30 junho 2008

A língua em foco


Está a decorrer o Encontro Comemorativo dos 20 Anos do ILTEC.
Trata-se de um conjunto de comunicações, acompanhadas de debates, que decorre hoje, dia 30, e amanhã, dia 1 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O tema - Discurso, Diversidade e Literacia: A Língua Portuguesa no Século XXI, - dá "pano para mangas". Desde a «complexidade da escrita e dos desafios que coloca ao leitor» até à crítica de estrangeirismos aparentemente absurdos que se vêm insinuando na nossa língua, passando por um levantamento de curiosíssimas palavras distintas para nomear uma mesma realidade (um pirilampo, um girino...), de acordo com diferentes regiões de Portugal (e diferentes visões do objecto), hoje houve oportunidade para que linguistas e membros da assistência partilhassem as suas preocupações e ideias sobre a riqueza, a complexidade e a diversidade da língua, sobretudo (mas não só) no que toca ao léxico. O Acordo Ortográfico não ficou de fora, como não podia deixar de ser, numa discussão deveras interessante, em que as intervenções do público não ficaram atrás das brilhantes comunicações.

Se quiserem e puderem ir até lá, ainda há cadeiras vagas... mesmo para quem não se inscreveu!

24 junho 2008

Gente Gira... com erros



As histórias de Luísa Ducla Soares, prolífica autora de livros infanto-juvenis, são para mim das mais divertidas, interessantes e bem escritas que se publicam actualmente em Portugal.

Contudo, não posso deixar de usar um dos seus livros, cujas incorrecções ortográficas me saltaram hoje à vista, como pretexto para escrever aqui umas linhas.

Trata-se do livro Gente Gira.
Na história "O Homem das Barbas", há um "avôzinho". Sendo uma palavra grave, cuja sílaba tónica é -zi-, avozinho não pode levar acento circunflexo no o subtónico, tal como acontece com avozinha e com sozinho.
No conto "O Senhor Pouca Sorte", há um ladrão que lhe assalta a "dispensa". Ora, a dispensa é o acto ou efeito de dispensar. O local onde se guardam os alimentos é a despensa.
Finalmente, na última página do mesmo conto, o protagonista come um "perú", que na verdade dispensaria o acompanhamento. É que peru, sendo palavra aguda terminada em u, não precisa de ser acentuada graficamente. Afinal, quem é que a leria como "pêru" ou "péru"?

Enfim, não é nada de muito grave e todos nós podemos ter deslizes de vez em quando. Mas a editora (Livros Horizonte) pode e deve emendar estes erros numa próxima edição!

20 junho 2008

Reconhecer o valor estético da Língua

A língua não é apenas um veículo de comunicação. É também o meio pelo qual expressamos os nossos pensamentos, as nossas emoções, os nossos afectos...
Eu diria que a língua não tem somente o género gramatical feminino; ela é 100% feminina, e, como tal, também ela é vaidosa!
Por trás dos bastidores, que são as regras firmes da gramática, está também o encanto de ela aparecer em palco e mostrar a beleza das suas roupas, que são as palavras; das suas jóias, que são as figuras de estilo; da sua maquilhagem, que são as reticências e os pontos de exclamação a mais!!
E ninguém ouse censurar esta vaidade de “alguém” que não envelhece, mas que, pelo contrário, rejuvenesce a cada dia que passa!

Reconheceram o valor estético da língua?!!

18 junho 2008

O Gustave e a Torre... cada um com seu apelido!




Acabo de ouvir alguém dar uma informação com uma incongruência fonética curiosa: «a escola Gustave [Êi]ffel» (com tónica num suposto ditongo inicial) «fica ali ao fundo, onde está o desenho da Torre Eiff[é]l» (com tónica no e final, desta vez aberto).

Fiquei mentalmente boquiaberta! Então tem alguma lógica pronunciar o mesmo nome de duas maneiras diferentes na mesma frase?! É que, na verdade, já me dei conta de que há mais gente que prefere pronunciar o nome da escola profissional como Gustave "Êiffel", mas depois nunca hesita em referir-se à torre de Paris como a Torre "Eiffél"?

