07 setembro 2026

Entrevista a Thomas Bakk, o "senhor dos cordéis"

Esta entrevista ao grande contador Thomas Bakk (1963-2024) foi realizada no dia 5 de março de 2023, no âmbito de um trabalho para a unidade curricular de Património Imaterial no Século XXI, no âmbito da Pós-Graduação Arte de Contar Estórias do ISEC Lisboa. 
Quisemos partilhar aqui a sua transcrição, considerando que o "senhor dos cordéis" foi um homem multifacetado, com uma vasta experiência de vida e uma enorme capacidade de comunicação, que tem e terá sempre muito para nos ensinar a todos. Esperamos que apreciem a sua história e os seus ensinamentos!

Sara - Thomas, muito, muito obrigada por fazer este este grande favor a estas duas alunas da pós-graduação Arte de Contar Estórias! É um prazer enorme para nós também estarmos aqui a entrevistá-lo. Então, nós vamos fazer-lhe esta esta entrevista com o objetivo de realizar o nosso trabalho para o modo de Património Imaterial no Século XXI, que é um dos módulos da Joaninha Duarte, e o objetivo da nossa entrevista é conhecê-lo como contador e perceber como é que foi o seu percurso e qual é a sua, quais são as suas particularidades no modo de contar. Então, Nesse sentido gostaria de agradecer as suas respostas, tão francas e tão espontâneas quanto puder e quiser, e garantir a confidencialidade das informações que nos vai dar, que só servem mesmo para o âmbito deste trabalho e não vão ser publicadas. 

Thomas - Minha vida é um livro aberto, pode ser divulgada como quiser!

Sara - Não, não! Muito obrigada e estamos disponíveis, também, se quiser depois fazermos alguma pergunta, ou ver o trabalho que nós vamos fazer, eventualmente, mais tarde, se tiver curiosidade também! [...] Então, podemos falar um pouco do seu percurso, da sua biografia, como é que se relaciona a sua história de vida com o facto de ter escolhido esta profissão?

Thomas – Eu não escolhi, eu fui escolhido por ela!

Sara – Foi escolhido!... Muito bem! Mas é algo que já vem de há muito, muito tempo?

Thomas – Não, é assim: o que já vem de há muito, muito tempo é o teatro, né?

Sara - Está relacionado com a sua família?

Thomas – Não e sim. O meu bisavô, que eu não conheci, era ator, em 1912 na Hungria. E ele fazia teatro nos cabarés da época. Os cabarés, naquela altura, eram uma espécie café-teatro, não tinham esse contexto de prostituição que depois veio a se tornar, né? Isso não havia, quer dizer, o precursor do teatro de revista foram os antigos cabarés, que na altura não se chamava cabaré, tinha um outro nome, depois passou a ser cabaré. Tanto que o filme lá, que fizeram sobre o cabaré, era um pouco reportando a essa altura, né? Depois teve o cabaré alemão da Segunda Guerra, que foi muito frequente, né? Mas a minha escolha pelo teatro não foi por aí. Quando eu tinha 12 anos, a minha mãe me deu... A minha mãe era uma mulher muito culta e que era leitora compulsiva. Ela lia muito e lia tudo. E eu não gostava de ler. Eu detestava ler. A minha irmã gostava e eu não. Hoje em dia, eu gosto e ela não. E o que aconteceu é: a minha mãe me deu uma coleção chamada “Teatro Vivo”, que era uma coleção de dramaturgia, e eu me apaixonei pela dramaturgia. Então comecei a escrever para teatro. Sem o menor objetivo de ser ator. Mas eu escolhi, aos 12 anos, ser dramaturgo. Quando eu vi que ser dramaturgo ia ser difícil, e tive uma namorada aos 14 anos que era sobrinha de um dramaturgo muito conhecido em Recife – que foi a cidade onde eu fui criado; não foi onde eu nasci, mas onde eu fui criado – ela me apresentou ao tio, o tio leu algumas coisas minhas e achou que eu escrevia bem, mas que eu não tinha o tempo do teatro. E me aconselhou fazer um curso de teatro. E eu fiz e nesse curso teatro me convidaram para ser ator e eu fui ser. E assim comecei. A primeira peça que eu fiz, eu ganhei o prêmio de melhor ator, quase que eu era o “Laurence Olivier do pacote... e não era, né?! Porque aí, quando fui fazer escola de teatro, é que vi o quanto eu ainda tinha que aprender. Fiz escola de teatro, terminei em 84 e fui ser ator de carreira mesmo, Tive algumas incursões na televisão como ator, depois como guionista – que lá é roteirista – e cheguei a trabalhar seis anos na Rede Globo como guionista e fiz algumas participações em novela e um papel numa minissérie e... mas fiz muito teatro. Em televisão fiz pouca coisa. Cinema nunca fiz. Melhor, cinema fiz uma pequena participação num filme em 82, mas foi uma coisa muito pequena. E fui ser ator e fiquei sendo ator durante muito tempo, tive uma filha e... nunca me chamavam para fazer teatro para criança e a minha filha me cobrava muito isso: “Pai, porque tu fazes uma coisa para criança?”. Pá, porque não me chamam! E aí eu soube de um curso que ‘tava tendo de contador de histórias – que eu nem sabia que isso existia. No Brasil, ainda. Isso foi em 95 – não, 94, foi em 94 – esse curso era com a Benita Prieto, que agora tá em Portugal. Era a Benita Prieto, era o Celso Cisto, que hoje é escritor, a Lúcia Fidalgo, que era bibliotecária, e a Eliane Unis, que era professora da PUC. E eles formavam um grupo chamado Grupo Morandubetá, que foi o pioneiro dos pioneiros no Brasil, nessa matéria que era contar histórias. Só que, antes disso – eu não considero como meu percurso tenha começado aí – antes disso, a minha mãe ‘tava muito doente e eu vivia no Rio de Janeiro e ela vivia em Recife. E eram três mil quilômetros de distância. E eu percebi que ela ia morrer e resolvi ficar com ela. Mas eu não tinha do que sobreviver em Recife. Então eu inventei uma coisa que era “De Repente Teatro”, que era ao estilo das entremeses espanholas, que eram aquelas coisas muito curtas, que ainda era em formato dramático, ou seja, como se fosse uma performance teatral meio narrada e meio na primeira pessoa, né, não chegava a ser dramaturgia, porque não havia diálogo, mas havia ainda um formato muito teatral e uma maneira de escrever ainda muito teatro. Quando eu comecei a fazer o curso com Benita, já estreei com contador de histórias na Bienal do Livro em 95, com mais... eram 22 contadores de histórias. E me atiraram para aquilo sem eu ter experiência nenhuma como contador. E eu fui percebendo aos poucos que o registro de contador era um pouco diferente do registo do teatro, embora tivesse como utilizar recursos teatrais, mas não era a mesma coisa E aí eu comecei a contar, mas continuei fazendo teatro como ator também. E aí tive uma doença, que é essa famosa que eu tenho, da coluna, e não dava muito para usar o corpo, e eu falei: Então, agora é o momento de romper com teatro e me atirar na narração oral. Foi uma necessidade de continuar a trabalhar com que eu gostava, num outro registo. O cordel veio, ainda criança também, como leitor, né, porque eu fui criado no Nordeste do Brasil e lá era uma coisa muito popular, muito frequente. E depois, como a edição era uma coisa relativamente barata, também dava jeito, para não ficar refém dos cachets, né, então eu podia contar história em qualquer lugar e levar os folhetos e vender, isso também dava jeito. Mas a razão não foi essa. É que eu achava que o verso era mais dinâmico para se contar e continuo a achar: acho que o verso tem uma velocidade rítmica interessante para contar e depois tem a questão da síntese, né? Eu, como sou muito sonhador, eu às vezes peco pelo excesso em tudo, em tudo na vida: é no amor, é nas aventuras, é nas viagens, é nos prazeres, é na comida, em tudo eu sou excessivo, né? Sou muito intenso em tudo. Então, o que é que aconteceu? O verso me dava uma certa disciplina para ser mais sintético, o quê o espaço para se falar de alguma coisa era muito menor. E a rima também dava jeito, porque às vezes eu não tinha muita ideia, e a rima puxava a ideia. Da necessidade de rimar vinha uma ideia eu desenvolvia essa ideia. Muita gente pensa que a rima prende. Quando a gente tem o hábito de fazer rima, a rima liberta muito mais do que prende. Porque ela vai te puxando: é como se fosse um fio. Então, o meu percurso como contador oficialmente começou com a Benita em 95 com o grupo Morandubetá, mas ele já vinha de muito antes. Agora, a minha relação com contar histórias: eu costumo dizer que eu conto histórias como vivo, a minha vida é uma vida que eu desconstruo o tempo inteiro, em todas as relações com as pessoas, sejam elas profissionais ou não. Tudo tem que ser prazeroso, tudo tem que ser intenso, tudo tem que ser verdade, nada pela metade. Então é por isso que eu perguntei – a primeira coisa que eu perguntei para Sara naquele e-mail foi  (perguntei, não: sugeri): Podia me tratar por tu? Porque eu acho que fica muito mais informal e nós nos aproximamos muito mais, quando esse tratamento é assim. Quando eu dou formação, toda a gente se trata por tudo na formação. Quando acaba a formação, cada um se trata como quiser, mas na formação é importante que seja por tu, porque fica muito mais próximo, as barreiras acabam diminuindo e os receios sociais desaparecem. A minha relação com o público quando eu conto histórias é uma relação de família. Eu quero fazer do público uma família naquela 1h. E, portanto, tudo tem que ser o máximo à vontade possível. É por isso que as pessoas costumam dizer que depois de uma formação minha elas saem bem-dispostas. Saem bem-dispostas porque a minha vida é assim. Até quando eu ‘tava doente, internado no hospital, as enfermeiras diziam que eu acabava sendo o enfermeiro delas, né? Porque eu dava Bom dia, porque eu contava histórias, porque eu falava da vida de uma forma positiva... porque essa é a minha maneira de estar na vida e acho que, mesmo no leito de morte, será assim: não vai ser diferente. Portanto, eu conto histórias como vivo e vivo como conto histórias. 

