11 dezembro 2012

Salada de fruta ou salada de frutas?

Salada de fruta.

O nome fruta deve estar no singular, porque é um nome coletivo; designa um conjunto de frutos. Apesar da sua forma singular, os nomes coletivos designam um conjunto de seres ou objetos da mesma espécie: rebanho, cardume, pinhal, pomar, papelada, turma, equipa, júri, constelação, bando, etc.

20 novembro 2012

Quem foi o primeiro "doutor da mula ruça"?


  Os dicionários esclarecem que a expressão “doutor da mula ruça” usada em registo familiar e em tom depreciativo, se aplica a «indivíduos que possuem um título ou um diploma, mas que não têm os conhecimentos de que se dizem detentores». Por extensão, a expressão “doutor da mula ruça” aplica-se vulgarmente ao chamado charlatão, aquele que tenta enganar os outros, fazendo-se passar por algo que afinal não é, neste caso, fingindo ser muito erudito.
  No entanto, a história que se conta sobre o 1.º doutor da mula ruça aponta para um significado da expressão um pouco diferente, quase oposto, que é o do homem que exerce a prática (e tem os conhecimentos) mas que não tem o diploma que o habilitaria oficialmente para isso.

  Então quem foi este doutor da mula ruça? De acordo com vários autores, houve um homem no século XVI em Évora, de nome António Lopes, que era conhecido como o “físico da mula ruça”, e exercia medicina sem possuir o grau de doutor. Acontece que este senhor tinha estudado em Alcalá de Henares, em Espanha, perto de Madrid. Mas uns dizem que por falta de dinheiro não pôde pagar o diploma, e portanto acabou por exercer sem ele; outros contam que obteve o grau de bacharel, mas havia certas reservas em relação à sua prática, porque não era doutor pela Universidade de Lisboa. Seja como for, o que acontece é que ele terá pedido ao rei D. João III, uma espécie de “equivalência”, como agora se diria (de bacharel, o grau que teria adquirido em Espanha, para doutor) ou, se quisermos, uma “creditação de competências”, como agora também se faz, ao abrigo do Processo de Bolonha, se considerarmos que ele não chegou a obter o diploma em Espanha, ainda que tivesse frequentado a Universidade. O que parece certo é que o Rei, a pedido deste António Lopes, solicitou ao físico-mor do reino, Diogo Lopes, que o examinasse para se avaliar a sua competência para exercer medicina. O resultado da avaliação foi positivo e há um registo no Livro de Chancelaria de D. João III que declara precisamente isso: «que António Lopes, físico da mula ruça, morador em esta cidade  me disse por sua petição que ele estudou nove ou dez anos no estudo de Alcalá» (excerto da carta régia de 23 de Maio de 1534).

  Portanto, fica a ideia de que este homem exerceu a profissão antes de obter oficialmente o grau academico, que solicitou esse grau por carta régia e não pela via normal, que seria um diploma da universidade, e que era conhecido como o “doutor da mula ruça”, talvez por se deslocar habitualmente numa mula de cor parda ou acinzentada. Não temos a certeza. Mas pelos vistos a sua actividade era contestada pelo facto de ele a exercer sem a mesma legitimidade que os outro físicos, o que o levou a sentir a necessidade de requerer o reconhecimento da sua competência. Algo que parece hoje novidade, mas que afinal não é...

24 outubro 2012

Ai, que confusão!


Se há um caso em que o A.O. vem confundir quem precisa de ler ou escrever certas palavras, além do clássico para que fica igual a para (leram com a pronúncia certa? Pára fica igual a para...), esse caso - que para mim é o piorzinho de todos - é o de interceção / interseção / intercessão. Não é uma confusão?
Quem queira escrever uma destas palavras vai ter de parar para pensar, a menos que esteja muito treinado, e talvez até grafá-las primeiro com as consoantes mudas, aparentemente inúteis mas muito jeitosas para ajudar a distinguir estes três parónimos:

interceção - ou intercepção, é o acto de interceptar, ou seja, de interromper alguma coisa
interseção - ou intersecção, é o acto de cruzar, ou de interseccionar - duas linhas, por exemplo
intercessão - que não tinha nenhuma consoante muda, é o acto de interceder, de intervir.

