29 setembro 2008

"Prequela"???

Um destes dias perguntaram-me se conhecia a palavra "prequela", supostamente o oposto da sequela.
Admiti a minha ignorância, fazendo uma nota mental para verificar se os dicionários que consulto já a registavam. Mas antes de ir ao dicionário, lembrei-me de abrir o Ciberdúvidas, esse valiosíssimo manancial de perguntas e respostas sobre a língua portuguesa.
Verifiquei, com agrado, que os seus consultores repudiavam a existência de tal termo em português, chamando-lhe «mamarracho» e condenando a sua importação do inglês.

Percebo que, para quem usa jargão televisivo por motivos profissionais, a palavra "prequela" seja prática, sobretudo para traduzir rapidamente esse neologismo inglês, prequel, tão em voga actualmente a propósito dos filmes cujo enredo consiste numa analepse relativamente à história contada em filmes anteriores.

Mas concordo com o Ciberdúvidas: tem de haver limites para a ignorância e a preguiça que insistem em desvirtuar a nossa língua!

25 setembro 2008

“Mortadela” ou “mortandela”?




Há dias falei-vos do meu problema existencial relacionado com a grafia e a pronúncia da palavra espargata.

Hoje, com alívio - por se tratar de um equívoco que não é meu - partilho convosco a constatação de outro erro do mesmo género: a "mortandela". Conhecem-na?

O que será que faz com que algumas pessoas tornem nasal o a que se segue ao t na palavra mortadela, que deriva do italiano mortadella e portanto nunca se escreveu com n?

Talvez seja o m inicial, como acontece com "muinto" (que eu também digo), por exemplo, em que o m contamina a pronúncia do ditongo que se lhe segue, tornando-o nasal. É até difícil pronunciar a palavra muito como deve ser, a menos que estejamos com o nariz entupido ou tapado. Mas curiosamente, "mor-tan-de-la" custa mais a dizer do que "mor-ta-de-la"... É como as "chauchichas" em vez de salsichas!

A mim, "mortandela" soa-me a mortandade, ou, pior, parece "morta anda ela", o que é mau de mais para estabelecer qualquer relação entre o enchido e esse nome adulterado. O que me vale é que, como nem sequer gosto de mortadela, não perco muito tempo a pensar nisso!


24 setembro 2008

SOS na Livraria Almedina

Encontros PEDAGOGIA / EDUCAÇÃO
Organização: Luísa Araújo e Almedina


26 de Setembro, às 19:00 horas

Com Sandra Duarte e Sara Leite

Instituto Superior de Educação e Ciências


Como se pronuncia a palavra “intoxicação”? Escreve-se “concerteza” ou “com certeza”? Qual a diferença entre “descriminar” e “discriminar”? Afinal, “ter matado” existe?

O guia SOS Língua Portuguesa pretende ser uma resposta a pedidos de “socorro linguístico”, fornecendo esclarecimentos imediatos sobre a forma como se deve falar e escrever em português: seja em termos de pronúncia, ortografia, vocabulário, flexão de palavras ou construção de frases. Nesta sessão, as autoras propõem-se abordar alguns dos aspectos mais críticos no uso da língua portuguesa: aqueles que suscitam dúvidas e erros frequentes. Trata-se de um conjunto de esclarecimentos que interessam a todos os que têm vontade de falar e escrever melhor, e sobretudo aos que são comunicadores por profissão.


Livraria Almedina: Atrium Saldanha, loja 71, 2º piso, Lisboa.

23 setembro 2008

Cuidado com a Língua: 2 em 1



Para quem gosta de ver o programa da RTP e também para quem gostaria de poder ter visto a primeira série e não pôde, eis uma boa notícia: foi lançado no mercado o livro com o mesmo título, que inclui um DVD com os primeiros treze episódios.

O lançamento, que contou com a inspirada - e inspiradora - participação do Professor Carlos Reis, foi um evento memorável. "A descoberta de um mundo de palavras que nos faz apaixonar pela língua portuguesa" através da leitura desta obra é a actividade que aqui sugerimos desde já.

