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12 fevereiro 2023

Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que dispensa ou dispensam apresentações?

 


Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que ___ apresentações.

Que opção escolheriam para completar a frase acima?

a) dispensa     b) dispensam


Creio que algumas pessoas tendem a escolher a opção a), confiando que o singular é mais adequado, tendo em conta que o sujeito mais importante da frase é Luísa Ducla Soares, correspondente à 3.ª pessoa do singular.

No entanto, quando queremos caracterizar uma pessoa, coisa ou situação, associando-a a um grupo de outras que têm as mesmas características, dizendo que é “daqueles” ou “daquelas que”..., o verbo que se segue tem de estar sempre no plural.

O predicado, efetivamente, concorda com o sujeito. Mas o verbo usado a seguir à palavra que tem de estar no plural, por concordância com a expressão que está antes - “daquelas pessoas” - uma vez que o pronome que representa esse sujeito plural: Daquelas pessoas que não precisam de apresentações, Luísa Ducla Soares é uma (delas).

Ao fazermos esta inversão de constituintes na ordem da frase, percebemos que nela existem duas orações, cada qual com o seu sujeito e o seu predicado:

1. Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas - oração subordinante (principal), com um sujeito singular (Luísa Ducla Soares).

2. que não precisam de apresentações - oração subordinada adjetiva relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo que (sujeito plural, pois representa a expressão "daquelas pessoas", presente na oração anterior).

Portanto, mesmo que estejamos a falar de uma só pessoa, coisa ou situação, se optarmos por dizer que é daqueles que... ou daquelas que..., temos de conjugar o verbo plural: fazem, dizem, merecem, trabalham, etc.

Se queremos, realmente, destacar o caráter único de tal sujeito, então devemos usar uma construção mais simples, na qual o pronome que se refira a essa pessoa, para que o verbo possa estar no singular: Luísa Ducla Soares é uma pessoa que dispensa apresentações.

Espero não ser uma das pessoas que contribuem para vos confundir!


23 maio 2022

Conselheira é o feminino legítimo de conselheiro!



Não acham ridículo que o Word for Windows nos ofereça uma advertência gramatical tão desadequada?

Em vez de aceitar a flexão do nome conselheiro no feminino, considera que a expressão "fiel conselheira" está errada porque o adjetivo deve concordar com o nome! Ora, o adjetivo fiel é invariável, pelo que tanto se pode aplicar a conselheiro como a conselheira. 

O que o corretor não aceita, obviamente, é que haja conselheiras... daí que nos proponha, como forma correta da expressão, "fiel conselheiro". Mas, como não existe uma justificação gramatical para tal correção, oferece uma razão absurda para justificar o sexismo! Inaceitável...



 

23 julho 2021

Concordância com a conjunção "ou"

 


Confirmei hoje, pela enésima vez, que a palavra "arguência" não está atestada, apesar de ser muito usada em vez de arguição, que é o termo correto.

Porém, o motivo que me leva a partilhar convosco esta informação, disponibilizada na Infopédia, é a instrução fornecida na página: «Verifique se a palavra ou expressão introduzidas estão bem escritas e pesquise novamente».

É que a conjunção ou pressupõe que os termos se excluem mutuamente (neste caso, só se verifica uma possibilidade, entre duas: a) o utilizador digitou uma palavra; b) o utilizador digitou uma expressão). 

Logo, o plural que é usado em seguida está em discordância com esse sujeito singular: o adjetivo participial introduzidas  e o predicado estão bem escritas implicam que o utilizador teclou, afinal, uma palavra e uma expressão. Mas não é isso que indica a conjunção ou, nem o plural faria sentido no contexto de uma pesquisa deste tipo.

Portanto, corrija-se a instrução para: Verifique se a palavra ou expressão introduzida está bem escrita e pesquise novamente.



09 junho 2012

Novo desafio

Mais algumas frases com problemas gramaticais para resolver... na minha opinião!

1 - Se eu soubesse que ele fugiria, tê-lo-ia preso à casota...
2 - O tic-tac dos nossos relógios biológicos é impossível de ignorar.
3 - À partida não deve existir dúvidas de que a norma é importante para todos.
4 - Com gozo e satisfação troceira, os amigos mostraram-lhe a surpresa.
5 - Um estudo sobre as separações entre jovens casais, mostrou que mais 60% ocorriam antes do 5.º ano de casamento.
6 - O ballet e a Opera eram os seus espectáculos preferidos.
7 - Ela entretem-se durante bastante tempo com livros e revistas.
8 - A homília foi longa, mas muito interessante e inspiradora.
9 - A parábola narra a história de um viajante que foi roubado e maltratado, tendo sido depois encontrado moribundo por um samaritano.