Será que quem pronuncia a palavra de duas maneiras diferentes pensa tratar-se de dois nomes distintos? Será que é o nome próprio, Gustave, que origina o estranho fenómeno de a palavra aguda Eiffel (à portuguesa e à francesa também) passar a grave? Será para ter uma sonoridade mais sofisticada e erudita que o nome da escola é assim pronunciado? Será por mero acaso e o melhor é não pensar mais nisso?

Para esta não consigo mesmo encontrar uma resposta satisfatória!

16 junho 2008

Mania ou fobia?


Mania e fobia são perturbações que implicam comportamentos opostos. A mania implica o costume obsessivo de fazer alguma coisa; a fobia o medo, o pavor de alguma coisa. Decerto que a diferença é óbvia para muitos leitores, mas, curiosamente, tenho-me apercebido de que há quem confunda estas duas tendências.

Quando ouço alguém dizer que «tem a fobia das arrumações!», percebo, pelo contexto, que a palavra fobia foi empregada, erradamente, com o sentido de mania.

E dá-me a sensação de que subjaz a esta confusão a necessidade de encontrar um termo que seja ainda mais expressivo do que o corriqueiro mania. Ou seja, as pessoas sabem o que a palavra mania significa, mas querem usar uma outra, que realce ainda mais a ideia. E então lembram-se de dizer fobia, que no entanto significa o oposto!

Parece-me que se trata de mais uma divertida contradição, a juntar ao desinquieto, ao despoletar e ao destrocar...

11 junho 2008

A moda "proactiva"

Quase de um dia para o outro, comecei a ouvir o adjectivo proactivo a torto e a direito - uma palavra cuja existência na nossa língua, confesso, eu desconhecia.

Hoje, fala-se muito de pessoas, posturas e até de actividades proactivas (o que a mim me parecia, senão um disparate, pelo menos uma redundância!). Perguntei-me se muita gente não usaria a palavra apenas porque lhe soava bem, sem saber ao certo o que poderia querer dizer, ou mesmo se, de facto, existiria em português.

Quando fui investigar, tive uma surpresa. Trata-se da adaptação de um termo inglês (para não variar...), proactive, que já foi consagrada nos nossos dicionários e tem um significado bem explícito e inequívoco: o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, por exemplo, atesta que proactivo é aquele ou aquilo «que tende a criar ou a controlar uma situação, tomando a iniciativa, e não apenas reagir a ela».

Eis aqui um belo exemplo de como se pode estar sempre a aprender. E, para isso, nada melhor do que ter de ensinar. Afinal, eu até gosto que os meus alunos sejam proactivos...!

09 junho 2008

Anglicanismo ou anglicismo?!



Há dias, uma colega contou-me que «uma figura da nossa cultura (da área da música) utilizou um termo de origem inglesa, e logo a seguir pediu desculpa aos ouvintes pelo “anglicanismo”…» (Obrigada, Ana!).


Anglicanismo é a religião oficial de Inglaterra, instituída no século XVI por Henrique VIII, na sequência do seu divórcio de Catarina de Aragão, que não foi consentido pelo Papa Clemente VII. Depois de ter sido excomungado, o rei decidiu subjugar a Igreja à autoridade régia e fez aprovar, no Parlamento, o Act of Supremacy, que representou a cisão definitiva com Roma.
Anglicismo designa uma palavra que é proveniente da língua inglesa. Termos como leasing, bar, software, background e timing são anglicismos. Era este, portanto, o nome que o ilustre senhor (ou a ilustre senhora) deveria ter usado.

Isto só prova que nem os mais cultos se livram de cometer a sua “gafezinha” de vez em quando… como eu costumo dizer (a mim própria, inclusive): todos temos telhados de vidro. E se ando às vezes a chamar a atenção para os erros dos outros, não é para os criticar gratuitamente, mas para que todos possamos aprender com a sua correcção.