22 setembro 2008

Apóstrofos e tecidos



Há muito tempo que os Portugueses revelam uma certa aversão, ou medo, ou ambos, de colocar os estrangeirismos no plural.
Quer se trate de collants, de boxers, de placards ou de bibellots, três em cada cinco portugueses optam por deixar o "s" do plural à margem do resto da palavra, destacando-o com um estiloso apóstrofo: "collant's", "boxer's", "placard's" e "bibellot's". Que é como quem diz: "eu sei muito bem que esta palavra é estrangeira e por isso não pode ficar como as nossas quando está no plural".
O uso de siglas e acrónimos confirma que o apóstrofo veio para ficar na nossa língua: agora proliferam os CD's, os DVD's, mas também os ATL's e os BI's. E o apóstrofo ri-se de todos os puristas que pretendem erradicá-lo do uso comum.
Quanto ao "tirilene", trata-se de um dos mistérios da língua portuguesa. Eu já vi "terilene" e "tirilene" muitas vezes, mas infelizmente nem os dicionários, nem a Mordebe, nem o Ciberdúvidas, nem o Corpus do Português me esclarecem sobre a existência e o significado dessa palavra em português...
No entanto, e em abono dos lojistas que lidam com tecidos e se vêem obrigados a escrever os nomes dos seus diferentes tipos, devo dizer que me compadeço com eles, pela sua ingrata tarefa. Devem morder os lábios, olhar para o tecto, roer a caneta e quem sabe até verter umas gotas de suor em sinal da sua perturbação, cada vez que precisam de colocar na montra um aviso de promoção das calças de "tirilene" ou dos veludos "cotelês"...

17 setembro 2008

Da "esparregata" à espargata


Durante toda a minha infância e adolescência (se a memória não me falha...), sempre ouvi chamar “esparregata” à fantástica manifestação de flexibilidade que consiste em esticar as pernas em direcções opostas até se ficar sentado no chão, literalmente, com uma perna à frente e outra atrás – uma proeza que muito poucas meninas (nunca eu) conseguiam realizar no ginásio da escola.
Foi, pois, com enorme espanto e mesmo indignação que descobri, recentemente e por acaso, que afinal me tinham andado a impingir impunemente um erro fonético-ortográfico durante anos a fio. Por sorte, consegui encontrar algumas almas amigas que me fizeram sentir mais acompanhada, ao confessarem partilhar a minha ignorância.
Mais surpreendida fiquei ao constatar que o termo, de origem italiana, não está atestado na maior parte dos dicionários de língua portuguesa, com excepção do Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
Assim sendo, talvez eu ainda consiga fundar o clube-dos-otários-que-andaram-metade-da-vida-a-dizer-esparregata e reunir assinaturas para uma petição a favor da mudança da adaptação do estrangeirismo (será spargatta?) para esparregata, em nome da sanidade mental de um número incontável de portugueses.

15 setembro 2008

Avalanche ou avalancha?



...Que é como quem pergunta: omelete ou omeleta, camionete ou camioneta, equipe ou equipa, controle ou controlo?


São inúmeros os estrangeirismos de origem francesa na nossa língua – ou seja, os galicismos – e é frequente termos dúvidas sobre a terminação de palavras como estas.

Na maior parte dos casos, ainda é possível escrevê-las de ambas as formas – a original (terminada em e) e a aportuguesada (terminada em a ou o).

No entanto, e dado que o seu aportuguesamento é simples e eficaz, recomenda-se o abandono das formas terminadas em e. Assim, prefiram-se as omeletas, as camionetas, as equipas e o controlo.


... Porém, nas opções que dizem respeito à língua – como em todas as outras – nem sempre a razão fala mais alto do que a emoção. Eu cá, nem sei porquê, digo equipa e camioneta, mas gosto mais de omelete e de avalanche. Quanto ao controle/o, desde que não seja “control”, tanto me faz!

12 setembro 2008

Chocolatoterapia ou chocoterapia?


No Google encontramos 18 ocorrências (páginas de Portugal) de chocolatoterapia, contra 1700 de chocoterapia.

Agora eu pergunto: o que é mais correcto: chocoterapia ou chocolatoterapia?

Pensem, pesquisem e participem!

