02 dezembro 2008

Secretária de Estado americana ou secretária de Estado americano?

Será possível atribuir duas leituras a esta expressão?

1. [secretária de Estado] americana – em que o adjectivo americana modifica «secretária de Estado»
2. secretária de [Estado americano] – em que o adjectivo americano modifica apenas o nome «Estado»

Na minha opinião, a forma mais correcta é: «secretária de Estado americana». Explico porquê:
Se tivéssemos a contracção da preposição de com o artigo definido o, teríamos um significado mais específico, logo, o adjectivo americano modificaria apenas o nome Estado: «secretária [do Estado americano]».
No entanto, a preposição simples de exprime um sentido mais genérico, pelo que a leitura mais imediata é considerar o constituinte [secretária de Estado] uma unidade linguística coesa. Esta unidade linguística tem como elemento central o nome secretária, logo, o adjectivo americana deve concordar em género e número com esse nome, por exemplo: «secretárias de Estado americanas»; «secretários de Estado americanos».

Concordam ou discordam desta análise?

26 novembro 2008

A importância dos dois pontos



- Filho, o que fizeste aos iogurtes que eu te comprei ontem?
- Deitei fora...
- O quê?! Mas a que propósito?
- Então... Já não podia comê-los!
- O que é que estás a dizer?! Mas que disparate! Explica-te lá!
- Então: eu olhei para a tampa, não consegui evitar. E só depois é que reparei que a embalagem dizia "CONSUMIR ANTES DE VER TAMPA"!

24 novembro 2008

Dose para doze


O "Bacalhau a Braz" já é banal... Mas que dizer daquela nota final na ementa, sobre a "doze" com mais um talher?

Só prova uma coisa: não é preciso escrever correctamente para alcançar a compreensão dos leitores. Afinal, quem é que precisa de ler a frase duas vezes para perceber o seu significado?
Ninguém. Fica muito claro que, quando a dose for servida com mais um talher, será cobrado o valor adicional de 1 euro. É mais bonito, mas o resultado é o mesmo...

Resta saber se o tamanho das doses justifica pedir mais onze talheres, se formos doze a comer!

21 novembro 2008

Material de escritório quietinho...


Esta loja vende produtos e presta serviços na área gráfica, mas, a avaliar pela montra, não presta lá grande serviço à língua portuguesa...
Alguém sabe o que são "estacionários"?!
Parece que é material de escritório, ou de papelaria: canetas, blocos, borrachas e afins. E porquê "estacionários", que é o mesmo que dizer "parados" ou "imóveis"?
Trata-se de uma leviana tradução do nome inglês stationery - com e, pois não é o mesmo que stationary...
Já viram coisa mais absurda?


18 novembro 2008

Desafio de vocabulário

O nome relativo ao verbo adquirir é aquisição. E qual o nome relativo aos seguintes verbos?

- assumir
- convencer
- interceder
- manter

E agora, o exercício ao contrário. Qual o verbo correspondente aos seguintes nomes?

- transfusão
- circuncisão
- intuição
- rescisão

12 novembro 2008

Tiago

Nós também estamos de luto pelo Tiago.

Também o conhecemos, também o admirámos, também acreditámos nele.

Temos estado em silêncio, porque a notícia da sua morte nos calou. Ficámos muito tristes e não quisemos deixar de registar aqui pelo menos estas palavras de apreço por alguém que merece o respeito e a admiração de todos os que prezam a língua portuguesa.

Não esqueceremos a sua presença tranquila, mas marcante. A sua capacidade para ouvir, a sua permanente disponibilidade para ajudar. E os seus ensinamentos serão sempre fonte de inspiração para nós.

05 novembro 2008

Um carácter que dá para os dois lados...


Na inocência do nosso limitado conhecimento sobre a língua que falamos, podemos andar uma vida inteira enganados sobre a pronúncia, a grafia, ou mesmo o significado de uma palavra.

Isso não tem mal nenhum. Afinal, se toda a gente se entende, há coisas bem mais importantes na vida do que andarmos a confirmar, a toda a hora, aquilo que dizemos ou escrevemos.

Mas, quando nem todos nos entendemos e começamos a discutir sobre o que está certo e o que está errado, porque uns dizem que é assim e outros dizem que é assado, é caso para dizer que... está o caldo entornado!

