30 julho 2008

Reduzir o máximo ao mínimo




Da fusão entre duas ideias - reduzir algo o máximo possível e reduzir algo até à mínima dimensão possível - resulta uma expressão infeliz e incoerente: "reduzir ao máximo".

O que se deve dizer e escrever, portanto, para transmitir as ideias acima mencionadas (ou apenas uma delas), é:

REDUZIR (alguma coisa) O MÁXIMO possível

ou

REDUZIR AO MÍNIMO (alguma coisa).


Portanto, devemos reduzir o máximo possível o consumo de substâncias nocivas para o organismo, ou seja, reduzir ao mínimo o consumo das mesmas.

Resta-nos desejar a todos os leitores umas excelentes férias (se for esse o caso) e despedirmo-nos com este pedido: não se esqueçam de voltar em Setembro!

23 julho 2008

DESAFIO



No dia 4 de Julho, podia ler-se esta frase no Correio da Manhã:


«O primeiro-ministro José Sócrates reduziu ao máximo os compromissos governamentais para ficar ao lado do irmão, António Pinto Sousa, 45 anos, internado em estado grave na Corunha, Espanha, para ser submetido a um transplante pulmonar.»

Desafiamos os leitores a descobrirem o erro que nela está presente.

18 julho 2008

“Apartir” não é português correcto

Se a memória não me falha, houve há tempos um anúncio na rádio em que uma professora pedia aos alunos que formassem «frases com o advérbio “a partir”». E eles diziam, por exemplo, «a partir de amanhã, etc., etc. ...»

Ora, nem “a partir” é um advérbio, nem o uso do artigo definido (o) é apropriado para nos referirmos a essa expressão, porque sugere que se trata de uma palavra só.

Na verdade, “a partir de” (com a preposição de incluída), e é uma locução prepositiva (e não adverbial). E não existe, em português, nenhuma palavra com a forma: apartir, portanto não há confusão possível!

16 julho 2008

Garante e garantia



Um dos substantivos que estão claramente na moda é o garante.
Trata-se de um galicismo (proveniente do francês, garante) que designa uma pessoa: um fiador, alguém «que dá garantia, fiança ou caução» (Dicionário Priberam). Todavia, o que está na moda não é usar a palavra com esse sentido, mas empregá-la com o significado de garantia. Por exemplo, na frase “A formação dos jovens tem de ser garante da sua competência profissional.”
Confesso que não me agrada muito. se a velha garantia serve perfeitamente o mesmo objectivo “(A formação dos jovens tem de ser garantia da sua competência profissional”), para quê criar outra palavra da mesma família? Faz-me lembrar o abandono de materialista por materialístico, ou a substituição de comércio por comercialização...


14 julho 2008

O bom do bem

Já repararam como bem é uma palavra aparentemente tão simples, mas tão rica de significados?

O advérbio bem tem o sentido de bastante, por exemplo na frase: «Hoje o bebé comeu bem». Também pode significar convenientemente: «Achas que vou bem com este fato?» E, se dissermos, «Estive doente, mas agora já estou bem», o sentido de bem já é mais próximo de em boas condições. E por aí fora...

Porém, a palavra bem pode ainda ser um substantivo, designando uma acção ou comportamento bom, solidário: quando se fala de «fazer o bem». Se distinguirmos entre o bem e o mal, estamos perante conceitos muito amplos, em que bem designa tudo o que é bom, positivo, agradável, justo, recto, conforme a moral. E um bem ainda pode ser material, algo que normalmente se usa no plural e que corresponde à propriedade de alguém: os seus bens. E no Brasil, «meu bem» é expressão que se usa para falar com alguém querido, o mesmo que «meu amor».

Mas há mais! Bem pode ainda ser um interjeição e é aí que os seus sentidos são mais difíceis de definir, variando conforme a entoação que lhe damos. Em tom crescente, mas com hesitação, é uma daquelas “muletas” que nos apoiam enquanto escolhemos as palavras que diremos depois: «O que é que eu vou fazer nas férias? Bem... (ou seja, aaah)... passear, ler, descansar!»