 


17 abril 2012

"Tem-no visto ultimamente?" ou "tem-lo visto ultimamente"?

Tem-no e tem-lo são combinações diferentes de forma verbal e pronome de complemento directo. Como na pergunta do título não há indicação da pessoa que desempenha a acção de ver, há uma ambiguidade que não permite concluir qual das duas seria correcta num determinado contexto. Ambas são possíveis... vejamos porquê.

Em tem-no, temos o verbo no presente do indicativo e a pessoa é a terceira do singular. Ele ou ela tem visto determinado indivíduo, por hipótese. Essa pessoa, enquanto “objecto directo” do verbo ver, é substituída pelo pronome o. Mas como a forma verbal termina em ditongo nasal e o pronome é o de C.D., 3.ª pessoa, a regra é: acrescenta-se um n ao pronome o. Tal como acontece por exemplo em “deram-no” e “põe-nas” (e seria incorrecto dizer “deram-o” e “põe-as”).

No caso de tem-lo, o tempo do verbo é, também, o presente do indicativo. Mas há uma alteração na própria forma verbal, por causa do pronome que se lhe junta, que é novamente o de complemento directo, o. A regra é: quando as formas verbais terminam em s, r, ou z, essas consoantes finais são suprimidas se a seguir vier o pronome o/a(s) e a este pronome antepomos um l. Assim, devemos dizer: “tu come-la muito depressa” (e não “tu comes-a muito depressa”; “vou guardá-los” (e não “vou guardar-los”);  “fi-lo ontem” (e não “fiz-o ontem”).
Portanto, o sujeito implícito em "tem-lo visto" é tu. "Tu tens visto o teu vizinho ultimamente?", por exemplo, o que, simplificado, dá "tem-lo visto ultimamente?", porque: ten(s) + (l)o = tem-lo.

Assim, dependendo de quem seja o sujeito daquele tem (que poderá ser tens), deveremos optar por uma ou outra forma.

22 fevereiro 2012

Tal ou tais?

Os valores já não são reconhecíveis como tais ou

Os valores já não são reconhecíveis como tal ?



Resposta:

   A palavra tal pode pertencer a várias classes gramaticais. Frequentemente é usada enquanto determinante ou pronome demonstrativo, podendo ser substituída por outros como este, esse, aquele / esta, essa, aquela / isto, isso, aquilo. Se tivéssemos uma frase como “tais valores deixaram de ser considerados”, não teríamos dúvidas de que “tal valores” seria incorrecto: o determinante tal está antes do nome valores e por isso tem de concordar com ele em número.
   Mas a frase é “os valores deixam de ser considerados enquanto tal/tais [?]”, o que significa: “os valores deixam de ser considerados enquanto isso (mesmo), que é o facto de serem valores. Neste caso, podemos desde logo desconfiar da flexão do pronome no plural, porque ele não antecede o nome valores...
  Na verdade, a expressão  “como tal”, bem como a expressão “enquanto tal”, é fixa e invariável, devendo ser entendida como uma locução adverbial cujo sentido é o mesmo da palavra assim. Para comprovar isso, podemos fazer a substituição daquelas duas palavras – a expressão fixa – por esse advérbio: “Os valores deixaram de ser considerados assim.”

02 fevereiro 2012

"Muitos de nós sentem" ou "muitos de nós sentimos"?





A concordância verbal tanto se pode estabelecer com o determinante indefinido (ou quantificador) “muitos” como com o pronome pessoal “nós”, portanto podemos dizer «muitos de nós sentem um certo desconforto», por exemplo, ou «muitos de nós sentimos um certo desconforto».

À partida, a expressão partitiva “muitos de” deve levar-nos a flexionar o verbo na 3.ª pessoa do plural (considerando esses “muitos”, seja do que for). Se tivéssemos o sujeito “muitos do grupo” faria com certeza mais sentido dizer “muitos do grupo sentem um certo desconforto” e seria bastante estranho dizer “muitos do grupo sente um certo desconforto”. Nesse contexto, ninguém tem dúvidas!

