31 julho 2009

Chumbar… é não passar!

O verbo chumbar, do ponto de vista sintáctico, não encontra consenso entre os estudiosos da língua. Os puristas consideram-no um verbo transitivo directo, isto é, um verbo que pede um complemento directo, por exemplo: “O professor chumbou o aluno”. Construções como “o aluno chumbou” são, portanto, consideradas incorrectas.
Os linguistas contemporâneos, pelo contrário, consideram esse tipo de construções perfeitamente legítimas, designando-as «estruturas causativas”, semelhantes a: “A neve derreteu (com o calor)” = “O calor derreteu a neve” ou “O navio afundou-se (com a tempestade)” = “A tempestade afundou o navio”.
Ora, se no plano sintáctico se aceitam diferentes posições, no plano semântico declara-se tolerância zero! Principalmente aos profissionais da comunicação!
Jornalistas da nossa praça empregaram este verbo inapropriadamente, ao noticiarem o voto contra de alguns partidos relativamente ao relatório da Comissão Parlamentar ao caso BPN, referindo que “o relatório foi chumbado pela oposição”.
Ora, se o relatório tivesse sido chumbado, não teria sido aprovado!
Tal como viver é não morrer, desaprovar é não aprovar, também chumbar é não passar, logo, a notícia deveria ter tão-somente evidenciado que os diferentes partidos votaram contra o dito relatório!

29 julho 2009

A triste história da camisola em Portugal



Era uma vez uma camisola, que havia chegado há muitos séculos a Portugal. Viera de França, mas sem grandes pretensões nem ambições.
Entrara devagar, com discrição e humildade, no nosso léxico e nem se importara quando a obrigaram a substituir o seu e final por um a mais português. O que ela queria era mesmo ficar por cá, por isso achou bem assumir uma forma que a identificasse e confundisse mais com as palavras portuguesas. E a sua vontade e determinação foram tão fortes, que os falantes se esqueceram de que a camisola tinha vindo de fora, acarinhando-a como cidadã do léxico nacional.

Um dia, porém, quando ela própria já tinha esquecido as suas origens, os falantes começaram a impacientar-se com ela. Alguns deixaram de a querer usar, sem razão aparente. Outros acusavam-na de ser demasiado ambígua, de servir para tudo e para nada, de não satisfazer as suas necessidades vocabulares. Alegavam que outras palavras, frescas e sofisticadas, se revelavam muito mais eficazes para aplicar nos diversos contextos em que as camisolas não eram, afinal, simples camisolas. E as divertidas t-shirts, as confortáveis sweat-shirts, os bonitos pullovers, as frívolas sweaters e os jovens tops foram-se insinuando na cabeça dos falantes. Mas, como eram cheias de si, estas palavras fizeram uma exigência: que a sua forma e graça original fossem sempre mantidas, de modo que não admitiam mudanças ortográficas nem deslizes de pronúncia.
E as camisolas, que antes nos tinham servido tão bem, em todas as ocasiões, foram preteridas em favor dessas novatas impertinentes, que agora se julgam as melhores do mundo.

É uma história comum, infelizmente...

27 julho 2009

O absurdo de suicidar outrem


Segundo o
Dicionário on-line da Língua Portuguesa, o verbo suicidar-se é sempre pronominal (não existe "suicidar") e tem as seguintes acepções:

1. Matar-se voluntariamente.
2. Fig. Arruinar-se, ser causa da própria ruína.

Outros dicionários acrescentam que "sui" é latim e significa "de si", pelo que o suicida é aquele que provoca a sua própria morte, ao contrário do homicida (e a esta luz a pronominalização até parece redundante, já que quem se suicida o faz necessária e exclusivamente a si próprio).
Ora, isto não será surpresa para ninguém... excepto talvez para os responsáveis pela definição do mesmo verbo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, para quem o verbo suicidar (de suicida + -ar) tem um terceiro sentido, que é «destruir completamente», podendo por isso ser sinónimo de «ANIQUILAR, MATAR, TRAIR». E para que não restem dúvidas, lá está o exemplo, a frase que citei na entrada anterior: «O tradutor suicidou o texto».

Os comentários a esta frase na semana passada não foram muitos, mas eu não tenho dúvidas de que, pelo menos ao falante comum, aquele emprego do verbo suicidar se afigura no mínimo estranho. E como não se trata de uma acepção de um domínio técnico ou científico, nem encontro outro dicionário que corrobore aquela informação, começo a pensar que a pessoa que a escreveu se encaixa num destes perfis:

a) abusador de drogas
b) criativo compulsivo
c) abusador de drogas e criativo compulsivo

Posso estar enganada, mas... quem é que me desengana?!


