09 maio 2008

O Vocabulário de que (quase) não se fala


O Acordo Ortográfico contempla, no seu preâmbulo, o seguinte artigo:

«Artigo 2.º

Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.»

Ora, o que eu pergunto é: quando é que se vai começar a fazer este vocabulário, que é imprescindível para a concertação da tal ortografia (supostamente) comum?

Em Portugal, um dos “órgãos competentes” será certamente a Academia das Ciências de Lisboa. Os outros não sei quais são, confesso. E pergunto-me, assumindo desde já, publicamente, a minha ignorância: não haverá por cá uma Academia das Letras (de uma qualquer cidade portuguesa, não precisa de ser lisboeta) que possa dar conta do recado? Quer-me parecer que a tarefa é demasiado titânica para uma Academia que já deve ter pano para mangas ocupando-se das ciências todas que existem...

07 maio 2008

O novo “purtuguex”

Confesso que cada vez tenho mais dificuldade em compreender as mensagens que os jovens escrevem uns para os outros hoje em dia. Talvez o objectivo deles também passe por aí – dificultar a compreensão por parte dos “cotas” – apesar de me parecer que a principal razão “pk xcrevem axim” é simplificar a ortografia.

Simplificar, por si só, não é um objectivo condenável. Basta lembrar que é uma das grandes vantagens da reforma ortográfica, para os seus defensores. O problema é que a substituição de umas letras por outras – nomeadamente o q pelo k e o s/ch/ç pelo x – , aliada à falta de leituras de qualidade, vai progressivamente criando imagens mentais das palavras que se afastam da sua grafia oficial.

Rapazes e raparigas com quem tenho falado garantem-me que não, que conseguem escrever “normalmente” sempre que é preciso, que só usam essa escrita abreviada e simplificada nas mensagens de telemóvel e correio electrónico. Eu dou-lhes o benefício da dúvida. Até porque, pela minha experiência como professora, a maior dificuldade da juventude que acaba o secundário e ingressa no ensino superior já nem sequer é escrever sem erros, mas algo muito mais grave: exprimir ideias através de palavras adequadas e frases gramaticalmente aceitáveis.

Nesse sentido, a grande polémica em torno do Acordo Ortográfico parece-me às vezes uma patetice, um devaneio de intelectuais alheados do que realmente interessa na sociedade, no que diz respeito ao uso da língua. E apetece-me dizer «venha o Acordo e depressa! Ao menos assim, os alunos que cometem actualmente vinte erros num ditado de 100 palavras passarão a cometer apenas quinze!»

02 maio 2008

Erro gratuito



Há quem tenha dúvidas sobre acentuação e há quem tenha certezas, mesmo estando errado...

Nesta paragem de autocarro, no Algarve, não há dúvida: o ditongo "ui" na palavra gratuito foi substituído por um hiato, isto é, as duas vogais pertencem, pelos vistos, a sílabas diferentes (para quem escreveu a palavra assim) e o "i" tornou-se a única vogal tónica.

Ui...

29 abril 2008

O estrangeirismo "pack"


Quem é que nunca se referiu a uma embalagem ou pacote de vários artigos, como cervejas ou latas de sumo, usando o estrangeirismo pack?

Embora possa parecer desnecessário e quase ridículo empregar o termo inglês quando temos a palavra pacote, o facto de se ter adoptado esse estrangeirismo revela que, para certas acepções os falantes a consideram inaadequada para transmitir a ideia que pack parece ter assumido entre nós. Não dizemos que um pack de cervejas é um pacote ou uma embalagem provavelmente porque essas duas palavras não encerram a ideia de “conjunto de objectos iguais”.

Embora não seja esse o significado de pack descrito nos dicionários de língua portuguesa que registam o anglicismo (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, remete simplesmente para embalagem), na minha opinião, os falantes tendem a usar o termo pack especificamente nos casos em que a embalagem contém várias unidades iguais de um produto. E assim ganhamos mais uma palavra em português!