09 setembro 2008

interpelar e interpolar

Eis duas palavras muito usuais, que, dada a sua semelhança gráfica, podem suscitar dúvidas a qualquer um de nós.
Interpelar significa «dirigir a palavra a alguém (por vezes, de uma forma brusca, inesperada) para lhe perguntar alguma coisa, interrogar.» Por exemplo: o turista interpelou o polícia para saber onde ficava o museu.
Interpolar, por sua vez, significa «meter uma coisa no meio de outra; intercalar», por exemplo: para que o trabalho ficasse mais bonito, decidimos interpolar umas imagens coloridas.

O erro que se verifica muitas vezes é o uso do verbo interpolar em vez de interpelar. Lêem-se com frequência na imprensa frases como «o jornalista interpolou o Primeiro-Ministro sobre...», quando o correcto seria «o jornalista interpelou o Primeiro-Ministro sobre...».

Cuidado com as aparências!

05 setembro 2008

Vírgulas II

Entre orações, a vírgula deve usar-se para:

a) separar orações coordenadas assindéticas (sem conjunções a ligá-las)

E pelos vistos foi essa tal de Glória que o provocou, disso não tenho dúvidas.“ (BG)

b) separar orações coordenadas sindéticas (com conjunções a ligá-las), excepto as introduzidas por e

Você falou em matar o homem, mas aí é que tudo se complica, porque não se trata de um homem qualquer.” (BG)

c) isolar uma oração intercalada (inseridas entre os elementos de outra oração)

“Não sou perito em arte e antiguidades, mas aquela peça, caso fosse verdadeira, era de certeza dos finais do Século XVIII e valeria uma pequena fortuna.” (BG)

d) separar orações subordinadas, com excepção das integrantes*

Mal entrei em casa, o telefone tocou.” (BG)

e) isolar as orações relativas explicativas (as que fornecem informação suplementar, que pode ser omitida da frase)

O seu último artigo, cujo título é “Forças Armadas — Do haver ao Existir, parece-me muito interessante.

f) para separar as orações reduzidas:

- gerundivas

“Pôs fim aos privilégios das farmácias, abrindo o negócio à concorrência.” (PE)

- infinitivas

“As perdizes chegaram, a fumegar.” (CPM, p.92)

- participiais

Agarrado às suas câmaras e ao seu vetusto ampliador, fazia maravilhas.” (E)


* É o caso de que e se, quando estas conjunções introduzem o sujeito ou complemento de verbo. por exemplo nas frases Ele perguntou-nos se iríamos votar, Que votar é um dever já eu sei e Nós respondemos-lhe que sim. Nestes casos, não é correcto usar vírgula para separar as orações.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

E – “Encontro” (conto não publicado)

PE – “Presente envenenado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)


03 setembro 2008

Passo a outro e não ao mesmo!



Desde as mais delirantes (“passa-se”) às mais poéticas (“procuro novo dono”), passando pelas mais elípticas (“trata”) e pelas mais prosaicas (“vendo”), existem mil e uma maneiras de anunciar publicamente, em português, a nossa intenção de negociar um bem móvel ou imóvel.

É só usar a imaginação!


01 setembro 2008

Vírgulas I


Durante as férias, um dos nossos leitores pediu-nos que abordássemos as regras para o emprego da vírgula. Esperamos que este texto seja suficientemente esclarecedor. Se não for, já sabem o que fazer...!


As vírgulas, ao contrário do que muita gente pensa, não servem simplesmente para marcar na escrita as pausas curtas do discurso oral. Se assim fosse, seria correcto colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma frase, o que quase toda a gente sabe que não se deve fazer!

Ora, o uso da vírgula deve ser criterioso, tanto no interior das orações como na ligação entre estas, nas frases complexas.


No interior de orações, a vírgula serve para:

a) separar elementos que têm a mesma função sintáctica (elementos de uma enumeração)

“Os edifícios do quartel, casernas, refeitório, cantina, campos de jogos e outras dependências (...) foram sendo construídos a pouco e pouco (...).” (CPM, p.10)

b) isolar o aposto explicativo (grupo nominal ou adjectival que fornece informação adicional sobre um nome)

”Arthur foi sempre um sahib, filho de sahib, acima de qualquer casta indiana.” (CPM, p.37)

c) isolar o vocativo (palavra ou expressão que usamos para interpelar alguém)

“Cometemos um pequeno erro, rapaz.” (BG)

d) separar palavras repetidas, por uma questão de ênfase

“A mulher falava, falava, falava...” (CPM, p.25)

e) separar o adjunto adverbial, sobretudo quando antecipado

Como de costume, em casa do pequeno Carlos o almoço decorria em silêncio.” (D)

f) separar o nome do local dos elementos de uma data

Cascais, 2 de Outubro de 1974.” (CPM, p.183)

g) indicar a supressão do verbo, no meio de uma oração

Galinha, só em datas festivas.” (D)

h) isolar uma expressão explicativa

Os macacos são omnívoros, isto é, alimentam-se de vegetais e animais.

