12 março 2008

As novas modas na língua





É engraçado verificar como a língua, tal como as pessoas, está sujeita aos caprichos da moda.
Como peças de roupa que há muito guardamos no armário, temos palavras que estão em perfeitas condições e que ainda poderíamos usar por muitos anos, mas que optamos por deixar esquecidas, porque há outras novas, mais modernas, mais ao estilo do que se usa agora.
E, como queremos estar na crista da onda, dia após dia escolhemos os estrangeirismos e as traduções literais, em detrimento dos termos vernáculos, alguns dos quais até já fariam levantar os sobrolhos da gente mais “para a frentex”, como se fossem uma aberração:
dantes festejava-se ou comemorava-se, agora celebra-se (de celebrate)
dizia-se homenagem, mas agora todos dizem tributo (de tribute)
tínhamos livros e filmes preferidos, agora são favoritos (de favourite)
havia coisas mortais, agora são letais (de lethal)
o que não era permanente era provisório, agora é temporário (de temporary)
quase era praticamente, agora dizem que é virtualmente (de virtually)
faziam-se provas, agora fazem-se testes (de test)
os produtos retiravam / eliminavam nódoas, agora removem-nas (de remove)
usavam-se fardas na escola, agora usam-se uniformes (de uniforms)
as pessoas apercebiam-se de coisas, agora há quem "realize" que as coisas acontecem (de realize)
a paciência, que se jogava com cartas, passou a solitário (o solitaire), desde que apareceu no Windows
a senha transformou-se em palavra-passe (ou mesmo na própria password)
enfim, parece que já não temos amor-próprio, uma vez que também este mudou para auto-estima (de self-esteem)!...

5 comentários :

Anónimo disse...

Pois é têm razão.
Há palavras que vão ficando fora de moda. Até os nossos filhos acabam por nos dizer "Mãe essa palavra é cota".
Eu costumo, talvez por ter nascido na Beira, dizer: vós quereis, sabeis...e por aí fora. Um dia, uma amiga da Sofia foi almoçar lá a casa e eu claro que foi assim que empreguei o termo, ela ficou admiradíssima. Nem eu, nem em casa nos davamos conta de que aplicava outro tempo verbal. Agora sempre que essa amiga lá vai a casa tento dizer - querem, sabem, fazem...parece-me que é mais usual, mas qual será mais correcta?
Ângela

tikka masala disse...

Olá, Ângela! É perfeitamente legítimo conjugar os verbos na segunda pessoa do plural quando se dirige a alguém com cerimónia ou simplesmente a um conjunto de pessoas (vós). As crianças que vivem em meios urbanos é que já o estranham, porque esse emprego caiu em desuso, sendo substituído pelo "você/s", que se usa com as formas da 3ª pessoa, no singular e no plural. Se tiver curiosidade, veja o nosso artigo "você quem é?" a propósito deste assunto.

Jaime disse...

Já ouvi dizer "submeter um artigo a uma revista" (do inglês to submit)

S. Leite disse...

Boa, Jaime!! E há também o (já) clássico "realizar" (to realise), que é aperceber-se (de).

Anónimo disse...

Não vai de modas. Vai de abdicações.
-Montexto