05 março 2008

...«um bocado sorumbático»


A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...

«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»

...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.

Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.

3 comentários :

Jaime disse...

São comuns exageros como "é o novo Eça de Queirós". Quantas vezes se disse "são os novos Beatles" acerca de uma banda e nunca mais se ouviu falar dela? Ou se escreveu "é o novo Jaime" sobre um blogger cujo blogue finou na semana seguinte? :-) Primeiro tem de se passar o teste do tempo. Depois logo se compara ao Eça e aos Beatles.

deprofundis disse...

Não sou crítico literário e não tenho grandes conhecimentos teóricos de literatura. Isto para não dizer que não tenho nenhuns.
Mas tenho opinião. E esta vale pelo facto de, na minha situação, estarem uns quantos milhões de portugueses.
Gostei dos dois últimos livros de MST ("Equador" e "Rio das Flores"). O que não quer dizer que tenha gostado do estilo e do Português. Contudo, gostei das histórias.

S. Leite disse...

Estou plenamente de acordo, Deprofundis: as intrigas são empolgantes e trata-se de histórias bem contadas. Foram livros que "devorei", com todo o interesse, especialmente o primeiro. Mas desiludem-me certas passagens menos elegantes, só isso.