09 abril 2009

PORQUÊ??

1. Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?
2. Porque é que o verbo despender se escreve com e, se dispendioso se escreve com i?
3. Porque é que café tem acento e cafezinho não tem?
4. Porque é que o plural de carácter é caracteres?
5. Porque é que torácico se escreve com c, se tórax se escreve com x?
6. Porque é pára-quedas leva hífen e parapente não leva?
7. Porque é que a palavra carrossel se escreve com dois s e não com c?
8. Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?

Mas porquê?
Alguém quer tentar desvendar estes pequenos mistérios?!

01 abril 2009

quem munge e quem muge?



Munge a vaca
ou muge a vaca?
Tira leite
E faz ruído?
Munge e muge é igual?
Não faz sentido!
O camponês é que ordenha;
A vaca faz o som dela.
Um munge,
Outro muge,
E "a vaca munge" está mal?
Como munge e muge é parecido,
A confusão é total!
Quem munge não muge
E quem muge não munge.
Então qual,
dos que mugem ou mungem,
É que é a vaca afinal?





30 março 2009

Gazes?

Será que existem gazes e gases? Se sim, quais serão os mais malcheirosos?!







24 março 2009

Os [média] e não: [os mídia]

Parece irónico, mas os próprios meios de comunicação social pronunciam incorrectamente esta palavra. Mas afinal, porquê [média] e não [mídia]?
Porque se trata de uma palavra latina, e por isso devemos respeitar a sua fonia e grafia originais, ou seja, pronunciando o e aberto - [média] -, mas escrevendo sem qualquer acento gráfico: media.
Uma informação adicional: trata-se de uma palavra no plural, cujo singular é medium.
Portanto, tal como temos: o curriculum/os curricula; o corpus/os corpora; temos: o medium/ os media!

Nota: no português do Brasil, a pronúncia é [mídia].

19 março 2009

Que tal um banho no aquário e peixes na piscina?!





Um dos malabarismos da língua que mais me divertem é este:

piscina, que vem de peixe em latim (piscis), passou a significar tanque de água (onde não é suposto haver peixes), para nadar.

aquário, que significava, simplesmente, relativo à água, é que agora serve para lá colocar os peixes!...



Foto de Nuno Pavão

16 março 2009

Alugar ou arrendar um apartamento?

Apesar de a maioria dos dicionários referir que os verbos arrendar e alugar são sinónimos, é aconselhável o uso do verbo arrendar quando se trata de bens imóveis, por exemplo: “arrendar uma casa, um apartamento”, e do verbo alugar, quando nos referimos a bens móveis: “alugar um carro, uma bicicleta”.
Esta afirmação tem por base o artigo 1023º do Código Civil, que diz que “a locação diz-se arrendamento quando versa sobre coisa imóvel, aluguer quando incide sobre coisa móvel.”
Curioso é o facto de, quando de uma casa de férias se trata, se preferir o termo aluguer em vez de arrendamento, talvez porque o período de tempo de locação seja curto. Pelo menos, não tem um cariz tão longo quanto o da locação de uma casa de habitação.

O que é certo é que são os falantes quem faz a língua. E é a língua que faz a lei.
Será que o termo aluguer passou a referir também a locação de um bem imóvel por um curto período de tempo? O que vos parece?

10 março 2009

palavras-crianças

De entre os processos de formação de palavras novas, a afixação será o mais produtivo e, também, o mais previsível. Aliás, é tão fácil criar palavras com base naquelas que já existem, juntando-lhes prefixos ou sufixos, que o fazemos diariamente, sem dar por isso, e ficaríamos surpreendidos com a quantidade de termos que, apesar de serem usados com frequência, nem sequer constam dos dicionários.
Experimentem, por exemplo, procurar no Priberam, que é bastante actual, as palavras sistematicidade (de sistemático + -idade), potenciador (de potencia(r) + dor) e intermutável (inter- + mutável)... Ou façam outra experiência interessante: procurem-nas no dicionário on-line da Porto Editora (onde não constam) e depois consultem a Infopédia, da mesma editora, que apresenta vários textos em que elas são utilizadas! Curioso, não?!
Estas jovens palavras, tão discretas na sua novidade, são facilmente interpretadas e podem ser usadas nos mais diversos contextos, mas ainda não fazem parte do léxico "oficial" apenas por causa da sua tenra idade... é uma questão de tempo! Deixemo-las saborear a liberdade de andarem por aí a brincar nas nossas cabeças, como crianças irreverentes. Porque é também nisso que reside a beleza das línguas vivas.

