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13 abril 2026

Cidra ou sidra?

É curioso como esta palavrinha aparece tantas vezes escrita com c, quando a forma correta - para designar a bebida - é com s.

A sidra é uma bebida alcoólica que resulta da fermentação de maçãs. Este vocábulo provém do latim e significa "bebida inebriante".

Neste "vox-pop", quase toda a gente acha que a bebida se chama cidra, mas a verdade é que essa palavra designa o fruto da cidreira (citrus medica), que é semelhante ao limão e que não serve para fazer sidra.

Portanto, não se deixem enganar - sobretudo, se  forem editores ou revisores de texto. 😉

23 agosto 2025

"Xi-coração" ou chi-coração?

 Não são raras as vezes em que recebo mensagens escritas com um afetuoso "Xi", o que me deixa confortada e feliz, mas também um pouco atrapalhada... 

Não, não é por não gostar de receber abraços, é porque esta palavra se deve escrever com <ch> e não com <x>!

É verdade, acreditem: o popular "xi" não está bem escrito, a forma certa é chi, por mais estranho que vos pareça. E o termo completo, naturalmente, também não é "xi-coração", mas chi-coração. O primeiro elemento deste composto é de origem onomatopeica, referindo-se ao som que (supostamente!) as pessoas emitem quando se envolvem numa destas manifestações de ternura.

Podem confirmar aqui ou aqui, por exemplo. 

Aproveito para deixar um caloroso chi-💛 a quem segue este blogue! 😊


24 julho 2024

Para-quedas e parapente

Afinal, escreve-se para-quedas, pára-quedas ou paraquedas?

A forma corre(c) era pára-quedas (antes do A.O. de 1990), com acento e com hífen, por se tratar de um composto cuja primeira palavra é uma forma verbal, no presente do indicativo, 3.ª pessoa do plural (do verbo parar), tal como para-brisas e para-raios e para-vento.
O texto do Acordo Ortográfico de 1990, contudo, estabelece o seguinte, na Base XV, n.º 3: «Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.». Portanto, e ainda que sob o ponto de vista morfológico e etimológico, "para-quedas" (tal como guarda-chuva ou para-brisas) apresente uma estrutura composta que inclui um verbo no presente do indicativo, a orientação oficial mais recente obriga-nos a usar a grafia proposta no próprio documento: paraquedas
Ainda assim, podem persistir dúvidas, porque o Portal da Língua Portuguesa disponibiliza uma lista de palavras que mudaram como o A.O. na qual esta palavra supostamente mantém o hífen, perdendo apenas o acento agudo. 
Nesta base de dados, a forma para-quedas é apresentada no vocabulário ortográfico da língua portuguesa como uma "variante" igualmente legítima de paraquedas.
Fica-se, assim, com um argumento para legitimar a grafia para-quedas, mesmo após o A.O.

parapente não deixa dúvidas de que se escreve sem hífen, pois nunca houve outra grafia para esta palavra em português. Porquê? Porque o suposto "primeiro elemento" não é a forma verbal do verbo parar, uma vez que o termo é um empréstimo do francês, parapente (favor pronunciar "parrapante" 😊).


14 maio 2023

A grafia de lilás e lilases


O nome lilás vem do árabe lilak, que significa «azulado». Chegou até nós por via da língua francesa, através da palavra lilas. Em português, escreve-se com s, portanto. 

O plural é lilases, sem acento agudo, pois deixa de ser necessário marcar a vogal tónica, como acontece no singular. Isto porque se acentuam graficamente, em português, as palavras agudas (com tónica na última sílaba) terminadas em -a(s), mas não as palavras graves (com tónica na penúltima sílaba) terminadas em -e(s). Estas regras ortográficas aplicam-se igualmente ao adjetivo que designa algo de cor arroxeada, entre o rosa e o violeta.

Assim, escreva-se, sempre:

singular - lilás

plural - lilases



05 maio 2023

Dia Mundial da Língua Portuguesa

 


Para assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, apresento-vos os livros que já escrevi sobre o nosso idioma. Foram publicados em Portugal pela Editorial Verbo, pela Editora Planeta e pela Presença / Manuscrito.

