30 janeiro 2008

Perseverante e não *preserverante


Ao contrário do que muita gente pensa, não é o verbo preservar que está na origem do adjectivo perseverante. Sim, escrevi bem: perseverante e não *“preserverante”!

Perseverante é aquele que persevera. E o verbo perseverar, em latim perseverare, significa “persistir, continuar, prosseguir”.

Perdoem a brevidade do artigo, mas é necessário que eu persevere nas tarefas domésticas que neste momento me chamam!


28 janeiro 2008

Às vezes demais é de mais!

Quem escreve bem sabe que a locução adverbial de mais é o oposto de de menos e, portanto, deve ser usada em frases em que exprime quantidade excessiva, como esta:

Comer de mais é prejudicial para a saúde.

Essas pessoas não confundem a locução de mais com outro advérbio, demais, que significa o mesmo que "além disso". Demais, até existe uma variante do mesmo advérbio, que é ademais, exactamente com o mesmo sentido. E há ainda a expressão demais a mais, cujo significado é semelhante a "ainda por cima".

No entanto, tem havido uma tendência crescente para escrever a locução de mais como uma só palavra, a tal ponto, que alguns dicionários, como o Priberam (da Texto Editores), já atestam que demais significa o mesmo que demasiado, assim como algumas gramáticas, como a Saber Falar, Saber Escrever (Dom Quixote), incluem demais nos advérbios de quantidade.
Mais uma vez, conclui-se que os falantes é que vão moldando a língua de acordo com a sua vontade.

O que eu gostaria de saber é onde vai ficar aquele demais que se usa muito, em registo familiar, como adjectivo: quando exclamamos que alguém é demais! Porque nesse caso, não nos estamos apenas a referir a uma quantidade excessiva (embora essa ideia esteja, obviamente, na base do seu uso. "Tu és demais" implica "mais do que eu posso suportar, conceber, etc."). Mas esse demais não é propriamente o oposto de de menos, (alguém exclama "ela é *demenos!"?), trata-se de uma palavra que falta definir "oficialmente", embora todos saibamos que o seu sentido, na maior parte dos contextos, está próximo de "incrível, espantoso, surpreendente".
E o que também é surpreendente é que esse novo adjectivo pode igualmente ser usado com um sentido depreciativo, tal é a sua riqueza expressiva. Imaginem uma mãe a ralhar com o filho por deixar sempre o quarto desarrumado. Pode dizer, com toda a naturalidade: "Olha para esta confusão, rapaz! Safa, tu és demais!"

25 janeiro 2008

Solarengo e soalheiro

Qual destas duas palavras escolheriam para completar a frase seguinte?

Hoje está um dia _______________!

Deixem-me adivinhar...
Escolheriam solarengo, talvez porque esta palavra exibe um certo encanto, uma certa nobreza!
Pois, de facto, ela tem um cariz nobre, porque significa precisamente «relativo a solar (casa nobre)», mas nada tem a ver com sol! (por ex.: essa casa tem um aspecto solarengo.)

Surpreendidos?!
Soalheiro seria, portanto, a opção correcta. Esta palavra, sim, está relacionada com sol!

Estamos em Janeiro e hoje está um dia soalheiro!

22 janeiro 2008

Nó... Ai!... Como é que se diz?!

Há palavras em relação às quais temos dúvidas, não de ortografia, mas de pronúncia. E isto acontece mesmo quando essas palavras andam “na boca de toda a gente”, como se costuma dizer. Quem não hesitou já entre dizer “Nóbel” e “Nobél”?

Muitas vezes, essa hesitação deriva do facto de ouvirmos dizer a palavra de duas ou mais maneiras diferentes, nos meios de comunicação social... aliás: “média” ou “mídia”?

Em certos casos, como no primeiro, há tanta gente a optar por uma pronúncia como por outra, o que leva a que ambas acabem por ser legítimas, como no caso de Nobel, que tem duas pronúncias possíveis no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Quanto a média – na acepção de meios de comunicação –, que aparece à inglesa (media), sem acento, nalguns dicionários, a pronúncia em Portugal deve ser com o e aberto, e não com i, como acontece no Brasil (a palavra escreve-se mesmo com i, do lado de lá do Atlântico).