23 julho 2009

Suicídio homicida

Hoje apresento-vos esta frase:

«O tradutor suicidou o texto.»


Gostaria que nos dessem a vossa opinião sobre o emprego que nela se faz do verbo suicidar. Estará correcto? Será usual? A mim soa-me muito mal! Depois vos direi onde a encontrei...

21 julho 2009

A suspensão do suspense....


Desde criança que sempre ouvi dizer suspense com um u assobiado afectadamente, a atirar para o ditongo - [ju] -, um s bem sopradinho por entre os dentes e a letra e transformada em "ã", para tornar bem claro que era uma palavra francesa.
Há muitos anos, contudo, também ouvi alguém dizer (quem teria sido essa alma iluminada?) que andava tudo enganado, porque a palavra suspense era de origem inglesa e, como tal, a pronúncia afrancesada não fazia qualquer sentido e deveria ser prontamente substituida, claro está, por um sotaque muito British, em que o u afinal se tornava um "a".

Os falantes de português pareceram-me então divididos em dois grupos: o dos que faziam uma boquinha pequena para sussurrar o "siuspanse" franciú e o dos que a abriam corajosamente para vocalizar um "saspenssss" à bife. E era preciso decidir qual o lado a escolher, para poder usar aquele estrangeirismo. Porque, tenho de admitir, havia ocasiões em que me parecia que ele era necessário, por mais que me esforçasse por substituí-lo por palavras mais vernáculas, como "suspensão" ou "expectativa-angustiante-mas-que-ao-mesmo-tempo-dá-um-certo-gozo-relativamente-ao-desenrolar-dos-acontecimentos-sobretudo-nas-narrativas-literárias,-televisivas-dramáticas-ou-cinematográficas".

Um dia, resolvi consultar o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado e verifiquei, sem grande surpresa, que "suspense" não constava do rol de palavras sobre as quais se forneciam preciosos dados relativos à sua introdução na nossa língua. Mas o Houaiss confirma que se trata de um empréstimo do inglês, que por sua vez foi importado do francês, que por sua vez deriva, claro está, do latim.
Contudo, a origem não é o que mais importa, no fim de contas. Se estivéssemos à espera de saber de que língua vêm todos os estrangeirismos que utilizamos para os podermos pronunciar correctamente, teríamos de suspender o discurso a todo o momento para consultar fontes eruditas, por exemplo antes de dizer pijama, iate ou iogurte.
E o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea aí está para demonstrar que a contenda entre os sotaques francês e inglês para pronunciar "suspense" não se resolve por via erudita: o que conta é a forma como se convencionou dizer a palavra entre nós, ou seja, a pronúncia que nele se recomenda é a que foi consagrada pelo uso e que (lamentavelmente ou não, depende do ponto de vista), acaba por não ser fiel a nenhuma das duas: "suspanse".

Para mim, o "suspanse" perdeu a graça. Não é carne nem peixe, não aquece nem arrefece. Com a desvantagem de criar uma relação imprevisível entre o "a" sonoro e o "e" escrito, que dá azo a erros ortográficos.
Mas pelo menos já podemos pronunciar todos a palavra da mesma maneira, sem receio de que alguém nos venha dizer que estamos enganados. Valham-nos os dicionários com chave fonética!

17 julho 2009

tratar-se-á ou tratar-se-há?!

Numa mensagem em que nos faz a sugestão de abordarmos o tema de hoje, um leitor escreve o seguinte:

«tratar-se-há de uma dúvida tola ou ‘tratar-se-á’ de uma dúvida aceitável?»

Antes de mais, devo dizer que, para mim, e no que toca à língua portuguesa, nenhuma dúvida é simplesmente tola, todas são aceitáveis. Isto porque questionarmo-nos sobre a correcção ou incorrecção de uma forma ou estrutura linguística é um sinal de interesse e inteligência que nunca deve ser desprezado. Quem nos dera a nós, professores, que todos os alunos manifestassem as suas dúvidas, por mais tolas que as achassem!
Por outro lado, quem somos nós para avaliar o grau de relevância ou legitimidade de uma dúvida?... Quantas vezes as perguntas que fazemos sobre o que é certo ou errado parecem tolas e depois se revelam muitíssimo pertinentes? Esta até pode ser um bom exemplo.
Poderíamos dizer logo, sem pensar muito: «que disparate, "tratar-se-há"! Então aquele "á" não se vê logo que é a terminação do futuro do indicativo? Só lá está o pronome se no meio, mais nada! Tratará passa a tratar-se-á e pronto"!»
Mas também podemos ter calma e pensar um pouco. Podemos partir do princípio de que há sempre mais qualquer coisa por trás do óbvio e dar o benefício da dúvida à própria dúvida. Nesse sentido, este leitor até nos ajuda, pois escreveu o seguinte: «uns colegas falaram-me de umas contracções do ‘h’ e tal… que fiquei sem saber :)»
Pois é, caro leitor! As formas verbais que hoje identificamos como "futuro do indicativo" e "condicional" são na verdade o resultado da contracção dos verbos com o auxiliar haver, auxiliar este que identificamos sem dificuldade em construções como "hei-de encontrar", que é na verdade o mesmo que encontrarei (encontrar + hei). De igual modo, "há-de tratar" deu tratar + há, ou seja, tratará, com a supressão do h. Daí termos, com o pronome, tratar-se-á. Com o tempo, portanto, as duas formas verbais (verbo principal e auxiliar HAVER) aglutinaram-se, sendo que em muitos casos uma delas ficou reduzida, ou até ambas. É o caso de fazer + havia, que deu origem a faria = fa(ze)r(hav)ia.

