31 março 2010

Assento-lhe o acento... ou não?!


Ao ler uma história aos meus filhos, deparei com este «avôzinho», que é erro muito frequente.

Nas palavras terminadas em -zinho e -zito, o acento tónico recai sempre na sílaba "ZI". Por esse motivo, não podemos colocar acento gráfico noutras vogais, ainda que estas sejam "quase" tónicas, ou seja, subtónicas (porque são, na verdade, as vogais tónicas das palavras das quais essas derivam).

Assim, não se devem escrever com acento  as palavras avozinho, avozinha, cafezinho, chazinho, pezinho e sozinho, mesmo sabendo que avô, avó, café, chá, pé e só levam acento gráfico!

26 março 2010

"Crianças abusadas" ou "vítimas de abuso"?

“Crianças abusadas” é uma expressão incorrecta do ponto de vista sintáctico. E porquê?
Abusado é o particípio passado de um verbo que rege a preposição de (por exemplo: «não abuses da minha paciência!»). O verbo abusar não tem, pois, complemento directo, pelo que não pode ser conjugado na voz passiva.
Tal como não é sintacticamente correcto dizer “ele abusou a criança”, também não é possível transformar essa estrutura activa numa passiva: “a criança foi abusada por ele”.
Assim, para se exprimir a ideia de «maltratar sexualmente, violar», devem utilizar-se expressões como «crianças que sofreram abusos» ou «crianças vítimas de abuso».

21 março 2010

Ensaio sobre o Medo

O novo trabalho de Isilda Paulo, levado ao palco pelo Grupo Artes Cénicas, em cena no Auditório da Associação de Moradores do Bairro 18 de Maio, na Outurela (Carnaxide), é um "ensaio" em duas partes, que nos convida desde logo a tomar uma posição crítica por meio do título, que é como um imperativo intelectual: "ensaio sobre", ou seja, "reflexão para reflectir". Que é como quem diz: "isto é o que eu pensei, e vocês, o que pensam?"
Unindo Brecht a Pirandello, esta peça revela-se bem mais original do que à partida poderia parecer. A vida e o teatro misturam-se num arriscado movimento de fusão, que conduz os actores a um empolgante clímax do qual nem o público sai incólume, pois não há ninguém que não esteja envolvido neste drama surpreendente, em que afinal se encena muito mais do que o medo, embora este seja o leit-motiv explicitamente eleito.
O medo, sabemo-lo, pode ter inúmeras facetas e estar relacionado com tudo o que fazemos e tudo o que somos. Não há ninguém no mundo que nunca tenha sentido medo.
Podemos ter medo de alguém em particular ou de tudo e todos os que nos rodeiam, como na Alemanha de Hitler, podemos ter medo de assumir um erro cometido e de sofrer as consequências, como os amantes adúlteros, podemos ter medo de nós próprios e do que poderemos ser capazes de fazer, em situação de crise. O medo compõe uma paleta de infinitas tonalidades que nos colora permanentemente a alma, desde os tons mais suaves, do medo que os outros sentem da nossa falta de medo, passando pelos tons vivos e fortes do medo da rejeição, de não sermos amados, até aos mais sombrios e carregados, do medo autodestrutivo, aniquilador. Porque o medo é a primeira e mais íntima forma de violência, aquela da qual somos vítimas antes de qualquer outra. Tolhe-nos a racionalidade, vira-nos contra os outros e contra nós próprios. De nada nos serve, pois a inocência torna-se ainda mais frágil, minada pela certeza antecipada da vitimação; e a culpa denuncia-se, enquanto agoniza na incerteza na sua descoberta. O medo é a nossa grande fraqueza, o nosso defeito de fabrico. E a força que possamos reunir contra ele, longe de o poder anular, será a força de o compreender.
Como é hábito, os actores percebem-se fortemente empenhados, este é um trabalho de amadores profissionais. Mas entre todos, destaco Jorge Aurélio, mais uma vez. Provavelmente, por ser o único que conheço (e mal) fora do palco. Ainda assim, tento explicar o que me entusiasma no seu desempenho: a dicção impecável, a postura séria, empenhada, que me faz sorrir, mesmo quando ele é dramático. A sua arrebatada e arrebatadora forma de ser em palco. Sem excessos, sem falhas, sem fraquezas. Sóbrio, elegante, pura e simplesmente genial. Todo o elenco, porém, está de parabéns!

 
Não desperdicem a oportunidade de ver esta peça, por apenas 5 euros, durante este mês, em Carnaxide!

