27 julho 2011

Despensa e dispensa

Despensa não despe nem pensa,
é cubículo ou divisão
onde pomos alimentos
para os termos sempre à mão;
Já dispensa é acto ou efeito
de quem deixa ir, ou não quer:
por exemplo, "se o caldo é fino
ele dispensa a colher."

As coisas complicam-se um pouco
quando pensamos de mais:
pois se a despensa da cozinha
era dispensa em latim
como é que mudou a letrinha
que a torna única assim?
E se a vizinha me dispensa
(porque pode dispensar)
e vai buscar à despensa
um pacote de sal,
porque não hei-de pensar
que é tudo o mesmo afinal?!

Na verdade, os portugueses
com o seu jeito de falar
até podiam escrever "dspensa",
pondo o "simplex" a funcionar...

25 julho 2011

Beneficência ou beneficiência?


É um erro frequente em que caem os mais bem intencionados ;)

A "beneficiência" talvez possa ser a "ciência do benefício", mas a prática da caridade é a BENEFICÊNCIA (sem i antes depois do c), do latim beneficentia. 

 

13 julho 2011

Em que casos o Acordo Ortográfico permite duas grafias?


As chamadas "facultatividades" têm sido dos aspectos mais criticados no Acordo Ortográfico de 1990. Porém, muitos falantes comuns não sabem ao certo o que isto implica. Vejamos alguns exemplos.

Essencialmente, o Acordo permite duas grafias para a mesma palavra nos casos em que há duas possibilidades dentro do que se chama a «pronúncia culta» dos falantes portugueses e brasileiros (v. Base IV do Acordo: «DAS SEQUÊNCIAS CONSONÂNTICAS»): isto acontece com as consoantes b, c, m, e p, que podem ou não ser articuladas. Mas atenção: a facultatividade não se refere só às diferenças entre  o português europeu (PE)  e o português do Brasil (PB), mas também às diferenças na pronúncia dos falantes cultos de um dos países.

Assim, há duas grafias possíveis, por exemplo, entre:

subtil (PE) / sutil (PB)
perspetiva (PE) / perspectiva (PB)
indemnização (PE) / indenização (PB)
receção (PE) / recepção (PB) 

Mas os portugueses também poderão, a partir da entrada em vigor do AO, optar, por exemplo, entre:

espectador / espetador
caracterizar / caraterizar
expectativa / expetativa
dicção / dição
faccioso / facioso
veredicto / veredito

Para além disso, no que respeita à acentuação, há também algumas possibilidades de dupla grafia:

- no caso de dêmos (verbo dar no imperativo ou presente do conjuntivo, 1.ª pessoa do plural) e de fôrma, em que o acento circunflexo é opcional, para se distinguirem estas palavras das respectivas homógrafas demos (verbo dar no pretérito perfeito do indicativo, 1.ª pessoa do plural) e forma (substantivo e 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo ou 2.ª pessoa do singular do imperativo) – Base IX «DA ACENTUAÇÃO DAS PALAVRAS PAROXÍTONAS»;

- no caso dos verbos terminados em -ar, quando conjugados na 1.ª pessoa do plural, no pretérito perfeito do indicativo. E cito: «É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em certas variantes do português» (v. a mesma Base);

- nas palavras cuja vogal tónica é representada pelas letras < e > e < o >, quando há uma «oscilação de timbre na pronúncia culta», isto porque o < e >  e o < o > são abertos em Portugal e fechados no Brasil: exemplos: Amazónia/Amazônia, cómodo/cômodo, académico/acadêmico, gémeo/gêmeo, tónico/tônico, bebé/bebê, António/Antônio, ténis/tênis ( segundo o texto do Acordo são «muito poucas»)  – isto nas Bases IX e XI.

Finalmente, este Acordo não elimina os casos que já existiam de dupla grafia, tanto entre PE e PB como dentro de uma das variantes.

Entre PE/PB, em palavras como:
 
quotidiano (PE) / cotidiano (PB)
catorze (PE) / quatorze (PB)
registo (PE) / registro (PB)
planear (PE) / planejar (PB)
húmido (PE) / húmido (PB)
Em PE, por exemplo em:
 
bêbedo / bêbado
cobarde / covarde
febra / fevra
loiça / louça
tulipa / túlipa



04 julho 2011

Dextro ou destro?

Dextru- significa «direito» em latim. Mas... como se escreve afinal esta palavra em português?