21 abril 2008

"uma taxa MUITA atractiva"??



Já aqui abordámos uma vez o fenómeno do "muita", a propósito de um anúncio do Jardim Zoológico de Lisboa.

Esta brochura de um banco apregoa "uma taxa muita atractiva" de um produto financeiro...
será gralha tipográfica, ou antes um recurso estilístico?
Ficamos sem saber... mas parece que a moda do "muita" veio para ficar!

15 abril 2008

Pró e contra

Cada um tem a sua forma pessoal e subjectiva de entender as coisas e o Acordo Ortográfico é tema para suscitar emoções, pelo que se presta a que todos falem e ninguém tenha inteiramente razão, porque todos a perdem quando invocam argumentos, por assim dizer, "passionais". E ainda bem que não somos máquinas e que não conseguimos perspectivar o Acordo de uma forma estritamente racional!

Mas, mesmo entendendo que ambos os lados estão sujeitos a críticas, que ambas as visões são imperfeitas, para mim, o debate de ontem na RTP1 fez sobressair um lado vencedor: o lado a favor. Parece-me evidente que o Acordo traz mais bem do que mal, que os prejuízos de que falou Graça Moura (já no Parlamento) não comportam propriamente uma catástrofe.

No entanto, e tendo em conta que se falou de informática e do problema das versões portuguesas e brasileiras dos programas, estou de acordo com a ideia (que não sustenta o Acordo) de que a diversidade é tanta, que uma concertação ortográfica está longe, muito longe de a anular. Dou apenas um exemplo que a mim me parece conclusivo: quando uns chamam «planilha electrónica» e os outros «folha de cálculo» à mesma coisa, não há compromisso ortográfico que nos valha!






08 abril 2008

Convite para o lançamento do SOS LÍNGUA PORTUGUESA

Aqui fica o convite, para todos os leitores que possam e queiram vir ao ISEC (na Alameda das Linhas de Torres, 179, no Lumiar, em Lisboa), no próximo dia 17:


A Direcção da U.C.P. de Ciências da Educação do Instituto Superior de Educação e Ciências tem o prazer de convidar V. Exa. a assistir à sessão de apresentação do livro SOS Língua Portuguesa, da autoria das docentes do ISEC Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite, publicado pela Editorial Verbo.

A sessão será apresentada pela Prof. Doutora Margarita Correia, do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora associada do Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC, e por José Mário Costa, jornalista, coordenador pedagógico do Centro de Formação da RTP, autor de diversos livros e programas sobre língua portuguesa, e responsável pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (
www.ciberduvidas.pt).

A apresentação do livro realizar-se-á no próximo dia 17 de Abril, pelas 18h00, no auditório do ISEC.

03 abril 2008

Finalistas apuradas

Obrigada a todos os concorrentes que quiseram submeter-se à prova qualificativa para o 4º Torneio ISEC da Língua Portuguesa.
Dos cerca de 60 candidatos, foram apuradas as seguintes alunas:

Ana Filipa Máximo
Ana Sofia Augusto
Ângela Ferreira
Inês Isabel Ferreira
Mafalda Sant' Ana
Susana Fidalgo

Parabéns e boa sorte para a prova final!

31 março 2008

“Terá ques” que parecem não incomodar (quase) ninguém



A mim, devo dizer, incomodam-me os “terá ques” que tanta gente anda por aí a soltar, como se nada fosse, na primeira oportunidade. Mas não me parece que, além de mim, haja quem se importe com isso. No fundo, talvez seja uma questão de justiça: “não me importo com os “terá ques” dos outros, porque também não quero que se incomodem com os meus.”

E assim os vamos ouvindo inúmeras vezes, dia após dia: «terá que se fazer...», «terá que ser visto...», «lá terá que ser!». A realidade é mesmo esta, infelizmente: muito pouca gente tem a decência de se conter, ou melhor, de substituir esses “terá ques” todos, como deveria, por algo mais sensato: “terá des”. Porque a verdade é essa: seria muito mais adequado dizer antes «terá de se fazer...», «terá de ser visto...», «lá terá de ser!»