19 março 2010

Qual o plural de "sem-abrigo"?


Hoje, uma aluna fez-me uma pergunta muito interessante. Tinha lido num jornal uma frase do tipo "Sem-abrigo têm nova instituição de apoio" e achou estranho que o verbo estivesse no plural, pois não havia "s" no nome e a ausência de determinante não ajudava a esclarecer a dúvida, pelo contrário.

Quando me perguntou se aquilo fazia sentido, confesso que tive dúvidas. Parecia-me que sim, mas não conseguia encontrar nenhuma regra, na minha cabeça (influenciada pela gramática CUNHA & CINTRA) que justificasse o singular "abrigo", quando se trata de um nome, que supostamente deve ser flexionado no plural. Então, inclinei-me para o plural "sem-abrigos" (tendo em conta a lógica C&C: se um dos termos do composto é palavra invariável e o outro um substantivo, só se flexiona o substantivo), mas aconselhei-a a consultar o Ciberdúvidas, porque ainda me restavam dúvidas.

E ainda bem! Afinal, a expressão "sem-abrigo" pressupõe uma oração de tipo adverbial (o sem-abrigo é aquele "que não tem abrigo") e por isso não se considera necessário referir "abrigos" quando quem não tem onde se abrigar são várias pessoas em vez de uma.  Ao que parece, é  por ter carácter adverbial que esta expressão é invariável, tal como os advérbios. Se por um lado isto pode parecer estranho, porque afinal estamos a falar de um nome e não de um advérbio, acaba por ter lógica, quando comparamos esse nome com uma expressão semelhante. Optar por dizer "os sem-abrigos" será mais ou menos como, em vez de "os de além" dizermos "os de aléns"... não faz sentido!
Infelizmente, muitas gramáticas são omissas quanto a este e outros casos semelhantes, como sem-terra e sem-tecto, que são compostos igualmente uniformes.

E assim se vai aprendendo sempre, e também com os alunos!





15 março 2010

As partidas que os "és" nos pregam


Este, confesso, é dos erros que a mim me apanham desprevenida. Até já publiquei algures neste blogue um texto onde escrevi "vêm" em vez de "vêem", ou vice-versa. Só muito mais tarde corrigi o erro e foi preciso que alguém me alertasse para isso! Assim, não é para condenar ou ridicularizar ninguém que aqui coloco esta fotografia, mas apenas para ilustrar o texto, com uma imagem colorida e elucidativa.
Mas a pronúncia, se dissermos a palavra muito devagar, não engana, ainda que em nenhum dos casos (vêm ou vêem) as letras tenham uma correspondência lógica ou inequívoca com os sons. 
No caso da flexão do verbo vir (e na pronúncia-padrão para o português europeu), temos, nas duas sílabas, o mesmo ditongo nasal: [vαjαj] (por favor, imaginem que há um til por cima dos ditongos, que eu não consigo lá pô-lo!). Já na flexão de ver, temos apenas um ditongo, sendo que a primeira sílaba nem sequer é nasal: [veαj] (agora imaginem o til apenas sobre as duas vogais finais).
Ora, à partida, não faz propriamente sentido que, vêem, de ver, se escreva com dois "és", ao passo que vêm, de vir, se escreva apenas com um, dado que, em ambos os casos, há mais do que um som vocálico em causa. Porém, eu costumo dizer aos meus alunos: quando há dois sons diferentes para o e - [ve]-[αj] - precisamos de duas letras e: vêem. Quando o e tem o mesmo som, [vαj]-[αj], basta uma: vêm.
Será que isto ajuda? Espero que sim!

09 março 2010

Sediada ou sedeada?


   Não é raro ver-se escrita uma frase cujo sujeito é «A empresa X, sediada/sedeada em...», e também não são raras as dúvidas sobre a vogal que vem a seguir ao d, por parte de quem precisa de escrever o verbo em questão e por parte de quem o lê com uma determinada grafia em detrimento de outra.

