31 março 2008

“Terá ques” que parecem não incomodar (quase) ninguém



A mim, devo dizer, incomodam-me os “terá ques” que tanta gente anda por aí a soltar, como se nada fosse, na primeira oportunidade. Mas não me parece que, além de mim, haja quem se importe com isso. No fundo, talvez seja uma questão de justiça: “não me importo com os “terá ques” dos outros, porque também não quero que se incomodem com os meus.”

E assim os vamos ouvindo inúmeras vezes, dia após dia: «terá que se fazer...», «terá que ser visto...», «lá terá que ser!». A realidade é mesmo esta, infelizmente: muito pouca gente tem a decência de se conter, ou melhor, de substituir esses “terá ques” todos, como deveria, por algo mais sensato: “terá des”. Porque a verdade é essa: seria muito mais adequado dizer antes «terá de se fazer...», «terá de ser visto...», «lá terá de ser!»

Quanto a mim, apesar de tentar evitar os “terá ques” a todo o custo, confesso que o facto de os ouvir a toda a hora acaba por me influenciar. Por vezes, lá me apanho a mim própria quando já é tarde de mais. E afinal, ninguém se preocupa, porque é do que mais se ouve nos dias que correm. Só me falta descobrir que os “terá ques” foram consagrados, que já se podem soltar sem receio de estar a atentar contra o bom senso e o bom gosto.


PS - Desculpem a brejeirice da abordagem, mas o tema estava mesmo a pedi-las!

30 março 2008

"Queijo Mozzarella fresca"?!


Se é queijo, porque é que o adjectivo vem no feminino? Confesso que não percebo. Será simplesmente pelo facto de a palavra mozzarella acabar em -a?

Talvez... afinal, outros nomes masculinos terminados em -a, como grama, têm vindo a ser alvo da mesma tendência de muitos falantes para os tomarem como palavras femininas. Eles não se ofendem, ainda bem. Mas não deixa de ser um erro...

Quanto a "mozzarella", já não é preciso usar tantas consoantes em português: basta escrever mozarela. E bom apetite!



24 março 2008

O mistério do Acordo Ortográfico...

No início deste ano, o Acordo foi notícia na televisão, chegando, assim, a um público muito mais vasto do que os inúmeros textos que já se publicaram na imprensa e na Internet. Agora, com a notícia recente da aprovação, pelo Governo, de uma proposta de resolução sobre o II Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, os falantes perguntam-se: «Já temos de escrever de outra maneira? E o que é que muda afinal?» As dúvidas sobre as alterações, aliadas à indefinição sobre a sua entrada em vigor, fazem do Acordo um verdadeiro mistério para a maior parte de nós.

Recomendo, a propósito, a leitura de um texto de D’Silvas Filho (e há muitos mais!) sobre este assunto, em que o Acordo é perspectivado de uma forma rigorosa, clara e simples, desmistificando-se a ideia de que vem complicar a vida aos falantes, ou criar embaraços de qualquer espécie. Não sendo a favor, também não posso dizer que estou contra. O que me revolta, além deste pára-arranca que se tem arrastado há tanto tempo, é a especulação ignorante. Sobre este assunto, como sobre quaisquer outros, são de evitar as opiniões formadas levianamente, muitas vezes com base em equívocos e mentiras que pessoas mal intencionadas ou simplesmente mal informadas espalham por aí.

18 março 2008

Sobre o verbo despoletar

Anda por aí meio mundo a usar o verbo despoletar com o significado de desencadear, como se em português não tivéssemos uns quantos verbos ao nosso dispor que exprimem essa mesma ideia, e até, confesso, bem mais elegantes! Eis alguns exemplos: deflagrar, provocar, suscitar, originar.
Bem sei que é com o erro que a língua dá o salto e cresce, mas se não tivermos cautela, qualquer dia a excepção passa o sinal vermelho e ultrapassa a regra.
Tenho tentado perceber a razão deste erro, por isso, convido-vos a uma curta viagem pela história da palavra.

