09 julho 2007

“Hão” coisas que não percebo...!

O verbo haver, quando é verbo principal numa oração, com o significado de existir, ou acontecer, apenas se conjuga na 3ª pessoa do singular, por ser impessoal. Assim, dizemos “ coisas” e não “hão coisas”, “houve situações” e não “houveram situações”, “haverá riscos” e não “haverão riscos”, etc. Penso que poucos leitores deste blogue ficaram admirados com o que acabaram de ler.

Contudo, muita gente esquece que a regra de não flexionar o verbo haver de acordo com um pretenso sujeito (que afinal não é sujeito nenhum) também se aplica aos seus auxiliares, como ter, costumar, continuar, ir, poder, etc. Assim, acontece frequentemente ouvir-se “vão haver concertos” em vez de “vai haver concertos”, “continuam a haver vagas” em vez de “continua a haver vagas”, “têm havido reclamações” em vez de “tem havido reclamações”.

Portanto, o verbo haver é sempre impessoal se for verbo principal, o que se manifesta inclusivamente na flexão dos seus auxiliares. Só devemos conjugar o verbo haver em todas as pessoas quando é auxiliar: seja com o sentido de ter (ex.: “eles haviam feito”), seja como expressão de intenção (ex.: “eles hão de fazer”).

15 comentários :

Anónimo disse...

Finalmente alguém fala deste verbo tão controverso! Não digo "controverso", mas alvo de grandes calinadas por muito boa gente! "Haviam 3 pessoas ali" e coisas do género!

bons posts

antónio

Airton Soares disse...

"Agora a coisa vai". Agora aprendo gramática.

Parabéns. Convincente e didático

AS

S. Leite disse...

Obrigada, Airton. Infelizmente, por sermos portuguesas e ser a variante europeia da língua o nosso objecto de estudo, não poderemos ajudá-lo muito no que toca ao português do Brasil. É inegável que há muitas diferenças, tanto a nível ortográfico e lexical como sintáctico e até morfológico, para não falar do fonético.

Thiago disse...

Muito bom.

Anónimo disse...

"Última Flor do Lácio, inculta e bela", já Olavo Bilac, a Língua Portuguesa (que já deveria ser brasileira há um bom tempo), como forma de comunicação, e cujo propósito primordial é a comunicação oral e escrita, deixa a desejar em relação a outras pelo mundo todo. O inglês - por exemplo - que criticamos quando usado em seu lugar ou seus termos foi condenado pelo Vaticano do Latim ao ser popularizada por Shakespeare. Nos EUA há uma língua dinâmica que incorpora facilmente neologismos e gírias e "faz" comunicação de acordo com o contexto. A nossa tem dezenas de palavras para um significado, exige regras rijas, muitas vezes ultrapassadas (o que levou ao menor e medíocre acordo Lusófono).
* José Antonio G. da Conceição

Fabio Campos disse...

Perfeito! Era este complemento (no meu caso) que eu precisa para aprender 100% sobre o assunto. Obrigado!

Fabio Campos disse...

Perfeito! Era este complemento (no meu caso) que eu precisa para aprender 100% sobre o assunto. Obrigado!

irisss2 disse...

Nos últimos tempos curiosamente só oiço pessoas a dizerem Vão haver coisas.. e etc e eu fico na dúvida se sou eu que não sei falar português ou não.. Fico contente em saber que o que me soa mal é na realidade o que é errado... Obg pela confirmação !!

Lourenço disse...

portanto..., quantos pães hão nas cestas?!.., não pode ser?!

Guilherme henrique de oliveira disse...

Há de durar é errado? Na resposta a qui sim,Porém não encontrei o erro.

S. Leite disse...

Há de durar está correto. Por exemplo na frase "A sua teimosia há de durar."

Cecília disse...

Se eu falo "hão muitos analfabetos funcionais aqui" eu estou errada?

S. Leite disse...

Sim, Cecília. O correto é "Há muitos analfabetos aqui."

Lucas Medeiros disse...

Bastante esclarecedor!

Rodrigo Barsotti disse...

Sucinto e esclarecedor, parabéns!