18 abril 2023

Proposital ou propositado? E o verbo "reticenciar" existe?

Já vos aconteceu isto?

Por vezes, ouço usar (ou leio) certas palavras e sou levada a desconfiar da sua existência nos dicionários. Parece-me que a pessoa que a empregou tomou a liberdade de a inventar, por ser a primeira vez que deparo com esse vocábulo. Creio que a estranheza que me provoca advém do facto, contraditório, de essa palavra estar bem formada e, ao mesmo tempo, ter um aspeto ou uma sonoridade algo bizarra. Hoje aconteceu-me isso, ao deparar com o termo "proposital" no trabalho de uma aluna. Estive quase para o corrigir, propondo antes propositado. Porém, como essa aluna é brasileira, decidi verificar primeiro se aquele (para mim insólito) adjetivo, formado como "intencional", estaria dicionarizado. Já aprendi que o português do Brasil é suficientemente diferente do português europeu para ser sempre recomendável fazer essa verificação. E proposital é, realmente, um adjetivo legítimo no português brasileiro. Aquele teria sido o único senão num texto que, de resto, estava perfeito. Afinal, não tinha nem esse senão. Nota 20 para o trabalho!

Prossegui com as minhas tarefas e, daí a pouco, estava a ouvir a gravação de uma entrevista que tinha feito a um contador de histórias. A dado momento, ele referiu-se à forma particular de narrar de outro contador, explicando que ele "reticenciava" as frases. Surgiu-me, portanto, a dúvida: ao transcrever aquela intervenção, eu deveria usar aspas, por se tratar de um neologismo, ou grafar a palavra normalmente? Abri novamente a página da Infopédia e confirmei: o verbo "reticenciar" também está dicionarizado!

Gosto que isto me aconteça. É uma surpresa agradável, que me permite ampliar o conhecimento lexical, sendo também um alerta para a importância de dar aos outros, sejam quem forem, o benefício da dúvida.





11 abril 2022

"Ó" não é o mesmo que "oh"!

Já aqui falámos sobre a diferença entre "oh" e "ó", num breve esclarecimento publicado em 2007. 

Porém, hoje não resistimos a fazer outra chamada de atenção relativamente à grafia diferente destas duas interjeições, porque acabamos de verificar, com surpresa, que nas várias edições da obra A Maior Flor do Mundo, de José Saramago, a palavra oh está erradamente grafada, na seguinte passagem:


«Ó que feliz ia o menino!»

(Saramago, 2016, p. 17)

Não existirão dúvidas quanto ao facto de que, aqui, a exclamação expressa alegria, admiração, encantamento, emoção positiva. Portanto, a palavrinha em causa deveria estar escrita com h e sem acento agudo: oh. Só faria sentido empregar ó se houvesse um chamamento, uma invocação. Ora, o narrador está apenas a expressar o que sente, não está a dirigir-se a ninguém. Assim, a grafia correta é:


Oh, que feliz ia o menino!

ou 

Oh! Que feliz ia o menino!

Note-se que, após proferirmos a interjeição oh, fazemos naturalmente uma pausa, pelo que se recomenda o uso de pontuação logo a seguir: vírgula, ponto de exclamação ou mesmo reticências. Neste último caso, a exclamação terá um tom mais arrastado, por expressar um sentimento de melancolia, desilusão ou tristeza. Isso não se aplica neste contexto, mas as reticências poderiam, por exemplo, ser usadas aqui:

Oh… Já não fui a tempo!

Voltando à frase de A Maior Flor do Mundo… Terá sido erro do autor ou dos revisores e editores?

Não sabemos. Nem importa. Seja como for, todos temos direito ao equívoco, ao engano, ao erro – pessoas comuns e conhecidas, escritores pequenos e grandes, autores anónimos ou consagrados. O que importa é estarmos dispostos a identificá-lo e a corrigi-lo.