Sara – Então, se lhe perguntassem porque é que conta histórias, a sua resposta seria...? Ou a tua, a tua resposta!

Thomas – Eu tive uma empregada que era jovem, e eu chamava ela de dona Edília. E ela dizia: Pode me chamar de Edília, Thomas. Ela me chamava Thomas! E eu não conseguia chamar a mulher de Edília, não conseguia, não sei porquê, mas depois eu acabei chamando, né?

Sara – Por falar nisso, Thomas Bakk é mesmo o nome verdadeiro?

Thomas – É o nome verdadeiro, porque o meu pai era húngaro. Na verdade, meu nome é Tomás Bakk, não é Thomas, é Tomás. Eu acabei popularizando Thomas para diferenciar do meu pai, porque senão nos confundiam muito. E teve até aquela fase da vida da gente que a gente quer um pouco romper todos os laços que tiver com os pais, né? Quer ter vida própria. Então, era uma necessidade que eu tinha de ser eu próprio, né? Tinha o nome do meu pai, mas com uma diferença fonética que já dava jeito. Depois, era uma altura que eu era preso muito frequentemente por causa da política. No tempo era a ditadura no Brasil e eu fui preso várias vezes por causa disso. E ainda era menor de idade. Então eu era detido – eu tinha 17 anos – eu era ter detido e o meu pai ia me soltar. Nós éramos amigos de um fotógrafo francês, que era amigo do meu pai e era meu fã, que ele via tudo que eu fazia, ele ia ver. Então ele dizia para o meu pai: Seu filho foi preso de novo. E lá ia meu pai me soltar! Eu fui criado com muita liberdade, tanto que o meu pai quanto pela minha mãe. Sempre tive liberdade para escolher o que eu quisesse. Nunca tive muito apoio financeiro, mas também porque também não quis, por parte do meu pai; por parte da minha mãe, ela daria, mas por uma autoafirmação minha, para não criar problemas com meu pai, eu quis viver uma vida mais independente. E essa vida era mais difícil, né? Sempre é difícil, principalmente aos 18 anos. E eu fui para o Rio de Janeiro aos 19 para fazer escola de teatro por minha conta, quer dizer, não era não era sustentado por família, nem nada, e lá fiquei. Nunca mais voltei para Recife, só nessa altura da doença da minha mãe até ela morrer, e depois eu voltei para o Rio de novo.

Sara – E porque é que vieste para Portugal?

Thomas – Essa é uma pergunta fundamental.

Sara – Acho que é importante percebermos se és um contador nómada, que viaja e vai e vai contando de acordo com o local onde está, ou se és um contador que se fixou em Portugal e eventualmente agora está mais ligada à tradição portuguesa...

Thomas – É assim, eu sou uma pessoa nómada por natureza. Eu andei no Brasil e cheguei a viver em várias cidades, mas não sinto que pertença nenhuma delas e não sinto que pertenço ao Brasil, embora seja brasileiro, gosto da cultura brasileira, gosto do Brasil como país, gosto do povo brasileiro, mas gosto também muito de Portugal e do povo português. Porque foram os dois países que eu vivi, né? Mas não teria pudor nenhum e ir para um outro país e sentir a mesma coisa, como sentimento. Atualmente, também, a idade pesa e a gente também não pode ficar aventurando o tempo inteiro, né?

Sara – Mas em relação à tradição que tu contas nas tuas histórias, de onde é que ela vem? Como é que tu escolhes o repertório?

Thomas – Eu escolho o repertório do mundo. Mesmo os contos tradicionais que eu escolho não são, aliás, poucos são brasileiros. São brasileiros e portugueses por causa de livros que eu li, do Adolfo Coelho do próprio Câmara Cascudo, que cruzam um pouco essas duas culturas de Portugal e Brasil, embora nos tradicionais do Brasil há muitos contos indígenas também, mas a maior parte deles é europeu, e muitos portugueses, e há contos do livro do Câmara Cascudo que também tem nos contos tradicionais Portugueses do Adolfo Coelho, e depois vamos encontrar no Teófilo Braga também e o Homero também... enfim. O meu primeiro contato com as recolhas foram através desses livros. Depois comecei a ouvir histórias mesmo, quando passa pelas aldeias e ouço as pessoas mais idosas e vou escutando histórias e tudo. Depois, a internet veio, né? Eu fui encontrar muita coisa na internet de contos russos, e chineses e africanos. O material se encontra agora em todo lado, né? E mesmo ouvindo outros contadores, né? Ouvi uma vez a Paula Cavaleiro contar um conto que eu gostei, fiz uma versão dele. Era um conto tradicional galego, mas eu fiz uma outra versão. Gosto muito de contar contos inspirados em parábolas orientais, por exemplo, esse universo oriental indiano também gosto, que traga sempre um ensinamento, mas sem dogmas. Eu normalmente pego numa parábola e sempre faço uma coisa com sentido de humor, num estilo que já é o meu estilo, que é o estilo de pegar a metáfora e espremer a metáfora, até ela pingada, ficar muito centrado na metáfora. A metáfora é uma espécie do cerebelo das minhas histórias. É da metáfora que tudo surge. Se eu não encontro a metáfora, eu nem começo a fazer um conto. O que eu pego do conto tradicional é basicamente a estrutura, porque todos os elementos desse conto eu vou mudando. Portanto, eu não tenho esse rigor do investigador, de contar o conto como eu ouvi. Não, pelo contrário, eu não gosto de contar como eu ouço. Eu acho que eu tenho que ter a minha a minha coautoria, talvez porque eu também sou escritor, talvez eu pensaria diferente, mas por ser escritor e ter muito o hábito o de lidar com a carpintaria da escrita, eu tenho uma necessidade de transformar aquilo em literatura e depois transpor para a oralidade. A Márcia costuma dizer que ela acha sempre estranho quando lê alguma coisa que eu conto, porque parece que eu ‘tô falando. Então, eu escrevo para contar, eu escrevo muito mais para ser ouvido do que para ser lido. Então, eu escrevo como falo. 

Cristina – Da tradição húngara não vem nada?

Thomas – Não. 

Sara – Não estás muito ligado a ela ou estás?

Thomas – Não, não ‘tou. Não ‘tou, porque a minha família não falava húngaro. O meu pai só falava... A primeira língua da minha mãe foi o Húngaro. A minha mãe é brasileira, ela nasceu no Brasil, mas era filha de imigrantes húngaros. E o meu pai era húngaro mesmo e filho de húngaros também. Eles só falavam em húngaro quando eles queriam falar alguma coisa que os filhos não pudessem ouvir. Aí, eles falavam em Húngaro. Mas normalmente, o meu pai era uma pessoa que o dia de ontem já não existia para ele, né? Ele pensava sempre do hoje para o amanhã. Não era uma pessoa ligada ao passado, não tinha isso. Então eu fui criado num regime absolutamente brasileiro, mas um pormenor: a cultura europeia esteve sempre presente na família, o que eu não sei se foi bom, porque me tirou um pouco aquela... aquele popular que há no Brasil. Eu fui criado numa cultura muito erudita. Meu pai ouvia ópera e minha mãe ouvia música clássica. Não havia música popular. Eu só comecei a ouvir música popular quando eu passei a escolher as músicas, porque dentro da família era tudo erudito: a literatura era erudita, a música era erudita. E tudo parece que eu vivia numa bolha, onde o país era de um jeito e dentro de casa era de outro. Então, respondendo à Cristina, essa relação com a Hungria foi nenhuma. Nenhuma mesmo.

E a outra pergunta que tu fizeste – Porque é que eu conto histórias? – é pela mesma razão que eu me interessei pela primeira vez pela arte: porque foi… foi através de um ladrão que não era ladrão, mas nos fazia acreditar que era. No tempo que eu era criança, a gente ainda brincava na rua. Primeiro, porque era em Recife e Recife era Nordeste, não era Rio de Janeiro, e a violência não era como hoje. Em Recife sempre acabava sendo menor também, e a brincadeira era de rua e havia um homem que andava com um saco às costas e que se chamava Walter. E ele dizia que ele era um ladrão e que entrava pela chaminé das casas e que tinha mãos de seda e pernas de vento. Começava a falar desse ladrão que ele era de uma forma muito fantasiosa… E nós, que éramos crianças – eu tinha nove, oito-nove anos nessa altura – acreditava realmente que ele era um ladrão diferente. Nós acreditamos que esse ladrão meio Robin-Hood, que ele era, que ele dizia que era, era real. E aí ele ia contando umas histórias no meio, ia inventando uma coisa na outra. Quando ele terminava de contar aquelas histórias dele, chegava o momento que ele dizia – e ele sempre fazia uma roda: as crianças sentavam-se em roda na rua, à noite, porque a gente voltava da escola no final da tarde, depois jantava, depois ia para a rua brincar, e era nesse momento que o Walter aparecia (a gente não sabia da onde ele vinha), e aí ele punha lá os miúdos todos em ordem e começava a contar as histórias, – e aí no final ele dizia: “Agora eu vou dizer para vocês porque é que eu sou ladrão: eu sou ladrão porque eu acabo de roubar uma hora da vossa atenção”. E aí a gente percebia – nós, crianças, na nossa cabeça de criança – percebia que a história era uma possibilidade de ver o mundo como a gente quisesse; que o ladrão podia não ser o ladrão, ladrão malvado, vamos dizer assim, na cabeça de criança, e que roubar não era uma coisa ruim, porque roubar a atenção é uma coisa interessante. Porque nós gostávamos de ser roubados, nessa relação com o Walter. Depois, eu ia para a praça pública e via o repentista improvisar versos e a insultar uns aos outros a rimar, e achava aquilo fabuloso também. Então, eu diria que o Walter me mostrou um pouco o que é o contar de histórias e os repentistas me mostraram um pouco que essas histórias podem ser contadas com uma outra linguagem. Então foi aí que começou a minha relação do gostar da arte: seja da leitura, da oralidade, depois com o teatro eu senti a mesma coisa, que era possibilidade de ver o mundo de uma forma diferente e de criar o mundo ao modo que eu gostaria que ele fosse, tanto que a minha filha me chama de “meu puto”, né? Minha filha tem 33 anos e ela é acupuntora chinesa, e antes disso que fez Biologia, portanto ela tem cabeça de cientista. Então ela acha que eu ‘tô sempre no modo lúdico, seja diante dos problemas, sejam eles quais forem, eu sempre raciocino as soluções para os problemas em alternativas lúdicas que normalmente deu certo, porque fogem ao modelo da realidade. Porque a realidade é feita para não dar certo. Portanto, aprendam isso vocês duas: a realidade é uma coisa que não dá certo, ela é inviável. Ela tem um modelo, que é o modelo para afastar, é o modelo para ter medo, para se proteger de alguma coisa que ninguém sabe nem o que é. A realidade, quando a gente vem ao mundo, o mundo já ‘tá pronto, mas num formato extremamente injusto, desigual, e onde nós vamos ser criados o tempo inteiro para ter medo de tudo e é um mundo onde não se pode fazer nada, não se pode dizer nada. Não se pode dizer palavrão, não se pode dizer isso que eu penso num determinado contexto, não pode falar com aquela pessoa, porque aquela pessoa é muito importante eu não sou, e tudo tem travões o tempo inteiro. E a arte liberta. No modo lúdico acaba tudo isso. Não sei, pode ser um processo de fuga. Mas é uma fuga que sabe bem. Paga-se um preço, também. Tu acabas sendo esquisito diferente, mas isso também dá jeito, porque eu sempre que quero um serviço, eu sempre tenho um amigo que é de uma área tal que eu conheci num contexto, porque marquei a diferença num momento da vida dele. Então, eu faço amizade com a menina do café, com a caixa do supermercado, com taxista, por causa dessa minha relação com tornar a vida sempre num momento sempre muito prazeroso, à vontade, onde não há barreiras nem há mordaças, não há  tudo o que há na realidade.