07 março 2009

Os habitantes de Torres... Novas, Vedras e outras!

Nem sempre é fácil saber qual é o nome gentílico, ou pátrio, referente aos habitantes de certas cidades e vilas. É o caso dos naturais de Torres, que podem ter diferentes designações. Assim, temos:

o torrejão, ou torrejano, habitante de Torres Novas
o torriense, ou torresão, habitante de Torres Vedras
o torrense, habitante de Torres, no Rio Grande do Sul, Brasil

Esta pluralidade de nomes tão parecidos causa, naturalmente, alguma confusão. E ontem, após a nossa comunicação na Expolíngua, fomos abordadas por uma estudante torriense, que nos questionou sobre a possibilidade de haver mais do que uma designação aplicável às pessoas naturais da sua terra. Respondemos que sim, mas a nossa resposta não foi suficientemente clara, por termos confundido, nós também, os diferentes adjectivos/nomes derivados do topónimo Torres, que se aplicam aos habitantes de cidades distintas que partilham esse nome.
Aqui fica, portanto, o nosso pedido de desculpas... e o esclarecimento que acima deixámos.

03 março 2009

"Graffitis", "pizzas" e frangos anglo-saxónicos


Se é verdade que os graffiti incomodam muita gente, não se pode propriamente dizer que os "graffitis" incomodam muito mais. No entanto, há pessoas que se enervam quando ouvem alguém falar de "graffitis" e têm uma certa razão: é que a palavra italiana graffiti já está no plural, sendo o substantivo singular graffito. Portanto, explicam esses ilustres defensores da nossa língua e da coerência gramatical, não faz qualquer sentido flexionar duplamente uma palavra no plural. É tão absurdo como dizer "verõesãos"...
Mas como fazer ver aos portugueses que a palavra que importaram já está no plural e, portanto, devem referir-se a um
graffito ou a vários graffiti? Decerto não será fácil, dado que para nós o plural dos nomes leva, por defeito (e salvo raras excepções), um -s no fim...
Afinal, se quisermos ser puristas, também devemos dizer
pizze no plural, dado que a forma pizza também não se flexiona em número, em italiano, por meio da junção do -s ao nome singular...
Podemos sentir-nos um pouco envergonhados por causa da "ignorância geral" e insistirmos em usar graffiti quando nos referimos a muitos desenhos feitos nas paredes e muros. Mas também podemos tolerar esse plural mal formado como um sinal da inevitabilidade das mudanças menos informadas que sempre ocorreram nas línguas. Afinal, não se pode esperar que os falantes saibam todos de onde vieram e como foram formadas as palavras que usam! E em todos ou quase todos os idiomas deve haver casos assim, de formas equivocadas que acabaram por vingar. Pensemos por exemplo em
chicken (frango), que era o plural de chick, em inglês (como child/children), e passou a designar o singular, sendo hoje normal usar-se o duplo plural (ainda que um deles agora passe despercebido) chickens.

26 fevereiro 2009

Resserção, ressarço, ressarcimento... afinal, como é?!

O verbo ressarcir (que significa compensar, indemnizar) terá, ou não, um nome correspondente?

