08 fevereiro 2009

Expolíngua 2009


No dia 6 de Março, apresentaremos o nosso livro, SOS LÍNGUA PORTUGUESA, na Expolíngua (Clique aqui para consultar o programa), o 19º Salão Português de Línguas e Culturas, no Centro de Congressos de Lisboa.

A entrada é livre!

03 fevereiro 2009

Reservar-se ao direito ou reservar-se o direito?

«A organização reserva-se ao direito de alterar o programa sem aviso prévio».
Esta frase é-vos familiar?
«Reservar-se ao direito» é um erro discreto que teima em permanecer em muitos rodapés informativos.
E porque é que é um erro?
Porque o pronome reflexo se desempenha normalmente a função de complemento directo, por exemplo, na frase «ele lava-se», «ele» é o sujeito, e o pronome «se» é o complemento directo».
Este pronome, porém, pode também ter a função sintáctica de complemento indirecto. É o que acontece nesta frase: «A organização reserva-se o direito de alterar o programa sem aviso prévio», em que a expressão «o direito» é o complemento directo, e o pronome «se» é o complemento indirecto.
Por conseguinte, a estrutura correcta é: «reservar-se o direito», isto é, «reservar para si o direito».

28 janeiro 2009

Desabafo

Desculpem, mas às vezes chego à conclusão de que isto de andar a zelar pela ortografia e pelo bom uso da língua portuguesa é uma demanda vã.

Todos os dias somos confrontados com problemas imensos que não têm solução, começando pelos sem-abrigo que nos vêm pedir esmola e acabando na poluição que todos causamos e põe em risco a vida no planeta inteiro. Os dias escorrem-nos por entre os dedos enquanto nós, os afortunados, corremos de um lado para o outro, quais formigas atarantadas, entre emprego, trabalhos "por fora", filhos, tarefas domésticas e as burocracias mais diversas. Mesmo quando podemos trabalhar e ser pagos por isso, quando temos casa e saúde, somos ainda assim dominados por angústias, medos, tensões e raivas, pequenas e grandes, que nos pintam os dias de cinzento.

Por outro lado, a vida quotidiana também é feita de alegrias. De outro modo, nem sobreviveríamos à azáfama em que resolvemos existir nas sociedades auto-denominadas como civilizadas. Temos de andar com o arco-íris no bolso, na pasta, na cabeça, ou vê-lo espreitar onde quer que seja, para mantermos a nossa sanidade mental. Recuperamos o sentido da vida quando amamos, quando nos rimos com os amigos, quando os filhos nos sorriem, quando sabemos que fizemos o melhor que pudemos, quando saboreamos uma iguaria, quando ajudamos alguém. Há sempre um momento em que podemos respirar fundo e apreciar o que acontece, ou o que sentimos, como se o medo e a raiva não existissem.

No meio de tudo isto, acaba por ser quase ridículo chamar a atenção de alguém por ter posto acento agudo em peru, batalhar pelo uso de interveio em vez de "interviu", ou insistir, orgulhosamente só, em dizer duzentos gramas.
Afinal... que diferença é que isso faz?



26 janeiro 2009

desafio

Num cartaz publicitário pode ler-se isto:

A saúde não tem de ser cara, só tem que ser boa.

Ora, há ou não há aqui um problema gramatical?

21 janeiro 2009

O Acordo que nunca mais acorda

Foto de Nuno Pavão


É impressão minha ou o Acordo de 1990, em Portugal, está a demorar um bocadinho a entrar em vigor? Será uma experiência científica, para ver se cria bolor? Teias de aranha já tem de certeza...

Alguém me explica por que motivo ainda não se avançou em Portugal, quando os Brasileiros o adoptaram a partir do início deste ano? Será só para criar confusão ou é também para nos baralhar?!

É que cada vez se torna mais difícil decidir o que fazer, quando proliferam os livrinhos esclarecedores quanto ao que vai mudar, os iluminados dicionários com o "antes" e o "depois" das palavras e os e-mails com ligações para páginas na Internet onde se fazem conversões automáticas de texto escrito conforme o que sabemos para texto escrito conforme o Acordo.

