Novo desafio
O que há de errado na frase que se segue?
«Se reaver o dinheiro a tempo, ainda poderei fazer uma viagem ao estrangeiro nas férias.»
Ingredientes: muitos erros, bastantes dúvidas e uma mão-cheia de reflexões. Juntam-se esclarecimentos, correcções e sugestões em quantidade generosa. Tudo polvilhado com bom humor. Porque queremos partilhar a nossa maneira de saborear a língua!
O que há de errado na frase que se segue?
«Se reaver o dinheiro a tempo, ainda poderei fazer uma viagem ao estrangeiro nas férias.»
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S. Leite
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08:53
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S. Leite
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22:37
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Palavras-chave: desafio
Os dicionários informam-nos que o verbo desenhar vem do latim designāre, que significava «marcar (de maneira distintiva), representar, designar; indicar», etc. – segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Assim, conclui-se que os verbos desenhar e designar têm a mesma origem – qualquer pessoa perceberá isso sem dificuldade.
No entanto, quando falo com profissionais dessa nova arte que é o design, e se os confronto com a possibilidade de me referir à sua profissão como o “desenho”, para evitar o anglicismo, eles tentam quase sempre convencer-me de que design e desenho são coisas COMPLETAMENTE diferentes e o termo design não é um estrangeirismo, porque provém do latim.
Alguns procuram mesmo explicar-me que, enquanto o verbo desenhar corresponde à acção de representar uma forma graficamente, fisicamente, o design – que dos dois termos é o único, alegam eles, que vem do latim designāre – refere-se ao acto de apontar ou indicar – cujas implicações são espirituais, senão mesmo demiúrgicas. Aliás, para eles, isto faz todo o sentido, porque afinal o designer é um puro designador, mas não desenha nada. Quando muito, manda outros desenharem por ele.
Sinceramente, escapam-me estes raciocícios. Até entendo que um designer vista assim a sua camisola, defendendo a todo o custo a essência conceptual da sua profissão. Mas não consigo perceber como pode fechar os olhos perante aquilo que é óbvio. Afinal, não há mal nenhum em usar um termo estrangeiro para designar um conceito novo, para o qual achamos que a palavra antiga, já carregada de acepções, não serve totalmente. Foi o que aconteceu com teste, que também veio do inglês, apesar de ter origem latina. E não há mal nenhum nisso!
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S. Leite
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16:01
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Palavras-chave: palavras
As acções eficazes de voluntariado dependem da boa-vontade de uma minoria preserverante, embora muitos hajam no sentido de ajudar o próximo no dia a dia. Só apartir do momento em que o Governo e as autarquias adequem a legislação às necessidades efectivas dos mais carênciados e de quem os assiste poderão haver condições para querer que a sociedade é solidária, pois promove o bem e incentiva os cidadãos a pratica-lo.
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S. Leite
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19:30
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Palavras-chave: desafio

Não sei se repararam que temos publicado cada vez com menos frequência...
Não sei se repararam que os comentários aos textos escasseiam cada vez mais...
É a chamada "pescadinha de rabo na boca", uma excelente imagem deste círculo vicioso: escrevemos menos por falta de incentivo por parte dos leitores, mas os leitores talvez comentem menos por falta de estímulo da nossa parte!
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S. Leite
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23:25
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Palavras-chave: divagações
Apeler em francês quer dizer “chamar”. Daí o adjectivo apélatif, que significa em português chamativo, ou seja, que chama a atenção.
Agora, porém, está na moda dizer que as coisas são (ou não) “apelativas”, quase ninguém diz que são chamativas.
No entanto, nem mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, que é tão “para a frentex”, regista esse sentido para o adjectivo apelativo, que significa «Que chama ou invoca, que apela» (derivado, naturalmente, do verbo apelar), ao passo que chamativo designa, realmente, algo «Que chama a atenção, vistoso». É, portanto, clara a diferença: o que é apelativo apela, exorta; o que é chamativo chama, atrai.
Assim, quando dizemos que as cores vivas tornam o espaço mais “apelativo”, devemos, na realidade, dizer “mais chamativo”, para chamar as coisas pelos seus nomes!
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S. Leite
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12:25
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Palavras-chave: divagações , palavras , parónimos
O Acordo Ortográfico contempla, no seu preâmbulo, o seguinte artigo:
«Artigo 2.º
Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.»