Conclui-se, então, que tem muita lógica a grafia "tratar-se-há", embora seja incorrecta.

15 julho 2009

Cuidado com o alien, um termo alienígena!

A minha filha de seis anos propôs-me este jogo verbal: dizermos à vez palavras começadas pela letra A. Depois da aranha, do ananás, da ave e da águia, da água e do avião, ela saiu-se com o alien. E, na sua inocente determinação, recusou-se a acreditar que a palavra não existia em português.

E a verdade é que a moda dos aliens (dito à portuguesa, "álienes") parece ter vindo para ficar (há 26800 ocorrências no Google em páginas de Portugal). Mas a mim parece-me tola mais esta vénia ao inglês - língua que eu adoro, mas não misturada com a nossa. Estão a ver peixe com carne? É mais ou menos isso...

Afinal, se temos os estrangeiros, os estranhos, os extra-terrestres e os alienígenas, para que é que precisamos dos híbridos "álienes"?!
Bem sei que vem do latim, mas não é por isso que faz cá falta uma consequência das más traduções no cinema...

13 julho 2009

Desafio

O anúncio de um banco reza assim:

«Está na altura do seu crédito habitação mudar de casa.»

Haverá aqui algum tipo de incorrecção linguística?

09 julho 2009

redundância tautológica em jeito de pleonasmo

É tão fácil cair na redundância que quase ninguém resiste a dizer "costumo fazer sempre assim" ou "tenho um amigo meu".
O dicionário Priberam, aliás, informa que a tautologia consiste numa «repetição inútil da mesma ideia em termos diferentes» - ou seja, exemplificando, ao mesmo tempo que define o conceito: tratando-se de uma repetição, para quê dizer que a ideia é «a mesma»?! Isto dá para ver como a tautologia é uma espécie de armadilha em que ninguém deve ter a veleidade de dizer que não cai ou nunca cairá...
Se nos repetimos desnecessariamente, para além de estarmos sujeitos a que se riam de nós ou nos corrijam, ainda podemos induzir os outros em erro, a respeito do que realmente queremos dizer. Quando alguém comenta que "gostou tanto da comida, que repetiu duas vezes", fico sempre na dúvida: serviu-se três vezes ou caiu na malfadada tautologia? Ontem ouvi alguém dizer na rádio que «os alunos repetiam novamente o mesmo ano». Fiquei sem saber se havia ali uma dupla redundância ou se devia fazer uma interpretação mais rebuscada da frase.
Hoje li numa publicação periódica um artigo (interessante, é preciso dizer), cujo infeliz título era este: «Morte súbita ocorre sem aviso prévio». Sendo o assunto sério, acho mal que nos façam rir do texto logo ao início!
E por falar em rir...

06 julho 2009

Língua em crise

Crise é a palavra que está na ordem do dia. Crise na saúde, crise na justiça, crise na educação, crise nos relacionamentos…
E a língua portuguesa está, também ela, em crise. E porquê? Porque se fala e escreve cada vez pior.
Mas o que é, afinal, escrever mal? Será apenas cometer erros ortográficos?
Um texto pode não conter um único erro ortográfico e, no entanto, ser totalmente incompreensível. Isto porque a língua não se resume à ortografia. Há outras componentes da gramática que contribuem para o sucesso ou fracasso da expressão escrita, nomeadamente o léxico, a morfologia, a sintaxe, a pontuação.

Quais serão, então, os motivos que estarão na origem desta crise linguística?
De entre muitos que poderá haver, saliento três:
1. Falta de referências
Os profissionais da comunicação (jornalistas, escritores, professores) deveriam ser para nós uma referência, mas, como sabemos, muitos fazem um mau uso da língua portuguesa.
2. Falta de leitura
Cada vez se lê menos, culpa da falta de tempo ou do excesso de tecnologias, o que é certo é que o pouco que se lê é muitas vezes “descartável” e de má qualidade.
3. Falta de ensino de gramática
Hoje em dia, o tempo dedicado ao estudo da gramática e à prática da redacção nas aulas de Português é cada vez mais reduzido (ou quase nulo), o que tem dado origem a um deficiente domínio da língua, falada e escrita, por parte dos estudantes que ingressam no Ensino Superior.