«Dúvidas? Mas porquê, se o verbo deriva do nome sede, que se escreve com e no fim?» - Perguntarão, talvez, algumas pessoas. Porém, como sabemos, a última vogal de um nome nem sempre se mantém nos respectivos derivados, ou por razões etimológicas, ou porque os sufixos começam frequentemente por vogal, sobrepondo-se esta à vogal final da palavra base. Exemplifiquemos:

pulso > pulseira
cabo-verde > cabo-verdiano
cabeça > cabecear
presença > presenciar

   Ora, como vemos, existem dois sufixos verbais com formas parecidas: -ear e -iar.
   Contudo, achamos que há uma diferença importante entre eles: o primeiro, -ear, exprime uma ideia de movimento, de deslocação, que está presente nos derivados que o contêm: cabecear (abanar a cabeça), pontapear (dar pontapés), folhear (passar as folhas), nortear (encaminhar para norte) - e inclusivamente o verbo sedear, que, com esta grafia, significa «escovar com sedas».
   Já o segundo sufixo, -iar, não transmite essa ideia. Em premiar (dar um prémio), presenciar (estar presente), remediar (dar remédio), chefiar (ser o chefe) e sediar (estabelecer sede) não há qualquer relação com movimento. Assim se justifica, no nosso ponto de vista, que o significado «ter sede em» seja veiculado pelo verbo sediar, com i.





02 março 2010

Eirós ou eiroses?


O que diriam?

a) Naquele restaurante servem umas eiroses deliciosas.

b) Naquele restaurante servem umas eirós deliciosas.

c) Nenhuma das duas anteriores, porque não sabem qual é o restaurante nem provaram essa suposta delícia.

d) Nenhuma das três anteriores, porque não sabem se o plural em questão é eirós ou eiroses.














A resposta correcta (para quem conhecesse o restaurante!) seria a b), pois eiró, como filhó, é a palavra feminina no singular. A forma do plural é eirós, como filhós.



27 fevereiro 2010

Norte ou norte?



NA FRASE «ESSE É UM PRATO MUITO TÍPICO DO NORTE», A PALAVRA NORTE DEVE ESCREVER-SE:


A – COM INICIAL MINÚSCULA (norte)

B – COM INICIAL MAIÚSCULA (Norte)

?
















A resposta correcta é Norte, com letra maiúscula.

Neste contexto, não se trata do ponto cardeal norte, mas sim da região Norte, que é um nome próprio. Do mesmo modo que se fala do Nordeste brasileiro, do Norte e do Sul de Portugal.

Numa frase como «esta casa está virada a norte», já estamos perante o ponto cardeal.

19 fevereiro 2010

O problema de pegar ao colo


... é que, quando queremos substituir o objecto, ser, criança, namorada, cão, ou seja o que for em que se pega por um pronome, é provável que tenhamos dúvidas quanto à correcção da frase que resulta dessa substituição.
Imaginemos que se trata de um bebé. Ao reformular a frase "Tirou o bebé da cama e pegou no bebé ao colo" sem referir pela segunda vez o nome bebé, devemos preferir:

a) Tirou o bebé da cama e pegou-lhe ao colo

b) Tirou o bebé da cama e pegou-o ao colo

c) Tirou o bebé da cama e pegou nele ao colo

?

16 fevereiro 2010

Registo formal em ambiente pré-lúdico


Este fim-de-semana fiz algo que há muitos anos não fazia: joguei à Batalha Naval. E o divertimento que o jogo me proporcionou não se deveu apenas aos momentos animados entre ensinar a minha filha a jogar e perder dois jogos consecutivos. Passou igualmente pela leitura das instruções que vinham na caixa, guardadas religiosamente durante décadas e cujo registo me fez pensar que, hoje em dia, talvez devessem ser "adaptadas" a um português mais coloquial - visto que a linguagem formal, cuidada, está cada vez mais longe dos olhos e ouvidos dos jovens.

Leia-se este excerto, por exemplo:

«Assim, os jogadores passarão a dar um palpite de cada vez, alternadamente, palpite esse que consiste em pronunciar ao adversário um NÚMERO e uma LETRA. Em resposta o adversário dirá se há «FALHA» ou «COLISÃO». [...] No caso de ter anunciado «COLISÃO», o José colocará um perno vermelho no furo da embarcação atingida enquanto que o António sinalizará também, com um perno vermelho, o seu quadrado de marcação. [...] Assim, conforme o jogo vai decorrendo, saberá quais os números já pedidos e bem assim quais os certeiros e não certeiros.»

Na próxima revisão do folheto, proponho que as frases acima citadas sejam escritas da seguinte forma:

«Então, cada jogador diz, à vez, um NÚMERO e uma LETRA, que é onde pensa que pode estar um barco do outro. O outro responde  «ÁGUA» ou «FOGO». [...] Se disser «FOGO», o Zé mete um pino encarnado no buraco do barco que levou o balázio,  e  o Tó também mete  um pino encarnado no mesmo sítio, no quadro onde marca os  tiros que dá.  [...] Assim, durante o jogo, sabe que números é que já pediu e, desses, quais é que foram em cheio e quais é foram na água.»