Esta alternância entre esses e cês pode realmente funcionar como uma armadilha... e as consoantes mudas ali estavam para nos ajudar a identificar a grafia certa em cada caso. Agora, teremos de nos resignar a visualizar uma consoante invisível, além de muda. Pela positiva, podemos encarar isso como uma confirmação de que, como se aprende no Principezinho de Saint-Exupéry, «o essencial é invisível aos olhos»...

15 outubro 2012

Sobre a palavra "piegas"


O adjectivo piegas pertence ao registo popular ou familiar, ou seja, é utilizado sobretudo nas situações em que estamos à vontade com o interlocutor, ou pelo menos em que pretendemos estabelecer uma certa familiaridade ou cumplicidade com quem nos ouve.

O significado é claramente depreciativo e prende-se com dois “defeitos”, por assim dizer, e que não estão necessariamente ligados com a ideia da lamentação ou do pessimismo. Por um lado, o exagero: piegas é excessivamente sentimental, revela sentimentos exacerbados, embaraça-se com coisas insignificantes, chora muito, ou assusta-se facilmente. São estas as possibilidades de significado da palavra piegas atestadas nos dicionários de língua portuguesa. Por outro lado, transparece desses sentidos também a questão do ridículo: uma pessoa piegas torna-se risível, porque tem uma postura patética, de certo modo imatura – e também é por isso que o significado da palavra é depreciativo.

A sua origem etimológica é obscura: José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, diz-nos que as hipóteses até agora levantadas não são convincentes. Em todo o caso, trata-se de um vocábulo relativamente recente na nossa língua, ele próprio acrescenta que não encontra vestígios muito anteriores ao século XIX. E cita uma das primeiras ocorrências do termo na escrita literária, que como não podia deixar de ser é de Camilo Castelo Branco (1868). No romance A Filha do Arcediago, no cap. 4, p. 31,  o narrador faz este comentário, que José Pedro Machado cita no dicionário: « O que elle sentia então, se eu podésse sentil-o agora, escreveria tres volumes em quarto, que o leitor me compraria, e a minha reputação de piegas amoroso estava feita.»

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa tem uma entrada para o antepositivo pieg-, que segundo esta fonte constitui uma palavra «expressiva» e «isolada em português». Diz-nos também que, embora as primeiras documentações sejam do século XIX, rapidamente deu origem a várias palavras com a mesma raiz: piegueiro, pieguento, pieguice, pieguismo e pieguístico. Vê-se, então, que é uma palavra bastante popular e que tem pano para mangas, como se costuma dizer, se quisermos usar todas as variantes…!

11 setembro 2012

Beijos, beijinhos e bjs


   É engraçado reparar na forma como os beijos se infiltraram na nossa linguagem quotidiana, a tal ponto que o substantivo parece ter dado origem a uma interjeição, se não nas gramáticas e dicionários, pelo menos na nossa cabeça. Quais são os portuguses que, hoje em dia, conseguem evitar despedir-se de alguém íntimo (de preferência) sem exclamar «Beijinhos!», que é como quem diz «Adeus!» de modo mais afectuoso e menos dramático? Poucos, certamente, sobretudo se considerarmos as gerações mais novas.
  Na oralidade, portanto, os beijinhos estão a ganhar terreno em relação aos tradicionais "adeuses" e aos cada vez menos (?) populares "tchaus", "txaus" ou "ciaos". Nos beijinhos que se escrevem, proliferam as variantes mais ou menos personalizadas: "beijinhos", "beijos", "jinhos", "jocas", "jokas" e, inevitavelmente, usam-se as reduções para SMS, "bjs" e "bjks", para não falar das onomatopeias, como "chuaks", e dos sinais mais ou menos crípticos que representam os ósculos, como "xxx". Depois existem as contradições como os "beijinhos grandes", que os puristas aproveitam sempre para corrigir.
   Em qualquer caso,  no meu entender, temos uma nova interjeição na língua portuguesa. Trata-se de uma palavra usada como expressão de um sentimento ou reacção, que condensa em si toda uma ideia e por isso é usada como holofrase, isto é, essa única palavra vale como todo um enunciado. É como quem diz: «então até logo, ou até outro dia, vou-me embora!». E a pessoa vira as costas, desliga o telefone ou envia a mensagem, depois de ter dito a palavra mágica da despedida, que de certo modo acaba esvaziada do seu sentido. Porque tendemos a dizer «beijinhos!» quando não temos a intenção de os dar.




