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30 março 2022

Perseverança e não "preserverança"

O norte-americano Samuel Adams (representado na estátua de bronze que se vê na fotografia, da autoria da escultora Anne Whitney) ficou para a história, em virtude da sua perseverança patriótica e revolucionária contra as imposições da coroa britânica, em 1770.

Perseverança, sublinhemos, pois muita gente comete o erro de dizer e escrever "preserverança".

Todavia, não censuremos quem se engana! É um fenómeno natural e recorrente no uso da língua pronunciar certas palavras menos familiares (e depois grafá-las) com base numa relação analógica com outras, mais conhecidas.

Assim se explicará, talvez, que o esparguete tenha assumido aquele <r> no fim da segunda sílaba: os falantes terão pensado que o termo tem afinidade com o vocábulo espargo... Afinal,  este tipo de massa tem uma forma semelhante (cilíndrica, comprida e fina) e a terminação "-ete" faz lembrar um sufixo de grau diminutivo. Assim, do spaghetti tornado espaguete (como ainda se diz e escreve no Brasil), passámos ao esparguete, variante inicialmente condenada como uma corruptela, mas hoje perfeitamente aceite em Portugal. É que o erro ou desvio linguístico, muitas vezes, acaba consagrado pelo uso.

No caso de "perseverança", porém, isso ainda não aconteceu. Essa grafia ainda não foi legitimada pelos dicionários. O nome perseverança vem do latim perseverantĭa- e não está relacionado com o verbo preservar (essa associação é, provavelmente, a causa do erro), mas antes com o verbo perseverar, que é persistir, manter-se firme.

Não sejamos, pois, perseverantes no erro! Pelo menos, enquanto este não se legitima...




15 novembro 2020

Ele foi júri ou foi jurado?

 "Gostaria muito que fosses júri da minha prova"... "Já fui júri num concurso"...

Este tipo de frase ouve-se com alguma frequência e todos percebemos a ideia: que as pessoas em causa fazem parte de um júri.

No entanto, a palavra júri designa um conjunto de pessoas que julgam uma causa (num tribunal), ou que avaliam o mérito de um desempenho, trabalho, obra, etc. (num concurso ou numa prova de avaliação). Logo, uma dessas pessoas não constitui o júri, apenas faz parte desse júri.

 Portanto, quando nos referirmos a alguém que faz parte de um júri, devemos dizer que é um jurado (que significa "membro de um júri")Em alternativa, naturalmente, podemos dizer que essa pessoa integra o júri, ou faz parte do júri, mas nunca devemos dizer que alguém é, foi ou será "júri".

01 agosto 2012

Rinque e ringue

Sabem como se designa o recinto plano, próprio para a prática de patinagem artística?

(a) ringue
(b) rinque
A resposta correta é a alínea (b): rinque.
O substantivo rinque designa o recinto plano e resguardado para a prática de patinagem (do inglês rink).
O substantivo ringue designa o estrado quadrado, geralmente cercado por cordas, para a prática de boxe, luta livre e outros desportos (do inglês ring).
Tendo praticado patinagem artística durante anos, confesso aqui publicamente a minha ignorância sobre a designação correta do recinto próprio para a prática desse tão belo desporto!
Sempre a aprender!

05 julho 2012

Desafio lexical. Qual o termo correto: constrangedor / confrangedor? (a) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre constrangedor. (b) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre confrangedor.

21 junho 2012

Arguição ou arguência?



O que diriam, referindo-se ao "acto de arguir": a arguição da tese ou a arguência da tese?















Parabéns aos que escolheram arguição!
Desenganem-se todos os que, como eu, pensavam que se trata de sinónimos...
A palavra arguência não está atestada em português. Soa bem, mas não é necessária, dado que temos o substantivo arguição, proveniente do latim arguitione, cujo sentido original se prende com a ideia de criticar ou censurar - aquilo que faz o arguente.
"Arguência" poderia designar algo como "qualidade de arguente", como a paciência é a qualidade de paciente, ou a decência é a qualidade de decente. Seria um termo bem formado e aceitável, mas não se sentiu ainda necessidade de o consagrar.