12 fevereiro 2010

Erros frequentes


As frases que se seguem exemplificam alguns erros gramaticais (num sentido lato) que encontro por vezes nas comunicações escritas. Conseguem detectá-los?

a) Informamos que a escola estará encerrada do dia 15 ao dia 17, inclusivé.

b) O projecto " Alimentação e hábitos de vida saudável" vai de encontro às boas práticas de convivência e saúde alimentar.

c) No caso da suspensão se verificar num período superior a 30 dias, a inscrição do utente será anulada.

d) É com grande prazer que anuncio que, o vosso educando, foi o aluno da semana pelo seu bom desempenho e comportamento.

e) A partir do próximo mês, debitaremos o valor de 5 euros na falta de devolução das toalhas do ginásio.

f) As máscaras dos alunos deverão ser o mais criativas possíveis e feitas com materiais reciclados.

07 fevereiro 2010

Poderem ou puderem?


Puderem seria a grafia correcta numa frase condicional, após a conjunção se, em que o verbo poder estaria no futuro do conjuntivo. Por exemplo, "Se a puderem beber, não se irão arrepender".

Poderem é a grafia correcta numa frase como a dos azulejos, em que o verbo está no infinitivo pessoal. Usa-se a seguir a preposições como para, de, por, etc. Portanto, «Corre, corre até à fonte / Para a poderem beber».

Note-se que o som do e é diferente, nestas duas formas verbais: quando se escreve com u, puderem tem [é] aberto, a seguir ao d. Quando se escreve com o, o som do e a seguir ao d é semifechado: [ê].

03 fevereiro 2010

A rima das sílabas e a rima dos versos

Quando falo da estrutura das sílabas aos meus alunos, há uma pergunta que eles fazem sempre:

- Não é estranho chamar-se "rima" a uma parte da sílaba, quando se confunde com a "rima" dos versos?!

A estranheza que eles invocam justifica-se, no fundo, na medida em que conhecem bem o conceito de rima enquanto consonância (embora não o consigam verbalizar senão dizendo algo impreciso como "é o mesmo som no fim das palavras), ao passo que a noção de rima da sílaba lhes é totalmente desconhecida.
Mas não é, decerto, por mera coincidência que ambas as noções têm o mesmo nome. A consonância das palavras que rimam não é estabelecida a partir de um ambíguo "fim da palavra" - que tanto pode ter duas letras, como em Maria/dormia, como seis, por exemplo em tétrico/métrico - mas define-se enquanto identificação total dos sons de duas palavras, a partir da vogal tónica de cada uma delas. A rima (dos versos) só começa "a contar", por assim dizer, não a partir da sílaba tónica, mas da vogal tónica dessa sílaba. Por isso, as consoantes distintas entre Ma-ria e dor-mia não a tornam imperfeita.

E onde é que entra aqui a tal noção de rima da sílaba? É que a rima de uma sílaba é precisamente a parte (mais importante), que inclui o núcleo (vogal ou vogais tónicas) e a coda (consoante que se lhe siga), mas exclui o ataque, que é a consoante ou consoantes que exista(m) numa sílaba antes da vogal.
Assim, a rima dos versos é estabelecida a partir da rima da sílaba tónica (sem o ataque), e não simplesmente da sílaba tónica inteira (ataque incluído).
Não tenho a certeza, mas algo me diz, posto isto, que o nome dado a esse constituinte da sílaba, a rima, provém da sua relevância para o estabelecimento de consonâncias rítmicas...

Para quem queira aprofundar os seus conhecimentos sobre a estrutura das sílabas do português, aqui fica uma sugestão de leitura: um livrinho muito interessante e útil, sobretudo para educadores e  professores, que inclui sugestões de actividades para desenvolver a consciência silábica adequadas a todos os níveis de ensino:
Maria João Freitas e Ana Lúcia Santos, Contar (Histórias de) Sílabas: Descrição e Implicações para o Ensino do Português como Língua Materna. Lisboa: Colibri/Associação de Professores de Português, 2001.

27 janeiro 2010

Desafio de pontuação


Das cinco frases que se seguem, apenas uma está integralmente correcta, no que respeita ao uso da pontuação. Qual é?


