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13 abril 2026

Cidra ou sidra?

É curioso como esta palavrinha aparece tantas vezes escrita com c, quando a forma correta - para designar a bebida - é com s.

A sidra é uma bebida alcoólica que resulta da fermentação de maçãs. Este vocábulo provém do latim e significa "bebida inebriante".

Neste "vox-pop", quase toda a gente acha que a bebida se chama cidra, mas a verdade é que essa palavra designa o fruto da cidreira (citrus medica), que é semelhante ao limão e que não serve para fazer sidra.

Portanto, não se deixem enganar - sobretudo, se  forem editores ou revisores de texto. 😉

23 agosto 2025

"Xi-coração" ou chi-coração?

 Não são raras as vezes em que recebo mensagens escritas com um afetuoso "Xi", o que me deixa confortada e feliz, mas também um pouco atrapalhada... 

Não, não é por não gostar de receber abraços, é porque esta palavra se deve escrever com <ch> e não com <x>!

É verdade, acreditem: o popular "xi" não está bem escrito, a forma certa é chi, por mais estranho que vos pareça. E o termo completo, naturalmente, também não é "xi-coração", mas chi-coração. O primeiro elemento deste composto é de origem onomatopeica, referindo-se ao som que (supostamente!) as pessoas emitem quando se envolvem numa destas manifestações de ternura.

Podem confirmar aqui ou aqui, por exemplo. 

Aproveito para deixar um caloroso chi-💛 a quem segue este blogue! 😊


24 julho 2024

Para-quedas e parapente

Afinal, escreve-se para-quedas, pára-quedas ou paraquedas?

A forma corre(c) era pára-quedas (antes do A.O. de 1990), com acento e com hífen, por se tratar de um composto cuja primeira palavra é uma forma verbal, no presente do indicativo, 3.ª pessoa do plural (do verbo parar), tal como para-brisas e para-raios e para-vento.
O texto do Acordo Ortográfico de 1990, contudo, estabelece o seguinte, na Base XV, n.º 3: «Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.». Portanto, e ainda que sob o ponto de vista morfológico e etimológico, "para-quedas" (tal como guarda-chuva ou para-brisas) apresente uma estrutura composta que inclui um verbo no presente do indicativo, a orientação oficial mais recente obriga-nos a usar a grafia proposta no próprio documento: paraquedas
Ainda assim, podem persistir dúvidas, porque o Portal da Língua Portuguesa disponibiliza uma lista de palavras que mudaram como o A.O. na qual esta palavra supostamente mantém o hífen, perdendo apenas o acento agudo. 
Nesta base de dados, a forma para-quedas é apresentada no vocabulário ortográfico da língua portuguesa como uma "variante" igualmente legítima de paraquedas.
Fica-se, assim, com um argumento para legitimar a grafia para-quedas, mesmo após o A.O.

parapente não deixa dúvidas de que se escreve sem hífen, pois nunca houve outra grafia para esta palavra em português. Porquê? Porque o suposto "primeiro elemento" não é a forma verbal do verbo parar, uma vez que o termo é um empréstimo do francês, parapente (favor pronunciar "parrapante" 😊).


14 maio 2023

A grafia de lilás e lilases


O nome lilás vem do árabe lilak, que significa «azulado». Chegou até nós por via da língua francesa, através da palavra lilas. Em português, escreve-se com s, portanto. 

O plural é lilases, sem acento agudo, pois deixa de ser necessário marcar a vogal tónica, como acontece no singular. Isto porque se acentuam graficamente, em português, as palavras agudas (com tónica na última sílaba) terminadas em -a(s), mas não as palavras graves (com tónica na penúltima sílaba) terminadas em -e(s). Estas regras ortográficas aplicam-se igualmente ao adjetivo que designa algo de cor arroxeada, entre o rosa e o violeta.

Assim, escreva-se, sempre:

singular - lilás

plural - lilases



11 abril 2022

"Ó" não é o mesmo que "oh"!

Já aqui falámos sobre a diferença entre "oh" e "ó", num breve esclarecimento publicado em 2007. 

Porém, hoje não resistimos a fazer outra chamada de atenção relativamente à grafia diferente destas duas interjeições, porque acabamos de verificar, com surpresa, que nas várias edições da obra A Maior Flor do Mundo, de José Saramago, a palavra oh está erradamente grafada, na seguinte passagem:


«Ó que feliz ia o menino!»