30 abril 2012

Qual a diferença entre uma sigla e um acrónimo?



 

Comecemos pelas semelhanças, para que melhor se perceba a diferença: tanto as siglas como os acrónimos são vocábulos constituídos pela junção das primeiras letras de várias palavras que compõem uma expressão.
Por exemplo: BTT, bicicletas todo-o-terreno; ATL, ateliê de tempos livres; AVC, acidente vascular cerebral; OVNI, objecto voador não identificado; TAC, tomografia axial computadorizada, ou computorizada; LASER, que é um empréstimo do inglês, significa light amplification by stimulated emission of radiation.

A diferença está na pronúncia: enquanto a sigla é pronunciada letra a letra, ou seja, como se estivéssemos a soletrar (normalmente tem muitas consoantes seguidas), do acrónimo faz-se uma leitura silábica, tal como se fosse uma palavra normal.
Das que referi anteriormente, portanto, BTT ATL e AVC são siglas; OVNI, TAC e LASER são acrónimos. Os acrónimos, talvez por serem lidos silabicamente, são os que mais rapidamente passam a ser escritos com minúsculas e sem pontos a seguir a cada letra, porque tendemos a esquecer-nos de que as letras são iniciais de palavras.

30 agosto 2011

Sobre o verbo despoletar, ainda e sempre

Afinal, o verbo despoletar é ou não sinónimo de desencadear?

Há duas respostas possíveis a esta pergunta. E contraditórias, por sinal.
A resposta negativa é defendida pela tradição gramatical, que atribui ao verbo despoletar um único significado – o de ação contrária de espoletar: «tirar a espoleta a, travando ou impedindo o disparo de». A partir deste significado literal, o verbo despoletar terá incorporado um sentido figurado: «anular, travar o desencadeamento de alguma coisa».
Mas o verbo contrário ao verbo espoletar não deveria ser desespoletar?
Sim. Terá sido através um processo fonológico, designado síncope, que a forma primitiva desespoletar terá evoluído para despoletar, tendo ocorrido posteriormente a crase dos dois E. O mesmo fenómeno fonético que terá dado origem ao verbo destabilizar, oriundo de desestabilizar.
Por conseguinte, para a tradição normativa, o uso do verbo despoletar como sinónimo de desencadear é uma corruptela, tratando-se de um caso de hipercorreção, tal como aconteceu com o verbo destrocar e tantos outros.

A resposta afirmativa é corroborada por uma corrente linguística contemporânea que considera o prefixo de, não um prefixo com valor de ação contrária, mas, sim, com um valor de reforço, de intensidade, patente em formas como desinquieto, defumar, entre outros. É denominado de prefixo protético.
Assim, atribuindo o valor de reforço ao prefixo de, esta corrente explica o uso generalizado de despoletar como sinónimo de desencadear, deflagrar. E é este uso generalizado o responsável pela inclusão desse significado em alguns dicionários de referência da atualidade.

12 agosto 2011

Nunca houve um fogo neste fogo!

Será a frase do título possível (correcta, do ponto de vista sintáctico-semântico) em português?
Por estranho que pareça, a resposta é sim.

Para quem já se questionou sobre o motivo por que se chamam "fogos" aos apartamentos dos prédios, recomendo  esta explicação do Ciberdúvidas. Afinal, ao que parece, a razão pela qual se dá esse curioso nome às casas não tem nada que ver com apartamentos urbanos, embora seja ainda hoje usado nesse contexto, tal é a força das expressões.

E boas férias de Verão, para quem as tenha!