Sara – Uma certa irreverência bem-disposta?

Thomas – Eh… Sim, eu já nem considero irreverência, Sara. Houve uma altura, que era quando eu tinha 20 e poucos anos, depois eu fui amadurecendo e ela passou muito mais a ser uma intervenção na própria realidade, que, como foge ao modelo, as pessoas podem até ver como uma coisa irreverente, eu não considero que seja. O que eu considero é que não tem a formalidade do mundo formal. Por exemplo, no Centro de Saúde eu tenho que fazer um penso de 15 em 15 dias, que eu tenho problema de circulação na perna, e portanto, de 15 em 15 dias, eu tenho que ir ao centro de saúde e tem uma enfermeira que faz o penso e a gente conversa de filosofia. E as nossas conversas sempre são de filosofia, que ela adora filosofia, e eu também. E toda a gente me chama no Centro de Saúde de Thomas, não é “Seu Thomas”. Para mim, é uma vitória, porque eu sou um senhor de 60 anos – tenho 60 anos, faço 60 anos esse ano – e aos 60 anos ser chamado, no Centro de Saúde, de Thomas é um sinal de que as pessoas aderiram à minha forma de estar. Comigo, não que elas aderissem na vida, mas elas sabem que comigo há uma cápsula ali que é diferente. E talvez elas se sintam mais à vontade e até mais felizes.

Sara – Sim, sem dúvida!

Thomas – Eu, sempre que eu chego na recepção do Centro de Saúde, a rececionista abre um sorriso, logo, de me ver, porque parece que eu trago ali um frescor por essa maneira de estar que eu tenho em qualquer contexto, não é por estar no Centro de Saúde ou uma biblioteca, para mim é tudo igual. Eu quero é sempre que as pessoas estejam bem, tornar o ambiente uma coisa agradável. Mas eu falo muito, Sara vai disciplinando a conversa…

Sara – Sim, mas é tão bom, é tão bom ouvir… O que é que podemos perguntar mais… Em relação ao seu – ao teu! – modo de contar, estava aqui a ouvir e a tentar perceber o que é que o que é que te distingue de outros contadores. Como é que tu te vês, no panorama português, uma vez que estás em Portugal, e qual é qual é a particularidade, ou quais são as características mais específicas da tua forma de contar, o modo de contar do Thomas?

Thomas – O meu modo de contar… costumam dizer que eu não tenho o registo da narração oral. Não sei que registo é esse. Eu cada vez que ouço os contadores, acho que cada um tem um registo diferente. Não consigo ver nenhum contador igual, mas consigo até perceber que, por exemplo, em Portugal, eu costumo dizer que os contadores de Portugal são contadores de biblioteca; os contadores de Espanha são contadores de bares. E o que distingue, por exemplo, o contador espanhol do contador português é que o contador espanhol usa muito mais o sentido de humor; o humor, mesmo – porque o público deles exige isso: eles contam em pubs, para bêbedos. O Quico Cadaval conta com uma cerveja na mão e, se não tiver cerveja, ele não conta. Não porque ele precise beber, porque eles contam em bares. Em bar é assim. Eu comecei contando em bar, em Portugal. O meu primeiro contato com a nação oral em Portugal foi num  bar que há no Porto – que havia e que ainda há –, que é o Pinguim Café, que foi um dos primeiros bares onde tinha noite de poesia e ainda tem. Portanto é um bar muito tradicional, principalmente na poesia – não havia contos, até porque nem havia contadores do Norte, nessa altura. Só havia eu, que contava aqui no Porto. Não tinha nenhum outro contador no Porto – isso em 2001. Havia contos dramatizados, que era no formato de teatro, mas contadores de história mesmo não havia. Depois do Pinguim, fiu contar no Maus Hábitos, que é um bar também icônico aqui no Porto, que é um espaço cultural que também é restaurante – é um espaço que fica em frente ao Coliseu, no quarto andar do apartamento gigantesco que antigamente nos anos 50, 60 era um bordel, onde era frequentado por pessoas… deputados e gente da alta sociedade, mas era um prostíbulo aquilo, era uma casa de alterne, de luxo. Depois aquilo ficou fechado muito tempo e começou o Maus Hábitos. E eu acompanhei o crescimento do Maus Hábitos porque eu conheci o Maus Hábitos em 2001, quando ele tinha acabado de ser aberto e era de um fotógrafo, um artista plástico e um empresário. E eles três começaram a fazer aquele espaço. E era um espaço absolutamente “underground” naquela altura. Depois não, depois foi ficando uma coisinha mais uma limpinha, mais comportada e tal, porque a tendência é essa, né? Em Portugal, as coisas começam assim meio malditas e depois as pessoas vão sentindo uma necessidade de fazer uma coisa mais lustrada, mas mais certinha, porque ser maldito… paga-se um preço muito alto, né? Para fincar a bandeira dá jeito, mas depois para continuar tem que ter algumas adequações, porque senão a gente é discriminado mesmo, né? Eu sinto muito isso, né? Eu não posso contar tudo em qualquer lugar, porque a liberdade tem fronteiras, né? Liberdade não é como a gente quer. A verdade é também como o outro recebe. Eu não posso ser livre, se o meu interlocutor não é. A gente tem que fazer uma margem de negociação entre o que se conta e o que está disposto a ouvir. Não posso falar asneiras que eu quiser, se o público não ‘tá disposto a ouvir asneiras que eu quiser falar. E não posso contar as histórias que eu gosto, se o público não gosta das histórias que eu gosto. Então, é quase que uma relação de casamento ou de namoro…

Sara – Compromisso…

Thomas – Tem que haver concessões. Tem que perceber também o que que o outro tá interessado, como é que o outro te vê ou te registra, como é que a tua história chega ao outro, né? Porque é que as relações amorosas não dão certo? Porque as pessoas estão muito centradas nelas próprias, né? Ninguém consegue perceber o outro. E essa é a dificuldade do ser humano em tudo. Perceber o outro. E quando a gente vai ficando velho é que a gente vai percebendo muito mais o outro. Na juventude nós somos nós e o mundo não existe, né? O jovem é ele e parece que o mundo gira em torno dele. À medida que ele vai amadurecendo, ele vai percebendo que o outro é mais interessante que ele. Porque a novidade vem sempre do outro: nenhuma novidade na minha vida vem de mim. Ou vem de um sítio onde eu ‘tô, ou de alguém que eu conheço, que me traz um mundo novo. Portanto nada vem de mim, eu sou o menos importante de tudo. O mais importante é o que eu absorvo do mundo, não é?

Sara – Então e a pandeireta? Onde é que entra a pandeireta no seu modo de contar – no teu modo de contar?

Thomas – Não, mas aí tem uma coisa que eu ainda queria falar sobre o contar, essa questão de dizerem que eu tenho um registro que é diferente. Tem uma coisa que me intrigava muito – aliás, que me intriga até hoje – quando eu ouço alguém ler alguma coisa, seja ela conto, poesia, ou qualquer coisa, eu sinto que essa leitura é informativa. É como se chegasse no final da linha e no final daquela linha parece que desligava para começar outra linha e engrenar outra linha e quando chega ao final da linha desliga. Eu acho isso extremamente monótono para ouvir. A informação é dada assim no telejornal é assim, só que essa essa leitura é uma leitura que não tem vida, não tem alma, não tem emoção. E eu dizia: tem uma outra maneira de se contar que não é esse contar informativo, não é simplesmente o relato de uma sequência de fatos. Tem uma outra maneira de fazer isso. Havia um ator no Brasil que era mais humorista do que ator, embora eu ache que ele era um grande ator também, que era o Chico Anysio. O Chico Anysio fez não sei quantas personagens, não sei quantas vozes diferentes, porque ele achava que ele não era comediante o suficiente para competir com os outros comediantes que ele achava geniais. Então, ele achava que ele precisava da personagem. Eu acho que não. Porque ele tinha uma maneira de dizer o texto que eu ficava encantado. Mas eu não sabia o que é que era. Eu sei que eu sabia que gostava de ouvir: “esse gajo diz o texto de um jeito que eu gosto… O que é que ele faz?” Eu comecei a observá-lo. Eu já era ator quando eu pensei nisso. E eu comecei a observá-lo para descobrir o que era aquilo que eu gostava dele. Eu sabia que gostava, mas não sabia porquê. Aí eu descobri: ele reticenciava o texto. Ele nunca concluía nada e ele reticenciava às vezes no meio da frase, que era para dar a sensação, de quem o ouvia, de que ele ‘tava pensando no que ele ‘tava a dizer. Nunca dava a sensação de um texto previamente escrito. E eu digo: “Pá, esse é o segredo da oralidade!” 

