Mostrar mensagens com a etiqueta sintaxe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sintaxe. Mostrar todas as mensagens

12 fevereiro 2023

Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que dispensa ou dispensam apresentações?

 


Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas que ___ apresentações.

Que opção escolheriam para completar a frase acima?

a) dispensa     b) dispensam


Creio que algumas pessoas tendem a escolher a opção a), confiando que o singular é mais adequado, tendo em conta que o sujeito mais importante da frase é Luísa Ducla Soares, correspondente à 3.ª pessoa do singular.

No entanto, quando queremos caracterizar uma pessoa, coisa ou situação, associando-a a um grupo de outras que têm as mesmas características, dizendo que é “daqueles” ou “daquelas que”..., o verbo que se segue tem de estar sempre no plural.

O predicado, efetivamente, concorda com o sujeito. Mas o verbo usado a seguir à palavra que tem de estar no plural, por concordância com a expressão que está antes - “daquelas pessoas” - uma vez que o pronome que representa esse sujeito plural: Daquelas pessoas que não precisam de apresentações, Luísa Ducla Soares é uma (delas).

Ao fazermos esta inversão de constituintes na ordem da frase, percebemos que nela existem duas orações, cada qual com o seu sujeito e o seu predicado:

1. Luísa Ducla Soares é uma daquelas pessoas - oração subordinante (principal), com um sujeito singular (Luísa Ducla Soares).

2. que não precisam de apresentações - oração subordinada adjetiva relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo que (sujeito plural, pois representa a expressão "daquelas pessoas", presente na oração anterior).

Portanto, mesmo que estejamos a falar de uma só pessoa, coisa ou situação, se optarmos por dizer que é daqueles que... ou daquelas que..., temos de conjugar o verbo plural: fazem, dizem, merecem, trabalham, etc.

Se queremos, realmente, destacar o caráter único de tal sujeito, então devemos usar uma construção mais simples, na qual o pronome que se refira a essa pessoa, para que o verbo possa estar no singular: Luísa Ducla Soares é uma pessoa que dispensa apresentações.

Espero não ser uma das pessoas que contribuem para vos confundir!


23 junho 2021

"De que se trata" - sem mais!

A certa altura, nesta entrevista, o "Gerador" pergunta a Alastair Fuad-Luke: "De que se trata esta mudança?"

Esta questão estará formulada corretamente?

A resposta é não. A expressão tratar-se de é impessoal, não pode ter sujeito. Se queremos referir expressamente o sujeito (no caso em apreço, esta mudança), então teremos de perguntar, por exemplo, "Em que consiste esta mudança?", porque estaremos a cometer um erro sintático ao empregar a expressão tratar-se de seguida de um sujeito.

Se, em contrapartida, preferimos começar a pergunta com a expressão "De que se trata", então digamos apenas isso: "De que se trata?"

Do mesmo modo, a resposta não deverá começar assim: "Esta mudança trata-se de...", pois aí também há erro sintático. Novamente, vale utilizar o verbo consistir para o evitar ("Esta mudança consiste em..."), ou empregar apenas a expressão "Trata-se de..."

Simples, não?

(Imagem de Bill Oxford. Retirada de: https://unsplash.com/ - acesso livre)

18 outubro 2018

Podemos "enveredar esforços"?

Há quem diga que vai "enveredar esforços" para atingir determinado objetivo. Será apropriada tal combinação de palavras?
Não! Trata-se de um erro que deriva da confusão entre os verbos enveredar e envidar. Se são parecidos na forma, a verdade é que o significado destes verbos é bastante diferente, assim como o modo de os utilizar em frases.

Enveredar vem de vereda, que é um caminho. Portanto, significa meter-se por uma vereda, fazer-se ao caminho, encaminhar-se. Rege a preposição por e pode ser usado em sentido literal ou em sentido figurado. Leiam-se, a título de exemplo, as frases seguintes:

a) Para poupar tempo, enveredou por um atalho.
b) Infelizmente, acabou por enveredar por maus caminhos e nunca conseguiu vingar na vida.

