30 janeiro 2008

Perseverante e não *preserverante


Ao contrário do que muita gente pensa, não é o verbo preservar que está na origem do adjectivo perseverante. Sim, escrevi bem: perseverante e não *“preserverante”!

Perseverante é aquele que persevera. E o verbo perseverar, em latim perseverare, significa “persistir, continuar, prosseguir”.

Perdoem a brevidade do artigo, mas é necessário que eu persevere nas tarefas domésticas que neste momento me chamam!


28 janeiro 2008

Às vezes demais é de mais!

Quem escreve bem sabe que a locução adverbial de mais é o oposto de de menos e, portanto, deve ser usada em frases em que exprime quantidade excessiva, como esta:

Comer de mais é prejudicial para a saúde.

Essas pessoas não confundem a locução de mais com outro advérbio, demais, que significa o mesmo que "além disso". Demais, até existe uma variante do mesmo advérbio, que é ademais, exactamente com o mesmo sentido. E há ainda a expressão demais a mais, cujo significado é semelhante a "ainda por cima".

No entanto, tem havido uma tendência crescente para escrever a locução de mais como uma só palavra, a tal ponto, que alguns dicionários, como o Priberam (da Texto Editores), já atestam que demais significa o mesmo que demasiado, assim como algumas gramáticas, como a Saber Falar, Saber Escrever (Dom Quixote), incluem demais nos advérbios de quantidade.
Mais uma vez, conclui-se que os falantes é que vão moldando a língua de acordo com a sua vontade.

O que eu gostaria de saber é onde vai ficar aquele demais que se usa muito, em registo familiar, como adjectivo: quando exclamamos que alguém é demais! Porque nesse caso, não nos estamos apenas a referir a uma quantidade excessiva (embora essa ideia esteja, obviamente, na base do seu uso. "Tu és demais" implica "mais do que eu posso suportar, conceber, etc."). Mas esse demais não é propriamente o oposto de de menos, (alguém exclama "ela é *demenos!"?), trata-se de uma palavra que falta definir "oficialmente", embora todos saibamos que o seu sentido, na maior parte dos contextos, está próximo de "incrível, espantoso, surpreendente".
E o que também é surpreendente é que esse novo adjectivo pode igualmente ser usado com um sentido depreciativo, tal é a sua riqueza expressiva. Imaginem uma mãe a ralhar com o filho por deixar sempre o quarto desarrumado. Pode dizer, com toda a naturalidade: "Olha para esta confusão, rapaz! Safa, tu és demais!"

25 janeiro 2008

Solarengo e soalheiro

Qual destas duas palavras escolheriam para completar a frase seguinte?

Hoje está um dia _______________!

Deixem-me adivinhar...
Escolheriam solarengo, talvez porque esta palavra exibe um certo encanto, uma certa nobreza!
Pois, de facto, ela tem um cariz nobre, porque significa precisamente «relativo a solar (casa nobre)», mas nada tem a ver com sol! (por ex.: essa casa tem um aspecto solarengo.)

Surpreendidos?!
Soalheiro seria, portanto, a opção correcta. Esta palavra, sim, está relacionada com sol!

Estamos em Janeiro e hoje está um dia soalheiro!

22 janeiro 2008

Nó... Ai!... Como é que se diz?!

Há palavras em relação às quais temos dúvidas, não de ortografia, mas de pronúncia. E isto acontece mesmo quando essas palavras andam “na boca de toda a gente”, como se costuma dizer. Quem não hesitou já entre dizer “Nóbel” e “Nobél”?

Muitas vezes, essa hesitação deriva do facto de ouvirmos dizer a palavra de duas ou mais maneiras diferentes, nos meios de comunicação social... aliás: “média” ou “mídia”?

Em certos casos, como no primeiro, há tanta gente a optar por uma pronúncia como por outra, o que leva a que ambas acabem por ser legítimas, como no caso de Nobel, que tem duas pronúncias possíveis no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Quanto a média – na acepção de meios de comunicação –, que aparece à inglesa (media), sem acento, nalguns dicionários, a pronúncia em Portugal deve ser com o e aberto, e não com i, como acontece no Brasil (a palavra escreve-se mesmo com i, do lado de lá do Atlântico).

Ainda há o caso da ONU, que alguns jornalistas insistem em pronunciar como se tivesse acento agudo no o (“ónu”), mas que se deve dizer “onú”, pois trata-se de uma palavra aguda, como são todas as terminadas em u(s) que não levem acento noutra vogal.

