12 julho 2012

Revista em linha: Cadernos do ECB


A todos os possíveis interessados, gostaria de divulgar a revista online Cadernos do ECB, cujo número V foi recentemente editado. Contém muitos artigos sobre diversas temáticas no âmbito da educação e do ensino, incluindo sobre o ensino-aprendizagem do Português, da escrita e da leitura.





Se gostarem, por favor divulguem!

05 julho 2012

Desafio lexical. Qual o termo correto: constrangedor / confrangedor? (a) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre constrangedor. (b) Encontrar alguém conhecido na praia a fazer nudismo é sempre confrangedor.

21 junho 2012

Arguição ou arguência?



O que diriam, referindo-se ao "acto de arguir": a arguição da tese ou a arguência da tese?















Parabéns aos que escolheram arguição!
Desenganem-se todos os que, como eu, pensavam que se trata de sinónimos...
A palavra arguência não está atestada em português. Soa bem, mas não é necessária, dado que temos o substantivo arguição, proveniente do latim arguitione, cujo sentido original se prende com a ideia de criticar ou censurar - aquilo que faz o arguente.
"Arguência" poderia designar algo como "qualidade de arguente", como a paciência é a qualidade de paciente, ou a decência é a qualidade de decente. Seria um termo bem formado e aceitável, mas não se sentiu ainda necessidade de o consagrar.

09 junho 2012

Novo desafio

Mais algumas frases com problemas gramaticais para resolver... na minha opinião!

1 - Se eu soubesse que ele fugiria, tê-lo-ia preso à casota...
2 - O tic-tac dos nossos relógios biológicos é impossível de ignorar.
3 - À partida não deve existir dúvidas de que a norma é importante para todos.
4 - Com gozo e satisfação troceira, os amigos mostraram-lhe a surpresa.
5 - Um estudo sobre as separações entre jovens casais, mostrou que mais 60% ocorriam antes do 5.º ano de casamento.
6 - O ballet e a Opera eram os seus espectáculos preferidos.
7 - Ela entretem-se durante bastante tempo com livros e revistas.
8 - A homília foi longa, mas muito interessante e inspiradora.
9 - A parábola narra a história de um viajante que foi roubado e maltratado, tendo sido depois encontrado moribundo por um samaritano.

 


04 junho 2012

Nova caça ao erro

Em todas as frases que se seguem há erros gramaticais. Conseguem encontrá-los?


1. Comecei a acreditar que ele ía acabar por contar tudo.
2. O desenho estava melhor feito do que a primeira tentativa.
3. Como reagiriam se vissem um homem nú a correr pela rua?
4.Um homem perguntava aos outros se não achavam estranho que houvessem tantas pessoas a entrar para o prédio da esquina.
5. As mães das crianças puxavam-lhes pelos braços, para as afastarem dali.
6. Parecia ser uma mulher muito pedante, daquelas que atribui demasiada importância à sua própria pessoa.
7.Este tipo de repreensões já não é permitida nos colégios, por ser violenta e traumatizante.
8.95% das cirurgias estéticas foram realizadas em mulheres, o que vai de encontro à ideia de que elas se preocupam mais com a aparência.
9. Vou ter de decorar a lista de trinta pessoas que será convidada para o evento.
10. Quem acha que nas frases acima não há erros, engana-se.



29 maio 2012

Como fica "capitão" no feminino?



Capitão vem do genovês capitan, por sua vez derivado do latim capitanu-. Não existia, como é natural, o feminino, mas podemos dizer que a forma preferível talvez seja capitã, a mais provável e natural, caso tivesse havido essa evolução até aos nossos dias.
No que respeita a postos militares, porém, ainda perdura a tendência para os manter invariáveis quanto ao género. Assim, é usada a forma capitão para as mulheres, e é isto mesmo que atesta o recente Vocabulário Ortográfico Português, disponibilizado em linha no Portal da Língua Portuguesa.
Mas capitoa é forma que já se usou no passado, como capitaina. Hoje, porém, essas duas formas flexionadas de capitão parecem estar a cair em desuso.

18 maio 2012

Mais bom e mais mau?

   Muita gente dirá, sem reflectir, que "mais bom" e "mais mau" são formas incorrectas de usar o grau comparativo desses adjectivos. No entanto, não são. Tudo depende do contexto...    


   O comparativo regular "mais bom", ou "mais mau", pode e deve usar-se quando comparamos adjectivos diferentes (um das quais é bom ou mau) no mesmo ser ou coisa.

