29 setembro 2008

"Prequela"???

Um destes dias perguntaram-me se conhecia a palavra "prequela", supostamente o oposto da sequela.
Admiti a minha ignorância, fazendo uma nota mental para verificar se os dicionários que consulto já a registavam. Mas antes de ir ao dicionário, lembrei-me de abrir o Ciberdúvidas, esse valiosíssimo manancial de perguntas e respostas sobre a língua portuguesa.
Verifiquei, com agrado, que os seus consultores repudiavam a existência de tal termo em português, chamando-lhe «mamarracho» e condenando a sua importação do inglês.

Percebo que, para quem usa jargão televisivo por motivos profissionais, a palavra "prequela" seja prática, sobretudo para traduzir rapidamente esse neologismo inglês, prequel, tão em voga actualmente a propósito dos filmes cujo enredo consiste numa analepse relativamente à história contada em filmes anteriores.

Mas concordo com o Ciberdúvidas: tem de haver limites para a ignorância e a preguiça que insistem em desvirtuar a nossa língua!

25 setembro 2008

“Mortadela” ou “mortandela”?




Há dias falei-vos do meu problema existencial relacionado com a grafia e a pronúncia da palavra espargata.

Hoje, com alívio - por se tratar de um equívoco que não é meu - partilho convosco a constatação de outro erro do mesmo género: a "mortandela". Conhecem-na?

O que será que faz com que algumas pessoas tornem nasal o a que se segue ao t na palavra mortadela, que deriva do italiano mortadella e portanto nunca se escreveu com n?

Talvez seja o m inicial, como acontece com "muinto" (que eu também digo), por exemplo, em que o m contamina a pronúncia do ditongo que se lhe segue, tornando-o nasal. É até difícil pronunciar a palavra muito como deve ser, a menos que estejamos com o nariz entupido ou tapado. Mas curiosamente, "mor-tan-de-la" custa mais a dizer do que "mor-ta-de-la"... É como as "chauchichas" em vez de salsichas!

A mim, "mortandela" soa-me a mortandade, ou, pior, parece "morta anda ela", o que é mau de mais para estabelecer qualquer relação entre o enchido e esse nome adulterado. O que me vale é que, como nem sequer gosto de mortadela, não perco muito tempo a pensar nisso!


24 setembro 2008

SOS na Livraria Almedina

Encontros PEDAGOGIA / EDUCAÇÃO
Organização: Luísa Araújo e Almedina


26 de Setembro, às 19:00 horas

Com Sandra Duarte e Sara Leite

Instituto Superior de Educação e Ciências


Como se pronuncia a palavra “intoxicação”? Escreve-se “concerteza” ou “com certeza”? Qual a diferença entre “descriminar” e “discriminar”? Afinal, “ter matado” existe?

O guia SOS Língua Portuguesa pretende ser uma resposta a pedidos de “socorro linguístico”, fornecendo esclarecimentos imediatos sobre a forma como se deve falar e escrever em português: seja em termos de pronúncia, ortografia, vocabulário, flexão de palavras ou construção de frases. Nesta sessão, as autoras propõem-se abordar alguns dos aspectos mais críticos no uso da língua portuguesa: aqueles que suscitam dúvidas e erros frequentes. Trata-se de um conjunto de esclarecimentos que interessam a todos os que têm vontade de falar e escrever melhor, e sobretudo aos que são comunicadores por profissão.


Livraria Almedina: Atrium Saldanha, loja 71, 2º piso, Lisboa.

23 setembro 2008

Cuidado com a Língua: 2 em 1



Para quem gosta de ver o programa da RTP e também para quem gostaria de poder ter visto a primeira série e não pôde, eis uma boa notícia: foi lançado no mercado o livro com o mesmo título, que inclui um DVD com os primeiros treze episódios.

O lançamento, que contou com a inspirada - e inspiradora - participação do Professor Carlos Reis, foi um evento memorável. "A descoberta de um mundo de palavras que nos faz apaixonar pela língua portuguesa" através da leitura desta obra é a actividade que aqui sugerimos desde já.