Ainda há o caso da ONU, que alguns jornalistas insistem em pronunciar como se tivesse acento agudo no o (“ónu”), mas que se deve dizer “onú”, pois trata-se de uma palavra aguda, como são todas as terminadas em u(s) que não levem acento noutra vogal.

E mais? Há outras palavras sobre as quais tenham dúvidas quanto à sua pronúncia?

18 janeiro 2008

Bem-vindo, Benvindo e bem... vindo!


Para quem ainda tem dúvidas (e por sugestão da Inês), aqui fica o esclarecimento: o adjectivo bem-vindo escreve-se com hífen, sendo uma palavra formada por justaposição. Assim, nas expressões “seja bem-vindo”, “sentiu-se bem-vinda” e “serão bem-vindos”, em que a palavra tem sempre o sentido de “bem acolhido/a/os”, é esse adjectivo, com hífen entre os dois termos que formam o composto, que está presente.
Benvindo é nome próprio, como Benvinda, na versão feminina. Portanto, é uma palavra composta por aglutinação, uma vez que não há hífen entre os termos bem e vindo.
Agora perguntam-me: e bem vindo, ou bem vinda, separado, sem hífen, não existe? Bem, vinda de vocês, essa pergunta merece toda a atenção!... Na frase atrás, vemos que as palavras aparecem seguidas, mas há uma vírgula entre elas. Em princípio, deverá haver sempre esse elemento entre as palavras independentes bem e vindo/a/s, pois as situações em que elas aparecem próximas aconselharão o uso da pontuação:

Bem, vindo dele, isso até é de estranhar... – Aqui, temos o advérbio bem em início de frase, solicitando a separação do resto por meio de vírgula.

Ela aparentava estar bem, vindo ao meu encontro a passos largos. – Aqui, temos o advérbio bem no final da primeira oração, que é separada da segunda por meio de vírgula, uma vez que esta é uma oração reduzida gerundiva.

Bem, vindo aí o fim-de-semana, o melhor é não me alongar mais!

16 janeiro 2008

Ao encontro de / de encontro a

Toda a gente sabe o que significa cada uma destas expressões isoladamente, fora de qualquer contexto. Até se sabe que são o oposto uma da outra.
Mas no momento de escolher, a eleita é quase sempre a segunda – de encontro a.
Digam-me, por favor, se o exemplo que se segue vos é, ou não, familiar:

(1) ?? “Este curso vem mesmo de encontro às minhas expectativas!”

Ora, a expressão de encontro a significa “contra”. As pessoas usam-na, dizendo precisamente o contrário daquilo que pretendem. O termo correcto é ao encontro de, que significa “na direcção de, de acordo com”.
Por conseguinte, diga-se:

(2) Este curso vem mesmo ao encontro das minhas expectativas!
(3) O jogador foi de encontro à baliza.

E a vossa opinião vem ao encontro da minha?!

14 janeiro 2008

Prole e prol


Há duas curtas palavras
Que muita gente baralha:
Em vez de usarem a certa
Escrevem aquela que calha!

É claro que são parecidas...
Porém, o seu significado
É tão distinto, que trocá-las
É engano bem enganado.

São ambas pequeninas
Mas é grande o seu valor:

Prole é a descendência,
Em prol significa «em favor».

Assim, a gorda galinha,
anda com a
prole atrás
E come milho todo o dia
Em
prol do apetite voraz!

O proletário é pobre
Só com os filhos pode contar,
Sempre que o governo não age
Em
prol do seu bem-estar.

Zelar por um futuro são
É hoje em dia urgente:
Para bem da nossa
prole,
Agir em
prol do ambiente.

Se ainda vos resta a dúvida
Para a próxima pensem assim:
Leva um filhinho (a
prole)
A que tem o
e no fim!

11 janeiro 2008

Uma questão de género


Desde aquele engraçado sketch dos Gato Fedorento que muita gente passou a saber que grama era um substantivo masculino.
No entanto, ainda há outros substantivos que deixam muitos de nós com dúvidas quanto ao respectivo género. Alguns deles, em virtude da insistência dos falantes em aplicar-lhe o género errado, até fizeram mudar os dicionários: é o caso de babete, avestruz e bebé. O primeiro, que era feminino, passou a masculino; o segundo era masculino, mas passou a feminino, e o terceiro era masculino e passou a ter dois géneros!