Que esse nome faz falta, não há dúvida. Em frases como aquela que vos forneci no desafio anterior, aparece pelo menos uma tentativa de aproximação, no sentido de referir o "acto ou efeito de ressarcir". Mas é usado o termo "resserção", que não só não existe em português, como não está bem formado, do ponto de vista morfológico, pois a vogal que se segue à consoante "s" deveria ser um "a", como acontece na forma de base, e não um "e".
Posto isto, e tendo em conta as sugestões de correcção dadas por alguns leitores nos comentários, temos as seguintes hipóteses: ressarço e ressarcimento. Ambas estão - aparentemente - bem formadas: ressarço é uma derivação regressiva, como empenho, de empenhar, uso, de usar, ou apelo, de apelar. Ressarcimento é derivada por sufixação, pois acrescentou-se o sufixo nominal "-mento" ao radical verbal "ressarc(i)". Mas será que existem nos dicionários de língua portuguesa?
Ressarcimento sim, é mesmo o que pretendemos: acto ou efeito de ressarcir, o mesmo que compensar ou indemnizar.
Ressarço, porém, não existe (enquanto nome)... e por que motivo? Tradicionalmente, a forma verbal "ressarço", da qual adviria o substantivo idêntico, não era considerada legítima. É que o verbo ressarcir tem sido considerado defectivo, só se podendo conjugar nos tempos e pessoas em que se mantém o "i" após o radical (ressarcimos, ressarci, ressarcíssemos...). Ora, esse i não está presente em "ressarço".
Contudo (e lá vem a controvérsia, a ambivalência, a confusão!), há dicionários e bases de dados que contemplam todas as flexões do verbo ressarcir, incluindo as tais "proibidas" - basta ir à Mordebe. Ao que parece, portanto, o nome "ressarço" tem já consagrada a flexão que lhe daria origem. Ainda assim, não o encontrei atestado enquanto substantivo. Será apenas uma questão de tempo?

24 fevereiro 2009

O que está errado em cada uma das seguintes frases?


No passado dia 17, realizou-se uma reunião entre a actual administração e a administração sessante.

Fomos informados de que a carta que a Administração enviou à Câmara Municipal em 2005 esteve estraviada até 2008.

Foi-nos sugerido que solicitássemos a resserção do montante despendido nas reparações.

21 fevereiro 2009

Língua materna


Mãe.

Não há só uma, como sabes.

E ainda bem.


Não foi do teu ventre que nasci,

mas foste tu

que fizeste nascer o mundo

para mim.


Deste-me sons mágicos

para brincar,

ouviste-me com paciência,

deixaste-me experimentar

experimentar-te

saborear-te

e adivinhar

que dominar-te

não era difícil,

um talento ou uma arte,

mas antes uma parte natural

de ser humana.

Depois, a revelação:

mostraste-me o mundo

nomeável,

reconhecível, chamável,

com a voz da razão.

Nem percebi,

mas tudo o que existia

tudo o que eu sentia

só fazia sentido

porque era vivido

através de ti.

Deste-me

o mundo,

a vida,

a voz,

o ser.

É por isso que vivo

para te aprender.


Nota: 21 de Fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna.

19 fevereiro 2009

Para quem gosta de desafios...


Há um livro de exercícios sobre língua portuguesa com uns bons anos (a 4ª edição é de 1993), mas que é muito diversificado, divertido e útil: Português Língua Viva, de Mendes Silva.

O autor é saudosamente lembrado na "Apresentação", de L. Crespo Fabião, e só por esse texto já vale a pena ler o livro. Contudo, o seu conteúdo é obviamente interessante: não só para quem quiser exercitar os seus conhecimentos, mas ainda por se tratar de um "viveiro de achados metodológicos", decerto valioso para muitos professores.

E convém referir que recomendamos estes exercícios - com soluções no final, como convém - a todos os estudantes que estão a pensar inscrever-se no Torneio ISEC de Língua Portuguesa 2009!

