25 junho 2009

Não penso, logo, traduzo



A tradução literal é uma forma de ignorância? Às vezes, parece.

Se não é por ignorância, como se explica que chamemos agora "palavras-passe" (passwords) às senhas de outrora, "condicionadores" (conditioners) aos amaciadores de há anos, "estacionário" (stationery) ao material de escrita de antigamente, e até, por vezes, "rudes" (rude) às pessoas simplesmente mal-educadas?

Se não tivermos cuidado, qualquer dia teremos de nos referir aos conservantes como "preservativos" e à prisão de ventre como "constipação". Sim, meus amigos, porque, em inglês, é isso que significam preservatives e constipation, respectivamente!...

Então, não acham melhor sermos mais criteriosos na forma como tratamos a nossa língua?!

23 junho 2009

Pegar-lhe ao colo ou pegar nele ao colo?

O verbo pegar, com o significado de «agarrar, suster, segurar», não coocorre com um complemento indirecto, mas sim com um complemento oblíquo (isto é, um complemento preposicional que não é pronominalizável em –lhe).
Assim, deve dizer-se: «vou pegar em alguém ao colo», logo, «vou pegar nele ao colo». A estrutura "vou pegar-lhe ao colo" é incorrecta, porque corresponderia a "vou pegar a alguém ao colo".
Portanto, quando quiserem pegar em alguém ao colo, não digam «vou pegar-te ao colo», mas sim «vou pegar em ti ao colo»!

19 junho 2009

Vírgula intrusa

Não é um ditado popular, mas podia ser. Qualquer coisa como "se há vírgula entre sujeito e predicado, já está o caldo entornado." Ou "entre predicado e sujeito não se mete vírgula a eito"...

Não tenho dúvidas de que quase todos os leitores deste blogue ouviram as suas professoras (porque eram quase sempre "elas") dizerem, na escola, que nunca se deve pôr vírgula entre o sujeito e o predicado - sendo este dos poucos critérios que regem o emprego da vírgula (para não dizer o único) do qual têm consciência.
Então, por que razão ainda acontece tanto colocar-se errada e involuntariamente a vírgula entre o sujeito e o predicado? Ora, decorar a regra é simples, mas conseguir identificar o sujeito e o predicado em todas as orações é muito mais difícil...
Num certo cartaz que ainda se vê hoje pelas ruas está escrito, por exemplo, que «Abstenção, não é solução». É caso para dizer que está o caldo entornado - no que toca à pontuação, claro. Porque nada tenho contra a ideia expressa na frase!

17 junho 2009

Está preconcebido que é "pré-concebido"...

Não sei se repararam que, no artigo anterior, aparece o adjectivo (no feminino) preconcebida - assim mesmo, sem hífen e sem acento no e.

A mim, confesso, dá-me vontade de escrever a palavra de outra maneira... aquele prefixo, pré, com o e tão aberto, está mesmo a pedir que o grafem de forma a destacá-lo do radical. Aliás, as tabelas que aparecem nos prontuários para nos esclarecer sobre o uso dos prefixos deixam-nos desconcertados. Não é que nos dizem que o hífen se usa, depois de pré-, em qualquer palavra?!

Contudo, preconcebido e preconceber, palavras relacionadas com o substantivo preconceito, escrevem-se sem hífen, porque assim foram consagradas, através do uso. E os dicionários são unânimes, ao menos nisto!
Não podemos ir contra a norma ortográfica, obviamente. A única coisa que podemos fazer é grafar pré-conceito (variante que alguns dicionários aceitam), assim mesmo, quando queremos enfatizar o facto de se tratar de um conceito concebido antes de algo, previamente, o que só fará sentido em determinados contextos.

Enfim, trata-se de um daqueles casos em que, quando os alunos erram, até me custa penalizá-los. Apetece-me dar-lhes razão por terem escrito "pré-conceber" ou "pré-concebido", porque faz sentido e os prontuários assim recomendam. Às vezes, em tom de brincadeira, acabo mesmo por dizer: «desculpem lá qualquer coisinha...!»



