26 maio 2009

Teatro amador só de nome


Quem puder ir a Vila Franca de Xira na próxima sexta-feira, dia 29 de Maio, não deve perder a actuação do Grupo O 18 Teatro, no Ateneu, às 21.30 h. A peça intitula-se “As duas cartas” e é baseada na obra homónima de Júlio Dinis (a adaptação é de Isilda Paulo).

Embora todas as personagens sejam uma delícia de ver e ouvir, a que mais me encantou foi o modesto João de Sousa, de origem humilde mas modos muito distintos, que tão naturalmente nos transporta para o século XIX através da forma como se exprime. Todos usam, claro, palavras e construções que não são de hoje e que adivinhamos estarem, se não iguais, pelo menos muito próximas das do texto dramático do autor, sendo a mais óbvia de todas a interjeição “cáspite”. Mas no caso dele, não há deslizes momentâneos para o vocabulário de hoje, para um tom mais contemporâneo. Há sempre aquela classe, aquela serenidade que vem de tempos mais formais e que, ironicamente, a personagem pobre exibe com maior naturalidade – como que dando a entender que a nobreza da alma (que se revela também no discurso) não depende da nobreza de linhagem e muito menos da falsa nobreza conseguida por meio do dinheiro.

Trata-se de uma excelente adaptação do texto, encenação e actuação. Vale a pena ir apreciar o trabalho deste grupo de "curiosos" e faz pena saber que tem tido pouca divulgação, porque merece muito mais espectadores! Ainda por cima, o espectáculo é gratuito.




23 maio 2009

Saudoso vocabulário dos anos oitenta

Os anos oitenta foram únicos e deixaram muita saudade em todos nós, trintões.

Não só pelas tardes passadas na rua a conversar com os amigos ao vivo e a cores (agora "chata-se" na net ou "essiemiessa-se", neologismos que acabo de inventar e que espero que se percebam...), não só pelas horas a construir cenários de florestas, circos e savanas com kalkitos, não só pela música, cuja qualidade fica comprovada pelo insistente revivalismo que hoje causa, não só pelas cartas e pelos postais em papel verdadeiro que se enviavam e recebiam, não apenas pelas colecções de latas de Coca-cola vindas de vários países que decoravam as prateleiras dos nossos quartos, mas também pelas palavras que se diziam e que quase se extinguiram, na voragem do tempo, desprezadas pelos anos 90 e praticamente apagadas das nossas memórias em pleno século XXI.
Estou a falar das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas), dos melões que se apanhavam, ou dos galos, o que era o mesmo, da paia que se tinha às vezes, de quando percebíamos que uma história que alguém contava era groupe e de outros termos do nosso inocente calão juvenil, que agora quase me fazem vir lágrimas aos olhos.
Não são saudades do calão por si só, naturalmente. São saudades do tempo em que essas palavras andavam na minha boca, misturadas com o sabor de uma alegre e despreocupada juventude.

20 maio 2009

Jogo da Língua

Para quem não saiba, a Antena 1 convida os ouvintes, todos os dias, às 06.20 e às 14.40 (excepto aos fins-de-semana), a participarem num curto programa sobre língua portuguesa em que a minha colega e co-autora deste blogue, S. Duarte, presta esclarecimentos sobre dúvidas frequentes.

Talvez já devesse ter feito aqui esta referência, pois há mais de 8 meses (tanto???) ela é a responsável pelo conteúdo do programa, que interessará, julgo eu, a todos os leitores deste blogue. Por isso mesmo, peço desculpa aos visitantes e, claro, à S. Duarte ;).
A verdade é que não sei se me fica mal ou bem fazer neste blogue um elogio ao trabalho da sua co-autora. Mas também não importa! O que importa é salientar que vale a pena ouvir as suas claras e úteis explicações.

14 maio 2009

Ai... o i com som de "ai"!