Nota

Os exemplos entre aspas foram retirados dos seguintes textos de Costa Monteiro:

BG – “Beijar a Glória” (conto não publicado)

CPM – Caminhos Perdidos na Madrugada (Lisboa, Editorial Escritor, 1999)

D – “O Desgraçado” (www.deprofundis.blogs.sapo.pt)

30 julho 2008

Reduzir o máximo ao mínimo




Da fusão entre duas ideias - reduzir algo o máximo possível e reduzir algo até à mínima dimensão possível - resulta uma expressão infeliz e incoerente: "reduzir ao máximo".

O que se deve dizer e escrever, portanto, para transmitir as ideias acima mencionadas (ou apenas uma delas), é:

REDUZIR (alguma coisa) O MÁXIMO possível

ou

REDUZIR AO MÍNIMO (alguma coisa).


Portanto, devemos reduzir o máximo possível o consumo de substâncias nocivas para o organismo, ou seja, reduzir ao mínimo o consumo das mesmas.

Resta-nos desejar a todos os leitores umas excelentes férias (se for esse o caso) e despedirmo-nos com este pedido: não se esqueçam de voltar em Setembro!

23 julho 2008

DESAFIO



No dia 4 de Julho, podia ler-se esta frase no Correio da Manhã:


«O primeiro-ministro José Sócrates reduziu ao máximo os compromissos governamentais para ficar ao lado do irmão, António Pinto Sousa, 45 anos, internado em estado grave na Corunha, Espanha, para ser submetido a um transplante pulmonar.»

Desafiamos os leitores a descobrirem o erro que nela está presente.

18 julho 2008

“Apartir” não é português correcto

Se a memória não me falha, houve há tempos um anúncio na rádio em que uma professora pedia aos alunos que formassem «frases com o advérbio “a partir”». E eles diziam, por exemplo, «a partir de amanhã, etc., etc. ...»

Ora, nem “a partir” é um advérbio, nem o uso do artigo definido (o) é apropriado para nos referirmos a essa expressão, porque sugere que se trata de uma palavra só.

Na verdade, “a partir de” (com a preposição de incluída), e é uma locução prepositiva (e não adverbial). E não existe, em português, nenhuma palavra com a forma: apartir, portanto não há confusão possível!

16 julho 2008

Garante e garantia



Um dos substantivos que estão claramente na moda é o garante.
Trata-se de um galicismo (proveniente do francês, garante) que designa uma pessoa: um fiador, alguém «que dá garantia, fiança ou caução» (Dicionário Priberam). Todavia, o que está na moda não é usar a palavra com esse sentido, mas empregá-la com o significado de garantia. Por exemplo, na frase “A formação dos jovens tem de ser garante da sua competência profissional.”
Confesso que não me agrada muito. se a velha garantia serve perfeitamente o mesmo objectivo “(A formação dos jovens tem de ser garantia da sua competência profissional”), para quê criar outra palavra da mesma família? Faz-me lembrar o abandono de materialista por materialístico, ou a substituição de comércio por comercialização...


14 julho 2008

O bom do bem

Já repararam como bem é uma palavra aparentemente tão simples, mas tão rica de significados?

O advérbio bem tem o sentido de bastante, por exemplo na frase: «Hoje o bebé comeu bem». Também pode significar convenientemente: «Achas que vou bem com este fato?» E, se dissermos, «Estive doente, mas agora já estou bem», o sentido de bem já é mais próximo de em boas condições. E por aí fora...