Sara – Claro, comunicação, não é? Comunicação e não informação.

Thomas – Exatamente. Mas o que é a comunicação? A comunicação, quando eu comunico, eu tenho interesse que tu não esqueças nunca mais daquilo. E para tudo não esquecer nunca mais daquilo, eu tenho que te emocionar. E para te emocionar, eu tenho que te surpreender. E para te surpreender, eu tenho que gerar expectativa na tua escuta. E essa expectativa só vai ser gerada, se tu tiveres a sensação que aquelas palavras são minhas, ou seja, que aquilo não foi escrito por alguém, porque senão eu sou só um instrumento, né?

Sara – Um veículo, sim…

Thomas – Um mediador entre o autor e o interlocutor, um instrumento, mesmo. E aí eu percebi que o Chico Anysio fazia isso eu passei a fazer isso. E aí depois havia também – o Chico Anysio já morreu – há um outro sujeito, que para mim é uma referência, que é o Antônio Nóbrega, que faz um trabalho de recolha de... Ele é um estudioso, investigador. Ele primeiro foi bailarino de danças populares, depois foi ser músico de uma orquestra criada pelo Ariano Suassuna, na altura que resgatavam um pouco as cantigas medievais, e todo aquele universo medieval com uma releitura; depois ele foi investigar sobre o conto, sobre dança, sobre muita coisa, e criou também uma espécie de Charles Chaplin brasileiro. Porque ele fez tudo à maneira dele, do jeito dele, com o estilo dele, ninguém consegue fazer igual. Muita competência e com muitas ferramentas, né? Porque ele é o que ele dança, porque ele canta, ele toca, é ator, ele é tudo. E ele tinha uma maneira de cantar que eu também gostava e não sabia porquê. Depois eu descobri: ele mastiga as palavras. As palavras parece que têm sabor da boca dele. E como é que ele faz isso? É sempre com a sílaba tônica. Então, já entramos aqui num aparato técnico, né? Então quando ele diz “Sara”, a sílaba “Sá” nunca é seca, ele faz “Saaaaara!”, aquilo parece uma onda. Então, quando ele conta, ele… Oh, galóóó´!... Iii!... Esse galope é quase aquela… Na música árabe, por exemplo, tem aquele tem aquele téééiiiiiinnnn… uma coisa que reverbera. A música árabe, a música indiana, né? E depois a gente vai ver isso no berimbau, por exemplo, também tem: esse tááiééinéinéin… e isso também dá para fazer com a palavra. Então, eu gostava da maneira que o Nóbrega cantava, mas é claro que eu não vou falar como ele canta, porque senão eu vou falaaaaar assiiiiim, aaah,  não dá, né? Mas eu sei que eu posso imprimir esse texto uma onda, uma dinâmica. Por exemplo, o Beethoven, quando ele fazia as sinfonias, ele fazia assim (isso é o que em música chama “dinâmica”), ele faz assim: TANANANAAAAAAM! Aí, de repente, ele faz: Tarana-rarara-nanam… TARAAAAN! – Então, é lá em cima e lá em baixo. Ele te encanta, te acorda, te adormece e vai fazendo o que quer contigo. Enquanto que o Bach não, o Bach é sempre a mesma coisa. Ti-tiriritiririm… teeeee… mas é sempre na mesma linha, tem os altos e baixos, mas é sempre dentro, mais ou menos, da mesma proposta. O Beethoven não. O Beethoven faz uma bagunça dentro do teu ouvido. E eu digo: “Gosto dessa bagunça!”. Então eu, juntando o Chico Anysio com o Nóbrega, com o Beethoven, eu chego nesse contador que perturba o teu ouvido, porque aí eu consigo te surpreender o tempo todo. E quando eu sinto que o público ‘tá disperso, em vez de eu gritar – como os professores fazem, que o pior recurso de comunicação é o grito – eu suavizo, eu encanto, eu faço com que a minha narração seja a mais prazerosa para os ouvidos para trazê-lo comigo. Mas eu só consigo fazer isso, se eu gerar expectativa no próprio conto. Essa expectativa que vai acontecer alguma coisa daqui a pouco. E se tu não estiveres atento, vais perder a história. Então, esse jogo com o espectador tem que ser “olho no olho”. Então, talvez a minha forma, esse meu registro bem diferente de contar, é um pouco parecido com o meu registro na vida: de o tempo inteiro ‘tar criando alguma coisa para jogar com quem eu ‘tô me comunicando, porque senão não consigo comunicar, porque a comunicação não vai chegar ao outro de uma forma eficaz. Eu tenho alunos que foram meus alunos do secundário – que eu também dei aula – que dizem que se lembram de coisas que eu falei, da roupa que eu ‘tava, e se o dia ‘tava sol ou chuva. Portanto, aquilo ficou na memória, porquê? Porque foi… porque foi emocionante para quem ouviu. Isso se pode fazer numa aula, se pode fazer num jantar, se pode fazer até uma reunião online. Se fosse presencial seria muito melhor,  porque eu sentia tu e a Cristina muito mais presentes, né? E o que eu acho é que as pessoas estão a perder tempo na vida com coisas que não interessam nada, estão a perder o ser humano do radar. Estão tão focadas em coisas que não são essenciais – que nos dizem que são e nós acreditamos que são, mas que não são – e perdem o que é mais importante, que é a relação com o outro. Então, talvez o que me encante mais no contar histórias é essa possibilidade de jogo, não só com a palavra, mas como é que a palavra pode chegar ao outro. Se eu não pensar no outro, a palavra não quer dizer nada, a palavra não tem significância nenhuma, se eu não pensar no outro, porque é para o outro que eu conto. Então, mesmo sendo escritor, a palavra não basta. A palavra basta, se eu conseguir que o outro detenha essa palavra durante… na sua memória; que aquilo mexa com ele por dentro.

Sara – Não falaste da pandeireta!

Thomas – A pandeireta! A pandeireta surgiu em 2004. Eu fui chamado para uma coisa, um projeto que havia dentro da câmara do Porto, que era chamado de “Porto de partida”. O Porto de partida foi criado, na altura, para dinamizar a Baixa do Porto. Então tinham vários projetos, materiais e imateriais, e um deles era em parceria com a Associação do Comércio do Porto, dos Comerciantes do Porto. E me chamaram para fazer um espetáculo, falar sobre a igualdade. Falei OK, fiz um orçamento, que incluía dois atores e dois músicos. E eu ia escrever e fazer encenação e talvez fizesse a narração. Era um espetáculo de rua. Aquilo tinha uma verba que foi cortada em quase 70% . Eu digo: “Bom… músico já não dá para ter, porque não tem orçamento!” Mas eu tinha feito a coisa para ser um musical e tinha que ter música. E se eu não tenho dinheiro para pagar o músico, tenho que ser eu o músico. Eu não tocava nada. Então, eu entrei numa loja de instrumentos musicais, olhei para aquilo e eu disse: “O que é que será que eu posso tocar aqui dentro?” Olhei para uma pandeireta e disse: “Isso é capaz de eu conseguir tocar”. E comprei a pandeireta. Foi 40 euros, na altura. Não foi barato. Então, eu comprei a pandeireta e aí descobri que não sabia tocar e era difícil para caramba tocar aquilo. Então, falei com um percussionista amigo meu de Lisboa e disse: “Pá, eu tenho que aprender a tocar isso e tenho 40 dias para aprender”. Ele disse assim: “Eu vou te ensinar um toque que é fácil e que dá para tu cantares qualquer música: podes cantar a Internacional Socialista com esse toque, podes cantar um samba do Brasil ou um fado português. O mesmo toque. E me ensinou esse toque que eu toco. Eu aprendi. Esse toque que nenhum percussionista consegue fazer! Eu tenho amigos percussionistas que tentam tocar pandeireta como eu toco e ninguém consegue. Mas aí, depois, eu não consegui mais sair desse toque. Então, comecei a fazer tutoriais no YouTube e tal. Não consigo tocar. Consigo tocar um pouco de samba, mas não fica com o mesmo swing. Eu falei: “Olha, como eu não sou percussionista nem pandeirista, eu vou tocar esse toque, que é onde eu me sinto à vontade. Nas histórias, eu não preciso pensar na pandeireta, aquilo já é como se fosse meu. E aí, nesse espetáculo, eu tocava pandeireta, tocava gongo, tocava flauta. Flauta eu já tocava um bocadinho no Brasil, mas assim muito bocadinho mesmo, flauta doce. E consegui fazer a música. Então a gente achava que eu era músico e eu nunca fui músico. Claro que, para um músico, tinha ali coisas muito limitadas, né? Mas, para o que o espetáculo pedia, aquilo dava. Pouco a pouco, basta ter ritmo, que dá para arranhar alguma coisa, né? Para tocar bem é outra coisa, mas, para o que o espetáculo pede, dava. E a pandeireta surgiu assim. Antes de tocar pandeireta, eu normalmente gostava, sempre abria as história e fechava as histórias com uma música, que é para evitar de dizer “Vitória, Vitória, acabou-se a história”, “Bendito, louvado, está o conto contado”, porque eu achava que, pá, tinha uma outra maneira de terminar o conto do que essa. Depois de começar o conto, já contando, é sempre difícil, porque a gente ainda não ‘tá ainda no mundo da imaginação. Para sair da realidade e entrar nesse modo lúdico às vezes demora um minuto. Sentir o público, estabelecer uma outra atmosfera… a música dá jeito. Tu vais cantando e vais trazendo o público, e de repente vais começando a contar e o público já ‘tá… Quando ele já ‘tá, o jogo já começou. Isso é igual a jogo de futebol: os primeiros 10 minutos é para aquecer. Depois que aquece, a coisa vai. Então, a pandeireta foi isso.

Sara – Mas faz parte da tua forma particular de contar, ou podes perfeitamente contar sem a pandeireta e não é isso que faz com que ela seja característica?