Gostaria, por isso, de esclarecer que a palavra carácter não serve apenas para designar o conjunto de características que constituem a personalidade de alguém, mas também, e até em primeiro lugar (por ser o seu sentido original), uma marca, um sinal gravado ou impresso numa superfície, representando um som ou uma ideia. No entanto, o plural de carácter é caracteres — que, além de divergir na sílaba tónica, também é diferente no facto de se pronunciar o c antes do t (ao contrário do que sucede com carácter, pois dizemos [karáter].

Acontece que muito boa gente prefere usar o nome singular “caracter” (com tónica na sílaba -ter e pronunciando o c antes do t) nos contextos em que a palavra se refere a uma letra impressa, reservando o carácter (com tónica na penúltima sílaba e c mudo) para as situações em que designa “personalidade”. O mesmo sucede, aliás, com a suposta “rúbrica”, a “assinatura” (que na verdade não existe), que seria diferente de rubrica (tema de um artigo ou programa). Por outras palavras, parece que os falantes não gostam que haja uma palavra com significados diferentes, arranjando maneira de a desdobrar em duas palavras distintas, cada uma com o seu sentido.

E há mal nisso?

Haver mal não há. Mas é no mínimo desconcertante, para os que usam o termo “caracter”, descobrir que, afinal, ele não existe na língua que falam. E é igualmente desconcertante, para os que têm a função de esclarecer os outros, verem-se a tentar persuadi-los de uma verdade que é pouco convincente, se não mesmo inconveniente.


03 novembro 2008

Cordelinhos à portuguesa



Um certo dicionário informava, na data em que escrevi esta nota, que esparguete era «forma vulgar e incorrecta de espaguete». E esta, hein?
Se, por um lado, é contraditório (para não dizer absurdo) que um dicionário registasse uma grafia que os seus lexicógrafos entendiam ser incorrecta para determinada palavra, por outro lado, perante esta informação, o mínimo que podíamos fazer seria procurar saber mais sobre o aportuguesamento do italiano spaghetti. Estará ao nível da “mortandela”?
Outro dicionário apresentava uma definição para esparguete: «CULINÁRIA massa de sêmola de trigo em forma de cilindros compridos e delgados» e acrescentava a seguinte informação etimológica: «Do it. spaghetti, «id.» ´espargo».
Curioso... repararam naquele “espargo” no final? Eu também! E o que têm os espargos que ver com esparguete, para além de haver uma óbvia semelhança na forma desses dois vocábulos?

Spaghetti é o plural de spaghetto, que por sua vez é o diminutivo de spago, cujo significado é «cordel». Spaghetti significa, portanto, à letra, «cordelinhos». Ora, como sabemos, de um cordel a um espargo vai alguma distância... tanto mais que, segundo a Infopédia, a palavra espargo vem do grego aspáragos, por via do latim asparàgu-, com o mesmo sentido.
O termo italiano spago, tanto quanto pude apurar, tem uma origem distinta, embora, curiosamente, no seu étimo houvesse também um “r”: era spartum. Em todo o caso, fica por explicar a alusão ao “espargo”.. é que dessa explicação depende a decisão de considerar ou não erróneo o “r” que nos apareceu no espaguete. E este, enquanto espera, vai arrefecendo!...


Nota: Passado algum tempo, voltei ao dicionário em linha que aludia a "espargo" na etimologia de esparguete e essa alusão tinha desaparecido sem deixar rasto!

30 outubro 2008

desfasamento e não “desfazamento”


Quem não hesitou já na grafia de palavras que incluem o som consonântico /z/, cuja representação gráfica tanto se faz por meio da letra s como do z propriamente dito (e escrito)?

Não falo de “cazas”, nem de “coizas” – palavras em relação às quais só quem acaba de aprender a escrever tem dúvidas. Mas entre os cozidos (ao lume) e os cosidos (com linha e agulha), já há muitos adultos que param para pensar. Ou, pior, que não param e escolhem a letra errada, sem darem por isso.

E o “desfazamento”? É uma tentação a que cada vez mais portugueses têm cedido!

Mas se desfasar é «desordenar as fases» (des + fase + ar), não há motivo para enganos. Afinal, quantos de nós escreveríamos “faze” em vez de fase?

28 outubro 2008

Prémio N[ó]bel ou Nob[é]l?