Espoleta é um termo militar que designa o dispositivo que produz a detonação das cargas explosivas, como por exemplo, uma granada. Quando activamos esse dispositivo, usamos o verbo espoletar, que significa «pôr a espoleta em», logo, «fazer deflagrar a granada». Se tirarmos a espoleta, a granada fica inactiva. Para esta acção, usamos o verbo despoletar, que significa, portanto, «tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo de».
Fazendo a análise morfológica deste verbo, verificamos que o mesmo é derivado por prefixação, por intermédio do prefixo des-, que, tal como tantos outros elementos gramaticais, é polissémico, ou seja, veicula diferentes significados dependendo da base a que se agrega. Pode significar: 1. Negação: desaprovar (= «não aprovar»); desleal (= «não leal»); 2. Acção contrária: desmentir (= «acção inversa de mentir); desarrumar (acção inversa de arrumar).
Ora, é neste segundo quadro semântico que o verbo despoletar se inclui, exprimindo precisamente a acção contrária de espoletar.
O significado de reforço, de intensidade que o prefixo des- passou a assumir (por exemplo, na palavra desinquieto) é resultado da produtividade deste prefixo, mas não é esse significado que despoletar acarreta, como muita gente julga.

Por conseguinte, a história da palavra fala por si. "Despoletar", como sinónimo de desencadear, é um uso incorrecto da língua, apesar de alguns dicionários registarem este barbarismo, devido ao uso generalizado dos falantes.
Resta uma tomada de decisão por parte de todos nós, mas principalmente da comunicação social: ou continuar a difundir o erro ou, pelo contrário, privilegiar a correcção, o rigor linguístico, para que a língua cresça ao seu ritmo, saboreando cada etapa da sua vida.

Nota: Este texto é uma versão reciclada de uma resposta publicada no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, no dia 7 de Março de 2008.
http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=22978

12 março 2008

As novas modas na língua





É engraçado verificar como a língua, tal como as pessoas, está sujeita aos caprichos da moda.
Como peças de roupa que há muito guardamos no armário, temos palavras que estão em perfeitas condições e que ainda poderíamos usar por muitos anos, mas que optamos por deixar esquecidas, porque há outras novas, mais modernas, mais ao estilo do que se usa agora.
E, como queremos estar na crista da onda, dia após dia escolhemos os estrangeirismos e as traduções literais, em detrimento dos termos vernáculos, alguns dos quais até já fariam levantar os sobrolhos da gente mais “para a frentex”, como se fossem uma aberração:
dantes festejava-se ou comemorava-se, agora celebra-se (de celebrate)
dizia-se homenagem, mas agora todos dizem tributo (de tribute)
tínhamos livros e filmes preferidos, agora são favoritos (de favourite)
havia coisas mortais, agora são letais (de lethal)
o que não era permanente era provisório, agora é temporário (de temporary)
quase era praticamente, agora dizem que é virtualmente (de virtually)
faziam-se provas, agora fazem-se testes (de test)
os produtos retiravam / eliminavam nódoas, agora removem-nas (de remove)
usavam-se fardas na escola, agora usam-se uniformes (de uniforms)
as pessoas apercebiam-se de coisas, agora há quem "realize" que as coisas acontecem (de realize)
a paciência, que se jogava com cartas, passou a solitário (o solitaire), desde que apareceu no Windows
a senha transformou-se em palavra-passe (ou mesmo na própria password)
enfim, parece que já não temos amor-próprio, uma vez que também este mudou para auto-estima (de self-esteem)!...

10 março 2008

Zimba/ábw/ue/é... como é que é?!


Não sei se é por sermos demasiado complexos, doidos ou exagerados, mas parece-me, no mínimo, curioso que uma palavra estrangeira, ao entrar na língua portuguesa, assuma logo TRÊS formas diferentes!

É o que acontece com o nome do país Zimbabwe, que em português, e de acordo com os nossos dicionários, pode ter três grafias: Zimbabwe, Zimbábue e Zimbabué. (Se vos custa a crer, vejam o esclarecimento do Ciberdúvidas).

Primeira pergunta: aportuguesar ou não? – Eis a questão. A mim parece-me desnecessário fazê-lo, neste caso particular. Afinal, o duplo v, ou dâblio (ai, que feio que fica isto escrito!), já devia fazer parte do nosso alfabeto há muito tempo e tudo indica que vai passar a fazer muito em breve.

