17 abril 2012

"Tem-no visto ultimamente?" ou "tem-lo visto ultimamente"?

Tem-no e tem-lo são combinações diferentes de forma verbal e pronome de complemento directo. Como na pergunta do título não há indicação da pessoa que desempenha a acção de ver, há uma ambiguidade que não permite concluir qual das duas seria correcta num determinado contexto. Ambas são possíveis... vejamos porquê.

Em tem-no, temos o verbo no presente do indicativo e a pessoa é a terceira do singular. Ele ou ela tem visto determinado indivíduo, por hipótese. Essa pessoa, enquanto “objecto directo” do verbo ver, é substituída pelo pronome o. Mas como a forma verbal termina em ditongo nasal e o pronome é o de C.D., 3.ª pessoa, a regra é: acrescenta-se um n ao pronome o. Tal como acontece por exemplo em “deram-no” e “põe-nas” (e seria incorrecto dizer “deram-o” e “põe-as”).

No caso de tem-lo, o tempo do verbo é, também, o presente do indicativo. Mas há uma alteração na própria forma verbal, por causa do pronome que se lhe junta, que é novamente o de complemento directo, o. A regra é: quando as formas verbais terminam em s, r, ou z, essas consoantes finais são suprimidas se a seguir vier o pronome o/a(s) e a este pronome antepomos um l. Assim, devemos dizer: “tu come-la muito depressa” (e não “tu comes-a muito depressa”; “vou guardá-los” (e não “vou guardar-los”);  “fi-lo ontem” (e não “fiz-o ontem”).
Portanto, o sujeito implícito em "tem-lo visto" é tu. "Tu tens visto o teu vizinho ultimamente?", por exemplo, o que, simplificado, dá "tem-lo visto ultimamente?", porque: ten(s) + (l)o = tem-lo.

Assim, dependendo de quem seja o sujeito daquele tem (que poderá ser tens), deveremos optar por uma ou outra forma.

30 março 2012

"Estou cidrada" ou "estou siderada"?

Quando certas palavras se pronunciam de forma idêntica ou muito semelhante, há dúvidas que podem surgir apenas no momento em que nos vemos obrigados a escrever aquilo que apenas costumamos dizer. Então, o que nos confunde são os chamados parónimos: pares de vocábulos cujo significado é perfeitamente distinto, mas que pela forma se aproximam, como descriminado / discriminado, intersecção / intercessão, caçar / cassar, despensa / dispensa, elação / ilação, entre tantos outros. 

No caso de nos sentirmos surpreendidos, perplexos, atónitos, fulminados, "esmagados" por alguma coisa que experimentamos ou testemunhamos, o que devemos escrever: que estamos cidrados ou siderados?






A grafia certa é siderados. Vem do verbo latino siderāre, cujo significado é «sofrer a influência dos astros», como refere a Infopédia (daí a afinidade com sideral, relativo ao céu ou aos astros).

A forma participial "cidrados" só poderia vir do verbo cidrar, por sua vez derivado de cidra, o fruto da cidreira. Embora exista o substantivo cidrada, que é um doce feito com cidras, o verbo cidrar não se encontra atestado. Isso não nos impede de o usarmos, se for necessário. Porém, o seu uso deve reservar-se às situações em que uma pessoa ou coisa seja porventura esmagada por uma cidra...


26 março 2012

O correto e o incorreto: entre as duas balizas

A dicotomia correto/incorreto tem sido uma questão amplamente debatida na literatura, encontrando defensores, mas também muitos opositores.
De um lado, situam-se os normativos, puristas da língua, cuja correção linguística decorre do rigoroso cumprimento da norma escrita, fundada no exemplo dos clássicos da literatura. De outro lado, situam-se os linguistas descritivos, que privilegiam a variação linguística, com base na frequência do uso e cuja máxima é “o povo é quem faz a língua”. Porém, como sabemos, ao invés de criador da língua, o povo é, sim, um utilizador e recetor de tudo o que ouve e lê.
Tarefa difícil é a de quem, como eu, se encontra entre as duas balizas. Enquanto linguista, cabe-me a missão de observar e descrever os diferentes aspetos da língua, a sua variação, mudança, idiossincrasias e, enquanto professora, a missão de prescrever e veicular a norma.

Mas que norma? Afinal, o que é a norma?
Eugenio Coseriu definiu norma como "o conjunto de traços linguísticos distintos impostos por uma tradição cultural e social que se torna a referência para toda a comunidade linguística, sendo ensinada na escola e veiculada pelos meios de comunicação social, os quais, para serem entendidos pelo grande público devem veicular precisamente essa norma-padrão".
A norma é, assim, o resultado do processo segundo o qual uma variedade social, convertida em língua padrão, se torna num meio público de comunicação: a escola e os meios de comunicação passam a controlar a observância da sua gramática, da sua pronúncia e da sua ortografia.