(Saramago, 2016, p. 17)

Não existirão dúvidas quanto ao facto de que, aqui, a exclamação expressa alegria, admiração, encantamento, emoção positiva. Portanto, a palavrinha em causa deveria estar escrita com h e sem acento agudo: oh. Só faria sentido empregar ó se houvesse um chamamento, uma invocação. Ora, o narrador está apenas a expressar o que sente, não está a dirigir-se a ninguém. Assim, a grafia correta é:


Oh, que feliz ia o menino!

ou 

Oh! Que feliz ia o menino!

Note-se que, após proferirmos a interjeição oh, fazemos naturalmente uma pausa, pelo que se recomenda o uso de pontuação logo a seguir: vírgula, ponto de exclamação ou mesmo reticências. Neste último caso, a exclamação terá um tom mais arrastado, por expressar um sentimento de melancolia, desilusão ou tristeza. Isso não se aplica neste contexto, mas as reticências poderiam, por exemplo, ser usadas aqui:

Oh… Já não fui a tempo!

Voltando à frase de A Maior Flor do Mundo… Terá sido erro do autor ou dos revisores e editores?

Não sabemos. Nem importa. Seja como for, todos temos direito ao equívoco, ao engano, ao erro – pessoas comuns e conhecidas, escritores pequenos e grandes, autores anónimos ou consagrados. O que importa é estarmos dispostos a identificá-lo e a corrigi-lo.

 

Referência: José Saramago, A Maior Flor do Mundo. Porto: Porto Editora, 2016. [O texto foi publicado pela primeira vez em 2001, pela editorial Caminho]

Imagem retirada da página WOOK, onde o livro pode ser encomendado: https://www.wook.pt/livro/a-maior-flor-do-mundo-jose-saramago/16467570

 



30 março 2022

Perseverança e não "preserverança"

O norte-americano Samuel Adams (representado na estátua de bronze que se vê na fotografia, da autoria da escultora Anne Whitney) ficou para a história, em virtude da sua perseverança patriótica e revolucionária contra as imposições da coroa britânica, em 1770.

Perseverança, sublinhemos, pois muita gente comete o erro de dizer e escrever "preserverança".

Todavia, não censuremos quem se engana! É um fenómeno natural e recorrente no uso da língua pronunciar certas palavras menos familiares (e depois grafá-las) com base numa relação analógica com outras, mais conhecidas.

Assim se explicará, talvez, que o esparguete tenha assumido aquele <r> no fim da segunda sílaba: os falantes terão pensado que o termo tem afinidade com o vocábulo espargo... Afinal,  este tipo de massa tem uma forma semelhante (cilíndrica, comprida e fina) e a terminação "-ete" faz lembrar um sufixo de grau diminutivo. Assim, do spaghetti tornado espaguete (como ainda se diz e escreve no Brasil), passámos ao esparguete, variante inicialmente condenada como uma corruptela, mas hoje perfeitamente aceite em Portugal. É que o erro ou desvio linguístico, muitas vezes, acaba consagrado pelo uso.

No caso de "perseverança", porém, isso ainda não aconteceu. Essa grafia ainda não foi legitimada pelos dicionários. O nome perseverança vem do latim perseverantĭa- e não está relacionado com o verbo preservar (essa associação é, provavelmente, a causa do erro), mas antes com o verbo perseverar, que é persistir, manter-se firme.

Não sejamos, pois, perseverantes no erro! Pelo menos, enquanto este não se legitima...




13 agosto 2020

Bem disposto ou bem-disposto?


 A diferença entre usar e não usar hífen é subtil, mas existe.

O dicionário recomenda que se use bem-disposto como adjetivo, para caracterizar alguém que é prazenteiro, ou que está alegre, bem-humorado (por exemplo na frase «Ele está sempre bem-disposto»).  Nestes contextos, o termo composto pode ser substituído por outro adjetivo com o mesmo significado, como alegre ou divertido.

Porém, o dicionário nada nos diz sobre o eventual uso da locução "bem disposto", pois aí temos já duas palavras, em vez de um vocábulo formado por composição. Para vos elucidar, digo-vos eu o seguinte:

Podemos formar frases corretas em que estas duas palavras surgem seguidas. Basta que utilizemos o advérbio bem para reforçar a ideia da disposição (ou o grau de disposição) patente no adjetivo disposto. Por exemplo, na frase «Ele parece bem disposto a fazer isso!». Note-se como, aqui, o adjetivo pede algo mais, pois rege preposição a, seguida de um verbo (como fazer).