Com entusiasmo, enquanto aplaudimos, «Bem!» pode ser o mesmo que «Bravo!». Se, no entanto, dissermos «Beeeeeem!» com uma cara espantada, exprime admiração, sobretudo entre pessoas jovens, talvez de zonas urbanas de Portugal. Por exemplo neste contexto: Fizeste esse desenho sem copiar? Beeeeem! Tens muito jeito!»

E também há o «Bem!» que significa que estamos zangados... o mesmo que «Mau!», curiosa e paradoxalmente. Imaginem a irmã mais velha para o mano impertinente, que ameaça rasgar-lhe um caderno: «Bem! Se voltas a fazer isso vou dizer à mãe!»

Finalmente, há quem diga «Bem!» com um ar sério, a meio do discurso, para suspender a narração de um facto impressionante. Trata-se de uma exclamação propositadamente ambígua, julgo eu, que visa prender os ouvintes, que não sabem se o que se vai dizer a seguir é bom ou mau: «Ontem fui àquele restaurante novo que tem feito tanto sucesso. Bem!...» (Como quem diz «Oiçam!») E o que se segue tanto pode ser «...que maravilha!!» como «...que desilusão!».

Incrível, não é?

10 julho 2008

Plural de líder



Cada vez mais jornalistas e apresentadores de informação pronunciam o plural de líder (líderes), como “lidrs” em vez de “líders”. Porquê?

06 julho 2008

A norma e o riso

Uma das questões de fundo que me pareceram mais interessantes no Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC foi esta: afinal, que sentido faz, hoje, falar de norma linguística?

Uma das conferencistas, Ana Maria Martins, advogou o fim da norma, pelo menos tal como foi definida no século XVIII por um conjunto de homens letrados, para quem o uso correcto da linguagem era aquele que dela faziam os membros da corte. E é fácil concordar que tal conceito de norma é, efectivamente, elitista e anacrónico.

Contudo, ao retirarmos da definição o aspecto mais desfasado da sociedade actual (o facto de ser a linguagem falada na corte), a noção de norma não se torna menos vaga e continua a ser discriminatória, porque elege como padrão a variante falada pelas classes ditas “cultas” do eixo Lisboa-Coimbra. Afinal, o que são as classes cultas, quando a cultura é um conceito tão abrangente (não há nenhum ser humano, afinal, que não viva segundo uma cultura)? E por que razão o "eixo Lisboa-Coimbra" e não o Porto, ou apenas Lisboa, ou apenas Coimbra, ou mesmo outra cidade?

Finalmente, ficaram no ar as questões principais: será que precisamos assim tanto de uma norma, nos dias que correm? Se sim, como é que poderemos definir norma de uma maneira mais democrática e actual?

Telmo Móia deu uma resposta curiosa: a norma pode ser definida de acordo com os limites do risível, ou seja, o que fica de fora é aquilo que faz rir os falantes, que encaram de imediato como ridículos, estranhos ou inadequados os usos que ultrapassam aquilo que eles, consciente ou inconscientemente, consideram correcto ou aceitável.

Assim, é o contexto, a cultura, o saber linguístico de quem comunica que determina o que é a norma. Dizer “fiz-o” em vez de fi-lo, ou “há-des” em vez de hás-de pode ser completamente desviante ou perfeitamente aceitável, dependendo dos falantes que empregam e ouvem estas estruturas.

04 julho 2008

Mais bem: um bicho-papão

Hoje em dia, parece provocar pânico geral o uso da expressão «mais bem», pelo que muita gente opta pela solução que considera mais correcta, mais segura, mais elegante, até: «melhor».
Nada contra o uso desta forma. Mas também nada contra o uso da primeira.