E quem fixa a norma? Quem se atreve a exercer o papel de “tribunal” da língua?
Outrora, no séc. XVI, a norma estava na Corte, de cujos membros se aprendia o uso correto da linguagem. No séc. XIX, por sua vez, a norma emanava de Coimbra, berço da primeira Universidade.
Atualmente, a norma-padrão parece ser aquela que a Escola (todo o Ensino) e os meios de comunicação social – televisão, rádio e imprensa – difundem.
Mas com base em quê? Nos dicionários e nas gramáticas de referência? Nos autores literários? Nos escritores?
Para justificar as regras que prescrevem, as gramáticas normativas apoiam-se em larga medida nas atestações dos escritores. Quando as consultamos, ficamos felizes por constatar que uma dada estrutura sintática sobre a qual tínhamos dúvidas é afinal legítima, porque um grande autor a utilizou nas suas obras.
A verdade é que os escritores também têm dúvidas, como muito bem observou o professor Ivo de Castro no artigo intitulado O Linguista e a Fixação da Norma (2002) [in Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa], contando a seguinte história passada com o escritor Augusto Abelaira:
«Incerto quanto a uma construção sintática infelizmente não identificada, pegou na Nova Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira. Se Celso Cunha e Lindley Cintra estivessem cientes das hesitações de Abelaira, teriam mantido a citação? E, sem ela, a regra? O que um escritor escreve, porventura desviadamente, torna-se logo português de lei?».

Daqui se conclui que a norma é como uma prancha de surf, tentando servir de plataforma firme num mar instável que é a língua.
Esta metáfora quer tão-somente dizer que falta em Portugal uma Autoridade da Língua com força de lei e cuja missão fosse a de esclarecer os falantes sobre a pronúncia das palavras, a adaptação de estrangeirismos, algumas estruturas sintáticas mais complexas, os diferentes valores semânticos que as palavras vão assumindo; que estabelecesse a fronteira entre o erro e a variante linguística...
Enfim, que se ocupasse de todas as questões inerentes a uma língua viva, como é a língua portuguesa!

09 março 2012

"Quem Tem Medo do Acordo Ortográfico?"


O título acima foi o que demos a uma comunicação que fomos fazer ontem à Escola Básica 2 3 D. Pedro IV, em Queluz.
A pedido da responsável pela organização do evento anual Semana da Leitura, o tema foi o do Acordo Ortográfico. E como a turma que iria assistir à nossa apresentação já tinha aprendido, com a professora de Português, quais são as mudanças implicadas, optámos por levar-lhes alguns exercícios que suscitassem dúvidas e os nossos esclarecimentos.
A sessão correu bem, os meninos e meninas do 5.º ano estiveram extremamente atentos e foram muito participativos. As perplexidades foram surgindo e os porquês começaram a fazer-se ouvir. A cada regra que enunciávamos, para a eliminação de acentos ou para a utilização do hífen, surgia, de imediato, a excepção evidente e desconcertante. No final, e propositadamente, mostrámos-lhes um texto escrito numa grafia pós-acordo que, em vez de ser una e inequívoca, era escandalosamente mista e incompatível: uma "salada" de português europeu e português do Brasil.  A ideia era que percebessem que, apesar de tudo, o Acordo não nos obriga a nós a escrever "brasileiro" nem aos brasileiros a escrever conforme a grafia de Portugal. A certa altura, uma professora pergunta: «então se eu escrever "perspectiva" estarei a cometer um erro ou não?». Explicámos que em Portugal perspectiva não é aconselhado, ao passo que no Brasil é a grafia certa, pois lá pronuncia-se o [k] antes do t. «E se eu estiver no meio do Atlântico?», brincou ela.
E eu tive vontade de nunca mais me dispor a prestar esclarecimentos sobre um absurdo.

05 março 2012

Desafio linguístico

Existe alguma incorreção na frase que se segue?

«A maioria dos adeptos benfiquistas saiu do estádio com a moral em baixo!»

22 fevereiro 2012

Tal ou tais?

Os valores já não são reconhecíveis como tais ou

Os valores já não são reconhecíveis como tal ?



Resposta:

   A palavra tal pode pertencer a várias classes gramaticais. Frequentemente é usada enquanto determinante ou pronome demonstrativo, podendo ser substituída por outros como este, esse, aquele / esta, essa, aquela / isto, isso, aquilo. Se tivéssemos uma frase como “tais valores deixaram de ser considerados”, não teríamos dúvidas de que “tal valores” seria incorrecto: o determinante tal está antes do nome valores e por isso tem de concordar com ele em número.
   Mas a frase é “os valores deixam de ser considerados enquanto tal/tais [?]”, o que significa: “os valores deixam de ser considerados enquanto isso (mesmo), que é o facto de serem valores. Neste caso, podemos desde logo desconfiar da flexão do pronome no plural, porque ele não antecede o nome valores...
  Na verdade, a expressão  “como tal”, bem como a expressão “enquanto tal”, é fixa e invariável, devendo ser entendida como uma locução adverbial cujo sentido é o mesmo da palavra assim. Para comprovar isso, podemos fazer a substituição daquelas duas palavras – a expressão fixa – por esse advérbio: “Os valores deixaram de ser considerados assim.”