Neste caso, podemos substituir a palavra bem por outro advérbio («Ele parece muito disposto a fazer isso!», «Ele parece extremamente disposto a fazer isso!»). Na primeira frase, essa substituição seria estranha, pois tornaria a frase incompleta. Se dissermos "Ele está sempre muito disposto», os nossos interlocutores quererão saber "A quê?".


Portanto, se o que pretendemos é qualificar uma pessoa de divertida, prazenteira, bem-disposta, o hífen é essencial na escrita.


31 janeiro 2019

Fluida ou fluída? Fluido ou fluído?



Preparava-me para publicar um pequeno texto no Facebook quando o corretor ortográfico sublinhou a vermelho uma das palavras: era o adjetivo feminino fluida. Cliquei no botão do lado direito do rato e apareceu a sugestão: fluída. 
Estranhei. O adjetivo fluido (bem como a sua forma feminina fluida) escreve-se sem acento gráfico, porque se pronuncia com ditongo na sílaba tónica: [uj] (como na palavra descuido). Trata-se de uma palavra com duas sílabas: flui-do.

É certo que muitas pessoas dizem "fluído" e "fluída", em vez de fluido e fluida, por exemplo em frases como "o discurso deve ser fluído", ou "a leitura deve ser fluída", mas isso não é correto. Será que o corretor automático também está errado? Na verdade, este assunto tem um pouco mais que se lhe diga...

Vejamos: dizer e escrever fluído em vez de fluido é um erro sempre que se esteja a empregar a palavra como adjetivo ou nome. Só nos casos em que se trata do particípio passado do verbo fluir é que se pode escrever a palavra com acento. Então, sim, pronuncia-se sem ditongo, pois a sílaba tónica é constituída apenas pela vogal [i] (como na palavra roído). Esta tem três sílabas: flu-í-do.

Sistematizando, vejamos quando usar uma e outra forma:

a) fluido/a (sem acento agudo) - quando é um adjetivo ou um nome (masculino). Exemplos:

              Um discurso fluido torna-se mais agradável e cativante.
              Para que a leitura seja fluida, o texto tem de estar bem organizado.
              No próximo semestre terei a cadeira de Mecânica dos Fluidos.

b) fluído (com acento agudo) - quando é o particípio passado do verbo fluir. Exemplo:

              O facto de o rio ter fluído por aí, em tempos, faz com que a vegetação nessa zona seja mais verdejante do que nos terrenos à volta.

Concluindo: faltavam, no dicionário do corretor automático, as palavras fluído(s)fluída(s), que lhe acrescentei. Em todo o caso, será sempre preciso ter atenção, no uso destas formas derivadas do verbo fluir: o segredo está no contexto.

06 abril 2018

Podermos ou pudermos?


          Na escrita das diferentes formas do verbo poder, alternam-se as vogais o e u. A melhor forma de saber quando utilizar cada uma destas vogais ao conjugar o verbo poder é fixar a regra seguinte: quando o som da letra e é fechado (soa como o e de vera palavra escreve-se com o; quando o som da letra e é aberto (soa como o e de perto), a palavra escreve-se com u.
            Veja-se, assim, como têm um som diferente as formas que se costumam confundir, como as seguintes flexões do Futuro do Conjuntivo (que se usa em frases com a conjunção se) e do Infinitivo Pessoal (que se usa com preposições como para, de, por, etc.):

1.      Se eu puder ir, avisar-te-ei. (Futuro do conjuntivo)
2.      Para eu poder ir, terás de me dar boleia. (Infinitivo pessoal)

3.      Se não pudermos ir, será uma pena. (Futuro do conjuntivo)
4.      Estou contente por podermos ir. (Infinitivo pessoal)

5.      Se eles puderem ir, será melhor. (Futuro do conjuntivo)
6.      O facto de eles poderem ir é excelente. (Infinitivo pessoal)

        Portanto, quando tiver dúvidas, experimente dar atenção à qualidade da vogal correspondente à letra e. Se abrir mais a boca para a pronunciar, escreva a palavra com u. Se a sua boca ficar mais fechada ao pronunciá-la, escreva a forma verbal com o.