07 setembro 2012

Língua à Portuguesa no FB



Criámos recentemente uma extensão deste blogue no Facebook, rendendo-nos à evidência de que assim chegaremos a mais gente e poderá haver uma maior interacção com os leitores/seguidores.
O desafio, obviamente, será conseguirmos colocar conteúdos relevantes nas duas frentes. Parece-me que o blogue deverá destinar-se aos textos mais longos, de carácter expositivo (para informações, reflexões e argumentações), e que na página no "FB" deverão entrar os conteúdos mais lúdicos e didáticos, como os desafios.
Corro o risco de tornar o blogue mais "cinzento" e maçudo, transferindo para o FB a faceta mais leve e brincalhona dos nossos textos. Não sei se os leitores daqui me farão o favor de ir até lá... alguns, provavelmente, até agradecem a oportunidade de nos seguir no grande portal social. Outros nem por isso. Mas não quero deixar de escrever neste blogue sob o pretexto de que o outro lado é mais interactivo. Tentarei, como já disse, separar os conteúdos e ir escrevendo nos dois sítios. Para já, e para melhor compatibilizar os dois recursos, vou usar o FB para deixar perguntas em jeito de desafio cujas respostas já foram publicadas no blogue nos anos que correram desde a sua criação, em 2007.

Um abraço virutal a todos e bom regresso ao trabalho, se for o vosso caso!

01 agosto 2012

Rinque e ringue

Sabem como se designa o recinto plano, próprio para a prática de patinagem artística?

(a) ringue
(b) rinque
A resposta correta é a alínea (b): rinque.
O substantivo rinque designa o recinto plano e resguardado para a prática de patinagem (do inglês rink).
O substantivo ringue designa o estrado quadrado, geralmente cercado por cordas, para a prática de boxe, luta livre e outros desportos (do inglês ring).
Tendo praticado patinagem artística durante anos, confesso aqui publicamente a minha ignorância sobre a designação correta do recinto próprio para a prática desse tão belo desporto!
Sempre a aprender!

23 julho 2012

Há mar e mar, há ir e voltar...


   Quem não se lembra desta sugestiva frase, que parece um provérbio pela concisão, pela sugestividade, pela rima?
   Tanto quanto pude apurar, não só não é um provérbio como nem sequer é de origem popular, embora tenha acabado por ficar na memória de muita gente, por causa da campanha de prevenção contra o afogamento nas praias portuguesas, nos anos 80, e tenha depois sido transmitida às gerações seguintes, como acontece com os adágios, que andam na boca do povo.
A frase é da autoria do poeta Alexandre O’Neill, que trabalhou em publicidade e a criou precisamente para essa campanha. Hoje, muitos portugueses conhecem de cor e aplicam este rifão, que chega a figurar em colectâneas de provérbios publicadas na Internet e que os meus alunos de 18, 19 anos conhecem, por "ouvir os pais a dizer".
É um bom exemplo de como uma frase sugestiva, associada a uma ideia forte, que toca as pessoas, pode ser consagrada, de tal modo que o seu significado ultrapassa o contexto em que foi usada inicialmente e ela se torna uma expressão fixa com um sentido aplicável em diversas situações. Talvez porque os portugueses sentem, tradicionalmente, o apelo do mar, esta é uma frase que não esquecemos. E hoje continua a usar-se como aviso, relativamente ao cuidado que devemos ter quando nos aventuramos no mar, ou talvez até noutro meio vasto e desconhecido, convidativo mas perigoso, onde é preciso ter cautela, para que as nossas idas tenham sempre um regresso.

12 julho 2012

Revista em linha: Cadernos do ECB


A todos os possíveis interessados, gostaria de divulgar a revista online Cadernos do ECB, cujo número V foi recentemente editado. Contém muitos artigos sobre diversas temáticas no âmbito da educação e do ensino, incluindo sobre o ensino-aprendizagem do Português, da escrita e da leitura.





Se gostarem, por favor divulguem!

05 julho 2012

Desafio lexical. Qual o termo correto: constrangedor / confrangedor? (a) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre constrangedor. (b) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre confrangedor.

21 junho 2012

Arguição ou arguência?



O que diriam, referindo-se ao "acto de arguir": a arguição da tese ou a arguência da tese?















