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03 dezembro 2010

Registos ou níveis de língua

  Os registos de língua ou variações diafásicas resultam da adequação do uso da língua a cada situação particular de comunicação. Assim, um mesmo falante pode adoptar diferentes registos no mesmo dia, consoante o grau de familiaridade que tem com os interlocutores, o tipo de situação em que fala (ou escreve) e até a mensagem que pretende transmitir. Um exemplo: enquanto aos amigos podemos dizer bué, aos professores já diremos muito e num trabalho escrito ainda poderemos optar por deveras ou extremamente. Podemos, então, falar de graus ou níveis de língua: do mais baixo (popular) para o mais elevado (literário). Porém, a mudança de registo não se verifica apenas no léxico. Também na construção das frases e até na pronúncia das palavras há diferenças, de uns registos para os outros.


Registo popular:        Este registo está associado a grupos sócio-culturais menos letrados, ou  pouco escolarizados, e pode, por isso, ser considerado uma variante diastrática (normalmente, as pessoas que o utilizam não conseguem mudar para outro registo, quando a situação de comunicação assim o exigiria). É caracterizado por incorrecções ("há-des/há-dem", "fiz-os", "pus-os", "dêiamos", "póssamos") e por um conjunto de termos pitorescos, caracteristicamente usados pelas camadas ditas “menos cultas” da população (o "tiosque" onde se vendem jornais", o "castrol" no sangue, as "parteleiras", os ovos "móis"). É sobretudo ouvido, mais do que lido, mas pode ser reproduzido por escritores de obras literárias que procuram caracterizar as personagens por meio da linguagem que estas utilizam no discurso directo.

Registo familiar:             É utilizado em situações de informalidade, em família ou entre amigos (os “migos”). Emprega um vocabulário simples, pouco variado, e construções frásicas igualmente simplificadas (“Tudo bem?”), deixando transparecer emoções, afectividade (“'tá igualzinho!”, "obrigadinho").  Apresenta expressões idiomáticas (“ele não me passou cartão”, "estou-me nas tintas") e abreviaturas que simplifiquem a pronúncia e facilitem a escrita, como ‘'tive" e "pra" em vez de “estive” e “para a”, e tende a ser escrito apenas em mensagens informais (e-mails, cartas, SMS).

Registo corrente:         Corresponde ao tipo de discurso utilizado nas situações do quotidiano, sempre que comunicamos com alguém que não conhecemos bem. É caracterizado pelo emprego de palavras, expressões e construções gramaticais simples e vulgares (chato e OK estarão a transitar do familiar para o corrente), formas verbais de substituição (“vou-te levar” em vez de levar-te-ei, “gostava” em vez de gostaria), sem a preocupação de variar o léxico ou embelezar a expressão. Pode ser considerado corrente o discurso dos professores nas aulas, ou o dos jornalistas na televisão, embora alguns usem já um registo mais cuidado.

Registo cuidado:         É o que escolhemos em ocasiões formais ou solenes (comunicações, discursos políticos, conferências científicas, etc.), quando pretendemos causar a melhor impressão possível e há uma grande distância social a separar-nos dos nossos interlocutores. Este registo caracteriza-se por um vocabulário mais erudito e variado (alternamos entre penso, considero, julgo, parece-me, estou em crer), pelo cuidado na aplicação dos tempos e modos verbais apropriados (peço que façam em vez de “peço para fazerem”, dar-lhes-ia em vez de “dava-lhes”) e por uma construção gramatical complexa, denunciando a sua preparação escrita, mesmo quando é transmitido oralmente.

Registo literário:          É linguagem escrita por excelência, exprimindo-se através dos idiolectos particulares de romancistas e poetas, que procuram surpreender os leitores por meio de termos raros ou desusados, de construções sintácticas invulgares (que porventura seriam consideradas incorrectas, se formuladas noutro registo), de flexões impossíveis e de sentidos inesperados, marcadamente conotativos, cuja carga simbólica e metafórica depende da capacidade de interpretação e da sensibilidade de cada um (pode inclusivamente dificultar o entendimento da mensagem). Por vezes, o discurso publicitário recorre a este tipo de registo para captar a atenção do público, ou para o surpreender.

16 fevereiro 2010

Registo formal em ambiente pré-lúdico


Este fim-de-semana fiz algo que há muitos anos não fazia: joguei à Batalha Naval. E o divertimento que o jogo me proporcionou não se deveu apenas aos momentos animados entre ensinar a minha filha a jogar e perder dois jogos consecutivos. Passou igualmente pela leitura das instruções que vinham na caixa, guardadas religiosamente durante décadas e cujo registo me fez pensar que, hoje em dia, talvez devessem ser "adaptadas" a um português mais coloquial - visto que a linguagem formal, cuidada, está cada vez mais longe dos olhos e ouvidos dos jovens.