Thomas – Eu comecei a usar muito a pandereta para contar para criança de infantário, que é o público mais assustador que existe. A Joaninha, por exemplo, é uma mestra em contar para essa faixa etária. Eu sempre cito a Joaninha quando eu falo dessa faixa etária, porque ela conta como ninguém. Para essa faixa etária dos quatro anos… eu acho um terror. Porque é um público… primeiro, que não tem vocabulário. Não tem atenção, porque ‘tá ainda…. acha que o mundo ainda é um mistério. E, por outro lado, tem que obedecer a toda a gente sem saber porquê, né? Não sabe. “Senta, assim!” Mas porquê? Não nos dão o direito de saber, porquê. Eu me lembro, quando eu aprendi a ler, me diziam que b com bá é bá e eu perguntava: - Mas porquê? Eu aprendi a ler muito tardiamente. Eu só aprendi, eu aprendi a ler, eu já tinha 6 anos – quando no Brasil se aprendia com quatro. Aqui se aprende com cinco, lá era com quatro na minha altura, eu só aprendi com seis, quando uma professora chamada Ana, que eu me lembro como se fosse hoje, em 1970, pegou uma letra P de madeira, bateu na mesa e disse: “É como o martelo: pé com á pá, pá, pá, pá!” E aí eu percebi que a questão do b com a bá e p com a, pá, é o som de uma consoante que não tem som, com uma vogal que tem som. Eu vou explicar isso para uma criança de 4 ou 5 anos? Como é que uma vogal com uma consoante…? Já as palavras são complicadas… 

Então… isso para dizer o quê…?

Sara – Estávamos a falar sobre a forma de contar, de não ser necessário a pandeireta.

Thomas – Então, a questão da pandeireta… Não, eu estava a falar do público de infantário.

Sara – Sim, sim…

Thomas – Eu usava muito a pandeireta, e uso ainda para esse público…

Sara – Para esse público. – Que é mais difícil, não é?

Thomas – Que é um público que para mim é difícil… ter a atenção dele o tempo todo, porque é um público, hoje em dia, muito ligado à imagem. Como eu não gosto de contar com o livro e nunca gostarei, eu gosto do olho do outro, gosto de sentir o outro, e o livro me atrapalha um pouco nisso… Acho que o livro é para se ler e o conto para se contar. E se o conto contado não interessa, tem alguma coisa que está errada. Com o contador, ou com o interlocutor ou com os dois. Se eu preciso do livro para ter atenção do interlocutor (isso é uma opinião minha, estritamente minha) não é a verdade absoluta, mas eu acho isso. Eu acho que, assim como tem pessoas interessantes, que a gente conhece na vida, tem contadores interessantes que a gente conhece na vida. Então, se eu não gosto do contador, eu preciso do livro… eh, esse contador tem algum problema ou eu, com ele. Se eu não gosto do meu marido mas gosto da vida que eu levo com ele, ‘tô casada com ele, tô casada com a vida que ele me dá, então, isso não é casamento. Se eu não compro o contador, se eu preciso do livro para ser interessante, acho que isso não é narração oral, na minha opinião. Quer dizer, é narração oral mas não é…

Sara – É mediação, não é?

Thomas – Como?

Sara – Mediação?

Thomas – É, exatamente, é mais mediação que narração.

Sara – Tu nasceste em Recife, ou não?

Thomas – Não, nasci no Rio de Janeiro.

Sara – Rio, Rio de Janeiro. E neste momento estás casado com a Márcia não, ou vocês vivem juntos?

Thomas – Não, nunca fui casado com a Márcia, chegámos a viver juntos numa época, mas agora já nem namoro com a Márcia.

Sara - Ah não?! Ah, pensei que ainda sim… Então, o teu estado civil, neste momento, é… divorciado?

Thomas – O meu estado civil civil é casado, porque eu sou casado com a minha ex-mulher.

Sara – Ah, vocês nunca se divorciaram?

Thomas – Nunca nos divorciamos, nem nunca nos divorciaremos, por uma questão legal em Portugal.

Sara – OK, certo. Olha, e porque é que foste viver para o Porto?

Thomas – Porque eu tinha um amigo no Brasil, que era do Porto, que era casado com uma portuguesa. Eles casaram, na verdade acho que foi no Brasil, porque eles se conheceram em Portugal, ele veio para um espetáculo do Fitei que tinha na altura que é, um festival de teatro, e que traz muitos espetáculos de língua portuguesa, lusófona, tanto da África quanto do Brasil. E ele veio fazer um espetáculo, conheceu essa rapariga, depois casou-se com ela, acho que ela foi para lá para o Brasil, passou um tempo, depois eles vieram para cá, e ele foi meu colega da escola de teatro e, pronto, era quem eu conhecia em Portugal.

Sara – E nunca quiseste ir para Lisboa? Ficaste bem no porto, gostas de viver no Porto…

Thomas –Jamais irei para Lisboa, eu gosto do Porto. Não gosto de Lisboa, nem para trabalhar. Gosto muito da margem sul, adoro Almada, Trafaria, Setúbal nunca contei, mas já contei muito em Almada, gosto muito de Almada. Aliás, conheci a Joaninha que é do Alentejo, acho que é do Alentejo, não é?

Sara – Sim, de Cabeção…

Thomas – Mas depois foi para Almada. Desenvolveu lá aquele projeto do Almada Mundo…. e depois contei na biblioteca de Almada. Tinha o Miguel Horta, também era ligado à biblioteca de Almada – à Rede de Bibliotecas  de Almada – a Laredo, a Maria José Torino… E portanto Almada, Caparica, aquela zona, eu gosto muito de contar por ali. Depois, já fiz vários rios de contos, que é um festival também que tem lá agora. Agora Lisboa… sempre que vou, nunca é Lisboa. É Oeiras, é Sintra, é Cacém… Lisboa nunca é Lisboa. Eu só contei em Lisboa mesmo quando teve a rota dos contadores, que eram vários contadores que fazem as bibliotecas de Lisboa. Era Cristina Taquelim, Ana Sofia Paiva, Luís Carmelo, fazíamos várias bibliotecas, então eu, calhou de eu fazer uma dessas rotas, a biblioteca de Belém, depois fiz Marvila, aliás, fiz Marvila primeiro e depois Belém. Depois, cheguei a contar num restaurante africano uma vez, e acho que… ah, contei na Fundação Saramago, também. E que eu me lembre, de Lisboa, foi isso. E alguns congressos e seminários que eu cheguei a fazer.

Sara – O teu trabalho não te traz muitas vezes a Lisboa, tu consegues ficar só no porto, não precisas de viajar muito…

Thomas –Não, eu preciso sim, eu quase não conto no Porto, ninguém me chama para contar no Porto.

Sara – Ah, OK, então tens mesmo de viajar…regularmente…

Thomas – Mais do Alentejo, entre o Alentejo e Algarve, margem sul e um pouco no centro, tipo Coimbra, Abrantes, naquela zona também conto bastante. Mas Lisboa… Ah, contei também na Faculdade de Educação, durante três anos, que havia lá uma coisa qualquer de cruzamento de conhecimentos lá, que me chamavam para contar, por ser cordel. Porque o Cordel me leva muito às universidades, porque há sempre investigações ligadas ao cordel, se não for cordel, não sei se teria esse nicho de universidades, né? Mas as Universidades, normalmente ligadas às letras, ou à educação, sempre têm interesse no cordel.

Sara - Mas o teu trabalho é ires onde é chamado, aonde és chamado, é isso?

Thomas – É isso.

Sara - Esperas ser chamado e vais?

Thomas – Não, eu também me chamo.

Sara – Ah, pois, tu também tomas a iniciativa.

Thomas –Ah, eu mando propostas, estou sempre em busca de outros espaços, se eu sei que existe um festival eu mando proposta eu me dou a conhecer, não é…

Sara – Não ficas à espera…

Thomas – Só que é assim, como eu já faço isso em Portugal há mais de 20 anos, obviamente toda a gente me conhece nessa rede de bibliotecas, né? Então… e o Facebook também ajudou muito a…

Sara – Sim, a divulgar…

Thomas – A divulgar o que nós fazemos. Então, eu acabo sendo muito chamado hoje em dia, não preciso procurar tanto trabalho como procurava. Depois também sou muito indicado por contadores, não é? E também indico outros contadores. Às vezes, uma biblioteca pergunta ao contador, que contador que esse contador indicaria e foi assim, até, que eu comecei a contar em Espanha, mas por indicação, ele conhecia, né?

Sara – Olha, e tu tens algum santo protetor ou não?!

Thomas – Santo protetor não sei se tenho, eu gosto muito de São Francisco…

Sara – É? Eu também. Sim, engraçado!...

Thomas - Mas não sei, deve ter, mas não sei qual é…

Sara – Não sabes, ainda vais descobrir!

Thomas - Não sei se vou…

Sara – Mas consideras te uma pessoa de sorte ou não?! No percurso…

Thomas – No percurso…

Sara – No percurso de vida. Achas que és uma pessoa com sorte?

Thomas – Eu acho que sou, acho que sou, mas acho que não soube aproveitar a sorte que tive, deitei muitas oportunidades fora… porque não… porque não era altura, muitas vezes não’ tava preparado para aquela oportunidade. Mas eu… tem uma coisa na minha vida que acontece que é muito misteriosa: sempre que eu ‘tô À Beira do Abismo nunca caio. Parece que aparece a salvação do último minuto. Quando parece que não tem jeito para nada, aparece, um jeito do nada, que deve ser uma proteção divina, só pode!

Sara –Só pode, só pode!