Em inglês, uma das realizações fonéticas que a letra i pode ter é o ditongo [ai]. Isto acontece em I, mice, time, kite e muitas outras palavras.
Em português, porém, o i nunca tem este som.

...ou nunca tinha, porque, com a entrada de palavras inglesas no nosso léxico, parece que nos andamos a habituar aos "ais". Os estrangeirismos estão na moda e andam na boca de muita gente. A toda a hora se ouve falar em "táimingues" para cumprir, que é para não falhar os "dedelaines", em "saites" na Internet, em "baites" de memória, em "aicebergues" a derreter, enfim, anda meio Portugal aos ais. Até dá dó!
E o outro meio?
O outro meio, se vir escritas estas palavras, se por acaso se deparar com timings, com deadlines, com sites, com bites e com icebergues provavelmente irá pensar que aquela metade anda mesmo com dores. E depois perguntar-se-á o que são, afinal, os "timingues", os "deadelines", os "sites" e os "bites". Os "aicebergues" é que, como já cá andam há mais tempo, não causam estranheza. Mas deviam! Porque o aportuguesamento da palavra só se fez em parte. Se mudámos o fim (de iceberg para icebergue), por que razão não mudámos também o início?!

13 maio 2009

VOU ao Torneio ou VOO ao Torneio?!



Perdoem-nos pela falta de artigos, mas amanhã é o dia do Torneio ISEC de Língua Portuguesa e temos estado, como calculam, a preparar as provas e a organizar o evento.


Desejamos muito boa sorte aos concorrentes e deixamos-lhes (sim, deixamos-lhes e não "deixamo-lhes"!), desde já, o nosso agradecimento sincero por participarem, pois sem eles não seria possível concretizar a 5ª edição do Torneio.


Quanto ao prémio, os vencedores terão a oportunidade de dar um passeio num avião da Gestair Flying Academy... esperamos que gostem da experiência!

07 maio 2009

UMA TURMA QUE PROMETE!

Hoje fomos à Escola D. Pedro IV, em Queluz, conversar com uma turma do 5º ano do ensino básico sobre dúvidas e erros de português, um encontro inserido na Semana da Leitura, organizada anualmente pela instituição.
Ficámos muito bem impressionadas com o entusiasmo dos alunos, que demonstraram grande vontade de participar na actividade que lhes propusemos e de responder às perguntas e desafios que lhes lançámos; e agradavelmente surpreendidas ao verificarmos que eles sabiam corrigir a maior parte dos erros que lhes mostrámos em diversas imagens, muitas das quais temos divulgado neste blogue.
Aqui ficam, portanto, os nossos parabéns aos alunos e às suas professoras de Português pelo bom trabalho que têm feito!
Aproveitamos para divulgar o blogue da Biblioteca da Escola (com uma excelente lista de ligações para páginas de interesse) e para desejar muito sucesso à Cyberteca!

05 maio 2009

Mal-estar ou mau-estar?

Quando sentimos uma indisposição ou um incómodo, devemos dizer que sentimos um mal-estar ou um mau-estar?
Por hipótese, a palavra estar poderia coocorrer com o adjectivo mau, uma vez que é, neste composto, um nome, formado por conversão a partir do verbo estar.
Porém, a expressão consagrada pelos dicionários é mal-estar, palavra composta pelo advérbio mal e pelo nome estar, que ainda conserva traços verbais (ou seja, invertendo os elementos, teríamos: «estar mal»).
Mas há um argumento ainda mais forte! Reparem que a expressão oposta é bem-estar e não bom-estar!

30 abril 2009

portinglês


Desde o "car jaquim" até ao "car audio", do "kit" ao "park", pergunto-me qual é que será o limite (quantas palavras por frase, por exemplo) após o qual a nossa língua passará a ser portinglês!

A propósito, uma nota para a agenda: na próxima segunda-feira, dia 4 de Maio, o programa Cuidado com a Língua abordará a temática dos estrangeirismos... e seu abuso.