Devemos escrever destro, quando o adjectivo significa "que fica do lado direito" e também quando o sentido é "ágil, com boa coordenação motora; hábil".

Quanto a dextro-, é a grafia usada em palavras que contenham este elemento de formação, como por exemplo ambidextro (a pessoa que consegue executar tarefas com ambas as mãos, com a mesma agilidade).


Assim nos explica, por exemplo, uma resposta do Ciberdúvidas, que se baseia no dicionário em linha da Porto Editora.

Porém, e para gerar alguma polémica, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa / Verbo), além de apresentar esta mesma informação, também nos diz que dextro é grafia alternativa para destro (na entrada para este adjectivo), apesar de, em dextro, não  indicar que se trata de um adjectivo com o mesmo significado de destro. Por outro lado, consagra ambidestro (com a variante ambidextro).

Conclui-se, então, que ambas as grafias são possíveis nas duas palavras, pelo menos de acordo com esta fonte, embora outras apontem para a diferença que sistematizámos inicialmente. E com estas considerações interrompi a minha leitura de Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, que aproveito para recomendar!

28 junho 2011

Desafio ortográfico

Qual a forma correcta?

À priori ou a priori?
Aselha ou azelha?
Corropio ou corrupio?
Constróem ou constroem?
Fôr ou  for?
Indeminização ou indemnização?
Paralelepípedo ou paralelipípedo?
Quadruplicar ou quadriplicar?
Pejorativo ou perjorativo?
Reinvindicar ou reivindicar?


(Nota: nada disto tem que ver com o Acordo Ortográfico...)

22 junho 2011

ACORDO ORTOGRÁFICO: contra e a favor

Eis uma síntese dos argumentos contra e a favor do acordo, para reavivar a polémica e ver se aparecem mais comentários neste blogue...

CONTRA O A.O.

1. O Acordo falha redondamente o objectivo de criar uma norma única, porque a ortografia da língua portuguesa continua a ser diferente entre Portugal e o Brasil (vejam-se facto/fato, planejar/planear, registo/registro, perspectiva/perspetiva, recepção/receção, Amazónia/Amazônia, etc...).

2. O A.O. traz custos elevados e desnecessários a inúmeras instituições públicas e privadas, desperdiçando o dinheiro dos contribuintes em tempo de crise.

3. O inglês, o árabe, o francês e o espanhol, que são das línguas mais faladas do mundo, nunca precisaram de acordos ortográficos para garantirem a sua importância mundial e cada uma tem mais de 10 variantes! Então para que precisamos nós dessa falsa e inútil unificação?

4. Portugal é um Estado independente e a língua portuguesa é indissociável da nossa identidade como portugueses. Ceder a vontades estrangeiras é sacrificar a nossa língua aos interesses dos outros.

5. Se continuarmos a seguir o critério fonético, por oposição ao etimológico, iremos descaracterizar por completo a nossa língua. Pouco faltará para escrevermos “oje”, “naxer” e “keres”...

6. Além de desnecessária e antieconómica, a mudança vai gerar insegurança: muitos adultos vão sentir que têm de voltar à escola para aprenderem de novo a escrever...

A FAVOR DO A.O.

1. Não se trata de uma mudança dramática na ortografia, como certos opositores pretendem, mas da alteração gráfica de apenas 1,6% das palavras usadas na variante PE e de 0,5% na variante brasileira.

2. Uma única ortografia facilita a aprendizagem no ensino do português numa perspectiva internacional.

3. O A.O. permite que um único documento, numa grafia única, represente todos os países da CPLP internacionalmente.

4. A criação de uma norma única põe fim à situação (exclusiva do português, entre as línguas europeias) de haver duas normas ortográficas oficiais.

5. O A.O. tem contribuído amplamente para a criação e o aperfeiçoamento de uma série de recursos fundamentais da língua portuguesa que até agora eram inexistentes.

6. Os estudantes portugueses têm hoje, como se sabe, sérias dificuldades na escrita, que comprometem o seu sucesso escolar. A aplicação do A.O. poderá contribuir para reduzir o número de erros ortográficos que cometem.

20 junho 2011

A personagem ou o personagem?