Thomas - Mesmo em questão de saúde, né, de acidentes que poderiam ter acontecido e não aconteceram, de dois afogamentos, que eu podia ter morrido e não morri, de um acidente de viação que era para ter morrido, de um acidente que era para ter acontecido não aconteceu, de vir uma carreta na contramão e, de repente, desviamos o carro e foi por pouco, se aquilo desse uma colisão eu não estaria aqui a falar…

Sara – Portanto de certeza que há santos protetores aí a trabalhar…

Thomas – Há muitos marcos na minha vida muito doidos mesmo. Eu lembro que eu tinha uma carocha e eu subi e desci uma serra que havia no Nordeste, que é a Serra das Russas, que é assim mais ou menos parecida com a Serra do Marão. Mas é uma serra mais inclinada, onde há muitos acidentes ali. E eu fui com essa carocha, quando voltei levei o carro para oficina, que ele tava fazendo um barulho estranho, e o mecânico disse: “Olha, o “chapéu de Napoleão” tá partido! O “chapéu de Napoleão” é uma coisa que na Carocha existe, tem o formato do chapéu de Napoleão e que liga a carroceria, a estrutura da carroceria ao chassi do carro. E aquilo ‘tava partido. Ora, se aquilo parte – aquilo tava partido, tava quase a partir – se aquilo parte totalmente na Serra das Russas, eu já era, não tinha como sobreviver! Então, eu já tive coisas assim, né? Eu quando fui operado das ancas, eu tenho um problema para ser anestesiado que é da intubação, porque a minha cabeça não vira para trás, então não posso ser entubado pelas vias normais, então teria que ser entubado por uma sonda computadorizada. Isso tudo já ‘tava sabido no hospital, porque há uma anestesista que é marido de uma enfermeira que é amiga da Márcia, que sabia do meu caso e cuidou disso tudo, e como a minha anestesia era mais complicada do que a cirurgia em si, chamaram uma anestesista que era muito experiente, que já ‘tava até reformada, que era para fazer o meu caso. É porque eu fiz as duas ancas ao mesmo tempo, não nunca se faz, nunca, faz uma anca depois faz a outra. No meu caso, como a anestesia era muito delicada, resolveram fazer as duas, se eu concordasse. Eu falei, eu concordo que eu já não aguento com as dores, concordo que era um risco, né, se corresse mal eu já não andava mais.

Quando chegou na hora da anestesia, a anestesista – tão experiente que é! – resolve me entubar pelas vias que era impossível. E, naquele tempo, entuba não entuba, consegue não consegue, eu já ‘tava a morrer mesmo. Isso me foi contado por uma enfermeira do bloco, que me foi ver numa sessão, depois que eu já tinha operado. Eu tinha dado um convite para o médico – um dos médicos que me operou, um dos ortopedistas. E aí ele não pôde ir e deu para ela, e ela foi. E ela vira para mim, depois a gente foi tomar uns copos, e ela disse para mim: “Eu vim para certificar de que aquele homem estava vivo, porque a sua cirurgia foi uma situação dantesca”, e ela me contou como foi. Então, quer dizer, todos esses, essas experiências limites que eu já tive na vida, de saúde, financeiras, de tudo, de trabalho, não ter dinheiro e de repente aparece o dinheiro não sei de onde... Teve uma altura no Porto que eu não tinha dinheiro nem para comer e de repente um projeto meu é aprovado no Brasil e eu recebi dois mil euros, numa semana onde eu não tinha nem para comprar tabaco. Então, são coisas assim, que eu não sei da onde vêm, mas deve ter alguém a me proteger!

Então, azar não acho que tenho na vida, não, tenho muita sorte. Mas tudo é muito difícil. Nada foi fácil da minha vida em nada. Mas talvez essa dificuldade tenha sido criada por mim, eu não eu não responsabilizo aos outros, nem nada que esteja para além de mim, eu acho que a responsabilidade das escolhas são nossas e a culpa é sempre nossa. A culpa e o mérito, quando acontece uma coisa boa o mérito é meu e quando acontece uma coisa ruim a falha foi minha.

Quando uma sessão não corre bem, a culpa é sempre do contador.

Sara – Por falar… por falar… Para terminar, e a propósito disto, quais é que são os teus verbos?

Thomas – Os meus verbos…?

Sara - Sim, quais é que são os teus verbos na vida, ou na tua forma de estar e de contar? Quais é que seriam os teus verbos de eleição?

Thomas – Pergunta difícil, Sara!

Sara –É difícil?

Thomas – ‘Tou a pensar…

Sara – Não faço mais perguntas, é a última!

Thomas – Pensar é um deles…

Sara – Pensar?! Pensa na forma como, como tu estruturas e efabulas as histórias para narrar, a tua forma….

Thomas – Pensar é o primeiro, pensar, sentir, sentir vem depois, eu sou extremamente racional não sou passional, tudo é tudo e tudo, tudo na minha vida é pensado, eu tenho prazer em pensar, pensamento para mim é um prazer, Por isso que eu gosto muito da filosofia, filosofia me leva a pensar, eu tenho muito prazer em pensar, eu não penso por obrigação. Eu não estudo por obrigação, eu estudo porque eu gosto de conhecer coisas novas, tudo para mim é um prazer. Pensar seria o primeiro, sentir seria o segundo…

Sara - E chega, não é preciso mais!

Thomas – Não… e existe um outro que talvez seja o principal de todos, que é o amar.

Sara – Amar, OK, fantástico!

Thomas – É, porque esse amor, eu sinto que eu tenho muito amor, eu tenho excesso de amor e esse amor transborda de uma maneira muito exagerada para todos os lados, tanto do trabalho como na vida, como namorar, para as amizades, para família, tudo tem muito amor. E as pessoas não estão tão disponíveis, bom, porque elas não priorizam o amor como eu priorizo, né? Então…

Sara – Tens família com quem te dás assim mais, além da tua filha?

Thomas – A minha família é pequena. Meus pais já morreram, os meus avós também, a minha irmã… não tenho assim muito contato com ela.

Sara – Ela ‘tá no Brasil?

Thomas – Tá no Brasil, é, mas é uma pessoa com quem eu nunca tive assim muita identificação. Não me dou mal, mas também não tenho muito assunto com ela. E ela também não me procura também muito, então estamos assim um pouco afastados, já há muitos anos. De vez em quando falamos, mas é aquela coisa muito… É porque é família, né? É como diz o José Craveiro, a família só presta para fazer sarrabulho… Essa coisa de família, a verdadeira família… A família que a gente elege, não é a família de sangue. Então eu tenho, tenho amigos que são muito mais família. Agora, tem uma pessoa muito importante na minha vida que é a minha ex-mulher.

Sara – Que ela ainda é tua mulher…

Thomas – Não, não é… 

Sara – No papel.

Sim, no papel é. Somos grandes amigos, é uma pessoa…

Sara – Que bom!

Thomas – Eu quero um bem enorme a ela, sei que ela quer um bem enorme a mim. Na separação não era assim, quando nós nos separamos, não havia essa amistosidade, mas hoje em dia é. E depois, ela é mãe da minha filha, né? E a Márcia se dá muito bem com ela, também, e ela adora a Márcia. E depois a Márcia é uma segunda grande amiga, aliás, eu sou amigo de todas as minhas ex-namoradas, não tem nenhuma que eu tenha brigado, as coisas acabaram porque tinha que acabar, porque já não tinha fogo, já não tinha, já não tinha motivo de continuar sendo amor né, porque o namoro como a própria palavra diz é preciso estar enamorado, se esse encanto deixa de existir, a relação tem que ter essa, essa dimensão de relação tem que acabar, porque já não tem chama. O fogo, quando começa a virar brasa, depois apaga, vira carvão. Não é? Às vezes cinza, nem carvão. Não vale a pena ficar insistindo em relações que, se forem insistidas, acabam se tornando tóxicas, né? Eu acabo terminando as coisas, ou quando terminam comigo,  quando parece que já não faz muito sentido estar junto naquela dimensão. Portanto, o meu término com a Márcia também foi uma coisa muito natural, espontânea e de comum acordo, pá, porque temos maneiras de ver a vida diferentes, rotinas diferentes também. Ou seja, tinha uma série de fatores que não era viável. Assim, nunca gostei do conceito de casamento, não acredito em casamento. Acho que casamento é uma treta.

Sara – Igual a mim, tem graça… Eu sou igual. Sempre tive uma resistência enorme, talvez porque os meus pais não se davam bem, sempre tive uma resistência enorme a essa ideia do casamento.