   Por exemplo: “ele é mais bom do que inteligente”.
   Nesta frase, teria outro sentido dizer “ele é melhor do que inteligente”. Porque o que pretendemos dizer é que ele possui a qualidade da bondade em quantidade superior relativamente à qualidade da inteligência e não que ele possui uma qualquer qualidade (indeterminada) que é superior à inteligência.

   Outro exemplo: posso referir-me a um cão que é “mais mau do que estúpido

   Ou seja, o cão revela, para mim, maldade em grau superior, relativamente à sua estupidez.
   Mais uma vez, usar o comparativo irregular - “o cão é pior do que estúpido” - implicaria uma ideia diferente.


 

04 maio 2012

"derivado a"... ou "devido a"?

A regência preferível do adjetivo participial derivado é “de”. Portanto, devemos dizer que algo é derivado de outra coisa, ou seja, que tem nela a sua origem – por exemplo, que o iogurte é derivado do leite.
Quando falamos de causas, devemos usar a expressão consagrada devido a, que é mais adequada, porque significa precisamente “por causa de”. O verbo dever, quando conjugado pronominalmente (dever-se), tem precisamente esse sentido, que é “ter como causa, ser resultado de”.
Derivar é um pouco diferente, porque pressupõe um produto que resulta de um processo de transformação de determinada “matéria-prima”, digamos.
Assim, quando explicamos o que provocou, por exemplo, um acidente, não devemos dizer que este foi derivado a um despiste, mas que foi devido a um despiste.

30 abril 2012

Qual a diferença entre uma sigla e um acrónimo?



 

Comecemos pelas semelhanças, para que melhor se perceba a diferença: tanto as siglas como os acrónimos são vocábulos constituídos pela junção das primeiras letras de várias palavras que compõem uma expressão.
Por exemplo: BTT, bicicletas todo-o-terreno; ATL, ateliê de tempos livres; AVC, acidente vascular cerebral; OVNI, objecto voador não identificado; TAC, tomografia axial computadorizada, ou computorizada; LASER, que é um empréstimo do inglês, significa light amplification by stimulated emission of radiation.

A diferença está na pronúncia: enquanto a sigla é pronunciada letra a letra, ou seja, como se estivéssemos a soletrar (normalmente tem muitas consoantes seguidas), do acrónimo faz-se uma leitura silábica, tal como se fosse uma palavra normal.
Das que referi anteriormente, portanto, BTT ATL e AVC são siglas; OVNI, TAC e LASER são acrónimos. Os acrónimos, talvez por serem lidos silabicamente, são os que mais rapidamente passam a ser escritos com minúsculas e sem pontos a seguir a cada letra, porque tendemos a esquecer-nos de que as letras são iniciais de palavras.

17 abril 2012

"Tem-no visto ultimamente?" ou "tem-lo visto ultimamente"?

Tem-no e tem-lo são combinações diferentes de forma verbal e pronome de complemento directo. Como na pergunta do título não há indicação da pessoa que desempenha a acção de ver, há uma ambiguidade que não permite concluir qual das duas seria correcta num determinado contexto. Ambas são possíveis... vejamos porquê.

Em tem-no, temos o verbo no presente do indicativo e a pessoa é a terceira do singular. Ele ou ela tem visto determinado indivíduo, por hipótese. Essa pessoa, enquanto “objecto directo” do verbo ver, é substituída pelo pronome o. Mas como a forma verbal termina em ditongo nasal e o pronome é o de C.D., 3.ª pessoa, a regra é: acrescenta-se um n ao pronome o. Tal como acontece por exemplo em “deram-no” e “põe-nas” (e seria incorrecto dizer “deram-o” e “põe-as”).

No caso de tem-lo, o tempo do verbo é, também, o presente do indicativo. Mas há uma alteração na própria forma verbal, por causa do pronome que se lhe junta, que é novamente o de complemento directo, o. A regra é: quando as formas verbais terminam em s, r, ou z, essas consoantes finais são suprimidas se a seguir vier o pronome o/a(s) e a este pronome antepomos um l. Assim, devemos dizer: “tu come-la muito depressa” (e não “tu comes-a muito depressa”; “vou guardá-los” (e não “vou guardar-los”);  “fi-lo ontem” (e não “fiz-o ontem”).
Portanto, o sujeito implícito em "tem-lo visto" é tu. "Tu tens visto o teu vizinho ultimamente?", por exemplo, o que, simplificado, dá "tem-lo visto ultimamente?", porque: ten(s) + (l)o = tem-lo.

Assim, dependendo de quem seja o sujeito daquele tem (que poderá ser tens), deveremos optar por uma ou outra forma.