A palavra personagem tem no étimo o mesmo vocábulo latino que a palavra pessoa: persona. Acontece, porém, que ao contrário de pessoa, que é do género feminino e foi herdada do latim, o termo personagem (personne + sufixo -age) terá entrado na língua portuguesa por via do francês. Ora, em francês, ao contrário do que acontece em português, muitos  nomes acabados em -age, como massage, paysage, fromage, voyage, heritage, são masculinos.
Assim se justificará que em português o termo personagem possa, ainda hoje, assumir este género – sobretudo quando designa alguém (real) que se destaca pelas suas qualidades ou pela sua posição social – embora possa também ser do género feminino, à semelhança de pessoa, e tal como outros nomes terminados em -agem, sejam eles provindos do francês (massagem, viagem, passagem, garagem,  “chaufagem”* – esta é a brincar!), sejam derivações por sufixação, como contagem, escovagem, plumagem e raspagem. Assim, as personagens das narrativas de ficção podem ser homens ou mulheres, exactamente como as pessoas (pessoa, personagem, criança, vítima, etc. são chamados nomes femininos sobrecomuns), não sendo necessário falar "do personagem" de um romance apenas por ser do sexo masculino.

Deste modo, e ainda que alguns de nós tenham ouvido os professores dizerem que os nomes terminados em -agem são todos femininos em português, pelo menos este (personagem) será um caso excepcional, uma vez que pode assumir os dois géneros.

* Chauffage é palavra francesa que os portugueses adoptaram para designar o aquecimento ou ventilação nos automóveis, mas que no entanto suscita muitas dúvidas na pronúncia e na escrita, variando entre “chofage”, “chofagem”, “sofagem”, “solfagem” e sabe-se lá que mais... nenhuma delas está atestada em português, tanto quanto pude apurar.

16 junho 2011

Ler +


  Sinceramente, não sei pronunciar-me sobre o Programa Ler +. É fácil louvar os objectivos de fundo, mas também é fácil criticar falhas na concepção ou na metodologia da iniciativa.

O que me parece de enfatizar é a necessidade de pais, educadores e professores porem as crianças (e os adolescentes) a ler textos de qualidade (dentro ou fora do programa), para que vejam nos livros lugares únicos de refúgio e lazer, companheiros de viagens enriquecedoras e inesquecíveis, amigos silenciosos insubstituíveis, que os ajudam a encontrar respostas e soluções para os problemas e desafios do quotidiano, mestres brandos mas firmes, que lhes dão as melhores referências para o bom uso da língua.
E aqui faço um sublinhado: numa sociedade tecnológica como é a nossa, em que entre os estímulos essencialmente visuais abundam textos mal escritos, que são precisamente aqueles que mais se "consomem" (pois circulam livremente na net, sem crivos de qualidade, ou são as mensagens escritas pelos nossos amigos e familiares), as referências ortográficas e sintácticas dos jovens são predominantemente as piores. Como resultado, escrevem mal, não por não lerem (acho que nunca se leu tanto como se lê hoje), mas por não lerem textos de boa qualidade linguística. Por isso é tão importante pegar na mão das crianças e conduzi-las para esse mundo surpreendente que está dentro de cada livro, ler para elas de uma forma expressiva e contagiante, ajudá-las a encontrar os livros que mais lhes agradam, os géneros com os quais se identificam, os temas que mais as entusiasmam - sempre sob o lema da diversidade, que é fundamental para se achar o gosto próprio, e depois deixá-las nesse mundo, à sua vontade, sem horas de regresso. Porque, afinal de contas, os livros são um dos poucos lugares aonde as crianças ainda podem ir sozinhas sem perigo de serem maltratadas!

18 maio 2011

Qual o plural de «social-democrata»?

Alguns dicionários de referência admitem ambos os plurais: social-democratas ou sociais-democratas.
Eis os argumentos linguísticos a favor de uma e de outra forma:

1. Social-democratas
A palavra social-democrata é composta pela forma reduzida do adjetivo socialista, pelo que só o segundo elemento, que é autónomo, vai para o plural: social-democratas. À semelhança de «luso-brasileiros», «greco-romanos», «recém-nascidos», entre outros.
Portanto, «social» é abreviatura de «socialista», logo, não vai para o plural.

2. Sociais-democratas
A palavra social-democrata é composta pelo adjetivo pleno social (relativo à sociedade), pelo que deve ser flexionado no plural juntamente com o segundo elemento, também autónomo: sociais-democratas.
Portanto, «social» é palavra autónoma, logo, vai para o plural.

Qual é a vossa opinião?

06 maio 2011

02 maio 2011

Desafio lexical

Evacuam-se edifícios ou evacuam-se pessoas?