 

Referência: José Saramago, A Maior Flor do Mundo. Porto: Porto Editora, 2016. [O texto foi publicado pela primeira vez em 2001, pela editorial Caminho]

Imagem retirada da página WOOK, onde o livro pode ser encomendado: https://www.wook.pt/livro/a-maior-flor-do-mundo-jose-saramago/16467570

 



30 março 2022

Perseverança e não "preserverança"

O norte-americano Samuel Adams (representado na estátua de bronze que se vê na fotografia, da autoria da escultora Anne Whitney) ficou para a história, em virtude da sua perseverança patriótica e revolucionária contra as imposições da coroa britânica, em 1770.

Perseverança, sublinhemos, pois muita gente comete o erro de dizer e escrever "preserverança".

Todavia, não censuremos quem se engana! É um fenómeno natural e recorrente no uso da língua pronunciar certas palavras menos familiares (e depois grafá-las) com base numa relação analógica com outras, mais conhecidas.

Assim se explicará, talvez, que o esparguete tenha assumido aquele <r> no fim da segunda sílaba: os falantes terão pensado que o termo tem afinidade com o vocábulo espargo... Afinal,  este tipo de massa tem uma forma semelhante (cilíndrica, comprida e fina) e a terminação "-ete" faz lembrar um sufixo de grau diminutivo. Assim, do spaghetti tornado espaguete (como ainda se diz e escreve no Brasil), passámos ao esparguete, variante inicialmente condenada como uma corruptela, mas hoje perfeitamente aceite em Portugal. É que o erro ou desvio linguístico, muitas vezes, acaba consagrado pelo uso.

No caso de "perseverança", porém, isso ainda não aconteceu. Essa grafia ainda não foi legitimada pelos dicionários. O nome perseverança vem do latim perseverantĭa- e não está relacionado com o verbo preservar (essa associação é, provavelmente, a causa do erro), mas antes com o verbo perseverar, que é persistir, manter-se firme.

Não sejamos, pois, perseverantes no erro! Pelo menos, enquanto este não se legitima...




15 novembro 2020

Ele foi júri ou foi jurado?

 "Gostaria muito que fosses júri da minha prova"... "Já fui júri num concurso"...

Este tipo de frase ouve-se com alguma frequência e todos percebemos a ideia: que as pessoas em causa fazem parte de um júri.

No entanto, a palavra júri designa um conjunto de pessoas que julgam uma causa (num tribunal), ou que avaliam o mérito de um desempenho, trabalho, obra, etc. (num concurso ou numa prova de avaliação). Logo, uma dessas pessoas não constitui o júri, apenas faz parte desse júri.

 Portanto, quando nos referirmos a alguém que faz parte de um júri, devemos dizer que é um jurado (que significa "membro de um júri")Em alternativa, naturalmente, podemos dizer que essa pessoa integra o júri, ou faz parte do júri, mas nunca devemos dizer que alguém é, foi ou será "júri".

31 janeiro 2019

Fluida ou fluída? Fluido ou fluído?



Preparava-me para publicar um pequeno texto no Facebook quando o corretor ortográfico sublinhou a vermelho uma das palavras: era o adjetivo feminino fluida. Cliquei no botão do lado direito do rato e apareceu a sugestão: fluída. 
Estranhei. O adjetivo fluido (bem como a sua forma feminina fluida) escreve-se sem acento gráfico, porque se pronuncia com ditongo na sílaba tónica: [uj] (como na palavra descuido). Trata-se de uma palavra com duas sílabas: flui-do.

É certo que muitas pessoas dizem "fluído" e "fluída", em vez de fluido e fluida, por exemplo em frases como "o discurso deve ser fluído", ou "a leitura deve ser fluída", mas isso não é correto. Será que o corretor automático também está errado? Na verdade, este assunto tem um pouco mais que se lhe diga...