O Priberam fez um inquérito aos seus utilizadores, no sentido de saber se eles pensam começar a escrever de acordo com a nova norma já hoje, daqui a um mês, daqui a seis meses ou apenas dentro de um ano. Como se nós, simples mortais, soubéssemos quando é que o "Big Brother" nos vai mandar seguir a norma!...

Se alguém me puder esclarecer, agradecia... é que nem sequer sei o que é que falta (além do mítico vocabulário comum), para que Portugal faça como o Brasil.

19 janeiro 2009

Cozer ou coser?



Parece mentira, mas acontece. Trocar coser por cozer é uma confusão "clássica" e tão previsível que já quase ninguém se preocupa com ela... e no entanto, eis um livro infantil que deveria ter tido uma revisão mais atenta!

14 janeiro 2009

Caça ao erro de ortografia!

Com ou sem o Acordo Ortográfico de 1990, as regras de ortografia andam pelas ruas da amargura...

Proponho, então, que se faça uma caça sem tréguas aos erros espalhados pelo texto que se segue!

Há cerca de um mês, o Sr. Aboim falava com um vizinho recém-chegado em tom peremptório àcerca dos imigrantes. Depois sensurou-se por ter falado de modo tão pejorativo, pois lembrou-se de que a nacionalidade do homem ainda estava por defenir. Tinha-se basiado apenas na sua aparência e concluido que era um dos seus, mas enganara-se. Então não notara que ele até tinha um sotaque ligeiramente exótico?

Ontem apercebeu-se de algo estranho ao olhar através da janela da sala. Saíu, caminhou até á cerca de madeira que delemitava o relvado, e constactou que a estufa, um enorme paralelipípedo beje que sobressaía no verde da paisagem, parecia estar aberta do lado de traz. «Isto trás água no bico», pensou. E, exitante, dirigiu-se para lá.

09 janeiro 2009

O imbróglio do capa

Afinal, para que serve o capa na nossa língua?

Para nomes próprios estrangeiros e seus derivados, entende-se que seja útil. Não ficaria bem traduzir Kant ("Cante"), nem referirmo-nos à filosofia "cantiana". E é claro que usamos símbolos como kg e km, não vamos passar a escrever "qg" nem "qm" para abreviar quilogramas e quilómetros.

Mas... Para escrevermos palavras estrangeiras de uso corrente? QUE palavras estrangeiras de uso corrente? Se os dicionários há tanto tempo consagraram coala, por exemplo, que sentido faz passar agora a escrever koala? Será que vamos ter de retroceder e voltar a usar estrangeirismos que já tinham sido aportuguesados?!

Foto: os irmãos "koala", desenhos animados transmitidos no Canal Panda.

07 janeiro 2009

Põe-nos (e não "põe-os")


Já toda a gente reparou, com certeza, que os pronomes o/a(s), quando associados às formas verbais por meio de hífen, mudam por vezes de forma. Umas vezes tornam-se lo/la(s), como em “tu entende-lo” e “vou dá-la” (em vez de “tu entendes-o” e “vou dar-a”), outras vezes passam a no/na(s), como em “põe-nos aí” ou “deram-na a ele” (e não “põe-os aí”, nem “deram-a a ele”).


Ora, o pronome o/a(s) passa a lo/la(s) quando a forma verbal termina em s, r ou z. Nesses casos, a consoante em questão é suprimida. Assim, temos: fazes + a = faze-la; pedir + os = pedi-los; traz + o = trá-lo.


A razão para a forma no/na(s) em vez de o/a(s) é esta: quando as formas verbais terminam em ditongo nasal e o pronome o/a(s) está à sua direita, este é “contaminado” por esse ditongo nasal, que faz aparecer a consoante “n”, também nasal, antes da vogal o ou a do pronome.


Naturalmente, algumas pessoas preferem continuar a dizer "põe-os", porque lhes faz confusão usar a forma "nos" quando ela se refere a "eles" ou "elas" e não a "nós"... no entanto, espero que não restem dúvidas de que o texto da imagem publicada no dia 4 deveria ser corrigido!


04 janeiro 2009

“Põe-os” ou “põe-nos”?