As evidências falam por si, porém, se é com a crise que portas de mudança se abrem, então aceitemo-la como uma oportunidade de salvar este património tão valioso, que é a Língua Portuguesa!
Ainda vamos a tempo!

01 julho 2009

Receber ou recepcionar?

Lá estamos nós a complicar...

A verdade é que ontem ouvi alguém dizer que estava "prestes a recepcionar um documento" e fiquei a pensar sobre o motivo que teria levado tal pessoa a escolher aquele verbo em lugar do velho, simples, inequívoco e bem conhecido receber.
Ocorreu-me que talvez fosse para dar um ar mais formal ao discurso. Como quem diz "colocar" em vez de pôr, "referenciar" em vez de referir, "visionar" em vez de ver, "focalizar" em vez de focar, enfim... Ou seja, tratar-se-ia de escolher uma palavra mais comprida, apenas porque as mais compridas, mais complexas, as chamadas "palavras de sete e quinhentos" (no meu tempo!), vulgarmente conhecidas por palavras caras, são o sinal mais evidente de que estamos a usar um registo cuidado, formal, acima do corrente.
Em todo o caso, faltou-me a certeza: afinal, recepcionar, verbo formado a partir do nome recepção, significa exactamente o mesmo que receber?

Na Infopédia, a «palavra inserida não foi encontrada». O Priberam informa que a palavra é «reconhecida pelo FLiP mas sem definição no dicionário»... Contudo, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa revela que se trata de uma criação do século XX e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa o vocábulo também está presente.
Mas não se trata de um simples sinónimo de receber: pode ser acolher ou receber alguém, a nível institucional (dar as boas-vindas) ou acusar a recepção de um documento. Portanto, aquela pessoa estava a dizer que iria acusar em breve a recepção do documento (e não apenas que iria recebê-lo). Mas... sabê-lo-ia?

25 junho 2009

Não penso, logo, traduzo



A tradução literal é uma forma de ignorância? Às vezes, parece.

Se não é por ignorância, como se explica que chamemos agora "palavras-passe" (passwords) às senhas de outrora, "condicionadores" (conditioners) aos amaciadores de há anos, "estacionário" (stationery) ao material de escrita de antigamente, e até, por vezes, "rudes" (rude) às pessoas simplesmente mal-educadas?

Se não tivermos cuidado, qualquer dia teremos de nos referir aos conservantes como "preservativos" e à prisão de ventre como "constipação". Sim, meus amigos, porque, em inglês, é isso que significam preservatives e constipation, respectivamente!...

Então, não acham melhor sermos mais criteriosos na forma como tratamos a nossa língua?!

23 junho 2009

Pegar-lhe ao colo ou pegar nele ao colo?

O verbo pegar, com o significado de «agarrar, suster, segurar», não coocorre com um complemento indirecto, mas sim com um complemento oblíquo (isto é, um complemento preposicional que não é pronominalizável em –lhe).
Assim, deve dizer-se: «vou pegar em alguém ao colo», logo, «vou pegar nele ao colo». A estrutura "vou pegar-lhe ao colo" é incorrecta, porque corresponderia a "vou pegar a alguém ao colo".
Portanto, quando quiserem pegar em alguém ao colo, não digam «vou pegar-te ao colo», mas sim «vou pegar em ti ao colo»!

19 junho 2009

Vírgula intrusa

Não é um ditado popular, mas podia ser. Qualquer coisa como "se há vírgula entre sujeito e predicado, já está o caldo entornado." Ou "entre predicado e sujeito não se mete vírgula a eito"...

Não tenho dúvidas de que quase todos os leitores deste blogue ouviram as suas professoras (porque eram quase sempre "elas") dizerem, na escola, que nunca se deve pôr vírgula entre o sujeito e o predicado - sendo este dos poucos critérios que regem o emprego da vírgula (para não dizer o único) do qual têm consciência.
Então, por que razão ainda acontece tanto colocar-se errada e involuntariamente a vírgula entre o sujeito e o predicado? Ora, decorar a regra é simples, mas conseguir identificar o sujeito e o predicado em todas as orações é muito mais difícil...
Num certo cartaz que ainda se vê hoje pelas ruas está escrito, por exemplo, que «Abstenção, não é solução». É caso para dizer que está o caldo entornado - no que toca à pontuação, claro. Porque nada tenho contra a ideia expressa na frase!