Quanto a poeta e a personagem, verificamos que o primeiro era exclusivamente masculino e hoje em dia também se pode aplicar às mulheres (estando, ao que parece, a flexão no feminino poetisa em vias de extinção); e que o segundo tanto pode ser feminino (pois tem o mesmo étimo que pessoa), como masculino.
Não admira que, com tantas mudanças, haja muita hesitação! Felizmente, as dúvidas são puramente linguísticas...

09 janeiro 2008

Cinco curiosidades

1. ETC. – abreviatura do latim et caetera e significa “e outros”;

2. PUB – abreviatura do inglês public house, ex.: “Depois do cinema, foram a um pub”;

3. – abreviatura de fanático;

4. MOTEL – amálgama de motor + hotel (porque se encontra à beira da estrada);

5. INFORMÁTICA – amálgama de informação + automática.

07 janeiro 2008

A hélice ou o hélice?


Hélice
tem várias acepções distintas, que acarretam a alteração do género.
No âmbito da geometria, enquanto espiral ou curva, o termo é feminino.
No âmbito da náutica e da aeronáutica, enquanto órgão propulsor, hélice é nome feminino, embora seja cada vez mais frequente, na aeronáutica, o seu uso no masculino, o que alguns dicionários mais recentes já contemplam.
No âmbito da anatomia, quando designa o rebordo do pavilhão auricular, hélice é sempre um nome masculino.

04 janeiro 2008

Pode-se falar brasileiro?


Experimentem procurar nos dicionários o significado do substantivo brasileiro. Provavelmente concluirão que se refere apenas àquele que é habitante ou natural do Brasil.

Contudo, hão-de concordar comigo: quase toda a gente já disse ou ouviu dizer a expressão "falar brasileiro" - a propósito da dobragem de um filme de animação (dantes eram todos em brasileiro, agora são falados no "nosso português"!), ou simplesmente do sotaque de alguém.
Pois, se o verbo falar se refere à expressão oral, à pronúncia, (aliás, até existe o substantivo falar, precisamente com essa acepção), é normal que as pessoas falem de acordo com as variantes geográficas com as quais se identificam: madeirense, brasileira, açoriana, alentejana, nortenha e por aí fora.
O problema é que esses gentílicos, com o significado de "relativo a, ou proveniente de", são adjectivos. Mas quando os usamos em frases como "o filme é falado em brasileiro", ou "ela fala açoriano quando está com a família" eles tornam-se nomes, assumindo o significado de sotaque, ou modo de falar característico do país ou região a que cada gentílico se refere. E, enquanto nomes, não têm essa acepção nos dicionários...
Porém, há uma honrosa excepção: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa regista assim um dos significados do substantivo brasileiro (que considera um lusitanismo, usado em registos informais): «a língua portuguesa tal como é us. no Brasil». E junta-lhe um exemplo.
Por mim, acho justo e rigoroso. Só tenho pena que o mesmo não aconteça relativamente a outros falares, ou formas de usar o português, como aqueles que enunciei atrás e muitos outros, que correspondem a variantes reconhecidas da nossa língua comum e também têm direito a uma acepção própria nos dicionários!








02 janeiro 2008

Camera ou câmara de filmar?

Se pensam que para designar a máquina de filmar, só têm à disposição a palavra inglesa camera, porque câmara refere o edifício onde os vereadores de um município se reúnem, desenganem-se!

Camera e câmara são dois termos que podem designar a mesma realidade - equipamento de filmar/fotografar. Camera é um estrangeirismo, importado do inglês, e câmara é a palavra portuguesa, que, como tantas outras, é polissémica. Quer isto dizer que, para além de aposento, arca, edifício municipal, etc., também significa "máquina de filmar ou fotografar".

Mas é correcto usar a palavra camera? A resposta é afirmativa.
Apesar de os linguistas mais conservadores preferirem o termo português, é legítimo usar o anglicismo, até porque é muito comum a utilização da palavra cameraman, em vez de “operador de câmara”.
Tudo depende da intenção do locutor, do contexto comunicativo, do destinatário da mensagem, enfim, há um conjunto de factores que influem na nossa escolha: camera ou câmara?

Em conclusão, ambos os termos são legítimos para designar o mesmo conceito. Apenas dois conselhos:
1. Não misturar a grafia das duas palavras, dando origem a uma outra que não existe: *câmera.
2. Se se optar pelo estrangeirismo, devemos assinalá-lo como tal, colocando-o entre aspas, ou em itálico, por exemplo.

nota: O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa já inclui a grafia "câmera" . Isto só vem comprovar aquilo que já todos sabemos: são os falantes quem manda na língua...

