17 maio 2007

Escreva-se mais poesia!

Confesso que não costumo comprar livros de poesia, nem tão-pouco escolher poemas em vez de contos ou romances, quando tenho tempo para ler. Confesso que muita da poesia que já tentei decifrar me deixou desconcertada, com a sensação frustrante de se ter mantido fechada a porta de acesso ao sentido final, por obscuridade intencional da linguagem do poeta ou por incompetência da minha parte. Ler poesia pode ser, de facto, mais do que um desafio, um trabalho árduo e desmotivador*.

Mas a poesia é sempre uma festa, quando nos propomos brincar com a língua, inventar frases como quem vai cantarolando. Escrever um poema é como jogar um jogo solitário do qual saímos sempre a ganhar, pelo simples prazer de alinhar palavras como quem brinca com um puzzle que permite um número infinito de combinações. Seja ou não rimado, o poema tem ritmo, tem aquela qualidade musical que faz dele o texto mais lúdico, mais divertido de compor. Talvez seja por isso o género mais indicado, quando se pretende motivar crianças e adolescentes para a escrita. Prova disso é que muitos o experimentam, mesmo sem que alguém o sugira ou imponha.

Todavia, hoje perguntei aos alunos de uma turma se não queriam trazer, na próxima aula, alguns poemas da sua autoria. Perante os olhares de admiração da maior parte deles, perguntei-lhes se não tinham escrito poemas na adolescência, o que eu achava que era normal e frequente. Uma resposta entristeceu-me: «Na nossa adolescência, o que escrevíamos eram mensagens de telemóveis!...»

Não me digam que já não há poesia na adolescência!

* Nota: experimentei procurar “desmotivante”, palavra legitimamente formada, mas os vários dicionários que consultei não a registam. Contudo, tem 507 ocorrências no Google, só em páginas de Portugal... começo a pensar que o Jaime tem mesmo razão em usar um motor de busca em vez de um dicionário para saber se uma palavra existe!

5 comentários :

Jaime disse...

Conheço este blogue com poesia: A minha nuvem.

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Vida de Praia disse...

Até parece uma anedota, mas de fim triste. Então e não havia uma rimazinha sequer nas tais mensagens de telemóveis?...
Confesso que também não sou grande apreciadora de poesia exactamente pelo que descreves, mas escrevi vários poemas parvos quando era adolescente, sobre sonhos e praias desertas e coisas assim, e com rimas tão simplórias, que até me fazem corar : )

Mafalda (2º ano) disse...

Dois pontos:

- Primeiro: numa aula de Sociologia vimos o filme "Mentes Perigosas" que entre muitas coisas que fala...mostrava como podemos estímular as pessoas com poesia. Então qual é a poesia que toda gente conhece? As letras das músicas que todos cantarolamos. Neste filme, a professora pegou nas letras de um música Afro-americano muito conhecido pelos jovens rebeldes. Depois destes conseguirem tirar uma mensagem subentendida nos poemas, avançou para a comparação destes poemas com outros de um autor "díficil" da Literatura Americana. Isto sim devia ser feito nas escolas. Pode ser que os "putos" comecem a gostar dos nossos poetas.

- Segundo: as últimas rimas que fiz foi a letra de uma música dedicada a uma amiga minha que foi para Moçambique (leigos para o desenvolvimento) e digo que é das melhores coisas para a alma. Não é só o brincar com as palavras/sons mas é o conceber algo nosso que se possa equiparar a algo que pessoas com estatuto fazem com enorme sucesso. É preciso uma certa inspiração e acho que é isso que falta ao pessoal da minha idade, confundem falta de paciência para justificarem falta de inspiração.

Esta semana vou fazer uma letra para uma música para cantar no estágio. Estamos sempre a rimar!

Joana (2º ano) disse...

Ahahahah que grande resposta, mas que por acaso não é mentira nenhuma!
E por acaso também ia falar do filme "Mentes Perigosas" mas a Maf adiantou-se :p de facto é estimulante o modo como aquela professora ensinou os alunos a gostarem de poesia, e se as letras das músicas são mesmo poesia, então eu leio muita :D
Beijinho

Justina disse...

Gostava de acrescentar que o Bob Dylan não é afro-americano e que o poema que é abordado no início do filme não era sequer conhecido dos alunos. Acho que seria importante referir este aspecto, o poema era retirado de uma canção de uma época em que os alunos do filme eram alheios. Quem conhecia muito bem a época era a professora porque tinha vivenciado na primeira pessoa os tempos dos hippies. Para mim, este filme é uma referência, e pode e deve ser visto mais do que uma vez.