Parabéns aos que escolheram arguição!
Desenganem-se todos os que, como eu, pensavam que se trata de sinónimos...
A palavra arguência não está atestada em português. Soa bem, mas não é necessária, dado que temos o substantivo arguição, proveniente do latim arguitione, cujo sentido original se prende com a ideia de criticar ou censurar - aquilo que faz o arguente.
"Arguência" poderia designar algo como "qualidade de arguente", como a paciência é a qualidade de paciente, ou a decência é a qualidade de decente. Seria um termo bem formado e aceitável, mas não se sentiu ainda necessidade de o consagrar.

09 junho 2012

Novo desafio

Mais algumas frases com problemas gramaticais para resolver... na minha opinião!

1 - Se eu soubesse que ele fugiria, tê-lo-ia preso à casota...
2 - O tic-tac dos nossos relógios biológicos é impossível de ignorar.
3 - À partida não deve existir dúvidas de que a norma é importante para todos.
4 - Com gozo e satisfação troceira, os amigos mostraram-lhe a surpresa.
5 - Um estudo sobre as separações entre jovens casais, mostrou que mais 60% ocorriam antes do 5.º ano de casamento.
6 - O ballet e a Opera eram os seus espectáculos preferidos.
7 - Ela entretem-se durante bastante tempo com livros e revistas.
8 - A homília foi longa, mas muito interessante e inspiradora.
9 - A parábola narra a história de um viajante que foi roubado e maltratado, tendo sido depois encontrado moribundo por um samaritano.

 


04 junho 2012

Nova caça ao erro

Em todas as frases que se seguem há erros gramaticais. Conseguem encontrá-los?


1. Comecei a acreditar que ele ía acabar por contar tudo.
2. O desenho estava melhor feito do que a primeira tentativa.
3. Como reagiriam se vissem um homem nú a correr pela rua?
4.Um homem perguntava aos outros se não achavam estranho que houvessem tantas pessoas a entrar para o prédio da esquina.
5. As mães das crianças puxavam-lhes pelos braços, para as afastarem dali.
6. Parecia ser uma mulher muito pedante, daquelas que atribui demasiada importância à sua própria pessoa.
7.Este tipo de repreensões já não é permitida nos colégios, por ser violenta e traumatizante.
8.95% das cirurgias estéticas foram realizadas em mulheres, o que vai de encontro à ideia de que elas se preocupam mais com a aparência.
9. Vou ter de decorar a lista de trinta pessoas que será convidada para o evento.
10. Quem acha que nas frases acima não há erros, engana-se.



29 maio 2012

Como fica "capitão" no feminino?



Capitão vem do genovês capitan, por sua vez derivado do latim capitanu-. Não existia, como é natural, o feminino, mas podemos dizer que a forma preferível talvez seja capitã, a mais provável e natural, caso tivesse havido essa evolução até aos nossos dias.
No que respeita a postos militares, porém, ainda perdura a tendência para os manter invariáveis quanto ao género. Assim, é usada a forma capitão para as mulheres, e é isto mesmo que atesta o recente Vocabulário Ortográfico Português, disponibilizado em linha no Portal da Língua Portuguesa.
Mas capitoa é forma que já se usou no passado, como capitaina. Hoje, porém, essas duas formas flexionadas de capitão parecem estar a cair em desuso.

18 maio 2012

Mais bom e mais mau?

   Muita gente dirá, sem reflectir, que "mais bom" e "mais mau" são formas incorrectas de usar o grau comparativo desses adjectivos. No entanto, não são. Tudo depende do contexto...    


   O comparativo regular "mais bom", ou "mais mau", pode e deve usar-se quando comparamos adjectivos diferentes (um das quais é bom ou mau) no mesmo ser ou coisa.

   Por exemplo: “ele é mais bom do que inteligente”.
   Nesta frase, teria outro sentido dizer “ele é melhor do que inteligente”. Porque o que pretendemos dizer é que ele possui a qualidade da bondade em quantidade superior relativamente à qualidade da inteligência e não que ele possui uma qualquer qualidade (indeterminada) que é superior à inteligência.

   Outro exemplo: posso referir-me a um cão que é “mais mau do que estúpido

   Ou seja, o cão revela, para mim, maldade em grau superior, relativamente à sua estupidez.
   Mais uma vez, usar o comparativo irregular - “o cão é pior do que estúpido” - implicaria uma ideia diferente.


 

04 maio 2012

"derivado a"... ou "devido a"?