07 fevereiro 2012

O AO e o CCB

Duas ligações interessantes sobre a recente e polémica questão da aplicação (ou não) do acordo ortográfico no Centro Cultural de Belém:

A brigada do asterisco - comentário do Embaixador Português em França

ILC contra o AO - razões para não aceitar a sua imposição

Tubo de Ensaio- crónica humorística de Bruno Nogueira (07/02/2012)

Vamos ou "váiamos"?

Que forma do verbo IR utilizariam para preencher o espaço na seguinte frase?

A Rita quer que nós ___________ com ela.

Muitos leitores decerto escolheriam "vamos" e é essa a forma adequada para o presente do conjuntivo do verbo ir. Porém, conheço muita gente que optaria por dizer "váiamos", tal como diria "dêiamos" em vez de dêmos, se, num contexto semelhante, o verbo fosse dar. Há quem defenda, para se justificar, que "váiamos" é a forma usada na região onde cresceu e aprendeu a falar português. Até pode ser. Mas, como sabemos, nem tudo o que se ouve dizer (às vezes uma vida inteira) é o que está correcto, do ponto de vista linguístico, tendo em conta a gramática normativa. A pergunta a fazer é: queremos usar a língua de acordo com o uso regional com que nos identificamos, ou queremos usar a variedade padrão, aquela que é encarada como modelar? A escolha será sempre nossa. Convém é que seja consciente, isto é, que saibamos que estamos a fazê-la, quais são as opções e o que implica cada uma delas. É o que acontece quando optamos entre:

auga e água
pus-os e pu-los
perca e perda
espilro e espirro
hás-de e hades
se haver e se houver

..e tantas outras!

02 fevereiro 2012

"Muitos de nós sentem" ou "muitos de nós sentimos"?





A concordância verbal tanto se pode estabelecer com o determinante indefinido (ou quantificador) “muitos” como com o pronome pessoal “nós”, portanto podemos dizer «muitos de nós sentem um certo desconforto», por exemplo, ou «muitos de nós sentimos um certo desconforto».

À partida, a expressão partitiva “muitos de” deve levar-nos a flexionar o verbo na 3.ª pessoa do plural (considerando esses “muitos”, seja do que for). Se tivéssemos o sujeito “muitos do grupo” faria com certeza mais sentido dizer “muitos do grupo sentem um certo desconforto” e seria bastante estranho dizer “muitos do grupo sente um certo desconforto”. Nesse contexto, ninguém tem dúvidas!

No entanto, os falantes hesitam quando a construção é "muitos de nós". Porque o pronome nós implica a pessoa que fala. Nesse caso, há toda a legitimidade em usar o verbo na 1.ª pessoa do plural: "muitos de nós sentimos" - ainda que, de acordo com o explanado no parágrafo anterior, seja correto dizer que "muitos de nós sentem".


Aliás, e voltando à expressão "muitos do grupo", se eu fizer parte do grupo, até posso dizer “muitos do grupo sentimos um certo desconforto”. Essa concordância um pouco esquisita resulta de um processo a que se dá o nome de silepse: uma concordância que não é propriamente gramatical, mas antes estabelecida de acordo com o sentido, tendo em conta a realidade a que se alude.

Resumindo: muitos de nós sentem dúvidas; muitos de nós sentimos dúvidas. Ambas as frases estão corretas, sendo que na primeira a concordância é estabelecida com base na expressão "muitos de" + 3.ª pessoa do plural, ao passo que na segunda a concordância é comandada pelo pronome "nós".

31 janeiro 2012

Portfolio, portfólio, portefólio ou porta-fólio?

Será possível que haja quatro grafias correctas, em português, para esta palavra?

Sim. Qualquer das formas apresentadas no título está atestada pelo menos num dicionário de língua portuguesa. Faz sentido?