Thomas – Mas é engraçado, os meus pais se davam muito bem, minha mãe morreu muito cedo, meu pai ficou muito mal quando ela morreu e morreu 12 anos depois. Mas ele ficou… A minha mãe, quando morreu, meu pai emagreceu 16 quilos. E eu achei que ele ia morrer naquele momento, eles se davam mesmo muito bem, portanto eu tive uma estrutura familiar que tinha tudo para achar que casamento ‘tava uma maravilha do mundo. Nunca achei. Quando me casei com a minha ex-mulher… ela… casei porque queria vir para Portugal. Mas há uma pergunta que eu não respondi, porque é que eu vim para Portugal, que a Sara me fez e eu não respondi, que é o seguinte: Portugal me chamou várias vezes. A primeira vez foi, eu namorei com uma portuguesa quando eu tinha 21 anos. A portuguesa tinha 47 e depois ela tinha uma filha de 17 anos. E depois eu namorei com a filha, quando já não namorava com a mãe, namorei com a mãe e com a filha. As duas eram portuguesas, a filha não era portuguesa, a filha já tinha nascido no Brasil, mas tinha vindo para Portugal, passou a infância em Portugal, depois voltou para o Brasil, ela tinha muito mais referências de Portugal do que do Brasil, embora que tivesse já sido nascida no Brasil. A mãe era portuguesa, foi uma mulher importantíssima na minha vida – até mais a mãe do que a filha, a filha também foi, mas a mãe foi mais, foi a minha primeira experiência com Portugal. A segunda experiência foi quando eu queria vir para o FITEI. Tem uma peça, com essa peça o meu amigo veio, e eu também fazia parte do elenco, mas me apaixonei lá por uma mulher da Paraíba e ‘tava tão apaixonado por ela que não queria… não queria fazer nada, só queria estar com ela. E não vim, saí do elenco e fui fazer um projeto na Paraíba, e foi a segunda vez que eu deixei de vir para Portugal. A terceira vez foi de novo no FITEI, em 88, quando eu fiz uma peça que eu também tinha escrito a peça e que foi Eleita pelos jornalistas de Recife, foi o melhor espetáculo do ano, aquilo foi badalado e o FITEI nos convidou para vir de novo, só que a passagem eles não davam. Davam toda a logística cá em Portugal, mas não davam a passagem. Nós não tínhamos dinheiro para viajar, o elenco não era grande, mas a produção era muito pobrezinha e não tínhamos o dinheiro e não viemos. Portanto, foi a terceira vez que Portugal me chamou e eu não vim! E a terceira vez é que esse amigo do Porto, que tinha vindo para Portugal – eu tinha perdido contato com ele, ainda não havia redes sociais nessa altura, para reencontrar as pessoas era meio complicado – e um dia eu encontro com uma amiga minha que é amiga em comum com ele, dizendo que ele ‘tava no Rio de Janeiro com uma peça com um ator português. E eu fui ver a peça e ele disse assim para mim: “E Portugal, Thomas?” Porque entretanto eu vim, aí em 92, porque eu casei. Mas não vim, porque eu fiquei com medo, porque a minha filha era muito novinha, tinha três anos, só. E eu fiquei com medo de não correr bem, porque não podia faltar nada para ela, e antes não era o momento ainda. E quando ele veio eu não vim. E foi por isso que eu casei, casei para vir, dava jeito estar casado, daria jeito cá em Portugal. Mas não vi nessa altura. Depois, encontrei ele e vim. Porque é que eu vim? Primeiro, porque a violência do Brasil sempre me assustou um pouco. A minha filha ‘tava crescendo e eu fiquei com medo, porque havia uma altura que eu ia ter que soltá-la, né? Ela tinha 11 anos, mas ia fazer 14, 15, 16... e queria sair sozinha e eu ia ficar com medo, acho que é o momento de papai meio inseguro. E depois achava que, a nível de estudos, para ela que seria melhor, porque Portugal é melhor. E depois tinha toda a Europa, se ela quisesse ampliar o voo dela. E também tinha pesquisa do cordel, que eu achava que ia encontrar muita coisa aqui, que depois acabei não encontrando, né? Porque o cordel meio desapareceu da Europa. Mas eu achava que ia encontrar cordéis Portugueses e não encontrei. Portanto, a nível de pesquisa, não foi bom negócio, se essa fosse a razão, mas a razão não foi essa. A razão econômica não era, porque até hoje eu ganho muito menos do que eu ganhava no Brasil. Portanto, economicamente não foi assim um bom negócio. Mas, a nível de uma vida mais segura, com menos medo, de sentir mais segurança com relação à minha filha, foi muito bom. E eu adoro Portugal, é um país que eu gosto muito, é um povo que eu gosto muito, e eu me sinto muito muito bem aqui. Não, nunca senti nenhum preconceito por ser brasileiro, talvez também porque eu seja um brasileiro que fale muito pouco do Brasil. Eu aderi muito rápido a Portugal, à cultura portuguesa, à maneira de estar portuguesa, sem deixar de ser eu próprio, mas não chego a ser um português como deve ser… mas nem sou o brasileiro daquele que fica achando que “Ah, o Brasil é que é, o Brasil é que é o melhor”, e nem acho que o Brasil é o que é o melhor. Portugal é bastante melhor do que o Brasil em quase todos os aspectos, mas cada país com as suas peculiaridade. Tenho as minhas críticas e os meus elogios ao Brasil, como tenho também a Portugal. Não acho que Portugal seja o melhor país do mundo, mas acho, eh… também vejo defeitos em Portugal, mas vejo mais qualidades do que defeitos. E acho que os portugueses é que não conseguem ver as qualidades que Portugal tem, que são muitas. São mesmo muitas…

Sara – Olha, eu quero te agradecer muito, muito, pelo tempo que nos ofereceste. Não foi roubado, foi oferecido! Foi muito bom...

Thomas – É, eu não sei é se eu respondi a tudo…

Sara – Eu acho que sim, eu acho que sim, foi muito completo…

Thomas – A cristina está aí muito caladinha, não falou quase nada…!

(Cristina sorri)

Sara – Mas respondeste até a mais do que nós esperávamos, não é?! Acho que até temos mais respostas ainda do que estávamos à espera, foi muito bom! Não sei se queres fazer alguma pergunta…?

Thomas – Mas essa entrevista que vocês fazem com o contador tem um tema…?

Sara – Sim, é. O tema é aquele que eu referi no início, de perceber qual é que foi o percurso do contador e como é que ele se vê, como é que ele se conta. Como se vê e como se conta. Portanto, o modo, a questão é o modo de dizer, ou de contar, do contador, era a temática de fundo desta...

Thomas – É, porque tem uma coisa, Sara, eu… toda a vez que eu falo de contos, eu não consigo não falar da vida!

Sara – Claro, mas faz parte! E nós também temos que fazer um B.I. do contador não é? Temos de apresentar o B.I do contador, portanto, é fundamental conhecermos a sua vida, a vida do contador que entrevistamos, isto em termos de…

Cristina – E o percurso, não é?

Thomas – Essa visão da vida e a visão de mundo, né, que nós adquirimos no nosso percurso de ser humano é a matéria prima do contador. O que eu acho é que os contadores não costumam usar muito isso. Tem algumas exceções… Tem um contador que eu gosto muito da pessoa primeiramente de tudo, talvez por ser uma das pessoas mais éticas que eu já conheci na vida, que é o António Fontinha. O António Fontinha é das melhores pessoas que eu já conheci na vida, então isso aparece no contador dele, porque é inevitável. E há outros contadores, que não vou citar o nome aqui, que a gente vê que não são boas pessoas. E até são bons contadores, mas são bons contadores, mas a gente percebe que não é de verdade, parece que as histórias não são deles, não pertencem a eles. Eles não estão inteiros, eles estão ali fazendo um artifício, portanto, são mais artificiais. Pode resultar, pode até fazer uma boa sessão, pode o público até gostar, mas pode ter certeza que daqui a um ano você esqueceu aquela história que ouviu, porque não te tocou, porque falta o ser humano. Falta essa parcela do ser humano que tem contadores que trazem, tem contadores que não trazem. Há uma contadora que para mim é uma referência – eu não tenho o menor pudor em dizer isso – é a Ana Sofia Paiva. A Ana Sofia Paiva é uma contadora brutal, porque também é o ser humano ‘tá lá. A gente sente a pessoa da Ana Sofia, né? A Cristina Taquelim é outra. A Cristina Taquelim é uma contadora em carne viva: tem nervos, tem sangue, tem coração, tem saliva, tem cuspe, tem tudo. Há contadores que não têm isso. E a gente olha e pode dizer: “Até conta bem”, mas falta esse… essa coisa… pulsante, né, ferida, do ser humano, ali, aberto, em carne viva. Completamente disponível, né?

Cristina – Entrega. De entrega, não é…?

Thomas – De entrega, de entrega. De sinceridade. É de verdade, sem pudor. Então, são poucos os contadores que têm isso em Portugal. Em Espanha tem muitos contadores que têm isso, porque eu acho que os contadores espanhóis estão num patamar muito além. Não sei se pelo contexto que eles contam – exige mais isso, são contextos que têm que prender mais a atenção – ou se é pela maneira de estar do próprio espanhol, não sei. Eu sinto os contadores espanhóis muito mais… mais vivos, a nível de se aventurar, sem medo.

Sara – Talvez sejam mais extrovertidos também, não?

Thomas – Também, também. Mas aí, eu acho que tem a ver com o próprio país.

Sara – Exacto, com a cultura. O português é mais introvertido.

Cristina - São menos contidos, são menos contidos, talvez…

Sara – Mais expansivo… A própria língua, não é? É mais expansiva a língua, a língua deles...

Thomas – É, porque tem uma coisa em Portugal que é uma muito curiosa: é que as pessoas ficam dizendo que Portugal é o fado, é o fado… Eu não acho que seja, eu acho que Portugal é muito mais um país da anedota do que o fado. Porque a anedota é muito mais presente em Portugal, né? Entre o povo. A gente entra num café, tem uma piada, entra no supermercado, tem uma piada, as pessoas estão sempre a fazer piadas, eu não vejo ninguém a cantar fado. Uma vez eu fui dar uma oficina de poesia para fado, fiz essa oficina duas vezes. E normalmente saíam fados que não eram tristes. E aí eu perguntei, numa dessas oficinas, na primeira: porque é que vocês dizem que o fado é triste e vocês fazem um fado que não é triste? Eu só dava a parte da poesia, não dava parte musical, era mais a questão da métrica no fado. E eles diziam sempre: “É que o Thomas nos deixa tão à vontade, que nós não temos vontade de fazer nada triste”, porque eles se sentiam muito bem dispostos comigo. Então, eles não ‘tavam no estado de fazer coisa triste. Portanto, eu acho que essa tristeza vem de uma regra que vocês portugueses estabelecem, que é cultural, e que nem vocês gostam…! Mas é a regra vigente, portanto, a norma social é essa. E as pessoas seguem essa norma. Com algumas exceções, mas essa norma é uma norma vigente. E isso cria uma introspecção muito grande. Porque as pessoas ficam com um certo receio de se expor e de se mostrar quem são, e de se dar outro… Tem sempre ali um receio, ouviu? Eu sinto muito isso na Márcia. A Márcia, talvez pela profissão dela de psicóloga e de professora universitária, tem uma coisa que parece que ela se protege de alguma coisa que nem ela sabe o que é que é. Eu digo: “Mas se protege tanto de quê? Qual é o teu medo?”. “Não, porque a gente nunca sabe com quem ‘tá a lidar…” Só vai saber se lidar, né? E a desilusão faz parte. E falam mal de ti por melhor conduta que tu tenhas, quem quiser falar mal, vai falar. Então, eu não sei para quê tanta proteção, tanta defesa... Os portugueses têm isso. É questão de primeira, parece que… Não que os brasileiros também não tenham, tem brasileiro que também tem. Brasileiro, o Brasil não é assim isso aí, tão, tão libertário quanto parece, a elite brasileira é uma elite muito mais nojenta do que a portuguesa, e também tem defeitos sociais muito grandes. Agora, é um país que por ser muito novo, né? O Brasil só tem 500 anos,para um país é muito pouco, é um país adolescente. E como todo adolescente é inconsequente, portanto, se atira às coisas, tem muito receio… Mas acaba sendo uma forma de estar mais, mais extrovertida, o que não quer dizer que seja livre ou feliz. Mas é uma alegria um pouco disfarçada, né? Eu gosto muito da maneira de estar portuguesa também, eu não consigo ser assim. O que eu acho é que às vezes eu sinto que nas minhas sessões há velhotes que viram para mim e dizem assim: “Foi a melhor tarde que eu já passei na vida!” Ora, que vida que esse homem teve? Para achar que uma sessão de contos é o melhor momento que ele teve na vida?! Então, eu não sei, eu acho que a cultura talvez atrapalhe um pouco as emoções aflorarem, né? Sei que em todas as formações e nas sessões – nas formações até sinto mais isso – as pessoas saem muito felizes, daquele momento ter sido um momento muito bom. Porque eu trabalho o tempo inteiro com a questão da liberdade, de vamos construir o nosso mundo, aqui dentro, e as normas são construídas por nós. Esquece o que foi estabelecido lá fora. Claro que cada um tem as suas referências, mas vamos fazer as nossas referências aqui. Eu faço isso com os meus alunos na… eu dou aula de Teatro na escola de enfermagem.