04 junho 2008

RE + HAVER = REAVER

"Se eu *reaver"... é erro frequente e até se compreende porquê: na primeira e na terceira pessoa, os verbos regulares costumam terminar de forma igual à do Infinitivo quando estão conjugados no Futuro do Conjuntivo: "se eu lavar", "quando eu entender", "se eu dormir".

Só reparamos que o verbo, de facto, assume uma forma diferente da do Infinitivo quando ele é irregular: "se eu der", "quando eu fizer", "se eu trouxer", etc.

Assim, percebe-se a tendência de muita gente para utilizar verbos irregulares conforme o paradigma, ou seja, para dizer, por exemplo, "se o tempo se *manter assim" em vez de "se o tempo se mantiver assim".

Isto acontece, sobretudo, quando os verbos são compostos, ou seja, quando derivam de outros. Manter deriva de ter, portanto, manteve e não "manteu", mantiver e não "manter", no futuro do conjuntivo.

Quanto a reaver, trata-se da combinação entre o prefixo re- e o verbo haver. Assim, se ao conjugar o verbo haver no futuro do conjuntivo dizemos houver, logicamente devemos também dizer reouver. Só eliminamos o "h"! Porque, afinal, reaver é haver de novo, no sentido de voltar a ter.

31 maio 2008

Novo desafio

O que há de errado na frase que se segue?


«Se reaver o dinheiro a tempo, ainda poderei fazer uma viagem ao estrangeiro nas férias.»

27 maio 2008

Quem encontra os 12 erros deste texto?


O Tomás não é uma criança mal comportada, mas sofre de um desiquilíbrio hormonal que o deixa por vezes obsecado com comida, como se estivesse sempre cheinho de fome. Todos os dias, imperetrivelmente há uma hora, pára o que estiver a fazer e entra numa enorme excitação. Quando as crianças saiem da sala em fila para almoçar, nunca quer ir na rectaguarda, com receio de ficar sem comer. Nessas circunstâncias, tem comportamentos menos adquados e, lógicamente, é repreendido. Mensalmente, encontramo-nos com os pais dele, que têm uma explêndida relação com o filho e estão sempre disponiveis para conversar.

21 maio 2008

Desenhar, designar e design

Os dicionários informam-nos que o verbo desenhar vem do latim designāre, que significava «marcar (de maneira distintiva), representar, designar; indicar», etc. – segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Assim, conclui-se que os verbos desenhar e designar têm a mesma origem – qualquer pessoa perceberá isso sem dificuldade.

No entanto, quando falo com profissionais dessa nova arte que é o design, e se os confronto com a possibilidade de me referir à sua profissão como o “desenho”, para evitar o anglicismo, eles tentam quase sempre convencer-me de que design e desenho são coisas COMPLETAMENTE diferentes e o termo design não é um estrangeirismo, porque provém do latim.

Alguns procuram mesmo explicar-me que, enquanto o verbo desenhar corresponde à acção de representar uma forma graficamente, fisicamente, o design – que dos dois termos é o único, alegam eles, que vem do latim designāre – refere-se ao acto de apontar ou indicar – cujas implicações são espirituais, senão mesmo demiúrgicas. Aliás, para eles, isto faz todo o sentido, porque afinal o designer é um puro designador, mas não desenha nada. Quando muito, manda outros desenharem por ele.

Sinceramente, escapam-me estes raciocícios. Até entendo que um designer vista assim a sua camisola, defendendo a todo o custo a essência conceptual da sua profissão. Mas não consigo perceber como pode fechar os olhos perante aquilo que é óbvio. Afinal, não há mal nenhum em usar um termo estrangeiro para designar um conceito novo, para o qual achamos que a palavra antiga, já carregada de acepções, não serve totalmente. Foi o que aconteceu com teste, que também veio do inglês, apesar de ter origem latina. E não há mal nenhum nisso!

19 maio 2008

Quem encontra os 10 erros presentes neste texto ?


As acções eficazes de voluntariado dependem da boa-vontade de uma minoria preserverante, embora muitos hajam no sentido de ajudar o próximo no dia a dia. Só apartir do momento em que o Governo e as autarquias adequem a legislação às necessidades efectivas dos mais carênciados e de quem os assiste poderão haver condições para querer que a sociedade é solidária, pois promove o bem e incentiva os cidadãos a pratica-lo.