Vejamos: dizer e escrever fluído em vez de fluido é um erro sempre que se esteja a empregar a palavra como adjetivo ou nome. Só nos casos em que se trata do particípio passado do verbo fluir é que se pode escrever a palavra com acento. Então, sim, pronuncia-se sem ditongo, pois a sílaba tónica é constituída apenas pela vogal [i] (como na palavra roído). Esta tem três sílabas: flu-í-do.

Sistematizando, vejamos quando usar uma e outra forma:

a) fluido/a (sem acento agudo) - quando é um adjetivo ou um nome (masculino). Exemplos:

              Um discurso fluido torna-se mais agradável e cativante.
              Para que a leitura seja fluida, o texto tem de estar bem organizado.
              No próximo semestre terei a cadeira de Mecânica dos Fluidos.

b) fluído (com acento agudo) - quando é o particípio passado do verbo fluir. Exemplo:

              O facto de o rio ter fluído por aí, em tempos, faz com que a vegetação nessa zona seja mais verdejante do que nos terrenos à volta.

Concluindo: faltavam, no dicionário do corretor automático, as palavras fluído(s)fluída(s), que lhe acrescentei. Em todo o caso, será sempre preciso ter atenção, no uso destas formas derivadas do verbo fluir: o segredo está no contexto.

02 dezembro 2018

Filhós e filhoses - a norma e o uso... outra vez!


O José Pedro Vasconcelos tinha tido recentemente uma discussão com a Tânia Ribas de Oliveira sobre a palavra filhós: seria esta o plural (de filhó) ou o singular (sendo filhoses o plural)?

Quando me entrevistaram no programa Agora Nós, no dia 29 de N/novembro de 2018, ele aproveitou para me perguntar qual era a forma correta. Ora, eu dei a resposta que me pareceu desejada: disse que filhó era o singular e filhós o plural.
Porém, o José Pedro tinha feito umas pesquisas na Internet e descobriu que já na década de 1960 Rebelo Gonçalves reconhecia que filhoses era um plural tão usado, inclusivamente por certos escritores que reproduziam nas suas obras o discurso popular, que se podia considerar como variante. Assim, a palavra tem hoje duas formas possíveis:

singular: filhó /  plural: filhós
singular:  filhós / plural: filhoses

Isto é perfeitamente aceitável e é o que acontece numa língua viva, usada (e abusada também!) diariamente por milhões de pessoas. Como eu tinha referido, no início da minha intervenção, a língua é democrática - é o conjunto de falantes que acaba por decidir para onde vai e como vai (e isto é um facto e não uma opinião...).

No entanto, quando as pessoas me perguntam "qual é a forma corre(c)ta?", parto do princípio de que querem saber qual é a mais rigorosa, a mais antiga, a mais legítima do ponto de vista etimológico, histórico, gramatical, etc. E essa, neste caso, é filhó. Vem do latim foliōla, ou foliōlu-, diminutivo de "folha", que significava "bolo folhado". A forma filhoses (que deu origem ao singular filhós) é popular e consagrou-se pela generalização do uso equivocado (tal como esparguete, bêbado, púdico, febra e tantas outras). Aliás, como observou Carolina Michaelis, este vocábulo foi masculino e dizia-se, em tempos antigos, «não vai por aí a gata aos filhós»(1).

Em todo o caso, o que sucede é que, quando eu começo por dar como resposta à tal pergunta que "ambas as formas são possíveis", as pessoas costumam ficar descontentes e desconfiadas. "Não pode ser!", dizem. "Tem de haver uma forma mais corre(c)ta do que a outra!" Por outras palavras, tenho a sensação de que, se eu tivesse dado essa resposta, o José Pedro teria contraposto às minhas palavras a evidência de que, afinal de contas, filhó é a forma do singular mais legítima, e o plural filhós é o mais corre(c)to!



(1) - Machado, José Pedro,Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Horizonte, 1.ª edição: 1952, 6.ª edição: 1990.

Nota - apresento neste texto as duas grafias alternativas (pré- e pós-) para as palavras que foram afe(c)tadas pelo Acordo Ortográfico de 1990.

18 outubro 2018

Podemos "enveredar esforços"?