12 janeiro 2012

A.O. e outros problemas

Ainda na ordem do dia, o "novo" Acordo Ortográfico atrapalha a vida a muita gente, embora se possa pensar que deixarmos de escrever algumas consoantes que não se pronunciam pode simplificar a tarefa de escrever em português.
Atrapalha, porque as dúvidas surgem a todo o momento, sobretudo quando é necessário escrever palavras compostas ou formadas por prefixação (cocolaborador ou co-colaborador?), ou quando nos preparamos para usar maiúsculas (norte ou Norte?) mas também quando não temos a certeza de se pronunciar, na "norma culta", determinada consoante (Egipto ou Egito?). E atrapalha muitas vezes os professores e os pais que lidam com crianças no ensino básico e cujos manuais e textos de apoio estão escritos de acordo com as duas grafias: a de 1945 e a de 1990. Com efeito, não é fácil para eles, nem para as crianças, gerir com os melhores resultados, ao nível da produção, as leituras "mistas" que se vão fazendo e que vão baralhando as referências ortográficas de cada um.
A fase de transição é realmente muito ingrata. Pela minha parte, por mais que deteste as novas regras que me obrigam a "descaracterizar" as palavras (ação, ator, redação e ótimo parecem-me tão feias...), sei que me vou habituar e que daqui a uns tempos já nem vou pensar mais nisso. Por outro lado, ao lidar quase diariamente com alunos recém-chegados ao ensino superior, estou consciente de que as dificuldades que muitos adultos revelam na escrita são bem mais abrangentes e graves do que as hesitações provocadas pela novas regras ortográficas. Custa-lhes tanto expor ideias (quando as têm) por escrito, é-lhes tão difícil distinguir passa-se de passasse, ficam tão atrapalhados quando lhes peço que utilizem um registo cuidado, que o A.O. se torna um pormenor insignificante dentro desse grande problema que é a sua dificuldade de expressão oral e escrita.
Devo ressalvar o facto de não serem todos - há sempre os alunos que nos surpreendem pela positiva, que nos ensinam, que nos calam a boca. Ainda hoje um aluno espanhol me ensinou uma palavra em português. Mas os que revelam dificuldades (e que o admitem, até, com tristeza e resignação) são cada vez mais, o que de resto não deve ser novidade para ninguém. Isto só prova que o meu trabalho é importante, ainda bem. Mas às vezes penso: antes não fosse...

03 janeiro 2012

Desafio linguístico

A frase abaixo tem alguma incorreção?


“Na véspera do ano novo, centenas de pessoas foram evacuadas de um shopping da capital na sequência de uma explosão de gás.”

23 dezembro 2011

19 dezembro 2011

Quantas mais pessoas ou quanto mais pessoas?

Hoje, a propósito de um anúncio que ouvi na rádio, pareceu-me que esta seria uma interessante pergunta para colocar aqui. Mais do que escolher, importa saber por que motivo uma das construções é preferível...

Quantas mais pessoas vierem à festa, melhor.

ou

Quanto mais pessoas vierem à festa, melhor.

?

14 dezembro 2011

Anticonstitucionalissimamente

Afinal, aquela palavra que por vezes ouvimos dizer que é a mais comprida, ou das mais compridas em português, anticonstitucionalissimamente, é correcta ou não? E porquê?
Agradeço desde já as vossas respostas a esta "pergunta-desafio"! (Não se trata propriamente de uma pergunta retórica ou de uma dúvida existencial).

Uma pista: a resposta implica considerar o tipo de adjectivo que está na base do advérbio.

30 novembro 2011

SER ABUSADO, ainda e sempre…

A forma participial «abusado» só por si não constitui erro algum. Corresponde ao particípio passado de um verbo da primeira conjugação – ABUSAR. (Tal como: estudar – estudado; gostar – gostado; comprar – comprado; maltratar-maltratado, etc.).
Assim, é possível termos a estrutura composta TER ABUSADO, em construções participiais ativas como (1):

(1) Esse indivíduo tem abusado frequentemente dessas crianças.

O erro sintático prende-se com o uso do particípio «abusado» com o verbo auxiliar SER, em construções participiais passivas como (2):

(2) * Essas crianças têm sido abusadas frequentemente por esse indivíduo.

A frase (2) tem uma incorreção sintática, porque o verbo abusar NÃO PERMITE construções passivas. E porquê?
Porque é um verbo transitivo indireto, ou seja, é um verbo que é acompanhado de uma preposição.
Assim, verbos como CONVERSAR COM, OBEDECER A, GOSTAR DE, ABUSAR DE admitem apenas construções ativas e NUNCA PASSIVAS. Observem-se as seguintes construções passivas totalmente impossíveis em português:

(3) A Maria conversou com o Pedro.
(4) * O Pedro foi conversado pela Maria.
(5) O Pedro obedeceu aos pais.
(6) * Os pais foram obedecidos pelo Pedro.
(7) O Pedro gosta da Maria.
(8) * A Maria é gostada pelo Pedro.

Do mesmo modo, do ponto de vista sintático, não é possível termos a estrutura (10):

(9) O homem abusou da criança.
(10) * A criança foi abusada pelo homem.