30 março 2012

"Estou cidrada" ou "estou siderada"?

Quando certas palavras se pronunciam de forma idêntica ou muito semelhante, há dúvidas que podem surgir apenas no momento em que nos vemos obrigados a escrever aquilo que apenas costumamos dizer. Então, o que nos confunde são os chamados parónimos: pares de vocábulos cujo significado é perfeitamente distinto, mas que pela forma se aproximam, como descriminado / discriminado, intersecção / intercessão, caçar / cassar, despensa / dispensa, elação / ilação, entre tantos outros. 

No caso de nos sentirmos surpreendidos, perplexos, atónitos, fulminados, "esmagados" por alguma coisa que experimentamos ou testemunhamos, o que devemos escrever: que estamos cidrados ou siderados?






A grafia certa é siderados. Vem do verbo latino siderāre, cujo significado é «sofrer a influência dos astros», como refere a Infopédia (daí a afinidade com sideral, relativo ao céu ou aos astros).

A forma participial "cidrados" só poderia vir do verbo cidrar, por sua vez derivado de cidra, o fruto da cidreira. Embora exista o substantivo cidrada, que é um doce feito com cidras, o verbo cidrar não se encontra atestado. Isso não nos impede de o usarmos, se for necessário. Porém, o seu uso deve reservar-se às situações em que uma pessoa ou coisa seja porventura esmagada por uma cidra...


26 março 2012

O correto e o incorreto: entre as duas balizas

A dicotomia correto/incorreto tem sido uma questão amplamente debatida na literatura, encontrando defensores, mas também muitos opositores.
De um lado, situam-se os normativos, puristas da língua, cuja correção linguística decorre do rigoroso cumprimento da norma escrita, fundada no exemplo dos clássicos da literatura. De outro lado, situam-se os linguistas descritivos, que privilegiam a variação linguística, com base na frequência do uso e cuja máxima é “o povo é quem faz a língua”. Porém, como sabemos, ao invés de criador da língua, o povo é, sim, um utilizador e recetor de tudo o que ouve e lê.
Tarefa difícil é a de quem, como eu, se encontra entre as duas balizas. Enquanto linguista, cabe-me a missão de observar e descrever os diferentes aspetos da língua, a sua variação, mudança, idiossincrasias e, enquanto professora, a missão de prescrever e veicular a norma.

Mas que norma? Afinal, o que é a norma?
Eugenio Coseriu definiu norma como "o conjunto de traços linguísticos distintos impostos por uma tradição cultural e social que se torna a referência para toda a comunidade linguística, sendo ensinada na escola e veiculada pelos meios de comunicação social, os quais, para serem entendidos pelo grande público devem veicular precisamente essa norma-padrão".
A norma é, assim, o resultado do processo segundo o qual uma variedade social, convertida em língua padrão, se torna num meio público de comunicação: a escola e os meios de comunicação passam a controlar a observância da sua gramática, da sua pronúncia e da sua ortografia.

E quem fixa a norma? Quem se atreve a exercer o papel de “tribunal” da língua?
Outrora, no séc. XVI, a norma estava na Corte, de cujos membros se aprendia o uso correto da linguagem. No séc. XIX, por sua vez, a norma emanava de Coimbra, berço da primeira Universidade.
Atualmente, a norma-padrão parece ser aquela que a Escola (todo o Ensino) e os meios de comunicação social – televisão, rádio e imprensa – difundem.
Mas com base em quê? Nos dicionários e nas gramáticas de referência? Nos autores literários? Nos escritores?
Para justificar as regras que prescrevem, as gramáticas normativas apoiam-se em larga medida nas atestações dos escritores. Quando as consultamos, ficamos felizes por constatar que uma dada estrutura sintática sobre a qual tínhamos dúvidas é afinal legítima, porque um grande autor a utilizou nas suas obras.
A verdade é que os escritores também têm dúvidas, como muito bem observou o professor Ivo de Castro no artigo intitulado O Linguista e a Fixação da Norma (2002) [in Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa], contando a seguinte história passada com o escritor Augusto Abelaira:
«Incerto quanto a uma construção sintática infelizmente não identificada, pegou na Nova Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira. Se Celso Cunha e Lindley Cintra estivessem cientes das hesitações de Abelaira, teriam mantido a citação? E, sem ela, a regra? O que um escritor escreve, porventura desviadamente, torna-se logo português de lei?».