18 maio 2008

Pescadinha de rabo na boca




Não sei se repararam que temos publicado cada vez com menos frequência...
Não sei se repararam que os comentários aos textos escasseiam cada vez mais...

É a chamada "pescadinha de rabo na boca", uma excelente imagem deste círculo vicioso: escrevemos menos por falta de incentivo por parte dos leitores, mas os leitores talvez comentem menos por falta de estímulo da nossa parte!

14 maio 2008

Chamativo já não é apelativo!


Apeler em francês quer dizer “chamar”. Daí o adjectivo apélatif, que significa em português chamativo, ou seja, que chama a atenção.

Agora, porém, está na moda dizer que as coisas são (ou não) “apelativas”, quase ninguém diz que são chamativas.

No entanto, nem mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, que é tão “para a frentex”, regista esse sentido para o adjectivo apelativo, que significa «Que chama ou invoca, que apela» (derivado, naturalmente, do verbo apelar), ao passo que chamativo designa, realmente, algo «Que chama a atenção, vistoso». É, portanto, clara a diferença: o que é apelativo apela, exorta; o que é chamativo chama, atrai.

Assim, quando dizemos que as cores vivas tornam o espaço mais “apelativo”, devemos, na realidade, dizer “mais chamativo”, para chamar as coisas pelos seus nomes!

09 maio 2008

O Vocabulário de que (quase) não se fala


O Acordo Ortográfico contempla, no seu preâmbulo, o seguinte artigo:

«Artigo 2.º

Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.»

Ora, o que eu pergunto é: quando é que se vai começar a fazer este vocabulário, que é imprescindível para a concertação da tal ortografia (supostamente) comum?

Em Portugal, um dos “órgãos competentes” será certamente a Academia das Ciências de Lisboa. Os outros não sei quais são, confesso. E pergunto-me, assumindo desde já, publicamente, a minha ignorância: não haverá por cá uma Academia das Letras (de uma qualquer cidade portuguesa, não precisa de ser lisboeta) que possa dar conta do recado? Quer-me parecer que a tarefa é demasiado titânica para uma Academia que já deve ter pano para mangas ocupando-se das ciências todas que existem...

07 maio 2008

O novo “purtuguex”

Confesso que cada vez tenho mais dificuldade em compreender as mensagens que os jovens escrevem uns para os outros hoje em dia. Talvez o objectivo deles também passe por aí – dificultar a compreensão por parte dos “cotas” – apesar de me parecer que a principal razão “pk xcrevem axim” é simplificar a ortografia.

Simplificar, por si só, não é um objectivo condenável. Basta lembrar que é uma das grandes vantagens da reforma ortográfica, para os seus defensores. O problema é que a substituição de umas letras por outras – nomeadamente o q pelo k e o s/ch/ç pelo x – , aliada à falta de leituras de qualidade, vai progressivamente criando imagens mentais das palavras que se afastam da sua grafia oficial.

Rapazes e raparigas com quem tenho falado garantem-me que não, que conseguem escrever “normalmente” sempre que é preciso, que só usam essa escrita abreviada e simplificada nas mensagens de telemóvel e correio electrónico. Eu dou-lhes o benefício da dúvida. Até porque, pela minha experiência como professora, a maior dificuldade da juventude que acaba o secundário e ingressa no ensino superior já nem sequer é escrever sem erros, mas algo muito mais grave: exprimir ideias através de palavras adequadas e frases gramaticalmente aceitáveis.

Nesse sentido, a grande polémica em torno do Acordo Ortográfico parece-me às vezes uma patetice, um devaneio de intelectuais alheados do que realmente interessa na sociedade, no que diz respeito ao uso da língua. E apetece-me dizer «venha o Acordo e depressa! Ao menos assim, os alunos que cometem actualmente vinte erros num ditado de 100 palavras passarão a cometer apenas quinze!»

02 maio 2008

Erro gratuito



Há quem tenha dúvidas sobre acentuação e há quem tenha certezas, mesmo estando errado...