27 abril 2009

Porque interrogativo?

Nota prévia: este é um assunto linguístico bastante controverso, pelo que respeito quem não concorde com a minha posição.
Passo a enunciar os argumentos a favor da existência de um porque interrogativo:

Factos históricos
A palavra porque provém da forma latina quare, palavra composta (qua + re = por que motivo, por que causa), mas sempre escrita como uma só palavra. Século XV: porque.

Factos lexicográficos
Vários dicionários de referência registam porque como advérbio interrogativo: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Dicionário da Porto Editora, Dicionário da Texto Editores, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “porque ocorre com valor circunstancial, expressando circunstância de causa, em frase interrogativa directa ou indirecta”.

Factos literários: abonações de grandes escritores portugueses
- Fernão Lopes, Crónica de D. João I: “Ó Deus, porque te prougue leixar um rei tão só e tão desemparado de tantos e bons como hei perdidos! (…) Ó Senhor, porque me leixaste vencer?”
- Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?”
- Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?”
“Porque vieste tão tarde?
- Bernardo Santareno, O Judeu, “Porque… porque somos tão desgraçados?!...”

Factos linguísticos
A palavra advérbio tem origem na forma latina adverbiu (junto ao verbo) e tem por função modificar um verbo, um adjectivo, outro advérbio ou uma frase, exprimindo diferentes valores: tempo, lugar, modo, causa, etc.
Em português, existem pronomes e advérbios que introduzem frases interrogativas, sendo que cada um exprime um valor semântico diferente:
- Quem (= «que pessoa») Quem chegou?
- Que (= «qual pessoa/coisa») Que compraste?
- Onde (= «em que lugar») Onde estiveste?
- Quando (= «em que altura») Quando chegaste?
- Como (= «de que modo») Como vieste?
- Porque e Porquê (= «por que motivo») Porque faltaste? / Faltaste porquê?

Se em perguntas que exprimem circunstância de causa optássemos pela expressão por que, estaríamos perante uma preposição + um pronome interrogativo, logo, substituível por outro pronome - qual, por exemplo. O resultado seria claramente agramatical: Por que chegaste atrasado? = * Por qual chegaste atrasado?

Por todos estes argumentos, parece-me legítimo o uso de porque enquanto advérbio interrogativo.

21 abril 2009

Dispor ou dispôr?


Dispor, como inferior, sem acento no o. O mesmo acontece com compor, propor e supor.
No Infinitivo, apenas o verbo pôr leva (por enquanto) acento circunflexo,
pois assim se distingue da preposição por.


20 abril 2009

Esclarecimento

Naturalmente, este esclarecimento teria surgido mais cedo, se eu me tivesse apercebido da publicação desta notícia no dia 6 de Março. Só ontem soube que fui apelidada de "linguista", o que, como todos poderão constatar ao verificar o meu perfil, não corresponde à realidade.
É preciso dizer que o jornalista teve o cuidado de me telefonar, após a nossa breve conversa no fim da apresentação que fizemos na Expolíngua, para me perguntar precisamente se eu poderia ser considerada uma linguista. Expliquei-lhe que não seria rigoroso, embora pudesse ser um termo útil para se referir às duas - a mim e à minha colega S. Duarte. No entanto, sou referida na notícia, isoladamente, como linguista, coisa que eu não esperava e penso que não faz sentido. Sou apenas uma professora de Língua Portuguesa, mais nada.

Por outro lado, o artigo centra-se numa posição radical contra o Acordo Ortográfico que terei assumido durante a apresentação na Expolíngua. Quando o li, fiquei um tanto chocada, porque ainda que eu tenha realmente proferido aquelas palavras, lê-las assim descontextualizadas não permite supor que eu também poderia falar a favor do Acordo. Porque considero que, como tudo, o Acordo tem vantagens e desvantagens.