17 junho 2009

Está preconcebido que é "pré-concebido"...

Não sei se repararam que, no artigo anterior, aparece o adjectivo (no feminino) preconcebida - assim mesmo, sem hífen e sem acento no e.

A mim, confesso, dá-me vontade de escrever a palavra de outra maneira... aquele prefixo, pré, com o e tão aberto, está mesmo a pedir que o grafem de forma a destacá-lo do radical. Aliás, as tabelas que aparecem nos prontuários para nos esclarecer sobre o uso dos prefixos deixam-nos desconcertados. Não é que nos dizem que o hífen se usa, depois de pré-, em qualquer palavra?!

Contudo, preconcebido e preconceber, palavras relacionadas com o substantivo preconceito, escrevem-se sem hífen, porque assim foram consagradas, através do uso. E os dicionários são unânimes, ao menos nisto!
Não podemos ir contra a norma ortográfica, obviamente. A única coisa que podemos fazer é grafar pré-conceito (variante que alguns dicionários aceitam), assim mesmo, quando queremos enfatizar o facto de se tratar de um conceito concebido antes de algo, previamente, o que só fará sentido em determinados contextos.

Enfim, trata-se de um daqueles casos em que, quando os alunos erram, até me custa penalizá-los. Apetece-me dar-lhes razão por terem escrito "pré-conceber" ou "pré-concebido", porque faz sentido e os prontuários assim recomendam. Às vezes, em tom de brincadeira, acabo mesmo por dizer: «desculpem lá qualquer coisinha...!»



Enfim, são ossos do ofício!

15 junho 2009

"Ter o estigma de que"...


Antes de mais, agradeço a todos os que responderam ao desafio anterior!

Estigma significa marca (física) na pele, um sinal que tanto pode ter sido causado por uma doença, como por um ferro em brasa, ou outro agente causador de uma mancha ou cicatriz. Por extensão, pode ser ainda uma mancha, sinal, que causa vergonha, desonra, ou outro sentimento negativo.

Assim, é possível "ter o estigma de alguma coisa", por exemplo, ter o estigma da derrota, por falhar constantemente. Também podemos "ter o estigma de que", em construções como Aquela instituição tem um estigma de que nunca se livrará ou mesmo O homem parecia ter o estigma de que seria sempre um oprimido - embora esta construção seja pouco usual e mais forçada.
O que não faz sentido é dizer que alguém tem o estigma de que outra coisa é alguma coisa. Ou seja, a frase do desafio («Algumas pessoas têm o estigma [de] que as creches são meros depósitos de bebés») está incorrecta. Aqui, não é legítimo dizer que as pessoas têm "a marca" de que as creches são depósitos de bebés, pois quem tem essa marca são as creches e não as pessoas.
O que se poderia dizer é que as pessoas têm a ideia (preconcebida) de que as creches têm essa função. E parece-me que o motivo do erro está aí: usar-se "estigma" como se significasse "ideia preconcebida". Mas também podemos dizer que as creches é que têm a tal marca, o estigma (atribuído por algumas pessoas), de que servem apenas para depositar as crianças.

Em suma: que os estigmas deixem de marcar as creches e as pessoas, pois só servem para manchar umas e outras!

09 junho 2009

Certo ou errado?

Estará ou não correcta a frase seguinte, do ponto de vista sintáctico-semântico?

Algumas pessoas têm o estigma que as creches são meros "depósitos" de bebés.


05 junho 2009

Estrangeirismos, pediram licença para entrar?

Vivemos na era da imagem. O corrupio para os ginásios e para as clínicas de beleza espelha uma verdadeira obsessão pela figura perfeita.
E a língua não escapou a esta vaidade excessiva. Também ela usa cada vez mais maquilhagem e mais adornos, e como se o produto nacional não fosse de boa qualidade, procuramos embelezá-la com adereços vindos de fora.
No universo da moda, as manequins não se podem esquecer dos seus books e composites sempre que vão a um casting. E o look convém ser bastante clean, por isso não devem exagerar na make-up!
No meio publicitário, qualquer projecto começa com um briefing dado pelo cliente, que define o deadline e aprova ou não o budget.
Na praia, os surfistas procuram ondas para exibirem os seus drops e os seus snaps. E se o mar estiver flat ou houver muito crowd, o melhor é fazer um jogging matinal ou então ficar deitadinho na toalha a apanhar banhos de sol.
E por falar em sol, não adianta tapá-lo com a peneira. Os estrangeirismos estão por todo lado, qual praga veio para nos consternar. Decididamente, entraram sem pedir licença.
Mas eles não vivem apenas em “condomínios fechados”. Eles coabitam cada vez mais em lugares comuns: no shopping, a fast food; nas lojas, os tops e as t-shirts, no cabeleireiro, o brushing; na rua, o carjacking; na escola, o bullying…
E desengane-se quem pensa que os usamos por necessidade linguística. A verdade é que os usamos por moda, por prestígio e por estatuto social.
Porque há ou não um certo glamour (desculpem, queria dizer encanto!) em dizer spa em vez de termas, resort em vez de estância, feedback em vez de retorno, performance em vez de desempenho, nuances em vez de madeixas?!