Mas admitamos que queremos transformá-lo num u, para tornar a palavra mais portuguesa. Nesse caso, pergunto: para quê a versão “Zimbabué”, com acento agudo no e final? Alguém a pronuncia como palavra aguda, com a tónica na última vogal? (Experimentem chamar o país, como se fosse uma pessoa. Gritarão “Zimbabuééééééééé” ou “Zimbáááááááábue”?!). Parece-me óbvio que Zimbábue, com acento no a, é mais fiel à oralidade e às regras de acentuação gráfica em português.

No entanto, volto a dizê-lo: sendo uma palavra estrangeira, como há tantas na nossa língua, será mesmo necessário aportuguesá-la à força, quando nem sequer há consenso sobre a forma que ela deve assumir?

05 março 2008

...«um bocado sorumbático»


A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...

«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»

...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.

Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.

02 março 2008

OS LIVROS

Quando eu era pequena,

só queria era brincar.

Livros, achava-os bonitos...

mas não traziam bonecas,

nem kalkitos,

nem folhas para desenhar!

Quando me davam livros,

nos anos ou no Natal,

Abria-os, folheava-os,

tinham bonecos engraçados,

cores giras, e tal...

Mas ver filmes e desenhos animados

É que era divertido!

E, no fundo, eu era normal.

Depois, veio a adolescência...

essa altura em que “não há paciência”!

Porque nos obrigam a ler

aquelas obras literárias...

livros grandes, escritos há muito,

e sobre os quais é preciso saber tanto,

que deixam de dar prazer.

Quando fui para a faculdade,

escolhi letras, é verdade,

talvez (que vergonha!)

para fugir à matemática,

para fazer ronha... enfim,

mas também porque gostava de escrever.

Foi então que mergulhei,

sem saber, no mundo dos livros a valer!

Descobri tantas coisas,

aprendi tanto, sonhei, senti, acreditei...

eu sei lá!

Foi incrível, o que as palavras,

as simples letras,

puras manchas pretas no papel,

fizeram na minha cabeça!

Eu criei mundos e mais mundos,

fui autores, narradores e personagens,

tudo o que li

aconteceu dentro de mim:

com magia, com leveza,

e com a beleza das miragens.

Realmente, há livros tão interessantes

que, quando levantamos os olhos,

das suas páginas

parece que nada fica como antes!

Os livros dão-nos bagagem,

dão uma grande vantagem.

Uma pessoa que lê,

se alguma vez se sentir à margem,

não é por falta de saber,

é porque, na leitura de cada livro,

fez uma grande viagem

e ficou diferente:

mais culta, mais consciente.

E apesar de já ser adulta,

Eu sei, quando estou a ler,

que ainda posso crescer.

Melhor: sei que posso viver

outras vidas, além da minha!

E basta-me ter um livro

para nunca me sentir sozinha.

Há quem diga que somos

o que queremos,

que somos o que fazemos

E o que comemos também.

Pois eu digo que, em boa parte,

Nós somos o que lemos.

E ler também é uma arte,

um desporto – porque não? –

que a todos pode fazer bem.

Ler é saber, é poder,

uma forma profunda de ver

e é meio caminho andado

para melhor escrever

e melhor pensar.

Podia ser um ditado:

Quem lê, depressa ou devagar,

a algum lado há-de chegar.

S. Leite


Nota: este poema é apenas ligeiramente autobiográfico!

25 fevereiro 2008

S.O.S. LÍNGUA PORTUGUESA


Na sua abertura de hoje, o Ciberdúvidas teve a gentileza de mencionar a publicação do nosso livro. Ficámos muito contentes e aproveitamos para confessar que é uma honra para nós sermos colaboradoras do seu consultório de dúvidas linguísticas.
Temos, assim, a obrigação de revelar também aos nossos leitores que está para breve (para esta semana, tanto quanto sabemos!), a edição, pela Verbo, do nosso

S.O.S. LÍNGUA PORTUGUESA:
Guia temático para resolução de dúvidas em português


Não era nossa intenção falar dele antes de o termos visto (não fosse o diabo tecê-las, como se costuma dizer...), mas a verdade é que já começava a ser difícil contermo-nos!
Esperamos, com o S.O.S., contribuir para que ainda mais falantes e amantes da língua portuguesa possam esclarecer as suas dúvidas de pronúncia, ortografia, léxico, morfologia e sintaxe.







