14 setembro 2007

Acordo ortográfico: uma unidade sem futuro


Na revista brasileira Veja do passado dia 12, há um interessante artigo sobre a importância do domínio da língua no sucesso profissional, acompanhado de considerações sobre as mudanças que o novo acordo ortográfico trará ao português, com depoimentos de escritores, linguistas e professores brasileiros.

Segue-se um artigo de opinião de Reinaldo Azevedo que gostei particularmente de ler, pois retrata a situação do ensino no Brasil desde a década de 70, em particular no que se refere à moda de prezar o “uso criativo” da língua por parte dos alunos, em detrimento do ensino da gramática e da dotação dos educandos com “instrumentos que abrem as portas da dificuldade”. Optou-se, no seu entender, “pelo mesquinho, pelo medíocre, pelo simplório.” (Onde é que já ouvimos isto?!). Não resisto a citar alguns excertos:


As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal “análise sintática”, lembra-se? – cederam espaço à “interpretação de texto”, exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. (...) A educação, ao contrário do que prega certa pedagogia do miolo mole, é o contrário da “sedução”. Quem nos seduz é a vida, são as suas exigências da hora, são as suas causas contingentes, passageiras, sem importância. É a disciplina que nos devolve ao caminho, à educação. Professores de português e literatura vivem hoje pressionados pela idéia de “seduzir”, não de “educar”. (...) As reformas ortográficas, acreditem, empobrecem a língua. Não democratizam, só obscurecem o sentido. Uma coisa boba como cassar o “p” de “exce(p)ção” cria ao leitor comum dificuldades para que perceba que ali está a raiz de “excepcional” (...).

Defendendo a restauração em vez da reforma, Reinaldo Azevedo conclui avisando que “A unidade só tem passado. E nenhum futuro.”

Julgo compreender este ponto de vista, já que o uso de uma língua está estritamente ligado às idiossincrasias da cultura própria dos seus utilizadores. Pretender que os portugueses escrevam “fato” em vez de “facto”, ou que os brasileiros passem a grafar “lingüiça” sem trema é, talvez, comparável a obrigar os primeiros a dançar o samba nas festas populares e os segundos a comer bacalhau no Natal.

E com estas palavras gostaria de estimular o debate no espaço reservado aos comentários...

10 comentários :

Hugo disse...

Viva!
Este assunto é de facto interessante e tenho pena de não ter suficiente informação sobre ele para poder opinar como gostaria.
Desconheço qualquer acordo que esteja eminente e as alterações propostas.
De qualquer modo, assusta-me que nos "obriguem" a alterar aspectos que, mais do que enraizados, fazem parte da origem da língua e implicaram mutações em todos os aspectos desta.
Creio que a alternativa seja ficar tudo mais ou menos como está e a Língua Portuguesa poderá sofrer variações de acordo com a origem dos falantes. E isto não é nenhum problema, ou será?!

Joana disse...

Muito bom, gostava de ler isso.
Essa da "interpretação de texto" sempre me deu um bocado volta à cabeça, porque naqueles textos que tinha de interpretar no secundário, eu nunca os interpretava da maneira como eles TINHAM de ser. E tinham mesmo, não nos davam outra hipótese :|
Não acho que alterar a língua portuguesa, em alguns aspectos, seja problema. Nalgumas coisas até acho que o português do Brasil está mais facilitado que o nosso.
Bj profs *

deprofundis disse...

Gostei!

S. Leite disse...

O que me parece é que muito poucos estarão de acordo com o acordo! Em todo o caso, seria interessante ouvi-los, ou melhor, "lê-los" e saber as suas razões. A Joana já tocou num ponto importante: facilitar. Não sendo eu uma adepta do acordo (que nem acredito que seja exequível), penso que a simplificação da escrita traz vantagens a todos os que usam o mesmo idioma. Ou não será o mesmo idioma? É que as diferenças são cada vez mais!

S. Leite disse...

Hugo, para ter uma ideia mais clara sobre o acordo ortográfico proposto em 1990 e que parece estar agora mais próximo de entrar em vigor, clique na ligação que colocámos nos "Assuntos Quentes" para o Ciberdúvidas.