17 fevereiro 2009

Nomes feios



Se o signo é arbitrário, como nos ensinou Saussure, não há razão para nos queixarmos dos nomes que as coisas têm.
E ninguém parece incomodar-se com o facto de não haver uma lógica, um resquício de analogia, entre os objectos e os seus significantes. Quem se importa que uma cadeira não se chame "assentadeira", que em vez de bola não se diga "pumba", que um livro não seja antes um "folhas-juntas"? Até porque sabemos que mesmo as onomatopeias, signos verbais supostamente motivados pelos sons que representam, podem ser completamente diferentes de idioma para idioma.
Então, porque é que há palavras bonitas e palavras feias?
Será porque as bonitas são parecidas com outras, de que gostamos pelas realidades (ou lembranças!) que evocam, ou simplesmente porque resultam de uma feliz - por vezes musical - combinação de fonemas? Talvez...
E, se reconhecemos que gostamos de certas palavras, porque nos soam bem, ou por razões mais sentimentais, alheias à razão, parece natural aceitar que existam palavras feias, desagradáveis, cacofónicas ou evocadoras de realidades grosseiras, desprezíveis.
Nesse sentido, pergunto: qual o motivo que terá levado alguém a escolher tais nomes para certas coisas?!

13 fevereiro 2009

Parabéns... ou não!

Ontem, sem darmos por isso, fez dois anos que aqui andamos, às voltas com a língua portuguesa.

Pretendemos, sobretudo, criar um espaço de diálogo sobre temas relacionados com o nosso idioma, mas também divulgar a nossa actividade e, claro, o ISEC, que é a "casa" onde temos a oportunidade de fazer o que mais prazer nos dá, no que respeita ao trabalho sobre a língua: leccionar.

Para assinalar a data, queremos agradecer, mais uma vez, a todos os que nos seguem e nos dão alento para continuarmos; aos que contribuem para enriquecer os textos com as suas tão acertadas achegas; e também aos que nos questionam, aos que discordam dos nossos pontos de vista e assim nos ajudam a aprender mais. Bem hajam!

11 fevereiro 2009

Desafio verbal

Quem quer tentar preencher os espaços em branco com a forma verbal adequada?


a) Engordei 2 kg, por isso acho que já não ___________ nesse vestido! (CABER)

b) No final do colóquio, ninguém ___________. (INTERVIR)

c) Se o Luís não ____________ o dinheiro que lhe devem, poderá perder o negócio. (REAVER)

d) Esse aluno não ___________ a revisão da prova. (REQUERER)

e) Enquanto eu esperava, ___________ a ler uma revista. (ENTRETER-SE)

f) Obrigada por terem ____________ o nosso desafio! (ACEITAR)

09 fevereiro 2009

Crianções vocabulares



Muito gostaria eu de ser tão talentosa com as palavras quanto o brilhante contista e romancista Mia Couto, que sempre me encanta com as suas "brincriações" vocabulares. Leio e releio os seus livros (o meu preferido é o Mar Me Quer) e, além de me maravilhar com os mundos fantásticos - dramáticos e ao mesmo tempo enternecedores - que ali se revelam, pasmo com a criatividade lexical do autor, que em cada linha nos oferece uma palavra inesperada, tão original quanto expressiva. E não posso deixar de sorrir perante um homem "aldrabom", uma mãe que se "atamanha" com o filho, um pai que "tesourou" a conversa, um rapaz "desatrevido" que se desfazia em "salamoleques".

Há poucos anos, porém, descobri que a incrível capacidade de Mia Couto pode ser encontrada nas crianças, se prestarmos atenção ao que elas dizem. Percebi que, bem vistas as coisas, todos nós temos esse dom maravilhoso para criar palavras perfeitamente compreensíveis e bem formadas, mas inteiramente novas, originais, únicas. O que acontece é que perdemos essa capacidade - como a de brincar, ou a de nos espantarmos perante o que vemos - à medida que vamos crescendo, até nos tornarmos adultos cinzentões, receosos de empregar termos que não existem.

Fiz essa descoberta prestando atenção às palavras que a minha filha começou a criar, por volta dos três anos, fazendo um uso perfeitamente lógico de processos de inovação lexical que, numa língua, permitem gerar novos termos: a prefixação, a sufixação e até a derivação regressiva. E fiquei maravilhada, ao analisar a estrutura das suas invenções. Palavras como a "pratagem" (conjunto de pratos), a "petisca" (acto de petiscar), o "agarramento" (acto de agarrar), "desaquecer" (arrefecer) e "cerejar" (comer cerejas) fizeram-me sorrir e sentir-me feliz, porque inventar palavras dá, eu sei que dá, imenso prazer. Um prazer simples e inocente a que, sem razão, nós, os crescidos, parecemos negar-nos.