«Melhor» corresponde ao comparativo de superioridade do adjectivo bom e do advérbio bem. Trata-se de uma forma irregular (tal como maior em relação a grande).
O adjectivo bom não admite a forma regular do grau comparativo e superlativo (*mais bom do que, *o mais bom), razão pela qual a gramática dispõe apenas da forma irregular melhor:

(1) a. Este creme é bom, mas esse é melhor.
b. *Este creme é bom, mas esse é mais bom.

Contudo, o mesmo não acontece com o advérbio bem, que admite ambas as formas – melhor e mais bem – dependendo do contexto linguístico em que ocorre. Ora vejamos:

1. Quando o advérbio bem modifica um verbo, pode (e deve) usar a forma irregular do comparativo:

(2) a. O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come melhor.
b. *O bebé da Clara come bem, mas o da Ana come mais bem.


2. Quando o advérbio bem modifica um adjectivo participial, ou seja, um adjectivo que provém do Particípio Passado de um verbo, como informado, preparado, classificado, etc., já não deve flexionar no grau comparativo ou superlativo irregular:

(3) a. Estes alunos estão mais bem preparados do que os outros.
b. *Estes alunos estão melhor preparados do que os outros.

Um forte argumento a favor desta regra são os particípios irregulares, como escrito, feito, dito, posto, cujo uso não suscita quaisquer dúvidas:

(4) a. Este texto está mais bem escrito do que o primeiro.
b. *Este texto está melhor escrito do que o primeiro.

Curioso é o facto de ninguém hesitar no uso desta forma regular com o particípio passado do verbo passar – passado!
Ou porventura, sentados à mesa de um restaurante, pedem ao empregado o bife "melhor" passado?!

Nota: O asterisco * significa que a frase é agramatical.

02 julho 2008

Fazer ou desfazer a barba?!


Há dias, ouvi na rádio M80 esta curiosidade: Prince inventou a canção “Cream” quando estava ao espelho, a desfazer a barba.

De imediato, repeti em voz alta, em tom de interrogação: «desfazer a barba»? Tentei lembrar-me de outras ocasiões em que tivesse ouvido ou lido a expressão, em contextos em que o seu significado fosse esse que normalmente atribuímos à paradoxal combinação “fazer a barba”, ou seja, eliminar os pêlos à vista na face. Não me ocorreu nenhuma.

Depois, surgiu-me a dúvida: afinal, o que é que os dicionários atestam: fazer ou desfazer a barba?

O Priberam e a Infopédia não apresentam essa colocação sob a entrada barba. Mas o Dicionário Houaiss, assim como o Ciberdúvidas, esclarecem que a expressão que se deve usar é mesmo fazer a barba, o mesmo que barbear. E este outro verbo, reparem, também acaba por ser paradoxal: porque barbear poderia significar, logicamente, tornar barbudo!

Resta saber se a locutora da M80 estava a brincar com as palavras ou se teve a intenção de falar correctamente, aplicando, porém, a hipercorrecção ao seu discurso. Afinal, se Prince tivesse estado a desfazer a barba ao espelho, teríamos de o imaginar a tentar destruir os pêlos da sua barba (já feita), qual criminoso a apagar uma pista, porventura queimando-os ou diluindo-os em ácido!


Fica a advertência: cuidado com a lógica, porque nem sempre se aplica à língua!

30 junho 2008

A língua em foco


Está a decorrer o Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC.
Trata-se de um conjunto de comunicações, acompanhadas de debates, que decorre hoje, dia 30, e amanhã, dia 1 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O tema - Discurso, Diversidade e Literacia: A Língua Portuguesa no Século XXI, - dá "pano para mangas". Desde a «complexidade da escrita e dos desafios que coloca ao leitor» até à crítica de estrangeirismos aparentemente absurdos que se vêm insinuando na nossa língua, passando por um levantamento de curiosíssimas palavras distintas para nomear uma mesma realidade (um pirilampo, um girino...), de acordo com diferentes regiões de Portugal (e diferentes visões do objecto), hoje houve oportunidade para que linguistas e membros da assistência partilhassem as suas preocupações e ideias sobre a riqueza, a complexidade e a diversidade da língua, sobretudo (mas não só) no que toca ao léxico. O Acordo Ortográfico não ficou de fora, como não podia deixar de ser, numa discussão deveras interessante, em que as intervenções do público não ficaram atrás das brilhantes comunicações.