Será que se podem usar ambas as formas ("põe-os" e "põe-nos") ou apenas uma delas? Os e nos significarão, nestes casos, a mesma coisa, ou serão pronomes diferentes? A frase “põe-os à prova”, por exemplo, está correcta?




São perguntas que fazemos para saber se os leitores têm esta dúvida e querem opinar sobre as suas possíveis respostas...

18 dezembro 2008

Boas festas!



Desejamos a todos os nossos leitores uma excelente quadra natalícia, com muita saúde, boa disposição e melhor companhia!

Beba-se champanhe ou champagne, ponha-se maquilhagem ou maquillage, diga-se pais natais ou "pais Natal", comam-se filhós ou "filhoses", enfim...

...O que é preciso é que todos passem bons momentos e, é claro, que se lembrem de voltar no Ano Novo!

15 dezembro 2008

Quem tem medo do Torneio ISEC de Língua Portuguesa?

Não há que ter medo, trata-se de uma competição amigável, através da qual alunos do 4º ano do Ensino Básico, do 12º ano do Secundário e de qualquer ano do Ensino Superior podem mostrar o que sabem e aprender um pouco mais!

E nada como experimentarem resolver uma prova para ficarem a saber com o que contam. Vamos a isso?

1. Qual das seguintes palavras não existe em português?
A – Beneficência
B – Cônjugue
C – Encapuzado

2. O feminino de «pardal» é:
A – Pardaleja
B – Pardoca
C – Ambas as formas anteriores

3. Qual das seguintes frases está gramaticalmente correcta?
A – Apenas 18% dos professores apresentou queixa à polícia.
B – Apenas 18% dos professores apresentaram queixa à polícia.

4. Na frase: «Se não formos ao cinema, avisar-te-emos»:
A – «Formos» está no futuro do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
B – «Formos» está no presente do conjuntivo e «avisar-te-emos» está no futuro do indicativo
C – Ambas as formas verbais estão no condicional

5. O verbo «mugir» significa:
A – Ordenhar
B – Soltar mugidos
C – Ambas as anteriores

10 dezembro 2008

Língua viva

Na esteira dos parlapiês e das coisas escanifobéticas (ou escaganifobéticas!), há, entre tantas outras, mais uma palavra de uso bastante frequente, mas que, para grande surpresa de todos nós, não se encontra consagrada nos nossos dicionários: salganhada!
Imaginem! Trata-se de uma deturpação da palavra salgalhada! Esta, sim, representa o conceito que atribuímos a salganhada: «confusão, mixórdia, trapalhada» e é o único termo atestado nos dicionários (à excepção do Dicionário da Academia das Ciências...). Diz a etimologia que provém de salgar + -alho + -ada.
A troca de um lh por um nh, que se deveu - presumo eu - a um maior conforto fónico, deu origem a uma nova palavra, que apesar de não ter encontrado o seu lugar nas páginas dos dicionários, vingou entre os falantes!
E vamos lá ver. São ou não os falantes que fazem a língua?!
Será que uma palavra só existe se estiver consagrada nas obras lexicográficas?
Do léxico de uma língua fazem parte não só as palavras atestadas, mas também todas as palavras que já caíram em desuso (os arcaísmos), todas as palavras novas (os neologismos), todas as palavras das variedades dialectais, todas as palavras de registo popular e calão, todas as palavras possíveis... E por palavras possíveis entende-se as palavras que inventamos, mas que respeitam as regras morfológicas da língua.
Basta estarmos atentos às produções linguísticas das crianças! Cada palavra por elas inventada é, com certeza, uma palavra!
Inventam-se palavras, criam-se novos significados para as já existentes! E a língua é assim mesmo: viva e com vida em abundância!

04 dezembro 2008

Um parlapiê escanifobético

Há palavras tão engraças e tão expressivas em português, que é uma pena não existirem!...