A regência preferível do adjetivo participial derivado é “de”. Portanto, devemos dizer que algo é derivado de outra coisa, ou seja, que tem nela a sua origem – por exemplo, que o iogurte é derivado do leite.
Quando falamos de causas, devemos usar a expressão consagrada devido a, que é mais adequada, porque significa precisamente “por causa de”. O verbo dever, quando conjugado pronominalmente (dever-se), tem precisamente esse sentido, que é “ter como causa, ser resultado de”.
Derivar é um pouco diferente, porque pressupõe um produto que resulta de um processo de transformação de determinada “matéria-prima”, digamos.
Assim, quando explicamos o que provocou, por exemplo, um acidente, não devemos dizer que este foi derivado a um despiste, mas que foi devido a um despiste.

30 abril 2012

Qual a diferença entre uma sigla e um acrónimo?



 

Comecemos pelas semelhanças, para que melhor se perceba a diferença: tanto as siglas como os acrónimos são vocábulos constituídos pela junção das primeiras letras de várias palavras que compõem uma expressão.
Por exemplo: BTT, bicicletas todo-o-terreno; ATL, ateliê de tempos livres; AVC, acidente vascular cerebral; OVNI, objecto voador não identificado; TAC, tomografia axial computadorizada, ou computorizada; LASER, que é um empréstimo do inglês, significa light amplification by stimulated emission of radiation.

A diferença está na pronúncia: enquanto a sigla é pronunciada letra a letra, ou seja, como se estivéssemos a soletrar (normalmente tem muitas consoantes seguidas), do acrónimo faz-se uma leitura silábica, tal como se fosse uma palavra normal.
Das que referi anteriormente, portanto, BTT ATL e AVC são siglas; OVNI, TAC e LASER são acrónimos. Os acrónimos, talvez por serem lidos silabicamente, são os que mais rapidamente passam a ser escritos com minúsculas e sem pontos a seguir a cada letra, porque tendemos a esquecer-nos de que as letras são iniciais de palavras.

17 abril 2012

"Tem-no visto ultimamente?" ou "tem-lo visto ultimamente"?

Tem-no e tem-lo são combinações diferentes de forma verbal e pronome de complemento directo. Como na pergunta do título não há indicação da pessoa que desempenha a acção de ver, há uma ambiguidade que não permite concluir qual das duas seria correcta num determinado contexto. Ambas são possíveis... vejamos porquê.

Em tem-no, temos o verbo no presente do indicativo e a pessoa é a terceira do singular. Ele ou ela tem visto determinado indivíduo, por hipótese. Essa pessoa, enquanto “objecto directo” do verbo ver, é substituída pelo pronome o. Mas como a forma verbal termina em ditongo nasal e o pronome é o de C.D., 3.ª pessoa, a regra é: acrescenta-se um n ao pronome o. Tal como acontece por exemplo em “deram-no” e “põe-nas” (e seria incorrecto dizer “deram-o” e “põe-as”).

No caso de tem-lo, o tempo do verbo é, também, o presente do indicativo. Mas há uma alteração na própria forma verbal, por causa do pronome que se lhe junta, que é novamente o de complemento directo, o. A regra é: quando as formas verbais terminam em s, r, ou z, essas consoantes finais são suprimidas se a seguir vier o pronome o/a(s) e a este pronome antepomos um l. Assim, devemos dizer: “tu come-la muito depressa” (e não “tu comes-a muito depressa”; “vou guardá-los” (e não “vou guardar-los”);  “fi-lo ontem” (e não “fiz-o ontem”).
Portanto, o sujeito implícito em "tem-lo visto" é tu. "Tu tens visto o teu vizinho ultimamente?", por exemplo, o que, simplificado, dá "tem-lo visto ultimamente?", porque: ten(s) + (l)o = tem-lo.

Assim, dependendo de quem seja o sujeito daquele tem (que poderá ser tens), deveremos optar por uma ou outra forma.

30 março 2012

"Estou cidrada" ou "estou siderada"?

Quando certas palavras se pronunciam de forma idêntica ou muito semelhante, há dúvidas que podem surgir apenas no momento em que nos vemos obrigados a escrever aquilo que apenas costumamos dizer. Então, o que nos confunde são os chamados parónimos: pares de vocábulos cujo significado é perfeitamente distinto, mas que pela forma se aproximam, como descriminado / discriminado, intersecção / intercessão, caçar / cassar, despensa / dispensa, elação / ilação, entre tantos outros. 

No caso de nos sentirmos surpreendidos, perplexos, atónitos, fulminados, "esmagados" por alguma coisa que experimentamos ou testemunhamos, o que devemos escrever: que estamos cidrados ou siderados?