Encanto para uns, tormento para outros…
Um autêntico tormento para quem vê no estrangeirismo uma ameaça ao seu património linguístico e cultural.
Mas não há nada que possamos fazer, senão rendermo-nos às evidências…
E por enquanto ainda os utilizamos gratuitamente. Mas não deve faltar muito para que tenhamos de pedir licença para os usar: empresta-me essa palavra, se faz favor?

01 junho 2009

Focar, focalizar e... enfocar?!



Sabendo que todos estes verbos estão atestados em português, a minha pergunta é: será mesmo necessário haver três verbos tão semelhantes na forma e com significados idênticos?
A resposta mais imediata que me ocorre é... não.
No entanto, também não é caso para culpar o excesso de produtividade lexical portuguesa! Até me ficaria mal, dado que já aqui tenho criticado a preguiça generalizada que nos leva a adoptar estrangeirismos a torto e a direito, muitos deles ridículos e desnecessários.
Surge-me, então, outra pergunta: o que é que esta multiplicação de palavras relacionadas com o acto de “pôr em evidência” revela sobre nós?
Que fazemos esforços permanentes para nos concentrarmos no que é importante? Que somos exibicionistas? Que temos alguma falta de visão e por isso nos esforçamos por encontrar a palavra certa para designar a acção de “captar uma imagem nítida”, como se, ao mudarmos de focar para focalizar e de focalizar para enfocar estivéssemos a ajustar o foco da nossa máquina fotográfica mental?
Pois então, se é para ver melhor, se é para visionar, se é para visualizar, foquemos, focalizemos, enfoquemos, “enfocalizemos” o que é preciso!

29 maio 2009

“We are portuguise but we likes Inglish very muche!”



Há uma empresa que, no respectivo portal na Internet, se diz “cem por cento portuguesa”, intitulando-se “Broker de serviços”. Afirma que a sua equipa tem “elevado know-how”, faz “tratamento de mailing”, “impressão de newsletters e flyers”, e também “drop-mail”. Oferece ainda serviços de “design”, “webdesign” e “re-design”. Tem especialistas em áreas como “news” e “lifestyle” e oferece-se para “produzir o seu título, dirigido ao mercado geral ou especificamente ao target da sua empresa”, nomeadamente através de “custom publishing”.

Vai ao ponto de desenvolver “sites com base em serviços especializados de webdesigner´s e webengenier´s [sic]”. Transforma “conteúdos em webcontends [sic]” e, finalmente, produz “meios e técnicas de marketing”, e “divulgação de produtos e serviços na Internet, tais como white paper´s [sic], newsletters, banner [sic], entre outros”.

Quer isto dizer que as pessoas responsáveis por essa empresa tão portuguesa, além de abusarem de anglicismos, nem sabem escrever alguns deles. Shame on them!

27 maio 2009

Ciclo vicioso ou círculo vicioso?

A expressão correcta é círculo vicioso.
De acordo com alguns dicionários, esta expressão designa uma sucessão, geralmente ininterrupta, de acontecimentos que se repetem e voltam sempre ao ponto de origem, colidindo sempre com o mesmo obstáculo.
Na doutrina de Aristóteles, esta expressão designa uma falha lógica que consiste em alcançar dedutivamente uma proposição por meio de outra que, por sua vez, não pode ser demonstrada senão através da primeira.
Por conseguinte, faz todo o sentido que a expressão seja círculo, uma vez que as situações se vão repetindo sucessivamente, provocando um impasse, isto é, A dá origem a B e, por sua vez, B dá novamente origem a A. Assim, não se sai do círculo!
A palavra ciclo, por sua vez, designa uma sucessão de fenómenos sistematicamente reproduzidos em períodos regulares.

26 maio 2009

Teatro amador só de nome


Quem puder ir a Vila Franca de Xira na próxima sexta-feira, dia 29 de Maio, não deve perder a actuação do Grupo O 18 Teatro, no Ateneu, às 21.30 h. A peça intitula-se “As duas cartas” e é baseada na obra homónima de Júlio Dinis (a adaptação é de Isilda Paulo).