E mais? Há outras palavras sobre as quais tenham dúvidas quanto à sua pronúncia?

18 janeiro 2008

Bem-vindo, Benvindo e bem... vindo!


Para quem ainda tem dúvidas (e por sugestão da Inês), aqui fica o esclarecimento: o adjectivo bem-vindo escreve-se com hífen, sendo uma palavra formada por justaposição. Assim, nas expressões “seja bem-vindo”, “sentiu-se bem-vinda” e “serão bem-vindos”, em que a palavra tem sempre o sentido de “bem acolhido/a/os”, é esse adjectivo, com hífen entre os dois termos que formam o composto, que está presente.
Benvindo é nome próprio, como Benvinda, na versão feminina. Portanto, é uma palavra composta por aglutinação, uma vez que não há hífen entre os termos bem e vindo.
Agora perguntam-me: e bem vindo, ou bem vinda, separado, sem hífen, não existe? Bem, vinda de vocês, essa pergunta merece toda a atenção!... Na frase atrás, vemos que as palavras aparecem seguidas, mas há uma vírgula entre elas. Em princípio, deverá haver sempre esse elemento entre as palavras independentes bem e vindo/a/s, pois as situações em que elas aparecem próximas aconselharão o uso da pontuação:

Bem, vindo dele, isso até é de estranhar... – Aqui, temos o advérbio bem em início de frase, solicitando a separação do resto por meio de vírgula.

Ela aparentava estar bem, vindo ao meu encontro a passos largos. – Aqui, temos o advérbio bem no final da primeira oração, que é separada da segunda por meio de vírgula, uma vez que esta é uma oração reduzida gerundiva.

Bem, vindo aí o fim-de-semana, o melhor é não me alongar mais!

16 janeiro 2008

Ao encontro de / de encontro a

Toda a gente sabe o que significa cada uma destas expressões isoladamente, fora de qualquer contexto. Até se sabe que são o oposto uma da outra.
Mas no momento de escolher, a eleita é quase sempre a segunda – de encontro a.
Digam-me, por favor, se o exemplo que se segue vos é, ou não, familiar:

(1) ?? “Este curso vem mesmo de encontro às minhas expectativas!”

Ora, a expressão de encontro a significa “contra”. As pessoas usam-na, dizendo precisamente o contrário daquilo que pretendem. O termo correcto é ao encontro de, que significa “na direcção de, de acordo com”.
Por conseguinte, diga-se:

(2) Este curso vem mesmo ao encontro das minhas expectativas!
(3) O jogador foi de encontro à baliza.

E a vossa opinião vem ao encontro da minha?!

14 janeiro 2008

Prole e prol


Há duas curtas palavras
Que muita gente baralha:
Em vez de usarem a certa
Escrevem aquela que calha!

É claro que são parecidas...
Porém, o seu significado
É tão distinto, que trocá-las
É engano bem enganado.

São ambas pequeninas
Mas é grande o seu valor:
Prole é a descendência,
Em prol pode ser «em favor».

Assim, a gorda galinha,
anda com a
prole atrás
E come milho todo o dia
Em
prol do apetite voraz!

O
proletário era o pobre
Que só os filhos podia contar,
No tempo em que não se falava
Em
prol do seu bem-estar.

Zelar por um futuro são
É hoje em dia urgente:
Para bem da nossa
prole,
Agir em
prol do ambiente.

Se ainda vos resta a dúvida
Para a próxima pensem assim:
Leva um filhinho (a
prole)
A que tem o
e no fim!

11 janeiro 2008

Uma questão de género


Desde aquele engraçado sketch dos Gato Fedorento que muita gente passou a saber que grama era um substantivo masculino.
No entanto, ainda há outros substantivos que deixam muitos de nós com dúvidas quanto ao respectivo género. Alguns deles, em virtude da insistência dos falantes em aplicar-lhe o género errado, até fizeram mudar os dicionários: é o caso de babete, avestruz e bebé. O primeiro, que era feminino, passou a masculino; o segundo era masculino, mas passou a feminino, e o terceiro era masculino e passou a ter dois géneros!

Quanto a poeta e a personagem, verificamos que o primeiro era exclusivamente masculino e hoje em dia também se pode aplicar às mulheres (estando, ao que parece, a flexão no feminino poetisa em vias de extinção); e que o segundo tanto pode ser feminino (pois tem o mesmo étimo que pessoa), como masculino.
Não admira que, com tantas mudanças, haja muita hesitação! Felizmente, as dúvidas são puramente linguísticas...