Finalmente, a minha afirmação "politicamente incorrecta" de que no Brasil se fala outra língua pode ofender muita gente, inclusivamente aqueles que lêem este blogue. Quanto a isso, só posso explicar que, para mim, se trata de um fenómeno muito natural e comparável ao que sucedeu na Península Ibérica com o Latim: se nesta região os diferentes povos, com as suas culturas distintas, deram origem a línguas diversas, todas elas derivadas da mesma, como não aceitar que entre o português do Brasil e o que se fala em Portugal as divergências crescentes não dêem, também, origem a falares distintos, com prosódia, léxico e gramáticas próprias?

E, nesse sentido, preciso ainda de acrescentar o seguinte: este blogue é sobre a língua portuguesa que se fala em Portugal. Não por qualquer espécie de "embirração", longe de nós, mas simplesmente devido à nossa quase total ignorância sobre a(s) variante(s) que se falam e escrevem no Brasil. Seria tão absurdo pretender que os nossos esclarecimentos fossem válidos para os Brasileiros como para os Galegos. Daqui os saudamos, a uns e a outros, com respeito e com pena de não lhes podermos ser úteis.

15 abril 2009

Respostas aos PORQUÊS

1. Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?
R: Porque ao juntarmos o sufixo -iano, as duas letras finais da palavra Açores desaparecem. A vogal i é, portanto, do sufixo (Tal como flor(es) + inhas = florinhas).

2. Porque é que o verbo despender se escreve com e, se dispendioso se escreve com i?
R: O verbo despender provém do latim dispendere, com i, mas sofreu uma evolução e a partir do século XV passou a escrever-se com e.

3. Porque é que café tem acento e cafezinho não tem?
R: Porque ao associarmos qualquer sufixo a uma palavra, o acento tónico passa a recair na primeira sílaba do sufixo, logo, o acento gráfico deixa de fazer sentido (cafeZInho).

4. Porque é que o plural de carácter é caracteres?
R: Na passagem do singular ao plural, a palavra continua a ser grave quanto à acentuação e, por isso, perde o acento gráfico que existe na forma singular.

5. Porque é que torácico se escreve com c, se tórax se escreve com x?
R: Ambas as palavras provêm do grego: tórax«thoraks,akos e torácico«thorakikos.
O ks deu origem a x e o k deu origem a c.

6. Porque é pára-quedas leva hífen e parapente não leva?
R: Porque pára-quedas é uma palavra portuguesa composta por justaposição (de parar + quedas) e parapente é uma palavra que provém do francês parapente (déc. 1980).

7. Porque é que a palavra carrossel se escreve com dois s e não com c?
R: Porque provém da palavra francesa carrousel, que se escreve com s.

8. Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?
R: O nome circuncisão provém do latim circuncisionis; o verbo correspondente é circuncidar, o qual tem origem em circumcidere (cortar ao redor).

09 abril 2009

PORQUÊ??

1. Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?
2. Porque é que o verbo despender se escreve com e, se dispendioso se escreve com i?
3. Porque é que café tem acento e cafezinho não tem?
4. Porque é que o plural de carácter é caracteres?
5. Porque é que torácico se escreve com c, se tórax se escreve com x?
6. Porque é pára-quedas leva hífen e parapente não leva?
7. Porque é que a palavra carrossel se escreve com dois s e não com c?
8. Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?

Mas porquê?
Alguém quer tentar desvendar estes pequenos mistérios?!

01 abril 2009

quem munge e quem muge?



Munge a vaca
ou muge a vaca?
Tira leite
E faz ruído?
Munge e muge é igual?
Não faz sentido!
O camponês é que ordenha;
A vaca faz o som dela.
Um munge,
Outro muge,
E "a vaca munge" está mal?
Como munge e muge é parecido,
A confusão é total!
Quem munge não muge
E quem muge não munge.
Então qual,
dos que mugem ou mungem,
É que é a vaca afinal?





30 março 2009

Gazes?

Será que existem gazes e gases? Se sim, quais serão os mais malcheirosos?!