22 abril 2011

CEM ou SEM?!

Qual a frase correcta?

a) Sabiam que o papel serve para fazer um cem-número de coisas?

b) Sabiam que o papel serve para fazer um sem-número de coisas?

(Se acharem ridiculamente fácil, desculpem... é que há dias vi esta expressão mal escrita!)

13 abril 2011

O plural dos adjectivos compostos

É uma dor de cabeça. Ou um quebra-cabeças.
Matéria que detesto ensinar, porque invariavelmente acabo a confundir os alunos, em vez de os esclarecer.

E como é que poderia ser de outra maneira, se as gramáticas, os dicionários e as bases de dados morfológicas se contradizem? Por mais que eu tente sistematizar, a pesquisa no sentido de legitimar as minhas explicações leva inevitavelmente à sua questionação.

Com base na minha investigação pessoal, tentei estabelecer regras coerentes deste tipo:

a) O adjectivo é um composto morfossintáctico - ambos os termos se flexionam. Exemplos: alunos trabalhadores-estudantes; crianças surdas-mudas

b) O adjectivo é um composto morfológico - apenas se flexiona o primeiro termo. Exemplos: indivíduos luso-brasileiros, razões histórico-sociais

c) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é um nome ou adjectivo - nenhum dos termos se flexiona. Exemplos: camisolas verde-garrafa, cartolinas vermelho-vivo

d) O adjectivo designa uma cor e a segunda palavra é claro ou escuro - só se flexiona o segundo termo. Exemplos: calças castanho-claras, vestidos azul-escuros

Esta "arrumação", contudo, tem um problema: apesar de se basear nas recomendações que encontrei em fontes diversas, o consenso entre elas, na globalidade, não existe. Assim, quem tenha tempo e paciência pode sempre dedicar-se a procurar provas de que, na realidade, vale tudo, pelo menos no que respeita às últimas alíneas, c) e d). E aqui fica a irritante prova:


O plural de azul-marinho é azul-marinhos

O plural de azul-marinho é azul-marinho

O plural de azul-marinho é azuis-marinhos

Cada um que decida, portanto, o que prefere usar. Procedimento assaz democrático, sem dúvida, mas muito nefasto, em termos pedagógicos...

05 abril 2011

O falar sentido por um pintor escrevente

Haverá forma mais bonita de sentir a língua portuguesa nas vozes brasileiras?


«O Brasil fez o idioma despir-se, assumir trejeitos de dançarina. Bebo esse sabor como se a palavra nascesse em mim pela primeira vez. Eis a minha língua rematerna.»

Mia Couto, "O Zambeze desaguando na Amazónia" (in Pensageiro Frequente)

31 março 2011

Certo ou errado?


Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio:

Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível.

Considerariam certa ou errada esta construção? E porquê?

28 março 2011

A palavra mais comprida do dicionário de língua portuguesa

Alguém sabe qual é? (Não vale dizer arroz, por começar em A e acabar em Z!)

Tem 46 letras e encontra-se atestada no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa...

24 março 2011

"Há dois anos" = "Dois anos atrás"

Este livro de Mia Couto foi publicado há dois anos atrás.
Certo ou errado, do ponto de vista linguístico?
Errado!

O verbo haver serve, como o verbo fazer, para nos referirmos ao passado. Assim, são sinónimas as frases "Foi há dez anos que lá fomos" e "Faz dez anos que lá fomos". Deste modo, tal como é desnecessário o uso da preposição atrás na segunda frase ("Faz dez anos atrás que lá fomos"), ela também não faz falta na primeira ("Foi há dez anos atrás que lá fomos").
Então, por que motivo se começou a usar essa preposição com o verbo haver, sempre que se fala de tempo? Quanto a mim, há dois motivos principais: por um lado, porque a forma verbal "há" também significa "existe/existem" e, para evitar ambiguidade e mal entendidos, o uso de "atrás" garante que se fala de tempo decorrido. Eis um exemplo: Há dois dias que não contam. Esta frase pode significar "faz dois dias que [eles ou elas, alguém plural de quem se fala] não contam"; ou "existem dois dias [na semana, por hipótese] que não são considerados".
Por isso,  tendemos a dizer "Há duas horas atrás..." para enfatizar o facto de estarmos a referir-nos a qualquer coisa que aconteceu duas horas antes ou atrás (e não a "duas horas que existem").
E isto leva-nos ao segundo motivo: é que a preposição atrás serve, realmente, para indicar a anterioridade no tempo. Por isso ela pode ser usada em vez (como equivalente) do verbo haver (Daí a tendência para misturar tudo, que é uma espécie de tautologia, como dizer "elo de ligação" ou "outra alternativa").
Aliás, atrás é mesmo aconselhável quando usamos o discurso indirecto, para substituir o verbo haver, se não o quisermos conjugar noutro tempo, que não o presente. Repare-se na transição do discurso directo para o indirecto neste exemplo:

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram há três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO: Ele perguntou o que tinham feito três meses atrás.