Nota: assumo a minha frouxa tentativa de imitar Mia Couto no título: "crianções" serão as criações das crianças :)

08 fevereiro 2009

Expolíngua 2009


No dia 6 de Março, apresentaremos o nosso livro, SOS LÍNGUA PORTUGUESA, na Expolíngua (Clique aqui para consultar o programa), o 19º Salão Português de Línguas e Culturas, no Centro de Congressos de Lisboa.

A entrada é livre!

03 fevereiro 2009

Reservar-se ao direito ou reservar-se o direito?

«A organização reserva-se ao direito de alterar o programa sem aviso prévio».
Esta frase é-vos familiar?
«Reservar-se ao direito» é um erro discreto que teima em permanecer em muitos rodapés informativos.
E porque é que é um erro?
Porque o pronome reflexo se desempenha normalmente a função de complemento directo, por exemplo, na frase «ele lava-se», «ele» é o sujeito, e o pronome «se» é o complemento directo».
Este pronome, porém, pode também ter a função sintáctica de complemento indirecto. É o que acontece nesta frase: «A organização reserva-se o direito de alterar o programa sem aviso prévio», em que a expressão «o direito» é o complemento directo, e o pronome «se» é o complemento indirecto.
Por conseguinte, a estrutura correcta é: «reservar-se o direito», isto é, «reservar para si o direito».

28 janeiro 2009

Desabafo

Desculpem, mas às vezes chego à conclusão de que isto de andar a zelar pela ortografia e pelo bom uso da língua portuguesa é uma demanda vã.

Todos os dias somos confrontados com problemas imensos que não têm solução, começando pelos sem-abrigo que nos vêm pedir esmola e acabando na poluição que todos causamos e põe em risco a vida no planeta inteiro. Os dias escorrem-nos por entre os dedos enquanto nós, os afortunados, corremos de um lado para o outro, quais formigas atarantadas, entre emprego, trabalhos "por fora", filhos, tarefas domésticas e as burocracias mais diversas. Mesmo quando podemos trabalhar e ser pagos por isso, quando temos casa e saúde, somos ainda assim dominados por angústias, medos, tensões e raivas, pequenas e grandes, que nos pintam os dias de cinzento.

Por outro lado, a vida quotidiana também é feita de alegrias. De outro modo, nem sobreviveríamos à azáfama em que resolvemos existir nas sociedades auto-denominadas como civilizadas. Temos de andar com o arco-íris no bolso, na pasta, na cabeça, ou vê-lo espreitar onde quer que seja, para mantermos a nossa sanidade mental. Recuperamos o sentido da vida quando amamos, quando nos rimos com os amigos, quando os filhos nos sorriem, quando sabemos que fizemos o melhor que pudemos, quando saboreamos uma iguaria, quando ajudamos alguém. Há sempre um momento em que podemos respirar fundo e apreciar o que acontece, ou o que sentimos, como se o medo e a raiva não existissem.

No meio de tudo isto, acaba por ser quase ridículo chamar a atenção de alguém por ter posto acento agudo em peru, batalhar pelo uso de interveio em vez de "interviu", ou insistir, orgulhosamente só, em dizer duzentos gramas.
Afinal... que diferença é que isso faz?



26 janeiro 2009

desafio

Num cartaz publicitário pode ler-se isto:

A saúde não tem de ser cara, só tem que ser boa.

Ora, há ou não há aqui um problema gramatical?

21 janeiro 2009

O Acordo que nunca mais acorda

Foto de Nuno Pavão


É impressão minha ou o Acordo de 1990, em Portugal, está a demorar um bocadinho a entrar em vigor? Será uma experiência científica, para ver se cria bolor? Teias de aranha já tem de certeza...

Alguém me explica por que motivo ainda não se avançou em Portugal, quando os Brasileiros o adoptaram a partir do início deste ano? Será só para criar confusão ou é também para nos baralhar?!

