez seja o m inicial, como acontece com "muinto" (que eu também digo), por exemplo, em que o m contamina a pronúncia do ditongo que se lhe segue, tornando-o nasal. É até difícil pronunciar a palavra muito como deve ser, a menos que estejamos com o nariz entupido ou tapado. Mas curiosamente, "mor-tan-de-la" custa mais a dizer do que "mor-ta-de-la"... É como as "chauchichas" em vez de salsichas!

A mim, "mortandela" soa-me a mortandade, ou, pior, parece "morta anda ela", o que é mau de mais para estabelecer qualquer relação entre o enchido e esse nome adulterado. O que me vale é que, como nem sequer gosto de mortadela, não perco muito tempo a pensar nisso!


24 setembro 2008

SOS na Livraria Almedina

Encontros PEDAGOGIA / EDUCAÇÃO
Organização: Luísa Araújo e Almedina


26 de Setembro, às 19:00 horas

Com Sandra Duarte e Sara Leite

Instituto Superior de Educação e Ciências


Como se pronuncia a palavra “intoxicação”? Escreve-se “concerteza” ou “com certeza”? Qual a diferença entre “descriminar” e “discriminar”? Afinal, “ter matado” existe?

O guia SOS Língua Portuguesa pretende ser uma resposta a pedidos de “socorro linguístico”, fornecendo esclarecimentos imediatos sobre a forma como se deve falar e escrever em português: seja em termos de pronúncia, ortografia, vocabulário, flexão de palavras ou construção de frases. Nesta sessão, as autoras propõem-se abordar alguns dos aspectos mais críticos no uso da língua portuguesa: aqueles que suscitam dúvidas e erros frequentes. Trata-se de um conjunto de esclarecimentos que interessam a todos os que têm vontade de falar e escrever melhor, e sobretudo aos que são comunicadores por profissão.


Livraria Almedina: Atrium Saldanha, loja 71, 2º piso, Lisboa.

23 setembro 2008

Cuidado com a Língua: 2 em 1



Para quem gosta de ver o programa da RTP e também para quem gostaria de poder ter visto a primeira série e não pôde, eis uma boa notícia: foi lançado no mercado o livro com o mesmo título, que inclui um DVD com os primeiros treze episódios.

O lançamento, que contou com a inspirada - e inspiradora - participação do Professor Carlos Reis, foi um evento memorável. "A descoberta de um mundo de palavras que nos faz apaixonar pela língua portuguesa" através da leitura desta obra é a actividade que aqui sugerimos desde já.

22 setembro 2008

Apóstrofos e tecidos



Há muito tempo que os Portugueses revelam uma certa aversão, ou medo, ou ambos, de colocar os estrangeirismos no plural.
Quer se trate de collants, de boxers, de placards ou de bibellots, três em cada cinco portugueses optam por deixar o "s" do plural à margem do resto da palavra, destacando-o com um estiloso apóstrofo: "collant's", "boxer's", "placard's" e "bibellot's". Que é como quem diz: "eu sei muito bem que esta palavra é estrangeira e por isso não pode ficar como as nossas quando está no plural".
O uso de siglas e acrónimos confirma que o apóstrofo veio para ficar na nossa língua: agora proliferam os CD's, os DVD's, mas também os ATL's e os BI's. E o apóstrofo ri-se de todos os puristas que pretendem erradicá-lo do uso comum.
Quanto ao "tirilene", trata-se de um dos mistérios da língua portuguesa. Eu já vi "terilene" e "tirilene" muitas vezes, mas infelizmente nem os dicionários, nem a Mordebe, nem o Ciberdúvidas, nem o Corpus do Português me esclarecem sobre a existência e o significado dessa palavra em português...
No entanto, e em abono dos lojistas que lidam com tecidos e se vêem obrigados a escrever os nomes dos seus diferentes tipos, devo dizer que me compadeço com eles, pela sua ingrata tarefa. Devem morder os lábios, olhar para o tecto, roer a caneta e quem sabe até verter umas gotas de suor em sinal da sua perturbação, cada vez que precisam de colocar na montra um aviso de promoção das calças de "tirilene" ou dos veludos "cotelês"...