A grafia certa é siderados. Vem do verbo latino siderāre, cujo significado é «sofrer a influência dos astros», como refere a Infopédia (daí a afinidade com sideral, relativo ao céu ou aos astros).

A forma participial "cidrados" só poderia vir do verbo cidrar, por sua vez derivado de cidra, o fruto da cidreira. Embora exista o substantivo cidrada, que é um doce feito com cidras, o verbo cidrar não se encontra atestado. Isso não nos impede de o usarmos, se for necessário. Porém, o seu uso deve reservar-se às situações em que uma pessoa ou coisa seja porventura esmagada por uma cidra...


26 março 2012

O correto e o incorreto: entre as duas balizas

A dicotomia correto/incorreto tem sido uma questão amplamente debatida na literatura, encontrando defensores, mas também muitos opositores.
De um lado, situam-se os normativos, puristas da língua, cuja correção linguística decorre do rigoroso cumprimento da norma escrita, fundada no exemplo dos clássicos da literatura. De outro lado, situam-se os linguistas descritivos, que privilegiam a variação linguística, com base na frequência do uso e cuja máxima é “o povo é quem faz a língua”. Porém, como sabemos, ao invés de criador da língua, o povo é, sim, um utilizador e recetor de tudo o que ouve e lê.
Tarefa difícil é a de quem, como eu, se encontra entre as duas balizas. Enquanto linguista, cabe-me a missão de observar e descrever os diferentes aspetos da língua, a sua variação, mudança, idiossincrasias e, enquanto professora, a missão de prescrever e veicular a norma.

Mas que norma? Afinal, o que é a norma?
Eugenio Coseriu definiu norma como "o conjunto de traços linguísticos distintos impostos por uma tradição cultural e social que se torna a referência para toda a comunidade linguística, sendo ensinada na escola e veiculada pelos meios de comunicação social, os quais, para serem entendidos pelo grande público devem veicular precisamente essa norma-padrão".
A norma é, assim, o resultado do processo segundo o qual uma variedade social, convertida em língua padrão, se torna num meio público de comunicação: a escola e os meios de comunicação passam a controlar a observância da sua gramática, da sua pronúncia e da sua ortografia.

E quem fixa a norma? Quem se atreve a exercer o papel de “tribunal” da língua?
Outrora, no séc. XVI, a norma estava na Corte, de cujos membros se aprendia o uso correto da linguagem. No séc. XIX, por sua vez, a norma emanava de Coimbra, berço da primeira Universidade.
Atualmente, a norma-padrão parece ser aquela que a Escola (todo o Ensino) e os meios de comunicação social – televisão, rádio e imprensa – difundem.
Mas com base em quê? Nos dicionários e nas gramáticas de referência? Nos autores literários? Nos escritores?
Para justificar as regras que prescrevem, as gramáticas normativas apoiam-se em larga medida nas atestações dos escritores. Quando as consultamos, ficamos felizes por constatar que uma dada estrutura sintática sobre a qual tínhamos dúvidas é afinal legítima, porque um grande autor a utilizou nas suas obras.
A verdade é que os escritores também têm dúvidas, como muito bem observou o professor Ivo de Castro no artigo intitulado O Linguista e a Fixação da Norma (2002) [in Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa], contando a seguinte história passada com o escritor Augusto Abelaira:
«Incerto quanto a uma construção sintática infelizmente não identificada, pegou na Nova Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira. Se Celso Cunha e Lindley Cintra estivessem cientes das hesitações de Abelaira, teriam mantido a citação? E, sem ela, a regra? O que um escritor escreve, porventura desviadamente, torna-se logo português de lei?».

Daqui se conclui que a norma é como uma prancha de surf, tentando servir de plataforma firme num mar instável que é a língua.
Esta metáfora quer tão-somente dizer que falta em Portugal uma Autoridade da Língua com força de lei e cuja missão fosse a de esclarecer os falantes sobre a pronúncia das palavras, a adaptação de estrangeirismos, algumas estruturas sintáticas mais complexas, os diferentes valores semânticos que as palavras vão assumindo; que estabelecesse a fronteira entre o erro e a variante linguística...
Enfim, que se ocupasse de todas as questões inerentes a uma língua viva, como é a língua portuguesa!

09 março 2012

"Quem Tem Medo do Acordo Ortográfico?"


