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15 outubro 2012

Sobre a palavra "piegas"


O adjectivo piegas pertence ao registo popular ou familiar, ou seja, é utilizado sobretudo nas situações em que estamos à vontade com o interlocutor, ou pelo menos em que pretendemos estabelecer uma certa familiaridade ou cumplicidade com quem nos ouve.

O significado é claramente depreciativo e prende-se com dois “defeitos”, por assim dizer, e que não estão necessariamente ligados à ideia da lamentação ou do pessimismo. Por um lado, o exagero: piegas é excessivamente sentimental, revela sentimentos exacerbados, embaraça-se com coisas insignificantes, chora muito, ou assusta-se facilmente. São estas as possibilidades de significado da palavra piegas atestadas nos dicionários de língua portuguesa. Por outro lado, transparece desses sentidos também a questão do ridículo: uma pessoa piegas torna-se risível, porque tem uma postura patética, de certo modo imatura – e também é por isso que o significado da palavra é depreciativo.

A sua origem etimológica é obscura: José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, diz-nos que as hipóteses até agora levantadas não são convincentes. Em todo o caso, trata-se de um vocábulo relativamente recente na nossa língua, ele próprio acrescenta que não encontra vestígios muito anteriores ao século XIX. E cita uma das primeiras ocorrências do termo na escrita literária, que como não podia deixar de ser é de Camilo Castelo Branco (1868). No romance A Filha do Arcediago, no cap. 4, p. 31,  o narrador faz este comentário, que José Pedro Machado cita no dicionário: « O que elle sentia então, se eu podésse sentil-o agora, escreveria tres volumes em quarto, que o leitor me compraria, e a minha reputação de piegas amoroso estava feita.»

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa tem uma entrada para o antepositivo pieg-, que segundo esta fonte constitui uma palavra «expressiva» e «isolada em português». Diz-nos também que, embora as primeiras documentações sejam do século XIX, rapidamente deu origem a várias palavras com a mesma raiz: piegueiro, pieguento, pieguice, pieguismo e pieguístico. Vê-se, então, que é uma palavra bastante popular e que tem pano para mangas, como se costuma dizer, se quisermos usar todas as variantes…!

04 junho 2008

RE + HAVER = REAVER

"Se eu *reaver"... é erro frequente e até se compreende porquê: na primeira e na terceira pessoa, os verbos regulares costumam terminar de forma igual à do Infinitivo quando estão conjugados no Futuro do Conjuntivo: "se eu lavar", "quando eu entender", "se eu dormir".

Só reparamos que o verbo, de facto, assume uma forma diferente da do Infinitivo quando ele é irregular: "se eu der", "quando eu fizer", "se eu trouxer", etc.

Assim, percebe-se a tendência de muita gente para utilizar verbos irregulares conforme o paradigma, ou seja, para dizer, por exemplo, "se o tempo se *manter assim" em vez de "se o tempo se mantiver assim".

Isto acontece, sobretudo, quando os verbos são compostos, ou seja, quando derivam de outros. Manter deriva de ter, portanto, manteve e não "manteu", mantiver e não "manter", no futuro do conjuntivo.

Quanto a reaver, trata-se da combinação entre o prefixo re- e o verbo haver. Assim, se ao conjugar o verbo haver no futuro do conjuntivo dizemos houver, logicamente devemos também dizer reouver. Só eliminamos o "h"! Porque, afinal, reaver é haver de novo, no sentido de voltar a ter.

22 fevereiro 2008

Adjectivo no feminino + -mente


Já alguma vez se perguntaram por que razão para formar advérbios com o sufixo -mente se usa sempre a forma feminina dos adjectivos que lhes estão na base?

Por outras palavras, porque é que dizemos perfeitamente, comodamente, diariamente, e não “perfeitomente”, “comodomente”, “diariomente”?!

O motivo é este: o sufixo -mente tem origem no nome latino do género feminino mens/mentis, cujo significado é mente, espírito, intenção e também forma de pensar e agir. Ora, se o nome era feminino, o adjectivo, naturalmente, concordava com ele. Perfeitamente, como quem diz “de forma perfeita”, diariamente, ou seja, “de maneira diária”. Lógico, não?

15 fevereiro 2008

UniSSexo com dois ss!


Há 129.000 ocorrências da palavra “unisexo” no Google, contra 12.400 ocorrências de unissexo. Parece que o Simplex já chegou à ortografia!

Contudo, será que vale mesmo a pena poupar um s, quando a palavra "unisexo", além de ficar mal escrita, ainda soa mal? É que, lembrem-se, o s entre vogais tem som de z: em asa, liso, ausente, mesa e tantas outras palavras, essa regra é tão óbvia que ninguém duvida dela. Porém, quando se trata de dobrar a consoante por causa de um prefixo (uni + sexo), pouca gente se apercebe de que, não o fazendo, está a escrever uma palavra cujo som é “unizekso”. Fica giro, mas até custa a dizer... (Experimentem! Parece que estamos constipados!)

E já agora, haverá quem queira responder a isto? Se uni- quer dizer "um", porque é que os artigos ou serviços para AMBOS os sexos se designam assim?!

04 maio 2007

A polivalência de TELE-


Não há ninguém que não utilize no seu dia-a-dia palavras como televisão, telecomando e telefone, que incluem o elemento de formação TELE- e significam: “visão à distância”, “comando à distância” e “som à distância”, respectivamente.
Esse elemento tornou-se tão produtivo na criação de palavras da mesma família de televisão e telefone, que passou a apresentar significados derivados a partir do seu significado original. Ora vejamos:
Em palavras como telejornal, telenovela e telescola, TELE- já não significa “à distância”, mas, sim, “relativo a televisão”, pois uma telenovela, por exemplo, não é uma novela à distância! É, sim, uma novela transmitida através da televisão.
Por sua vez, em palavras como telemóvel, telepizza e telemarketing, TELE- significa “relativo a telefone”: um telemóvel não é um móvel à distância, mas, sim, um telefone móvel, e uma telepizza não é uma pizza comida à distância, mas uma pizza encomendada através do telefone!