Nesta paragem de autocarro, no Algarve, não há dúvida: o ditongo "ui" na palavra gratuito foi substituído por um hiato, isto é, as duas vogais pertencem, pelos vistos, a sílabas diferentes (para quem escreveu a palavra assim) e o "i" tornou-se a única vogal tónica.

Ui...

29 abril 2008

O estrangeirismo "pack"


Quem é que nunca se referiu a uma embalagem ou pacote de vários artigos, como cervejas ou latas de sumo, usando o estrangeirismo pack?

Embora possa parecer desnecessário e quase ridículo empregar o termo inglês quando temos a palavra pacote, o facto de se ter adoptado esse estrangeirismo revela que, para certas acepções os falantes a consideram inaadequada para transmitir a ideia que pack parece ter assumido entre nós. Não dizemos que um pack de cervejas é um pacote ou uma embalagem provavelmente porque essas duas palavras não encerram a ideia de “conjunto de objectos iguais”.

Embora não seja esse o significado de pack descrito nos dicionários de língua portuguesa que registam o anglicismo (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, remete simplesmente para embalagem), na minha opinião, os falantes tendem a usar o termo pack especificamente nos casos em que a embalagem contém várias unidades iguais de um produto. E assim ganhamos mais uma palavra em português!

21 abril 2008

"uma taxa MUITA atractiva"??



Já aqui abordámos uma vez o fenómeno do "muita", a propósito de um anúncio do Jardim Zoológico de Lisboa.

Esta brochura de um banco apregoa "uma taxa muita atractiva" de um produto financeiro...
será gralha tipográfica, ou antes um recurso estilístico?
Ficamos sem saber... mas parece que a moda do "muita" veio para ficar!

15 abril 2008

Pró e contra

Cada um tem a sua forma pessoal e subjectiva de entender as coisas e o Acordo Ortográfico é tema para suscitar emoções, pelo que se presta a que todos falem e ninguém tenha inteiramente razão, porque todos a perdem quando invocam argumentos, por assim dizer, "passionais". E ainda bem que não somos máquinas e que não conseguimos perspectivar o Acordo de uma forma estritamente racional!

Mas, mesmo entendendo que ambos os lados estão sujeitos a críticas, que ambas as visões são imperfeitas, para mim, o debate de ontem na RTP1 fez sobressair um lado vencedor: o lado a favor. Parece-me evidente que o Acordo traz mais bem do que mal, que os prejuízos de que falou Graça Moura (já no Parlamento) não comportam propriamente uma catástrofe.

No entanto, e tendo em conta que se falou de informática e do problema das versões portuguesas e brasileiras dos programas, estou de acordo com a ideia (que não sustenta o Acordo) de que a diversidade é tanta, que uma concertação ortográfica está longe, muito longe de a anular. Dou apenas um exemplo que a mim me parece conclusivo: quando uns chamam «planilha electrónica» e os outros «folha de cálculo» à mesma coisa, não há compromisso ortográfico que nos valha!






08 abril 2008

Convite para o lançamento do SOS LÍNGUA PORTUGUESA

Aqui fica o convite, para todos os leitores que possam e queiram vir ao ISEC (na Alameda das Linhas de Torres, 179, no Lumiar, em Lisboa), no próximo dia 17:


A Direcção da U.C.P. de Ciências da Educação do Instituto Superior de Educação e Ciências tem o prazer de convidar V. Exa. a assistir à sessão de apresentação do livro SOS Língua Portuguesa, da autoria das docentes do ISEC Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite, publicado pela Editorial Verbo.

A sessão será apresentada pela Prof. Doutora Margarita Correia, do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora associada do Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC, e por José Mário Costa, jornalista, coordenador pedagógico do Centro de Formação da RTP, autor de diversos livros e programas sobre língua portuguesa, e responsável pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (
www.ciberduvidas.pt).

A apresentação do livro realizar-se-á no próximo dia 17 de Abril, pelas 18h00, no auditório do ISEC.