O título acima foi o que demos a uma comunicação que fomos fazer ontem à Escola Básica 2 3 D. Pedro IV, em Queluz.
A pedido da responsável pela organização do evento anual Semana da Leitura, o tema foi o do Acordo Ortográfico. E como a turma que iria assistir à nossa apresentação já tinha aprendido, com a professora de Português, quais são as mudanças implicadas, optámos por levar-lhes alguns exercícios que suscitassem dúvidas e os nossos esclarecimentos.
A sessão correu bem, os meninos e meninas do 5.º ano estiveram extremamente atentos e foram muito participativos. As perplexidades foram surgindo e os porquês começaram a fazer-se ouvir. A cada regra que enunciávamos, para a eliminação de acentos ou para a utilização do hífen, surgia, de imediato, a excepção evidente e desconcertante. No final, e propositadamente, mostrámos-lhes um texto escrito numa grafia pós-acordo que, em vez de ser una e inequívoca, era escandalosamente mista e incompatível: uma "salada" de português europeu e português do Brasil.  A ideia era que percebessem que, apesar de tudo, o Acordo não nos obriga a nós a escrever "brasileiro" nem aos brasileiros a escrever conforme a grafia de Portugal. A certa altura, uma professora pergunta: «então se eu escrever "perspectiva" estarei a cometer um erro ou não?». Explicámos que em Portugal perspectiva não é aconselhado, ao passo que no Brasil é a grafia certa, pois lá pronuncia-se o [k] antes do t. «E se eu estiver no meio do Atlântico?», brincou ela.
E eu tive vontade de nunca mais me dispor a prestar esclarecimentos sobre um absurdo.

05 março 2012

Desafio linguístico

Existe alguma incorreção na frase que se segue?

«A maioria dos adeptos benfiquistas saiu do estádio com a moral em baixo!»

22 fevereiro 2012

Tal ou tais?

Os valores já não são reconhecíveis como tais ou

Os valores já não são reconhecíveis como tal ?



Resposta:

   A palavra tal pode pertencer a várias classes gramaticais. Frequentemente é usada enquanto determinante ou pronome demonstrativo, podendo ser substituída por outros como este, esse aquele / esta, essa, aquela / isto, isso, aquilo. Se tivéssemos uma frase como “tais valores deixaram de ser considerados”, não teríamos dúvidas de que “tal valores” seria incorrecto: o determinante tal está antes do nome valores e por isso tem de concordar com ele em número.
   Mas a frase é “os valores deixam de ser considerados enquanto tal/tais [?]”, o que significa: “os valores deixam de ser considerados enquanto isso (mesmo), que é o facto de serem valores. Neste caso, podemos desde logo desconfiar da flexão do pronome no plural, porque ele não antecede o nome valores...
  Na verdade, a expressão  “como tal”, bem como a expressão “enquanto tal”, é fixa e invariável, devendo ser entendida como uma locução adverbial cujo sentido é o mesmo da palavra assim. Para comprovar isso, podemos fazer a substituição daquelas duas palavras – a expressão fixa – por esse advérbio: “Os valores deixaram de ser considerados assim.”

07 fevereiro 2012

O AO e o CCB

Duas ligações interessantes sobre a recente e polémica questão da aplicação (ou não) do acordo ortográfico no Centro Cultural de Belém:

A brigada do asterisco - comentário do Embaixador Português em França

ILC contra o AO - razões para não aceitar a sua imposição

Tubo de Ensaio- crónica humorística de Bruno Nogueira (07/02/2012)

Vamos ou "váiamos"?

Que forma do verbo IR utilizariam para preencher o espaço na seguinte frase?

A Rita quer que nós ___________ com ela.

Muitos leitores decerto escolheriam "vamos" e é essa a forma adequada para o presente do conjuntivo do verbo ir. Porém, conheço muita gente que optaria por dizer "váiamos", tal como diria "dêiamos" em vez de dêmos, se, num contexto semelhante, o verbo fosse dar. Há quem defenda, para se justificar, que "váiamos" é a forma usada na região onde cresceu e aprendeu a falar português. Até pode ser. Mas, como sabemos, nem tudo o que se ouve dizer (às vezes uma vida inteira) é o que está correcto, do ponto de vista linguístico, tendo em conta a gramática normativa. A pergunta a fazer é: queremos usar a língua de acordo com o uso regional com que nos identificamos, ou queremos usar a variedade padrão, aquela que é encarada como modelar? A escolha será sempre nossa. Convém é que seja consciente, isto é, que saibamos que estamos a fazê-la, quais são as opções e o que implica cada uma delas. É o que acontece quando optamos entre:

auga e água
pus-os e pu-los
perca e perda
espilro e espirro
hás-de e hades
se haver e se houver

..e tantas outras!