Bem sabemos que a pronúncia que por aí “grasna” é: N[ó]bel. Mas há duas boas razões para a pronúncia ser Nob[é]l:
1. Trata-se de uma palavra aguda, isto é, tem acento tónico na última sílaba, tal como: papel, anel, animal, etc. Se nobel tivesse a tónica na sílaba no, teria de ter obrigatoriamente acento gráfico na vogal o (reparem que, por exemplo, túnel tem acento no u).
2. A segunda boa razão é a etimologia: Nobel é o nome do senhor sueco – Alfred Nobel – que instituiu o prémio, e a pronúncia original deste apelido era precisamente Nob[é]l.

22 outubro 2008

O mal-aventurado verbo PRECAVER


O verbo precaver, que deriva do latim (praecavere), não está conjugado da mesma forma – PASMEMOS! - nos diversos dicionários de verbos portugueses. Não sendo dependente do verbo ver, do verbo haver, nem do verbo vir, a sua flexão suscita dúvidas e há controvérsia entre os linguistas.

Uns consideram que precaver é um verbo defectivo, só se conjugando nas formas em que a sílaba tónica está depois da raiz (tendo apenas duas flexões no Presente do Indicativo: precavemos e precaveis) e nenhuma no Presente do Conjuntivo. Outros, porém, defendem que precaver se pode conjugar em todos os tempos e pessoas, pelo que o Dicionário dos Verbos Portugueses da Porto Editora, assim como o Priberam (Texto Editores) apresentam formas como (eu) “precavo”, (tu) precaves, (que ele) “precava”.

Pessoalmente, não me agrada nada esta falta de coerência entre os dicionários, assim como não me convencem as formas “precavo”, “precava”, etc., que, apesar de estarem atestadas, não se usam.

Aconselharia, portanto, a substituição de precaver pelo verbo prevenir, sempre que o tempo/modo ou pessoa/número dão lugar à controvérsia.

20 outubro 2008

Ginginha ou ginjinha?


Não foi por ter bebido demasiado
do licor que dá nome ao estabelecimento
que ficou tudo turvo, desfocado,
mas por estar o carro em andamento!

Talvez aquele que escreveu,
tenha, sim, bebido uma garrafinha!
Porque, se é da ginja que deriva,
então, só pode ser ginjinha!

16 outubro 2008

Sofrerão os portugueses de falta de criatividade linguística?



A propósito de um artigo de Manuel Gonçalves da Silva, publicado no Diário Económico, cujo conteúdo subscrevo na íntegra e cuja leitura recomendo, chego a esta conclusão: falta-nos ousadia e criatividade no que toca ao uso da língua.

Que somos (cada vez mais) servis na adopção de estrangeirismos é inegável, é evidente. Ora são as pens, os downloads, os sites e os browsers, ora são os piercings, os liftings, os brushings, mas também os “graffitis” (este plural duplo é de arrepiar), os gangs, o shopping, o jogging, o mailing, o briefing, eu sei lá. Só sei que o inglês fica a ganhar falantes e, dentro do inglês, os nomes terminados em –ing são os mais populares.

E porquê?

Por preguiça mental, por incapacidade de tradução, por se fazer gala em usar termos estrangeiros (fica tão bem saber falar estrangeiro...) - muitas vezes incompreensíveis para quem ouve - mas decerto também por falta de imaginação e até por falta de ousadia.

O “elevator pitch” de que fala o autor do artigo é, realmente, uma expressão difícil de traduzir. Trata-se de uma exposição muito rápida de um projecto, com o objectivo de conseguir que o interlocutor – um financiador – se interesse por ele. O nome vem da circunstância de, tipicamente, estes mini-discursos de argumentação acontecerem nos elevadores, quando os jovens empresários tinham a oportunidade de encontrar um possível financiador e apenas 30 segundos, mais coisa menos coisa, para os tentar convencer a apoiar os seus projectos. Lembram-se de um programa da RTP2 chamado Audax? Era mais ou menos isso.

Então, hoje, em Portugal, chama-se (pasmem) elevator pitch a uma exposição desse tipo. Mas será assim tão difícil encontrar uma expressão válida em português para designar a mesma coisa? Que tal “apresentação-relâmpago”? A mim parece-me bem. Sugestivo e eficaz.

O problema é que não pega. Porque os portugueses não gostam de falar a sua língua, ao que parece...