22 setembro 2008

Apóstrofos e tecidos



Há muito tempo que os Portugueses revelam uma certa aversão, ou medo, ou ambos, de colocar os estrangeirismos no plural.
Quer se trate de collants, de boxers, de placards ou de bibellots, três em cada cinco portugueses optam por deixar o "s" do plural à margem do resto da palavra, destacando-o com um estiloso apóstrofo: "collant's", "boxer's", "placard's" e "bibellot's". Que é como quem diz: "eu sei muito bem que esta palavra é estrangeira e por isso não pode ficar como as nossas quando está no plural".
O uso de siglas e acrónimos confirma que o apóstrofo veio para ficar na nossa língua: agora proliferam os CD's, os DVD's, mas também os ATL's e os BI's. E o apóstrofo ri-se de todos os puristas que pretendem erradicá-lo do uso comum.
Quanto ao "tirilene", trata-se de um dos mistérios da língua portuguesa. Eu já vi "terilene" e "tirilene" muitas vezes, mas infelizmente nem os dicionários, nem a Mordebe, nem o Ciberdúvidas, nem o Corpus do Português me esclarecem sobre a existência e o significado dessa palavra em português...
No entanto, e em abono dos lojistas que lidam com tecidos e se vêem obrigados a escrever os nomes dos seus diferentes tipos, devo dizer que me compadeço com eles, pela sua ingrata tarefa. Devem morder os lábios, olhar para o tecto, roer a caneta e quem sabe até verter umas gotas de suor em sinal da sua perturbação, cada vez que precisam de colocar na montra um aviso de promoção das calças de "tirilene" ou dos veludos "cotelês"...

17 setembro 2008

Da "esparregata" à espargata


Durante toda a minha infância e adolescência (se a memória não me falha...), sempre ouvi chamar “esparregata” à fantástica manifestação de flexibilidade que consiste em esticar as pernas em direcções opostas até se ficar sentado no chão, literalmente, com uma perna à frente e outra atrás – uma proeza que muito poucas meninas (nunca eu) conseguiam realizar no ginásio da escola.
Foi, pois, com enorme espanto e mesmo indignação que descobri, recentemente e por acaso, que afinal me tinham andado a impingir impunemente um erro fonético-ortográfico durante anos a fio. Por sorte, consegui encontrar algumas almas amigas que me fizeram sentir mais acompanhada, ao confessarem partilhar a minha ignorância.
Mais surpreendida fiquei ao constatar que o termo, de origem italiana, não está atestado na maior parte dos dicionários de língua portuguesa, com excepção do Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
Assim sendo, talvez eu ainda consiga fundar o clube-dos-otários-que-andaram-metade-da-vida-a-dizer-esparregata e reunir assinaturas para uma petição a favor da mudança da adaptação do estrangeirismo (será spargatta?) para esparregata, em nome da sanidade mental de um número incontável de portugueses.

15 setembro 2008

Avalanche ou avalancha?



...Que é como quem pergunta: omelete ou omeleta, camionete ou camioneta, equipe ou equipa, controle ou controlo?


São inúmeros os estrangeirismos de origem francesa na nossa língua – ou seja, os galicismos – e é frequente termos dúvidas sobre a terminação de palavras como estas.

Na maior parte dos casos, ainda é possível escrevê-las de ambas as formas – a original (terminada em e) e a aportuguesada (terminada em a ou o).

No entanto, e dado que o seu aportuguesamento é simples e eficaz, recomenda-se o abandono das formas terminadas em e. Assim, prefiram-se as omeletas, as camionetas, as equipas e o controlo.


... Porém, nas opções que dizem respeito à língua – como em todas as outras – nem sempre a razão fala mais alto do que a emoção. Eu cá, nem sei porquê, digo equipa e camioneta, mas gosto mais de omelete e de avalanche. Quanto ao controle/o, desde que não seja “control”, tanto me faz!

12 setembro 2008

Chocolatoterapia ou chocoterapia?


No Google encontramos 18 ocorrências (páginas de Portugal) de chocolatoterapia, contra 1700 de chocoterapia.

Agora eu pergunto: o que é mais correcto: chocoterapia ou chocolatoterapia?

Pensem, pesquisem e participem!

09 setembro 2008

interpelar e interpolar

Eis duas palavras muito usuais, que, dada a sua semelhança gráfica, podem suscitar dúvidas a qualquer um de nós.
Interpelar significa «dirigir a palavra a alguém (por vezes, de uma forma brusca, inesperada) para lhe perguntar alguma coisa, interrogar.» Por exemplo: o turista interpelou o polícia para saber onde ficava o museu.
Interpolar, por sua vez, significa «meter uma coisa no meio de outra; intercalar», por exemplo: para que o trabalho ficasse mais bonito, decidimos interpolar umas imagens coloridas.