É o caso de "parlapiê", um substantivo usado em registo informal para designar uma conversa ou maneira de falar que demonstra capacidade ou vontade de persuadir os outros por meio do discurso, ainda que esse objectivo não seja conseguido. Pode, portanto, ter uma conotação negativa, na medida em que seria usado num frase deste tipo: «Ele pôs-se com um grande parlapiê, mas não me convenceu a comprar o computador.» "Parlapiê" será, assim, sinónimo de conversa, quando esta palavra tem, também, o significado de "discurso de intenção persuasiva não necessariamente convincente" (sobretudo em registo familiar).
De onde vem não sei, mas é provável que esteja relacionado com parlapatão e parlapatice, que por sua vez vêm do verbo parlar - cujo étimo é provençal (daí o parler francês). De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, parlar é «falar muito sobre assuntos, geralmente, de pouco interesse e com entusiasmo», sendo o parlapatão um impostor, que se vale de um discurso cheio de palavras falsas para tirar proveito da credulidade dos outros. O parlapiê será, portanto, esse mesmo discurso.
Quanto ao adjectivo "escanifobético", o Ciberdúvidas esclarece que começou a ser usado por jovens nos anos 50 e designava algo estranho, esquisito. É um termo que foi caindo em desuso, apesar de ter sobrevivido por várias décadas e de ter conseguido ficar registado em obras de escritores portugueses como Mário de Carvalho. Nos meus tempos de escola, ainda se dizia, o que me faz sentir um bocadinho velha... e talvez mesmo um pouco escanifobética por tê-lo usado!

02 dezembro 2008

Secretária de Estado americana ou secretária de Estado americano?

Será possível atribuir duas leituras a esta expressão?

1. [secretária de Estado] americana – em que o adjectivo americana modifica «secretária de Estado»
2. secretária de [Estado americano] – em que o adjectivo americano modifica apenas o nome «Estado»

Na minha opinião, a forma mais correcta é: «secretária de Estado americana». Explico porquê:
Se tivéssemos a contracção da preposição de com o artigo definido o, teríamos um significado mais específico, logo, o adjectivo americano modificaria apenas o nome Estado: «secretária [do Estado americano]».
No entanto, a preposição simples de exprime um sentido mais genérico, pelo que a leitura mais imediata é considerar o constituinte [secretária de Estado] uma unidade linguística coesa. Esta unidade linguística tem como elemento central o nome secretária, logo, o adjectivo americana deve concordar em género e número com esse nome, por exemplo: «secretárias de Estado americanas»; «secretários de Estado americanos».

Concordam ou discordam desta análise?

26 novembro 2008

A importância dos dois pontos



- Filho, o que fizeste aos iogurtes que eu te comprei ontem?
- Deitei fora...
- O quê?! Mas a que propósito?
- Então... Já não podia comê-los!
- O que é que estás a dizer?! Mas que disparate! Explica-te lá!
- Então: eu olhei para a tampa, não consegui evitar. E só depois é que reparei que a embalagem dizia "CONSUMIR ANTES DE VER TAMPA"!

24 novembro 2008

Dose para doze


O "Bacalhau a Braz" já é banal... Mas que dizer daquela nota final na ementa, sobre a "doze" com mais um talher?

Só prova uma coisa: não é preciso escrever correctamente para alcançar a compreensão dos leitores. Afinal, quem é que precisa de ler a frase duas vezes para perceber o seu significado?
Ninguém. Fica muito claro que, quando a dose for servida com mais um talher, será cobrado o valor adicional de 1 euro. É mais bonito, mas o resultado é o mesmo...

Resta saber se o tamanho das doses justifica pedir mais onze talheres, se formos doze a comer!

21 novembro 2008

Material de escritório quietinho...


Esta loja vende produtos e presta serviços na área gráfica, mas, a avaliar pela montra, não presta lá grande serviço à língua portuguesa...
Alguém sabe o que são "estacionários"?!
Parece que é material de escritório, ou de papelaria: canetas, blocos, borrachas e afins. E porquê "estacionários", que é o mesmo que dizer "parados" ou "imóveis"?
Trata-se de uma leviana tradução do nome inglês stationery - com e, pois não é o mesmo que stationary...
Já viram coisa mais absurda?


18 novembro 2008

Desafio de vocabulário

O nome relativo ao verbo adquirir é aquisição. E qual o nome relativo aos seguintes verbos?