14 outubro 2008

O que será melhor?

«É bom que ele se precaveja»

«É bom que ele se precava»

ou

«É bom que ele se previna»?

09 outubro 2008

Aguando e desaguando



Que os rios desaguam no mar, já toda a gente sabe. Talvez seja esse o significado mais óbvio e imediato do verbo desaguar: vazar ou lançar as águas.


Mas desaguar também tem um outro sentido, essencialmente popular e porventura característico de determinados falares regionais: trata-se de «dar alguma coisa a comer (a crianças ou animais) para não aguardarem», segundo o Dicionário on-line Texto Editores.


«Toma lá um pedacito de pão, para desaguares», diz a avó para a neta. E faz todo o sentido: se quando estamos cheios de fome e, à vista da comida, até ficamos “com água na boca” (saliva, pois claro); esse pedaço de pão serve precisamente para a enxugar – ou desaguar! Afinal, o prefixo des- acarreta o sentido de “acção contrária”. Neste caso, o contrário de aguar.


E por falar em aguar e desaguar, vou mas é almoçar!

06 outubro 2008

Borradas e burradas


Em linguagem coloquial, diz-se por vezes que alguém fez uma burrada/borrada, quando o resultado da sua acção é desastroso ou pelo menos lamentável. E como se trata de um termo que se diz muito mais do que se escreve, surgem as dúvidas quando pretendemos registá-lo.

No dicionário Priberam (Texto Editores), borrada é «derramamento de borra; borratão; sujeira; porcaria; acção indecorosa». Mas também lá consta burrada, que além de designar um conjunto de asnos («burricada»), significa (em linguagem popular) «asneira, tolice, asnice». E há ainda, como sabemos, o termo burrice, que é «estupidez, asneira», além de «teimosia; casmurrice; amuo».

Conclui-se, portanto, que ambos os vocábulos são válidos para designar uma asneira, dependendo da asneira em si e do nosso ponto de vista sobre ela.

A borrada aplica-se à asneira resultante de um derramamento que causa sujidade (tinta, por exemplo); a burrada aplica-se simplesmente à parvoíce. Ora, bem vistas as coisas, se nem todas as burradas são borradas, quase todas as borradas são também burradas... ou não?!

01 outubro 2008

O privilégio e os privilegiados

Quem esteja disposto a pagar bem para ver o espectáculo "Cavalia" poderá optar por «LUGARES PRIVELIGIADOS» - é o que está escrito no portal www.cavalia.pt, na página relativa à compra de bilhetes.

Canso-me de ver este adjectivo mal escrito, mas ele não se cansa de aparecer. Parece que há muita gente que conhece a palavra "privelégios"... E também há os que preferem os "previlégios" e se referem aos "previlegiados"!

O substantivo privilégio, do latim privilegiu, sempre se escreveu assim. Naturalmente, o adjectivo dele derivado é privilegiado, também com dois is antes do e. Mas estas são daquelas palavras que nos pregam partidas quando menos esperamos, porque a forma como as pronunciamos não corresponde à sua grafia.

Cuidado, portanto, ao escrevê-las... não vá o erro tecê-las!

29 setembro 2008

"Prequela"???

Um destes dias perguntaram-me se conhecia a palavra "prequela", supostamente o oposto da sequela.
Admiti a minha ignorância, fazendo uma nota mental para verificar se os dicionários que consulto já a registavam. Mas antes de ir ao dicionário, lembrei-me de abrir o Ciberdúvidas, esse valiosíssimo manancial de perguntas e respostas sobre a língua portuguesa.
Verifiquei, com agrado, que os seus consultores repudiavam a existência de tal termo em português, chamando-lhe «mamarracho» e condenando a sua importação do inglês.

Percebo que, para quem usa jargão televisivo por motivos profissionais, a palavra "prequela" seja prática, sobretudo para traduzir rapidamente esse neologismo inglês, prequel, tão em voga actualmente a propósito dos filmes cujo enredo consiste numa analepse relativamente à história contada em filmes anteriores.

Mas concordo com o Ciberdúvidas: tem de haver limites para a ignorância e a preguiça que insistem em desvirtuar a nossa língua!

25 setembro 2008

“Mortadela” ou “mortandela”?




Há dias falei-vos do meu problema existencial relacionado com a grafia e a pronúncia da palavra espargata.