22 fevereiro 2008

Adjectivo no feminino + -mente


Já alguma vez se perguntaram por que razão para formar advérbios com o sufixo -mente se usa sempre a forma feminina dos adjectivos que lhes estão na base?

Por outras palavras, porque é que dizemos perfeitamente, comodamente, diariamente, e não “perfeitomente”, “comodomente”, “diariomente”?!

O motivo é este: o sufixo -mente tem origem no nome latino do género feminino mens/mentis, cujo significado é mente, espírito, intenção e também forma de pensar e agir. Ora, se o nome era feminino, o adjectivo, naturalmente, concordava com ele. Perfeitamente, como quem diz “de forma perfeita”, diariamente, ou seja, “de maneira diária”. Lógico, não?

21 fevereiro 2008

Desafio

Na frase “Ainda não estou 100% recuperado”, qual é a função sintáctica de 100%?

15 fevereiro 2008

UniSSexo com dois ss!


Há 129.000 ocorrências da palavra “unisexo” no Google, contra 12.400 ocorrências de unissexo. Parece que o Simplex já chegou à ortografia!

Contudo, será que vale mesmo a pena poupar um s, quando a palavra "unisexo", além de ficar mal escrita, ainda soa mal? É que, lembrem-se, o s entre vogais tem som de z: em asa, liso, ausente, mesa e tantas outras palavras, essa regra é tão óbvia que ninguém duvida dela. Porém, quando se trata de dobrar a consoante por causa de um prefixo (uni + sexo), pouca gente se apercebe de que, não o fazendo, está a escrever uma palavra cujo som é “unizekso”. Fica giro, mas até custa a dizer... (Experimentem! Parece que estamos constipados!)

E já agora, haverá quem queira responder a isto? Se uni- quer dizer "um", porque é que os artigos ou serviços para AMBOS os sexos se designam assim?!

12 fevereiro 2008

Um ano de blogue


Hoje faz um ano que publicámos aqui o primeiro texto!

Com muita dedicação e entusiasmo, quisemos contribuir para que se fale melhor português e também para que se tenha mais gosto pela língua.

Questionava-se há poucos dias a Liliana, num comentário ao texto sobre o nosso Torneio: porque é que existe uma crescente falta de interesse dos alunos pela língua portuguesa?

Nós não sabemos qual é a resposta exacta a essa questão. Só podemos dizer que a sentimos como bastante perturbadora e procuramos contribuir com este blogue para contrariar essa tendência, escrevendo também para os alunos e para os jovens – talvez o grupo “de risco” por excelência, embora haja muitas e honrosas excepções.

Deste modo, e para assinalar um ano de actividade, gostaria de deixar claro que tenho perfeita noção de nem sempre ter conseguido cumprir esse objectivo. Afinal, o blogue tem poucas imagens, poucos elementos interactivos, não tem vídeos, nem música... enfim, podem os jovens, legitimamente, achá-lo bem desinteressante.

Por isso mesmo, venho propor o seguinte: que os leitores (assíduos ou estreantes) nos façam o obséquio de sugerir formas de melhorarmos o conteúdo e a forma desta página, de maneira a que ela agrade mais e a mais gente. Desde já, obrigada por todos os contributos!

E, já agora, quero deixar aqui um agradecimento especial a todos os que nos acompanharam e incentivaram desde o início.

11 fevereiro 2008

Cessão do contrato??

Já perdi a conta às vezes que tropecei neste erro.
Não é um erro de ortografia, porque a palavra existe, mas não tem qualquer relação semântica com o verbo cessar.
Cessão significa «acto de ceder, cedência» e não «acto de cessar, pôr termo a», como muita gente julga. Por exemplo:

(1) A Câmara cedeu um terreno à igreja.
(2) Amanhã vai ser feita a cessão do terreno à igreja.