- assumir
- convencer
- interceder
- manter

E agora, o exercício ao contrário. Qual o verbo correspondente aos seguintes nomes?

- transfusão
- circuncisão
- intuição
- rescisão

12 novembro 2008

Tiago

Nós também estamos de luto pelo Tiago.

Também o conhecemos, também o admirámos, também acreditámos nele.

Temos estado em silêncio, porque a notícia da sua morte nos calou. Ficámos muito tristes e não quisemos deixar de registar aqui pelo menos estas palavras de apreço por alguém que merece o respeito e a admiração de todos os que prezam a língua portuguesa.

Não esqueceremos a sua presença tranquila, mas marcante. A sua capacidade para ouvir, a sua permanente disponibilidade para ajudar. E os seus ensinamentos serão sempre fonte de inspiração para nós.

05 novembro 2008

Um carácter que dá para os dois lados...


Na inocência do nosso limitado conhecimento sobre a língua que falamos, podemos andar uma vida inteira enganados sobre a pronúncia, a grafia, ou mesmo o significado de uma palavra.

Isso não tem mal nenhum. Afinal, se toda a gente se entende, há coisas bem mais importantes na vida do que andarmos a confirmar, a toda a hora, aquilo que dizemos ou escrevemos.

Mas, quando nem todos nos entendemos e começamos a discutir sobre o que está certo e o que está errado, porque uns dizem que é assim e outros dizem que é assado, é caso para dizer que... está o caldo entornado!

Gostaria, por isso, de esclarecer que a palavra carácter não serve apenas para designar o conjunto de características que constituem a personalidade de alguém, mas também, e até em primeiro lugar (por ser o seu sentido original), uma marca, um sinal gravado ou impresso numa superfície, representando um som ou uma ideia. No entanto, o plural de carácter é caracteres — que, além de divergir na sílaba tónica, também é diferente no facto de se pronunciar o c antes do t (ao contrário do que sucede com carácter, pois dizemos [karáter].

Acontece que muito boa gente prefere usar o nome singular “caracter” (com tónica na sílaba -ter e pronunciando o c antes do t) nos contextos em que a palavra se refere a uma letra impressa, reservando o carácter (com tónica na penúltima sílaba e c mudo) para as situações em que designa “personalidade”. O mesmo sucede, aliás, com a suposta “rúbrica”, a “assinatura” (que na verdade não existe), que seria diferente de rubrica (tema de um artigo ou programa). Por outras palavras, parece que os falantes não gostam que haja uma palavra com significados diferentes, arranjando maneira de a desdobrar em duas palavras distintas, cada uma com o seu sentido.

E há mal nisso?

Haver mal não há. Mas é no mínimo desconcertante, para os que usam o termo “caracter”, descobrir que, afinal, ele não existe na língua que falam. E é igualmente desconcertante, para os que têm a função de esclarecer os outros, verem-se a tentar persuadi-los de uma verdade que é pouco convincente, se não mesmo inconveniente.


03 novembro 2008

Cordelinhos à portuguesa



Um certo dicionário informava, na data em que escrevi esta nota, que esparguete era «forma vulgar e incorrecta de espaguete». E esta, hein?
Se, por um lado, é contraditório (para não dizer absurdo) que um dicionário registasse uma grafia que os seus lexicógrafos entendiam ser incorrecta para determinada palavra, por outro lado, perante esta informação, o mínimo que podíamos fazer seria procurar saber mais sobre o aportuguesamento do italiano spaghetti. Estará ao nível da “mortandela”?
Outro dicionário apresentava uma definição para esparguete: «CULINÁRIA massa de sêmola de trigo em forma de cilindros compridos e delgados» e acrescentava a seguinte informação etimológica: «Do it. spaghetti, «id.» ´espargo».
Curioso... repararam naquele “espargo” no final? Eu também! E o que têm os espargos que ver com esparguete, para além de haver uma óbvia semelhança na forma desses dois vocábulos?