S. Leite disse...

E já agora acrescento um parágrafo que considero particularmente relevante, da jornalista Lisandra Paraguassú, publicado no jornal "Estado de São Paulo":
"o maior problema apontado por especialistas é que a inexistência de uma grafia comum impede a livre circulação de livros e material didático entre os oito países."

casccalensə disse...

Detesto este acordo que dizem que vai entrar em vigor (apesar de praticamente nunca se ter ouvido falar dele na comunicação social) já em Janeiro de 2008, e que tem andado a ser adiado desde 1990.

Mais valia que o tivessem posto em prática nessa altura, hoje em dia já saberia escrever de uma maneira diferente e não me oporia a ele, pelo simples facto de não conhecer outra maneira de escrever português.

Na minha opinião estas mudanças deixam a Língua Portuguesa mais burra (e posso não me referir só à etimologia) porque alguém não consegue decorar que antes de um "úmido" vem um agá e que "leem" se lê com um chapèuzinho (e já agora vivam as raízes das palavras); para mim, mais valia viver na ignorância do que não concordar e ter de passar por ele (o acordo).

Concordo com a unificação ortográfica, mas não esta.
Fico profundamente triste.

Acho piada virem dizer que querem unificar, quando afinal de contas continuará a haver diferenças, nomeadamente, no que diz respeito a "António" e "Antônio", no que diz respeito a "cantamos" e "cantámos", e, por exemplo, no que diz respeito à exterminação de cês e pês quando estes não se lêem...ora, tudo bem, mas então e aquelas palavras onde num país se lê e no outro não? Como "recepção", e agora? Obrigarão os portugueses a tirar o pê? Ou obrigarão os brasileiros a não pronunciá-lo?

Se é para unificar a ortografia, é para unificar à séria, e não para pseudo-unificar.

Por mim voltariam os tremas em "saüdade", "constituïção" ou "vaïdade"; os acentos graves em "estùpidamente" ou "cafèzinho"; e se for preciso (que é) ir buscar outros sinais para a tal unificação...porque não "Antœnio", "Amazœnia", "tænue" ou "europæia" no lugar de "Antó/ônio", "Amazó/ônia", "té/ênue" e "europe/éia".

Há tanta coisa por onde se pegar e atribuir ao português o seu carácter nobre e racional.

Aos senhores que regulam a ortografia e a nós que a pomos em prática: vamos lá a pensar mais um bocadinho, sim?

Não é pelos que não sabem escrever que a língua se deve reger.

Um abraço :)

S. Leite disse...

Subscrevo inteiramente a sua opinião,Cascaalense.

Barata Negra disse...

Pois, eu gostei muito do artigo e estou também contra o acordo ortográfico.
Tenho até, uma posição mais forte.

O "Português do Brasil" não devia ter nem sequer uma gramática diferente, quanto mais uma ortografia diferente da do Português dos restantes países lusófonos.
Há que ver que a Língua Portuguesa é uma criação de Portugal e à nossa pátria pertence. É um elemento fundamental do nosso património imaterial. É para mim muito evidente que a soberania da nossa língua é exclusiva de Portugal.

Pois muito diferentemente de tentar coexistir com a vertente brasileira, eu creio que Portugal deve impor ao Brasil uma mudança. O Brasil deve, a meu ver, usar e ensinar a gramática e a ortografia de Portugal. E se se opuserem, devem ser expulsos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e fundar a sua própria "língua brasileira".

É imperativo que assim se faça, pois o excelso direito de determinar que algo é português ou não, é nosso. E que não o protejamos, é tanto uma ignomínia que só nos prejudica com respeito à imagem internacional do nosso país, como é uma cruciante injustiça para o nosso legado cultural e a nossa história.

S. Leite disse...

Caro/a Barata, agradeço a sua opinião, mas não concordo com a ideia de que os portugueses são os donos da língua que falam os brasileiros. Eles falam, até agora, português, mas numa versão cada vez mais distinta da nossa que tem toda a legitimidade de existir enquanto tal. O facto de termos, historicamente, um idioma comum não impede que cada uma das variedades evolua numa direcção diferente, até que acabem por se separar. Foi o que sucedeu com o galego-português, se considerarmos que o galego é hoje uma língua autónoma e diferente do português. Não faria sentido que nós, portugueses, obrigássemos os galegos a falar como nós, tal como não seria lícito, nem prático, nem fácil, impor hoje a variedade lusa no Brasil.