Em alternativa, poder-se-ia manter o uso do verbo haver, mas conjugado no pretérito imperfeito (coisa que muita gente não se lembra de fazer, mantendo haver no presente):

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram há três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO 1 : Ele perguntou o que tinham feito havia três meses.
DISCURSO INDIRECTO 2: Ele perguntou o que tinham feito há três meses.

Ora, esta última frase (2), com o verbo haver no presente, só se justifica quando o momento em que se concretiza o discurso indirecto é próximo, no tempo, do momento de enunciação do discurso directo (se os "três meses atrás" forem os mesmos para quem falou primeiro e para quem ouve o discurso indirecto).

Concluindo: "há" não precisa de "atrás" para nada, quando falamos do passado. Mas "atrás" serve para substituir "há", quando "há" deveria ser "havia". A explicação que ficou para trás é confusa e provavelmente desnecessária... perdoem-me. A intenção era boa!




23 março 2011

"Há dois anos atrás"?

Será aconselhável ou desaconselhável esta construção ("há... atrás")?

18 fevereiro 2011

A propósito do Acordo Ortográfico e das "facultatividades"...



Apresento-vos este pequeno desafio (não vale ir ver as respostas antes de escrever um comentário!).
Das seguintes palavras, quais as que, com o Acordo Ortográfico de 1990, admitem duas grafias em Portugal (com e sem a consoante c)?

acupunctura
afectuoso
característica
caracterizar
colectividade
dicção
expectativa
expectoração
facto
faccioso
objectar
optimizar
predilecção
transacto
veredicto


24 janeiro 2011

Onde começam e acabam as palavras?

Quando lemos as primeiras produções de escrita espontânea de uma criança de 5 ou 6 anos, confirmamos (ou descobrimos) que as palavras não são, ao contrário do que os adultos letrados tendem a pensar, unidades com fronteiras bem definidas.
É já clássica a história da criança (e afinal são muitas crianças!) que pensava ser um "setanão" o singular de sete anões.
As expressões que utilizamos quotidianamente, como "fim de semana", "com licença", "com certeza" e "se faz favor" (aliás, até lhes pedimos que digam a "palavra mágica", quando as crianças nos fazem um pedido e se esquecem de incluir a expressão...) têm, na oralidade, as fronteiras lógicas que o significado permite atribuir-lhes: aquele que todas as palavras que a compõem forma quando elas são usadas como um todo. Quando as escrevemos, inserimos espaços entre as diferentes palavras porque sabemos que cada uma delas é uma unidade autónoma e estamos habituados a vê-la escrita. Mas as crianças que se estão a iniciar nas actividades de leitura e escrita ainda não tiveram tempo de consolidar e interiorizar regras que são essencialmente ortográficas e que, aliás, são suficientemente flexíveis para que, ao longo do tempo, algumas expressões possam fundir-se numa única palavra, como sucedeu com depressa, devagar, contudo, talvez, aonde, entretanto e tantas outras.
E quem se ri deste inocente "sefasfavor" pense bem: nunca teve a tentação de escrever "concerteza", "derrepente", "afim de" ...?

10 janeiro 2011

Ensino...

à distância ou a distância?


O que vos parece?

12 dezembro 2010

Conhecem o verbo "dippar"?

 
 
Mais um bom exemplo do portinglês que hoje se cultiva...

03 dezembro 2010

Registos ou níveis de língua

  Os registos de língua ou variações diafásicas resultam da adequação do uso da língua a cada situação particular de comunicação. Assim, um mesmo falante pode adoptar diferentes registos no mesmo dia, consoante o grau de familiaridade que tem com os interlocutores, o tipo de situação em que fala (ou escreve) e até a mensagem que pretende transmitir. Um exemplo: enquanto aos amigos podemos dizer bué, aos professores já diremos muito e num trabalho escrito ainda poderemos optar por deveras ou extremamente. Podemos, então, falar de graus ou níveis de língua: do mais baixo (popular) para o mais elevado (literário). Porém, a mudança de registo não se verifica apenas no léxico. Também na construção das frases e até na pronúncia das palavras há diferenças, de uns registos para os outros.