Envidar significa convocar e deriva do mesmo verbo latino que deu origem ao verbo convidarinvitãreUsa-se com o sentido de recorrer a esforços, empregar meios ou empenhar-se, no sentido de atingir algum objetivo. Por exemplo nas frases seguintes:

c) Vamos envidar todos os meios ao nosso alcance para combater este flagelo.
d) O Ministro garantiu que envidaria os recurso necessários para resolver o problema.

Conclui-se, assim, que dizer "vou enveredar esforços" não só é um erro lexical, porque o verbo não tem o significado que se aplicaria nesse contexto, como é também um erro sintático, uma vez que se envereda "por algum lado", mas não se envereda "alguma coisa".

02 fevereiro 2012

"Muitos de nós sentem" ou "muitos de nós sentimos"?





A concordância verbal tanto se pode estabelecer com o determinante indefinido (ou quantificador) “muitos” como com o pronome pessoal “nós”, portanto podemos dizer «muitos de nós sentem um certo desconforto», por exemplo, ou «muitos de nós sentimos um certo desconforto».

À partida, a expressão partitiva “muitos de” deve levar-nos a flexionar o verbo na 3.ª pessoa do plural (considerando esses “muitos”, seja do que for). Se tivéssemos o sujeito “muitos do grupo” faria com certeza mais sentido dizer “muitos do grupo sentem um certo desconforto” e seria bastante estranho dizer “muitos do grupo sente um certo desconforto”. Nesse contexto, ninguém tem dúvidas!

No entanto, os falantes hesitam quando a construção é "muitos de nós". Porque o pronome nós implica a pessoa que fala. Nesse caso, há toda a legitimidade em usar o verbo na 1.ª pessoa do plural: "muitos de nós sentimos" - ainda que, de acordo com o explanado no parágrafo anterior, seja correto dizer que "muitos de nós sentem".


Aliás, e voltando à expressão "muitos do grupo", se eu fizer parte do grupo, até posso dizer “muitos do grupo sentimos um certo desconforto”. Essa concordância um pouco esquisita resulta de um processo a que se dá o nome de silepse: uma concordância que não é propriamente gramatical, mas antes estabelecida de acordo com o sentido, tendo em conta a realidade a que se alude.

Resumindo: muitos de nós sentem dúvidas; muitos de nós sentimos dúvidas. Ambas as frases estão corretas, sendo que na primeira a concordância é estabelecida com base na expressão "muitos de" + 3.ª pessoa do plural, ao passo que na segunda a concordância é comandada pelo pronome "nós".

19 dezembro 2011

Quantas mais pessoas ou quanto mais pessoas?

Hoje, a propósito de um anúncio que ouvi na rádio, pareceu-me que esta seria uma interessante pergunta para colocar aqui. Mais do que escolher, importa saber por que motivo uma das construções é preferível...

Quantas mais pessoas vierem à festa, melhor.

ou

Quanto mais pessoas vierem à festa, melhor.

?

30 novembro 2011

SER ABUSADO, ainda e sempre…

A forma participial «abusado» só por si não constitui erro algum. Corresponde ao particípio passado de um verbo da primeira conjugação – ABUSAR. (Tal como: estudar – estudado; gostar – gostado; comprar – comprado; maltratar-maltratado, etc.).
Assim, é possível termos a estrutura composta TER ABUSADO, em construções participiais ativas como (1):

(1) Esse indivíduo tem abusado frequentemente dessas crianças.

O erro sintático prende-se com o uso do particípio «abusado» com o verbo auxiliar SER, em construções participiais passivas como (2):

(2) * Essas crianças têm sido abusadas frequentemente por esse indivíduo.

A frase (2) tem uma incorreção sintática, porque o verbo abusar NÃO PERMITE construções passivas. E porquê?
Porque é um verbo transitivo indireto, ou seja, é um verbo que é acompanhado de uma preposição.
Assim, verbos como CONVERSAR COM, OBEDECER A, GOSTAR DE, ABUSAR DE admitem apenas construções ativas e NUNCA PASSIVAS. Observem-se as seguintes construções passivas totalmente impossíveis em português:

(3) A Maria conversou com o Pedro.
(4) * O Pedro foi conversado pela Maria.
(5) O Pedro obedeceu aos pais.
(6) * Os pais foram obedecidos pelo Pedro.
(7) O Pedro gosta da Maria.
(8) * A Maria é gostada pelo Pedro.