É que cada vez se torna mais difícil decidir o que fazer, quando proliferam os livrinhos esclarecedores quanto ao que vai mudar, os iluminados dicionários com o "antes" e o "depois" das palavras e os e-mails com ligações para páginas na Internet onde se fazem conversões automáticas de texto escrito conforme o que sabemos para texto escrito conforme o Acordo.

O Priberam fez um inquérito aos seus utilizadores, no sentido de saber se eles pensam começar a escrever de acordo com a nova norma já hoje, daqui a um mês, daqui a seis meses ou apenas dentro de um ano. Como se nós, simples mortais, soubéssemos quando é que o "Big Brother" nos vai mandar seguir a norma!...

Se alguém me puder esclarecer, agradecia... é que nem sequer sei o que é que falta (além do mítico vocabulário comum), para que Portugal faça como o Brasil.

19 janeiro 2009

Cozer ou coser?



Parece mentira, mas acontece. Trocar coser por cozer é uma confusão "clássica" e tão previsível que já quase ninguém se preocupa com ela... e no entanto, eis um livro infantil que deveria ter tido uma revisão mais atenta!

14 janeiro 2009

Caça ao erro de ortografia!

Com ou sem o Acordo Ortográfico de 1990, as regras de ortografia andam pelas ruas da amargura...

Proponho, então, que se faça uma caça sem tréguas aos erros espalhados pelo texto que se segue!

Há cerca de um mês, o Sr. Aboim falava com um vizinho recém-chegado em tom peremptório àcerca dos imigrantes. Depois sensurou-se por ter falado de modo tão pejorativo, pois lembrou-se de que a nacionalidade do homem ainda estava por defenir. Tinha-se basiado apenas na sua aparência e concluido que era um dos seus, mas enganara-se. Então não notara que ele até tinha um sotaque ligeiramente exótico?

Ontem apercebeu-se de algo estranho ao olhar através da janela da sala. Saíu, caminhou até á cerca de madeira que delemitava o relvado, e constactou que a estufa, um enorme paralelipípedo beje que sobressaía no verde da paisagem, parecia estar aberta do lado de traz. «Isto trás água no bico», pensou. E, exitante, dirigiu-se para lá.

09 janeiro 2009

O imbróglio do capa

Afinal, para que serve o capa na nossa língua?

Para nomes próprios estrangeiros e seus derivados, entende-se que seja útil. Não ficaria bem traduzir Kant ("Cante"), nem referirmo-nos à filosofia "cantiana". E é claro que usamos símbolos como kg e km, não vamos passar a escrever "qg" nem "qm" para abreviar quilogramas e quilómetros.

Mas... Para escrevermos palavras estrangeiras de uso corrente? QUE palavras estrangeiras de uso corrente? Se os dicionários há tanto tempo consagraram coala, por exemplo, que sentido faz passar agora a escrever koala? Será que vamos ter de retroceder e voltar a usar estrangeirismos que já tinham sido aportuguesados?!

Foto: os irmãos "koala", desenhos animados transmitidos no Canal Panda.

07 janeiro 2009

Põe-nos (e não "põe-os")


Já toda a gente reparou, com certeza, que os pronomes o/a(s), quando associados às formas verbais por meio de hífen, mudam por vezes de forma. Umas vezes tornam-se lo/la(s), como em “tu entende-lo” e “vou dá-la” (em vez de “tu entendes-o” e “vou dar-a”), outras vezes passam a no/na(s), como em “põe-nos aí” ou “deram-na a ele” (e não “põe-os aí”, nem “deram-a a ele”).


Ora, o pronome o/a(s) passa a lo/la(s) quando a forma verbal termina em s, r ou z. Nesses casos, a consoante em questão é suprimida. Assim, temos: fazes + a = faze-la; pedir + os = pedi-los; traz + o = trá-lo.


A razão para a forma no/na(s) em vez de o/a(s) é esta: quando as formas verbais terminam em ditongo nasal e o pronome o/a(s) está à sua direita, este é “contaminado” por esse ditongo nasal, que faz aparecer a consoante “n”, também nasal, antes da vogal o ou a do pronome.