Porém, a palavra bem pode ainda ser um substantivo, designando uma acção ou comportamento bom, solidário: quando se fala de «fazer o bem». Se distinguirmos entre o bem e o mal, estamos perante conceitos muito amplos, em que bem designa tudo o que é bom, positivo, agradável, justo, recto, conforme a moral. E um bem ainda pode ser material, algo que normalmente se usa no plural e que corresponde à propriedade de alguém: os seus bens. E no Brasil, «meu bem» é expressão que se usa para falar com alguém querido, o mesmo que «meu amor».

Mas há mais! Bem pode ainda ser um interjeição e é aí que os seus sentidos são mais difíceis de definir, variando conforme a entoação que lhe damos. Em tom crescente, mas com hesitação, é uma daquelas “muletas” que nos apoiam enquanto escolhemos as palavras que diremos depois: «O que é que eu vou fazer nas férias? Bem... (ou seja, aaah)... passear, ler, descansar!»

Com entusiasmo, enquanto aplaudimos, «Bem!» pode ser o mesmo que «Bravo!». Se, no entanto, dissermos «Beeeeeem!» com uma cara espantada, exprime admiração, sobretudo entre pessoas jovens, talvez de zonas urbanas de Portugal. Por exemplo neste contexto: Fizeste esse desenho sem copiar? Beeeeem! Tens muito jeito!»

E também há o «Bem!» que significa que estamos zangados... o mesmo que «Mau!», curiosa e paradoxalmente. Imaginem a irmã mais velha para o mano impertinente, que ameaça rasgar-lhe um caderno: «Bem! Se voltas a fazer isso vou dizer à mãe!»

Finalmente, há quem diga «Bem!» com um ar sério, a meio do discurso, para suspender a narração de um facto impressionante. Trata-se de uma exclamação propositadamente ambígua, julgo eu, que visa prender os ouvintes, que não sabem se o que se vai dizer a seguir é bom ou mau: «Ontem fui àquele restaurante novo que tem feito tanto sucesso. Bem!...» (Como quem diz «Oiçam!») E o que se segue tanto pode ser «...que maravilha!!» como «...que desilusão!».

Incrível, não é?

10 julho 2008

Plural de líder



Cada vez mais jornalistas e apresentadores de informação pronunciam o plural de líder (líderes), como “lidrs” em vez de “líders”. Porquê?

06 julho 2008

A norma e o riso

Uma das questões de fundo que me pareceram mais interessantes no Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC foi esta: afinal, que sentido faz, hoje, falar de norma linguística?

Uma das conferencistas, Ana Maria Martins, advogou o fim da norma, pelo menos tal como foi definida no século XVIII por um conjunto de homens letrados, para quem o uso correcto da linguagem era aquele que dela faziam os membros da corte. E é fácil concordar que tal conceito de norma é, efectivamente, elitista e anacrónico.

Contudo, ao retirarmos da definição o aspecto mais desfasado da sociedade actual (o facto de ser a linguagem falada na corte), a noção de norma não se torna menos vaga e continua a ser discriminatória, porque elege como padrão a variante falada pelas classes ditas “cultas” do eixo Lisboa-Coimbra. Afinal, o que são as classes cultas, quando a cultura é um conceito tão abrangente (não há nenhum ser humano, afinal, que não viva segundo uma cultura)? E por que razão o "eixo Lisboa-Coimbra" e não o Porto, ou apenas Lisboa, ou apenas Coimbra, ou mesmo outra cidade?

Finalmente, ficaram no ar as questões principais: será que precisamos assim tanto de uma norma, nos dias que correm? Se sim, como é que poderemos definir norma de uma maneira mais democrática e actual?

Telmo Móia deu uma resposta curiosa: a norma pode ser definida de acordo com os limites do risível, ou seja, o que fica de fora é aquilo que faz rir os falantes, que encaram de imediato como ridículos, estranhos ou inadequados os usos que ultrapassam aquilo que eles, consciente ou inconscientemente, consideram correcto ou aceitável.

Assim, é o contexto, a cultura, o saber linguístico de quem comunica que determina o que é a norma. Dizer “fiz-o” em vez de fi-lo, ou “há-des” em vez de hás-de pode ser completamente desviante ou perfeitamente aceitável, dependendo dos falantes que empregam e ouvem estas estruturas.

04 julho 2008

Mais bem: um bicho-papão

Hoje em dia, parece provocar pânico geral o uso da expressão «mais bem», pelo que muita gente opta pela solução que considera mais correcta, mais segura, mais elegante, até: «melhor».
Nada contra o uso desta forma. Mas também nada contra o uso da primeira.