Ora, o que eu pergunto é: quando é que se vai começar a fazer este vocabulário, que é imprescindível para a concertação da tal ortografia (supostamente) comum?
Em Portugal, um dos “órgãos competentes” será certamente a Academia das Ciências de Lisboa. Os outros não sei quais são, confesso. E pergunto-me, assumindo desde já, publicamente, a minha ignorância: não haverá por cá uma Academia das Letras (de uma qualquer cidade portuguesa, não precisa de ser lisboeta) que possa dar conta do recado? Quer-me parecer que a tarefa é demasiado titânica para uma Academia que já deve ter pano para mangas ocupando-se das ciências todas que existem...
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S. Leite
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23:54
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Palavras-chave: Acordo Ortográfico


Confesso que cada vez tenho mais dificuldade em compreender as mensagens que os jovens escrevem uns para os outros hoje em dia. Talvez o objectivo deles também passe por aí – dificultar a compreensão por parte dos “cotas” – apesar de me parecer que a principal razão “pk xcrevem axim” é simplificar a ortografia.
Simplificar, por si só, não é um objectivo condenável. Basta lembrar que é uma das grandes vantagens da reforma ortográfica, para os seus defensores. O problema é que a substituição de umas letras por outras – nomeadamente o q pelo k e o s/ch/ç pelo x – , aliada à falta de leituras de qualidade, vai progressivamente criando imagens mentais das palavras que se afastam da sua grafia oficial.
Rapazes e raparigas com quem tenho falado garantem-me que não, que conseguem escrever “normalmente” sempre que é preciso, que só usam essa escrita abreviada e simplificada nas mensagens de telemóvel e correio electrónico. Eu dou-lhes o benefício da dúvida. Até porque, pela minha experiência como professora, a maior dificuldade da juventude que acaba o secundário e ingressa no ensino superior já nem sequer é escrever sem erros, mas algo muito mais grave: exprimir ideias através de palavras adequadas e frases gramaticalmente aceitáveis.
Nesse sentido, a grande polémica em torno do Acordo Ortográfico parece-me às vezes uma patetice, um devaneio de intelectuais alheados do que realmente interessa na sociedade, no que diz respeito ao uso da língua. E apetece-me dizer «venha o Acordo e depressa! Ao menos assim, os alunos que cometem actualmente vinte erros num ditado de 100 palavras passarão a cometer apenas quinze!»
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S. Leite
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10:05
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Palavras-chave: Acordo Ortográfico , divagações , ortografia
Há quem tenha dúvidas sobre acentuação e há quem tenha certezas, mesmo estando errado...
Nesta paragem de autocarro, no Algarve, não há dúvida: o ditongo "ui" na palavra gratuito foi substituído por um hiato, isto é, as duas vogais pertencem, pelos vistos, a sílabas diferentes (para quem escreveu a palavra assim) e o "i" tornou-se a única vogal tónica.
Ui...
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S. Leite
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18:06
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Palavras-chave: acentuação , ortografia
Quem é que nunca se referiu a uma embalagem ou pacote de vários artigos, como cervejas ou latas de sumo, usando o estrangeirismo pack?
Embora possa parecer desnecessário e quase ridículo empregar o termo inglês quando temos a palavra pacote, o facto de se ter adoptado esse estrangeirismo revela que, para certas acepções os falantes a consideram inaadequada para transmitir a ideia que pack parece ter assumido entre nós. Não dizemos que um pack de cervejas é um pacote ou uma embalagem provavelmente porque essas duas palavras não encerram a ideia de “conjunto de objectos iguais”.
Embora não seja esse o significado de pack descrito nos dicionários de língua portuguesa que registam o anglicismo (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, remete simplesmente para embalagem), na minha opinião, os falantes tendem a usar o termo pack especificamente nos casos em que a embalagem contém várias unidades iguais de um produto. E assim ganhamos mais uma palavra em português!
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S. Leite
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10:25
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Palavras-chave: estrangeirismos , palavras

Já aqui abordámos uma vez o fenómeno do "muita", a propósito de um anúncio do Jardim Zoológico de Lisboa.
Esta brochura de um banco apregoa "uma taxa muita atractiva" de um produto financeiro...
será gralha tipográfica, ou antes um recurso estilístico?