Se quiserem e puderem ir até lá, ainda há cadeiras vagas... mesmo para quem não se inscreveu!

24 junho 2008

Gente Gira... com erros



As histórias de Luísa Ducla Soares, prolífica autora de livros infanto-juvenis, são para mim das mais divertidas, interessantes e bem escritas que se publicam actualmente em Portugal.

Contudo, não posso deixar de usar um dos seus livros, cujas incorrecções ortográficas me saltaram hoje à vista, como pretexto para escrever aqui umas linhas.

Trata-se do livro Gente Gira.
Na história "O Homem das Barbas", há um "avôzinho". Sendo uma palavra grave, cuja sílaba tónica é -zi-, avozinho não pode levar acento circunflexo no o subtónico, tal como acontece com avozinha e com sozinho.
No conto "O Senhor Pouca Sorte", há um ladrão que lhe assalta a "dispensa". Ora, a dispensa é o acto ou efeito de dispensar. O local onde se guardam os alimentos é a despensa.
Finalmente, na última página do mesmo conto, o protagonista come um "perú", que na verdade dispensaria o acompanhamento. É que peru, sendo palavra aguda terminada em u, não precisa de ser acentuada graficamente. Afinal, quem é que a leria como "pêru" ou "péru"?

Enfim, não é nada de muito grave e todos nós podemos ter deslizes de vez em quando. Mas a editora (Livros Horizonte) pode e deve emendar estes erros numa próxima edição!

20 junho 2008

Reconhecer o valor estético da Língua

A língua não é apenas um veículo de comunicação. É também o meio pelo qual expressamos os nossos pensamentos, as nossas emoções, os nossos afectos...
Eu diria que a língua não tem somente o género gramatical feminino; ela é 100% feminina, e, como tal, também ela é vaidosa!
Por trás dos bastidores, que são as regras firmes da gramática, está também o encanto de ela aparecer em palco e mostrar a beleza das suas roupas, que são as palavras; das suas jóias, que são as figuras de estilo; da sua maquilhagem, que são as reticências e os pontos de exclamação a mais!!
E ninguém ouse censurar esta vaidade de “alguém” que não envelhece, mas que, pelo contrário, rejuvenesce a cada dia que passa!

Reconheceram o valor estético da língua?!!

18 junho 2008

O Gustave e a Torre... cada um com seu apelido!




Acabo de ouvir alguém dar uma informação com uma incongruência fonética curiosa: «a escola Gustave [Êi]ffel» (com tónica num suposto ditongo inicial) «fica ali ao fundo, onde está o desenho da Torre Eiff[é]l» (com tónica no e final, desta vez aberto).

Fiquei mentalmente boquiaberta! Então tem alguma lógica pronunciar o mesmo nome de duas maneiras diferentes na mesma frase?! É que, na verdade, já me dei conta de que há mais gente que prefere pronunciar o nome da escola profissional como Gustave "Êiffel", mas depois nunca hesita em referir-se à torre de Paris como a Torre "Eiffél"?

Será que quem pronuncia a palavra de duas maneiras diferentes pensa tratar-se de dois nomes distintos? Será que é o nome próprio, Gustave, que origina o estranho fenómeno de a palavra aguda Eiffel (à portuguesa e à francesa também) passar a grave? Será para ter uma sonoridade mais sofisticada e erudita que o nome da escola é assim pronunciado? Será por mero acaso e o melhor é não pensar mais nisso?

Para esta não consigo mesmo encontrar uma resposta satisfatória!