Embora todas as personagens sejam uma delícia de ver e ouvir, a que mais me encantou foi o modesto João de Sousa, de origem humilde mas modos muito distintos, que tão naturalmente nos transporta para o século XIX através da forma como se exprime. Todos usam, claro, palavras e construções que não são de hoje e que adivinhamos estarem, se não iguais, pelo menos muito próximas das do texto dramático do autor, sendo a mais óbvia de todas a interjeição “cáspite”. Mas no caso dele, não há deslizes momentâneos para o vocabulário de hoje, para um tom mais contemporâneo. Há sempre aquela classe, aquela serenidade que vem de tempos mais formais e que, ironicamente, a personagem pobre exibe com maior naturalidade – como que dando a entender que a nobreza da alma (que se revela também no discurso) não depende da nobreza de linhagem e muito menos da falsa nobreza conseguida por meio do dinheiro.

Trata-se de uma excelente adaptação do texto, encenação e actuação. Vale a pena ir apreciar o trabalho deste grupo de "curiosos" e faz pena saber que tem tido pouca divulgação, porque merece muito mais espectadores! Ainda por cima, o espectáculo é gratuito.




23 maio 2009

Saudoso vocabulário dos anos oitenta

Os anos oitenta foram únicos e deixaram muita saudade em todos nós, trintões.

Não só pelas tardes passadas na rua a conversar com os amigos ao vivo e a cores (agora "chata-se" na net ou "essiemiessa-se", neologismos que acabo de inventar e que espero que se percebam...), não só pelas horas a construir cenários de florestas, circos e savanas com kalkitos, não só pela música, cuja qualidade fica comprovada pelo insistente revivalismo que hoje causa, não só pelas cartas e pelos postais em papel verdadeiro que se enviavam e recebiam, não apenas pelas colecções de latas de Coca-cola vindas de vários países que decoravam as prateleiras dos nossos quartos, mas também pelas palavras que se diziam e que quase se extinguiram, na voragem do tempo, desprezadas pelos anos 90 e praticamente apagadas das nossas memórias em pleno século XXI.
Estou a falar das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas), dos melões que se apanhavam, ou dos galos, o que era o mesmo, da paia que se tinha às vezes, de quando percebíamos que uma história que alguém contava era groupe e de outros termos do nosso inocente calão juvenil, que agora quase me fazem vir lágrimas aos olhos.
Não são saudades do calão por si só, naturalmente. São saudades do tempo em que essas palavras andavam na minha boca, misturadas com o sabor de uma alegre e despreocupada juventude.

20 maio 2009

Jogo da Língua

Para quem não saiba, a Antena 1 convida os ouvintes, todos os dias, às 06.20 e às 14.40 (excepto aos fins-de-semana), a participarem num curto programa sobre língua portuguesa em que a minha colega e co-autora deste blogue, S. Duarte, presta esclarecimentos sobre dúvidas frequentes.

Talvez já devesse ter feito aqui esta referência, pois há mais de 8 meses (tanto???) ela é a responsável pelo conteúdo do programa, que interessará, julgo eu, a todos os leitores deste blogue. Por isso mesmo, peço desculpa aos visitantes e, claro, à S. Duarte ;).
A verdade é que não sei se me fica mal ou bem fazer neste blogue um elogio ao trabalho da sua co-autora. Mas também não importa! O que importa é salientar que vale a pena ouvir as suas claras e úteis explicações.

14 maio 2009

Ai... o i com som de "ai"!


Em inglês, uma das realizações fonéticas que a letra i pode ter é o ditongo [ai]. Isto acontece em I, mice, time, kite e muitas outras palavras.
Em português, porém, o i nunca tem este som.

...ou nunca tinha, porque, com a entrada de palavras inglesas no nosso léxico, parece que nos andamos a habituar aos "ais". Os estrangeirismos estão na moda e andam na boca de muita gente. A toda a hora se ouve falar em "táimingues" para cumprir, que é para não falhar os "dedelaines", em "saites" na Internet, em "baites" de memória, em "aicebergues" a derreter, enfim, anda meio Portugal aos ais. Até dá dó!
E o outro meio?
O outro meio, se vir escritas estas palavras, se por acaso se deparar com timings, com deadlines, com sites, com bites e com icebergues provavelmente irá pensar que aquela metade anda mesmo com dores. E depois perguntar-se-á o que são, afinal, os "timingues", os "deadelines", os "sites" e os "bites". Os "aicebergues" é que, como já cá andam há mais tempo, não causam estranheza. Mas deviam! Porque o aportuguesamento da palavra só se fez em parte. Se mudámos o fim (de iceberg para icebergue), por que razão não mudámos também o início?!

13 maio 2009

VOU ao Torneio ou VOO ao Torneio?!



Perdoem-nos pela falta de artigos, mas amanhã é o dia do Torneio ISEC de Língua Portuguesa e temos estado, como calculam, a preparar as provas e a organizar o evento.


