12 abril 2007

“Uma metáfora é quando...”

Qual é o professor que nunca se queixou de que os seus alunos iniciam a explicação de um conceito com aquele nefasto "é quando..." ? Julgo que todos se lamentam do mesmo...

No entanto, há outra pergunta a fazer: quais, desses professores, é que se deram ao trabalho de esclarecer os alunos, de lhes fornecer instrumentos e técnicas para que eles saibam produzir uma explicação aceitável, construir uma definição minimamente rigorosa de uma ideia? Se calhar, muito poucos...
Talvez devêssemos, então, começar por alertar os alunos para o facto de "é quando" não ser uma forma aceitável de começar a definição de um conceito, explicando porquê – ANTES de lhes pedir que definam este ou aquele termo.
Depois, seria bom que os orientássemos, mostrando-lhes que definir um conceito implica, antes de mais, encontrar um outro termo que possa substituir o primeiro e que tem forçosamente de pertencer à mesma classe gramatical. Peguemos numa metáfora, por exemplo, que antes de ser qualquer outra coisa é um substantivo. Podemos então começar por dizer que se trata de um “recurso estilístico” e só a partir daí devemos construir o resto (“um recurso estilístico através do qual determinada realidade é referida ou caracterizada de forma simbólica, etc....”).

Acredito, sinceramente, que os alunos que começam por explicar seja o que for com a expressão “é quando” não o fazem por entenderem que se trata de uma boa maneira de introduzir a explicação, mas por não saberem como iniciar a frase de um modo mais rigoroso e eficaz.

11 comentários :

Dulce disse...

Bravo!
É preciso ensinar antes de pedir, sim!

S. Leite disse...

Pois é, Dulce, tu também deves ter esta experiência, dos teus tempos de professora... não queres contar?

Dulce disse...

Não tenho grandes recordações dessa época, como sabes, Sara, e nada de especial para contar.
Gosto muito de saber (dá-me ânimo saber!) que há professores como tu!
Com o empenho, o rigor e a energia que te conheço.

Parabéns por este blogue!

Joana (2º ano) disse...

Estive sem pc mas estou de volta! :D
Pois realmente, a nossa tendência é escrever "é quando.. bla bla bla" :/
O que vale é que há sempre aquelas professoras que nos dão as tais explicações :D beijinho

asnossasvozes disse...

Um blogue que ensina e trata temas da educação é sempre bom para todos.Gostei do que li e vou linkar ao jornal escolar da escola EB 2,3 prof.Mota Pinto.Força com estes conteúdos.Do Agostinho

agostinho disse...

É sempre bom ter um blogue destes à mão. Por isso link ao Arte por um Canudo 2.

Jaime disse...

Também não me parece que o "é quando" seja um bom inicio de definição, mas mais por uma questão "literária" (não parece uma linguagem bonita) do que por alguma razão mais objectiva.

Penso que dar uma definição de X consiste em exibir uma propriedade P que é verdadeira para um Y se e só se Y = X.

Parece-me que a propriedade P é a essência da definição. É no entanto usual dizer simplesmente «P», mas incluir algum texto a acompanhar a apresentação de P. Algo como «dizemos que um objecto é X se e só se satisfaz P». Mas o texto «dizemos que um objecto ... se e só se satisfaz ...» é uma "envolvente literária" para dar à definição um aspecto menos "seco", não é em si o essencial da definição.

PS. A matemática tem destes efeitos. :-)

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

S. Leite disse...

Obrigada a todos pelos vossos comentários! Aos visitantes "reincidentes" por continuarem a participar e aos novos por terem aparecido! Jaime, quanto ao teu comentário, deixaste-me sem palavras. Tenho de o ler mais umas vezes... :S

Luís Alves de Fraga disse...

Percebo a relutância quanto ao "é quando". Contudo julgo que se trata só de uma deselegância linguística, pois começar por "é quando" resulta da simplificação da frase "Metáfora é quando um autor...".
Ou estarei equivocado?
Seja como for, "é quando" se tem um blog assim que se podem desenvolver teorias curiosas que servem a todos os leitores.

S. Leite disse...

Bem-vindo, L. Alves de Fraga! Talvez tenha razão e "uma metáfora é quando" seja apenas um início de frase um tanto deselegante... como já o Jaime havia sugerido. Em todo o caso, penso que "obrigarmo-nos" a definir um termo por meio de um outro que possa servir como seu sinónimo é um bom exercício mental, que aumenta a destreza vocabular.

andre dias disse...

Hoje sou professor, mas me lembro bem quando meu professor de processo civil parou um aluno no meio da frase "é quando" e disse ao aluno. "se é um conceito, é sempre, e não quando" por isso aprendi a citar conceitos iniciando a frase por "XXX é" sem o quando em seguida. Hoje insisto nessa lição com meus alunos. advogados devem saber falar.
parabéns pela crítica.