Registo popular:        Este registo está associado a grupos sócio-culturais menos letrados, ou  pouco escolarizados, e pode, por isso, ser considerado uma variante diastrática (normalmente, as pessoas que o utilizam não conseguem mudar para outro registo, quando a situação de comunicação assim o exigiria). É caracterizado por incorrecções ("há-des/há-dem", "fiz-os", "pus-os", "dêiamos", "póssamos") e por um conjunto de termos pitorescos, caracteristicamente usados pelas camadas ditas “menos cultas” da população (o "tiosque" onde se vendem jornais", o "castrol" no sangue, as "parteleiras", os ovos "móis"). É sobretudo ouvido, mais do que lido, mas pode ser reproduzido por escritores de obras literárias que procuram caracterizar as personagens por meio da linguagem que estas utilizam no discurso directo.

Registo familiar:             É utilizado em situações de informalidade, em família ou entre amigos (os “migos”). Emprega um vocabulário simples, pouco variado, e construções frásicas igualmente simplificadas (“Tudo bem?”), deixando transparecer emoções, afectividade (“'tá igualzinho!”, "obrigadinho").  Apresenta expressões idiomáticas (“ele não me passou cartão”, "estou-me nas tintas") e abreviaturas que simplifiquem a pronúncia e facilitem a escrita, como ‘'tive" e "pra" em vez de “estive” e “para a”, e tende a ser escrito apenas em mensagens informais (e-mails, cartas, SMS).

Registo corrente:         Corresponde ao tipo de discurso utilizado nas situações do quotidiano, sempre que comunicamos com alguém que não conhecemos bem. É caracterizado pelo emprego de palavras, expressões e construções gramaticais simples e vulgares (chato e OK estarão a transitar do familiar para o corrente), formas verbais de substituição (“vou-te levar” em vez de levar-te-ei, “gostava” em vez de gostaria), sem a preocupação de variar o léxico ou embelezar a expressão. Pode ser considerado corrente o discurso dos professores nas aulas, ou o dos jornalistas na televisão, embora alguns usem já um registo mais cuidado.

Registo cuidado:         É o que escolhemos em ocasiões formais ou solenes (comunicações, discursos políticos, conferências científicas, etc.), quando pretendemos causar a melhor impressão possível e há uma grande distância social a separar-nos dos nossos interlocutores. Este registo caracteriza-se por um vocabulário mais erudito e variado (alternamos entre penso, considero, julgo, parece-me, estou em crer), pelo cuidado na aplicação dos tempos e modos verbais apropriados (peço que façam em vez de “peço para fazerem”, dar-lhes-ia em vez de “dava-lhes”) e por uma construção gramatical complexa, denunciando a sua preparação escrita, mesmo quando é transmitido oralmente.

Registo literário:          É linguagem escrita por excelência, exprimindo-se através dos idiolectos particulares de romancistas e poetas, que procuram surpreender os leitores por meio de termos raros ou desusados, de construções sintácticas invulgares (que porventura seriam consideradas incorrectas, se formuladas noutro registo), de flexões impossíveis e de sentidos inesperados, marcadamente conotativos, cuja carga simbólica e metafórica depende da capacidade de interpretação e da sensibilidade de cada um (pode inclusivamente dificultar o entendimento da mensagem). Por vezes, o discurso publicitário recorre a este tipo de registo para captar a atenção do público, ou para o surpreender.

16 novembro 2010

"Cristovão"? Não será "Cristo vai"?!



As palavras graves (ou seja, cuja vogal tónica está na penúltima sílaba) que terminam em <ão> ou <ã>, incluindo os respectivos plurais, escrevem-se sempre com acento gráfico. Caso contrário, teriam de ser pronunciadas como agudas, ou seja, com a tónica na última sílaba.
Assim, escreva-se Cristóvão, órfão, órfã, órgão, orégãos, acórdão, sótão, etc. - porque a sílaba pronunciada com mais força não é a mesma de palavras como então, coração, sensação, algodão e violão - essas, sim, sem acento gráfico, porque a vogal tónica já tem o til e não há qualquer margem para dúvidas.