Ficamos sem saber... mas parece que a moda do "muita" veio para ficar!
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S. Leite
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15:28
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Palavras-chave: concordância , masculino ou feminino? , ortografia
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S. Leite
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09:42
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Palavras-chave: Acordo Ortográfico , ortografia , variantes
Aqui fica o convite, para todos os leitores que possam e queiram vir ao ISEC (na Alameda das Linhas de Torres, 179, no Lumiar, em Lisboa), no próximo dia 17:
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S. Leite
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14:26
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Palavras-chave: divulgação , S.O.S. da Língua Portuguesa
Obrigada a todos os concorrentes que quiseram submeter-se à prova qualificativa para o 4º Torneio ISEC da Língua Portuguesa.
Dos cerca de 60 candidatos, foram apuradas as seguintes alunas:
Ana Filipa Máximo
Ana Sofia Augusto
Ângela Ferreira
Inês Isabel Ferreira
Mafalda Sant' Ana
Susana Fidalgo
Parabéns e boa sorte para a prova final!
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S. Leite
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16:21
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Palavras-chave: Torneio ISEC de Língua Portuguesa
A mim, devo dizer, incomodam-me os “terá ques” que tanta gente anda por aí a soltar, como se nada fosse, na primeira oportunidade. Mas não me parece que, além de mim, haja quem se importe com isso. No fundo, talvez seja uma questão de justiça: “não me importo com os “terá ques” dos outros, porque também não quero que se incomodem com os meus.”
E assim os vamos ouvindo inúmeras vezes, dia após dia: «terá que se fazer...», «terá que ser visto...», «lá terá que ser!». A realidade é mesmo esta, infelizmente: muito pouca gente tem a decência de se conter, ou melhor, de substituir esses “terá ques” todos, como deveria, por algo mais sensato: “terá des”. Porque a verdade é essa: seria muito mais adequado dizer antes «terá de se fazer...», «terá de ser visto...», «lá terá de ser!»
Quanto a mim, apesar de tentar evitar os “terá ques” a todo o custo, confesso que o facto de os ouvir a toda a hora acaba por me influenciar. Por vezes, lá me apanho a mim própria quando já é tarde de mais. E afinal, ninguém se preocupa, porque é do que mais se ouve nos dias que correm. Só me falta descobrir que os “terá ques” foram consagrados, que já se podem soltar sem receio de estar a atentar contra o bom senso e o bom gosto.
PS - Desculpem a brejeirice da abordagem, mas o tema estava mesmo a pedi-las!
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S. Leite
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18:02
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Se é queijo, porque é que o adjectivo vem no feminino? Confesso que não percebo. Será simplesmente pelo facto de a palavra mozzarella acabar em -a?
Talvez... afinal, outros nomes masculinos terminados em -a, como grama, têm vindo a ser alvo da mesma tendência de muitos falantes para os tomarem como palavras femininas. Eles não se ofendem, ainda bem. Mas não deixa de ser um erro...
Quanto a "mozzarella", já não é preciso usar tantas consoantes em português: basta escrever mozarela. E bom apetite!
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S. Leite
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18:06
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Palavras-chave: concordância , masculino ou feminino?
No início deste ano, o Acordo foi notícia na televisão, chegando, assim, a um público muito mais vasto do que os inúmeros textos que já se publicaram na imprensa e na Internet. Agora, com a notícia recente da aprovação, pelo Governo, de uma proposta de resolução sobre o II Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, os falantes perguntam-se: «Já temos de escrever de outra maneira? E o que é que muda afinal?» As dúvidas sobre as alterações, aliadas à indefinição sobre a sua entrada em vigor, fazem do Acordo um verdadeiro mistério para a maior parte de nós.
Recomendo, a propósito, a leitura de um texto de D’Silvas Filho (e há muitos mais!) sobre este assunto, em que o Acordo é perspectivado de uma forma rigorosa, clara e simples, desmistificando-se a ideia de que vem complicar a vida aos falantes, ou criar embaraços de qualquer espécie. Não sendo a favor, também não posso dizer que estou contra. O que me revolta, além deste pára-arranca que se tem arrastado há tanto tempo, é a especulação ignorante. Sobre este assunto, como sobre quaisquer outros, são de evitar as opiniões formadas levianamente, muitas vezes com base em equívocos e mentiras que pessoas mal intencionadas ou simplesmente mal informadas espalham por aí.