Quanto a mim, apesar de tentar evitar os “terá ques” a todo o custo, confesso que o facto de os ouvir a toda a hora acaba por me influenciar. Por vezes, lá me apanho a mim própria quando já é tarde de mais. E afinal, ninguém se preocupa, porque é do que mais se ouve nos dias que correm. Só me falta descobrir que os “terá ques” foram consagrados, que já se podem soltar sem receio de estar a atentar contra o bom senso e o bom gosto.


PS - Desculpem a brejeirice da abordagem, mas o tema estava mesmo a pedi-las!

30 março 2008

"Queijo Mozzarella fresca"?!


Se é queijo, porque é que o adjectivo vem no feminino? Confesso que não percebo. Será simplesmente pelo facto de a palavra mozzarella acabar em -a?

Talvez... afinal, outros nomes masculinos terminados em -a, como grama, têm vindo a ser alvo da mesma tendência de muitos falantes para os tomarem como palavras femininas. Eles não se ofendem, ainda bem. Mas não deixa de ser um erro...

Quanto a "mozzarella", já não é preciso usar tantas consoantes em português: basta escrever mozarela. E bom apetite!



24 março 2008

O mistério do Acordo Ortográfico...

No início deste ano, o Acordo foi notícia na televisão, chegando, assim, a um público muito mais vasto do que os inúmeros textos que já se publicaram na imprensa e na Internet. Agora, com a notícia recente da aprovação, pelo Governo, de uma proposta de resolução sobre o II Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, os falantes perguntam-se: «Já temos de escrever de outra maneira? E o que é que muda afinal?» As dúvidas sobre as alterações, aliadas à indefinição sobre a sua entrada em vigor, fazem do Acordo um verdadeiro mistério para a maior parte de nós.

Recomendo, a propósito, a leitura de um texto de D’Silvas Filho (e há muitos mais!) sobre este assunto, em que o Acordo é perspectivado de uma forma rigorosa, clara e simples, desmistificando-se a ideia de que vem complicar a vida aos falantes, ou criar embaraços de qualquer espécie. Não sendo a favor, também não posso dizer que estou contra. O que me revolta, além deste pára-arranca que se tem arrastado há tanto tempo, é a especulação ignorante. Sobre este assunto, como sobre quaisquer outros, são de evitar as opiniões formadas levianamente, muitas vezes com base em equívocos e mentiras que pessoas mal intencionadas ou simplesmente mal informadas espalham por aí.

18 março 2008

Sobre o verbo despoletar

Anda por aí meio mundo a usar o verbo despoletar com o significado de desencadear, como se em português não tivéssemos uns quantos verbos ao nosso dispor que exprimem essa mesma ideia, e até, confesso, bem mais elegantes! Eis alguns exemplos: deflagrar, provocar, suscitar, originar.
Bem sei que é com o erro que a língua dá o salto e cresce, mas se não tivermos cautela, qualquer dia a excepção passa o sinal vermelho e ultrapassa a regra.
Tenho tentado perceber a razão deste erro, por isso, convido-vos a uma curta viagem pela história da palavra.

Espoleta é um termo militar que designa o dispositivo que produz a detonação das cargas explosivas, como por exemplo, uma granada. Quando activamos esse dispositivo, usamos o verbo espoletar, que significa «pôr a espoleta em», logo, «fazer deflagrar a granada». Se tirarmos a espoleta, a granada fica inactiva. Para esta acção, usamos o verbo despoletar, que significa, portanto, «tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo de».
Fazendo a análise morfológica deste verbo, verificamos que o mesmo é derivado por prefixação, por intermédio do prefixo des-, que, tal como tantos outros elementos gramaticais, é polissémico, ou seja, veicula diferentes significados dependendo da base a que se agrega. Pode significar: 1. Negação: desaprovar (= «não aprovar»); desleal (= «não leal»); 2. Acção contrária: desmentir (= «acção inversa de mentir); desarrumar (acção inversa de arrumar).
Ora, é neste segundo quadro semântico que o verbo despoletar se inclui, exprimindo precisamente a acção contrária de espoletar.
O significado de reforço, de intensidade que o prefixo des- passou a assumir (por exemplo, na palavra desinquieto) é resultado da produtividade deste prefixo, mas não é esse significado que despoletar acarreta, como muita gente julga.