Enfim, são ossos do ofício!

15 junho 2009

"Ter o estigma de que"...


Antes de mais, agradeço a todos os que responderam ao desafio anterior!

Estigma significa marca (física) na pele, um sinal que tanto pode ter sido causado por uma doença, como por um ferro em brasa, ou outro agente causador de uma mancha ou cicatriz. Por extensão, pode ser ainda uma mancha, sinal, que causa vergonha, desonra, ou outro sentimento negativo.

Assim, é possível "ter o estigma de alguma coisa", por exemplo, ter o estigma da derrota, por falhar constantemente. Também podemos "ter o estigma de que", em construções como Aquela instituição tem um estigma de que nunca se livrará ou mesmo O homem parecia ter o estigma de que seria sempre um oprimido - embora esta construção seja pouco usual e mais forçada.
O que não faz sentido é dizer que alguém tem o estigma de que outra coisa é alguma coisa. Ou seja, a frase do desafio («Algumas pessoas têm o estigma [de] que as creches são meros depósitos de bebés») está incorrecta. Aqui, não é legítimo dizer que as pessoas têm "a marca" de que as creches são depósitos de bebés, pois quem tem essa marca são as creches e não as pessoas.
O que se poderia dizer é que as pessoas têm a ideia (preconcebida) de que as creches têm essa função. E parece-me que o motivo do erro está aí: usar-se "estigma" como se significasse "ideia preconcebida". Mas também podemos dizer que as creches é que têm a tal marca, o estigma (atribuído por algumas pessoas), de que servem apenas para depositar as crianças.

Em suma: que os estigmas deixem de marcar as creches e as pessoas, pois só servem para manchar umas e outras!

09 junho 2009

Certo ou errado?

Estará ou não correcta a frase seguinte, do ponto de vista sintáctico-semântico?

Algumas pessoas têm o estigma que as creches são meros "depósitos" de bebés.


05 junho 2009

Estrangeirismos, pediram licença para entrar?

Vivemos na era da imagem. O corrupio para os ginásios e para as clínicas de beleza espelha uma verdadeira obsessão pela figura perfeita.
E a língua não escapou a esta vaidade excessiva. Também ela usa cada vez mais maquilhagem e mais adornos, e como se o produto nacional não fosse de boa qualidade, procuramos embelezá-la com adereços vindos de fora.
No universo da moda, as manequins não se podem esquecer dos seus books e composites sempre que vão a um casting. E o look convém ser bastante clean, por isso não devem exagerar na make-up!
No meio publicitário, qualquer projecto começa com um briefing dado pelo cliente, que define o deadline e aprova ou não o budget.
Na praia, os surfistas procuram ondas para exibirem os seus drops e os seus snaps. E se o mar estiver flat ou houver muito crowd, o melhor é fazer um jogging matinal ou então ficar deitadinho na toalha a apanhar banhos de sol.
E por falar em sol, não adianta tapá-lo com a peneira. Os estrangeirismos estão por todo lado, qual praga veio para nos consternar. Decididamente, entraram sem pedir licença.
Mas eles não vivem apenas em “condomínios fechados”. Eles coabitam cada vez mais em lugares comuns: no shopping, a fast food; nas lojas, os tops e as t-shirts, no cabeleireiro, o brushing; na rua, o carjacking; na escola, o bullying
E desengane-se quem pensa que os usamos por necessidade linguística. A verdade é que os usamos por moda, por prestígio e por estatuto social.
Porque há ou não um certo glamour (desculpem, queria dizer encanto!) em dizer spa em vez de termas, resort em vez de estância, feedback em vez de retorno, performance em vez de desempenho, nuances em vez de madeixas?!