Daqui se conclui que a norma é como uma prancha de surf, tentando servir de plataforma firme num mar instável que é a língua.
Esta metáfora quer tão-somente dizer que falta em Portugal uma Autoridade da Língua com força de lei e cuja missão fosse a de esclarecer os falantes sobre a pronúncia das palavras, a adaptação de estrangeirismos, algumas estruturas sintáticas mais complexas, os diferentes valores semânticos que as palavras vão assumindo; que estabelecesse a fronteira entre o erro e a variante linguística...
Enfim, que se ocupasse de todas as questões inerentes a uma língua viva, como é a língua portuguesa!

09 março 2012

"Quem Tem Medo do Acordo Ortográfico?"


O título acima foi o que demos a uma comunicação que fomos fazer ontem à Escola Básica 2 3 D. Pedro IV, em Queluz.
A pedido da responsável pela organização do evento anual Semana da Leitura, o tema foi o do Acordo Ortográfico. E como a turma que iria assistir à nossa apresentação já tinha aprendido, com a professora de Português, quais são as mudanças implicadas, optámos por levar-lhes alguns exercícios que suscitassem dúvidas e os nossos esclarecimentos.
A sessão correu bem, os meninos e meninas do 5.º ano estiveram extremamente atentos e foram muito participativos. As perplexidades foram surgindo e os porquês começaram a fazer-se ouvir. A cada regra que enunciávamos, para a eliminação de acentos ou para a utilização do hífen, surgia, de imediato, a excepção evidente e desconcertante. No final, e propositadamente, mostrámos-lhes um texto escrito numa grafia pós-acordo que, em vez de ser una e inequívoca, era escandalosamente mista e incompatível: uma "salada" de português europeu e português do Brasil.  A ideia era que percebessem que, apesar de tudo, o Acordo não nos obriga a nós a escrever "brasileiro" nem aos brasileiros a escrever conforme a grafia de Portugal. A certa altura, uma professora pergunta: «então se eu escrever "perspectiva" estarei a cometer um erro ou não?». Explicámos que em Portugal perspectiva não é aconselhado, ao passo que no Brasil é a grafia certa, pois lá pronuncia-se o [k] antes do t. «E se eu estiver no meio do Atlântico?», brincou ela.
E eu tive vontade de nunca mais me dispor a prestar esclarecimentos sobre um absurdo.

05 março 2012

Desafio linguístico

Existe alguma incorreção na frase que se segue?

«A maioria dos adeptos benfiquistas saiu do estádio com a moral em baixo!»

22 fevereiro 2012

Tal ou tais?

Os valores já não são reconhecíveis como tais ou

Os valores já não são reconhecíveis como tal ?



Resposta:

   A palavra tal pode pertencer a várias classes gramaticais. Frequentemente é usada enquanto determinante ou pronome demonstrativo, podendo ser substituída por outros como este, esse aquele / esta, essa, aquela / isto, isso, aquilo. Se tivéssemos uma frase como “tais valores deixaram de ser considerados”, não teríamos dúvidas de que “tal valores” seria incorrecto: o determinante tal está antes do nome valores e por isso tem de concordar com ele em número.
   Mas a frase é “os valores deixam de ser considerados enquanto tal/tais [?]”, o que significa: “os valores deixam de ser considerados enquanto isso (mesmo), que é o facto de serem valores. Neste caso, podemos desde logo desconfiar da flexão do pronome no plural, porque ele não antecede o nome valores...
  Na verdade, a expressão  “como tal”, bem como a expressão “enquanto tal”, é fixa e invariável, devendo ser entendida como uma locução adverbial cujo sentido é o mesmo da palavra assim. Para comprovar isso, podemos fazer a substituição daquelas duas palavras – a expressão fixa – por esse advérbio: “Os valores deixaram de ser considerados assim.”

07 fevereiro 2012

O AO e o CCB

Duas ligações interessantes sobre a recente e polémica questão da aplicação (ou não) do acordo ortográfico no Centro Cultural de Belém:

A brigada do asterisco - comentário do Embaixador Português em França

ILC contra o AO - razões para não aceitar a sua imposição

Tubo de Ensaio- crónica humorística de Bruno Nogueira (07/02/2012)

Vamos ou "váiamos"?

Que forma do verbo IR utilizariam para preencher o espaço na seguinte frase?

A Rita quer que nós ___________ com ela.