24 março 2009

Os [média] e não: [os mídia]

Parece irónico, mas os próprios meios de comunicação social pronunciam incorrectamente esta palavra. Mas afinal, porquê [média] e não [mídia]?
Porque se trata de uma palavra latina, e por isso devemos respeitar a sua fonia e grafia originais, ou seja, pronunciando o e aberto - [média] -, mas escrevendo sem qualquer acento gráfico: media.
Uma informação adicional: trata-se de uma palavra no plural, cujo singular é medium.
Portanto, tal como temos: o curriculum/os curricula; o corpus/os corpora; temos: o medium/ os media!

Nota: no português do Brasil, a pronúncia é [mídia].

19 março 2009

Que tal um banho no aquário e peixes na piscina?!





Um dos malabarismos da língua que mais me divertem é este:

piscina, que vem de peixe em latim (piscis), passou a significar tanque de água (onde não é suposto haver peixes), para nadar.

aquário, que significava, simplesmente, relativo à água, é que agora serve para lá colocar os peixes!...



Foto de Nuno Pavão

16 março 2009

Alugar ou arrendar um apartamento?

Apesar de a maioria dos dicionários referir que os verbos arrendar e alugar são sinónimos, é aconselhável o uso do verbo arrendar quando se trata de bens imóveis, por exemplo: “arrendar uma casa, um apartamento”, e do verbo alugar, quando nos referimos a bens móveis: “alugar um carro, uma bicicleta”.
Esta afirmação tem por base o artigo 1023º do Código Civil, que diz que “a locação diz-se arrendamento quando versa sobre coisa imóvel, aluguer quando incide sobre coisa móvel.”
Curioso é o facto de, quando de uma casa de férias se trata, se preferir o termo aluguer em vez de arrendamento, talvez porque o período de tempo de locação seja curto. Pelo menos, não tem um cariz tão longo quanto o da locação de uma casa de habitação.

O que é certo é que são os falantes quem faz a língua. E é a língua que faz a lei.
Será que o termo aluguer passou a referir também a locação de um bem imóvel por um curto período de tempo? O que vos parece?

10 março 2009

palavras-crianças

De entre os processos de formação de palavras novas, a afixação será o mais produtivo e, também, o mais previsível. Aliás, é tão fácil criar palavras com base naquelas que já existem, juntando-lhes prefixos ou sufixos, que o fazemos diariamente, sem dar por isso, e ficaríamos surpreendidos com a quantidade de termos que, apesar de serem usados com frequência, nem sequer constam dos dicionários.
Experimentem, por exemplo, procurar no Priberam, que é bastante actual, as palavras sistematicidade (de sistemático + -idade), potenciador (de potencia(r) + dor) e intermutável (inter- + mutável)... Ou façam outra experiência interessante: procurem-nas no dicionário on-line da Porto Editora (onde não constam) e depois consultem a Infopédia, da mesma editora, que apresenta vários textos em que elas são utilizadas! Curioso, não?!
Estas jovens palavras, tão discretas na sua novidade, são facilmente interpretadas e podem ser usadas nos mais diversos contextos, mas ainda não fazem parte do léxico "oficial" apenas por causa da sua tenra idade... é uma questão de tempo! Deixemo-las saborear a liberdade de andarem por aí a brincar nas nossas cabeças, como crianças irreverentes. Porque é também nisso que reside a beleza das línguas vivas.

07 março 2009

Os habitantes de Torres... Novas, Vedras e outras!