«Melhor» corresponde ao comparativo de superioridade do adjectivo bom e do advérbio bem. Trata-se de uma forma irregular (tal como maior em relação a grande).
O adjectivo bom não admite a forma regular do grau comparativo e superlativo (*mais bom do que, *o mais bom), razão pela qual a gramática dispõe apenas da forma irregular melhor:

(1) a. Este creme é bom, mas esse é melhor.
b. *Este creme é bom, mas esse é mais bom.

Contudo, o mesmo não acontece com o advérbio bem, que admite ambas as formas – melhor e mais bem – dependendo do contexto linguístico em que ocorre. Ora vejamos:

1. Quando o advérbio bem modifica um verbo, pode (e deve) usar a forma irregular do comparativo:

(2) a. O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come melhor.
b. *O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come mais bem.


2. Quando o advérbio bem modifica um adjectivo participial, ou seja, um adjectivo que provém do Particípio Passado de um verbo, como informado, preparado, classificado, etc., já não deve flexionar no grau comparativo ou superlativo irregular:

(3) a. Estes alunos estão mais bem preparados do que os outros.
b. *Estes alunos estão melhor preparados do que os outros.

Um forte argumento a favor desta regra são os particípios irregulares, como escrito, feito, dito, posto, cujo uso não suscita quaisquer dúvidas:

(4) a. Este texto está mais bem escrito do que o primeiro.
b. *Este texto está melhor escrito do que o primeiro.

Curioso é o facto de ninguém hesitar no uso desta forma regular com o particípio passado do verbo passar – passado!
Ou porventura, sentados à mesa de um restaurante, pedem ao empregado o bife "melhor" passado?!

Nota: O asterisco * significa que a frase é agramatical.

02 julho 2008

Fazer ou desfazer a barba?!


Há dias, ouvi na rádio M80 esta curiosidade: Prince inventou a canção “Cream” quando estava ao espelho, a desfazer a barba.

De imediato, repeti em voz alta, em tom de interrogação: «desfazer a barba»? Tentei lembrar-me de outras ocasiões em que tivesse ouvido ou lido a expressão, em contextos em que o seu significado fosse esse que normalmente atribuímos à paradoxal combinação “fazer a barba”, ou seja, eliminar os pêlos à vista na face. Não me ocorreu nenhuma.

Depois, surgiu-me a dúvida: afinal, o que é que os dicionários atestam: fazer ou desfazer a barba?

O Priberam e a Infopédia não apresentam essa colocação sob a entrada barba. Mas o Dicionário Houaiss, assim como o Ciberdúvidas, esclarecem que a expressão que se deve usar é mesmo fazer a barba, o mesmo que barbear. E este outro verbo, reparem, também acaba por ser paradoxal: porque barbear poderia significar, logicamente, tornar barbudo!

Resta saber se a locutora da M80 estava a brincar com as palavras ou se teve a intenção de falar correctamente, aplicando, porém, a hipercorrecção ao seu discurso. Afinal, se Prince tivesse estado a desfazer a barba ao espelho, teríamos de o imaginar a tentar destruir os pêlos da sua barba (já feita), qual criminoso a apagar uma pista, porventura queimando-os ou diluindo-os em ácido!


Fica a advertência: cuidado com a lógica, porque nem sempre se aplica à língua!

30 junho 2008

A língua em foco


Está a decorrer o Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC.
Trata-se de um conjunto de comunicações, acompanhadas de debates, que decorre hoje, dia 30, e amanhã, dia 1 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O tema - Discurso, Diversidade e Literacia: A Língua Portuguesa no Século XXI, - dá "pano para mangas". Desde a «complexidade da escrita e dos desafios que coloca ao leitor» até à crítica de estrangeirismos aparentemente absurdos que se vêm insinuando na nossa língua, passando por um levantamento de curiosíssimas palavras distintas para nomear uma mesma realidade (um pirilampo, um girino...), de acordo com diferentes regiões de Portugal (e diferentes visões do objecto), hoje houve oportunidade para que linguistas e membros da assistência partilhassem as suas preocupações e ideias sobre a riqueza, a complexidade e a diversidade da língua, sobretudo (mas não só) no que toca ao léxico. O Acordo Ortográfico não ficou de fora, como não podia deixar de ser, numa discussão deveras interessante, em que as intervenções do público não ficaram atrás das brilhantes comunicações.