Há quem diga que vai "enveredar esforços" para atingir determinado objetivo. Será apropriada tal combinação de palavras?
Não! Trata-se de um erro que deriva da confusão entre os verbos enveredar e envidar. Se são parecidos na forma, a verdade é que o significado destes verbos é bastante diferente, assim como o modo de os utilizar em frases.

Enveredar vem de vereda, que é um caminho. Portanto, significa meter-se por uma vereda, fazer-se ao caminho, encaminhar-se. Rege a preposição por e pode ser usado em sentido literal ou em sentido figurado. Leiam-se, a título de exemplo, as frases seguintes:

a) Para poupar tempo, enveredou por um atalho.
b) Infelizmente, acabou por enveredar por maus caminhos e nunca conseguiu vingar na vida.

Envidar significa convocar e deriva do mesmo verbo latino que deu origem ao verbo convidarinvitãreUsa-se com o sentido de recorrer a esforços, empregar meios ou empenhar-se, no sentido de atingir algum objetivo. Por exemplo nas frases seguintes:

c) Vamos envidar todos os meios ao nosso alcance para combater este flagelo.
d) O Ministro garantiu que envidaria os recurso necessários para resolver o problema.

Conclui-se, assim, que dizer "vou enveredar esforços" não só é um erro lexical, porque o verbo não tem o significado que se aplicaria nesse contexto, como é também um erro sintático, uma vez que se envereda "por algum lado", mas não se envereda "alguma coisa".

23 agosto 2017

Quem tem medo dos parónimos?

Eis o nosso mais recente livro:  Mais pares difíceis da língua portuguesa.



Dando continuidade ao primeiro volume, apresentamos outros 270 pares de palavras que os falantes de português tendem a confundir, uma vez que se trata de parónimos, isto é, de termos semelhantes na grafia e na pronúncia, com significados bem distintos. Por ordem alfabética, a diferença entre cada par é explicada por meio de definições e exemplos. São tratados, por exemplo, estes termos:

arrestar / arrostar
complementar / suplementar
diretiva / diretriz
encadear / encandear
especificar / explicitar
ficcional / fictício
prático / pragmático
quantidade / quantia
regular / regularizar
ruço / russo
sagrar / singrar
temerário / temeroso
voracidade / voragem

Esperamos que este pequeno contributo seja útil a muitos leitores e utilizadores da língua portuguesa por esse mundo fora!


08 maio 2017

Despesas extras ou despesas extra?


Quando me perguntam qual o plural do adjetivo extra, não posso evitar sentir algum desconforto. Quem pergunta quer uma resposta simples e objetiva, que não deixe margem para dúvidas... mas por vezes a resposta é em si mesma uma dúvida. Agora talvez mais do que antes, pois não me lembro de ter dado com esta disparidade há uns anos, quando fiz uma pesquisa sobre o assunto.

Hoje, o Priberam mostra-nos que, enquanto adjetivo, a palavra extra pode ser flexionada no plural, dando o exemplo das "despesas extras".


Por seu turno, a Infopédia diz-nos que extra é um adjetivo invariável, o que significa que não se altera no plural. Depreende-se, pois, que o correto será "despesas extra".

Então, em que ficamos?!

No meu entender, e pela lógica, o plural do adjetivo extra deveria ser "extras", pois não me parece que haja motivo para defender que esta palavra, se entendermos que se formou por truncação a partir do adjetivo extraordinário, seja invariável. No entanto, também podemos entender que na sua origem está antes um prefixo e, como tal, defender que por esse motivo o adjetivo também é invarável, à semelhança do que sucede com outros os prefixos (por exemplo, mini, hiper, super, etc.), mesmo quando os utilizamos com a função de adjetivos (como na frase "comprei umas cervejas mini").