1 – Os jogos estimulam diversas capacidades tais como, a memória, o raciocínio, a destreza verbal, a rapidez de reacção e a socialização.
2 – A sociedade nos nossos dias, tende a favorecer cada vez mais as camadas jovens da população.
3 – O cérebro humano tem sido descrito como a estrutura mais complexa do universo, este encontra-se dividido em dois hemisférios sendo cada um deles responsável por deteminadas faculdades.
4 – Os alpinistas que já tinham escalado aquela montanha não usaram a velha ponte de madeira.
5 – Os alpinistas que já tinham escalado aquela montanha, não usaram a velha ponte de madeira.

19 janeiro 2010

A Maior Flor do Mundo, de José Saramago

O que acham deste vídeo e, claro, da história e da sua mensagem?


14 janeiro 2010

Novo desafio de caça ao erro

Antes de mais, desculpem a falta de textos, mas a minha vida tem sido complicada...!


Aqui vos deixo mais um desafio: quais são os erros gramaticais do texto que se segue?


Infelizmente, verificasse que a felicidade não está ao alcance de todos. A célebre constatação de que o dinheiro não trás felicidade tem hoje uma paradoxal terminação: “...mas ajuda muito!” Com efeito, um dos requesitos para se poder ser feliz é ter dinheiro suficiente para pagar todas as comodidades da vida moderna: sem casa, sem água, sem gaz e sem luz, quem é que consegue ser feliz? Contráriamente ao que muitos pensam, ainda à muito boa gente por esse mundo fora que não tem nenhuma dessas coisas. Depois, é preciso saúde, que muita gente também não têm. Se houver qualquer desiquilíbrio permanente, mental ou físico, na nossa vida, também será dificil alcançar a felicidade. Por fim, se analizarmos os (poucos) casos de pessoas que são realmente felizes, chegaremos à conclusão de que todas elas amam e são amadas. Ora, o amor não toca todos os corações... Lamentavelmente, muitos estão empedernidos e são impermiáveis aos sentimentos de afecto e amizade.

03 janeiro 2010

Ano novo, grafia nova... ou não?!

Parece que o Acordo continua a dormir em Portugal, embora não tenha propriamente um sono descansado!
Esta abertura do Ciberdúvidas deixa várias sugestões de leitura, para quem queira saber em que ponto as coisas estão, no que toca à aplicação da já serôdia norma de 1990. Destacamos o texto de Alexandra Prado Coelho e, em particular, este pequeno excerto:

«A nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, parece partilhar as convicções do antecessor, José António Pinto Ribeiro, e diz que quanto mais depressa o aplicarmos, melhor será para afirmar a língua portuguesa no mundo. A ministra da Educação, Isabel Alçada, pede tempo para a introdução das novas regras nas escolas. Em que ficamos?»

Ficamos na indefinição do costume, na confusão a que estamos habituados. E, para piorar as coisas, ficamos a saber ainda que vai haver mais do que um vocabulário ortográfico da língua portuguesa (obra supostamente esclarecedora quanto à unificação da grafia e à resolução das ambiguidades que o texto do Acordo lança para os falantes). Parece que há especialistas a trabalhar em simultâneo, o que seria muito bom... mas em grupos separados, o que é péssimo. Portanto, a pergunta vai continuar a pairar sobre nós, comuns utilizadores da língua: em que é que ficamos?!

Com ou sem Acordo... bom ano a todos!

24 dezembro 2009

O Evangelho segundo a Internet




A foto é bonita e a intenção também.
O texto, porém, deve ter sido retirado na base do "copy-paste" da Internet... ou então já há muitos brasileiros a residir em Óbidos!

Obrigada, Matilde, e feliz Natal a todos os leitores!

22 dezembro 2009

Feliz Natal a todos!

E porque a língua portuguesa também é gestual, aqui fica uma bela mensagem de Natal. Até breve!



18 dezembro 2009

Com o pé na argola da sintaxe

É fácil pormos o pé na argola da sintaxe, porque ela nos ilude constantemente com armadilhas muito bem montadas.