E, já agora, quando há dúvidas sobre a grafia da terminação de certas formas verbais, como estão, entram, serão, andam, entre outras (que muito boa gente já escreve mal: "estam", "entrão" e por aí fora), o truque é precisamente verificar qual a vogal que se pronuncia com mais intensidade: se for a penúltima, a forma verbal escreve-se com (entram, andam, contam, deram); se for a última, então não há que enganar: escreve-se com <ão> no fim: estão, serão, dão, cantarão.

05 novembro 2010

"Pode haver mais casos" ou "podem haver mais casos"?


Qual a forma mais correcta para preencher o espaço na frase que se segue: "pode haver" ou "podem haver"?


Foram já confirmadas duas situações, mas _______________ mais casos, que provavelmente serão detectados até ao final da semana.


26 outubro 2010

Escuteiro e escoteiro

Eis uma subtileza ortográfica que pode causar alguma hesitação e, talvez, perplexidade, porque o mais comum é pensar-se que apenas uma das formas, entre escuteiro e escoteiro, está correcta.

No entanto, ambas existem em português. Os "seguidores" de Baden-Powel, o general inglês que fundou o escutismo, são os escuteiros: indivíduos que pertencem a uma associação cujo objectivo é o «aperfeiçoamento moral, intelectual e físico das crianças e dos jovens, pelo desenvolvimento do seu espírito cívico» - citando o Dicionário de Língua Portuguesa da Infopédia.
 Mas existe também o escoteiro, que é «aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote nas estalagens», de acordo com o mesmo dicionário. (E o que é isso de "escote"? - podemos perguntar-nos... já lá vamos!). Mais: também há escotismo com o. Trata-se de um  «sistema filosófico e doutrina de João Duns Escoto, filósofo irlandês (1274-1308), seguida pelos franciscanos» (a fonte é a mesma).
Quanto ao escote, é uma «quota individual para uma despesa comum» e tem origem no francês antigo escot (que significava «contribuição em dinheiro»), ainda de acordo com a Infopédia.

Bom, e se não for para dissipar dúvidas, isto serve para demonstrar como as palavras nos dicionários são como as batatas fritas: cada uma que se "prova" leva-nos a procurar mais e mais...!

18 outubro 2010

"rails" para quê?

Será mesmo necessário empregar o estrangeirismo rails a torto e a direito, ao ponto de ele já aparecer nos dicionários?
Num livro para crianças, fará sentido fazê-las tropeçar na pronúncia de uma palavra intrusa no meio de um texto em português?
O que é que falta aos trilhos e aos carris, que sempre nos serviram tão bem?

06 outubro 2010

Translineando...


A translineação obedece a certas regras, implicando que não se pode truncar palavras em qualquer parte, quando a linha não tem espaço para as escrever inteiras.
Regra geral, devemos respeitar, na translineação, a divisão silábica, partindo, por exemplo, a palavra complicação de acordo com as seguintes possibilidades: com-plicação; compli-cação; complica-ção.
Porém, no caso de haver no meio da palavra duas consoantes iguais, estas devem manter-se juntas - é aqui que a translineação apresenta diferenças relativamente à divisão silábica. Por exemplo, a palavra autocarro, que tem as sílabas au-to-ca-rro, não deve ser translineada desta forma: autoca-rro; mas antes assim: autocar-ro. Isto para evitar que, no início de uma linha, encontremos uma palavra (ainda que partida) iniciada por duas consoantes iguais, o que se afigura como algo muito estranho. Por outro lado, as vogais que consituam, por si só, uma sílaba também não devem ser deixadas sozinhas no começo de uma linha. Logo, devemos dividir Maria apenas de uma maneira: inserindo a quebra entre a primeira e a segunda sílaba, para evitar que a terceira, o -a-, fique isolada na linha seguinte.

28 setembro 2010

Oralidade e correcção linguística


Sabemos, é claro, que o registo oral, sobretudo o informal, permite certos desvios à norma e algumas construções que na escrita seriam consideradas incorrectas. Ainda assim, há limites para aquilo que se pode considerar aceitável.
Imaginem, então, que alguém enuncia esta frase, a propósito do que outra pessoa acaba de dizer:

«Há dois anos atrás, eu subscrevia por baixo do que você está a dizer.»

A minha pergunta é: esta frase é aceitável, do ponto de vista da correcção linguística? Se não, porquê?