Neste, como noutros casos, o uso é que acaba por comandar as regras linguísticas e a verdade é que se nota uma certa resistência de muitos falantes quanto à utilização da forma flexionada extras - a menos que seja como nome. Isto é, muitas pessoas dizem, sem hesitar, "o carro vinha com muitos extras", mas preferem falar de "horas extra" ou de "despesas extra".
Daí que a Infopédia ateste isso mesmo. Aliás, sempre me pareceu que este dicionário segue mais o uso (é mais descritivo), comparativamente ao Priberam, que é mais conservador e normativo. Posso estar enganada, claro. Mas é a leitura que faço, a partir das minhas consultas a um e a outro.

Então, quando encontramos num e noutro dicionário - como neste caso - informação contraditória, o que devemos fazer?
Bom... depende do tempo que tenhamos. Se há pressa, talvez seguir o nosso instinto e escolher a forma que nos soa melhor. Se há tempo, procurar desempatar, usando uma terceira fonte de consulta!






28 outubro 2016

palavras diferentes em Portugal e no Brasil


Quem não se apercebeu já dos mal-entendidos que se podem gerar entre portugueses e brasileiros por causa das diferenças lexicais?
Quando dois povos culturalmente diversos (ainda que com raízes comuns e muitos aspetos que os identificam, é claro) falam sobre realidades que designam por meio de palavras diferentes, o resultado pode bem ser o desentendimento, se não mesmo a perplexidade.

Para ajudar brasileiros e portugueses a interpretar os enunciados de uns e de outros, nada como um recurso deste tipo:


No Brasil

Em Portugal

acostamento

berma

açougue

talho

açougueiro

homem do talho

aeromoça

assistente de bordo (ou hospedeira)

bonde

elétrico

cachorro

cão (cachorro designa um cão jovem)

bala (doce)

rebuçado

band-aid

penso rápido

banheiro

casa de banho

bico (chupeta)

chupeta / chucha

bonde

elétrico

bumbum

rabo

café da manhã

pequeno-almoço

calcinha

cuecas

(fazer um) carinho

fazer uma festinha

chope

imperial

camiseta

t-shirt

camisinha

preservativo

camisola

camisa de noite

canudinho

palhinha

cáqui

diospiro

cardápio, menu

lista, menu

carteira ou carta de motorista

carta de condução

celular

telemóvel

colar (nas provas de avaliação)

copiar (nas provas de avaliação)

colorir

pintar

conversível

descapotável

coroinha

acólito

dirigir (um veículo)

conduzir ou guiar (um veículo)

durex

fita-cola

estilingue

fisga

fazer as unhas

arranjar as mãos

flanelinha

arrumador

geladeira

frigorífico

goleiro

guarda-redes

grampeador

agrafador

histórias em quadrinhos

banda desenhada, BD

isopor

esferovite

jogar (lançar um objeto)

atirar (lançar um objeto)

linguiça

salsicha

locação de filmes

aluguer de filmes

machucar

magoar

mamadeira

biberão

marrom

castanho

ônibus

autocarro

ovo frito

ovo estrelado

pia

lava-loiça, lava-louça

pista

estrada

planilha eletrônica (no Excel)

folha de cálculo (no Excel)

ponto de tricô

ponto de liga

ponto ou parada de ônibus

paragem do autocarro

porre

bebedeira

presunto

fiambre

presunto de Parma

presunto

privada

sanita

rapariga

amante, prostituta

sonho de padaria

bola de Berlim

sorvete

gelado

suco

sumo

tic-tac

gancho de cabelo

time (de futebol, por ex.)

equipa (de futebol, por ex.)

toalha de prato, pano de prato

pano da loiça

torcedor (de futebol, por ex.)

adepto (de futebol, por ex.)

travesseiro

almofada

trem

comboio

usuário

utente, utilizador

vitrine

montra

xícara

chávena (em certas regiões de Portugal, também se usa xícara)

 

Os leitores são convidados a dar os seus contributos para aumentar o número de linhas na tabela.

Nota: Tendo em conta que os comentários dos leitores também acrescentam informação relativamente ao uso das palavras apresentadas, aconselho os interessados a clicarem na ligação para os comentários, pois estes enriquecem o artigo. Obrigada a todos!