Por conseguinte, a história da palavra fala por si. "Despoletar", como sinónimo de desencadear, é um uso incorrecto da língua, apesar de alguns dicionários registarem este barbarismo, devido ao uso generalizado dos falantes.
Resta uma tomada de decisão por parte de todos nós, mas principalmente da comunicação social: ou continuar a difundir o erro ou, pelo contrário, privilegiar a correcção, o rigor linguístico, para que a língua cresça ao seu ritmo, saboreando cada etapa da sua vida.

Nota: Este texto é uma versão reciclada de uma resposta publicada no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, no dia 7 de Março de 2008.
http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=22978

12 março 2008

As novas modas na língua





É engraçado verificar como a língua, tal como as pessoas, está sujeita aos caprichos da moda.
Como peças de roupa que há muito guardamos no armário, temos palavras que estão em perfeitas condições e que ainda poderíamos usar por muitos anos, mas que optamos por deixar esquecidas, porque há outras novas, mais modernas, mais ao estilo do que se usa agora.
E, como queremos estar na crista da onda, dia após dia escolhemos os estrangeirismos e as traduções literais, em detrimento dos termos vernáculos, alguns dos quais até já fariam levantar os sobrolhos da gente mais “para a frentex”, como se fossem uma aberração:
dantes festejava-se ou comemorava-se, agora celebra-se (de celebrate)
dizia-se homenagem, mas agora todos dizem tributo (de tribute)
tínhamos livros e filmes preferidos, agora são favoritos (de favourite)
havia coisas mortais, agora são letais (de lethal)
o que não era permanente era provisório, agora é temporário (de temporary)
quase era praticamente, agora dizem que é virtualmente (de virtually)
faziam-se provas, agora fazem-se testes (de test)
os produtos retiravam / eliminavam nódoas, agora removem-nas (de remove)
usavam-se fardas na escola, agora usam-se uniformes (de uniforms)
as pessoas apercebiam-se de coisas, agora há quem "realize" que as coisas acontecem (de realize)
a paciência, que se jogava com cartas, passou a solitário (o solitaire), desde que apareceu no Windows
a senha transformou-se em palavra-passe (ou mesmo na própria password)
enfim, parece que já não temos amor-próprio, uma vez que também este mudou para auto-estima (de self-esteem)!...

10 março 2008

Zimba/ábw/ue/é... como é que é?!


Não sei se é por sermos demasiado complexos, doidos ou exagerados, mas parece-me, no mínimo, curioso que uma palavra estrangeira, ao entrar na língua portuguesa, assuma logo TRÊS formas diferentes!

É o que acontece com o nome do país Zimbabwe, que em português, e de acordo com os nossos dicionários, pode ter três grafias: Zimbabwe, Zimbábue e Zimbabué. (Se vos custa a crer, vejam o esclarecimento do Ciberdúvidas).

Primeira pergunta: aportuguesar ou não? – Eis a questão. A mim parece-me desnecessário fazê-lo, neste caso particular. Afinal, o duplo v, ou dâblio (ai, que feio que fica isto escrito!), já devia fazer parte do nosso alfabeto há muito tempo e tudo indica que vai passar a fazer muito em breve.