16 junho 2008

Mania ou fobia?


Mania e fobia são perturbações que implicam comportamentos opostos. A mania implica o costume obsessivo de fazer alguma coisa; a fobia o medo, o pavor de alguma coisa. Decerto que a diferença é óbvia para muitos leitores, mas, curiosamente, tenho-me apercebido de que há quem confunda estas duas tendências.

Quando ouço alguém dizer que «tem a fobia das arrumações!», percebo, pelo contexto, que a palavra fobia foi empregada, erradamente, com o sentido de mania.

E dá-me a sensação de que subjaz a esta confusão a necessidade de encontrar um termo que seja ainda mais expressivo do que o corriqueiro mania. Ou seja, as pessoas sabem o que a palavra mania significa, mas querem usar uma outra, que realce ainda mais a ideia. E então lembram-se de dizer fobia, que no entanto significa o oposto!

Parece-me que se trata de mais uma divertida contradição, a juntar ao desinquieto, ao despoletar e ao destrocar...

11 junho 2008

A moda "proactiva"

Quase de um dia para o outro, comecei a ouvir o adjectivo proactivo a torto e a direito - uma palavra cuja existência na nossa língua, confesso, eu desconhecia.

Hoje, fala-se muito de pessoas, posturas e até de actividades proactivas (o que a mim me parecia, senão um disparate, pelo menos uma redundância!). Perguntei-me se muita gente não usaria a palavra apenas porque lhe soava bem, sem saber ao certo o que poderia querer dizer, ou mesmo se, de facto, existiria em português.

Quando fui investigar, tive uma surpresa. Trata-se da adaptação de um termo inglês (para não variar...), proactive, que já foi consagrada nos nossos dicionários e tem um significado bem explícito e inequívoco: o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, por exemplo, atesta que proactivo é aquele ou aquilo «que tende a criar ou a controlar uma situação, tomando a iniciativa, e não apenas reagir a ela».

Eis aqui um belo exemplo de como se pode estar sempre a aprender. E, para isso, nada melhor do que ter de ensinar. Afinal, eu até gosto que os meus alunos sejam proactivos...!

09 junho 2008

Anglicanismo ou anglicismo?!



Há dias, uma colega contou-me que «uma figura da nossa cultura (da área da música) utilizou um termo de origem inglesa, e logo a seguir pediu desculpa aos ouvintes pelo “anglicanismo”…» (Obrigada, Ana!).


Anglicanismo é a religião oficial de Inglaterra, instituída no século XVI por Henrique VIII, na sequência do seu divórcio de Catarina de Aragão, que não foi consentido pelo Papa Clemente VII. Depois de ter sido excomungado, o rei decidiu subjugar a Igreja à autoridade régia e fez aprovar, no Parlamento, o Act of Supremacy, que representou a cisão definitiva com Roma.
Anglicismo designa uma palavra que é proveniente da língua inglesa. Termos como leasing, bar, software, background e timing são anglicismos. Era este, portanto, o nome que o ilustre senhor (ou a ilustre senhora) deveria ter usado.

Isto só prova que nem os mais cultos se livram de cometer a sua “gafezinha” de vez em quando… como eu costumo dizer (a mim própria, inclusive): todos temos telhados de vidro. E se ando às vezes a chamar a atenção para os erros dos outros, não é para os criticar gratuitamente, mas para que todos possamos aprender com a sua correcção.

04 junho 2008

RE + HAVER = REAVER

"Se eu *reaver"... é erro frequente e até se compreende porquê: na primeira e na terceira pessoa, os verbos regulares costumam terminar de forma igual à do Infinitivo quando estão conjugados no Futuro do Conjuntivo: "se eu lavar", "quando eu entender", "se eu dormir".

Só reparamos que o verbo, de facto, assume uma forma diferente da do Infinitivo quando ele é irregular: "se eu der", "quando eu fizer", "se eu trouxer", etc.