O erro que se verifica muitas vezes é o uso do verbo interpolar em vez de interpelar. Lêem-se com frequência na imprensa frases como «o jornalista interpolou o Primeiro-Ministro sobre...», quando o correcto seria «o jornalista interpelou o Primeiro-Ministro sobre...».

Cuidado com as aparências!

05 setembro 2008

Vírgulas II

Entre orações, a vírgula deve usar-se para:

a) separar orações coordenadas assindéticas (sem conjunções a ligá-las)

E pelos vistos foi essa tal de Glória que o provocou, disso não tenho dúvidas.“ (BG)

b) separar orações coordenadas sindéticas (com conjunções a ligá-las), excepto as introduzidas por e

Você falou em matar o homem, mas aí é que tudo se complica, porque não se trata de um homem qualquer.” (BG)

c) isolar uma oração intercalada (inseridas entre os elementos de outra oração)

“Não sou perito em arte e antiguidades, mas aquela peça, caso fosse verdadeira, era de certeza dos finais do Século XVIII e valeria uma pequena fortuna.” (BG)

d) separar orações subordinadas, com excepção das integrantes*

Mal entrei em casa, o telefone tocou.” (BG)

e) isolar as orações relativas explicativas (as que fornecem informação suplementar, que pode ser omitida da frase)

O seu último artigo, cujo título é “Forças Armadas — Do haver ao Existir, parece-me muito interessante.

f) para separar as orações reduzidas:

- gerundivas

“Pôs fim aos privilégios das farmácias, abrindo o negócio à concorrência.” (PE)

- infinitivas

“As perdizes chegaram, a fumegar.” (CPM, p.92)

- participiais

Agarrado às suas câmaras e ao seu vetusto ampliador, fazia maravilhas.” (E)


* É o caso de que e se, quando estas conjunções introduzem o sujeito ou complemento de verbo. por exemplo nas frases Ele perguntou-nos se iríamos votar, Que votar é um dever já eu sei e Nós respondemos-lhe que sim. Nestes casos, não é correcto usar vírgula para separar as orações.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

E – “Encontro” (conto não publicado)

PE – “Presente envenenado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)


03 setembro 2008

Passo a outro e não ao mesmo!



Desde as mais delirantes (“passa-se”) às mais poéticas (“procuro novo dono”), passando pelas mais elípticas (“trata”) e pelas mais prosaicas (“vendo”), existem mil e uma maneiras de anunciar publicamente, em português, a nossa intenção de negociar um bem móvel ou imóvel.

É só usar a imaginação!


01 setembro 2008

Vírgulas I


Durante as férias, um dos nossos leitores pediu-nos que abordássemos as regras para o emprego da vírgula. Esperamos que este texto seja suficientemente esclarecedor. Se não for, já sabem o que fazer...!


As vírgulas, ao contrário do que muita gente pensa, não servem simplesmente para marcar na escrita as pausas curtas do discurso oral. Se assim fosse, seria correcto colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma frase, o que quase toda a gente sabe que não se deve fazer!

Ora, o uso da vírgula deve ser criterioso, tanto no interior das orações como na ligação entre estas, nas frases complexas.


No interior de orações, a vírgula serve para:

a) separar elementos que têm a mesma função sintáctica (elementos de uma enumeração)

“Os edifícios do quartel, casernas, refeitório, cantina, campos de jogos e outras dependências (...) foram sendo construídos a pouco e pouco (...).” (CPM, p.10)

b) isolar o aposto explicativo (grupo nominal ou adjectival que fornece informação adicional sobre um nome)

”Arthur foi sempre um sahib, filho de sahib, acima de qualquer casta indiana.” (CPM, p.37)

c) isolar o vocativo (palavra ou expressão que usamos para interpelar alguém)

“Cometemos um pequeno erro, rapaz.” (BG)

d) separar palavras repetidas, por uma questão de ênfase

“A mulher falava, falava, falava...” (CPM, p.25)

e) separar o adjunto adverbial, sobretudo quando antecipado

Como de costume, em casa do pequeno Carlos o almoço decorria em silêncio.” (D)

f) separar o nome do local dos elementos de uma data

Cascais, 2 de Outubro de 1974.” (CPM, p.183)

g) indicar a supressão do verbo, no meio de uma oração

Galinha, só em datas festivas.” (D)

h) isolar uma expressão explicativa

Os macacos são omnívoros, isto é, alimentam-se de vegetais e animais.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

D – “O Desgraçado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)