Mas admitamos que queremos transformá-lo num u, para tornar a palavra mais portuguesa. Nesse caso, pergunto: para quê a versão “Zimbabué”, com acento agudo no e final? Alguém a pronuncia como palavra aguda, com a tónica na última vogal? (Experimentem chamar o país, como se fosse uma pessoa. Gritarão “Zimbabuééééééééé” ou “Zimbáááááááábue”?!). Parece-me óbvio que Zimbábue, com acento no a, é mais fiel à oralidade e às regras de acentuação gráfica em português.

No entanto, volto a dizê-lo: sendo uma palavra estrangeira, como há tantas na nossa língua, será mesmo necessário aportuguesá-la à força, quando nem sequer há consenso sobre a forma que ela deve assumir?

05 março 2008

...«um bocado sorumbático»


A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...

«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»

...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.

Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.

02 março 2008

OS LIVROS

Quando eu era pequena,

só queria era brincar.

Livros, achava-os bonitos...

mas não traziam bonecas,

nem kalkitos,

nem folhas para desenhar!

Quando me davam livros,

nos anos ou no Natal,

Abria-os, folheava-os,

tinham bonecos engraçados,

cores giras, e tal...

Mas ver filmes e desenhos animados

É que era divertido!

E, no fundo, eu era normal.

Depois, veio a adolescência...

essa altura em que “não há paciência”!

Porque nos obrigam a ler

aquelas obras literárias...

livros grandes, escritos há muito,

e sobre os quais é preciso saber tanto,

que deixam de dar prazer.

Quando fui para a faculdade,

escolhi letras, é verdade,

talvez (que vergonha!)

para fugir à matemática,

para fazer ronha... enfim,

mas também porque gostava de escrever.

Foi então que mergulhei,

sem saber, no mundo dos livros a valer!

Descobri tantas coisas,

aprendi tanto, sonhei, senti, acreditei...

eu sei lá!

Foi incrível, o que as palavras,

as simples letras,

puras manchas pretas no papel,

fizeram na minha cabeça!

Eu criei mundos e mais mundos,

fui autores, narradores e personagens,

tudo o que li

aconteceu dentro de mim:

com magia, com leveza,

e com a beleza das miragens.

Realmente, há livros tão interessantes

que, quando levantamos os olhos,

das suas páginas

parece que nada fica como antes!

Os livros dão-nos bagagem,

dão uma grande vantagem.

Uma pessoa que lê,

se alguma vez se sentir à margem,

não é por falta de saber,

é porque, na leitura de cada livro,

fez uma grande viagem

e ficou diferente:

mais culta, mais consciente.

E apesar de já ser adulta,

Eu sei, quando estou a ler,

que ainda posso crescer.

Melhor: sei que posso viver

outras vidas, além da minha!

E basta-me ter um livro

para nunca me sentir sozinha.

Há quem diga que somos

o que queremos,

que somos o que fazemos

E o que comemos também.

Pois eu digo que, em boa parte,

Nós somos o que lemos.

E ler também é uma arte,

um desporto – porque não? –

que a todos pode fazer bem.

Ler é saber, é poder,

uma forma profunda de ver

e é meio caminho andado

para melhor escrever

e melhor pensar.

Podia ser um ditado:

Quem lê, depressa ou devagar,

a algum lado há-de chegar.

S. Leite


Nota: este poema é apenas ligeiramente autobiográfico!

25 fevereiro 2008

S.O.S. LÍNGUA PORTUGUESA


Na sua abertura de hoje, o Ciberdúvidas teve a gentileza de mencionar a publicação do nosso livro. Ficámos muito contentes e aproveitamos para confessar que é uma honra para nós sermos colaboradoras do seu consultório de dúvidas linguísticas.
Temos, assim, a obrigação de revelar também aos nossos leitores que está para breve (para esta semana, tanto quanto sabemos!), a edição, pela Verbo, do nosso

S.O.S. LÍNGUA PORTUGUESA:
Guia temático para resolução de dúvidas em português


Não era nossa intenção falar dele antes de o termos visto (não fosse o diabo tecê-las, como se costuma dizer...), mas a verdade é que já começava a ser difícil contermo-nos!
Esperamos, com o S.O.S., contribuir para que ainda mais falantes e amantes da língua portuguesa possam esclarecer as suas dúvidas de pronúncia, ortografia, léxico, morfologia e sintaxe.