Hoje, com alívio - por se tratar de um equívoco que não é meu - partilho convosco a constatação de outro erro do mesmo género: a "mortandela". Conhecem-na?

O que será que faz com que algumas pessoas tornem nasal o a que se segue ao t na palavra mortadela, que deriva do italiano mortadella e portanto nunca se escreveu com n?

Talvez seja o m inicial, como acontece com "muinto" (que eu também digo), por exemplo, em que o m contamina a pronúncia do ditongo que se lhe segue, tornando-o nasal. É até difícil pronunciar a palavra muito como deve ser, a menos que estejamos com o nariz entupido ou tapado. Mas curiosamente, "mor-tan-de-la" custa mais a dizer do que "mor-ta-de-la"... É como as "chauchichas" em vez de salsichas!

A mim, "mortandela" soa-me a mortandade, ou, pior, parece "morta anda ela", o que é mau de mais para estabelecer qualquer relação entre o enchido e esse nome adulterado. O que me vale é que, como nem sequer gosto de mortadela, não perco muito tempo a pensar nisso!


24 setembro 2008

SOS na Livraria Almedina

Encontros PEDAGOGIA / EDUCAÇÃO
Organização: Luísa Araújo e Almedina


26 de Setembro, às 19:00 horas

Com Sandra Duarte e Sara Leite

Instituto Superior de Educação e Ciências


Como se pronuncia a palavra “intoxicação”? Escreve-se “concerteza” ou “com certeza”? Qual a diferença entre “descriminar” e “discriminar”? Afinal, “ter matado” existe?

O guia SOS Língua Portuguesa pretende ser uma resposta a pedidos de “socorro linguístico”, fornecendo esclarecimentos imediatos sobre a forma como se deve falar e escrever em português: seja em termos de pronúncia, ortografia, vocabulário, flexão de palavras ou construção de frases. Nesta sessão, as autoras propõem-se abordar alguns dos aspectos mais críticos no uso da língua portuguesa: aqueles que suscitam dúvidas e erros frequentes. Trata-se de um conjunto de esclarecimentos que interessam a todos os que têm vontade de falar e escrever melhor, e sobretudo aos que são comunicadores por profissão.


Livraria Almedina: Atrium Saldanha, loja 71, 2º piso, Lisboa.

23 setembro 2008

Cuidado com a Língua: 2 em 1



Para quem gosta de ver o programa da RTP e também para quem gostaria de poder ter visto a primeira série e não pôde, eis uma boa notícia: foi lançado no mercado o livro com o mesmo título, que inclui um DVD com os primeiros treze episódios.

O lançamento, que contou com a inspirada - e inspiradora - participação do Professor Carlos Reis, foi um evento memorável. "A descoberta de um mundo de palavras que nos faz apaixonar pela língua portuguesa" através da leitura desta obra é a actividade que aqui sugerimos desde já.

22 setembro 2008

Apóstrofos e tecidos



Há muito tempo que os Portugueses revelam uma certa aversão, ou medo, ou ambos, de colocar os estrangeirismos no plural.
Quer se trate de collants, de boxers, de placards ou de bibellots, três em cada cinco portugueses optam por deixar o "s" do plural à margem do resto da palavra, destacando-o com um estiloso apóstrofo: "collant's", "boxer's", "placard's" e "bibellot's". Que é como quem diz: "eu sei muito bem que esta palavra é estrangeira e por isso não pode ficar como as nossas quando está no plural".
O uso de siglas e acrónimos confirma que o apóstrofo veio para ficar na nossa língua: agora proliferam os CD's, os DVD's, mas também os ATL's e os BI's. E o apóstrofo ri-se de todos os puristas que pretendem erradicá-lo do uso comum.
Quanto ao "tirilene", trata-se de um dos mistérios da língua portuguesa. Eu já vi "terilene" e "tirilene" muitas vezes, mas infelizmente nem os dicionários, nem a Mordebe, nem o Ciberdúvidas, nem o Corpus do Português me esclarecem sobre a existência e o significado dessa palavra em português...
No entanto, e em abono dos lojistas que lidam com tecidos e se vêem obrigados a escrever os nomes dos seus diferentes tipos, devo dizer que me compadeço com eles, pela sua ingrata tarefa. Devem morder os lábios, olhar para o tecto, roer a caneta e quem sabe até verter umas gotas de suor em sinal da sua perturbação, cada vez que precisam de colocar na montra um aviso de promoção das calças de "tirilene" ou dos veludos "cotelês"...