No entanto, os falantes hesitam quando a construção é "muitos de nós". Porque o pronome nós implica a pessoa que fala. Nesse caso, há toda a legitimidade em usar o verbo na 1.ª pessoa do plural: "muitos de nós sentimos" - ainda que, de acordo com o explanado no parágrafo anterior, seja correto dizer que "muitos de nós sentem".


Aliás, e voltando à expressão "muitos do grupo", se eu fizer parte do grupo, até posso dizer “muitos do grupo sentimos um certo desconforto”. Essa concordância um pouco esquisita resulta de um processo a que se dá o nome de silepse: uma concordância que não é propriamente gramatical, mas antes estabelecida de acordo com o sentido, tendo em conta a realidade a que se alude.

Resumindo: muitos de nós sentem dúvidas; muitos de nós sentimos dúvidas. Ambas as frases estão corretas, sendo que na primeira a concordância é estabelecida com base na expressão "muitos de" + 3.ª pessoa do plural, ao passo que na segunda a concordância é comandada pelo pronome "nós".

19 dezembro 2011

Quantas mais pessoas ou quanto mais pessoas?

Hoje, a propósito de um anúncio que ouvi na rádio, pareceu-me que esta seria uma interessante pergunta para colocar aqui. Mais do que escolher, importa saber por que motivo uma das construções é preferível...

Quantas mais pessoas vierem à festa, melhor.

ou

Quanto mais pessoas vierem à festa, melhor.

?

23 outubro 2011

Caça ao erro


Que erros gramaticais devem ser corrigidos nas frases seguintes?

1. Não há dúvida de que o curso trás conhecimentos fundamentais.

2. Algumas pessoas não têm o mínimo de informação à cerca deste assunto.

3. Os homens só se preocupam com ganhar dinheiro, nem que para isso tenham que haver guerras.

4. Sou monitora de ATL à quase dois anos e nunca senti necessidade de possuir uma licenciatura.

5. Se assim fosse, sentiriamo-nos bem melhor connosco próprios.

6. A notícia sobre este caso de pedófilia foi divulgada pelos orgãos de comunicação social.

7. Há certos conceitos que, para melhor os transmitir-mos, devemos compreender em profundidade.

8. A experiência, como é natural, adequire-se com o tempo.

9. É de referir os constantes sacrifícios a que as crianças são obrigadas nos dias de hoje. 


31 março 2011

Certo ou errado?


Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio:

Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível.

Considerariam certa ou errada esta construção? E porquê?

19 março 2010

Qual o plural de "sem-abrigo"?


Hoje, uma aluna fez-me uma pergunta muito interessante. Tinha lido num jornal uma frase do tipo "Sem-abrigo têm nova instituição de apoio" e achou estranho que o verbo estivesse no plural, pois não havia "s" no nome e a ausência de determinante não ajudava a esclarecer a dúvida, pelo contrário.

Quando me perguntou se aquilo fazia sentido, confesso que tive dúvidas. Parecia-me que sim, mas não conseguia encontrar nenhuma regra, na minha cabeça (influenciada pela gramática CUNHA & CINTRA) que justificasse o singular "abrigo", quando se trata de um nome, que supostamente deve ser flexionado no plural. Então, inclinei-me para o plural "sem-abrigos" (tendo em conta a lógica C&C: se um dos termos do composto é palavra invariável e o outro um substantivo, só se flexiona o substantivo), mas aconselhei-a a consultar o Ciberdúvidas, porque ainda me restavam dúvidas.

E ainda bem! Afinal, a expressão "sem-abrigo" pressupõe uma oração de tipo adverbial (o sem-abrigo é aquele "que não tem abrigo") e por isso não se considera necessário referir "abrigos" quando quem não tem onde se abrigar são várias pessoas em vez de uma.  Ao que parece, é  por ter carácter adverbial que esta expressão é invariável, tal como os advérbios. Se por um lado isto pode parecer estranho, porque afinal estamos a falar de um nome e não de um advérbio, acaba por ter lógica, quando comparamos esse nome com uma expressão semelhante. Optar por dizer "os sem-abrigos" será mais ou menos como, em vez de "os de além" dizermos "os de aléns"... não faz sentido!
Infelizmente, muitas gramáticas são omissas quanto a este e outros casos semelhantes, como sem-terra e sem-tecto, que são compostos igualmente uniformes.

E assim se vai aprendendo sempre, e também com os alunos!





18 dezembro 2009

Com o pé na argola da sintaxe

É fácil pormos o pé na argola da sintaxe, porque ela nos ilude constantemente com armadilhas muito bem montadas.