Uma vez que não é legítimo o uso de passiva com este verbo, sugere-se o uso de perífrases, como (11):

(11) A criança foi vítima de abuso /maltratada/molestada/violentada.


Nota: O sinal * indica que a frase é agramatical, ou seja, incorreta do p.v. sintático.

16 novembro 2011

Quem tem e quem não tem medo de ter medo?

Na minha actividade enquanto docente, tenho concentrado boa parte do meu esforço pedagógico em ajudar os alunos a fazerem um percurso que os leve da inconsciência e da despreocupação face aos erros que cometem, na oralidade e na escrita, ao gosto pelo desafio que as situações do quotidiano lhes colocam, no que respeita à distinção entre o certo e o errado, a norma e o desvio.
Basicamente, tento levá-los a considerar que a forma como se fala e escreve é importante, e não indiferente, porque transmite uma imagem de nós que pode ser positiva ou negativa; e procuro transmitir-lhes a ideia de que, se tivermos consciência das nossas limitações e dificuldades, estaremos mais perto de as resolver e de melhorar o nosso desempenho. Explico-lhes, portanto, porque devem passar da atitude de “ah, eu nunca meto acentos” ou “eu nunca sei onde é que devo meter acentos” para a atitude de dizer “se há uma maneira de saber que palavras devem levar acentos e porquê, então eu quero saber qual é!”
Este caminho, que tento levar os alunos a percorrerem, através de actividades e exercícios sempre executados com bom humor e uma atitude essencialmente optimista, implica a passagem por um estádio intermédio – que tento que seja o mais breve possível –, que corresponde à fase em que, tendo tomado consciência da quantidade de erros que cometem, contrariamente ao que pensavam, os alunos têm medo. Medo de errar, medo de dizer ou escrever mal uma palavra ou uma frase, medo de passar a vergonha de assumir, perante si e perante os colegas, que afinal não usam correctamente a sua língua materna.
É uma fase que me faz pensar nas situações de perda, em que a dada altura se passa pela negação, pela incapacidade de aceitar a perda (neste caso, perda de confiança em si), porque muitos alunos demonstram certa falta de à-vontade perante o desafio de distinguir, por exemplo, entre o correcto e o incorrecto, ou perante a necessidade de confessar o desconhecimento do significado de certas palavras. Sentem-se inseguros, incapazes de acertar, e por isso, simplesmente, fazem outra coisa qualquer em vez de participarem na aula: mais ou menos discretamente, dedicam-se a estudar outra disciplina, a consultar o e-mail, a passar apontamentos. É como se assobiassem para o lado, escolhendo ignorar aquela oportunidade de melhorarem e voltarem a ganhar confiança na sua capacidade – não para não falhar, mas para aprender a evitar as falhas. Ora, o medo de falhar que cala e faz cruzar os braços é, como sabemos, o pior inimigo da aprendizagem – ou um inimigo pelo menos tão inconveniente como o orgulho em ser ignorante.
Foi da percepção deste medo que surgiu o título do nosso livro de exercícios (Quem Tem Medo da Língua Portuguesa?), que quisemos que soasse como um desafio convidativo, uma proposta lúdica. Não a concebemos apenas para os que conseguiram ultrapassar a fase da negação (ou para os que não passaram por ela, porque felizmente também há casos desses!), não é só para os que passaram a considerar cada exercício, cada teste, como uma excelente oportunidade para verificarem o que sabem e o que ainda não sabiam (e que  passarão rapidamente a saber), para os que respondem, sem hesitar: “eu não!”. O livro é também para os outros, para todos, porque com ele esperamos fazer surgir, ou estimular, o prazer de falar e escrever com correcção e rigor.





Nota: este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico porque não gosto dele e ainda posso fingir que não existe (estou em fase de negação, mas sem medo).

11 novembro 2011

premissas ou permissas?

Hoje venho fazer uma confissão: na aula passada, escrevi no quadro, sem pensar, "permissa".
Não tem desculpa nem perdão: se não temos a certeza de como se escreve, não devemos escrever. Muito menos num quadro de sala de aula, para todos os alunos verem e repetirem o erro, nos seus cadernos. Acreditem que me senti muito mal quando, horas mais tarde, houve uma luzinha de alarme que, muito atrasada, se ligou na minha mente. «Olha lá, não deverias ter escrito premissa?», perguntou-me um grilo falante que, na hora H, estava decerto, e infelizmente, a dormir.
O sobressalto foi atordoador. Senti uma náusea quase física. O mal estava feito. Raiva!
Desculpem o erro. E o desabafo. Todos.

02 novembro 2011

"Copydesk" por um dia - Parte I

Os textos seguintes são excertos de notícias de um órgão de comunicação social.
Faça uma revisão atenta a cada um deles e indique as incorreções linguísticas/ortográficas que detetar.