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S. Leite
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16:54
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Palavras-chave: Acordo Ortográfico , ortografia
Anda por aí meio mundo a usar o verbo despoletar com o significado de desencadear, como se em português não tivéssemos uns quantos verbos ao nosso dispor que exprimem essa mesma ideia, e até, confesso, bem mais elegantes! Eis alguns exemplos: deflagrar, provocar, suscitar, originar.
Bem sei que é com o erro que a língua dá o salto e cresce, mas se não tivermos cautela, qualquer dia a excepção passa o sinal vermelho e ultrapassa a regra.
Tenho tentado perceber a razão deste erro, por isso, convido-vos a uma curta viagem pela história da palavra.
Espoleta é um termo militar que designa o dispositivo que produz a detonação das cargas explosivas, como por exemplo, uma granada. Quando activamos esse dispositivo, usamos o verbo espoletar, que significa «pôr a espoleta em», logo, «fazer deflagrar a granada». Se tirarmos a espoleta, a granada fica inactiva. Para esta acção, usamos o verbo despoletar, que significa, portanto, «tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo de».
Fazendo a análise morfológica deste verbo, verificamos que o mesmo é derivado por prefixação, por intermédio do prefixo des-, que, tal como tantos outros elementos gramaticais, é polissémico, ou seja, veicula diferentes significados dependendo da base a que se agrega. Pode significar: 1. Negação: desaprovar (= «não aprovar»); desleal (= «não leal»); 2. Acção contrária: desmentir (= «acção inversa de mentir); desarrumar (acção inversa de arrumar).
Ora, é neste segundo quadro semântico que o verbo despoletar se inclui, exprimindo precisamente a acção contrária de espoletar.
O significado de reforço, de intensidade que o prefixo des- passou a assumir (por exemplo, na palavra desinquieto) é resultado da produtividade deste prefixo, mas não é esse significado que despoletar acarreta, como muita gente julga.
Por conseguinte, a história da palavra fala por si. "Despoletar", como sinónimo de desencadear, é um uso incorrecto da língua, apesar de alguns dicionários registarem este barbarismo, devido ao uso generalizado dos falantes.
Resta uma tomada de decisão por parte de todos nós, mas principalmente da comunicação social: ou continuar a difundir o erro ou, pelo contrário, privilegiar a correcção, o rigor linguístico, para que a língua cresça ao seu ritmo, saboreando cada etapa da sua vida.
Nota: Este texto é uma versão reciclada de uma resposta publicada no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, no dia 7 de Março de 2008.
http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=22978
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S. Duarte
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11:18
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Palavras-chave: verbos
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S. Leite
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16:51
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Palavras-chave: estilo , estrangeirismos , palavras
Não sei se é por sermos demasiado complexos, doidos ou exagerados, mas parece-me, no mínimo, curioso que uma palavra estrangeira, ao entrar na língua portuguesa, assuma logo TRÊS formas diferentes!
É o que acontece com o nome do país Zimbabwe, que em português, e de acordo com os nossos dicionários, pode ter três grafias: Zimbabwe, Zimbábue e Zimbabué. (Se vos custa a crer, vejam o esclarecimento do Ciberdúvidas).
Primeira pergunta: aportuguesar ou não? – Eis a questão. A mim parece-me desnecessário fazê-lo, neste caso particular. Afinal, o duplo v, ou dâblio (ai, que feio que fica isto escrito!), já devia fazer parte do nosso alfabeto há muito tempo e tudo indica que vai passar a fazer muito em breve.
Mas admitamos que queremos transformá-lo num u, para tornar a palavra mais portuguesa. Nesse caso, pergunto: para quê a versão “Zimbabué”, com acento agudo no e final? Alguém a pronuncia como palavra aguda, com a tónica na última vogal? (Experimentem chamar o país, como se fosse uma pessoa. Gritarão “Zimbabuééééééééé” ou “Zimbáááááááábue”?!). Parece-me óbvio que Zimbábue, com acento no a, é mais fiel à oralidade e às regras de acentuação gráfica em português.
No entanto, volto a dizê-lo: sendo uma palavra estrangeira, como há tantas na nossa língua, será mesmo necessário aportuguesá-la à força, quando nem sequer há consenso sobre a forma que ela deve assumir?