Desejamos muito boa sorte aos concorrentes e deixamos-lhes (sim, deixamos-lhes e não "deixamo-lhes"!), desde já, o nosso agradecimento sincero por participarem, pois sem eles não seria possível concretizar a 5ª edição do Torneio.


Quanto ao prémio, os vencedores terão a oportunidade de dar um passeio num avião da Gestair Flying Academy... esperamos que gostem da experiência!

07 maio 2009

UMA TURMA QUE PROMETE!

Hoje fomos à Escola D. Pedro IV, em Queluz, conversar com uma turma do 5º ano do ensino básico sobre dúvidas e erros de português, um encontro inserido na Semana da Leitura, organizada anualmente pela instituição.
Ficámos muito bem impressionadas com o entusiasmo dos alunos, que demonstraram grande vontade de participar na actividade que lhes propusemos e de responder às perguntas e desafios que lhes lançámos; e agradavelmente surpreendidas ao verificarmos que eles sabiam corrigir a maior parte dos erros que lhes mostrámos em diversas imagens, muitas das quais temos divulgado neste blogue.
Aqui ficam, portanto, os nossos parabéns aos alunos e às suas professoras de Português pelo bom trabalho que têm feito!
Aproveitamos para divulgar o blogue da Biblioteca da Escola (com uma excelente lista de ligações para páginas de interesse) e para desejar muito sucesso à Cyberteca!

05 maio 2009

Mal-estar ou mau-estar?

Quando sentimos uma indisposição ou um incómodo, devemos dizer que sentimos um mal-estar ou um mau-estar?
Por hipótese, a palavra estar poderia coocorrer com o adjectivo mau, uma vez que é, neste composto, um nome, formado por conversão a partir do verbo estar.
Porém, a expressão consagrada pelos dicionários é mal-estar, palavra composta pelo advérbio mal e pelo nome estar, que ainda conserva traços verbais (ou seja, invertendo os elementos, teríamos: «estar mal»).
Mas há um argumento ainda mais forte! Reparem que a expressão oposta é bem-estar e não bom-estar!

30 abril 2009

portinglês


Desde o "car jaquim" até ao "car audio", do "kit" ao "park", pergunto-me qual é que será o limite (quantas palavras por frase, por exemplo) após o qual a nossa língua passará a ser portinglês!

A propósito, uma nota para a agenda: na próxima segunda-feira, dia 4 de Maio, o programa Cuidado com a Língua abordará a temática dos estrangeirismos... e seu abuso.

27 abril 2009

Porque interrogativo?

Nota prévia: este é um assunto linguístico bastante controverso, pelo que respeito quem não concorde com a minha posição.
Passo a enunciar os argumentos a favor da existência de um porque interrogativo:

Factos históricos
A palavra porque provém da forma latina quare, palavra composta (qua + re = por que motivo, por que causa), mas sempre escrita como uma só palavra. Século XV: porque.

Factos lexicográficos
Vários dicionários de referência registam porque como advérbio interrogativo: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Dicionário da Porto Editora, Dicionário da Texto Editores, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “porque ocorre com valor circunstancial, expressando circunstância de causa, em frase interrogativa directa ou indirecta”.

Factos literários: abonações de grandes escritores portugueses
- Fernão Lopes, Crónica de D. João I: “Ó Deus, porque te prougue leixar um rei tão só e tão desemparado de tantos e bons como hei perdidos! (…) Ó Senhor, porque me leixaste vencer?”
- Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?”
- Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?”
“Porque vieste tão tarde?
- Bernardo Santareno, O Judeu, “Porque… porque somos tão desgraçados?!...”

Factos linguísticos
A palavra advérbio tem origem na forma latina adverbiu (junto ao verbo) e tem por função modificar um verbo, um adjectivo, outro advérbio ou uma frase, exprimindo diferentes valores: tempo, lugar, modo, causa, etc.
Em português, existem pronomes e advérbios que introduzem frases interrogativas, sendo que cada um exprime um valor semântico diferente:
- Quem (= «que pessoa») Quem chegou?
- Que (= «qual pessoa/coisa») Que compraste?
- Onde (= «em que lugar») Onde estiveste?
- Quando (= «em que altura») Quando chegaste?
- Como (= «de que modo») Como vieste?
- Porque e Porquê (= «por que motivo») Porque faltaste? / Faltaste porquê?

Se em perguntas que exprimem circunstância de causa optássemos pela expressão por que, estaríamos perante uma preposição + um pronome interrogativo, logo, substituível por outro pronome - qual, por exemplo. O resultado seria claramente agramatical: Por que chegaste atrasado? = * Por qual chegaste atrasado?

Por todos estes argumentos, parece-me legítimo o uso de porque enquanto advérbio interrogativo.