Sara – Ah, OK então és professor também.

Thomas – Sim, eu dou aula lá, há já 12 anos.

Sara – Escola de enfermagem?

Thomas – É.

Sara – Ai, que engraçado! Eles têm teatro?

Thomas – Têm, e eu implementei. E eu implementei porque foi ideia lá de uma das professoras. Porque havia uma coisa lá que eles faziam, de poesia, que fizeram algumas vezes, e eu fui uma vez contar uma história de cordel lá. E eles acharam aquilo muito bom, não sei o quê, e aí, eu aproveitei e propus: “Porque não fazem um curso de teatro aqui?” E ela gostou e fizemos. E aí esse, esse curso do início foi feito com os alunos, depois foi aberto aos docentes, houve alguns docentes que aderiram, depois acabou, o pessoal acabou saindo, porque aquilo é segunda à noite e não dá muito jeito para o pessoal que tem família, não sei o quê. Depois ficou, já dura há 12 anos. E eu digo sempre para eles: aqui a regra não é a da escola, a regra é nossa. Nós é que fazemos as nossas regras. E o dia que a escola me disser que eu não posso fazer o que eu quiser, eu saio, porque só faz sentido se a regra for nossa. Eu me lembro de uma cena que havia, nos encomendaram um espetáculo sobre a ética. E esse espetáculo ia ser um seminário que havia dentro da escola, que vinham enfermeiros de vários países, inclusive enfermeiros muçulmanos. E fizemos uma coisa sem palavras, onde havia alguns momentos de narração e a narração era traduzida também para inglês. Mas o espetáculo era praticamente mudo, e o espetáculo era: a história era basicamente uma mulher que saía da sua aldeia, achava que a sua aldeia era uma aldeia cheia de regras e cheia de coisas que ela não gostava, de pessoas muito desonestas, sem ética, e ela queria encontrar o Eldorado, a terra prometida, e vai embora da sua aldeia. E, para não perder o rumo,  ela põe os sapatos na direção onde ela tá indo, cada vez que ela vai dormir. E numa dessas vezes, aparece um homem na estrada, e vê que ela ‘tá dormindo e os sapatos estão naquela direção. E ele na tanga resolve pôr os sapatos na direção contrária. E põe os sapatos apontados para direção da onde ela veio. E o sonho que ela tem nessa nessa vez que ela dorme é com a terra do amor. Como na escola de enfermagem não há praticamente homens, os alunos são quase todos mulheres, era uma cena de amor entre duas mulheres, que não sugeria nenhum lesbianismo nem nada disso. Só que eram duas mulheres que se abraçavam, que se acariciavam, pronto. Uma das professoras da escola disse que aquilo, os muçulmanos poderiam não gostar, se a gente não podia cortar aquela cena… e eu disse: Não, porque isso é antiético. Se o espetáculo é sobre ética, temos que ser éticos. Agora, a única coisa que eu posso fazer é levar o caso aos alunos, eles que decidem. A lei é feita por eles, não é pela escola. E aí os alunos, por unanimidade, não quiseram cortar a cena. E fizemos. E os muçulmanos viram. O medo deles é que os muçulmanos têm outra cultura, que não sei o quê. Qual foi a opinião dos muçulmanos, no final do espetáculo? A cena que eles mais gostaram foi essa! Que era uma das cenas mais bonitas da peça. E era até feita com uma chinesa, que era aluna de lá. E era linda a cena. E não tinha pudor, porque nós fazemos muitos exercícios durante o curso, que esse pudor vai desaparecendo, as pessoas chegam lá, às vezes vêm tímidas até em dizer o nome, né? E depois vamos trabalhando tantas potencialidades, que elas acabam fazendo coisas que nunca imaginaram fazer na vida, né? E a sexualidade é uma delas, trabalhamos isso também. A sexualidade, a relação olho no olho, que eles têm imensa dificuldade de trabalhar. Então, tudo isso é trabalhado no teatro, porque não há regras sociais. Então tem às vezes uma coisa, “Ah, se eu fizer esse espetáculo tem isso, a minha família não pode ver”. Então não faça! Só faça o que acha que a tua família pode ver, porque eu não vou cortar em função da tua família. O que  eu posso fazer é: o fulano vai fazer esse papel que a tua família não pode ver. Eu não quero interferir na tua família, agora a tua família também não vai interferir no meu trabalho.

Tem um conto que todo o contador gosta de contar mas nenhum deles faz, que é (que a Sara já deve ter ouvido), que é a história de um homem que ‘tá a falar sozinho e aparece uma criança e todas as vezes que passa naquela rua, naquela praça, o contador ‘tá falando sozinho. E a criança vira para ele e diz assim: “Porque é que o senhor tá a falar sozinho? Não tem ninguém para ouvir!” E ele diz assim: “Eu ‘tô a contar uma história”. E a criança pergunta: “Mas para quem?” E ele diz para a criança: “Olha, é muito simples: é que antigamente eu contava histórias para mudar o mundo. E agora eu conto para que o mundo não me mude”. Eu faço isso. Eu não admito que o mundo me mude. E por isso eu pago o preço, porque se paga um preço para isso. É sempre uma questão de negociação, tem como negociar com o mundo. Mas assim como eu não quero mudar o mundo, não tenho essa pretensão, também não acho justo que o mundo me mude. Então, às vezes… tem que fazer isso… porquê? Porque é que tem que fazer isso? É uma coisa que até hoje eu me debato com a minha filha. Porque é que se tem que fazer determinadas coisas? Há determinadas coisas que tem que fazer porque é lei, não se pode ir contra a lei. Mas há coisas que dá para se mudar. Não é exatamente como vendem para gente, né? E que, quando a gente muda, a gente vê que não é assim tão difícil.

Sara – Claro… Olha, por falar em coisas que não mudam: aah… o horário da Cristina, que tem de ir trabalhar, não é?!

Thomas – Ainda existe essa ideia?

Sara – Eu aposto como ela gostaria de ficar aqui até… até à noite!

(A Cristina revira os olhos, sorrindo, e faz um gesto com a mão para indicar muito, muito tempo)

Thomas – Cristina, se trabalho desse futuro a alguém, jumento vivia bem!

Cristina (Ri.) – Muito bom, muito bom! Pois é, eu gostava de ficar eternamente, mas não posso. Estou em casa, portanto ainda tenho que me deslocar para o serviço, e então tenho que ir. Obrigada, Sara, por te lembrares!

Thomas – E a Cristina trabalha em quê?

Cristina – Eu trabalho numa biblioteca, na Biblioteca Municipal da minha cidade. Estou no Algarve, em Olhão.

 Thomas – Ah, em Olhão?! Isso não é trabalho, isso é prazer!

Cristina – É.

Sara – Que bom, pois é!

Cristina – É muito bonito, é, é mesmo prazer, para mim é um prazer. Estou lá há pouco tempo, só lá trabalho há 3 anos. Mas… trabalhei sempre nas escolas, no pré-escolar, que é a faixa que eu gosto mais, a faixa etária que eu gosto mais. Mas é difícil, é. É duro.

Thomas – Pré-escolar é a primária?

Cristina - Não, é antes, dos 4 aos 6, dos três aos seis.

Thomas – Não, eu adoro criança dessa faixa etária. Eu não gosto é de contar para essa faixa etária porque – não pelas crianças – porque eu acho que não tenho jeito para esse público. Acho que tem que conte melhor que eu para esse público. Criança a partir dos seis, eu me sinto muito mais à vontade, embora eu goste mais do pré-adolescente, criança de 11, 12. Quinto, sexto ano para mim é o melhor público que há. Não acho que o público adulto seja o melhor, não. Eu conto muito para adulto, porque me chamam, mas eu não gosto de adulto. Eu gosto de adolescente, que ninguém gosta e eu gosto, e gosto de velho. Adoro os velhos. Em Portugal! Mas eu não gostava, não. O velho do Brasil ‘tá de um jeito muito chato, em Portugal não acho. Porque os velhos de Portugal não têm muito filtro. E tudo o que os portugueses não se dão ao direito, os idosos portugueses se dão. Então, eles ficam completamente livres, libertos de qualquer responsabilidade social. Então é uma delícia esse público da terceira idade, quando ‘tão fora do lar. Nos lares de terceira idade, depende muito do lar e da região, da zona. O público, por exemplo, dos lares no Alentejo é muito diferente do público dos lares do Porto, absolutamente diferente. Os lares do Porto são deprimentes, os lares do Alentejo são verdadeiros hotéis. Porque o Alentejo é o Alentejo. O Alentejo é… é o paraíso.

Sara – Olha, obrigada. Eu vou interromper a gravação então, está bem?

Thomas – ‘Tá bom, Sara. Obrigado por tudo.


Nós é que agradecemos, claro. E também à nossa querida professora Joaninha Duarte, que me apresentou ao Thomas em 2018, e que nos desafiou a realizar o trabalho sob o mote "Como (se) conta o contador".