...«um bocado sorumbático»
A propósito desta frase do Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares...
«Fora a excelência da comida e do vinho, o almoço foi um bocado sorumbático.»
...fico a pensar se não será exagero considerarem que o autor escreve "como um Eça de Queirós". Não me parece nada bem ali aquele "bocado", que é, a meu ver, um plebeísmo, nem gosto do adjectivo sorumbático, que me lembra as "parteleiras" e os "tiosques". Eu explico.
Numa ocasião em que várias pessoas falavam com saudade do seu grande mestre Rómulo de Carvalho, ouvi dizer que ele era bastante rigoroso no uso da língua e que criticava imediatamente aqueles que ouvia cometerem erros de português. Soube então que, antes de um exame, ele perguntou a um aluno se havia estudado muito. O rapaz respondeu, receoso: «um bocado...» Então, Rómulo de Carvalho corrigiu: «bocado é o que se põe na boca. Mas vamos lá ver então o que tu sabes...»
O vocábulo sorumbático, por seu turno, é de origem obscura, mas pensa-se que está relacionado com o substantivo sombra e há dicionários que o apresentam como uma corruptela de sombrático.