Nem sempre é fácil saber qual é o nome gentílico, ou pátrio, referente aos habitantes de certas cidades e vilas. É o caso dos naturais de Torres, que podem ter diferentes designações. Assim, temos:

o torrejão, ou torrejano, habitante de Torres Novas
o torriense, ou torresão, habitante de Torres Vedras
o torrense, habitante de Torres, no Rio Grande do Sul, Brasil

Esta pluralidade de nomes tão parecidos causa, naturalmente, alguma confusão. E ontem, após a nossa comunicação na Expolíngua, fomos abordadas por uma estudante torriense, que nos questionou sobre a possibilidade de haver mais do que uma designação aplicável às pessoas naturais da sua terra. Respondemos que sim, mas a nossa resposta não foi suficientemente clara, por termos confundido, nós também, os diferentes adjectivos/nomes derivados do topónimo Torres, que se aplicam aos habitantes de cidades distintas que partilham esse nome.
Aqui fica, portanto, o nosso pedido de desculpas... e o esclarecimento que acima deixámos.

03 março 2009

"Graffitis", "pizzas" e frangos anglo-saxónicos


Se é verdade que os graffiti incomodam muita gente, não se pode propriamente dizer que os "graffitis" incomodam muito mais. No entanto, há pessoas que se enervam quando ouvem alguém falar de "graffitis" e têm uma certa razão: é que a palavra italiana graffiti já está no plural, sendo o substantivo singular graffito. Portanto, explicam esses ilustres defensores da nossa língua e da coerência gramatical, não faz qualquer sentido flexionar duplamente uma palavra no plural. É tão absurdo como dizer "verõesãos"...
Mas como fazer ver aos portugueses que a palavra que importaram já está no plural e, portanto, devem referir-se a um
graffito ou a vários graffiti? Decerto não será fácil, dado que para nós o plural dos nomes leva, por defeito (e salvo raras excepções), um -s no fim...
Afinal, se quisermos ser puristas, também devemos dizer
pizze no plural, dado que a forma pizza também não se flexiona em número, em italiano, por meio da junção do -s ao nome singular...
Podemos sentir-nos um pouco envergonhados por causa da "ignorância geral" e insistirmos em usar graffiti quando nos referimos a muitos desenhos feitos nas paredes e muros. Mas também podemos tolerar esse plural mal formado como um sinal da inevitabilidade das mudanças menos informadas que sempre ocorreram nas línguas. Afinal, não se pode esperar que os falantes saibam todos de onde vieram e como foram formadas as palavras que usam! E em todos ou quase todos os idiomas deve haver casos assim, de formas equivocadas que acabaram por vingar. Pensemos por exemplo em
chicken (frango), que era o plural de chick, em inglês (como child/children), e passou a designar o singular, sendo hoje normal usar-se o duplo plural (ainda que um deles agora passe despercebido) chickens.

26 fevereiro 2009

Resserção, ressarço, ressarcimento... afinal, como é?!

O verbo ressarcir (que significa compensar, indemnizar) terá, ou não, um nome correspondente?

Que esse nome faz falta, não há dúvida. Em frases como aquela que vos forneci no desafio anterior, aparece pelo menos uma tentativa de aproximação, no sentido de referir o "acto ou efeito de ressarcir". Mas é usado o termo "resserção", que não só não existe em português, como não está bem formado, do ponto de vista morfológico, pois a vogal que se segue à consoante "s" deveria ser um "a", como acontece na forma de base, e não um "e".
Posto isto, e tendo em conta as sugestões de correcção dadas por alguns leitores nos comentários, temos as seguintes hipóteses: ressarço e ressarcimento. Ambas estão - aparentemente - bem formadas: ressarço é uma derivação regressiva, como empenho, de empenhar, uso, de usar, ou apelo, de apelar. Ressarcimento é derivada por sufixação, pois acrescentou-se o sufixo nominal "-mento" ao radical verbal "ressarc(i)". Mas será que existem nos dicionários de língua portuguesa?
Ressarcimento sim, é mesmo o que pretendemos: acto ou efeito de ressarcir, o mesmo que compensar ou indemnizar.
Ressarço, porém, não existe (enquanto nome)... e por que motivo? Tradicionalmente, a forma verbal "ressarço", da qual adviria o substantivo idêntico, não era considerada legítima. É que o verbo ressarcir tem sido considerado defectivo, só se podendo conjugar nos tempos e pessoas em que se mantém o "i" após o radical (ressarcimos, ressarci, ressarcíssemos...). Ora, esse i não está presente em "ressarço".
Contudo (e lá vem a controvérsia, a ambivalência, a confusão!), há dicionários e bases de dados que contemplam todas as flexões do verbo ressarcir, incluindo as tais "proibidas" - basta ir à Mordebe. Ao que parece, portanto, o nome "ressarço" tem já consagrada a flexão que lhe daria origem. Ainda assim, não o encontrei atestado enquanto substantivo. Será apenas uma questão de tempo?