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S. Leite
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14:26
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Palavras-chave: acentuação , estrangeirismos , ortografia
A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...
«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»
...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.
Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.
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S. Leite
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10:45
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Quando eu era pequena,
só queria era brincar.
Livros, achava-os bonitos...
mas não traziam bonecas,
nem kalkitos,
nem folhas para desenhar!
Quando me davam livros,
nos anos ou no Natal,
Abria-os, folheava-os,
tinham bonecos engraçados,
cores giras, e tal...
Mas ver filmes e desenhos animados
É que era divertido!
E, no fundo, eu era normal.
Depois, veio a adolescência...
essa altura em que “não há paciência”!
Porque nos obrigam a ler
aquelas obras literárias...
livros grandes, escritos há muito,
e sobre os quais é preciso saber tanto,
que deixam de dar prazer.
Quando fui para a faculdade,
escolhi letras, é verdade,
talvez (que vergonha!)
para fugir à matemática,
para fazer ronha... enfim,
mas também porque gostava de escrever.
Foi então que mergulhei,
sem saber, no mundo dos livros a valer!
Descobri tantas coisas,
aprendi tanto, sonhei, senti, acreditei...
eu sei lá!
Foi incrível, o que as palavras,
as simples letras,
puras manchas pretas no papel,
fizeram na minha cabeça!
Eu criei mundos e mais mundos,
fui autores, narradores e personagens,
tudo o que li
aconteceu dentro de mim:
com magia, com leveza,
e com a beleza das miragens.
Realmente, há livros tão interessantes
que, quando levantamos os olhos,
das suas páginas
parece que nada fica como antes!
Os livros dão-nos bagagem,
dão uma grande vantagem.
Uma pessoa que lê,
se alguma vez se sentir à margem,
não é por falta de saber,
é porque, na leitura de cada livro,
fez uma grande viagem
e ficou diferente:
mais culta, mais consciente.
E apesar de já ser adulta,
Eu sei, quando estou a ler,
que ainda posso crescer.
Melhor: sei que posso viver
outras vidas, além da minha!
E basta-me ter um livro
para nunca me sentir sozinha.
Há quem diga que somos
o que queremos,
que somos o que fazemos
E o que comemos também.
Pois eu digo que, em boa parte,
Nós somos o que lemos.
E ler também é uma arte,
um desporto – porque não? –
que a todos pode fazer bem.
Ler é saber, é poder,
uma forma profunda de ver
e é meio caminho andado
para melhor escrever
e melhor pensar.
Podia ser um ditado:
Quem lê, depressa ou devagar,
a algum lado há-de chegar.
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S. Leite
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00:41
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Palavras-chave: divagações

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S. Leite
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17:39
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Palavras-chave: divulgação , S.O.S. da Língua Portuguesa
Já alguma vez se perguntaram por que razão para formar advérbios com o sufixo -mente se usa sempre a forma feminina dos adjectivos que lhes estão na base?
Por outras palavras, porque é que dizemos perfeitamente, comodamente, diariamente, e não “perfeitomente”, “comodomente”, “diariomente”?!
O motivo é este: o sufixo -mente tem origem no nome latino do género feminino mens/mentis, cujo significado é mente, espírito, intenção e também forma de pensar e agir. Ora, se o nome era feminino, o adjectivo, naturalmente, concordava com ele. Perfeitamente, como quem diz “de forma perfeita”, diariamente, ou seja, “de maneira diária”. Lógico, não?
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S. Leite
às
18:26
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Palavras-chave: elementos de formação , palavras
Na frase “Ainda não estou 100% recuperado”, qual é a função sintáctica de 100%?
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S. Leite
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15:10
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Palavras-chave: desafio
Contudo, será que vale mesmo a pena poupar um s, quando a palavra "unisexo", além de ficar mal escrita, ainda soa mal? É que, lembrem-se, o s entre vogais tem som de z: em asa, liso, ausente, mesa e tantas outras palavras, essa regra é tão óbvia que ninguém duvida dela. Porém, quando se trata de dobrar a consoante por causa de um prefixo (uni + sexo), pouca gente se apercebe de que, não o fazendo, está a escrever uma palavra cujo som é “unizekso”. Fica giro, mas até custa a dizer... (Experimentem! Parece que estamos constipados!)