22 fevereiro 2008

Adjectivo no feminino + -mente


Já alguma vez se perguntaram por que razão para formar advérbios com o sufixo -mente se usa sempre a forma feminina dos adjectivos que lhes estão na base?

Por outras palavras, porque é que dizemos perfeitamente, comodamente, diariamente, e não “perfeitomente”, “comodomente”, “diariomente”?!

O motivo é este: o sufixo -mente tem origem no nome latino do género feminino mens/mentis, cujo significado é mente, espírito, intenção e também forma de pensar e agir. Ora, se o nome era feminino, o adjectivo, naturalmente, concordava com ele. Perfeitamente, como quem diz “de forma perfeita”, diariamente, ou seja, “de maneira diária”. Lógico, não?

21 fevereiro 2008

Desafio

Na frase “Ainda não estou 100% recuperado”, qual é a função sintáctica de 100%?

15 fevereiro 2008

UniSSexo com dois ss!


Há 129.000 ocorrências da palavra “unisexo” no Google, contra 12.400 ocorrências de unissexo. Parece que o Simplex já chegou à ortografia!

Contudo, será que vale mesmo a pena poupar um s, quando a palavra "unisexo", além de ficar mal escrita, ainda soa mal? É que, lembrem-se, o s entre vogais tem som de z: em asa, liso, ausente, mesa e tantas outras palavras, essa regra é tão óbvia que ninguém duvida dela. Porém, quando se trata de dobrar a consoante por causa de um prefixo (uni + sexo), pouca gente se apercebe de que, não o fazendo, está a escrever uma palavra cujo som é “unizekso”. Fica giro, mas até custa a dizer... (Experimentem! Parece que estamos constipados!)

E já agora, haverá quem queira responder a isto? Se uni- quer dizer "um", porque é que os artigos ou serviços para AMBOS os sexos se designam assim?!

12 fevereiro 2008

Um ano de blogue


Hoje faz um ano que publicámos aqui o primeiro texto!

Com muita dedicação e entusiasmo, quisemos contribuir para que se fale melhor português e também para que se tenha mais gosto pela língua.

Questionava-se há poucos dias a Liliana, num comentário ao texto sobre o nosso Torneio: porque é que existe uma crescente falta de interesse dos alunos pela língua portuguesa?

Nós não sabemos qual é a resposta exacta a essa questão. Só podemos dizer que a sentimos como bastante perturbadora e procuramos contribuir com este blogue para contrariar essa tendência, escrevendo também para os alunos e para os jovens – talvez o grupo “de risco” por excelência, embora haja muitas e honrosas excepções.

Deste modo, e para assinalar um ano de actividade, gostaria de deixar claro que tenho perfeita noção de nem sempre ter conseguido cumprir esse objectivo. Afinal, o blogue tem poucas imagens, poucos elementos interactivos, não tem vídeos, nem música... enfim, podem os jovens, legitimamente, achá-lo bem desinteressante.

Por isso mesmo, venho propor o seguinte: que os leitores (assíduos ou estreantes) nos façam o obséquio de sugerir formas de melhorarmos o conteúdo e a forma desta página, de maneira a que ela agrade mais e a mais gente. Desde já, obrigada por todos os contributos!

E, já agora, quero deixar aqui um agradecimento especial a todos os que nos acompanharam e incentivaram desde o início.

11 fevereiro 2008

Cessão do contrato??

Já perdi a conta às vezes que tropecei neste erro.
Não é um erro de ortografia, porque a palavra existe, mas não tem qualquer relação semântica com o verbo cessar.
Cessão significa «acto de ceder, cedência» e não «acto de cessar, pôr termo a», como muita gente julga. Por exemplo:

(1) A Câmara cedeu um terreno à igreja.
(2) Amanhã vai ser feita a cessão do terreno à igreja.