17 setembro 2008

Da "esparregata" à espargata


Durante toda a minha infância e adolescência (se a memória não me falha...), sempre ouvi chamar “esparregata” à fantástica manifestação de flexibilidade que consiste em esticar as pernas em direcções opostas até se ficar sentado no chão, literalmente, com uma perna à frente e outra atrás – uma proeza que muito poucas meninas (nunca eu) conseguiam realizar no ginásio da escola.
Foi, pois, com enorme espanto e mesmo indignação que descobri, recentemente e por acaso, que afinal me tinham andado a impingir impunemente um erro fonético-ortográfico durante anos a fio. Por sorte, consegui encontrar algumas almas amigas que me fizeram sentir mais acompanhada, ao confessarem partilhar a minha ignorância.
Mais surpreendida fiquei ao constatar que o termo, de origem italiana, não está atestado na maior parte dos dicionários de língua portuguesa, com excepção do Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
Assim sendo, talvez eu ainda consiga fundar o clube-dos-otários-que-andaram-metade-da-vida-a-dizer-esparregata e reunir assinaturas para uma petição a favor da mudança da adaptação do estrangeirismo (será spargatta?) para esparregata, em nome da sanidade mental de um número incontável de portugueses.

15 setembro 2008

Avalanche ou avalancha?



...Que é como quem pergunta: omelete ou omeleta, camionete ou camioneta, equipe ou equipa, controle ou controlo?


São inúmeros os estrangeirismos de origem francesa na nossa língua – ou seja, os galicismos – e é frequente termos dúvidas sobre a terminação de palavras como estas.

Na maior parte dos casos, ainda é possível escrevê-las de ambas as formas – a original (terminada em e) e a aportuguesada (terminada em a ou o).

No entanto, e dado que o seu aportuguesamento é simples e eficaz, recomenda-se o abandono das formas terminadas em e. Assim, prefiram-se as omeletas, as camionetas, as equipas e o controlo.


... Porém, nas opções que dizem respeito à língua – como em todas as outras – nem sempre a razão fala mais alto do que a emoção. Eu cá, nem sei porquê, digo equipa e camioneta, mas gosto mais de omelete e de avalanche. Quanto ao controle/o, desde que não seja “control”, tanto me faz!

12 setembro 2008

Chocolatoterapia ou chocoterapia?


No Google encontramos 18 ocorrências (páginas de Portugal) de chocolatoterapia, contra 1700 de chocoterapia.

Agora eu pergunto: o que é mais correcto: chocoterapia ou chocolatoterapia?

Pensem, pesquisem e participem!

09 setembro 2008

interpelar e interpolar

Eis duas palavras muito usuais, que, dada a sua semelhança gráfica, podem suscitar dúvidas a qualquer um de nós.
Interpelar significa «dirigir a palavra a alguém (por vezes, de uma forma brusca, inesperada) para lhe perguntar alguma coisa, interrogar.» Por exemplo: o turista interpelou o polícia para saber onde ficava o museu.
Interpolar, por sua vez, significa «meter uma coisa no meio de outra; intercalar», por exemplo: para que o trabalho ficasse mais bonito, decidimos interpolar umas imagens coloridas.

O erro que se verifica muitas vezes é o uso do verbo interpolar em vez de interpelar. Lêem-se com frequência na imprensa frases como «o jornalista interpolou o Primeiro-Ministro sobre...», quando o correcto seria «o jornalista interpelou o Primeiro-Ministro sobre...».

Cuidado com as aparências!

05 setembro 2008

Vírgulas II

Entre orações, a vírgula deve usar-se para:

a) separar orações coordenadas assindéticas (sem conjunções a ligá-las)

E pelos vistos foi essa tal de Glória que o provocou, disso não tenho dúvidas.“ (BG)

b) separar orações coordenadas sindéticas (com conjunções a ligá-las), excepto as introduzidas por e

Você falou em matar o homem, mas aí é que tudo se complica, porque não se trata de um homem qualquer.” (BG)

c) isolar uma oração intercalada (inseridas entre os elementos de outra oração)

“Não sou perito em arte e antiguidades, mas aquela peça, caso fosse verdadeira, era de certeza dos finais do Século XVIII e valeria uma pequena fortuna.” (BG)

d) separar orações subordinadas, com excepção das integrantes*

Mal entrei em casa, o telefone tocou.” (BG)

e) isolar as orações relativas explicativas (as que fornecem informação suplementar, que pode ser omitida da frase)