26 maio 2017

Exercício de revisão ortográfica


Para hoje, proponho aos leitores um exercício de revisão de texto: ler e melhorar a ortografia deste excerto do "Expresso curto":


O único ministro das Finanças que ele alguma vez defendeu publicamente foi Jeroen Dijsselbloem, por acaso o presidente do Eurogrupo, que é uma espécie de porta-voz de Schäuble. Mas para os mais distraídos recomendo vivamente a crónica que o embaixador Seixas da Costa escreve hoje no seu blogue “Duas ou três coisas” (e que vai exactamente no mesmo sentido do que escrevo amanhã para o Expresso).
Diz Seixas da Costa: “Só alguma saloiíce lusitana é que acha que a “teoria económica” da Geringonça é vista com admiração nos círculos preponderantes no Eurogrupo. É claro que eles podem achar curiosos os resultados obtidos, mas ninguém os convence minimamente de que tudo não decorre de um acaso pontual. Para eles, trata-se apenas de um "desenrascanço" conjuntural, fruto de alguma acalmia dos mercados, do efeito das políticas temporalmente limitadas do BCE, do salto das exportações (que entendem nada ter a ver com a ação do governo), do surto do turismo (por azares alheios e sorte nossa, como o “milagre do sol”), bem como do "pânico" de PCP e BE em poderem ver Passos & Cia de volta, desta forma “engolindo sapos” e permitindo ao PS surpreender Bruxelas com o seu seguidismo dos ditâmes dos tratado. 

31 março 2017

Escrever em português correto no Programa "Alô, Portugal", na Sic Internacional


Hoje vou apresentar o meu novo livro em direto, no programa Alô Portugal, na Sic Internacional.
Tenho estado a tentar prever que perguntas o José Figueiras me vai fazer e acabei por redigir uma espécie de guião da entrevista, para me preparar. Aqui ficam as perguntas que imaginei e as respostas que pensei dar, pois é provável que a entrevista real seja diferente!