O nome que corresponde ao verbo cessar é cessação. Concordo que seja uma palavra mais longa, com mais sibilantes, menos elegante, até! Mas é esta que faz justiça à regra de formação de nomes deverbais, i.e., nomes que provêm de verbos.

Por exemplo: arrumar + ção = arrumação; realizar + ção = realização

Se cessão fosse o nome relativo a cessar, então os nomes derivados de arrumar e realizar seriam *arrumão e *realizão!!

Pois bem, se é para abraçar um novo projecto, que se dê então a cessação deste contrato!

08 fevereiro 2008

Junto ou juntos?

Num supermercado, li um aviso, na zona dos vinhos, que dizia qualquer coisa como isto: "Visite a feira de queijos e enchidos, juntos aos frescos."

De facto, a palavra junto pode ser um adjectivo, concordando em género e número com o nome que qualifica. Por exemplo, na frase: "Guardei as fotografias das férias todas juntas."

Contudo, junto, tal como próximo, ou perto, também pode ser um advérbio de lugar. E, no aviso, é o advérbio que deve constar. Tal como não diríamos que os queijos e enchidos estão "*pertos dos frescos", também não devemos dizer que estão "*juntos aos frescos".

06 fevereiro 2008

Vem aí o Torneio ISEC de LÍngua Portuguesa!



O Torneio que o ISEC

organiza há quatro anos,

está prestes a começar,

cuidado com os enganos!

Senão junto ou separado?

Qual o tempo verbal de ?

E qual a frase correcta,

a A, a B ou a C?

Conspícuo, o que é?

Leva acento, ou não, sozinho?

E o antónimo de tónico?

Agora um ditadozinho!

Desde a qualificativa

Até à Grande Final,

Aprender é o que interessa,

Se não ganharem, não faz mal!

O convite fica registado:

são do Básico, Secundário, Superior?

Quer nos tenham, ou não, acompanhado,

Venham lá dar o vosso melhor!



04 fevereiro 2008

Avançar para trás?

Há dias, na televisão, um jornalista referia-se a pessoas que «não conseguiam avançar nem para a frente, nem para trás.»
Eu nem sequer ouvi, mas uma amiga perguntou-me se não estaria ali um erro grosseiro. Então pode-se avançar para trás?!
De facto, consultando o dicionário, vemos que a primeira acepção do verbo avançar é precisamente "ir para diante, mover ou fazer mover para a frente". Haverá, assim, uma inequívoca contradição na ideia de "avançar para trás".
Porém, como para a maior parte das palavras, o dicionário não apresenta apenas uma acepção para este verbo. Avançar também pode ser prosseguir, estender-se, alongar-se, penetrar, embrenhar-se, aventar, decorrer e muitas mais.

Nesse caso, o jornalista falou bem... ou nem por isso?

01 fevereiro 2008

Adjectivos relativos a nomes

Deixo-vos um desafio para este período carnavalesco!
Tentem descobrir o adjectivo correspondente a cada um dos seguintes nomes.

Por exemplo:
manhã – matinal
cavalo – hípico / equestre

1. paixão
2. orelha
3. dedo
4. jogo
5. rio
6. banho
7. guerra
8. cabelo
9. povo
10. coração

30 janeiro 2008

Perseverante e não *preserverante


Ao contrário do que muita gente pensa, não é o verbo preservar que está na origem do adjectivo perseverante. Sim, escrevi bem: perseverante e não *“preserverante”!

Perseverante é aquele que persevera. E o verbo perseverar, em latim perseverare, significa “persistir, continuar, prosseguir”.

Perdoem a brevidade do artigo, mas é necessário que eu persevere nas tarefas domésticas que neste momento me chamam!


28 janeiro 2008

Às vezes demais é de mais!

Quem escreve bem sabe que a locução adverbial de mais é o oposto de de menos e, portanto, deve ser usada em frases em que exprime quantidade excessiva, como esta:

Comer de mais é prejudicial para a saúde.