Do mesmo modo, do ponto de vista sintático, não é possível termos a estrutura (10):

(9) O homem abusou da criança.
(10) * A criança foi abusada pelo homem.

Uma vez que não é legítimo o uso de passiva com este verbo, sugere-se o uso de perífrases, como (11):

(11) A criança foi vítima de abuso /maltratada/molestada/violentada.


Nota: O sinal * indica que a frase é agramatical, ou seja, incorreta do p.v. sintático.

23 outubro 2011

Caça ao erro


Que erros gramaticais devem ser corrigidos nas frases seguintes?

1. Não há dúvida de que o curso trás conhecimentos fundamentais.

2. Algumas pessoas não têm o mínimo de informação à cerca deste assunto.

3. Os homens só se preocupam com ganhar dinheiro, nem que para isso tenham que haver guerras.

4. Sou monitora de ATL à quase dois anos e nunca senti necessidade de possuir uma licenciatura.

5. Se assim fosse, sentiriamo-nos bem melhor connosco próprios.

6. A notícia sobre este caso de pedófilia foi divulgada pelos orgãos de comunicação social.

7. Há certos conceitos que, para melhor os transmitir-mos, devemos compreender em profundidade.

8. A experiência, como é natural, adequire-se com o tempo.

9. É de referir os constantes sacrifícios a que as crianças são obrigadas nos dias de hoje. 


15 outubro 2011

O QUE SÃO E PARA QUE SERVEM OS CONECTORES?


Conector é uma designação genérica para as palavras ou locuções que servem para ligar ideias ou orações, permitindo construir frases complexas. Embora a conjunção seja a classe de palavras mais representativa desta função, também os pronomes, as preposições, os advérbios e até os verbos, para além da própria pontuação, servem para ligar orações.

Conjunções:
Rómulo de Carvalho é, ainda hoje, um conhecido poeta, professor e historiador, mas é pouco divulgada a sua faceta de pedagogo, embora sejam de grande interesse e enorme actualidade a maior parte dos seus diversos textos pedagógicos.

Pronomes relativos:
A facilidade das comuni­cações, que nos permite ter notícia, até simultânea, dos acontecimentos que se estão a passar em qualquer lugar do globo, tornam-nos comparsas de um espectáculo enervante no qual as múltiplas crises nos tocam, alarmam e deprimem. (adap. de Rómulo de Carvalho, “O estado actual do ensino da Física”).

Preposições:
Era um homem preocupado e atento às dificuldades sentidas pelos estagiários e professores, com perfeita consciência de que o Estado não cumpria a sua parte na eficaz organização e planificação do ensino, de acordo com as necessidades que eram sentidas por alunos e professores.

Advérbios:
Não estava satisfeito com a situação no país, talvez até tivesse contemplado a ideia de sair de Portugal, possivelmente leccionar em Inglaterra, entretanto o palco, por excelência, da aplicação de novos programas e novos métodos no ensino liceal.

Verbos (no gerúndio, particípio e infinitivo):
O professor terá sido um excelente examinador oficial, a avaliar pelos seus rigorosos critérios e grau de exigência, tendo sido o principal examinador estatal em Lisboa durante uma década, apreciados que eram os seus métodos de avaliação do desempenho de estagiários no ensino liceal.

16 junho 2011

Ler +


  Sinceramente, não sei pronunciar-me sobre o Programa Ler +. É fácil louvar os objectivos de fundo, mas também é fácil criticar falhas na concepção ou na metodologia da iniciativa.