«Este livro é mesmo sobre escrever TUDO? E o que significa escrever corretamente?»
TUDO, sim, no sentido em que, apesar de serem contemplados “apenas” 20 tipos de texto diferentes, este livro pode ser tomado como uma base, uma referência, para depois aplicar a outros tipos de texto. Digamos que é adaptável a outros géneros, nesse sentido, porque fala de aspetos gerais, além dos aspetos específicos de cada tipo de texto em particular.
Escrever corretamente é de facto aplicar com rigor as regras gramaticais, expressar-se com correção, mas não é só isso. Também significa atingir o objetivo, por exemplo, persuadir o leitor de alguma coisa; respeitar as convenções próprias de cada tipo de texto, como o registo em que deve ser escrito, a estrutura que deve ter, etc.; demonstrar cortesia e respeito para com os destinatários do texto, no sentido de procurar corresponder às suas expectativas. Isso normalmente significa construir o texto de modo a facilitar a compreensão das ideias, mas nem sempre, ou não necessariamente, porque, no caso dos textos literários, o leitor pode não esperar nem desejar que isso aconteça, provavelmente prefere encarar o texto como uma espécie de enigma, de jogo de decifração.
«E o Acordo Ortográfico? Já vi que segue as novas regras… isso significa que é a favor?»
Não, de todo. Eu não sou a favor do AO simplesmente porque não faz aquilo que se propõe fazer, que é unificar a ortografia do português usado no mundo. Não acredito que isso seja possível, já para não entrar na questão de fazer ou não fazer falta. Só se pode dizer que o AO uniformiza a ortografia do português global se concordarmos que os inúmeros casos de dupla grafia são um aspeto aceitável dessa uniformização. Pessoalmente, acho que isso não faz sentido. E foi, no fundo, para frisar que as diferenças permanecem que incluí no meu livro um exercício que consiste em descobrir, num texto de 177 palavras, as 20 palavras que vão continuar a escrever-se de maneira diferente, nas variedades europeia e brasileira (p. 67).
Agora, não sendo a favor do AO, sigo-o. Porque acho é que é um luxo, hoje em dia, uma pessoa recusar-se a seguir o AO, nem todos podem fazer isso. Eu, como professora e como mãe, acho que não posso, porque a minha responsabilidade é ajudar os meus filhos e sobretudo os meus alunos a adaptarem-se às novas regras – porque tenho muitos alunos adultos que aprenderam regras diferentes, tal como nós, e ainda têm alguma dificuldade em escrever o “novo português”. No entanto, as mudanças também não são assim tantas – ao que parece, o AO altera cerca de 1,6% das palavras, em Portugal, e 0,5% no Brasil – e há por aí muitos mitos sobre o AO que levam as pessoas a terem muitas dúvidas porque há supostas “regras novas” que na verdade não existem… Isso leva muita gente a sentir que é contra o AO, sem ter sequer uma ideia exata do que é que muda.
«Quer dar exemplos?»
Sim, há o caso engraçado do cágado, que algumas pessoas ainda pensam que vai tornar-se numa palavra feia, porque se passa a escrever sem acento, o que é mentira! Também não é verdade que os portugueses tenham de escrever facto ou contacto sem o c antes do t. Porque a ideia generalizada é a de que vamos escrever como no Brasil, ou "ceder" à maneira de falar e de escrever dos brasileiros, e isso não é verdade. Aliás, muitas palavras passam a escrever-se de maneira diferente precisamente porque respeitam a pronúncia diferente que elas têm em Portugal e no Brasil – por exemplo recepção, perspectiva, contacto.
«E o espectador… ou espetador?!»
Pois... tal como expectativa e característica, esse é um caso de dupla grafia para Portugal, uma vez que no Brasil não se escreve espetador porque o c é sempre pronunciado. Em Portugal, na norma dita culta, há oscilação na pronúncia da palavra: há quem diga espetador e há quem diga espectador e ambas as formas são consideradas corretas, portanto não é linear que a consoante antes do t seja muda. Quem quiser pode continuar a escrever espectador… mas teoricamente deveria pronunciar a palavra em conformidade, ou seja, dizendo o [k]. Segundo a lógica do AO, não faz sentido dizer espetador e escrever espectador, mas claro que quando se é contra o AO isso faz todo o sentido!
«E no seu livro apresenta esclarecimentos ou apenas exercícios sobre o AO?»
Há exercícios, para que as pessoas possam perceber se têm ou não dificuldades na aplicação das novas regras, e no final há um apêndice dedicado ao AO, com uma síntese do que muda, portanto, com o esclarecimento.
«E os exercícios têm soluções?!»
Têm, sim, todos os exercícios sobre expressão escrita, ou gramática, têm soluções. E não são apenas sobre o AO – seria bom que só tivéssemos dúvidas e cometêssemos erros relacionados com a aplicação das novas regras ortográficas! Infelizmente não é assim… muitas pessoas enganam-se a escrever certas palavras mais “traiçoeiras”, digamos assim (diminutivo, losango, despender, aselha, precariedade…) certas construções frásicas (parecido a ou parecido com? ir de encontro a ou ir ao encontro de? ser devido a ou derivado a?), certas formas verbais (hão-de ou há-dem,  matado ou morto?), têm dificuldade em distinguir palavras parecidas (descriminar/discriminar, reticente/renitente, há cerca/acerca, eminente/iminente…), têm dificuldade em substituir o registo familiar por um registo mais cuidado... e portanto há um pouquinho de tudo, nos exercícios.
No entanto, as propostas de exercício que aparecem após cada tipo de texto não têm soluções. São apenas sugestões de treino.
«Mas não é um livro de exercícios?»
Não propriamente. Os exercícios de gramática aparecem logo no capítulo sobre os erros mais frequentes, para que, antes de começarem a escrever determinado texto, os leitores possam perceber se caem facilmente nas “rasteiras” que a língua nos prega a todos, ou não. Mas eu diria que o livro incide sobretudo nas dicas e nos conselhos para escrever os mais diversos tipos de texto, desde as atas até aos verbetes de dicionário, passando pelas composições, pelas recensões críticas e pelos resumos. Só que, depois de dar um exemplo de cada tipo de texto, também deixo uma sugestão de exercício, para que os leitores possam praticar aquele tipo de texto. À parte disso, muito do conteúdo é sobre o processo de escrita, desde o momento em que decidimos que vamos escrever um texto até ao momento em que fazemos a revisão final.
«A Sara gosta muito de escrever?»
Sim, gosto muito e acho que tentei comunicar um pouco desse gosto aos leitores deste livro, no fundo o que eu gostaria era de contagiar os leitores, para que passassem a gostar tanto de escrever como eu. Não sei se isto parece exagerado, mas sinto que escrever, para mim, é tão importante como respirar. Sinto que não consigo viver sem escrever, porque de facto é algo que não só me dá prazer como me faz falta, para me sentir bem. Até pode não haver ninguém para ler o que eu escrevo – porque nem sempre escrever é comunicar – mas eu preciso de escrever, porque escrever me ajuda a pensar-me, a conhecer-me, e eu procuro levar os leitores a verem a escrita dessa forma, como algo que está ao nosso alcance para podermos viver melhor.
«Em que sentido?»
No sentido em que nos obriga a parar, a refletir, em que nos faz pensar sobre a nossa experiência, sobre o que sabemos e o que nos falta saber, portanto favorece o conhecimento e o autoconhecimento, no sentido em que nos ajuda a organizar as ideias, a estruturar o pensamento, a dar sentido ao que nos vai na cabeça, e também a criar algo novo, porque o que nós escrevemos é único e pode ficar no mundo como um sinal da nossa passagem por ele.
«E acha que isso está ao alcance de qualquer pessoa, ou é preciso ter um certo jeito?»
Claro que o jeito ajuda, quem tem jeito terá menos trabalho e levará menos tempo a atingir bons resultados. Mas o que é interessante nisto é que nem toda a gente que tem jeito para falar tem jeito para escrever… e nem toda a gente que escreve bem determinado tipo de textos é capaz de escrever bem outros tipos de texto diferentes… O essencial, a meu ver, é o entusiasmo, o empenho, a dedicação. O quanto a pessoa quer ser capaz e o que está disposta a fazer para conseguir. E isso pressupõe uma característica muito importante que é a humildade, a noção de que se pode fazer melhor. Quem acha que já escreve bem e não precisa de melhorar normalmente está enganado, porque se aplica o mesmo que se costuma dizer sobre o conhecimento (a célebre fórmula atribuída a Sócrates, “só sei que nada sei”): quem realmente sabe muito tem uma noção mais clara de tudo o que lhe falta saber. Com a arte da escrita é mais ou menos a mesma coisa, quem escreve bem sabe que pode sempre escrever melhor, provavelmente porque também lê muito e não se considera certamente o melhor escritor do mundo, vê sempre outros acima de si.