E já agora, haverá quem queira responder a isto? Se uni- quer dizer "um", porque é que os artigos ou serviços para AMBOS os sexos se designam assim?!
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S. Leite
às
11:32
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Palavras-chave: elementos de formação , ortografia , palavras
Hoje faz um ano que publicámos aqui o primeiro texto!
Com muita dedicação e entusiasmo, quisemos contribuir para que se fale melhor português e também para que se tenha mais gosto pela língua.
Questionava-se há poucos dias a Liliana, num comentário ao texto sobre o nosso Torneio: porque é que existe uma crescente falta de interesse dos alunos pela língua portuguesa?
Nós não sabemos qual é a resposta exacta a essa questão. Só podemos dizer que a sentimos como bastante perturbadora e procuramos contribuir com este blogue para contrariar essa tendência, escrevendo também para os alunos e para os jovens – talvez o grupo “de risco” por excelência, embora haja muitas e honrosas excepções.
Deste modo, e para assinalar um ano de actividade, gostaria de deixar claro que tenho perfeita noção de nem sempre ter conseguido cumprir esse objectivo. Afinal, o blogue tem poucas imagens, poucos elementos interactivos, não tem vídeos, nem música... enfim, podem os jovens, legitimamente, achá-lo bem desinteressante.
Por isso mesmo, venho propor o seguinte: que os leitores (assíduos ou estreantes) nos façam o obséquio de sugerir formas de melhorarmos o conteúdo e a forma desta página, de maneira a que ela agrade mais e a mais gente. Desde já, obrigada por todos os contributos!
E, já agora, quero deixar aqui um agradecimento especial a todos os que nos acompanharam e incentivaram desde o início.
Por
S. Leite
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10:35
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Palavras-chave: divagações
Já perdi a conta às vezes que tropecei neste erro.
Não é um erro de ortografia, porque a palavra existe, mas não tem qualquer relação semântica com o verbo cessar.
Cessão significa «acto de ceder, cedência» e não «acto de cessar, pôr termo a», como muita gente julga. Por exemplo:
(1) A Câmara cedeu um terreno à igreja.
(2) Amanhã vai ser feita a cessão do terreno à igreja.
O nome que corresponde ao verbo cessar é cessação. Concordo que seja uma palavra mais longa, com mais sibilantes, menos elegante, até! Mas é esta que faz justiça à regra de formação de nomes deverbais, i.e., nomes que provêm de verbos.
Por exemplo: arrumar + ção = arrumação; realizar + ção = realização
Se cessão fosse o nome relativo a cessar, então os nomes derivados de arrumar e realizar seriam *arrumão e *realizão!!
Pois bem, se é para abraçar um novo projecto, que se dê então a cessação deste contrato!
Por
S. Duarte
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23:50
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Num supermercado, li um aviso, na zona dos vinhos, que dizia qualquer coisa como isto: "Visite a feira de queijos e enchidos, juntos aos frescos."
De facto, a palavra junto pode ser um adjectivo, concordando em género e número com o nome que qualifica. Por exemplo, na frase: "Guardei as fotografias das férias todas juntas."
Contudo, junto, tal como próximo, ou perto, também pode ser um advérbio de lugar. E, no aviso, é o advérbio que deve constar. Tal como não diríamos que os queijos e enchidos estão "*pertos dos frescos", também não devemos dizer que estão "*juntos aos frescos".
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S. Leite
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15:07
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Palavras-chave: construção frásica , palavras
O Torneio que o ISEC
organiza há quatro anos,
está prestes a começar,
cuidado com os enganos!
Senão junto ou separado?
Qual o tempo verbal de dê?
E qual a frase correcta,
a A, a B ou a C?
Conspícuo, o que é?
Leva acento, ou não, sozinho?
E o antónimo de tónico?
Agora um ditadozinho!
Desde a qualificativa
Até à Grande Final,
Aprender é o que interessa,
Se não ganharem, não faz mal!
O convite fica registado:
são do Básico, Secundário, Superior?
Quer nos tenham, ou não, acompanhado,
Venham lá dar o vosso melhor!
Por
S. Leite
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15:49
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Palavras-chave: Torneio ISEC de Língua Portuguesa