03 abril 2008

Finalistas apuradas

Obrigada a todos os concorrentes que quiseram submeter-se à prova qualificativa para o 4º Torneio ISEC da Língua Portuguesa.
Dos cerca de 60 candidatos, foram apuradas as seguintes alunas:

Ana Filipa Máximo
Ana Sofia Augusto
Ângela Ferreira
Inês Isabel Ferreira
Mafalda Sant' Ana
Susana Fidalgo

Parabéns e boa sorte para a prova final!

31 março 2008

“Terá ques” que parecem não incomodar (quase) ninguém



A mim, devo dizer, incomodam-me os “terá ques” que tanta gente anda por aí a soltar, como se nada fosse, na primeira oportunidade. Mas não me parece que, além de mim, haja quem se importe com isso. No fundo, talvez seja uma questão de justiça: “não me importo com os “terá ques” dos outros, porque também não quero que se incomodem com os meus.”

E assim os vamos ouvindo inúmeras vezes, dia após dia: «terá que se fazer...», «terá que ser visto...», «lá terá que ser!». A realidade é mesmo esta, infelizmente: muito pouca gente tem a decência de se conter, ou melhor, de substituir esses “terá ques” todos, como deveria, por algo mais sensato: “terá des”. Porque a verdade é essa: seria muito mais adequado dizer antes «terá de se fazer...», «terá de ser visto...», «lá terá de ser!»

Quanto a mim, apesar de tentar evitar os “terá ques” a todo o custo, confesso que o facto de os ouvir a toda a hora acaba por me influenciar. Por vezes, lá me apanho a mim própria quando já é tarde de mais. E afinal, ninguém se preocupa, porque é do que mais se ouve nos dias que correm. Só me falta descobrir que os “terá ques” foram consagrados, que já se podem soltar sem receio de estar a atentar contra o bom senso e o bom gosto.


PS - Desculpem a brejeirice da abordagem, mas o tema estava mesmo a pedi-las!

30 março 2008

"Queijo Mozzarella fresca"?!


Se é queijo, porque é que o adjectivo vem no feminino? Confesso que não percebo. Será simplesmente pelo facto de a palavra mozzarella acabar em -a?

Talvez... afinal, outros nomes masculinos terminados em -a, como grama, têm vindo a ser alvo da mesma tendência de muitos falantes para os tomarem como palavras femininas. Eles não se ofendem, ainda bem. Mas não deixa de ser um erro...

Quanto a "mozzarella", já não é preciso usar tantas consoantes em português: basta escrever mozarela. E bom apetite!



24 março 2008

O mistério do Acordo Ortográfico...

No início deste ano, o Acordo foi notícia na televisão, chegando, assim, a um público muito mais vasto do que os inúmeros textos que já se publicaram na imprensa e na Internet. Agora, com a notícia recente da aprovação, pelo Governo, de uma proposta de resolução sobre o II Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, os falantes perguntam-se: «Já temos de escrever de outra maneira? E o que é que muda afinal?» As dúvidas sobre as alterações, aliadas à indefinição sobre a sua entrada em vigor, fazem do Acordo um verdadeiro mistério para a maior parte de nós.

Recomendo, a propósito, a leitura de um texto de D’Silvas Filho (e há muitos mais!) sobre este assunto, em que o Acordo é perspectivado de uma forma rigorosa, clara e simples, desmistificando-se a ideia de que vem complicar a vida aos falantes, ou criar embaraços de qualquer espécie. Não sendo a favor, também não posso dizer que estou contra. O que me revolta, além deste pára-arranca que se tem arrastado há tanto tempo, é a especulação ignorante. Sobre este assunto, como sobre quaisquer outros, são de evitar as opiniões formadas levianamente, muitas vezes com base em equívocos e mentiras que pessoas mal intencionadas ou simplesmente mal informadas espalham por aí.