01 junho 2016

"À semelhança" ou "Há semelhança"?


   Muitos não terão dúvidas, mas outros (muitos também?) talvez hesitem entre utilizar a forma verbal (verbo haver no presente do indicativo, 1.ª pessoa do singular) e a contração da preposição a com o determinante a, ou seja, à.

   Acabo de ler uma frase em que o erro é precisamente o de usar em vez de à. Não é esta, mas poderia ser: « semelhança dos nomes, os adjetivos podem ter várias terminações no plural». O correto seria, claro: À semelhança dos nomes, os adjetivos podem ter várias terminações no plural.

   Assim, lembrei-me de deixar aqui esta sugestão.

   Caro leitor, se tem dúvida neste tipo de frase, experimente substituir mentalmente a palavra com o som [a] por em ou por, e depois por existe ou existem e veja qual das duas faz sentido na frase.

Em semelhança dos nomes, os adjetivos podem ter várias terminações no plural.

A frase faz sentido, pois a preposição em tem um sentido próximo da contração à. Portanto, neste caso, a opção certa é À.


Existe semelhança dos nomes, os adjetivos podem ter várias terminações no plural.
A frase deixou de fazer sentido, pois o verbo existe não pode substituir a contração à.

   Se a frase fosse «Há semelhança entre nomes e adjetivos.», por exemplo, a substituição teria um resultado diferente:

Em semelhança entre os nomes e os adjetivos.
A frase deixou de fazer sentido, pois a preposição em não pode substituir a forma verbal há.

Existe semelhança entre os nomes e os adjetivos.
A frase faz sentido, pois a forma verbal existem tem um sentido próximo da forma verbal . Portanto, neste caso, a opção certa é .

   Espero ter ajudado quem tem dúvidas!