Num documento do Ministério da Educação, por exemplo, as autoras escrevem esta frase: «as tentativas infantis de escrita inventada [...] levam as crianças a analisarem as palavras para decidirem quantas e quais as letras que, do seu ponto de vista, são adequadas escrever
Penso que nenhum dos leitores passa por esta frase sem a achar estranha, porque aquele final («são adequadas escrever») não soa lá muito bem. Contudo, e mesmo assim, deve haver quem se interrogue sobre a sua correcção. Porque já sabemos que, frequentemente, o que soa "mal" está correcto. Por isso mesmo, há quem opte, como as autoras, por deixar operar a hipercorrecção, elegendo como versão preferível da frase (entre «quais as letras que [...] são adequadas escrever» e "quais as letras que é adequado escrever") aquela que incorre na falha gramatical.
Mas, se a frase que soa pior é a escolhida, há decerto um bom argumento que o justifique. Esse argumento será a concordância entre o adjectivo adequado (que é flexionado em número e género, adequadas) e o nome letras, que parece exigir essa concordância.
Acontece, porém, que o verbo escrever é que comanda a flexão do adjectivo, pois aqui é o sujeito da oração «que é adequado escrever», na qual pronome que representa a expressão «quantas e quais as letras» da oração anterior. Os restantes elementos são: sujeito (escrever), verbo (é) e predicativo (adequado). Ora, se o sujeito da frase é um verbo no infinitivo, naturalmente o predicativo que com ele concorda só pode estar no masculino singular.
Terá um falante comum de saber tanta gramática para optar pela concordância correcta? Não. Bastar-lhe-á tirar a palavra "que" à oração para perceber de imediato que a sequência original não faz sentido: *são adequadas escrever. Ou, invertendo a ordem dos elementos, para facilitar mais ainda: *escrever são adequadas.

11 dezembro 2009

Portinglês aos pontapés no Moodle

Na plataforma Moodle, como seria de esperar, usa-se e abusa-se de estrangeirismos. Mas, para além disso, dão-se alguns pontapés na nossa gramática - como este excerto demonstra:

Mostrar a janela de Mensagem automaticamente quando houverem novas mensagens (o seu browser necessitará de estar definido para permitir popups neste site)

Não há ninguém que faça a revisão e correcção deste portinglês?!






23 outubro 2009

Erro à vista II


Decididamente, estou a ficar um pouco lerda.
Então, há dias, quando consultei aquele artigo da Infopédia, não reparei num outro erro gritante, mesmo junto ao "reinvindica"?

"Em 1948, com o apoio da ONU, nasce o Estado de Israel, novamente um centro político para os Judeus. Dão-se, por outro lado, início a novos tormentos, resultantes da oposição árabe a esta nação, com a qual se envolvem em guerras frequentes e duras."

Os leitores atentos encontraram-no com certeza.
Já não sei se devo censurar os profissionais da editora em causa, que publicam textos cheios de "gralhas", se me devo censurar a mim própria, que não reparo em metade delas... de qualquer modo, e censuras à parte, uma coisa é certa: trata-se uma boa fonte de desafios gramaticais para este blogue!



02 outubro 2009

Concordância, concordância...

  Muito sinceramente, venho confessar uma dúvida que me assaltou hoje, enquanto lia A Arte de Ler, de José Morais, um livro de 1997, mas interessantíssimo e extremamente completo sobre psicologia cognitiva da leitura. Deparei com esta frase:

Tudo isto constitui factores de diferenciação. (p. 256)


  A minha primeira reacção, ao ler «constitui factores», foi voltar atrás e confirmar que não havia ali nenhuma falha de concordância, dado que estava em presença de uma forma verbal no singular («constitui») e de um nome no plural («factores»). Quando verifiquei que o sujeito era a expressão «Tudo isto», lembrei-me da regra ditada por Celso Cunha e Lindley Cintra: «o verbo ser concorda com o predicativo [...] quando o sujeito do verbo ser é um dos pronomes isto, isso, aquilo, tudo ou o (= aquilo) e o predicativo vem expresso por um substantivo no plural» (p. 354, na 3.ª edição Breve de 1989).
Está bem, na frase em questão não temos o verbo ser, mas sim o verbo constituir. Porém, se o correcto, com o primeiro verbo, seria Tudo isto são factores de diferenciação, isso não sugere que a mesma regra se deveria aplicar ao verbo constituir, que aqui tem exactamente o mesmo significado?!