O seu último artigo, cujo título é “Forças Armadas — Do haver ao Existir, parece-me muito interessante.

f) para separar as orações reduzidas:

- gerundivas

“Pôs fim aos privilégios das farmácias, abrindo o negócio à concorrência.” (PE)

- infinitivas

“As perdizes chegaram, a fumegar.” (CPM, p.92)

- participiais

Agarrado às suas câmaras e ao seu vetusto ampliador, fazia maravilhas.” (E)


* É o caso de que e se, quando estas conjunções introduzem o sujeito ou complemento de verbo. por exemplo nas frases Ele perguntou-nos se iríamos votar, Que votar é um dever já eu sei e Nós respondemos-lhe que sim. Nestes casos, não é correcto usar vírgula para separar as orações.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

E – “Encontro” (conto não publicado)

PE – “Presente envenenado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)


03 setembro 2008

Passo a outro e não ao mesmo!



Desde as mais delirantes (“passa-se”) às mais poéticas (“procuro novo dono”), passando pelas mais elípticas (“trata”) e pelas mais prosaicas (“vendo”), existem mil e uma maneiras de anunciar publicamente, em português, a nossa intenção de negociar um bem móvel ou imóvel.

É só usar a imaginação!


01 setembro 2008

Vírgulas I


Durante as férias, um dos nossos leitores pediu-nos que abordássemos as regras para o emprego da vírgula. Esperamos que este texto seja suficientemente esclarecedor. Se não for, já sabem o que fazer...!


As vírgulas, ao contrário do que muita gente pensa, não servem simplesmente para marcar na escrita as pausas curtas do discurso oral. Se assim fosse, seria correcto colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma frase, o que quase toda a gente sabe que não se deve fazer!

Ora, o uso da vírgula deve ser criterioso, tanto no interior das orações como na ligação entre estas, nas frases complexas.


No interior de orações, a vírgula serve para:

a) separar elementos que têm a mesma função sintáctica (elementos de uma enumeração)

“Os edifícios do quartel, casernas, refeitório, cantina, campos de jogos e outras dependências (...) foram sendo construídos a pouco e pouco (...).” (CPM, p.10)

b) isolar o aposto explicativo (grupo nominal ou adjectival que fornece informação adicional sobre um nome)

”Arthur foi sempre um sahib, filho de sahib, acima de qualquer casta indiana.” (CPM, p.37)

c) isolar o vocativo (palavra ou expressão que usamos para interpelar alguém)

“Cometemos um pequeno erro, rapaz.” (BG)

d) separar palavras repetidas, por uma questão de ênfase

“A mulher falava, falava, falava...” (CPM, p.25)

e) separar o adjunto adverbial, sobretudo quando antecipado

Como de costume, em casa do pequeno Carlos o almoço decorria em silêncio.” (D)

f) separar o nome do local dos elementos de uma data

Cascais, 2 de Outubro de 1974.” (CPM, p.183)

g) indicar a supressão do verbo, no meio de uma oração

Galinha, só em datas festivas.” (D)

h) isolar uma expressão explicativa

Os macacos são omnívoros, isto é, alimentam-se de vegetais e animais.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

D – “O Desgraçado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)

30 julho 2008

Reduzir o máximo ao mínimo




Da fusão entre duas ideias - reduzir algo o máximo possível e reduzir algo até à mínima dimensão possível - resulta uma expressão infeliz e incoerente: "reduzir ao máximo".

O que se deve dizer e escrever, portanto, para transmitir as ideias acima mencionadas (ou apenas uma delas), é:

REDUZIR (alguma coisa) O MÁXIMO possível

ou

REDUZIR AO MÍNIMO (alguma coisa).


Portanto, devemos reduzir o máximo possível o consumo de substâncias nocivas para o organismo, ou seja, reduzir ao mínimo o consumo das mesmas.

Resta-nos desejar a todos os leitores umas excelentes férias (se for esse o caso) e despedirmo-nos com este pedido: não se esqueçam de voltar em Setembro!