Leia-se este excerto, por exemplo:

«Assim, os jogadores passarão a dar um palpite de cada vez, alternadamente, palpite esse que consiste em pronunciar ao adversário um NÚMERO e uma LETRA. Em resposta o adversário dirá se há «FALHA» ou «COLISÃO». [...] No caso de ter anunciado «COLISÃO», o José colocará um perno vermelho no furo da embarcação atingida enquanto que o António sinalizará também, com um perno vermelho, o seu quadrado de marcação. [...] Assim, conforme o jogo vai decorrendo, saberá quais os números já pedidos e bem assim quais os certeiros e não certeiros.»

Na próxima revisão do folheto, proponho que as frases acima citadas sejam escritas da seguinte forma:

«Então, cada jogador diz, à vez, um NÚMERO e uma LETRA, que é onde pensa que pode estar um barco do outro. O outro responde  «ÁGUA» ou «FOGO». [...] Se disser «FOGO», o Zé mete um pino encarnado no buraco do barco que levou o balázio,  e  o Tó também mete  um pino encarnado no mesmo sítio, no quadro onde marca os  tiros que dá.  [...] Assim, durante o jogo, sabe que números é que já pediu e, desses, quais é que foram em cheio e quais é foram na água.»




25 junho 2009

Não penso, logo, traduzo



A tradução literal é uma forma de ignorância? Às vezes, parece.

Se não é por ignorância, como se explica que chamemos agora "palavras-passe" (passwords) às senhas de outrora, "condicionadores" (conditioners) aos amaciadores de há anos, "estacionário" (stationery) ao material de escrita de antigamente, e até, por vezes, "rudes" (rude) às pessoas simplesmente mal-educadas?

Se não tivermos cuidado, qualquer dia teremos de nos referir aos conservantes como "preservativos" e à prisão de ventre como "constipação". Sim, meus amigos, porque, em inglês, é isso que significam preservatives e constipation, respectivamente!...

Então, não acham melhor sermos mais criteriosos na forma como tratamos a nossa língua?!

29 maio 2009

“We are portuguise but we likes Inglish very muche!”



Há uma empresa que, no respectivo portal na Internet, se diz “cem por cento portuguesa”, intitulando-se “Broker de serviços”. Afirma que a sua equipa tem “elevado know-how”, faz “tratamento de mailing”, “impressão de newsletters e flyers”, e também “drop-mail”. Oferece ainda serviços de “design”, “webdesign” e “re-design”. Tem especialistas em áreas como “news” e “lifestyle” e oferece-se para “produzir o seu título, dirigido ao mercado geral ou especificamente ao target da sua empresa”, nomeadamente através de “custom publishing”.

Vai ao ponto de desenvolver “sites com base em serviços especializados de webdesigner´s e webengenier´s [sic]”. Transforma “conteúdos em webcontends [sic]” e, finalmente, produz “meios e técnicas de marketing”, e “divulgação de produtos e serviços na Internet, tais como white paper´s [sic], newsletters, banner [sic], entre outros”.

Quer isto dizer que as pessoas responsáveis por essa empresa tão portuguesa, além de abusarem de anglicismos, nem sabem escrever alguns deles. Shame on them!

12 março 2008

As novas modas na língua





É engraçado verificar como a língua, tal como as pessoas, está sujeita aos caprichos da moda.
Como peças de roupa que há muito guardamos no armário, temos palavras que estão em perfeitas condições e que ainda poderíamos usar por muitos anos, mas que optamos por deixar esquecidas, porque há outras novas, mais modernas, mais ao estilo do que se usa agora.
E, como queremos estar na crista da onda, dia após dia escolhemos os estrangeirismos e as traduções literais, em detrimento dos termos vernáculos, alguns dos quais até já fariam levantar os sobrolhos da gente mais “para a frentex”, como se fossem uma aberração:
dantes festejava-se ou comemorava-se, agora celebra-se (de celebrate)
dizia-se homenagem, mas agora todos dizem tributo (de tribute)
tínhamos livros e filmes preferidos, agora são favoritos (de favourite)
havia coisas mortais, agora são letais (de lethal)
o que não era permanente era provisório, agora é temporário (de temporary)
quase era praticamente, agora dizem que é virtualmente (de virtually)
faziam-se provas, agora fazem-se testes (de test)
os produtos retiravam / eliminavam nódoas, agora removem-nas (de remove)
usavam-se fardas na escola, agora usam-se uniformes (de uniforms)
as pessoas apercebiam-se de coisas, agora há quem "realize" que as coisas acontecem (de realize)
a paciência, que se jogava com cartas, passou a solitário (o solitaire), desde que apareceu no Windows
a senha transformou-se em palavra-passe (ou mesmo na própria password)
enfim, parece que já não temos amor-próprio, uma vez que também este mudou para auto-estima (de self-esteem)!...

05 março 2008

...«um bocado sorumbático»


A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...

«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»

...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.

Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.