Assim, percebe-se a tendência de muita gente para utilizar verbos irregulares conforme o paradigma, ou seja, para dizer, por exemplo, "se o tempo se *manter assim" em vez de "se o tempo se mantiver assim".

Isto acontece, sobretudo, quando os verbos são compostos, ou seja, quando derivam de outros. Manter deriva de ter, portanto, manteve e não "manteu", mantiver e não "manter", no futuro do conjuntivo.

Quanto a reaver, trata-se da combinação entre o prefixo re- e o verbo haver. Assim, se ao conjugar o verbo haver no futuro do conjuntivo dizemos houver, logicamente devemos também dizer reouver. Só eliminamos o "h"! Porque, afinal, reaver é haver de novo, no sentido de voltar a ter.

31 maio 2008

Novo desafio

O que há de errado na frase que se segue?


«Se reaver o dinheiro a tempo, ainda poderei fazer uma viagem ao estrangeiro nas férias.»

27 maio 2008

Quem encontra os 12 erros deste texto?


O Tomás não é uma criança mal comportada, mas sofre de um desiquilíbrio hormonal que o deixa por vezes obsecado com comida, como se estivesse sempre cheinho de fome. Todos os dias, imperetrivelmente há uma hora, pára o que estiver a fazer e entra numa enorme excitação. Quando as crianças saiem da sala em fila para almoçar, nunca quer ir na rectaguarda, com receio de ficar sem comer. Nessas circunstâncias, tem comportamentos menos adquados e, lógicamente, é repreendido. Mensalmente, encontramo-nos com os pais dele, que têm uma explêndida relação com o filho e estão sempre disponiveis para conversar.

21 maio 2008

Desenhar, designar e design

Os dicionários informam-nos que o verbo desenhar vem do latim designāre, que significava «marcar (de maneira distintiva), representar, designar; indicar», etc. – segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Assim, conclui-se que os verbos desenhar e designar têm a mesma origem – qualquer pessoa perceberá isso sem dificuldade.

No entanto, quando falo com profissionais dessa nova arte que é o design, e se os confronto com a possibilidade de me referir à sua profissão como o “desenho”, para evitar o anglicismo, eles tentam quase sempre convencer-me de que design e desenho são coisas COMPLETAMENTE diferentes e o termo design não é um estrangeirismo, porque provém do latim.

Alguns procuram mesmo explicar-me que, enquanto o verbo desenhar corresponde à acção de representar uma forma graficamente, fisicamente, o design – que dos dois termos é o único, alegam eles, que vem do latim designāre – refere-se ao acto de apontar ou indicar – cujas implicações são espirituais, senão mesmo demiúrgicas. Aliás, para eles, isto faz todo o sentido, porque afinal o designer é um puro designador, mas não desenha nada. Quando muito, manda outros desenharem por ele.

Sinceramente, escapam-me estes raciocícios. Até entendo que um designer vista assim a sua camisola, defendendo a todo o custo a essência conceptual da sua profissão. Mas não consigo perceber como pode fechar os olhos perante aquilo que é óbvio. Afinal, não há mal nenhum em usar um termo estrangeiro para designar um conceito novo, para o qual achamos que a palavra antiga, já carregada de acepções, não serve totalmente. Foi o que aconteceu com teste, que também veio do inglês, apesar de ter origem latina. E não há mal nenhum nisso!

19 maio 2008

Quem encontra os 10 erros presentes neste texto ?


As acções eficazes de voluntariado dependem da boa-vontade de uma minoria preserverante, embora muitos hajam no sentido de ajudar o próximo no dia a dia. Só apartir do momento em que o Governo e as autarquias adequem a legislação às necessidades efectivas dos mais carênciados e de quem os assiste poderão haver condições para querer que a sociedade é solidária, pois promove o bem e incentiva os cidadãos a pratica-lo.

18 maio 2008

Pescadinha de rabo na boca




Não sei se repararam que temos publicado cada vez com menos frequência...
Não sei se repararam que os comentários aos textos escasseiam cada vez mais...