Num documento do Ministério da Educação, por exemplo, as autoras escrevem esta frase: «as tentativas infantis de escrita inventada [...] levam as crianças a analisarem as palavras para decidirem quantas e quais as letras que, do seu ponto de vista, são adequadas escrever.»
Penso que nenhum dos leitores passa por esta frase sem a achar estranha, porque aquele final («são adequadas escrever») não soa lá muito bem. Contudo, e mesmo assim, deve haver quem se interrogue sobre a sua correcção. Porque já sabemos que, frequentemente, o que soa "mal" está correcto. Por isso mesmo, há quem opte, como as autoras, por deixar operar a hipercorrecção, elegendo como versão preferível da frase (entre «quais as letras que [...] são adequadas escrever» e "quais as letras que é adequado escrever") aquela que incorre na falha gramatical.
Mas, se a frase que soa pior é a escolhida, há decerto um bom argumento que o justifique. Esse argumento será a concordância entre o adjectivo adequado (que é flexionado em número e género, adequadas) e o nome letras, que parece exigir essa concordância.
Acontece, porém, que o verbo escrever é que comanda a flexão do adjectivo, pois aqui é o sujeito da oração «que é adequado escrever», na qual pronome que representa a expressão «quantas e quais as letras» da oração anterior. Os restantes elementos são: sujeito (escrever), verbo (é) e predicativo (adequado). Ora, se o sujeito da frase é um verbo no infinitivo, naturalmente o predicativo que com ele concorda só pode estar no masculino singular.
Terá um falante comum de saber tanta gramática para optar pela concordância correcta? Não. Bastar-lhe-á tirar a palavra "que" à oração para perceber de imediato que a sequência original não faz sentido: *são adequadas escrever. Ou, invertendo a ordem dos elementos, para facilitar mais ainda: *escrever são adequadas.

17 dezembro 2009

Desafio


Para quem ainda não se cansou, aqui fica mais um texto com alguns erros para caçar!


Tal como o homem pré-histórico, temos necessidades fisiológicas de cuja satisfação dependemos para sobreviver. Por isso, em pleno século XXI, a vida continua a ser o grande valor a perservar. A necessidade de sobreviver-mos continua a ser a nossa primeira e última necessidade, ainda que muitos não tenham consciência disso.
Efectivamente, o homem moderno, civilizado, urbano, vive rodeado de todos os confortos e munido de enúmeros meios que lhe permitem “superviver”, pelo que tende a esquecer-se de que a morte o espreita, a todo o momento, como sempre espreitou. Para além disso, as suas preocupações quotidianas, mais ou menos supérfulas, tornam-no egoista, ou pelo menos indiferente às ameaças à vida de outrém. 
 
 

11 dezembro 2009

Portinglês aos pontapés no Moodle

Na plataforma Moodle, como seria de esperar, usa-se e abusa-se de estrangeirismos. Mas, para além disso, dão-se alguns pontapés na nossa gramática - como este excerto demonstra:

Mostrar a janela de Mensagem automaticamente quando houverem novas mensagens (o seu browser necessitará de estar definido para permitir popups neste site)

Não há ninguém que faça a revisão e correcção deste portinglês?!






04 dezembro 2009

Afinal, qual é o plural de item?

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A palavra item não parece suscitar dúvidas entre os falantes que conheço - pelo menos nunca ninguém me perguntou como é que se deveria pronunciar, escrever ou flexionar no plural. No entanto, o facto de ouvir bastantes vezes o plural "ítemes" (sobretudo por parte de pessoas letradas e eruditas) - e, menos frequentemente, o singular "íteme" - levou-me a pensar que talvez fosse útil prestar aqui um esclarecimento.

Item é uma palavra latina cujo significado original é «igualmente, do mesmo modo; além disso; segunda vez, de novo, outra vez». Mas faz parte da língua portuguesa, com a mesma forma, pelo menos desde o século XIV (com o significado de «cláusula, artigo ou unidade, numa enumeração»). Portanto,  sendo palavra grave terminada em -em, pronuncia-se "ítãi" (na variante padrão lusa), ou seja, o núcleo da sílaba final é idêntico aos de abrem, contem ou nuvem. E, se vem do latim e já cá anda pelo menos há 600 anos,  é  absurdo pronunciá-la à inglesa ("aitam"), como se fosse um estrangeirismo acabadinho de chegar.
Quanto ao plural de item, este não pode, naturalmente, ser *items, pois o português não admite esta combinação entre o m final do nome no singular e o s do plural, sendo necessário substituir a primeira das duas consoantes por n, para manter o ditongo nasal, à semelhança do que sucede com um/uns, nuvem/nuvens, batom/batons e por aí fora. Portanto: itens.
Talvez porque a palavra item conserva a sua forma latina original pareça ser "errado" flexioná-la segundo a gramática do português. Em todo o caso, é preciso rendermo-nos à evidência: dizer ou escrever "items" não faz muito sentido. Não dá jeito nem soa melhor!