Essas pessoas não confundem a locução de mais com outro advérbio, demais, que significa o mesmo que "além disso". Demais, até existe uma variante do mesmo advérbio, que é ademais, exactamente com o mesmo sentido. E há ainda a expressão demais a mais, cujo significado é semelhante a "ainda por cima".

No entanto, tem havido uma tendência crescente para escrever a locução de mais como uma só palavra, a tal ponto, que alguns dicionários, como o Priberam (da Texto Editores), já atestam que demais significa o mesmo que demasiado, assim como algumas gramáticas, como a Saber Falar, Saber Escrever (Dom Quixote), incluem demais nos advérbios de quantidade.
Mais uma vez, conclui-se que os falantes é que vão moldando a língua de acordo com a sua vontade.

O que eu gostaria de saber é onde vai ficar aquele demais que se usa muito, em registo familiar, como adjectivo: quando exclamamos que alguém é demais! Porque nesse caso, não nos estamos apenas a referir a uma quantidade excessiva (embora essa ideia esteja, obviamente, na base do seu uso. "Tu és demais" implica "mais do que eu posso suportar, conceber, etc."). Mas esse demais não é propriamente o oposto de de menos, (alguém exclama "ela é *demenos!"?), trata-se de uma palavra que falta definir "oficialmente", embora todos saibamos que o seu sentido, na maior parte dos contextos, está próximo de "incrível, espantoso, surpreendente".
E o que também é surpreendente é que esse novo adjectivo pode igualmente ser usado com um sentido depreciativo, tal é a sua riqueza expressiva. Imaginem uma mãe a ralhar com o filho por deixar sempre o quarto desarrumado. Pode dizer, com toda a naturalidade: "Olha para esta confusão, rapaz! Safa, tu és demais!"

25 janeiro 2008

Solarengo e soalheiro

Qual destas duas palavras escolheriam para completar a frase seguinte?

Hoje está um dia _______________!

Deixem-me adivinhar...
Escolheriam solarengo, talvez porque esta palavra exibe um certo encanto, uma certa nobreza!
Pois, de facto, ela tem um cariz nobre, porque significa precisamente «relativo a solar (casa nobre)», mas nada tem a ver com sol! (por ex.: essa casa tem um aspecto solarengo.)

Surpreendidos?!
Soalheiro seria, portanto, a opção correcta. Esta palavra, sim, está relacionada com sol!

Estamos em Janeiro e hoje está um dia soalheiro!

22 janeiro 2008

Nó... Ai!... Como é que se diz?!

Há palavras em relação às quais temos dúvidas, não de ortografia, mas de pronúncia. E isto acontece mesmo quando essas palavras andam “na boca de toda a gente”, como se costuma dizer. Quem não hesitou já entre dizer “Nóbel” e “Nobél”?

Muitas vezes, essa hesitação deriva do facto de ouvirmos dizer a palavra de duas ou mais maneiras diferentes, nos meios de comunicação social... aliás: “média” ou “mídia”?

Em certos casos, como no primeiro, há tanta gente a optar por uma pronúncia como por outra, o que leva a que ambas acabem por ser legítimas, como no caso de Nobel, que tem duas pronúncias possíveis no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Quanto a média – na acepção de meios de comunicação –, que aparece à inglesa (media), sem acento, nalguns dicionários, a pronúncia em Portugal deve ser com o e aberto, e não com i, como acontece no Brasil (a palavra escreve-se mesmo com i, do lado de lá do Atlântico).

Ainda há o caso da ONU, que alguns jornalistas insistem em pronunciar como se tivesse acento agudo no o (“ónu”), mas que se deve dizer “onú”, pois trata-se de uma palavra aguda, como são todas as terminadas em u(s) que não levem acento noutra vogal.

E mais? Há outras palavras sobre as quais tenham dúvidas quanto à sua pronúncia?

18 janeiro 2008

Bem-vindo, Benvindo e bem... vindo!