24 fevereiro 2009

O que está errado em cada uma das seguintes frases?


No passado dia 17, realizou-se uma reunião entre a actual administração e a administração sessante.

Fomos informados de que a carta que a Administração enviou à Câmara Municipal em 2005 esteve estraviada até 2008.

Foi-nos sugerido que solicitássemos a resserção do montante despendido nas reparações.

21 fevereiro 2009

Língua materna


Mãe.

Não há só uma, como sabes.

E ainda bem.


Não foi do teu ventre que nasci,

mas foste tu

que fizeste nascer o mundo

para mim.


Deste-me sons mágicos

para brincar,

ouviste-me com paciência,

deixaste-me experimentar

experimentar-te

saborear-te

e adivinhar

que dominar-te

não era difícil,

um talento ou uma arte,

mas antes uma parte natural

de ser humana.

Depois, a revelação:

mostraste-me o mundo

nomeável,

reconhecível, chamável,

com a voz da razão.

Nem percebi,

mas tudo o que existia

tudo o que eu sentia

só fazia sentido

porque era vivido

através de ti.

Deste-me

o mundo,

a vida,

a voz,

o ser.

É por isso que vivo

para te aprender.


Nota: 21 de Fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna.

19 fevereiro 2009

Para quem gosta de desafios...


Há um livro de exercícios sobre língua portuguesa com uns bons anos (a 4ª edição é de 1993), mas que é muito diversificado, divertido e útil: Português Língua Viva, de Mendes Silva.

O autor é saudosamente lembrado na "Apresentação", de L. Crespo Fabião, e só por esse texto já vale a pena ler o livro. Contudo, o seu conteúdo é obviamente interessante: não só para quem quiser exercitar os seus conhecimentos, mas ainda por se tratar de um "viveiro de achados metodológicos", decerto valioso para muitos professores.

E convém referir que recomendamos estes exercícios - com soluções no final, como convém - a todos os estudantes que estão a pensar inscrever-se no Torneio ISEC de Língua Portuguesa 2009!

17 fevereiro 2009

Nomes feios



Se o signo é arbitrário, como nos ensinou Saussure, não há razão para nos queixarmos dos nomes que as coisas têm.
E ninguém parece incomodar-se com o facto de não haver uma lógica, um resquício de analogia, entre os objectos e os seus significantes. Quem se importa que uma cadeira não se chame "assentadeira", que em vez de bola não se diga "pumba", que um livro não seja antes um "folhas-juntas"? Até porque sabemos que mesmo as onomatopeias, signos verbais supostamente motivados pelos sons que representam, podem ser completamente diferentes de idioma para idioma.
Então, porque é que há palavras bonitas e palavras feias?
Será porque as bonitas são parecidas com outras, de que gostamos pelas realidades (ou lembranças!) que evocam, ou simplesmente porque resultam de uma feliz - por vezes musical - combinação de fonemas? Talvez...
E, se reconhecemos que gostamos de certas palavras, porque nos soam bem, ou por razões mais sentimentais, alheias à razão, parece natural aceitar que existam palavras feias, desagradáveis, cacofónicas ou evocadoras de realidades grosseiras, desprezíveis.
Nesse sentido, pergunto: qual o motivo que terá levado alguém a escolher tais nomes para certas coisas?!

13 fevereiro 2009

Parabéns... ou não!