Spaghetti é o plural de spaghetto, que por sua vez é o diminutivo de spago, cujo significado é «cordel». Spaghetti significa, portanto, à letra, «cordelinhos». Ora, como sabemos, de um cordel a um espargo vai alguma distância... tanto mais que, segundo a Infopédia, a palavra espargo vem do grego aspáragos, por via do latim asparàgu-, com o mesmo sentido.
O termo italiano spago, tanto quanto pude apurar, tem uma origem distinta, embora, curiosamente, no seu étimo houvesse também um “r”: era spartum. Em todo o caso, fica por explicar a alusão ao “espargo”.. é que dessa explicação depende a decisão de considerar ou não erróneo o “r” que nos apareceu no espaguete. E este, enquanto espera, vai arrefecendo!...


Nota: Passado algum tempo, voltei ao dicionário em linha que aludia a "espargo" na etimologia de esparguete e essa alusão tinha desaparecido sem deixar rasto!

30 outubro 2008

desfasamento e não “desfazamento”


Quem não hesitou já na grafia de palavras que incluem o som consonântico /z/, cuja representação gráfica tanto se faz por meio da letra s como do z propriamente dito (e escrito)?

Não falo de “cazas”, nem de “coizas” – palavras em relação às quais só quem acaba de aprender a escrever tem dúvidas. Mas entre os cozidos (ao lume) e os cosidos (com linha e agulha), já há muitos adultos que param para pensar. Ou, pior, que não param e escolhem a letra errada, sem darem por isso.

E o “desfazamento”? É uma tentação a que cada vez mais portugueses têm cedido!

Mas se desfasar é «desordenar as fases» (des + fase + ar), não há motivo para enganos. Afinal, quantos de nós escreveríamos “faze” em vez de fase?

28 outubro 2008

Prémio N[ó]bel ou Nob[é]l?

Bem sabemos que a pronúncia que por aí “grasna” é: N[ó]bel. Mas há duas boas razões para a pronúncia ser Nob[é]l:
1. Trata-se de uma palavra aguda, isto é, tem acento tónico na última sílaba, tal como: papel, anel, animal, etc. Se nobel tivesse a tónica na sílaba no, teria de ter obrigatoriamente acento gráfico na vogal o (reparem que, por exemplo, túnel tem acento no u).
2. A segunda boa razão é a etimologia: Nobel é o nome do senhor sueco – Alfred Nobel – que instituiu o prémio, e a pronúncia original deste apelido era precisamente Nob[é]l.

22 outubro 2008

O mal-aventurado verbo PRECAVER


O verbo precaver, que deriva do latim (praecavere), não está conjugado da mesma forma – PASMEMOS! - nos diversos dicionários de verbos portugueses. Não sendo dependente do verbo ver, do verbo haver, nem do verbo vir, a sua flexão suscita dúvidas e há controvérsia entre os linguistas.

Uns consideram que precaver é um verbo defectivo, só se conjugando nas formas em que a sílaba tónica está depois da raiz (tendo apenas duas flexões no Presente do Indicativo: precavemos e precaveis) e nenhuma no Presente do Conjuntivo. Outros, porém, defendem que precaver se pode conjugar em todos os tempos e pessoas, pelo que o Dicionário dos Verbos Portugueses da Porto Editora, assim como o Priberam (Texto Editores) apresentam formas como (eu) “precavo”, (tu) precaves, (que ele) “precava”.

Pessoalmente, não me agrada nada esta falta de coerência entre os dicionários, assim como não me convencem as formas “precavo”, “precava”, etc., que, apesar de estarem atestadas, não se usam.

Aconselharia, portanto, a substituição de precaver pelo verbo prevenir, sempre que o tempo/modo ou pessoa/número dão lugar à controvérsia.

20 outubro 2008

Ginginha ou ginjinha?


Não foi por ter bebido demasiado
do licor que dá nome ao estabelecimento
que ficou tudo turvo, desfocado,
mas por estar o carro em andamento!

Talvez aquele que escreveu,
tenha, sim, bebido uma garrafinha!
Porque, se é da ginja que deriva,
então, só pode ser ginjinha!

16 outubro 2008

Sofrerão os portugueses de falta de criatividade linguística?