17 setembro 2008

Da "esparregata" à espargata


Durante toda a minha infância e adolescência (se a memória não me falha...), sempre ouvi chamar “esparregata” à fantástica manifestação de flexibilidade que consiste em esticar as pernas em direcções opostas até se ficar sentado no chão, literalmente, com uma perna à frente e outra atrás – uma proeza que muito poucas meninas (nunca eu) conseguiam realizar no ginásio da escola.
Foi, pois, com enorme espanto e mesmo indignação que descobri, recentemente e por acaso, que afinal me tinham andado a impingir impunemente um erro fonético-ortográfico durante anos a fio. Por sorte, consegui encontrar algumas almas amigas que me fizeram sentir mais acompanhada, ao confessarem partilhar a minha ignorância.
Mais surpreendida fiquei ao constatar que o termo, de origem italiana, não está atestado na maior parte dos dicionários de língua portuguesa, com excepção do Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
Assim sendo, talvez eu ainda consiga fundar o clube-dos-otários-que-andaram-metade-da-vida-a-dizer-esparregata e reunir assinaturas para uma petição a favor da mudança da adaptação do estrangeirismo (será spargatta?) para esparregata, em nome da sanidade mental de um número incontável de portugueses.

15 setembro 2008

Avalanche ou avalancha?



...Que é como quem pergunta: omelete ou omeleta, camionete ou camioneta, equipe ou equipa, controle ou controlo?


São inúmeros os estrangeirismos de origem francesa na nossa língua – ou seja, os galicismos – e é frequente termos dúvidas sobre a terminação de palavras como estas.

Na maior parte dos casos, ainda é possível escrevê-las de ambas as formas – a original (terminada em e) e a aportuguesada (terminada em a ou o).

No entanto, e dado que o seu aportuguesamento é simples e eficaz, recomenda-se o abandono das formas terminadas em e. Assim, prefiram-se as omeletas, as camionetas, as equipas e o controlo.


... Porém, nas opções que dizem respeito à língua – como em todas as outras – nem sempre a razão fala mais alto do que a emoção. Eu cá, nem sei porquê, digo equipa e camioneta, mas gosto mais de omelete e de avalanche. Quanto ao controle/o, desde que não seja “control”, tanto me faz!

12 setembro 2008

Chocolatoterapia ou chocoterapia?


No Google encontramos 18 ocorrências (páginas de Portugal) de chocolatoterapia, contra 1700 de chocoterapia.

Agora eu pergunto: o que é mais correcto: chocoterapia ou chocolatoterapia?

Pensem, pesquisem e participem!

09 setembro 2008

interpelar e interpolar

Eis duas palavras muito usuais, que, dada a sua semelhança gráfica, podem suscitar dúvidas a qualquer um de nós.
Interpelar significa «dirigir a palavra a alguém (por vezes, de uma forma brusca, inesperada) para lhe perguntar alguma coisa, interrogar.» Por exemplo: o turista interpelou o polícia para saber onde ficava o museu.
Interpolar, por sua vez, significa «meter uma coisa no meio de outra; intercalar», por exemplo: para que o trabalho ficasse mais bonito, decidimos interpolar umas imagens coloridas.

O erro que se verifica muitas vezes é o uso do verbo interpolar em vez de interpelar. Lêem-se com frequência na imprensa frases como «o jornalista interpolou o Primeiro-Ministro sobre...», quando o correcto seria «o jornalista interpelou o Primeiro-Ministro sobre...».

Cuidado com as aparências!

05 setembro 2008

Vírgulas II

Entre orações, a vírgula deve usar-se para:

a) separar orações coordenadas assindéticas (sem conjunções a ligá-las)

E pelos vistos foi essa tal de Glória que o provocou, disso não tenho dúvidas.“ (BG)

b) separar orações coordenadas sindéticas (com conjunções a ligá-las), excepto as introduzidas por e

Você falou em matar o homem, mas aí é que tudo se complica, porque não se trata de um homem qualquer.” (BG)

c) isolar uma oração intercalada (inseridas entre os elementos de outra oração)