A.
"Nas operações realizadas no fim-de-semana, os elementos da PSP apreenderam 75 doses individuais de haxixe, nove máquinas de fortuna e azar, 1.847 CD´s e DVD´s falsificados, 54 peças de vestuário contrafeitas e 368 euros em dinheiro."

B.
"Quando o terceiro golo parecia eminente, o “capitão” Cristiano Ronaldo reduziu (90+2 minutos), na transformação de um livre direto, e Portugal ainda procurou o “milagre”, mas não chegou a criar qualquer oportunidade."

C.
"À DVC está associado um processo complexo, que na sua origem tem um ciclo vicioso entre a hipertensão e a inflamação venosa. "

D.
"Fonte da PJ disse à agência Lusa que a menina, com menos de 10 anos de idade, terá sido abusada num bar de uma coletividade que frequentava habitualmente, onde o suspeito trabalhava."

25 outubro 2011

Com ou 100 seguidores!


Com ou sem leitores "fidelizados", continuaríamos a escrever neste blogue, mas confesso que fico feliz com a constatação de que chegámos, lenta mas firmemente, aos 100 seguidores.

Claro que o número 100 tem apenas a aura de ser a primeira centena, é um cento fresco, redondo e certinho. Mas não é melhor do que 87, 99, 101, ou outro número qualquer.


Naturalmente, sejam quantos forem, quer voltem a abrir esta página, quer a vejam apenas uma vez, todos os leitores merecem a nossa atenção e o nosso agradecimento.


Porém, não há como evitar sentir esta ligeira e pueril euforia... Porque 100 é, de facto, um número bonito, quanto mais não seja por vermos nele um motivo para festejar!


Obrigada, sinceramente, aos (primeiros) 100 leitores que escolheram seguir-nos!

23 outubro 2011

Caça ao erro


Que erros gramaticais devem ser corrigidos nas frases seguintes?

1. Não há dúvida de que o curso trás conhecimentos fundamentais.

2. Algumas pessoas não têm o mínimo de informação à cerca deste assunto.

3. Os homens só se preocupam com ganhar dinheiro, nem que para isso tenham que haver guerras.

4. Sou monitora de ATL à quase dois anos e nunca senti necessidade de possuir uma licenciatura.

5. Se assim fosse, sentiriamo-nos bem melhor connosco próprios.

6. A notícia sobre este caso de pedófilia foi divulgada pelos orgãos de comunicação social.

7. Há certos conceitos que, para melhor os transmitir-mos, devemos compreender em profundidade.

8. A experiência, como é natural, adequire-se com o tempo.

9. É de referir os constantes sacrifícios a que as crianças são obrigadas nos dias de hoje. 


15 outubro 2011

O QUE SÃO E PARA QUE SERVEM OS CONECTORES?


Conector é uma designação genérica para as palavras ou locuções que servem para ligar ideias ou orações, permitindo construir frases complexas. Embora a conjunção seja a classe de palavras mais representativa desta função, também os pronomes, as preposições, os advérbios e até os verbos, para além da própria pontuação, servem para ligar orações.

Conjunções:
Rómulo de Carvalho é, ainda hoje, um conhecido poeta, professor e historiador, mas é pouco divulgada a sua faceta de pedagogo, embora sejam de grande interesse e enorme actualidade a maior parte dos seus diversos textos pedagógicos.

Pronomes relativos:
A facilidade das comuni­cações, que nos permite ter notícia, até simultânea, dos acontecimentos que se estão a passar em qualquer lugar do globo, tornam-nos comparsas de um espectáculo enervante no qual as múltiplas crises nos tocam, alarmam e deprimem. (adap. de Rómulo de Carvalho, “O estado actual do ensino da Física”).

Preposições:
Era um homem preocupado e atento às dificuldades sentidas pelos estagiários e professores, com perfeita consciência de que o Estado não cumpria a sua parte na eficaz organização e planificação do ensino, de acordo com as necessidades que eram sentidas por alunos e professores.

Advérbios:
Não estava satisfeito com a situação no país, talvez até tivesse contemplado a ideia de sair de Portugal, possivelmente leccionar em Inglaterra, entretanto o palco, por excelência, da aplicação de novos programas e novos métodos no ensino liceal.

Verbos (no gerúndio, particípio e infinitivo):
O professor terá sido um excelente examinador oficial, a avaliar pelos seus rigorosos critérios e grau de exigência, tendo sido o principal examinador estatal em Lisboa durante uma década, apreciados que eram os seus métodos de avaliação do desempenho de estagiários no ensino liceal.

03 outubro 2011

Tolerância de ponte ou de ponto?

Qual a expressão adequada: "tolerância de ponte" ou "tolerância de ponto"?
E porquê?