A propósito de um artigo de Manuel Gonçalves da Silva, publicado no Diário Económico, cujo conteúdo subscrevo na íntegra e cuja leitura recomendo, chego a esta conclusão: falta-nos ousadia e criatividade no que toca ao uso da língua.

Que somos (cada vez mais) servis na adopção de estrangeirismos é inegável, é evidente. Ora são as pens, os downloads, os sites e os browsers, ora são os piercings, os liftings, os brushings, mas também os “graffitis” (este plural duplo é de arrepiar), os gangs, o shopping, o jogging, o mailing, o briefing, eu sei lá. Só sei que o inglês fica a ganhar falantes e, dentro do inglês, os nomes terminados em –ing são os mais populares.

E porquê?

Por preguiça mental, por incapacidade de tradução, por se fazer gala em usar termos estrangeiros (fica tão bem saber falar estrangeiro...) - muitas vezes incompreensíveis para quem ouve - mas decerto também por falta de imaginação e até por falta de ousadia.

O “elevator pitch” de que fala o autor do artigo é, realmente, uma expressão difícil de traduzir. Trata-se de uma exposição muito rápida de um projecto, com o objectivo de conseguir que o interlocutor – um financiador – se interesse por ele. O nome vem da circunstância de, tipicamente, estes mini-discursos de argumentação acontecerem nos elevadores, quando os jovens empresários tinham a oportunidade de encontrar um possível financiador e apenas 30 segundos, mais coisa menos coisa, para os tentar convencer a apoiar os seus projectos. Lembram-se de um programa da RTP2 chamado Audax? Era mais ou menos isso.

Então, hoje, em Portugal, chama-se (pasmem) elevator pitch a uma exposição desse tipo. Mas será assim tão difícil encontrar uma expressão válida em português para designar a mesma coisa? Que tal “apresentação-relâmpago”? A mim parece-me bem. Sugestivo e eficaz.

O problema é que não pega. Porque os portugueses não gostam de falar a sua língua, ao que parece...

14 outubro 2008

O que será melhor?

«É bom que ele se precaveja»

«É bom que ele se precava»

ou

«É bom que ele se previna»?

09 outubro 2008

Aguando e desaguando



Que os rios desaguam no mar, já toda a gente sabe. Talvez seja esse o significado mais óbvio e imediato do verbo desaguar: vazar ou lançar as águas.


Mas desaguar também tem um outro sentido, essencialmente popular e porventura característico de determinados falares regionais: trata-se de «dar alguma coisa a comer (a crianças ou animais) para não aguardarem», segundo o Dicionário on-line Texto Editores.


«Toma lá um pedacito de pão, para desaguares», diz a avó para a neta. E faz todo o sentido: se quando estamos cheios de fome e, à vista da comida, até ficamos “com água na boca” (saliva, pois claro); esse pedaço de pão serve precisamente para a enxugar – ou desaguar! Afinal, o prefixo des- acarreta o sentido de “acção contrária”. Neste caso, o contrário de aguar.


E por falar em aguar e desaguar, vou mas é almoçar!

06 outubro 2008

Borradas e burradas


Em linguagem coloquial, diz-se por vezes que alguém fez uma burrada/borrada, quando o resultado da sua acção é desastroso ou pelo menos lamentável. E como se trata de um termo que se diz muito mais do que se escreve, surgem as dúvidas quando pretendemos registá-lo.

No dicionário Priberam (Texto Editores), borrada é «derramamento de borra; borratão; sujeira; porcaria; acção indecorosa». Mas também lá consta burrada, que além de designar um conjunto de asnos («burricada»), significa (em linguagem popular) «asneira, tolice, asnice». E há ainda, como sabemos, o termo burrice, que é «estupidez, asneira», além de «teimosia; casmurrice; amuo».

Conclui-se, portanto, que ambos os vocábulos são válidos para designar uma asneira, dependendo da asneira em si e do nosso ponto de vista sobre ela.

A borrada aplica-se à asneira resultante de um derramamento que causa sujidade (tinta, por exemplo); a burrada aplica-se simplesmente à parvoíce. Ora, bem vistas as coisas, se nem todas as burradas são borradas, quase todas as borradas são também burradas... ou não?!