24 Março 2011

"Há dois anos" = "Dois anos atrás"


Apetece-me começar este texto por "penso eu de que..."
É que vou apenas expressar a minha opinião e não quero ferir a susceptibilidade de quem tenha outra, pois esta é uma daquelas construções tão em voga nos nossos dias, que se torna quase ofensivo dizer a quem a usa que está a cometer um erro. Até porque, como se sabe, no que toca à gramática das línguas vivas, como a nossa, a noção de erro não é a mais adequada para falar daquilo a que mais prudentemente se costuma chamar de mudança linguística.
Gostaria, para ser franca, que me acompanhassem no raciocínio que vou expor e que depois decidissem concordar ou discordar da minha posição sobre este assunto. Ora aí vai:

O verbo haver serve, como o verbo fazer, para nos referirmos ao passado. Assim, são sinónimas as frases "Foi há dez anos que lá fomos" e "Faz dez anos que lá fomos". Deste modo, tal como é desnecessário o uso da preposição atrás na segunda frase ("Faz dez anos atrás que lá fomos"), ela também não faz falta na primeira ("Foi há dez anos atrás que lá fomos").
Então, por que motivo se começou a usar essa preposição com o verbo haver, sempre que se fala de tempo? Quanto a mim, há dois motivos principais: por um lado, porque a forma verbal "há" também significa "existe/existem" e, para evitar ambiguidade e mal entendidos, o uso de "atrás" garante que se fala de tempo decorrido. Eis um exemplo: Há dois dias que não contam. Esta frase pode significar "faz dois dias que [eles ou elas, alguém plural de quem se fala] não contam"; ou "existem dois dias [na semana, por hipótese] que não são considerados".
Por isso,  tendemos a dizer "Há duas horas atrás..." para enfatizar o facto de estarmos a referir-nos a qualquer coisa que aconteceu duas horas antes ou atrás (e não a "duas horas que existem").
E isto leva-nos ao segundo motivo: é que a preposição atrás serve, realmente, para indicar a anterioridade no tempo. Por isso ela pode ser usada em vez (como equivalente) do verbo haver (Daí a tendência para misturar tudo, que é uma espécie de tautologia, como dizer "elo de ligação" ou "outra alternativa").
Aliás, atrás é mesmo aconselhável quando usamos o discurso indirecto, para substituir o verbo haver, se não o quisermos conjugar noutro tempo, que não o presente. Repare-se na transição do discurso directo para o indirecto neste exemplo:

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO: Ele perguntou o que tinham feito três meses atrás.

Em alternativa, poder-se-ia manter o uso do verbo haver, mas conjugado no pretérito imperfeito (coisa que muita gente não se lembra de fazer, mantendo haver no presente):

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO 1 : Ele perguntou o que tinham feito havia três meses.
DISCURSO INDIRECTO 2: Ele perguntou o que tinham feito três meses.

Ora, esta última frase (2), com o verbo haver no presente, só se justifica quando o momento em que se concretiza o discurso indirecto é próximo, no tempo, do momento de enunciação do discurso directo (se os "três meses atrás" forem os mesmos para quem falou primeiro e para quem ouve o discurso indirecto).

Concluindo: "há" não precisa de "atrás" para nada, quando falamos do passado. Mas "atrás" serve para substituir "há", quando "há" deveria ser "havia". A explicação que ficou para trás é confusa e provavelmente desnecessária... perdoem-me. A intenção era boa!




15 comentários:

Lígia disse...

Oioi, parabéns pelo blog! Andei pesquisando, pois queria dar uma melhorada no meu português, além de me atualizar no acordo ortográfico. Queria saber se você recomenda algum livro.

S. Leite disse...

Algum livro sobre o A.O.? Na verdade, pessoalmente prefiro consultar o texto do Acordo (bem como a base de dados com todas as palavras que mudam) aqui mesmo, na Internet, no excelente Portal da Língua Portuguesa. Já experimentou?

www.portaldalinguaportuguesa.org

Bic Laranja disse...

Não é nada nada confusa. É clara sobre o mau uso corrente de "há" por "havia" e deixa uma bóia atrás para quem nisso se afoga.
Cumpts.

Bic Laranja disse...

À Lígia, se procura melhorar o português, melhor é fugir de construções como dar uma melhorada. E já agora fuja do próprio acordo (orto)gráfico para não agravar ainda mais.
Cumpts.

ufpbradio disse...

Parabéns!

Tirei muitas dúvidas!

Anónimo disse...

Alguém me podia dizer uma frase com a expressão 'há não'?
Não pode haver nenhuma vírgula entre as palavras, e têm se ser utilizadas as duas juntas numa frase coerente...
Obrigada.

S. Leite disse...

"Não há não que seja definitivo..." Serve?

Anónimo disse...

Serve sim, muito obrigada.

Anónimo disse...

É das melhores distinções que ainda li sobre o emprego do verbo «haver». Absolutamente correcta.
- Montexto

leandromd disse...

Muito bom! Parabéns!
Estou usando esse seu "post" para exemplificar para outras pessoas que escrevem isso de forma errada...
Abraços!

Ale disse...

Entao na musica de Raul Seixas:
"Eu nasci, ha 10.000 anos atras"
Podemos dizer que atras tbm foi desnecessario, certo?
Adorei!!!

S. Leite disse...

Isso mesmo, Ale! Obrigada.

Celena disse...

Oi autoras!!!

Gostei muito do post, mas continuo com uma dúvida. Observo em muitos textos, que a expressão "Alguns anos atrás" tem aparecido como alternativa ao uso do "Há (tempo)".
Eu também até já usei esse artifício, mas me julgaram como erro. Eu entendo que não é e expliquei meus motivos. Mas penso: será mesmo um erro? Será que é um vício de linguagem, uma importação da expressão inglesa: "Long time ago"?

Obrigada,

S. Leite disse...

Celena, obrigada. "Alguns anos atrás" é, quanto a mim, uma construção perfeitamente legítima e equivalente a "há alguns anos" ou "faz alguns anos". Não duvido que haja quem pretenda corrigi-la por empregá-la, mas isso não impede quem corrige de estar enganado. São muitas as vezes em que deparo com a hipercorre(c)ção: um fenómeno que consiste em pretender substituir uma forma ou construção linguística corre(c)ta por outra incorre(c)ta, na ilusão de que se está a fazer uma substituição acertada. É o que acontece quando conscientemente se prefere "ter morto" a "ter matado", "trezentas gramas" a "trezentos gramas" e "tratam-se de situações" em lugar de "trata-se de situações", para dar apenas três exemplos.

Celena disse...

Obrigada!!! Fiquei mais tranquila em usá-la depois da explicação.