O que me parece de enfatizar é a necessidade de pais, educadores e professores porem as crianças (e os adolescentes) a ler textos de qualidade (dentro ou fora do programa), para que vejam nos livros lugares únicos de refúgio e lazer, companheiros de viagens enriquecedoras e inesquecíveis, amigos silenciosos insubstituíveis, que os ajudam a encontrar respostas e soluções para os problemas e desafios do quotidiano, mestres brandos mas firmes, que lhes dão as melhores referências para o bom uso da língua.
E aqui faço um sublinhado: numa sociedade tecnológica como é a nossa, em que entre os estímulos essencialmente visuais abundam textos mal escritos, que são precisamente aqueles que mais se "consomem" (pois circulam livremente na net, sem crivos de qualidade, ou são as mensagens escritas pelos nossos amigos e familiares), as referências ortográficas e sintácticas dos jovens são predominantemente as piores. Como resultado, escrevem mal, não por não lerem (acho que nunca se leu tanto como se lê hoje), mas por não lerem textos de boa qualidade linguística. Por isso é tão importante pegar na mão das crianças e conduzi-las para esse mundo surpreendente que está dentro de cada livro, ler para elas de uma forma expressiva e contagiante, ajudá-las a encontrar os livros que mais lhes agradam, os géneros com os quais se identificam, os temas que mais as entusiasmam - sempre sob o lema da diversidade, que é fundamental para se achar o gosto próprio, e depois deixá-las nesse mundo, à sua vontade, sem horas de regresso. Porque, afinal de contas, os livros são um dos poucos lugares aonde as crianças ainda podem ir sozinhas sem perigo de serem maltratadas!

31 março 2011

Certo ou errado?


Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio:

Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível.

Considerariam certa ou errada esta construção? E porquê?

24 março 2011

"Há dois anos" = "Dois anos atrás"

Este livro de Mia Couto foi publicado há dois anos atrás.
Certo ou errado, do ponto de vista linguístico?
Errado!

O verbo haver serve, como o verbo fazer, para nos referirmos ao passado. Assim, são sinónimas as frases "Foi há dez anos que lá fomos" e "Faz dez anos que lá fomos". Deste modo, tal como é desnecessário o uso da preposição atrás na segunda frase ("Faz dez anos atrás que lá fomos"), ela também não faz falta na primeira ("Foi há dez anos atrás que lá fomos").
Então, por que motivo se começou a usar essa preposição com o verbo haver, sempre que se fala de tempo? Quanto a mim, há dois motivos principais: por um lado, porque a forma verbal "há" também significa "existe/existem" e, para evitar ambiguidade e mal entendidos, o uso de "atrás" garante que se fala de tempo decorrido. Eis um exemplo: Há dois dias que não contam. Esta frase pode significar "faz dois dias que [eles ou elas, alguém plural de quem se fala] não contam"; ou "existem dois dias [na semana, por hipótese] que não são considerados".
Por isso,  tendemos a dizer "Há duas horas atrás..." para enfatizar o facto de estarmos a referir-nos a qualquer coisa que aconteceu duas horas antes ou atrás (e não a "duas horas que existem").
E isto leva-nos ao segundo motivo: é que a preposição atrás serve, realmente, para indicar a anterioridade no tempo. Por isso ela pode ser usada em vez (como equivalente) do verbo haver (Daí a tendência para misturar tudo, que é uma espécie de tautologia, como dizer "elo de ligação" ou "outra alternativa").
Aliás, atrás é mesmo aconselhável quando usamos o discurso indirecto, para substituir o verbo haver, se não o quisermos conjugar noutro tempo, que não o presente. Repare-se na transição do discurso directo para o indirecto neste exemplo:

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO: Ele perguntou o que tinham feito três meses atrás.

Em alternativa, poder-se-ia manter o uso do verbo haver, mas conjugado no pretérito imperfeito (coisa que muita gente não se lembra de fazer, mantendo haver no presente):

DISCURSO DIRECTO: "- O que fizeram três meses? - Perguntou."
DISCURSO INDIRECTO 1 : Ele perguntou o que tinham feito havia três meses.
DISCURSO INDIRECTO 2: Ele perguntou o que tinham feito três meses.

Ora, esta última frase (2), com o verbo haver no presente, só se justifica quando o momento em que se concretiza o discurso indirecto é próximo, no tempo, do momento de enunciação do discurso directo (se os "três meses atrás" forem os mesmos para quem falou primeiro e para quem ouve o discurso indirecto).

Concluindo: "há" não precisa de "atrás" para nada, quando falamos do passado. Mas "atrás" serve para substituir "há", quando "há" deveria ser "havia". A explicação que ficou para trás é confusa e provavelmente desnecessária... perdoem-me. A intenção era boa!




23 março 2011

"Há dois anos atrás"?

Será aconselhável ou desaconselhável esta construção ("há... atrás")?