23 julho 2008

DESAFIO



No dia 4 de Julho, podia ler-se esta frase no Correio da Manhã:


«O primeiro-ministro José Sócrates reduziu ao máximo os compromissos governamentais para ficar ao lado do irmão, António Pinto Sousa, 45 anos, internado em estado grave na Corunha, Espanha, para ser submetido a um transplante pulmonar.»

Desafiamos os leitores a descobrirem o erro que nela está presente.

18 julho 2008

“Apartir” não é português correcto

Se a memória não me falha, houve há tempos um anúncio na rádio em que uma professora pedia aos alunos que formassem «frases com o advérbio “a partir”». E eles diziam, por exemplo, «a partir de amanhã, etc., etc. ...»

Ora, nem “a partir” é um advérbio, nem o uso do artigo definido (o) é apropriado para nos referirmos a essa expressão, porque sugere que se trata de uma palavra só.

Na verdade, “a partir de” (com a preposição de incluída), e é uma locução prepositiva (e não adverbial). E não existe, em português, nenhuma palavra com a forma: apartir, portanto não há confusão possível!

16 julho 2008

Garante e garantia



Um dos substantivos que estão claramente na moda é o garante.
Trata-se de um galicismo (proveniente do francês, garante) que designa uma pessoa: um fiador, alguém «que dá garantia, fiança ou caução» (Dicionário Priberam). Todavia, o que está na moda não é usar a palavra com esse sentido, mas empregá-la com o significado de garantia. Por exemplo, na frase “A formação dos jovens tem de ser garante da sua competência profissional.”
Confesso que não me agrada muito. se a velha garantia serve perfeitamente o mesmo objectivo “(A formação dos jovens tem de ser garantia da sua competência profissional”), para quê criar outra palavra da mesma família? Faz-me lembrar o abandono de materialista por materialístico, ou a substituição de comércio por comercialização...


14 julho 2008

O bom do bem

Já repararam como bem é uma palavra aparentemente tão simples, mas tão rica de significados?

O advérbio bem tem o sentido de bastante, por exemplo na frase: «Hoje o bebé comeu bem». Também pode significar convenientemente: «Achas que vou bem com este fato?» E, se dissermos, «Estive doente, mas agora já estou bem», o sentido de bem já é mais próximo de em boas condições. E por aí fora...

Porém, a palavra bem pode ainda ser um substantivo, designando uma acção ou comportamento bom, solidário: quando se fala de «fazer o bem». Se distinguirmos entre o bem e o mal, estamos perante conceitos muito amplos, em que bem designa tudo o que é bom, positivo, agradável, justo, recto, conforme a moral. E um bem ainda pode ser material, algo que normalmente se usa no plural e que corresponde à propriedade de alguém: os seus bens. E no Brasil, «meu bem» é expressão que se usa para falar com alguém querido, o mesmo que «meu amor».

Mas há mais! Bem pode ainda ser um interjeição e é aí que os seus sentidos são mais difíceis de definir, variando conforme a entoação que lhe damos. Em tom crescente, mas com hesitação, é uma daquelas “muletas” que nos apoiam enquanto escolhemos as palavras que diremos depois: «O que é que eu vou fazer nas férias? Bem... (ou seja, aaah)... passear, ler, descansar!»

Com entusiasmo, enquanto aplaudimos, «Bem!» pode ser o mesmo que «Bravo!». Se, no entanto, dissermos «Beeeeeem!» com uma cara espantada, exprime admiração, sobretudo entre pessoas jovens, talvez de zonas urbanas de Portugal. Por exemplo neste contexto: Fizeste esse desenho sem copiar? Beeeeem! Tens muito jeito!»

E também há o «Bem!» que significa que estamos zangados... o mesmo que «Mau!», curiosa e paradoxalmente. Imaginem a irmã mais velha para o mano impertinente, que ameaça rasgar-lhe um caderno: «Bem! Se voltas a fazer isso vou dizer à mãe!»

Finalmente, há quem diga «Bem!» com um ar sério, a meio do discurso, para suspender a narração de um facto impressionante. Trata-se de uma exclamação propositadamente ambígua, julgo eu, que visa prender os ouvintes, que não sabem se o que se vai dizer a seguir é bom ou mau: «Ontem fui àquele restaurante novo que tem feito tanto sucesso. Bem!...» (Como quem diz «Oiçam!») E o que se segue tanto pode ser «...que maravilha!!» como «...que desilusão!».