02 fevereiro 2012

"Muitos de nós sentem" ou "muitos de nós sentimos"?


A concordância verbal tanto se pode estabelecer com o determinante indefinido  (ou quantificador) “muitos” como com o pronome pessoal “nós”, portanto podemos dizer «muitos de nós sentem um certo desconforto», por exemplo, ou «muitos de nós sentimos um certo desconforto».
À partida, a expressão partitiva “muitos de” deve levar-nos a flexionar o verbo na 3.ª pessoa do plural (considerando esses “muitos”, seja do que for). Se tivéssemos o sujeito “muitos do grupo” faria com certeza mais sentido dizer “muitos do grupo sentem um certo desconforto” e seria bastante estranho dizer “muitos do grupo sente um certo desconforto”.
No entanto, o pronome nós implica a pessoa que fala, então há toda a legitimidade em usar o verbo na 1.ª pessoa do plural: muitos de nós sentimos... Do mesmo modo, aliás, se eu faço parte do grupo, até posso dizer “muitos do grupo sentimos um certo desconforto”, por um processo de silepse, que é uma forma de concordância não estritamente gramatical, mas antes estabelecida de acordo com o sentido, tendo em conta a realidade a que se alude.

31 janeiro 2012

Portfolio, portfólio, portefólio ou porta-fólio?

Será possível que haja quatro grafias correctas, em português, para esta palavra?

Sim. Qualquer das formas apresentadas no título está atestada pelo menos num dicionário de língua portuguesa. Faz sentido?

12 janeiro 2012

A.O. e outros problemas

Ainda na ordem do dia, o "novo" Acordo Ortográfico atrapalha a vida a muita gente, embora se possa pensar que deixarmos de escrever algumas consoantes que não se pronunciam pode simplificar a tarefa de escrever em português.
Atrapalha, porque as dúvidas surgem a todo o momento, sobretudo quando é necessário escrever palavras compostas ou formadas por prefixação (cocolaborador ou co-colaborador?), ou quando nos preparamos para usar maiúsculas (norte ou Norte?) mas também quando não temos a certeza de se pronunciar, na "norma culta", determinada consoante (Egipto ou Egito?). E atrapalha muitas vezes os professores e os pais que lidam com crianças no ensino básico e cujos manuais e textos de apoio estão escritos de acordo com as duas grafias: a de 1945 e a de 1990. Com efeito, não é fácil para eles, nem para as crianças, gerir com os melhores resultados, ao nível da produção, as leituras "mistas" que se vão fazendo e que vão baralhando as referências ortográficas de cada um.
A fase de transição é realmente muito ingrata. Pela minha parte, por mais que deteste as novas regras que me obrigam a "descaracterizar" as palavras (ação, ator, redação e ótimo parecem-me tão feias...), sei que me vou habituar e que daqui a uns tempos já nem vou pensar mais nisso. Por outro lado, ao lidar quase diariamente com alunos recém-chegados ao ensino superior, estou consciente de que as dificuldades que muitos adultos revelam na escrita são bem mais abrangentes e graves do que as hesitações provocadas pela novas regras ortográficas. Custa-lhes tanto expor ideias (quando as têm) por escrito, é-lhes tão difícil distinguir passa-se de passasse, ficam tão atrapalhados quando lhes peço que utilizem um registo cuidado, que o A.O. se torna um pormenor insignificante dentro desse grande problema que é a sua dificuldade de expressão oral e escrita.
Devo ressalvar o facto de não serem todos - há sempre os alunos que nos surpreendem pela positiva, que nos ensinam, que nos calam a boca. Ainda hoje um aluno espanhol me ensinou uma palavra em português. Mas os que revelam dificuldades (e que o admitem, até, com tristeza e resignação) são cada vez mais, o que de resto não deve ser novidade para ninguém. Isto só prova que o meu trabalho é importante, ainda bem. Mas às vezes penso: antes não fosse...

03 janeiro 2012

Desafio linguístico

A frase abaixo tem alguma incorreção?


“Na véspera do ano novo, centenas de pessoas foram evacuadas de um shopping da capital na sequência de uma explosão de gás.”