Encanto para uns, tormento para outros…
Um autêntico tormento para quem vê no estrangeirismo uma ameaça ao seu património linguístico e cultural.
Mas não há nada que possamos fazer, senão rendermo-nos às evidências…
E por enquanto ainda os utilizamos gratuitamente. Mas não deve faltar muito para que tenhamos de pedir licença para os usar: empresta-me essa palavra, se faz favor?

01 junho 2009

Focar, focalizar e... enfocar?!



Sabendo que todos estes verbos estão atestados em português, a minha pergunta é: será mesmo necessário haver três verbos tão semelhantes na forma e com significados idênticos?
A resposta mais imediata que me ocorre é... não.
No entanto, também não é caso para culpar o excesso de produtividade lexical portuguesa! Até me ficaria mal, dado que já aqui tenho criticado a preguiça generalizada que nos leva a adoptar estrangeirismos a torto e a direito, muitos deles ridículos e desnecessários.
Surge-me, então, outra pergunta: o que é que esta multiplicação de palavras relacionadas com o acto de “pôr em evidência” revela sobre nós?
Que fazemos esforços permanentes para nos concentrarmos no que é importante? Que somos exibicionistas? Que temos alguma falta de visão e por isso nos esforçamos por encontrar a palavra certa para designar a acção de “captar uma imagem nítida”, como se, ao mudarmos de focar para focalizar e de focalizar para enfocar estivéssemos a ajustar o foco da nossa máquina fotográfica mental?
Pois então, se é para ver melhor, se é para visionar, se é para visualizar, foquemos, focalizemos, enfoquemos, “enfocalizemos” o que é preciso!

29 maio 2009

“We are portuguise but we likes Inglish very muche!”



Há uma empresa que, no respectivo portal na Internet, se diz “cem por cento portuguesa”, intitulando-se “Broker de serviços”. Afirma que a sua equipa tem “elevado know-how”, faz “tratamento de mailing”, “impressão de newsletters e flyers”, e também “drop-mail”. Oferece ainda serviços de “design”, “webdesign” e “re-design”. Tem especialistas em áreas como “news” e “lifestyle” e oferece-se para “produzir o seu título, dirigido ao mercado geral ou especificamente ao target da sua empresa”, nomeadamente através de “custom publishing”.

Vai ao ponto de desenvolver “sites com base em serviços especializados de webdesigner´s e webengenier´s [sic]”. Transforma “conteúdos em webcontends [sic]” e, finalmente, produz “meios e técnicas de marketing”, e “divulgação de produtos e serviços na Internet, tais como white paper´s [sic], newsletters, banner [sic], entre outros”.

Quer isto dizer que as pessoas responsáveis por essa empresa tão portuguesa, além de abusarem de anglicismos, nem sabem escrever alguns deles. Shame on them!

27 maio 2009

Ciclo vicioso ou círculo vicioso?

A expressão correcta é círculo vicioso.
De acordo com alguns dicionários, esta expressão designa uma sucessão, geralmente ininterrupta, de acontecimentos que se repetem e voltam sempre ao ponto de origem, colidindo sempre com o mesmo obstáculo.
Na doutrina de Aristóteles, esta expressão designa uma falha lógica que consiste em alcançar dedutivamente uma proposição por meio de outra que, por sua vez, não pode ser demonstrada senão através da primeira.
Por conseguinte, faz todo o sentido que a expressão seja círculo, uma vez que as situações se vão repetindo sucessivamente, provocando um impasse, isto é, A dá origem a B e, por sua vez, B dá novamente origem a A. Assim, não se sai do círculo!
A palavra ciclo, por sua vez, designa uma sucessão de fenómenos sistematicamente reproduzidos em períodos regulares.

26 maio 2009

Teatro amador só de nome


Quem puder ir a Vila Franca de Xira na próxima sexta-feira, dia 29 de Maio, não deve perder a actuação do Grupo O 18 Teatro, no Ateneu, às 21.30 h. A peça intitula-se “As duas cartas” e é baseada na obra homónima de Júlio Dinis (a adaptação é de Isilda Paulo).