27 fevereiro 2015

Infligir e não "inflingir"

   Gosto de acompanhar os acontecimentos mais recentes lendo, todas as manhãs, lendo o "Expresso curto" do Jornal Expresso. Hoje, porém, não pude deixar de parar de ler para vir aqui lembrar a todos os interessados como se deve dizer e escrever o verbo infligir, pois o erro que me saltou à vista num dos parágrafos do texto* recordou-me que se trata de um deslize frequente entre portugueses. A minha intenção não é pôr em evidência a falha do autor do texto (é humano e eu também: todos temos "telhados de vidro"...), mas alertar os leitores deste blogue para a facilidade com que certas palavrinhas nos podem enganar.
 
   Provavelmente, é mais um caso de contaminação fonética, pois o núcleo da primeira sílaba é constituído por uma vogal nasal ([ ĩ ]), o que leva muitos falantes a nasalisarem, por influência do contexto, a vogal da sílaba seguinte. Esta é, então, pronunciada como [ f l ĩ ] em vez de [ f l i ], à semelhança do que sucede com insosso, que tanta gente diz "insonso". Para mais, existe a palavra (parónima) infringir (que no entanto significa algo diferente: "quebrar, trangredir, violar uma regra"), essa sim com duas vogais nasais seguidas, o que pode causar alguma confusão entre as duas.

   Fica, então, a advertência, a lembrança ou o alerta: infligir é que está certo, "inflingir" está errado!



* Por cá, está longe de terminar a polémica a propósito da gaffe de António Costa, que hoje é destaque na imprensa nacional (capa do i, do DN, do Público). Destaco as opiniões, à esquerda e à direita, de Daniel OliveiraHenrique Raposo, no Expresso Diário. Se é certo que a direita está a usar o caso o mais que pode para inflingir danos aos socialistas, não o é menos que o próprio Costa quanto mais se tenta desenvencilhar do nó que crioumais enleado parece ficar. Ele diz que está perplexo. Nós percebemo-lo. Também estamos. (Martim Silva, "Expresso Curto", 27/02/2015, acessível em https://www.facebook.com/jornalexpresso)

23 setembro 2014

Terçolho, treçolho, ou... ?

Vivendo e aprendendo!
Há dois dias que tenho um malvado terçolho a atormentar-me a vista. Seria uma daquelas ocasiões para me perguntar "mas porque é que isto me foi acontecer?!", se não fosse o facto de eu ter descoberto muito claramente que o malandro veio para me ensinar como se pode escrever e dizer o seu nome!
Durante um dia, andei a dizer a quem me perguntava o que eu tinha que era um "torçolho", até que algumas amigas observaram que não sabiam que se dizia "torçolho", pois sempre haviam dito "treçolho". E ainda manifestaram a sua satisfação por terem sido finalmente esclarecidas! Assim que ouvi isto, soou uma capainha na minha cabeça: "e se....?"
Fui ao dicionário confirmar a minha suspeita: quem estava enganada era eu! Vergonha das vergonhas, assumo. Imaginava que a palavra tivesse duas ou três grafias e pronúncias possíveis, mas nunca pensei que a minha preferida não era legítima!... Verifiquei, pois, que se pode empregar terçol, terçogo, terçolho e até treçolho, mas nada de "torçolho". Aparentemente, não vem de "torcer" o "olho" (quem diria....!), mas de "terço" ou "terceiro" , em latim - embora seja desconhecido o motivo desta estranha origem.


02 setembro 2014

PRECARIEDADE e não "precaridade"

Após o nosso envolvimento numa polémica linguística, eis o resultado...




http://www.publico.pt/opiniao/noticia/polemicas-linguisticas-1668151?page=-1

31 julho 2014

(Des)acordo ortográfico: pôr do sol ou pôr-do-sol?


Não me perguntem porquê, digo eu aos alunos, quando ficam perplexos com as regras e as excepções relacionadas com o emprego do hífen nos compostos, sobretudo após o Acordo Ortográfico.
O vocábulo pôr-do-sol suscitou hoje a minha dúvida. No Priberam aparece com hífenes e somos avisados de que no Brasil a grafia é sem. Na Infopédia, informam-nos de que "a nova grafia é pôr do sol" e a forma com hífenes só consta do Dicionário de Língua Portuguesa sem Acordo Ortográfico.
Como fico em dúvida, vou ao Portal da Língua Portuguesa, onde está disponível o texto do AO. Mas ao consultar a Base XV, a redacção do ponto 6 deixa-me desconcertada:

«Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções:

a) Substantivas: cão de guarda, fim de semana, sala de jantar;
b) Adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite, cor de vinho;
c) Pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos, quem quer que seja;
d) Adverbiais: à parte (note-se o substantivo aparte), à vontade, de mais (locução que se contrapõe a de menos; note-sedemais, advérbio, conjunção, etc.), depois de amanhã, em cima, por isso;
e) Prepositivas: abaixo de, acerca de, acima de, a fim de, a par de, à parte de, apesar de, aquando de, debaixo de, enquanto a, por baixo de, por cima de, quanto a;
f) Conjuncionais: a fim de que, ao passo que, contanto que, logo que, por conseguinte, visto que.»