10 janeiro 2011

Ensino...

à distância ou a distância?


O que vos parece?

05 novembro 2010

"Pode haver mais casos" ou "podem haver mais casos"?


Qual a forma mais correcta para preencher o espaço na frase que se segue: "pode haver" ou "podem haver"?


Foram já confirmadas duas situações, mas _______________ mais casos, que provavelmente serão detectados até ao final da semana.


28 julho 2010

Desafio morfossintáctico

Algumas das frases que se seguem não respeitam as regras gramaticais do português. Quais são? E que incorrecções apresentam?

a) Devem haver muitas regiões do globo que se transformaram em zonas desertas por causa do “El Niño”.

b) O facto dos encarregados de educação não se queixarem não quer dizer que estejam satisfeitos.

c) Ainda é desconhecido o motivo porque o director abdicou recentemente das suas funções.

d) Nalguns países, as crianças delinquentes são perseguidas e mortas, como se de animais irracionais se tratasse.

e) Xenofobia designa o sentimento de medo ou repulsa por tudo o que é estranho ou estrangeiro.

f) O Primeiro-Ministro absteu-se de comentar a notícia publicada no Expresso sobre a compra dos submarinos.

g) Como via mal, a directora pediu-me que lê-se a carta que lhe fora enviada pela Associação de Pais.

h) Senão mudar-mos rapidamente os nossos hábitos de vida, os recursos naturais extinguir-se-ão em menos de um século.

i) O incêndio ocorreu derivado a uma fuga de combustível num camião que estava estacionado.

j) Os jornalistas têm de se convencer de que têm uma enorme responsabilidade como influenciadores da opinião pública.

26 março 2010

"Crianças abusadas" ou "vítimas de abuso"?

“Crianças abusadas” é uma expressão incorrecta do ponto de vista sintáctico. E porquê?
Abusado é o particípio passado de um verbo que rege a preposição de (por exemplo: «não abuses da minha paciência!»). O verbo abusar não tem, pois, complemento directo, pelo que não pode ser conjugado na voz passiva.
Tal como não é sintacticamente correcto dizer “ele abusou a criança”, também não é possível transformar essa estrutura activa numa passiva: “a criança foi abusada por ele”.
Assim, para se exprimir a ideia de «maltratar sexualmente, violar», devem utilizar-se expressões como «crianças que sofreram abusos» ou «crianças vítimas de abuso».

18 dezembro 2009

Com o pé na argola da sintaxe

É fácil pormos o pé na argola da sintaxe, porque ela nos ilude constantemente com armadilhas muito bem montadas.

Num documento do Ministério da Educação, por exemplo, as autoras escrevem esta frase: «as tentativas infantis de escrita inventada [...] levam as crianças a analisarem as palavras para decidirem quantas e quais as letras que, do seu ponto de vista, são adequadas escrever
Penso que nenhum dos leitores passa por esta frase sem a achar estranha, porque aquele final («são adequadas escrever») não soa lá muito bem. Contudo, e mesmo assim, deve haver quem se interrogue sobre a sua correcção. Porque já sabemos que, frequentemente, o que soa "mal" está correcto. Por isso mesmo, há quem opte, como as autoras, por deixar operar a hipercorrecção, elegendo como versão preferível da frase (entre «quais as letras que [...] são adequadas escrever» e "quais as letras que é adequado escrever") aquela que incorre na falha gramatical.
Mas, se a frase que soa pior é a escolhida, há decerto um bom argumento que o justifique. Esse argumento será a concordância entre o adjectivo adequado (que é flexionado em número e género, adequadas) e o nome letras, que parece exigir essa concordância.
Acontece, porém, que o verbo escrever é que comanda a flexão do adjectivo, pois aqui é o sujeito da oração «que é adequado escrever», na qual pronome que representa a expressão «quantas e quais as letras» da oração anterior. Os restantes elementos são: sujeito (escrever), verbo (é) e predicativo (adequado). Ora, se o sujeito da frase é um verbo no infinitivo, naturalmente o predicativo que com ele concorda só pode estar no masculino singular.
Terá um falante comum de saber tanta gramática para optar pela concordância correcta? Não. Bastar-lhe-á tirar a palavra "que" à oração para perceber de imediato que a sequência original não faz sentido: *são adequadas escrever. Ou, invertendo a ordem dos elementos, para facilitar mais ainda: *escrever são adequadas.