Embora todas as personagens sejam uma delícia de ver e ouvir, a que mais me encantou foi o modesto João de Sousa, de origem humilde mas modos muito distintos, que tão naturalmente nos transporta para o século XIX através da forma como se exprime. Todos usam, claro, palavras e construções que não são de hoje e que adivinhamos estarem, se não iguais, pelo menos muito próximas das do texto dramático do autor, sendo a mais óbvia de todas a interjeição “cáspite”. Mas no caso dele, não há deslizes momentâneos para o vocabulário de hoje, para um tom mais contemporâneo. Há sempre aquela classe, aquela serenidade que vem de tempos mais formais e que, ironicamente, a personagem pobre exibe com maior naturalidade – como que dando a entender que a nobreza da alma (que se revela também no discurso) não depende da nobreza de linhagem e muito menos da falsa nobreza conseguida por meio do dinheiro.

Trata-se de uma excelente adaptação do texto, encenação e actuação. Vale a pena ir apreciar o trabalho deste grupo de "curiosos" e faz pena saber que tem tido pouca divulgação, porque merece muito mais espectadores! Ainda por cima, o espectáculo é gratuito.




23 maio 2009

Saudoso vocabulário dos anos oitenta

Os anos oitenta foram únicos e deixaram muita saudade em todos nós, trintões.

Não só pelas tardes passadas na rua a conversar com os amigos ao vivo e a cores (agora "chata-se" na net ou "essiemiessa-se", neologismos que acabo de inventar e que espero que se percebam...), não só pelas horas a construir cenários de florestas, circos e savanas com kalkitos, não só pela música, cuja qualidade fica comprovada pelo insistente revivalismo que hoje causa, não só pelas cartas e pelos postais em papel verdadeiro que se enviavam e recebiam, não apenas pelas colecções de latas de Coca-cola vindas de vários países que decoravam as prateleiras dos nossos quartos, mas também pelas palavras que se diziam e que quase se extinguiram, na voragem do tempo, desprezadas pelos anos 90 e praticamente apagadas das nossas memórias em pleno século XXI.
Estou a falar das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas), dos melões que se apanhavam, ou dos galos, o que era o mesmo, da paia que se tinha às vezes, de quando percebíamos que uma história que alguém contava era groupe e de outros termos do nosso inocente calão juvenil, que agora quase me fazem vir lágrimas aos olhos.
Não são saudades do calão por si só, naturalmente. São saudades do tempo em que essas palavras andavam na minha boca, misturadas com o sabor de uma alegre e despreocupada juventude.

20 maio 2009

Jogo da Língua

Para quem não saiba, a Antena 1 convida os ouvintes, todos os dias, às 06.20 e às 14.40 (excepto aos fins-de-semana), a participarem num curto programa sobre língua portuguesa em que a minha colega e co-autora deste blogue, S. Duarte, presta esclarecimentos sobre dúvidas frequentes.

Talvez já devesse ter feito aqui esta referência, pois há mais de 8 meses (tanto???) ela é a responsável pelo conteúdo do programa, que interessará, julgo eu, a todos os leitores deste blogue. Por isso mesmo, peço desculpa aos visitantes e, claro, à S. Duarte ;).
A verdade é que não sei se me fica mal ou bem fazer neste blogue um elogio ao trabalho da sua co-autora. Mas também não importa! O que importa é salientar que vale a pena ouvir as suas claras e úteis explicações.

14 maio 2009

Ai... o i com som de "ai"!


Em inglês, uma das realizações fonéticas que a letra i pode ter é o ditongo [ai]. Isto acontece em I, mice, time, kite e muitas outras palavras.
Em português, porém, o i nunca tem este som.