O nome que corresponde ao verbo cessar é cessação. Concordo que seja uma palavra mais longa, com mais sibilantes, menos elegante, até! Mas é esta que faz justiça à regra de formação de nomes deverbais, i.e., nomes que provêm de verbos.

Por exemplo: arrumar + ção = arrumação; realizar + ção = realização

Se cessão fosse o nome relativo a cessar, então os nomes derivados de arrumar e realizar seriam *arrumão e *realizão!!

Pois bem, se é para abraçar um novo projecto, que se dê então a cessação deste contrato!

08 fevereiro 2008

Junto ou juntos?

Num supermercado, li um aviso, na zona dos vinhos, que dizia qualquer coisa como isto: "Visite a feira de queijos e enchidos, juntos aos frescos."

De facto, a palavra junto pode ser um adjectivo, concordando em género e número com o nome que qualifica. Por exemplo, na frase: "Guardei as fotografias das férias todas juntas."

Contudo, junto, tal como próximo, ou perto, também pode ser um advérbio de lugar. E, no aviso, é o advérbio que deve constar. Tal como não diríamos que os queijos e enchidos estão "*pertos dos frescos", também não devemos dizer que estão "*juntos aos frescos".

06 fevereiro 2008

Vem aí o Torneio ISEC de LÍngua Portuguesa!



O Torneio que o ISEC

organiza há quatro anos,

está prestes a começar,

cuidado com os enganos!

Senão junto ou separado?

Qual o tempo verbal de ?

E qual a frase correcta,

a A, a B ou a C?

Conspícuo, o que é?

Leva acento, ou não, sozinho?

E o antónimo de tónico?

Agora um ditadozinho!

Desde a qualificativa

Até à Grande Final,

Aprender é o que interessa,

Se não ganharem, não faz mal!

O convite fica registado:

são do Básico, Secundário, Superior?

Quer nos tenham, ou não, acompanhado,

Venham lá dar o vosso melhor!



04 fevereiro 2008

Avançar para trás?

Há dias, na televisão, um jornalista referia-se a pessoas que «não conseguiam avançar nem para a frente, nem para trás.»
Eu nem sequer ouvi, mas uma amiga perguntou-me se não estaria ali um erro grosseiro. Então pode-se avançar para trás?!
De facto, consultando o dicionário, vemos que a primeira acepção do verbo avançar é precisamente "ir para diante, mover ou fazer mover para a frente". Haverá, assim, uma inequívoca contradição na ideia de "avançar para trás".
Porém, como para a maior parte das palavras, o dicionário não apresenta apenas uma acepção para este verbo. Avançar também pode ser prosseguir, estender-se, alongar-se, penetrar, embrenhar-se, aventar, decorrer e muitas mais.

Nesse caso, o jornalista falou bem... ou nem por isso?

01 fevereiro 2008

Adjectivos relativos a nomes

Deixo-vos um desafio para este período carnavalesco!
Tentem descobrir o adjectivo correspondente a cada um dos seguintes nomes.

Por exemplo:
manhã – matinal
cavalo – hípico / equestre

1. paixão
2. orelha
3. dedo
4. jogo
5. rio
6. banho
7. guerra
8. cabelo
9. povo
10. coração

30 janeiro 2008

Perseverante e não *preserverante


Ao contrário do que muita gente pensa, não é o verbo preservar que está na origem do adjectivo perseverante. Sim, escrevi bem: perseverante e não *“preserverante”!

Perseverante é aquele que persevera. E o verbo perseverar, em latim perseverare, significa “persistir, continuar, prosseguir”.

Perdoem a brevidade do artigo, mas é necessário que eu persevere nas tarefas domésticas que neste momento me chamam!


28 janeiro 2008

Às vezes demais é de mais!

Quem escreve bem sabe que a locução adverbial de mais é o oposto de de menos e, portanto, deve ser usada em frases em que exprime quantidade excessiva, como esta:

Comer de mais é prejudicial para a saúde.