Se quiserem e puderem ir até lá, ainda há cadeiras vagas... mesmo para quem não se inscreveu!

24 junho 2008

Gente Gira... com erros



As histórias de Luísa Ducla Soares, prolífica autora de livros infanto-juvenis, são para mim das mais divertidas, interessantes e bem escritas que se publicam actualmente em Portugal.

Contudo, não posso deixar de usar um dos seus livros, cujas incorrecções ortográficas me saltaram hoje à vista, como pretexto para escrever aqui umas linhas.

Trata-se do livro Gente Gira.
Na história "O Homem das Barbas", há um "avôzinho". Sendo uma palavra grave, cuja sílaba tónica é -zi-, avozinho não pode levar acento circunflexo no o subtónico, tal como acontece com avozinha e com sozinho.
No conto "O Senhor Pouca Sorte", há um ladrão que lhe assalta a "dispensa". Ora, a dispensa é o acto ou efeito de dispensar. O local onde se guardam os alimentos é a despensa.
Finalmente, na última página do mesmo conto, o protagonista come um "perú", que na verdade dispensaria o acompanhamento. É que peru, sendo palavra aguda terminada em u, não precisa de ser acentuada graficamente. Afinal, quem é que a leria como "pêru" ou "péru"?

Enfim, não é nada de muito grave e todos nós podemos ter deslizes de vez em quando. Mas a editora (Livros Horizonte) pode e deve emendar estes erros numa próxima edição!

20 junho 2008

Reconhecer o valor estético da Língua

A língua não é apenas um veículo de comunicação. É também o meio pelo qual expressamos os nossos pensamentos, as nossas emoções, os nossos afectos...
Eu diria que a língua não tem somente o género gramatical feminino; ela é 100% feminina, e, como tal, também ela é vaidosa!
Por trás dos bastidores, que são as regras firmes da gramática, está também o encanto de ela aparecer em palco e mostrar a beleza das suas roupas, que são as palavras; das suas jóias, que são as figuras de estilo; da sua maquilhagem, que são as reticências e os pontos de exclamação a mais!!
E ninguém ouse censurar esta vaidade de “alguém” que não envelhece, mas que, pelo contrário, rejuvenesce a cada dia que passa!

Reconheceram o valor estético da língua?!!

18 junho 2008

O Gustave e a Torre... cada um com seu apelido!




Acabo de ouvir alguém dar uma informação com uma incongruência fonética curiosa: «a escola Gustave [Êi]ffel» (com tónica num suposto ditongo inicial) «fica ali ao fundo, onde está o desenho da Torre Eiff[é]l» (com tónica no e final, desta vez aberto).

Fiquei mentalmente boquiaberta! Então tem alguma lógica pronunciar o mesmo nome de duas maneiras diferentes na mesma frase?! É que, na verdade, já me dei conta de que há mais gente que prefere pronunciar o nome da escola profissional como Gustave "Êiffel", mas depois nunca hesita em referir-se à torre de Paris como a Torre "Eiffél"?

Será que quem pronuncia a palavra de duas maneiras diferentes pensa tratar-se de dois nomes distintos? Será que é o nome próprio, Gustave, que origina o estranho fenómeno de a palavra aguda Eiffel (à portuguesa e à francesa também) passar a grave? Será para ter uma sonoridade mais sofisticada e erudita que o nome da escola é assim pronunciado? Será por mero acaso e o melhor é não pensar mais nisso?

Para esta não consigo mesmo encontrar uma resposta satisfatória!

16 junho 2008

Mania ou fobia?


Mania e fobia são perturbações que implicam comportamentos opostos. A mania implica o costume obsessivo de fazer alguma coisa; a fobia o medo, o pavor de alguma coisa. Decerto que a diferença é óbvia para muitos leitores, mas, curiosamente, tenho-me apercebido de que há quem confunda estas duas tendências.

Quando ouço alguém dizer que «tem a fobia das arrumações!», percebo, pelo contexto, que a palavra fobia foi empregada, erradamente, com o sentido de mania.