Incrível, não é?

10 julho 2008

Plural de líder



Cada vez mais jornalistas e apresentadores de informação pronunciam o plural de líder (líderes), como “lidrs” em vez de “líders”. Porquê?

06 julho 2008

A norma e o riso

Uma das questões de fundo que me pareceram mais interessantes no Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC foi esta: afinal, que sentido faz, hoje, falar de norma linguística?

Uma das conferencistas, Ana Maria Martins, advogou o fim da norma, pelo menos tal como foi definida no século XVIII por um conjunto de homens letrados, para quem o uso correcto da linguagem era aquele que dela faziam os membros da corte. E é fácil concordar que tal conceito de norma é, efectivamente, elitista e anacrónico.

Contudo, ao retirarmos da definição o aspecto mais desfasado da sociedade actual (o facto de ser a linguagem falada na corte), a noção de norma não se torna menos vaga e continua a ser discriminatória, porque elege como padrão a variante falada pelas classes ditas “cultas” do eixo Lisboa-Coimbra. Afinal, o que são as classes cultas, quando a cultura é um conceito tão abrangente (não há nenhum ser humano, afinal, que não viva segundo uma cultura)? E por que razão o "eixo Lisboa-Coimbra" e não o Porto, ou apenas Lisboa, ou apenas Coimbra, ou mesmo outra cidade?

Finalmente, ficaram no ar as questões principais: será que precisamos assim tanto de uma norma, nos dias que correm? Se sim, como é que poderemos definir norma de uma maneira mais democrática e actual?

Telmo Móia deu uma resposta curiosa: a norma pode ser definida de acordo com os limites do risível, ou seja, o que fica de fora é aquilo que faz rir os falantes, que encaram de imediato como ridículos, estranhos ou inadequados os usos que ultrapassam aquilo que eles, consciente ou inconscientemente, consideram correcto ou aceitável.

Assim, é o contexto, a cultura, o saber linguístico de quem comunica que determina o que é a norma. Dizer “fiz-o” em vez de fi-lo, ou “há-des” em vez de hás-de pode ser completamente desviante ou perfeitamente aceitável, dependendo dos falantes que empregam e ouvem estas estruturas.

04 julho 2008

Mais bem: um bicho-papão

Hoje em dia, parece provocar pânico geral o uso da expressão «mais bem», pelo que muita gente opta pela solução que considera mais correcta, mais segura, mais elegante, até: «melhor».
Nada contra o uso desta forma. Mas também nada contra o uso da primeira.

«Melhor» corresponde ao comparativo de superioridade do adjectivo bom e do advérbio bem. Trata-se de uma forma irregular (tal como maior em relação a grande).
O adjectivo bom não admite a forma regular do grau comparativo e superlativo (*mais bom do que, *o mais bom), razão pela qual a gramática dispõe apenas da forma irregular melhor:

(1) a. Este creme é bom, mas esse é melhor.
b. *Este creme é bom, mas esse é mais bom.

Contudo, o mesmo não acontece com o advérbio bem, que admite ambas as formas – melhor e mais bem – dependendo do contexto linguístico em que ocorre. Ora vejamos:

1. Quando o advérbio bem modifica um verbo, pode (e deve) usar a forma irregular do comparativo:

(2) a. O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come melhor.
b. *O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come mais bem.


2. Quando o advérbio bem modifica um adjectivo participial, ou seja, um adjectivo que provém do Particípio Passado de um verbo, como informado, preparado, classificado, etc., já não deve flexionar no grau comparativo ou superlativo irregular:

(3) a. Estes alunos estão mais bem preparados do que os outros.
b. *Estes alunos estão melhor preparados do que os outros.

Um forte argumento a favor desta regra são os particípios irregulares, como escrito, feito, dito, posto, cujo uso não suscita quaisquer dúvidas:

(4) a. Este texto está mais bem escrito do que o primeiro.
b. *Este texto está melhor escrito do que o primeiro.

Curioso é o facto de ninguém hesitar no uso desta forma regular com o particípio passado do verbo passar – passado!
Ou porventura, sentados à mesa de um restaurante, pedem ao empregado o bife "melhor" passado?!