Muitos leitores decerto escolheriam "vamos" e é essa a forma adequada para o presente do conjuntivo do verbo ir. Porém, conheço muita gente que optaria por dizer "váiamos", tal como diria "dêiamos" em vez de dêmos, se, num contexto semelhante, o verbo fosse dar. Há quem defenda, para se justificar, que "váiamos" é a forma usada na região onde cresceu e aprendeu a falar português. Até pode ser. Mas, como sabemos, nem tudo o que se ouve dizer (às vezes uma vida inteira) é o que está correcto, do ponto de vista linguístico, tendo em conta a gramática normativa. A pergunta a fazer é: queremos usar a língua de acordo com o uso regional com que nos identificamos, ou queremos usar a variedade padrão, aquela que é encarada como modelar? A escolha será sempre nossa. Convém é que seja consciente, isto é, que saibamos que estamos a fazê-la, quais são as opções e o que implica cada uma delas. É o que acontece quando optamos entre:

auga e água
pus-os e pu-los
perca e perda
espilro e espirro
hás-de e hades
se haver e se houver

..e tantas outras!

02 fevereiro 2012

"Muitos de nós sentem" ou "muitos de nós sentimos"?


A concordância verbal tanto se pode estabelecer com o determinante indefinido  (ou quantificador) “muitos” como com o pronome pessoal “nós”, portanto podemos dizer «muitos de nós sentem um certo desconforto», por exemplo, ou «muitos de nós sentimos um certo desconforto».
À partida, a expressão partitiva “muitos de” deve levar-nos a flexionar o verbo na 3.ª pessoa do plural (considerando esses “muitos”, seja do que for). Se tivéssemos o sujeito “muitos do grupo” faria com certeza mais sentido dizer “muitos do grupo sentem um certo desconforto” e seria bastante estranho dizer “muitos do grupo sente um certo desconforto”.
No entanto, o pronome nós implica a pessoa que fala, então há toda a legitimidade em usar o verbo na 1.ª pessoa do plural: muitos de nós sentimos... Do mesmo modo, aliás, se eu faço parte do grupo, até posso dizer “muitos do grupo sentimos um certo desconforto”, por um processo de silepse, que é uma forma de concordância não estritamente gramatical, mas antes estabelecida de acordo com o sentido, tendo em conta a realidade a que se alude.

31 janeiro 2012

Portfolio, portfólio, portefólio ou porta-fólio?

Será possível que haja quatro grafias correctas, em português, para esta palavra?

Sim. Qualquer das formas apresentadas no título está atestada pelo menos num dicionário de língua portuguesa. Faz sentido?

12 janeiro 2012

A.O. e outros problemas

Ainda na ordem do dia, o "novo" Acordo Ortográfico atrapalha a vida a muita gente, embora se possa pensar que deixarmos de escrever algumas consoantes que não se pronunciam pode simplificar a tarefa de escrever em português.
Atrapalha, porque as dúvidas surgem a todo o momento, sobretudo quando é necessário escrever palavras compostas ou formadas por prefixação (cocolaborador ou co-colaborador?), ou quando nos preparamos para usar maiúsculas (norte ou Norte?) mas também quando não temos a certeza de se pronunciar, na "norma culta", determinada consoante (Egipto ou Egito?). E atrapalha muitas vezes os professores e os pais que lidam com crianças no ensino básico e cujos manuais e textos de apoio estão escritos de acordo com as duas grafias: a de 1945 e a de 1990. Com efeito, não é fácil para eles, nem para as crianças, gerir com os melhores resultados, ao nível da produção, as leituras "mistas" que se vão fazendo e que vão baralhando as referências ortográficas de cada um.
A fase de transição é realmente muito ingrata. Pela minha parte, por mais que deteste as novas regras que me obrigam a "descaracterizar" as palavras (ação, ator, redação e ótimo parecem-me tão feias...), sei que me vou habituar e que daqui a uns tempos já nem vou pensar mais nisso. Por outro lado, ao lidar quase diariamente com alunos recém-chegados ao ensino superior, estou consciente de que as dificuldades que muitos adultos revelam na escrita são bem mais abrangentes e graves do que as hesitações provocadas pela novas regras ortográficas. Custa-lhes tanto expor ideias (quando as têm) por escrito, é-lhes tão difícil distinguir passa-se de passasse, ficam tão atrapalhados quando lhes peço que utilizem um registo cuidado, que o A.O. se torna um pormenor insignificante dentro desse grande problema que é a sua dificuldade de expressão oral e escrita.
Devo ressalvar o facto de não serem todos - há sempre os alunos que nos surpreendem pela positiva, que nos ensinam, que nos calam a boca. Ainda hoje um aluno espanhol me ensinou uma palavra em português. Mas os que revelam dificuldades (e que o admitem, até, com tristeza e resignação) são cada vez mais, o que de resto não deve ser novidade para ninguém. Isto só prova que o meu trabalho é importante, ainda bem. Mas às vezes penso: antes não fosse...