...ou nunca tinha, porque, com a entrada de palavras inglesas no nosso léxico, parece que nos andamos a habituar aos "ais". Os estrangeirismos estão na moda e andam na boca de muita gente. A toda a hora se ouve falar em "táimingues" para cumprir, que é para não falhar os "dedelaines", em "saites" na Internet, em "baites" de memória, em "aicebergues" a derreter, enfim, anda meio Portugal aos ais. Até dá dó!
E o outro meio?
O outro meio, se vir escritas estas palavras, se por acaso se deparar com timings, com deadlines, com sites, com bites e com icebergues provavelmente irá pensar que aquela metade anda mesmo com dores. E depois perguntar-se-á o que são, afinal, os "timingues", os "deadelines", os "sites" e os "bites". Os "aicebergues" é que, como já cá andam há mais tempo, não causam estranheza. Mas deviam! Porque o aportuguesamento da palavra só se fez em parte. Se mudámos o fim (de iceberg para icebergue), por que razão não mudámos também o início?!

13 maio 2009

VOU ao Torneio ou VOO ao Torneio?!



Perdoem-nos pela falta de artigos, mas amanhã é o dia do Torneio ISEC de Língua Portuguesa e temos estado, como calculam, a preparar as provas e a organizar o evento.


Desejamos muito boa sorte aos concorrentes e deixamos-lhes (sim, deixamos-lhes e não "deixamo-lhes"!), desde já, o nosso agradecimento sincero por participarem, pois sem eles não seria possível concretizar a 5ª edição do Torneio.


Quanto ao prémio, os vencedores terão a oportunidade de dar um passeio num avião da Gestair Flying Academy... esperamos que gostem da experiência!

07 maio 2009

UMA TURMA QUE PROMETE!

Hoje fomos à Escola D. Pedro IV, em Queluz, conversar com uma turma do 5º ano do ensino básico sobre dúvidas e erros de português, um encontro inserido na Semana da Leitura, organizada anualmente pela instituição.
Ficámos muito bem impressionadas com o entusiasmo dos alunos, que demonstraram grande vontade de participar na actividade que lhes propusemos e de responder às perguntas e desafios que lhes lançámos; e agradavelmente surpreendidas ao verificarmos que eles sabiam corrigir a maior parte dos erros que lhes mostrámos em diversas imagens, muitas das quais temos divulgado neste blogue.
Aqui ficam, portanto, os nossos parabéns aos alunos e às suas professoras de Português pelo bom trabalho que têm feito!
Aproveitamos para divulgar o blogue da Biblioteca da Escola (com uma excelente lista de ligações para páginas de interesse) e para desejar muito sucesso à Cyberteca!

05 maio 2009

Mal-estar ou mau-estar?

Quando sentimos uma indisposição ou um incómodo, devemos dizer que sentimos um mal-estar ou um mau-estar?
Por hipótese, a palavra estar poderia coocorrer com o adjectivo mau, uma vez que é, neste composto, um nome, formado por conversão a partir do verbo estar.
Porém, a expressão consagrada pelos dicionários é mal-estar, palavra composta pelo advérbio mal e pelo nome estar, que ainda conserva traços verbais (ou seja, invertendo os elementos, teríamos: «estar mal»).
Mas há um argumento ainda mais forte! Reparem que a expressão oposta é bem-estar e não bom-estar!

30 abril 2009

portinglês


Desde o "car jaquim" até ao "car audio", do "kit" ao "park", pergunto-me qual é que será o limite (quantas palavras por frase, por exemplo) após o qual a nossa língua passará a ser portinglês!

A propósito, uma nota para a agenda: na próxima segunda-feira, dia 4 de Maio, o programa Cuidado com a Língua abordará a temática dos estrangeirismos... e seu abuso.

27 abril 2009

Porque interrogativo?

Nota prévia: este é um assunto linguístico bastante controverso, pelo que respeito quem não concorde com a minha posição.
Passo a enunciar os argumentos a favor da existência de um porque interrogativo:

Factos históricos
A palavra porque provém da forma latina quare, palavra composta (qua + re = por que motivo, por que causa), mas sempre escrita como uma só palavra. Século XV: porque.