Ontem, sem darmos por isso, fez dois anos que aqui andamos, às voltas com a língua portuguesa.

Pretendemos, sobretudo, criar um espaço de diálogo sobre temas relacionados com o nosso idioma, mas também divulgar a nossa actividade e, claro, o ISEC, que é a "casa" onde temos a oportunidade de fazer o que mais prazer nos dá, no que respeita ao trabalho sobre a língua: leccionar.

Para assinalar a data, queremos agradecer, mais uma vez, a todos os que nos seguem e nos dão alento para continuarmos; aos que contribuem para enriquecer os textos com as suas tão acertadas achegas; e também aos que nos questionam, aos que discordam dos nossos pontos de vista e assim nos ajudam a aprender mais. Bem hajam!

11 fevereiro 2009

Desafio verbal

Quem quer tentar preencher os espaços em branco com a forma verbal adequada?


a) Engordei 2 kg, por isso acho que já não ___________ nesse vestido! (CABER)

b) No final do colóquio, ninguém ___________. (INTERVIR)

c) Se o Luís não ____________ o dinheiro que lhe devem, poderá perder o negócio. (REAVER)

d) Esse aluno não ___________ a revisão da prova. (REQUERER)

e) Enquanto eu esperava, ___________ a ler uma revista. (ENTRETER-SE)

f) Obrigada por terem ____________ o nosso desafio! (ACEITAR)

09 fevereiro 2009

Crianções vocabulares



Muito gostaria eu de ser tão talentosa com as palavras quanto o brilhante contista e romancista Mia Couto, que sempre me encanta com as suas "brincriações" vocabulares. Leio e releio os seus livros (o meu preferido é o Mar Me Quer) e, além de me maravilhar com os mundos fantásticos - dramáticos e ao mesmo tempo enternecedores - que ali se revelam, pasmo com a criatividade lexical do autor, que em cada linha nos oferece uma palavra inesperada, tão original quanto expressiva. E não posso deixar de sorrir perante um homem "aldrabom", uma mãe que se "atamanha" com o filho, um pai que "tesourou" a conversa, um rapaz "desatrevido" que se desfazia em "salamoleques".

Há poucos anos, porém, descobri que a incrível capacidade de Mia Couto pode ser encontrada nas crianças, se prestarmos atenção ao que elas dizem. Percebi que, bem vistas as coisas, todos nós temos esse dom maravilhoso para criar palavras perfeitamente compreensíveis e bem formadas, mas inteiramente novas, originais, únicas. O que acontece é que perdemos essa capacidade - como a de brincar, ou a de nos espantarmos perante o que vemos - à medida que vamos crescendo, até nos tornarmos adultos cinzentões, receosos de empregar termos que não existem.

Fiz essa descoberta prestando atenção às palavras que a minha filha começou a criar, por volta dos três anos, fazendo um uso perfeitamente lógico de processos de inovação lexical que, numa língua, permitem gerar novos termos: a prefixação, a sufixação e até a derivação regressiva. E fiquei maravilhada, ao analisar a estrutura das suas invenções. Palavras como a "pratagem" (conjunto de pratos), a "petisca" (acto de petiscar), o "agarramento" (acto de agarrar), "desaquecer" (arrefecer) e "cerejar" (comer cerejas) fizeram-me sorrir e sentir-me feliz, porque inventar palavras dá, eu sei que dá, imenso prazer. Um prazer simples e inocente a que, sem razão, nós, os crescidos, parecemos negar-nos.


Nota: assumo a minha frouxa tentativa de imitar Mia Couto no título: "crianções" serão as criações das crianças :)

08 fevereiro 2009

Expolíngua 2009


No dia 6 de Março, apresentaremos o nosso livro, SOS LÍNGUA PORTUGUESA, na Expolíngua (Clique aqui para consultar o programa), o 19º Salão Português de Línguas e Culturas, no Centro de Congressos de Lisboa.

A entrada é livre!