18 março 2008

Sobre o verbo despoletar

Anda por aí meio mundo a usar o verbo despoletar com o significado de desencadear, como se em português não tivéssemos uns quantos verbos ao nosso dispor que exprimem essa mesma ideia, e até, confesso, bem mais elegantes! Eis alguns exemplos: deflagrar, provocar, suscitar, originar.
Bem sei que é com o erro que a língua dá o salto e cresce, mas se não tivermos cautela, qualquer dia a excepção passa o sinal vermelho e ultrapassa a regra.
Tenho tentado perceber a razão deste erro, por isso, convido-vos a uma curta viagem pela história da palavra.

Espoleta é um termo militar que designa o dispositivo que produz a detonação das cargas explosivas, como por exemplo, uma granada. Quando activamos esse dispositivo, usamos o verbo espoletar, que significa «pôr a espoleta em», logo, «fazer deflagrar a granada». Se tirarmos a espoleta, a granada fica inactiva. Para esta acção, usamos o verbo despoletar, que significa, portanto, «tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo de».
Fazendo a análise morfológica deste verbo, verificamos que o mesmo é derivado por prefixação, por intermédio do prefixo des-, que, tal como tantos outros elementos gramaticais, é polissémico, ou seja, veicula diferentes significados dependendo da base a que se agrega. Pode significar: 1. Negação: desaprovar (= «não aprovar»); desleal (= «não leal»); 2. Acção contrária: desmentir (= «acção inversa de mentir); desarrumar (acção inversa de arrumar).
Ora, é neste segundo quadro semântico que o verbo despoletar se inclui, exprimindo precisamente a acção contrária de espoletar.
O significado de reforço, de intensidade que o prefixo des- passou a assumir (por exemplo, na palavra desinquieto) é resultado da produtividade deste prefixo, mas não é esse significado que despoletar acarreta, como muita gente julga.

Por conseguinte, a história da palavra fala por si. "Despoletar", como sinónimo de desencadear, é um uso incorrecto da língua, apesar de alguns dicionários registarem este barbarismo, devido ao uso generalizado dos falantes.
Resta uma tomada de decisão por parte de todos nós, mas principalmente da comunicação social: ou continuar a difundir o erro ou, pelo contrário, privilegiar a correcção, o rigor linguístico, para que a língua cresça ao seu ritmo, saboreando cada etapa da sua vida.

Nota: Este texto é uma versão reciclada de uma resposta publicada no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, no dia 7 de Março de 2008.
http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=22978

12 março 2008

As novas modas na língua





É engraçado verificar como a língua, tal como as pessoas, está sujeita aos caprichos da moda.
Como peças de roupa que há muito guardamos no armário, temos palavras que estão em perfeitas condições e que ainda poderíamos usar por muitos anos, mas que optamos por deixar esquecidas, porque há outras novas, mais modernas, mais ao estilo do que se usa agora.
E, como queremos estar na crista da onda, dia após dia escolhemos os estrangeirismos e as traduções literais, em detrimento dos termos vernáculos, alguns dos quais até já fariam levantar os sobrolhos da gente mais “para a frentex”, como se fossem uma aberração:
dantes festejava-se ou comemorava-se, agora celebra-se (de celebrate)
dizia-se homenagem, mas agora todos dizem tributo (de tribute)
tínhamos livros e filmes preferidos, agora são favoritos (de favourite)
havia coisas mortais, agora são letais (de lethal)
o que não era permanente era provisório, agora é temporário (de temporary)
quase era praticamente, agora dizem que é virtualmente (de virtually)
faziam-se provas, agora fazem-se testes (de test)
os produtos retiravam / eliminavam nódoas, agora removem-nas (de remove)
usavam-se fardas na escola, agora usam-se uniformes (de uniforms)
as pessoas apercebiam-se de coisas, agora há quem "realize" que as coisas acontecem (de realize)
a paciência, que se jogava com cartas, passou a solitário (o solitaire), desde que apareceu no Windows
a senha transformou-se em palavra-passe (ou mesmo na própria password)
enfim, parece que já não temos amor-próprio, uma vez que também este mudou para auto-estima (de self-esteem)!...

10 março 2008

Zimba/ábw/ue/é... como é que é?!


Não sei se é por sermos demasiado complexos, doidos ou exagerados, mas parece-me, no mínimo, curioso que uma palavra estrangeira, ao entrar na língua portuguesa, assuma logo TRÊS formas diferentes!