Factos lexicográficos
Vários dicionários de referência registam porque como advérbio interrogativo: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Dicionário da Porto Editora, Dicionário da Texto Editores, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “porque ocorre com valor circunstancial, expressando circunstância de causa, em frase interrogativa directa ou indirecta”.

Factos literários: abonações de grandes escritores portugueses
- Fernão Lopes, Crónica de D. João I: “Ó Deus, porque te prougue leixar um rei tão só e tão desemparado de tantos e bons como hei perdidos! (…) Ó Senhor, porque me leixaste vencer?”
- Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?”
- Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?”
“Porque vieste tão tarde?
- Bernardo Santareno, O Judeu, “Porque… porque somos tão desgraçados?!...”

Factos linguísticos
A palavra advérbio tem origem na forma latina adverbiu (junto ao verbo) e tem por função modificar um verbo, um adjectivo, outro advérbio ou uma frase, exprimindo diferentes valores: tempo, lugar, modo, causa, etc.
Em português, existem pronomes e advérbios que introduzem frases interrogativas, sendo que cada um exprime um valor semântico diferente:
- Quem (= «que pessoa») Quem chegou?
- Que (= «qual pessoa/coisa») Que compraste?
- Onde (= «em que lugar») Onde estiveste?
- Quando (= «em que altura») Quando chegaste?
- Como (= «de que modo») Como vieste?
- Porque e Porquê (= «por que motivo») Porque faltaste? / Faltaste porquê?

Se em perguntas que exprimem circunstância de causa optássemos pela expressão por que, estaríamos perante uma preposição + um pronome interrogativo, logo, substituível por outro pronome - qual, por exemplo. O resultado seria claramente agramatical: Por que chegaste atrasado? = * Por qual chegaste atrasado?

Por todos estes argumentos, parece-me legítimo o uso de porque enquanto advérbio interrogativo.

21 abril 2009

Dispor ou dispôr?


Dispor, como inferior, sem acento no o. O mesmo acontece com compor, propor e supor.
No Infinitivo, apenas o verbo pôr leva (por enquanto) acento circunflexo,
pois assim se distingue da preposição por.


20 abril 2009

Esclarecimento

Naturalmente, este esclarecimento teria surgido mais cedo, se eu me tivesse apercebido da publicação desta notícia no dia 6 de Março. Só ontem soube que fui apelidada de "linguista", o que, como todos poderão constatar ao verificar o meu perfil, não corresponde à realidade.
É preciso dizer que o jornalista teve o cuidado de me telefonar, após a nossa breve conversa no fim da apresentação que fizemos na Expolíngua, para me perguntar precisamente se eu poderia ser considerada uma linguista. Expliquei-lhe que não seria rigoroso, embora pudesse ser um termo útil para se referir às duas - a mim e à minha colega S. Duarte. No entanto, sou referida na notícia, isoladamente, como linguista, coisa que eu não esperava e penso que não faz sentido. Sou apenas uma professora de Língua Portuguesa, mais nada.

Por outro lado, o artigo centra-se numa posição radical contra o Acordo Ortográfico que terei assumido durante a apresentação na Expolíngua. Quando o li, fiquei um tanto chocada, porque ainda que eu tenha realmente proferido aquelas palavras, lê-las assim descontextualizadas não permite supor que eu também poderia falar a favor do Acordo. Porque considero que, como tudo, o Acordo tem vantagens e desvantagens.

Finalmente, a minha afirmação "politicamente incorrecta" de que no Brasil se fala outra língua pode ofender muita gente, inclusivamente aqueles que lêem este blogue. Quanto a isso, só posso explicar que, para mim, se trata de um fenómeno muito natural e comparável ao que sucedeu na Península Ibérica com o Latim: se nesta região os diferentes povos, com as suas culturas distintas, deram origem a línguas diversas, todas elas derivadas da mesma, como não aceitar que entre o português do Brasil e o que se fala em Portugal as divergências crescentes não dêem, também, origem a falares distintos, com prosódia, léxico e gramáticas próprias?

