09 março 2010

Sediada ou sedeada?


   Não é raro ver-se escrita uma frase cujo sujeito é «A empresa X, sediada/sedeada em...», e também não são raras as dúvidas sobre a vogal que vem a seguir ao d, por parte de quem precisa de escrever o verbo em questão e por parte de quem o lê com uma determinada grafia em detrimento de outra.

«Dúvidas? Mas porquê, se o verbo deriva do nome sede, que se escreve com e no fim?» - Perguntarão, talvez, algumas pessoas. Porém, como sabemos, a última vogal de um nome nem sempre se mantém nos respectivos derivados, ou por razões etimológicas, ou porque os sufixos começam frequentemente por vogal, sobrepondo-se esta à vogal final da palavra base. Exemplifiquemos:

pulso > pulseira
cabo-verde > cabo-verdiano
cabeça > cabecear
presença > presenciar

   Ora, como vemos, existem dois sufixos verbais com formas parecidas: -ear e -iar.
   Contudo, achamos que há uma diferença importante entre eles: o primeiro, -ear, exprime uma ideia de movimento, de deslocação, que está presente nos derivados que o contêm: cabecear (abanar a cabeça), pontapear (dar pontapés), folhear (passar as folhas), nortear (encaminhar para norte) - e inclusivamente o verbo sedear, que, com esta grafia, significa «escovar com sedas».
   Já o segundo sufixo, -iar, não transmite essa ideia. Em premiar (dar um prémio), presenciar (estar presente), remediar (dar remédio), chefiar (ser o chefe) e sediar (estabelecer sede) não há qualquer relação com movimento. Assim se justifica, no nosso ponto de vista, que o significado «ter sede em» seja veiculado pelo verbo sediar, com i.





1 comentário:

světluška disse...

Excelente observação. Nunca me tinha ocorrido antes.