É o que acontece com o nome do país Zimbabwe, que em português, e de acordo com os nossos dicionários, pode ter três grafias: Zimbabwe, Zimbábue e Zimbabué. (Se vos custa a crer, vejam o esclarecimento do Ciberdúvidas).

Primeira pergunta: aportuguesar ou não? – Eis a questão. A mim parece-me desnecessário fazê-lo, neste caso particular. Afinal, o duplo v, ou dâblio (ai, que feio que fica isto escrito!), já devia fazer parte do nosso alfabeto há muito tempo e tudo indica que vai passar a fazer muito em breve.

Mas admitamos que queremos transformá-lo num u, para tornar a palavra mais portuguesa. Nesse caso, pergunto: para quê a versão “Zimbabué”, com acento agudo no e final? Alguém a pronuncia como palavra aguda, com a tónica na última vogal? (Experimentem chamar o país, como se fosse uma pessoa. Gritarão “Zimbabuééééééééé” ou “Zimbáááááááábue”?!). Parece-me óbvio que Zimbábue, com acento no a, é mais fiel à oralidade e às regras de acentuação gráfica em português.

No entanto, volto a dizê-lo: sendo uma palavra estrangeira, como há tantas na nossa língua, será mesmo necessário aportuguesá-la à força, quando nem sequer há consenso sobre a forma que ela deve assumir?

05 março 2008

...«um bocado sorumbático»


A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...

«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»

...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.

Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.

02 março 2008

OS LIVROS

Quando eu era pequena,

só queria era brincar.

Livros, achava-os bonitos...

mas não traziam bonecas,

nem kalkitos,

nem folhas para desenhar!

Quando me davam livros,

nos anos ou no Natal,

Abria-os, folheava-os,

tinham bonecos engraçados,

cores giras, e tal...

Mas ver filmes e desenhos animados

É que era divertido!

E, no fundo, eu era normal.

Depois, veio a adolescência...

essa altura em que “não há paciência”!

Porque nos obrigam a ler

aquelas obras literárias...

livros grandes, escritos há muito,

e sobre os quais é preciso saber tanto,

que deixam de dar prazer.

Quando fui para a faculdade,

escolhi letras, é verdade,

talvez (que vergonha!)

para fugir à matemática,

para fazer ronha... enfim,

mas também porque gostava de escrever.

Foi então que mergulhei,

sem saber, no mundo dos livros a valer!

Descobri tantas coisas,

aprendi tanto, sonhei, senti, acreditei...

eu sei lá!

Foi incrível, o que as palavras,

as simples letras,

puras manchas pretas no papel,

fizeram na minha cabeça!

Eu criei mundos e mais mundos,

fui autores, narradores e personagens,

tudo o que li

aconteceu dentro de mim:

com magia, com leveza,

e com a beleza das miragens.

Realmente, há livros tão interessantes

que, quando levantamos os olhos,

das suas páginas

parece que nada fica como antes!

Os livros dão-nos bagagem,

dão uma grande vantagem.

Uma pessoa que lê,

se alguma vez se sentir à margem,

não é por falta de saber,

é porque, na leitura de cada livro,

fez uma grande viagem

e ficou diferente:

mais culta, mais consciente.

E apesar de já ser adulta,

Eu sei, quando estou a ler,

que ainda posso crescer.

Melhor: sei que posso viver

outras vidas, além da minha!

E basta-me ter um livro

para nunca me sentir sozinha.

Há quem diga que somos

o que queremos,

que somos o que fazemos

E o que comemos também.

Pois eu digo que, em boa parte,

Nós somos o que lemos.

E ler também é uma arte,

um desporto – porque não? –

que a todos pode fazer bem.

Ler é saber, é poder,

uma forma profunda de ver

e é meio caminho andado

para melhor escrever

e melhor pensar.

Podia ser um ditado:

Quem lê, depressa ou devagar,

a algum lado há-de chegar.

S. Leite


Nota: este poema é apenas ligeiramente autobiográfico!