O problema, como se vê, é o facto de a explicação não ser exaustiva. Ao apresentar-nos apenas alguns exemplos, tanto da regra como da excepção (através das expressões que destaquei a negrito), não permite que os falantes possam inferir o que acontece nos casos não contemplados (como pôr do sol/pôr-do-sol).
Porém, o Portal da Língua Portuguesa tem mais um recurso que pode ser útil: a lista de todas as palavras que mudam com o AO.
se apresenta, então, pôr-do-sol como "Ortografia Antiga", para Portugal, e pôr do sol como "Ortografia Nova".
A dúvida foi-se, mas a perplexidade ficou. Porque não percebo qual o critério para determinar quais são os compostos que mantêm o hífen por serem formas "consagradas pelo uso". Será a data da primeira atestação? Se for, é estranho, porque essa data não é segura nem é conhecida para todas as palavras. Alguém sabe?


10 julho 2014

Dedo anelar ou dedo anular?


Ora aqui está uma boa pergunta: o dedo em que se costuma usa um anel é o dedo anelar ou o dedo anular?

«É óbvio! Se vem de anel + -ar, claro que é o dedo anelar» - dirá muita gente, com razão.

No entanto...

e agora pasmem: também se pode dizer (e escrever) que é o dedo anular, pois em latim a palavra annulāre- tinha precisamente o sentido de "relativo a anel". Trata-se, pois, de uma palavra homónima do verbo anular, que também deriva do latim (annullāre). Confirmem aqui.

Sempre a aprender!

annulāre

anular In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-10].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/anular

07 junho 2014

Piquenique e não "pic-nic"

Ao contrário do que muitos portugueses pensam, e do que sugere a conhecida campanha publicitária do Continente, a palavra inglesa pic-nic tem em português uma grafia adaptada, que é piquenique.

A forma pic-nic já nem sequer se encontra na Infopédia, por exemplo.

24 outubro 2012

Ai, que confusão!


Se há um caso em que o A.O. vem confundir quem precisa de ler ou escrever certas palavras, além do clássico para que fica igual a para (leram com a pronúncia certa? Pára fica igual a para...), esse caso - que para mim é o piorzinho de todos - é o de interceção / interseção / intercessão. Não é uma confusão?
Quem queira escrever uma destas palavras vai ter de parar para pensar, a menos que esteja muito treinado, e talvez até grafá-las primeiro com as consoantes mudas, aparentemente inúteis mas muito jeitosas para ajudar a distinguir estes três parónimos:

interceção - ou intercepção, é o acto de interceptar, ou seja, de interromper alguma coisa
interseção - ou intersecção, é o acto de cruzar, ou de interseccionar - duas linhas, por exemplo
intercessão - que não tinha nenhuma consoante muda, é o acto de interceder, de intervir.

Esta alternância entre esses e cês pode realmente funcionar como uma armadilha... e as consoantes mudas ali estavam para nos ajudar a identificar a grafia certa em cada caso. Agora, teremos de nos resignar a visualizar uma consoante invisível, além de muda. Pela positiva, podemos encarar isso como uma confirmação de que, como se aprende no Principezinho de Saint-Exupéry, «o essencial é invisível aos olhos»...

01 agosto 2012

Rinque e ringue

Sabem como se designa o recinto plano, próprio para a prática de patinagem artística?

(a) ringue
(b) rinque
A resposta correta é a alínea (b): rinque.
O substantivo rinque designa o recinto plano e resguardado para a prática de patinagem (do inglês rink).
O substantivo ringue designa o estrado quadrado, geralmente cercado por cordas, para a prática de boxe, luta livre e outros desportos (do inglês ring).
Tendo praticado patinagem artística durante anos, confesso aqui publicamente a minha ignorância sobre a designação correta do recinto próprio para a prática desse tão belo desporto!
Sempre a aprender!