“Não sou perito em arte e antiguidades, mas aquela peça, caso fosse verdadeira, era de certeza dos finais do Século XVIII e valeria uma pequena fortuna.” (BG)

d) separar orações subordinadas, com excepção das integrantes*

Mal entrei em casa, o telefone tocou.” (BG)

e) isolar as orações relativas explicativas (as que fornecem informação suplementar, que pode ser omitida da frase)

O seu último artigo, cujo título é “Forças Armadas — Do haver ao Existir, parece-me muito interessante.

f) para separar as orações reduzidas:

- gerundivas

“Pôs fim aos privilégios das farmácias, abrindo o negócio à concorrência.” (PE)

- infinitivas

“As perdizes chegaram, a fumegar.” (CPM, p.92)

- participiais

Agarrado às suas câmaras e ao seu vetusto ampliador, fazia maravilhas.” (E)


* É o caso de que e se, quando estas conjunções introduzem o sujeito ou complemento de verbo. por exemplo nas frases Ele perguntou-nos se iríamos votar, Que votar é um dever já eu sei e Nós respondemos-lhe que sim. Nestes casos, não é correcto usar vírgula para separar as orações.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

E – “Encontro” (conto não publicado)

PE – “Presente envenenado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)


03 setembro 2008

Passo a outro e não ao mesmo!



Desde as mais delirantes (“passa-se”) às mais poéticas (“procuro novo dono”), passando pelas mais elípticas (“trata”) e pelas mais prosaicas (“vendo”), existem mil e uma maneiras de anunciar publicamente, em português, a nossa intenção de negociar um bem móvel ou imóvel.

É só usar a imaginação!


01 setembro 2008

Vírgulas I


Durante as férias, um dos nossos leitores pediu-nos que abordássemos as regras para o emprego da vírgula. Esperamos que este texto seja suficientemente esclarecedor. Se não for, já sabem o que fazer...!


As vírgulas, ao contrário do que muita gente pensa, não servem simplesmente para marcar na escrita as pausas curtas do discurso oral. Se assim fosse, seria correcto colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma frase, o que quase toda a gente sabe que não se deve fazer!

Ora, o uso da vírgula deve ser criterioso, tanto no interior das orações como na ligação entre estas, nas frases complexas.


No interior de orações, a vírgula serve para:

a) separar elementos que têm a mesma função sintáctica (elementos de uma enumeração)

“Os edifícios do quartel, casernas, refeitório, cantina, campos de jogos e outras dependências (...) foram sendo construídos a pouco e pouco (...).” (CPM, p.10)

b) isolar o aposto explicativo (grupo nominal ou adjectival que fornece informação adicional sobre um nome)

”Arthur foi sempre um sahib, filho de sahib, acima de qualquer casta indiana.” (CPM, p.37)

c) isolar o vocativo (palavra ou expressão que usamos para interpelar alguém)

“Cometemos um pequeno erro, rapaz.” (BG)

d) separar palavras repetidas, por uma questão de ênfase

“A mulher falava, falava, falava...” (CPM, p.25)

e) separar o adjunto adverbial, sobretudo quando antecipado

Como de costume, em casa do pequeno Carlos o almoço decorria em silêncio.” (D)

f) separar o nome do local dos elementos de uma data

Cascais, 2 de Outubro de 1974.” (CPM, p.183)

g) indicar a supressão do verbo, no meio de uma oração

Galinha, só em datas festivas.” (D)

h) isolar uma expressão explicativa

Os macacos são omnívoros, isto é, alimentam-se de vegetais e animais.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

D – “O Desgraçado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)

30 julho 2008

Reduzir o máximo ao mínimo




Da fusão entre duas ideias - reduzir algo o máximo possível e reduzir algo até à mínima dimensão possível - resulta uma expressão infeliz e incoerente: "reduzir ao máximo".

O que se deve dizer e escrever, portanto, para transmitir as ideias acima mencionadas (ou apenas uma delas), é:

REDUZIR (alguma coisa) O MÁXIMO possível

ou

REDUZIR AO MÍNIMO (alguma coisa).


Portanto, devemos reduzir o máximo possível o consumo de substâncias nocivas para o organismo, ou seja, reduzir ao mínimo o consumo das mesmas.

Resta-nos desejar a todos os leitores umas excelentes férias (se for esse o caso) e despedirmo-nos com este pedido: não se esqueçam de voltar em Setembro!