16 fevereiro 2010

Registo formal em ambiente pré-lúdico


Este fim-de-semana fiz algo que há muitos anos não fazia: joguei à Batalha Naval. E o divertimento que o jogo me proporcionou não se deveu apenas aos momentos animados entre ensinar a minha filha a jogar e perder dois jogos consecutivos. Passou igualmente pela leitura das instruções que vinham na caixa, guardadas religiosamente durante décadas e cujo registo me fez pensar que, hoje em dia, talvez devessem ser "adaptadas" a um português mais coloquial - visto que a linguagem formal, cuidada, está cada vez mais longe dos olhos e ouvidos dos jovens.

Leia-se este excerto, por exemplo:

«Assim, os jogadores passarão a dar um palpite de cada vez, alternadamente, palpite esse que consiste em pronunciar ao adversário um NÚMERO e uma LETRA. Em resposta o adversário dirá se há «FALHA» ou «COLISÃO». [...] No caso de ter anunciado «COLISÃO», o José colocará um perno vermelho no furo da embarcação atingida enquanto que o António sinalizará também, com um perno vermelho, o seu quadrado de marcação. [...] Assim, conforme o jogo vai decorrendo, saberá quais os números já pedidos e bem assim quais os certeiros e não certeiros.»

Na próxima revisão do folheto, proponho que as frases acima citadas sejam escritas da seguinte forma:

«Então, cada jogador diz, à vez, um NÚMERO e uma LETRA, que é onde pensa que pode estar um barco do outro. O outro responde  «ÁGUA» ou «FOGO». [...] Se disser «FOGO», o Zé mete um pino encarnado no buraco do barco que levou o balázio,  e  o Tó também mete  um pino encarnado no mesmo sítio, no quadro onde marca os  tiros que dá.  [...] Assim, durante o jogo, sabe que números é que já pediu e, desses, quais é que foram em cheio e quais é foram na água.»




23 julho 2009

Suicídio homicida

Hoje apresento-vos esta frase:

«O tradutor suicidou o texto.»


Gostaria que nos dessem a vossa opinião sobre o emprego que nela se faz do verbo suicidar. Estará correcto? Será usual? A mim soa-me muito mal! Depois vos direi onde a encontrei...

19 março 2009

Que tal um banho no aquário e peixes na piscina?!





Um dos malabarismos da língua que mais me divertem é este:

piscina, que vem de peixe em latim (piscis), passou a significar tanque de água (onde não é suposto haver peixes), para nadar.

aquário, que significava, simplesmente, relativo à água, é que agora serve para lá colocar os peixes!...



Foto de Nuno Pavão

18 novembro 2008

Desafio de vocabulário

O nome relativo ao verbo adquirir é aquisição. E qual o nome relativo aos seguintes verbos?

- assumir
- convencer
- interceder
- manter

E agora, o exercício ao contrário. Qual o verbo correspondente aos seguintes nomes?

- transfusão
- circuncisão
- intuição
- rescisão

30 junho 2008

A língua em foco


Está a decorrer o Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC.
Trata-se de um conjunto de comunicações, acompanhadas de debates, que decorre hoje, dia 30, e amanhã, dia 1 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O tema - Discurso, Diversidade e Literacia: A Língua Portuguesa no Século XXI, - dá "pano para mangas". Desde a «complexidade da escrita e dos desafios que coloca ao leitor» até à crítica de estrangeirismos aparentemente absurdos que se vêm insinuando na nossa língua, passando por um levantamento de curiosíssimas palavras distintas para nomear uma mesma realidade (um pirilampo, um girino...), de acordo com diferentes regiões de Portugal (e diferentes visões do objecto), hoje houve oportunidade para que linguistas e membros da assistência partilhassem as suas preocupações e ideias sobre a riqueza, a complexidade e a diversidade da língua, sobretudo (mas não só) no que toca ao léxico. O Acordo Ortográfico não ficou de fora, como não podia deixar de ser, numa discussão deveras interessante, em que as intervenções do público não ficaram atrás das brilhantes comunicações.

Se quiserem e puderem ir até lá, ainda há cadeiras vagas... mesmo para quem não se inscreveu!