09 janeiro 2008

Cinco curiosidades

1. ETC. – abreviatura do latim et caetera e significa “e outros”;

2. PUB – abreviatura do inglês public house, ex.: “Depois do cinema, foram a um pub”;

3. – abreviatura de fanático;

4. MOTEL – amálgama de motor + hotel (porque se encontra à beira da estrada);

5. INFORMÁTICA – amálgama de informação + automática.

07 janeiro 2008

A hélice ou o hélice?


Hélice
tem várias acepções distintas, que acarretam a alteração do género.
No âmbito da geometria, enquanto espiral ou curva, o termo é feminino.
No âmbito da náutica e da aeronáutica, enquanto órgão propulsor, hélice é nome feminino, embora seja cada vez mais frequente, na aeronáutica, o seu uso no masculino, o que alguns dicionários mais recentes já contemplam.
No âmbito da anatomia, quando designa o rebordo do pavilhão auricular, hélice é sempre um nome masculino.

04 janeiro 2008

Pode-se falar brasileiro?


Experimentem procurar nos dicionários o significado do substantivo brasileiro. Provavelmente concluirão que se refere apenas àquele que é habitante ou natural do Brasil.

Contudo, hão-de concordar comigo: quase toda a gente já disse ou ouviu dizer a expressão "falar brasileiro" - a propósito da dobragem de um filme de animação (dantes eram todos em brasileiro, agora são falados no "nosso português"!), ou simplesmente do sotaque de alguém.
Pois, se o verbo falar se refere à expressão oral, à pronúncia, (aliás, até existe o substantivo falar, precisamente com essa acepção), é normal que as pessoas falem de acordo com as variantes geográficas com as quais se identificam: madeirense, brasileira, açoriana, alentejana, nortenha e por aí fora.
O problema é que esses gentílicos, com o significado de "relativo a, ou proveniente de", são adjectivos. Mas quando os usamos em frases como "o filme é falado em brasileiro", ou "ela fala açoriano quando está com a família" eles tornam-se nomes, assumindo o significado de sotaque, ou modo de falar característico do país ou região a que cada gentílico se refere. E, enquanto nomes, não têm essa acepção nos dicionários...
Porém, há uma honrosa excepção: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa regista assim um dos significados do substantivo brasileiro (que considera um lusitanismo, usado em registos informais): «a língua portuguesa tal como é us. no Brasil». E junta-lhe um exemplo.
Por mim, acho justo e rigoroso. Só tenho pena que o mesmo não aconteça relativamente a outros falares, ou formas de usar o português, como aqueles que enunciei atrás e muitos outros, que correspondem a variantes reconhecidas da nossa língua comum e também têm direito a uma acepção própria nos dicionários!








02 janeiro 2008

Camera ou câmara de filmar?

Se pensam que para designar a máquina de filmar, só têm à disposição a palavra inglesa camera, porque câmara refere o edifício onde os vereadores de um município se reúnem, desenganem-se!

Camera e câmara são dois termos que podem designar a mesma realidade - equipamento de filmar/fotografar. Camera é um estrangeirismo, importado do inglês, e câmara é a palavra portuguesa, que, como tantas outras, é polissémica. Quer isto dizer que, para além de aposento, arca, edifício municipal, etc., também significa "máquina de filmar ou fotografar".

Mas é correcto usar a palavra camera? A resposta é afirmativa.
Apesar de os linguistas mais conservadores preferirem o termo português, é legítimo usar o anglicismo, até porque é muito comum a utilização da palavra cameraman, em vez de “operador de câmara”.
Tudo depende da intenção do locutor, do contexto comunicativo, do destinatário da mensagem, enfim, há um conjunto de factores que influem na nossa escolha: camera ou câmara?

Em conclusão, ambos os termos são legítimos para designar o mesmo conceito. Apenas dois conselhos:
1. Não misturar a grafia das duas palavras, dando origem a uma outra que não existe: *câmera.
2. Se se optar pelo estrangeirismo, devemos assinalá-lo como tal, colocando-o entre aspas, ou em itálico, por exemplo.

nota: O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa já inclui a grafia "câmera" . Isto só vem comprovar aquilo que já todos sabemos: são os falantes quem manda na língua...