24 novembro 2009

Os crioulos dos séculos XX/XXI






Os crioulos, como sabemos, nasceram da necessidade de comunicação por parte de pessoas que falavam línguas diferentes e pretendiam, essencialmente, estabelecer trocas comerciais. Derivam de códigos linguísticos simplificados e mistos (conhecidos como pidgins), ou seja, baseados nos idiomas dos intervenientes na sua criação.
Mas hoje em dia, os crioulos ainda estão na moda, apesar de o inglês ser a língua franca do mundo dito civilizado. São criados pelas pessoas que traduzem os textos das instruções de produtos comerciais fabricados em série, sobretudo os mais baratos e/ou de qualidade duvidosa, e cingem-se à comunicação escrita.
Nos crioulos desse tipo aparentados com a língua portuguesa, os acentos gráficos estão nas palavras erradas ou simplesmente não aparecem, há palavras que são abreviadas ou simplificadas, o ç é frequentemente substituído por um c, a ortografia aproxima-se da de outras línguas cujo léxico seja semelhante (normalmente, as línguas que o tradutor domina melhor) e a sintaxe pode apresentar particularidades bizarras, que por vezes dificultam a interpretação da mensagem.
O exemplo da imagem ainda apresenta semelhanças muito fortes com a língua portuguesa, mas, nos casos mais sofisticados, a boa utilização do produto exige a aprendizagem prévia do crioulo em que as instruções estão escritas, apesar de, à primeira vista, parecer português!

24 agosto 2009

O correcto que soa mal

No primeiro comentário ao texto anterior, um(a) leitor(a) sugere que determinada estrutura gramatical está incorrecta «porque soa mal». Esta é uma explicação simples e aparentemente eficaz, usada sobretudo por todos os que não dominam (nem têm de dominar!) a terminologia necessária para se aventurarem em explicações técnicas. Isto não é, portanto, uma crítica, nem faria sentido que o fosse. Também os linguistas, aliás, são apanhados a tentar decidir como se deve dizer uma expressão de acordo com o critério da boa ou má "sonoridade".
Ao longo da vida, mas de forma mais notória durante os anos da infância em que adquirimos o idioma materno, vamos seleccionando e guardando na memória as combinações e flexões que "soam bem" (porque são as que ouvimos mais) e descartando aquelas que, embora pudéssemos ter usado inicialmente, se revelam inadequadas, porque não encontram eco e por vezes são até apontadas como erradas "porque soam mal". E assim as crianças deixam de dizer "fazi" e "escrevido" para passarem a dizer fiz e escrito, esquecem-se dos "balãos" e das "cavalas" e registam balões e éguas.

Porém... a língua reserva-nos muitas surpresas, mesmo quando já somos adultos e julgamos saber tudo o que é preciso para falar correctamente. Se estivermos atentos e abertos, a revelação, para alguns interessante, para outros incómoda, é inevitável: nem tudo o que soa bem porque se ouve muito (pelo menos em certos meios) é necessariamente correcto. E vão-se acumulando os exemplos...
Ora, façam a experiência de tentar decidir o que ouvem mais e o que está certo, das seguintes possibilidades:

"Pesava três quilos e duzentos" ou "pesava três quilos e duzentas"?

"Ainda bem que eu intervim a tempo" ou "ainda bem que eu intervi a tempo"?

"Era bom que ela se entretesse" ou "era bom que ela se entretivesse"?

"Irei quando reaver o dinheiro" ou "irei quando reouver o dinheiro"?

"Foi condenado por ter matado o irmão" ou "foi condenado por ter morto o irmão"?

"Far-te-ia muita diferença" ou "faria-te muita diferença"?

E por aí fora...

18 agosto 2009

Que, de quem e cujo

Pedindo desculpa a todos por ter ido de férias sem avisar (!), aqui estou novamente, com uma pergunta: qual das seguintes opções não serve para completar a frase e porquê?

Aquele é o meu vizinho...

a) que a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

b) cuja filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.

c) de quem a filha é candidata à presidência da Câmara Municipal.