Naturalmente, algumas pessoas preferem continuar a dizer "põe-os", porque lhes faz confusão usar a forma "nos" quando ela se refere a "eles" ou "elas" e não a "nós"... no entanto, espero que não restem dúvidas de que o texto da imagem publicada no dia 4 deveria ser corrigido!


04 janeiro 2009

“Põe-os” ou “põe-nos”?


Será que se podem usar ambas as formas ("põe-os" e "põe-nos") ou apenas uma delas? Os e nos significarão, nestes casos, a mesma coisa, ou serão pronomes diferentes? A frase “põe-os à prova”, por exemplo, está correcta?




São perguntas que fazemos para saber se os leitores têm esta dúvida e querem opinar sobre as suas possíveis respostas...

18 dezembro 2008

Boas festas!



Desejamos a todos os nossos leitores uma excelente quadra natalícia, com muita saúde, boa disposição e melhor companhia!

Beba-se champanhe ou champagne, ponha-se maquilhagem ou maquillage, diga-se pais natais ou "pais Natal", comam-se filhós ou "filhoses", enfim...

...O que é preciso é que todos passem bons momentos e, é claro, que se lembrem de voltar no Ano Novo!

15 dezembro 2008

Quem tem medo do Torneio ISEC de Língua Portuguesa?

Não há que ter medo, trata-se de uma competição amigável, através da qual alunos do 4º ano do Ensino Básico, do 12º ano do Secundário e de qualquer ano do Ensino Superior podem mostrar o que sabem e aprender um pouco mais!

E nada como experimentarem resolver uma prova para ficarem a saber com o que contam. Vamos a isso?

1. Qual das seguintes palavras não existe em português?
A – Beneficência
B – Cônjugue
C – Encapuzado

2. O feminino de «pardal» é:
A – Pardaleja
B – Pardoca
C – Ambas as formas anteriores

3. Qual das seguintes frases está gramaticalmente correcta?
A – Apenas 18% dos professores apresentou queixa à polícia.
B – Apenas 18% dos professores apresentaram queixa à polícia.

4. Na frase: «Se não formos ao cinema, avisar-te-emos»:
A – «Formos» está no futuro do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
B – «Formos» está no presente do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
C – Ambas as formas verbais estão no condicional

5. O verbo «mugir» significa:
A – Ordenhar
B – Soltar mugidos
C – Ambas as anteriores

10 dezembro 2008

Língua viva

Na esteira dos parlapiês e das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas!), há, entre tantas outras, mais uma palavra de uso bastante frequente, mas que, para grande surpresa de todos nós, não se encontra consagrada nos nossos dicionários: salganhada!
Imaginem! Trata-se de uma deturpação da palavra salgalhada! Esta, sim, representa o conceito que atribuímos a salganhada: «confusão, mixórdia, trapalhada» e é o único termo atestado nos dicionários (à excepção do Dicionário da Academia das Ciências...). Diz a etimologia que provém de salgar + -alho + -ada.
A troca de um lh por um nh, que se deveu - presumo eu - a um maior conforto fónico, deu origem a uma nova palavra, que apesar de não ter encontrado o seu lugar nas páginas dos dicionários, vingou entre os falantes!
E vamos lá ver. São ou não os falantes que fazem a língua?!
Será que uma palavra só existe se estiver consagrada nas obras lexicográficas?
Do léxico de uma língua fazem parte não só as palavras atestadas, mas também todas as palavras que já caíram em desuso (os arcaísmos), todas as palavras novas (os neologismos), todas as palavras das variedades dialectais, todas as palavras de registo popular e calão, todas as palavras possíveis... E por palavras possíveis entende-se as palavras que inventamos, mas que respeitam as regras morfológicas da língua.
Basta estarmos atentos às produções linguísticas das crianças! Cada palavra por elas inventada é, com certeza, uma palavra!
Inventam-se palavras, criam-se novos significados para as já existentes! E a língua é assim mesmo: viva e com vida em abundância!