E, nesse sentido, preciso ainda de acrescentar o seguinte: este blogue é sobre a língua portuguesa que se fala em Portugal. Não por qualquer espécie de "embirração", longe de nós, mas simplesmente devido à nossa quase total ignorância sobre a(s) variante(s) que se falam e escrevem no Brasil. Seria tão absurdo pretender que os nossos esclarecimentos fossem válidos para os Brasileiros como para os Galegos. Daqui os saudamos, a uns e a outros, com respeito e com pena de não lhes podermos ser úteis.

15 abril 2009

Respostas aos PORQUÊS

1. Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?
R: Porque ao juntarmos o sufixo -iano, as duas letras finais da palavra Açores desaparecem. A vogal i é, portanto, do sufixo (Tal como flor(es) + inhas = florinhas).

2. Porque é que o verbo despender se escreve com e, se dispendioso se escreve com i?
R: O verbo despender provém do latim dispendere, com i, mas sofreu uma evolução e a partir do século XV passou a escrever-se com e.

3. Porque é que café tem acento e cafezinho não tem?
R: Porque ao associarmos qualquer sufixo a uma palavra, o acento tónico passa a recair na primeira sílaba do sufixo, logo, o acento gráfico deixa de fazer sentido (cafeZInho).

4. Porque é que o plural de carácter é caracteres?
R: Na passagem do singular ao plural, a palavra continua a ser grave quanto à acentuação e, por isso, perde o acento gráfico que existe na forma singular.

5. Porque é que torácico se escreve com c, se tórax se escreve com x?
R: Ambas as palavras provêm do grego: tórax«thoraks,akos e torácico«thorakikos.
O ks deu origem a x e o k deu origem a c.

6. Porque é pára-quedas leva hífen e parapente não leva?
R: Porque pára-quedas é uma palavra portuguesa composta por justaposição (de parar + quedas) e parapente é uma palavra que provém do francês parapente (déc. 1980).

7. Porque é que a palavra carrossel se escreve com dois s e não com c?
R: Porque provém da palavra francesa carrousel, que se escreve com s.

8. Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?
R: O nome circuncisão provém do latim circuncisionis; o verbo correspondente é circuncidar, o qual tem origem em circumcidere (cortar ao redor).

09 abril 2009

PORQUÊ??

1. Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?
2. Porque é que o verbo despender se escreve com e, se dispendioso se escreve com i?
3. Porque é que café tem acento e cafezinho não tem?
4. Porque é que o plural de carácter é caracteres?
5. Porque é que torácico se escreve com c, se tórax se escreve com x?
6. Porque é pára-quedas leva hífen e parapente não leva?
7. Porque é que a palavra carrossel se escreve com dois s e não com c?
8. Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?

Mas porquê?
Alguém quer tentar desvendar estes pequenos mistérios?!

01 abril 2009

quem munge e quem muge?



Munge a vaca
ou muge a vaca?
Tira leite
E faz ruído?
Munge e muge é igual?
Não faz sentido!
O camponês é que ordenha;
A vaca faz o som dela.
Um munge,
Outro muge,
E "a vaca munge" está mal?
Como munge e muge é parecido,
A confusão é total!
Quem munge não muge
E quem muge não munge.
Então qual,
dos que mugem ou mungem,
É que é a vaca afinal?





30 março 2009

Gazes?

Será que existem gazes e gases? Se sim, quais serão os mais malcheirosos?!







24 março 2009

Os [média] e não: [os mídia]

Parece irónico, mas os próprios meios de comunicação social pronunciam incorrectamente esta palavra. Mas afinal, porquê [média] e não [mídia]?
Porque se trata de uma palavra latina, e por isso devemos respeitar a sua fonia e grafia originais, ou seja, pronunciando o e aberto - [média] -, mas escrevendo sem qualquer acento gráfico: media.
Uma informação adicional: trata-se de uma palavra no plural, cujo singular é medium.
Portanto, tal como temos: o curriculum/os curricula; o corpus/os corpora; temos: o medium/ os media!