Para quem ainda tem dúvidas (e por sugestão da Inês), aqui fica o esclarecimento: o adjectivo bem-vindo escreve-se com hífen, sendo uma palavra formada por justaposição. Assim, nas expressões “seja bem-vindo”, “sentiu-se bem-vinda” e “serão bem-vindos”, em que a palavra tem sempre o sentido de “bem acolhido/a/os”, é esse adjectivo, com hífen entre os dois termos que formam o composto, que está presente.
Benvindo é nome próprio, como Benvinda, na versão feminina. Portanto, é uma palavra composta por aglutinação, uma vez que não há hífen entre os termos bem e vindo.
Agora perguntam-me: e bem vindo, ou bem vinda, separado, sem hífen, não existe? Bem, vinda de vocês, essa pergunta merece toda a atenção!... Na frase atrás, vemos que as palavras aparecem seguidas, mas há uma vírgula entre elas. Em princípio, deverá haver sempre esse elemento entre as palavras independentes bem e vindo/a/s, pois as situações em que elas aparecem próximas aconselharão o uso da pontuação:

Bem, vindo dele, isso até é de estranhar... – Aqui, temos o advérbio bem em início de frase, solicitando a separação do resto por meio de vírgula.

Ela aparentava estar bem, vindo ao meu encontro a passos largos. – Aqui, temos o advérbio bem no final da primeira oração, que é separada da segunda por meio de vírgula, uma vez que esta é uma oração reduzida gerundiva.

Bem, vindo aí o fim-de-semana, o melhor é não me alongar mais!

16 janeiro 2008

Ao encontro de / de encontro a

Toda a gente sabe o que significa cada uma destas expressões isoladamente, fora de qualquer contexto. Até se sabe que são o oposto uma da outra.
Mas no momento de escolher, a eleita é quase sempre a segunda – de encontro a.
Digam-me, por favor, se o exemplo que se segue vos é, ou não, familiar:

(1) ?? “Este curso vem mesmo de encontro às minhas expectativas!”

Ora, a expressão de encontro a significa “contra”. As pessoas usam-na, dizendo precisamente o contrário daquilo que pretendem. O termo correcto é ao encontro de, que significa “na direcção de, de acordo com”.
Por conseguinte, diga-se:

(2) Este curso vem mesmo ao encontro das minhas expectativas!
(3) O jogador foi de encontro à baliza.

E a vossa opinião vem ao encontro da minha?!

14 janeiro 2008

Prole e prol


Há duas curtas palavras
Que muita gente baralha:
Em vez de usarem a certa
Escrevem aquela que calha!

É claro que são parecidas...
Porém, o seu significado
É tão distinto, que trocá-las
É engano bem enganado.

São ambas pequeninas
Mas é grande o seu valor:

Prole é a descendência,
Em prol significa «em favor».

Assim, a gorda galinha,
anda com a
prole atrás
E come milho todo o dia
Em
prol do apetite voraz!

O proletário é pobre
Só com os filhos pode contar,
Sempre que o governo não age
Em
prol do seu bem-estar.

Zelar por um futuro são
É hoje em dia urgente:
Para bem da nossa
prole,
Agir em
prol do ambiente.

Se ainda vos resta a dúvida
Para a próxima pensem assim:
Leva um filhinho (a
prole)
A que tem o
e no fim!

11 janeiro 2008

Uma questão de género


Desde aquele engraçado sketch dos Gato Fedorento que muita gente passou a saber que grama era um substantivo masculino.
No entanto, ainda há outros substantivos que deixam muitos de nós com dúvidas quanto ao respectivo género. Alguns deles, em virtude da insistência dos falantes em aplicar-lhe o género errado, até fizeram mudar os dicionários: é o caso de babete, avestruz e bebé. O primeiro, que era feminino, passou a masculino; o segundo era masculino, mas passou a feminino, e o terceiro era masculino e passou a ter dois géneros!

Quanto a poeta e a personagem, verificamos que o primeiro era exclusivamente masculino e hoje em dia também se pode aplicar às mulheres (estando, ao que parece, a flexão no feminino poetisa em vias de extinção); e que o segundo tanto pode ser feminino (pois tem o mesmo étimo que pessoa), como masculino.
Não admira que, com tantas mudanças, haja muita hesitação! Felizmente, as dúvidas são puramente linguísticas...