02 dezembro 2009

E aberto sem acento



Tal como nem tudo o que luz (ou reluz) é ouro, nem todo o e aberto precisa de acento. Por duas razões:

Por um lado, o acento agudo (que "sobe" para a direita) serve SEMPRE, isto é,  EXCLUSIVAMENTE, para marcar a vogal tónica de uma palavra: a mais forte, a que se ouve melhor, a que prolongamos quando gritamos essa palavra.
Se quando gritamos a palavra pedicure não prolongamos o e, então isso significa que não podemos colocar sobre ele um acento gráfico, pois a vogal tónica é u (pedicuuuuuuuuuure!).

Por outro lado, uma vogal aberta, como [ɛ], [ɔ], ou [a], não leva necessariamente acento agudo, mesmo quando é o núcleo da sílaba tónica. Precisa dele quando a palavra em questão poderia ser pronunciada de outra forma, sem o acento, como se pode verificar com médico, que sem acento gráfico passa à forma verbal (eu) medico; cópia, que se transforma em (ele) copia; e o célebre cágado, que já estão a ver no que dá...
Mas se não há margem para erro ou dúvida, por exemplo, quando não há mais nenhuma vogal na palavra (e a vogal existente não é a última letra), como acontece em gel, mel, mal e dar, então o acento agudo é dispensável. Seria absurdo escrever már, sál, quér e sól, tal como é absurdo escrever gél.

Obrigada, Matilde, pela foto!




26 novembro 2009

Aos alunos que foram avaliados hoje

Eis o texto prometido.
Mas, claro, para que faça sentido colocá-lo aqui, deixo-o com alguns erros, para descobrirem... já que houve tantos e tão entusiasmados comentários ao desafio anterior...!



Informamos que, a partir do início do mês de Outubro, as crianças deverão chegar imperetrivelmente até às nove e meia, afim de evitar distúrbios nas actividades e desiquilíbrios na formação das crianças. Os atrasos poderão ser comunicados telefonicamente, mas os pais estão proibidos de entrar nas salas após a hora estipulada.
Embora estejamos, à priori, sempre ao dispôr dos pais, convém que nos avisem através de um telefonema que fazem tensão de nos ver, para pudermos dispender do tempo que com certeza será necessário para uma conversa. Assim, será possível definirmos um horário adquado, em que não haja simultaniedade entre o atendimento e a assistência aos educandos. Se aparecerem de repente, e sem querer subestimar os vossos motivos inadiáveis ou a vontade espontânea de resolver alguma questão, será mais provável que o encarregado e o respectivo cônjuge tenham de aguardar. Em caso algum as crianças serão deixadas sózinhas enquanto a educadora conversa com pais, avós ou outrém.
Se os vossos filhos forem alérgicos a algum alimento, como côco, amendoins, pêra, perú, etc., agradecemos que nos comuniquem por escrito. Se houver algum desfazamento entre as vossas instruções e o menú diário servido na escola, a responsável pela cozinha encarregar-se-á de fazer os devidos ajustes.
No dia desassete, salvo se acontecer algum precalço, e se as núvens o permitirem, iremos observar o vôo das aves migratórias ao parque da cidade. Se puderem, as crianças devem levar binóculos, além de chapéu e óculos de sol. Porém, agradecíamos que não mandassem objectos supérfluos, como jogos electrónicos.
Em caso de dúvidas ou perguntas, não exitem em contactar-nos, pois encontramo-nos à vossa disposição.

25 novembro 2009

Para os alunos que vão ser avaliados amanhã...

... aqui fica um texto com erros gramaticais, para treinarem. Quais são?




Muitos de nós concerteza já fomos assedeados por mendigos, que de repente surgem a pedir-nos uma esmola. A maioria tem um ar miseravél e enquadra-se no estereótipo do sem-abrigo, embora hajam enúmeros pedintes bem vestidos, que não se adeqúam à imagem pré-concebida construida pela experiência. Se dependesse de nós deixar-mos de os encontrar, quase todos obtariam por nunca os vêr. Mas se todos trouxessemos connosco uma moeda para despensar, um bolo, ou uma sandes, seríamos todos mais felizes.