Nota: no português do Brasil, a pronúncia é [mídia].

19 março 2009

Que tal um banho no aquário e peixes na piscina?!





Um dos malabarismos da língua que mais me divertem é este:

piscina, que vem de peixe em latim (piscis), passou a significar tanque de água (onde não é suposto haver peixes), para nadar.

aquário, que significava, simplesmente, relativo à água, é que agora serve para lá colocar os peixes!...



Foto de Nuno Pavão

16 março 2009

Alugar ou arrendar um apartamento?

Apesar de a maioria dos dicionários referir que os verbos arrendar e alugar são sinónimos, é aconselhável o uso do verbo arrendar quando se trata de bens imóveis, por exemplo: “arrendar uma casa, um apartamento”, e do verbo alugar, quando nos referimos a bens móveis: “alugar um carro, uma bicicleta”.
Esta afirmação tem por base o artigo 1023º do Código Civil, que diz que “a locação diz-se arrendamento quando versa sobre coisa imóvel, aluguer quando incide sobre coisa móvel.”
Curioso é o facto de, quando de uma casa de férias se trata, se preferir o termo aluguer em vez de arrendamento, talvez porque o período de tempo de locação seja curto. Pelo menos, não tem um cariz tão longo quanto o da locação de uma casa de habitação.

O que é certo é que são os falantes quem faz a língua. E é a língua que faz a lei.
Será que o termo aluguer passou a referir também a locação de um bem imóvel por um curto período de tempo? O que vos parece?

10 março 2009

palavras-crianças

De entre os processos de formação de palavras novas, a afixação será o mais produtivo e, também, o mais previsível. Aliás, é tão fácil criar palavras com base naquelas que já existem, juntando-lhes prefixos ou sufixos, que o fazemos diariamente, sem dar por isso, e ficaríamos surpreendidos com a quantidade de termos que, apesar de serem usados com frequência, nem sequer constam dos dicionários.
Experimentem, por exemplo, procurar no Priberam, que é bastante actual, as palavras sistematicidade (de sistemático + -idade), potenciador (de potencia(r) + dor) e intermutável (inter- + mutável)... Ou façam outra experiência interessante: procurem-nas no dicionário on-line da Porto Editora (onde não constam) e depois consultem a Infopédia, da mesma editora, que apresenta vários textos em que elas são utilizadas! Curioso, não?!
Estas jovens palavras, tão discretas na sua novidade, são facilmente interpretadas e podem ser usadas nos mais diversos contextos, mas ainda não fazem parte do léxico "oficial" apenas por causa da sua tenra idade... é uma questão de tempo! Deixemo-las saborear a liberdade de andarem por aí a brincar nas nossas cabeças, como crianças irreverentes. Porque é também nisso que reside a beleza das línguas vivas.

07 março 2009

Os habitantes de Torres... Novas, Vedras e outras!

Nem sempre é fácil saber qual é o nome gentílico, ou pátrio, referente aos habitantes de certas cidades e vilas. É o caso dos naturais de Torres, que podem ter diferentes designações. Assim, temos:

o torrejão, ou torrejano, habitante de Torres Novas
o torriense, ou torresão, habitante de Torres Vedras
o torrense, habitante de Torres, no Rio Grande do Sul, Brasil

Esta pluralidade de nomes tão parecidos causa, naturalmente, alguma confusão. E ontem, após a nossa comunicação na Expolíngua, fomos abordadas por uma estudante torriense, que nos questionou sobre a possibilidade de haver mais do que uma designação aplicável às pessoas naturais da sua terra. Respondemos que sim, mas a nossa resposta não foi suficientemente clara, por termos confundido, nós também, os diferentes adjectivos/nomes derivados do topónimo Torres, que se aplicam aos habitantes de cidades distintas que partilham esse nome.
Aqui fica, portanto, o nosso pedido de desculpas... e o esclarecimento que acima deixámos.