09 janeiro 2008

Cinco curiosidades

1. ETC. – abreviatura do latim et caetera e significa “e outros”;

2. PUB – abreviatura do inglês public house, ex.: “Depois do cinema, foram a um pub”;

3. – abreviatura de fanático;

4. MOTEL – amálgama de motor + hotel (porque se encontra à beira da estrada);

5. INFORMÁTICA – amálgama de informação + automática.

07 janeiro 2008

A hélice ou o hélice?


Hélice
tem várias acepções distintas, que acarretam a alteração do género.
No âmbito da geometria, enquanto espiral ou curva, o termo é feminino.
No âmbito da náutica e da aeronáutica, enquanto órgão propulsor, hélice é nome feminino, embora seja cada vez mais frequente, na aeronáutica, o seu uso no masculino, o que alguns dicionários mais recentes já contemplam.
No âmbito da anatomia, quando designa o rebordo do pavilhão auricular, hélice é sempre um nome masculino.

04 janeiro 2008

Pode-se falar brasileiro?


Experimentem procurar nos dicionários o significado do substantivo brasileiro. Provavelmente concluirão que se refere apenas àquele que é habitante ou natural do Brasil.

Contudo, hão-de concordar comigo: quase toda a gente já disse ou ouviu dizer a expressão "falar brasileiro" - a propósito da dobragem de um filme de animação (dantes eram todos em brasileiro, agora são falados no "nosso português"!), ou simplesmente do sotaque de alguém.
Pois, se o verbo falar se refere à expressão oral, à pronúncia, (aliás, até existe o substantivo falar, precisamente com essa acepção), é normal que as pessoas falem de acordo com as variantes geográficas com as quais se identificam: madeirense, brasileira, açoriana, alentejana, nortenha e por aí fora.
O problema é que esses gentílicos, com o significado de "relativo a, ou proveniente de", são adjectivos. Mas quando os usamos em frases como "o filme é falado em brasileiro", ou "ela fala açoriano quando está com a família" eles tornam-se nomes, assumindo o significado de sotaque, ou modo de falar característico do país ou região a que cada gentílico se refere. E, enquanto nomes, não têm essa acepção nos dicionários...
Porém, há uma honrosa excepção: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa regista assim um dos significados do substantivo brasileiro (que considera um lusitanismo, usado em registos informais): «a língua portuguesa tal como é us. no Brasil». E junta-lhe um exemplo.
Por mim, acho justo e rigoroso. Só tenho pena que o mesmo não aconteça relativamente a outros falares, ou formas de usar o português, como aqueles que enunciei atrás e muitos outros, que correspondem a variantes reconhecidas da nossa língua comum e também têm direito a uma acepção própria nos dicionários!








02 janeiro 2008

Camera ou câmara de filmar?

Se pensam que para designar a máquina de filmar, só têm à disposição a palavra inglesa camera, porque câmara refere o edifício onde os vereadores de um município se reúnem, desenganem-se!

Camera e câmara são dois termos que podem designar a mesma realidade - equipamento de filmar/fotografar. Camera é um estrangeirismo, importado do inglês, e câmara é a palavra portuguesa, que, como tantas outras, é polissémica. Quer isto dizer que, para além de aposento, arca, edifício municipal, etc., também significa "máquina de filmar ou fotografar".

Mas é correcto usar a palavra camera? A resposta é afirmativa.
Apesar de os linguistas mais conservadores preferirem o termo português, é legítimo usar o anglicismo, até porque é muito comum a utilização da palavra cameraman, em vez de “operador de câmara”.
Tudo depende da intenção do locutor, do contexto comunicativo, do destinatário da mensagem, enfim, há um conjunto de factores que influem na nossa escolha: camera ou câmara?

Em conclusão, ambos os termos são legítimos para designar o mesmo conceito. Apenas dois conselhos:
1. Não misturar a grafia das duas palavras, dando origem a uma outra que não existe: *câmera.
2. Se se optar pelo estrangeirismo, devemos assinalá-lo como tal, colocando-o entre aspas, ou em itálico, por exemplo.

nota: O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa já inclui a grafia "câmera" . Isto só vem comprovar aquilo que já todos sabemos: são os falantes quem manda na língua...