Nota: O asterisco * significa que a frase é agramatical.

02 julho 2008

Fazer ou desfazer a barba?!


Há dias, ouvi na rádio M80 esta curiosidade: Prince inventou a canção “Cream” quando estava ao espelho, a desfazer a barba.

De imediato, repeti em voz alta, em tom de interrogação: «desfazer a barba»? Tentei lembrar-me de outras ocasiões em que tivesse ouvido ou lido a expressão, em contextos em que o seu significado fosse esse que normalmente atribuímos à paradoxal combinação “fazer a barba”, ou seja, eliminar os pêlos à vista na face. Não me ocorreu nenhuma.

Depois, surgiu-me a dúvida: afinal, o que é que os dicionários atestam: fazer ou desfazer a barba?

O Priberam e a Infopédia não apresentam essa colocação sob a entrada barba. Mas o Dicionário Houaiss, assim como o Ciberdúvidas, esclarecem que a expressão que se deve usar é mesmo fazer a barba, o mesmo que barbear. E este outro verbo, reparem, também acaba por ser paradoxal: porque barbear poderia significar, logicamente, tornar barbudo!

Resta saber se a locutora da M80 estava a brincar com as palavras ou se teve a intenção de falar correctamente, aplicando, porém, a hipercorrecção ao seu discurso. Afinal, se Prince tivesse estado a desfazer a barba ao espelho, teríamos de o imaginar a tentar destruir os pêlos da sua barba (já feita), qual criminoso a apagar uma pista, porventura queimando-os ou diluindo-os em ácido!


Fica a advertência: cuidado com a lógica, porque nem sempre se aplica à língua!

30 junho 2008

A língua em foco


Está a decorrer o Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC.
Trata-se de um conjunto de comunicações, acompanhadas de debates, que decorre hoje, dia 30, e amanhã, dia 1 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O tema - Discurso, Diversidade e Literacia: A Língua Portuguesa no Século XXI, - dá "pano para mangas". Desde a «complexidade da escrita e dos desafios que coloca ao leitor» até à crítica de estrangeirismos aparentemente absurdos que se vêm insinuando na nossa língua, passando por um levantamento de curiosíssimas palavras distintas para nomear uma mesma realidade (um pirilampo, um girino...), de acordo com diferentes regiões de Portugal (e diferentes visões do objecto), hoje houve oportunidade para que linguistas e membros da assistência partilhassem as suas preocupações e ideias sobre a riqueza, a complexidade e a diversidade da língua, sobretudo (mas não só) no que toca ao léxico. O Acordo Ortográfico não ficou de fora, como não podia deixar de ser, numa discussão deveras interessante, em que as intervenções do público não ficaram atrás das brilhantes comunicações.

Se quiserem e puderem ir até lá, ainda há cadeiras vagas... mesmo para quem não se inscreveu!

24 junho 2008

Gente Gira... com erros



As histórias de Luísa Ducla Soares, prolífica autora de livros infanto-juvenis, são para mim das mais divertidas, interessantes e bem escritas que se publicam actualmente em Portugal.

Contudo, não posso deixar de usar um dos seus livros, cujas incorrecções ortográficas me saltaram hoje à vista, como pretexto para escrever aqui umas linhas.

Trata-se do livro Gente Gira.
Na história "O Homem das Barbas", há um "avôzinho". Sendo uma palavra grave, cuja sílaba tónica é -zi-, avozinho não pode levar acento circunflexo no o subtónico, tal como acontece com avozinha e com sozinho.
No conto "O Senhor Pouca Sorte", há um ladrão que lhe assalta a "dispensa". Ora, a dispensa é o acto ou efeito de dispensar. O local onde se guardam os alimentos é a despensa.
Finalmente, na última página do mesmo conto, o protagonista come um "perú", que na verdade dispensaria o acompanhamento. É que peru, sendo palavra aguda terminada em u, não precisa de ser acentuada graficamente. Afinal, quem é que a leria como "pêru" ou "péru"?

Enfim, não é nada de muito grave e todos nós podemos ter deslizes de vez em quando. Mas a editora (Livros Horizonte) pode e deve emendar estes erros numa próxima edição!