24 novembro 2009

Os crioulos dos séculos XX/XXI






Os crioulos, como sabemos, nasceram da necessidade de comunicação por parte de pessoas que falavam línguas diferentes e pretendiam, essencialmente, estabelecer trocas comerciais. Derivam de códigos linguísticos simplificados e mistos (conhecidos como pidgins), ou seja, baseados nos idiomas dos intervenientes na sua criação.
Mas hoje em dia, os crioulos ainda estão na moda, apesar de o inglês ser a língua franca do mundo dito civilizado. São criados pelas pessoas que traduzem os textos das instruções de produtos comerciais fabricados em série, sobretudo os mais baratos e/ou de qualidade duvidosa, e cingem-se à comunicação escrita.
Nos crioulos desse tipo aparentados com a língua portuguesa, os acentos gráficos estão nas palavras erradas ou simplesmente não aparecem, há palavras que são abreviadas ou simplificadas, o ç é frequentemente substituído por um c, a ortografia aproxima-se da de outras línguas cujo léxico seja semelhante (normalmente, as línguas que o tradutor domina melhor) e a sintaxe pode apresentar particularidades bizarras, que por vezes dificultam a interpretação da mensagem.
O exemplo da imagem ainda apresenta semelhanças muito fortes com a língua portuguesa, mas, nos casos mais sofisticados, a boa utilização do produto exige a aprendizagem prévia do crioulo em que as instruções estão escritas, apesar de, à primeira vista, parecer português!

20 novembro 2009

Qual a forma correcta?




O desafio de hoje é identificar a palavra grafada correctamente, em cada par:

condicente / condizente
cônjuge / cônjugue
podesse / pudesse
carrocel / carrossel
despoletar / despultar
magestoso / majestoso
obcessão / obsessão
perscrutar / prescrutar
precariedade / precaridade
resplandecente / resplandescente
subestimar / substimar
torácico / toráxico




17 novembro 2009

Cuidado com a escrita!


No livro que estou a ler, O Priorado do Cifrão, de João Aguiar, aparecem, de vez em quando, algumas falhas ortográficas. Nesse sentido, aproveito, não para criticar a editora, mas para chamar a atenção para essas palavrinhas que, pelos vistos, pregam rasteiras aos mais capazes:

Página 103: «foi guardar a vassoura na dispensa»
A dispensa é o acto de dispensar. O lugar onde se guardam víveres é a despensa.

Página 104 (e outras): «Não tardariam as perseguições aos herejes».
A palavra hereges escreve-se com g.

Página 176: «Mesas com tampo de formica»
A formica (palavra grave) é uma doença. A resina sintética que se usa para revestir móveis chama-se fórmica – palavra esdrúxula.

Página 179: «Mas que não tentasse tomá-lo por tótó»
Em português, as palavras não podem ter dois acentos agudos, porque não têm mais do que uma sílaba tónica. Totó, como popó e bebé só leva acento na última vogal, a que é pronunciada com mais intensidade.

Página 242: «tombava uma moínha fria» (e p. 243)
Moinha, tal como rainha e bainha, não leva acento agudo no i tónico que não forma ditongo com a vogal anterior, porque este é seguido do dígrafos nh.

Páginas 251: «Eugénio Graínha» (e p. 254)
Este apelido também não deve ser escrito com acento agudo no i (portanto, Grainha), pela razão enunciada atrás.

Página 296: «Julgo que para muito espanhois é uma questão estética»
Espanhóis, por enquanto, ainda leva acento agudo no o. Porque o ditongo tónico é semiaberto, “ói” (como em caracóis), e não semifechado, “oi” (como em pois).


12 novembro 2009

Dicas para a comunicação eficaz

Porque a comunicação não envolve apenas o uso da língua, hoje resolvi deixar-vos um contributo diferente...

ANTES de comunicar, certifique-se de que:

- tem algo novo e interessante para dizer

- há alguém interessado em ouvi-lo

- consegue arranjar maneira de interessar os desinteressados, sobretudo se constituírem a totalidade dos ouvintes

- o tempo que leva a falar não é superior ao tempo (e paciência) que os ouvintes têm para lhe dispensar

- a sua aparência não vai distrair o público: não há nódoas na sua roupa, não calçou um sapato de cada cor, nem tem restos de pastel de nata nos dentes


DURANTE a sua comunicação, veja se:

- fala em vez de ler (gosta de ouvir os outros lerem por si quando o texto está à sua frente?)

- não volta as costas ao público (a menos que tenha asas ou cabeça de coruja)

- não fica mais do que 10 segundos em silêncio (na verdade, 5 segundos já é muito!)

- o seu tom de voz é audível (para quem está no fundo da sala, não para si)

- não há mais do que 2 pessoas em cada 20 a bocejar ou a dormir

- as pessoas acordadas não esboçam esgares de impaciência ou incompreensão


DEPOIS da comunicação, não se esqueça de:

- deixar bem claro que chegou ao fim (se ainda estiver alguém a ouvi-lo, claro)

- se oferecer para responder a perguntas da assistência

- deixar algo com que o público possa recordar a sua comunicação no futuro (por boas razões, entenda-se)