Essas pessoas não confundem a locução de mais com outro advérbio, demais, que significa o mesmo que "além disso". Demais, até existe uma variante do mesmo advérbio, que é ademais, exactamente com o mesmo sentido. E há ainda a expressão demais a mais, cujo significado é semelhante a "ainda por cima".

No entanto, tem havido uma tendência crescente para escrever a locução de mais como uma só palavra, a tal ponto, que alguns dicionários, como o Priberam (da Texto Editores), já atestam que demais significa o mesmo que demasiado, assim como algumas gramáticas, como a Saber Falar, Saber Escrever (Dom Quixote), incluem demais nos advérbios de quantidade.
Mais uma vez, conclui-se que os falantes é que vão moldando a língua de acordo com a sua vontade.

O que eu gostaria de saber é onde vai ficar aquele demais que se usa muito, em registo familiar, como adjectivo: quando exclamamos que alguém é demais! Porque nesse caso, não nos estamos apenas a referir a uma quantidade excessiva (embora essa ideia esteja, obviamente, na base do seu uso. "Tu és demais" implica "mais do que eu posso suportar, conceber, etc."). Mas esse demais não é propriamente o oposto de de menos, (alguém exclama "ela é *demenos!"?), trata-se de uma palavra que falta definir "oficialmente", embora todos saibamos que o seu sentido, na maior parte dos contextos, está próximo de "incrível, espantoso, surpreendente".
E o que também é surpreendente é que esse novo adjectivo pode igualmente ser usado com um sentido depreciativo, tal é a sua riqueza expressiva. Imaginem uma mãe a ralhar com o filho por deixar sempre o quarto desarrumado. Pode dizer, com toda a naturalidade: "Olha para esta confusão, rapaz! Safa, tu és demais!"

25 janeiro 2008

Solarengo e soalheiro

Qual destas duas palavras escolheriam para completar a frase seguinte?

Hoje está um dia _______________!

Deixem-me adivinhar...
Escolheriam solarengo, talvez porque esta palavra exibe um certo encanto, uma certa nobreza!
Pois, de facto, ela tem um cariz nobre, porque significa precisamente «relativo a solar (casa nobre)», mas nada tem a ver com sol! (por ex.: essa casa tem um aspecto solarengo.)

Surpreendidos?!
Soalheiro seria, portanto, a opção correcta. Esta palavra, sim, está relacionada com sol!

Estamos em Janeiro e hoje está um dia soalheiro!

22 janeiro 2008

Nó... Ai!... Como é que se diz?!

Há palavras em relação às quais temos dúvidas, não de ortografia, mas de pronúncia. E isto acontece mesmo quando essas palavras andam “na boca de toda a gente”, como se costuma dizer. Quem não hesitou já entre dizer “Nóbel” e “Nobél”?

Muitas vezes, essa hesitação deriva do facto de ouvirmos dizer a palavra de duas ou mais maneiras diferentes, nos meios de comunicação social... aliás: “média” ou “mídia”?

Em certos casos, como no primeiro, há tanta gente a optar por uma pronúncia como por outra, o que leva a que ambas acabem por ser legítimas, como no caso de Nobel, que tem duas pronúncias possíveis no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Quanto a média – na acepção de meios de comunicação –, que aparece à inglesa (media), sem acento, nalguns dicionários, a pronúncia em Portugal deve ser com o e aberto, e não com i, como acontece no Brasil (a palavra escreve-se mesmo com i, do lado de lá do Atlântico).

Ainda há o caso da ONU, que alguns jornalistas insistem em pronunciar como se tivesse acento agudo no o (“ónu”), mas que se deve dizer “onú”, pois trata-se de uma palavra aguda, como são todas as terminadas em u(s) que não levem acento noutra vogal.

E mais? Há outras palavras sobre as quais tenham dúvidas quanto à sua pronúncia?