Quem, como nós, é participante activo na blogosfera, já se ouviu certamente dizer que vai “postar um post”. Depois, talvez se tenha sentido um pouco envergonhado, ridículo, ou mesmo ligeiramente traidor – conforme o amor que tenha à sua própria língua.
É inegável que vivemos numa era de importação desenfreada de palavras estrangeiras para o português, sobretudo vocábulos relacionados com as novas tecnologias (mas não só), e principalmente vindos da língua inglesa. É completamente impossível manter uma conversa sobre informática ou sobre o mundo virtual criado pela Internet sem dizer palavras que põem os avós a pensar que os netos já não falam a mesma língua do que eles, como software, e-mail, browser, save, blog, e por aí fora.
Os poucos que se esforçam por traduzir os conceitos, dizendo, por exemplo, “senha” em vez de password, “transferência” em vez de download, ou “caneta” em vez de pen, correm o risco de não serem entendidos, de ficarem de fora ou para trás. Porque a linguagem que se gerou é como um rio poderoso, que arrasta tudo e todos na sua frente.
No entanto, há termos ingleses que provêm do latim e que, apesar de parecerem, não são verdadeiros estrangeirismos. A palavra post, por exemplo, usada por quase toda a gente que tem ou lê blogues, é de origem latina. E desde, pelo menos, o século XIV que se usa o verbo postar em português (de posto, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado) – obviamente, não com o sentido de “publicar algo num blogue”, mas com um sentido muito próximo, apenas mais abrangente: “pôr, colocar”. Por isso, um poster (post + er), em inglês, designa um cartaz que é afixado, isto é, postado. Ou seja, o sufixo é deles, mas a raiz é nossa!
Portanto, se é ridículo pronunciar “paust” à inglesa, já não pode ser acusado de barbarismo aquele que disser postar, à portuguesa, em vez de “pôr on-line”. Da próxima vez que vos sair esse verbo supostamente moderno, não se retraiam. É do mais vernáculo que há!