É a chamada "pescadinha de rabo na boca", uma excelente imagem deste círculo vicioso: escrevemos menos por falta de incentivo por parte dos leitores, mas os leitores talvez comentem menos por falta de estímulo da nossa parte!

14 maio 2008

Chamativo já não é apelativo!


Apeler em francês quer dizer “chamar”. Daí o adjectivo apélatif, que significa em português chamativo, ou seja, que chama a atenção.

Agora, porém, está na moda dizer que as coisas são (ou não) “apelativas”, quase ninguém diz que são chamativas.

No entanto, nem mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, que é tão “para a frentex”, regista esse sentido para o adjectivo apelativo, que significa «Que chama ou invoca, que apela» (derivado, naturalmente, do verbo apelar), ao passo que chamativo designa, realmente, algo «Que chama a atenção, vistoso». É, portanto, clara a diferença: o que é apelativo apela, exorta; o que é chamativo chama, atrai.

Assim, quando dizemos que as cores vivas tornam o espaço mais “apelativo”, devemos, na realidade, dizer “mais chamativo”, para chamar as coisas pelos seus nomes!

09 maio 2008

O Vocabulário de que (quase) não se fala


O Acordo Ortográfico contempla, no seu preâmbulo, o seguinte artigo:

«Artigo 2.º

Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.»

Ora, o que eu pergunto é: quando é que se vai começar a fazer este vocabulário, que é imprescindível para a concertação da tal ortografia (supostamente) comum?

Em Portugal, um dos “órgãos competentes” será certamente a Academia das Ciências de Lisboa. Os outros não sei quais são, confesso. E pergunto-me, assumindo desde já, publicamente, a minha ignorância: não haverá por cá uma Academia das Letras (de uma qualquer cidade portuguesa, não precisa de ser lisboeta) que possa dar conta do recado? Quer-me parecer que a tarefa é demasiado titânica para uma Academia que já deve ter pano para mangas ocupando-se das ciências todas que existem...

07 maio 2008

O novo “purtuguex”

Confesso que cada vez tenho mais dificuldade em compreender as mensagens que os jovens escrevem uns para os outros hoje em dia. Talvez o objectivo deles também passe por aí – dificultar a compreensão por parte dos “cotas” – apesar de me parecer que a principal razão “pk xcrevem axim” é simplificar a ortografia.

Simplificar, por si só, não é um objectivo condenável. Basta lembrar que é uma das grandes vantagens da reforma ortográfica, para os seus defensores. O problema é que a substituição de umas letras por outras – nomeadamente o q pelo k e o s/ch/ç pelo x – , aliada à falta de leituras de qualidade, vai progressivamente criando imagens mentais das palavras que se afastam da sua grafia oficial.

Rapazes e raparigas com quem tenho falado garantem-me que não, que conseguem escrever “normalmente” sempre que é preciso, que só usam essa escrita abreviada e simplificada nas mensagens de telemóvel e correio electrónico. Eu dou-lhes o benefício da dúvida. Até porque, pela minha experiência como professora, a maior dificuldade da juventude que acaba o secundário e ingressa no ensino superior já nem sequer é escrever sem erros, mas algo muito mais grave: exprimir ideias através de palavras adequadas e frases gramaticalmente aceitáveis.

Nesse sentido, a grande polémica em torno do Acordo Ortográfico parece-me às vezes uma patetice, um devaneio de intelectuais alheados do que realmente interessa na sociedade, no que diz respeito ao uso da língua. E apetece-me dizer «venha o Acordo e depressa! Ao menos assim, os alunos que cometem actualmente vinte erros num ditado de 100 palavras passarão a cometer apenas quinze!»

02 maio 2008

Erro gratuito



Há quem tenha dúvidas sobre acentuação e há quem tenha certezas, mesmo estando errado...