E dá-me a sensação de que subjaz a esta confusão a necessidade de encontrar um termo que seja ainda mais expressivo do que o corriqueiro mania. Ou seja, as pessoas sabem o que a palavra mania significa, mas querem usar uma outra, que realce ainda mais a ideia. E então lembram-se de dizer fobia, que no entanto significa o oposto!

Parece-me que se trata de mais uma divertida contradição, a juntar ao desinquieto, ao despoletar e ao destrocar...

11 junho 2008

A moda "proactiva"

Quase de um dia para o outro, comecei a ouvir o adjectivo proactivo a torto e a direito - uma palavra cuja existência na nossa língua, confesso, eu desconhecia.

Hoje, fala-se muito de pessoas, posturas e até de actividades proactivas (o que a mim me parecia, senão um disparate, pelo menos uma redundância!). Perguntei-me se muita gente não usaria a palavra apenas porque lhe soava bem, sem saber ao certo o que poderia querer dizer, ou mesmo se, de facto, existiria em português.

Quando fui investigar, tive uma surpresa. Trata-se da adaptação de um termo inglês (para não variar...), proactive, que já foi consagrada nos nossos dicionários e tem um significado bem explícito e inequívoco: o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, por exemplo, atesta que proactivo é aquele ou aquilo «que tende a criar ou a controlar uma situação, tomando a iniciativa, e não apenas reagir a ela».

Eis aqui um belo exemplo de como se pode estar sempre a aprender. E, para isso, nada melhor do que ter de ensinar. Afinal, eu até gosto que os meus alunos sejam proactivos...!

09 junho 2008

Anglicanismo ou anglicismo?!



Há dias, uma colega contou-me que «uma figura da nossa cultura (da área da música) utilizou um termo de origem inglesa, e logo a seguir pediu desculpa aos ouvintes pelo “anglicanismo”…» (Obrigada, Ana!).


Anglicanismo é a religião oficial de Inglaterra, instituída no século XVI por Henrique VIII, na sequência do seu divórcio de Catarina de Aragão, que não foi consentido pelo Papa Clemente VII. Depois de ter sido excomungado, o rei decidiu subjugar a Igreja à autoridade régia e fez aprovar, no Parlamento, o Act of Supremacy, que representou a cisão definitiva com Roma.
Anglicismo designa uma palavra que é proveniente da língua inglesa. Termos como leasing, bar, software, background e timing são anglicismos. Era este, portanto, o nome que o ilustre senhor (ou a ilustre senhora) deveria ter usado.

Isto só prova que nem os mais cultos se livram de cometer a sua “gafezinha” de vez em quando… como eu costumo dizer (a mim própria, inclusive): todos temos telhados de vidro. E se ando às vezes a chamar a atenção para os erros dos outros, não é para os criticar gratuitamente, mas para que todos possamos aprender com a sua correcção.

04 junho 2008

RE + HAVER = REAVER

"Se eu *reaver"... é erro frequente e até se compreende porquê: na primeira e na terceira pessoa, os verbos regulares costumam terminar de forma igual à do Infinitivo quando estão conjugados no Futuro do Conjuntivo: "se eu lavar", "quando eu entender", "se eu dormir".

Só reparamos que o verbo, de facto, assume uma forma diferente da do Infinitivo quando ele é irregular: "se eu der", "quando eu fizer", "se eu trouxer", etc.

Assim, percebe-se a tendência de muita gente para utilizar verbos irregulares conforme o paradigma, ou seja, para dizer, por exemplo, "se o tempo se *manter assim" em vez de "se o tempo se mantiver assim".

Isto acontece, sobretudo, quando os verbos são compostos, ou seja, quando derivam de outros. Manter deriva de ter, portanto, manteve e não "manteu", mantiver e não "manter", no futuro do conjuntivo.

Quanto a reaver, trata-se da combinação entre o prefixo re- e o verbo haver. Assim, se ao conjugar o verbo haver no futuro do conjuntivo dizemos houver, logicamente devemos também dizer reouver. Só eliminamos o "h"! Porque, afinal, reaver é haver de novo, no sentido de voltar a ter.

31 maio 2008

Novo desafio

O que há de errado na frase que se segue?


«Se reaver o dinheiro a tempo, ainda poderei fazer uma viagem ao estrangeiro nas férias.»