26 outubro 2010

Escuteiro e escoteiro

Eis uma subtileza ortográfica que pode causar alguma hesitação e, talvez, perplexidade, porque o mais comum é pensar-se que apenas uma das formas, entre escuteiro e escoteiro, está correcta.

No entanto, ambas existem em português. Os "seguidores" de Baden-Powel, o general inglês que fundou o escutismo, são os escuteiros: indivíduos que pertencem a uma associação cujo objectivo é o «aperfeiçoamento moral, intelectual e físico das crianças e dos jovens, pelo desenvolvimento do seu espírito cívico» - citando o Dicionário de Língua Portuguesa da Infopédia.
 Mas existe também o escoteiro, que é «aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote nas estalagens», de acordo com o mesmo dicionário. (E o que é isso de "escote"? - podemos perguntar-nos... já lá vamos!). Mais: também há escotismo com o. Trata-se de um  «sistema filosófico e doutrina de João Duns Escoto, filósofo irlandês (1274-1308), seguida pelos franciscanos» (a fonte é a mesma).
Quanto ao escote, é uma «quota individual para uma despesa comum» e tem origem no francês antigo escot (que significava «contribuição em dinheiro»), ainda de acordo com a Infopédia.

Bom, e se não for para dissipar dúvidas, isto serve para demonstrar como as palavras nos dicionários são como as batatas fritas: cada uma que se "prova" leva-nos a procurar mais e mais...!

11 comentários :

L.O.L. disse...

Só sei que no Brasil utiliza-se a palavra "escoteiro" em vez de "escuteiro". Quem não se lembra das famosas edições brasileiras de livros aos quadradinhos ESCOTEIROS MIRINS????

S. Leite disse...

Pois é: mais uma divergência entre portugueses e brasileiros, no que respeita à ortografia. E o Acordo de 1990 não irá melhorar muito a situação...

Anónimo disse...

O termo usado inicialmente em Portugal para traduzir a palavra inglesa foi "Escoteiro". A Associação dos Escoteiros de Portugal usa, regularmente, essa forma. Poderá ter sido a mera utilização de um termo comum pre-existente, nunca consegui confirmar tal. Mais tarde surge o Corpo Nacional de Escutas e o termos "Escuteiro", um neologismo, talvez próprio, talvez não. A nova palavra não parece ter saltado o Atlântico.

O termo "Escota" também é usado para designar um dos nós que os escoteiros têm de aprender.

Luís Avelino

Luís Alves de Fraga disse...

Tiro-lhe o meu chapéu perante a paciência, o gosto e minúcia - quase diria, carinho - com que trata a nossa Língua!
Consigo, e aqui neste blogue, estou sempre a aprender e, confesso, pergunto-me muitas vezes: saberei escrever na Língua que julgava saber?.
Obrigado pelas Lições.

S. Leite disse...

Escoteiro e escuteiro serão, afinal, duas formas ortográficas legítimas, considerando que a palavra de origem é o termo inglês "scout" - que tem ambas as vogais, o O e o U! Só falta mesmo escouteiro... why not?!

Luís Alves de Fraga disse...

Militarmente existe o batedor, o explorador ou, também designado escuta (dada a sua função de observador visual e auditivo). Assim, se o escuteiro é um "explorador", parece-me, não querendo pôr em causa a sua afirmação com a autoridade que lhe assiste, que a escrita mais correcta tenderia a ser a de escuteiro (aquele que escuta ou explora) e não escoteiro.
Estará muito errado o meu raciocínio?
A sua douta sentença calar-me-á, de certeza!

Anónimo disse...

Tendo a minha filha ingressado nos Escoteiros há pouco tempo, fui saber das diferenças e o porquê das mesmas.
Encontrei alguma informação no site da AEP (Associação de Escoteiros de Portugal), entre outros sítios.
O que retive foi:
Em Portugal os Escoteiros iniciaram actividade, baseando-se nos princípios de Baden-Powel em 1911 (fazem 100 anos no ano que vem) tendo adaptado o nome de Scout.
Com a Ditadura perderam alguma força e a Igreja Católica começou o seu próprio grupo (baseado nos mesmos princípios, mas com a componente religiosa), tendo alterado o nome para escuteiros para diferenciar e criando o Corpo Nacional de Escutas.

http://www.escoteiros.pt/new_site/artigo-Historia-9-0-8

Alexandra

S. Leite disse...

Eis um comentário muitíssimo interessante e esclarecedor, que enriquece, em muito, o nosso texto. Obrigada!

Anónimo disse...

Quando se trata do movimento de BP, ambas as grafias estão erradas e só entraram no uso comum por semelhança, já que a palavra que BP colocou foi scout = explorador = batedor = aquele que vai a frente, e tantas outras traduções, aqui no Brasil houve diversos o primeiro foi traduzir scout como escoteiro e também escotista por pura semelhança e preguiça de raciocínio. Outra aberração foi traduzir Bee Prepared = estar preparado, esteja preparado como Sempre Alerta.

Hugo Tomás disse...

em Portugal escuteiro é do CNE e escoteiro é da AEP

Anónimo disse...

Algo que encontrei no site da AEP:~

Para quem não conhece a A.E.P. e a História do Escotismo em Portugal pode parecer estranho que se utilizem duas grafias para uma palavra, que, além de homófona é homónima. São vulgares as acusações de erro ortográfico a quem utiliza a expressão "escotismo" - assim mesmo, com um "o" - em vez do atualmente mais vulgarizado "escutismo", com "u".

Afinal, qual delas está certa? Estão as duas, como adiante veremos, embora talvez mais a primeira.

Em 1913, após experiências feitas por vários Grupos de Escoteiros, foi fundada a primeira associação escotista portuguesa, a A.E.P. - Escoteiros de Portugal, segundo os princípios delineados por Lord Baden-Powell, o fundador do movimento escotista. Porque a adoção do estrangeirismo “boy-scouts” não agradou aos seus mentores, foi adotada uma palavra já existente na língua portuguesa, com uma fonética e um significado muito semelhantes ao scout saxónico: escoteiro, (s.m.) pioneiro; aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote; adj. leve; veloz. (Dicionário Porto Editora)

Em 1923, a Igreja Católica idealizou criar outra associação escotista, mas com caráter confessional, destinada exclusivamente aos jovens que professavam a religião Católica Romana. Assim nasceu o "Corpo de Scouts Católicos Portugueses", mais tarde "Corpo Nacional de Scouts".

Por desconhecimento da pronúncia inglesa e inspiração no escotismo católico francês, a expressão "scout" era pronunciada à maneira francesa: "secúte". E, embora com outro desfecho, a história repetiu-se - os responsáveis daquele movimento católico tentaram encontrar uma palavra portuguesa que soasse ao ouvido de uma maneira próxima de "secúte" e com um significado ajustável. Escolheram o "escuta", justificando que, para além da semelhança fonética, o "scout" era atento e observador e, por isso, se adequava ao significado da palavra. Apesar de ser um conceito muito redutor veio a vingar, dando origem ao "Corpo Nacional de Escutas".