23 setembro 2011

Cuidado com as pesquisas :)

O Portal da Língua Portuguesa é uma base de dados de referência e um instrumento tão útil, que não imagino a minha vida sem ele. Não me canso de o recomendar e de louvar o trabalho da equipa que está por trás de tais conteúdos.
O seu vocabulário, porém, fornece apenas informação ortográfica e morfológica, pelo que gostaria de deixar aos leitores deste blogue, em especial aos meus alunos, duas recomendações:

a) tenham em conta que, por aparecerem duas palavras com grafias semelhantes, isso não significa que se trata da MESMA unidade lexical, com o mesmo significado. Por exemplo, o facto de constar ortiga e urtiga não quer dizer que o nome da planta se possa escrever de duas maneiras em português, pois ortiga significa também uma espécie de canhão.
Na verdade, é preferível, ainda hoje, escrever-se urtiga para designar a planta (do latim urtica), ainda que alguns dicionários já registem ortiga como variante ortográfica. O mesmo sucede com gás e gaz, chichi e xixi: estão lá ambas as formas, mas será que o significado é o mesmo? Só um dicionário nos pode esclarecer...


b) A divisão silábica apresentada para cada palavra é ORTOGRÁFICA. Isto significa que, se pretendemos saber como se divide uma palavra em sílabas fónicas, ou fonéticas, aquela base de dados pode não ser a melhor ajuda. Por exemplo, a palavra história aparece assim: his-to-ria. Ora, isto corresponde à divisão que se deve utilizar na translineação. Porém, na última sílaba (-ria) estão na verdade duas sílabas fónicas. Por isso, num manual de língua portuguesa do 1.º ciclo, por exemplo, história pode surgir como exemplo de palavra com 4 sílabas: his-tó-ri-a.
Acresce que a forma como partimos as palavras, quando as pronunciamos, pode variar consoante a velocidade de dicção (podemos dizer pi-a-no ou pia-no). Por outro lado, a translineação tem regras próprias que por vezes vão claramente contra a divisão silábica natural das palavras: por exemplo, partimos a palavra carro como car-ro, porque as consoantes iguais seguidas devem ficar separadas. No entanto, a partição fonética da palavra é diferente: [ka] [Ru] - ou seja, ca-rro.

Cuidado, portanto, com a forma como interpretam os dados disponíveis numa base de dados morfológica como a do Portal da Língua Portuguesa.
Espero que estas advertências sejam úteis e que tornem as vossas pesquisas ainda mais proveitosas!

20 setembro 2011

Ateéis e epimis

Sabem o que são "ateéis"?
Vários A.T.L.

As siglas são assim... achamos que se trata de um funcional conjunto de iniciais, sem direitos gramaticais, porque não são palavras a sério, e elas pregam-nos esta partida: põem na boca das pessoas um plural como deve ser, ou seja, flexionado de acordo com as regras da língua.
Se ATL ("á-tê-el") é uma unidade significante (e de que maneira! O que seria da maior parte dos pais e mães sem eles?!), um conjunto de sons verbais com tónica na penúltima sílaba e que termina em vogal + l - tal como papel, pincel e hotel - o seu plural, pois então, não deve ser A.T.L. (que não é plural nenhum), nem "A.T.L.'s", que soa a erro infantil, como "papeles" e "pinceles", mas "ateéis", como pincéis e hotéis.

E agora acrescento, depois de um prezado leitor me ter chamado a atenção para o facto de parecer que, no parágrafo anterior, eu defendo que o plural de ATL deve ser "ateéis": era a brincar, estava a ser irónica! Na verdade, as siglas não devem ser usadas no plural: o plural de ATL é ATL (repare-se que não há diferença nas iniciais entre Atelier/Ateliê de Tempos Livres e Ateliers/Ateliês de Tempos Livres).


E uma vez que acrescentei este aviso, posso agora perguntar: saben o que são "epimis"?
Essa ouvi ontem, com estes ouvidos que a terra (não) há-de comer: «dois epimis com bongos, nâguetes e cenoura», confirmou o funcionário da caixa de pagamento, depois de ouvir o pedido.
Já estão a ver o que são "epimis"?

Claro! É o plural de Happy Meal :)

18 setembro 2011

Aselhas e azelhas

Todos temos o direito de ser aselhas, de dizer disparates, de falar sem pensar, de cometer erros, de não conseguir fixar o que aprendemos e de esquecer o que tínhamos aprendido. É o direito de sermos humanos, afinal.
E quando teimamos no erro, quando nos recusamos a aprender, quando temos orgulho em sermos ignorantes... será esse também um direito nosso?




Claro que sim. Com uma diferença, que bem se vê.
É que, se assim formos, seremos mais aselhas do que os outros:
eternos "azelhas", teimando no z...

