31 julho 2014

(Des)acordo ortográfico: pôr do sol ou pôr-do-sol?


Não me perguntem porquê, digo eu aos alunos, quando ficam perplexos com as regras e as excepções relacionadas com o emprego do hífen nos compostos, sobretudo após o Acordo Ortográfico.
O vocábulo pôr-do-sol suscitou hoje a minha dúvida. No Priberam aparece com hífenes e somos avisados de que no Brasil a grafia é sem. Na Infopédia, informam-nos de que "a nova grafia é pôr do sol" e a forma com hífenes só consta do Dicionário de Língua Portuguesa sem Acordo Ortográfico.
Como fico em dúvida, vou ao Portal da Língua Portuguesa, onde está disponível o texto do AO. Mas ao consultar a Base XV, a redacção do ponto 6 deixa-me desconcertada:

«Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções:

a) Substantivas: cão de guarda, fim de semana, sala de jantar;
b) Adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite, cor de vinho;
c) Pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos, quem quer que seja;
d) Adverbiais: à parte (note-se o substantivo aparte), à vontade, de mais (locução que se contrapõe a de menos; note-sedemais, advérbio, conjunção, etc.), depois de amanhã, em cima, por isso;
e) Prepositivas: abaixo de, acerca de, acima de, a fim de, a par de, à parte de, apesar de, aquando de, debaixo de, enquanto a, por baixo de, por cima de, quanto a;
f) Conjuncionais: a fim de que, ao passo que, contanto que, logo que, por conseguinte, visto que.»

O problema, como se vê, é o facto de a explicação não ser exaustiva. Ao apresentar-nos apenas alguns exemplos, tanto da regra como da excepção (através das expressões que destaquei a negrito), não permite que os falantes possam inferir o que acontece nos casos não contemplados (como pôr do sol/pôr-do-sol).
Porém, o Portal da Língua Portuguesa tem mais um recurso que pode ser útil: a lista de todas as palavras que mudam com o AO.
se apresenta, então, pôr-do-sol como "Ortografia Antiga", para Portugal, e pôr do sol como "Ortografia Nova".
A dúvida foi-se, mas a perplexidade ficou. Porque não percebo qual o critério para determinar quais são os compostos que mantêm o hífen por serem formas "consagradas pelo uso". Será a data da primeira atestação? Se for, é estranho, porque essa data não é segura nem é conhecida para todas as palavras. Alguém sabe?


17 comentários :

Joana de Matos disse...

Não :(

zedeportugal disse...

"não percebo qual o critério para determinar quais são os compostos que mantêm o hífen"

Mas que mania esta de querer perceber tudo, a desta gente que pensa! É como eles dizem ou, então, tanto-faz.
Uma liçãozinha de marxismo cultural para quem, talvez, ainda não soubesse como funciona.

Luis Manuel Dias disse...

Ohoto SphereSe é uma questão de conformidade com o uso... esbarra já aí. Eu próprio, tive oportunidade de ver, num restaurante, a titular o seu nome, Pôr do Sol... Contudo eu mesmo escrevi, e escrevo pôr-do-sol (com os tais 'hífenes'... como dizem para aí!). Apetece-me, todavia, acrescentar o que ouvia a meu velho professor de Português... sabedor, como poucos... O que conta, além do estabelecido gramatical e linguisticamente, é o '''ouvido'''... Mas, aqui, há outro problema! Soa sempre do mesmo modo - escreva-se como se escrever!!! Logo, a cada qual. o seu alvitre, me parece o mais justo... E esqueçam diferenças, sem importância !!!

Delcimara Batista Caldas disse...

A mudança ocorreu apenas porque NASCER DO SOL não era separado por hífen, portanto PÔR DO SOL também não o deve ser. É mais prático pensar assim e não errar. Beijos.
Delcimara

Anónimo disse...

Atenção!
Na frase do enunciado "Não me perguntem porquê..." há uma incorreção quanto ao uso do "porquê"! O correto seria "por quê", separado e com acento, com a ideia de por que (motivo), recebendo aqui o acento em razão da vírgula... "Porquê", junto e com o acento necessita de um
artigo ou de um pronome, uma vez que estaria sustantivado. Então: "Não me perguntem o porquê..." Essa é a regra usada no Brasil.

S. Leite disse...

Essa não é, porém, a regra usada em Portugal!

Francisco Santos disse...

O uso do hífen é, de facto, difícil de perceber em muitos casos. A regra por "consagração pelo uso" pode revelar-se arbitrária. Pelo meu uso, escrevo pôr-do-sol como sinónimo de ocaso. Provavelmente o melhor seria deixar as duas opções como válidas.
Mas se quisermos ser mais rigorosos podemos usar as duas formas com sentidos ligeiramente distintos. Por exemplo: "hoje o pôr do sol permitiu-nos ver um belo pôr-do-sol". Neste exemplo "pôr do sol" seria o movimento (aparente) do sol no caso específico do dia de hoje; "pôr-do-sol" seria, naquela frase, um acontecimento genérico.
Provavelmente estou a inventar demais. :)

júlio Marcos Oliveira dos Santos disse...

Amigos, à princípio, acredito que na questão do emprego do hífen, deveria não existir em hipótese alguma. Já no que se refere aos porquês, resume -se assim:
- porque = explicação;
- por que = causa, motivo ou pergunta no começo de frase;
- porquê = depois de artigo;
- por quê =pergunta no final de frase.

Eduardo Roque Filho disse...

Por gentileza, se o plural de "pôr do sol" é pores do sol, como é o plural de "nascer do sol". Grato. edrofil@gmail.com

tikka masala disse...

Caro Eduardo, tanto quanto sei e pude apurar, "nascer do sol" não é um termo composto (como pôr do sol). Em todo o caso, "nascer" está atestado como nome, pelo que o seu plural será (os) nasceres - do Sol, neste caso. Cumprimentos.

Augusto Granja disse...

Eu sempre usava por-do-sol. Agora já não sei mais. Confundiram tudo. Se há exceções consagradas pelo uso, por que não "por-do-sol"?

Complicaram muito. Vou escrever sem hífen, atendendo à regra nova, embora não concorde, pois, no meu entendimento, "por-do-sol" é uma expressão consagrada.

Se alguém tem uma visão melhor, peço a gentileza de informar.
Augusto Granja.

Patrícia Pinna disse...

Exatamente, muito bem colocado.
Beijos na alma e noite de paz.

Pedro Lopes disse...

O professor Marcelo pôs o desacordo no baú.
Felizmente.

S. Leite disse...

Não creio...

Unknown disse...

a regra ficou ambígua, pois nenhuma deve ter hífen, mas as consagradas sim. RS qual não seria? a locução pôr-do-sol é mais do que consagrada para mim. entendi a explicação da Delcinda, mas tá difícil de usar. pela regra, vale tudo.

S. Leite disse...

A questão é que não vale tudo! E a regra é ambígua, sim... por culpa dos autores do A.O.!

Aspásia disse...

Apetece-me brincar com estas minúcias que a idiotice do novo acordo proporciona, fazendo-nos perder tempo precioso para, por exemplo, olharmos a eterna beleza do pôr-do-sol. Lembram-se? O Petit Prince confessa: "Un jour, j'ai vu le soleil se coucher quarante-trois fois!" E era com a "douceur des couchers de soleil" que ele curava a sua "petite vie mélancolique". Lembremo-nos também que Virgílio Ferreira declarou que nunca escreveria com as regras (?) do novo acordo e Vasco Graça Moura idem. E tantos outros. Isto era fácil, mas não se fez: os professores em bloco negavam-se a ensinar estes desconchavos.