  Ao que parece, a resposta é não. E é verdade que ler "Tudo isto *constituem factores de diferenciação" não me agradaria mais...
   No entanto, parece-me que se trata de um daqueles casos em que a emoção deve pesar mais do que a razão. Aliás, Cunha e Cintra explicam que a concordância do verbo ser com o predicativo, no caso acima referido, se explica «pela tendência que tem o nosso espírito de preferir destacar como sujeito o que representamos por palavra nocional, pois esta alude a realidades mais evidentes».
  Então, se o que está certo não tem uma sonoridade agradável, eu optaria por modificar a frase, até que ela me soasse bem. Por exemplo, usando o verbo ser...





23 setembro 2009

Meio-dia e meio e setecentos e oitenta e um euro

Há duas tendências portuguesas para o erro de expressão que me parecem particularmente engraçadas, enternecedoras, até.

Uma é o «meio-dia e meio». Acho bonita esta vontade incosciente de harmonizar a expressão, que ganha sem dúvida uma musicalidade mais interessante, fica com uma prosódia mais rica, quando a última palavra se torna o eco perfeito da primeira. «Meio-dia e meia», depois de ouvirmos «meio-dia e meio», torna-se esquisito, mal-sonante, quase absurdo.
Fora de brincadeiras: «meio-dia e meio»... quê? Se for meio-dia, mais outro meio, estaremos a referir-nos, afinal... à meia-noite?! Se dissermos «meio dia e meia», fica subentendida a palavra hora. Pode não soar tão bem, mas é correcto.

Outra é o «euro» singular dos número cujo último algarismo é 1. Por exemplo, no extenso dos cheques: «setecentos e oitenta e um euro». Uma questão de concordância, pois claro!! Se o numeral um é singular, não ficaria nada bem segui-lo do nome plural euros. E no tempo dos escudos havia já quem se regesse por essa lógica: «novecentos e noventa e um escudo
Dá vontade de perguntar: se só um é que é euro, os setecentos e oitenta são o quê? Palhaços?




18 agosto 2009

Que, de quem e cujo

Pedindo desculpa a todos por ter ido de férias sem avisar (!), aqui estou novamente, com uma pergunta: qual das seguintes opções não serve para completar a frase e porquê?

Aquele é o meu vizinho...

a) que a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

b) cuja filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

c) de quem a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

02 dezembro 2008

Secretária de Estado americana ou secretária de Estado americano?

Será possível atribuir duas leituras a esta expressão?

1. [secretária de Estado] americana – em que o adjectivo americana modifica «secretária de Estado»
2. secretária de [Estado americano] – em que o adjectivo americano modifica apenas o nome «Estado»

Na minha opinião, a forma mais correcta é: «secretária de Estado americana». Explico porquê:
Se tivéssemos a contracção da preposição de com o artigo definido o, teríamos um significado mais específico, logo, o adjectivo americano modificaria apenas o nome Estado: «secretária [do Estado americano]».
No entanto, a preposição simples de exprime um sentido mais genérico, pelo que a leitura mais imediata é considerar o constituinte [secretária de Estado] uma unidade linguística coesa. Esta unidade linguística tem como elemento central o nome secretária, logo, o adjectivo americana deve concordar em género e número com esse nome, por exemplo: «secretárias de Estado americanas»; «secretários de Estado americanos».

Concordam ou discordam desta análise?

24 novembro 2008

Dose para doze


O "Bacalhau a Braz" já é banal... Mas que dizer daquela nota final na ementa, sobre a "doze" com mais um talher?

Só prova uma coisa: não é preciso escrever correctamente para alcançar a compreensão dos leitores. Afinal, quem é que precisa de ler a frase duas vezes para perceber o seu significado?
Ninguém. Fica muito claro que, quando a dose for servida com mais um talher, será cobrado o valor adicional de 1 euro. É mais bonito, mas o resultado é o mesmo...

Resta saber se o tamanho das doses justifica pedir mais onze talheres, se formos doze a comer!

21 abril 2008

"uma taxa MUITA atractiva"??



Já aqui abordámos uma vez o fenómeno do "muita", a propósito de um anúncio do Jardim Zoológico de Lisboa.

Esta brochura de um banco apregoa "uma taxa muita atractiva" de um produto financeiro...
será gralha tipográfica, ou antes um recurso estilístico?
Ficamos sem saber... mas parece que a moda do "muita" veio para ficar!