12 setembro 2011

Guarda-chuvas, guarda-redes e guardas-mores... porquê?

O plural dos nomes compostos cujo primeiro elemento é a palavra “guarda” não se forma sempre da mesma maneira, ao contrário do que poderíamos pensar.

Se “guarda” é verbo, este termo não muda, pelo que o plural afecta apenas o segundo elemento do composto (e assim temos guarda-chuva/guarda-chuvas, guarda-cama/guarda-camas, guarda-roupa/guarda-roupas).

Porém, a palavra guarda pode ser um nome (ou substantivo). Isto significa que ela poderá ser flexionada no plural. Isto acontece nos compostos cujo segundo elemento é um adjectivo (que está precisamente a qualificar o nome que o precede), como guarda-nocturno, guarda-mor e guarda-florestal, que passam a guardas-nocturnos, guardas-mores e guardas-florestais.

No entanto, estes compostos começados por “guarda” costumam ser invariáveis, porque o mais frequente é a segunda palavra estar já no plural, mesmo quando o nome está no singular, ou seja, quando designa apenas uma pessoa ou coisa. É o caso de guarda-redes, guarda-costas, guarda-jóias, etc.

Repare-se na subtil diferença entre guarda-nocturno e guarda-redes. Em ambos os casos, diríamos, a palavra guarda é nome e não verbo, porque designa uma pessoa (o “guarda”). No entanto, o guarda-nocturno vem seguido do tal adjectivo, que comprova a sua qualidade de nome, e por isso o plural é guardas-nocturnos. O guarda-redes não é, na verdade, um “guarda”, mas antes aquele (jogador) que protege, ou guarda, as redes – está portanto subjacente, na estrutura do composto, a acção de guardar as redes: pelo que temos então o verbo, e não o nome. Assim se explica que o plural não seja "guardas-redes" (porque se trata daqueles que guardam as redes, e não dos "guardas de redes"). Foi por isso que chamei a atenção dos leitores para o facto de estar um adjectivo (e não um nome), a seguir à palavra guarda, quando esta é um nome: é apenas nesses casos que ela pode ir para o plural.


09 setembro 2011

Rular?!!

Decididamente, a língua muda mais depressa do que nós imaginamos. Agora "rular" significa o mesmo que o verbo inglês to rule, na acepção em que é usado em linguagem familiar, ou seja, no sentido em que se aplica a algo popular, que se impõe sobre o resto, que comanda o gosto e a moda.




Assim, na capa da edição portuguesa de Diary of a Wimpy Kid, no lugar de My books rule!, eu, "cota" como sou, preferiria ler algo como "os meus livros são um sucesso" ou "os meus livros são demais!" (fazendo já aqui uma concessão ao "demais" que se tem vulgarizado como adjectivo na linguagem familiar, mas que pelo menos é português).
Para mim, traduzir a frase por "os meus livros rulam!" é tão absurdo como escrever "os meus bucos são demais!" (Sim, os meus "bucos". Se rule é "rular", porque é que books não hão-de ser "bucos"?!). Mas o tradutor está, certamente, atento àquilo que o público-alvo do livro diria, de facto, para exprimir a ideia. E, ao que parece, a expressão "qualquer coisa rula" já se vai vulgarizando...

Custa, claro, a quem tem amor à nossa língua. Mas se pensarmos bem, é o que aconteceu com muitas palavras que hoje consideramos "nossas", como lanche, queque, fiasco, charme e tantas outras. É preciso ver que, em muitos casos deste, o que nos desagrada mais é a novidade estranha, a mudança em si, talvez por receio de não a sabermos acompanhar... Mas a mim irrita-me sobretudo o servilismo tosco do empréstimo desnecessário. Daqui a uns anos ainda caímos no absurdo de ouvir qualquer coisa como "os kides cules é que rulam na secule"...

08 setembro 2011

Isto promete...

A minha filha estava a resolver uma ficha de exercícios de língua portuguesa, do 2.º ano do 1.º ciclo do ensino básico. A certa altura, pedia-se-lhe que conjugasse o verbo comer nos tempos certos:

A cabra amanhã _________ muita erva.

Ela ia transcrever, simplesmente, o verbo comer, tal e qual, no infinitivo. Mas depois percebeu que a frase não faria sentido. Eu chamei a sua atenção para o facto de ter de conjugar o verbo no tempo futuro. E ela, baralhada: «comera? Mas "amanhã a cabra comera" não faz sentido!» Eu corrigi: «comerá. O futuro é comerá
Resposta dela: «Mas eu não falo chinês! Nem como os reis falam...»

06 setembro 2011

Circuncisados ou circuncidados?



Qual das seguintes frases está correcta?




a) Os homens da tribos são, ainda hoje, circuncisados.


b) Os homens da tribo são, ainda hoje, circuncidados.