Nesta paragem de autocarro, no Algarve, não há dúvida: o ditongo "ui" na palavra gratuito foi substituído por um hiato, isto é, as duas vogais pertencem, pelos vistos, a sílabas diferentes (para quem escreveu a palavra assim) e o "i" tornou-se a única vogal tónica.

Ui...

29 abril 2008

O estrangeirismo "pack"


Quem é que nunca se referiu a uma embalagem ou pacote de vários artigos, como cervejas ou latas de sumo, usando o estrangeirismo pack?

Embora possa parecer desnecessário e quase ridículo empregar o termo inglês quando temos a palavra pacote, o facto de se ter adoptado esse estrangeirismo revela que, para certas acepções os falantes a consideram inaadequada para transmitir a ideia que pack parece ter assumido entre nós. Não dizemos que um pack de cervejas é um pacote ou uma embalagem provavelmente porque essas duas palavras não encerram a ideia de “conjunto de objectos iguais”.

Embora não seja esse o significado de pack descrito nos dicionários de língua portuguesa que registam o anglicismo (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, remete simplesmente para embalagem), na minha opinião, os falantes tendem a usar o termo pack especificamente nos casos em que a embalagem contém várias unidades iguais de um produto. E assim ganhamos mais uma palavra em português!

21 abril 2008

"uma taxa MUITA atractiva"??



Já aqui abordámos uma vez o fenómeno do "muita", a propósito de um anúncio do Jardim Zoológico de Lisboa.

Esta brochura de um banco apregoa "uma taxa muita atractiva" de um produto financeiro...
será gralha tipográfica, ou antes um recurso estilístico?
Ficamos sem saber... mas parece que a moda do "muita" veio para ficar!

15 abril 2008

Pró e contra

Cada um tem a sua forma pessoal e subjectiva de entender as coisas e o Acordo Ortográfico é tema para suscitar emoções, pelo que se presta a que todos falem e ninguém tenha inteiramente razão, porque todos a perdem quando invocam argumentos, por assim dizer, "passionais". E ainda bem que não somos máquinas e que não conseguimos perspectivar o Acordo de uma forma estritamente racional!

Mas, mesmo entendendo que ambos os lados estão sujeitos a críticas, que ambas as visões são imperfeitas, para mim, o debate de ontem na RTP1 fez sobressair um lado vencedor: o lado a favor. Parece-me evidente que o Acordo traz mais bem do que mal, que os prejuízos de que falou Graça Moura (já no Parlamento) não comportam propriamente uma catástrofe.

No entanto, e tendo em conta que se falou de informática e do problema das versões portuguesas e brasileiras dos programas, estou de acordo com a ideia (que não sustenta o Acordo) de que a diversidade é tanta, que uma concertação ortográfica está longe, muito longe de a anular. Dou apenas um exemplo que a mim me parece conclusivo: quando uns chamam «planilha electrónica» e os outros «folha de cálculo» à mesma coisa, não há compromisso ortográfico que nos valha!






08 abril 2008

Convite para o lançamento do SOS LÍNGUA PORTUGUESA

Aqui fica o convite, para todos os leitores que possam e queiram vir ao ISEC (na Alameda das Linhas de Torres, 179, no Lumiar, em Lisboa), no próximo dia 17:


A Direcção da U.C.P. de Ciências da Educação do Instituto Superior de Educação e Ciências tem o prazer de convidar V. Exa. a assistir à sessão de apresentação do livro SOS Língua Portuguesa, da autoria das docentes do ISEC Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite, publicado pela Editorial Verbo.

A sessão será apresentada pela Prof. Doutora Margarita Correia, do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora associada do Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC, e por José Mário Costa, jornalista, coordenador pedagógico do Centro de Formação da RTP, autor de diversos livros e programas sobre língua portuguesa, e responsável pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (
www.ciberduvidas.pt).

A apresentação do livro realizar-se-á no próximo dia 17 de Abril, pelas 18h00, no auditório do ISEC.