21 dezembro 2007



BOAS FESTAS!



DESEJAMOS A TODOS OS NOSSOS LEITORES UM ÓPTIMO NATAL E UM ANO NOVO PLENO DE SAÚDE, PAZ E ALEGRIA!



19 dezembro 2007

ENIGMA



Ora, aqui está uma mensagem misteriosa, que li num muro de tijolo...

Se não estou enganada, é um bom conselho, ainda que mal redigido (porventura escrito à pressa...).

O que acham?

17 dezembro 2007

Tradução de sons?

Há uma aparente incongruência nas onomatopeias: se são palavras que procuram reproduzir os sons que representam, como se justifica que sejam tão diferentes de língua para língua? Será que um inglês ouve o ladrar do cão de maneira diferente de um português?

Tudo indica que sim. É certo que o mugido das vacas soa mais ou menos ao mesmo em todo o lado. A divergência na sua representação escrita é mínima: de mu (italiano) para meu (francês), passando por muhh (alemão), não há nada que nos espante.

Mas como se explica que as rãs façam croac em Portugal e brekeke na Hungria, que o oinc-oinc dos porcos seja gmy na Catalunha, que o cacarejar das galinhas seja cró-cró para os portugueses e kut-kudaj para os russos? Sabem como relincha um cavalo inglês? Neeeigh! Francamente!

Torna-se óbvio que, ou os animais de países diferentes não conseguem comunicar quando se vêem, ou as línguas que falamos condicionam a nossa capacidade de ouvir.

Nota: a Wikipédia tem uma lista de onomatopeias em diversas línguas, de onde retirei alguns exemplos.

14 dezembro 2007

Há cerca de / acerca de

Estas expressões são claramente homófonas, ou seja, têm o mesmo som, mas grafia diferente.
Comecemos pela que origina mais erros ortográficos: acerca de. É muito frequente vermos um acento grave na primeira vogal desta palavra: * àcerca de. Apesar de se pronunciar /á/, não se escreve com qualquer acento.
Esta palavra significa “sobre, a respeito de”, por exemplo:

(1) Preciso de falar contigo acerca de um assunto.

A expressão há cerca de pode exibir dois significados: um relativo a tempo e outro relativo a espaço.
Quando significa tempo, pode ser parafraseada por “faz aproximadamente”:

(2) Não os vejo há cerca de dois anos. (faz aproximadamente dois anos)

Quando significa espaço, pode ser parafraseada por “existem aproximadamente”:

(3) Nesta gaveta, há cerca de trinta revistas antigas. (existem aproximadamente trinta revistas).

12 dezembro 2007

"Como deve de ser" ou "como deve ser"?


Há muita gente a dizer "deve de ser" e "deve de fazer", mas a verdade é que não estão a falar como deve ser...
A razão é simples: o verbo dever não rege a preposição de. Assim como são incorrectas as frases *«Ele deve de vir mais tarde» e «Devem de ser duas horas» (em que o verbo dever exprime probabilidade e, talvez por isso, não dê tanto azo a confusões), também é errada a expressão *“como deve de ser”.
 Talvez a tendência para esta regência do verbo dever aconteça por influência do castelhano, pois nessa língua tal construção existe e é correcta. Por outro lado, pode haver uma analogia com construções em português que veiculam o mesmo tipo de conteúdo: *“deve de ser” e *“deve de fazer” têm um sentido de obrigatoriedade semelhante a “tem de ser” e “tem de fazer” e, com o verbo ter, o uso da preposição de é legítimo.
 Por enquanto, porém, a expressão “deve de ser” não se recomenda, no uso da língua portuguesa. No entanto, talvez venha a vingar, nunca se sabe... até porque é empregada por escritores como José Saramago, porventura para dar mais vivacidade ao discurso de pendor oralizante.
 

10 dezembro 2007

«Em rigor» ou «a rigor»?


Eis duas expressões muito parecidas, mas que, pelo menos em português europeu, têm sentidos diversos:

A locução em rigor pode ser interpretada literalmente, pois costuma preceder explicações ou exposições de ideias que se pretendem exactas. Pode ser, portanto, substituída pelo advérbio rigorosamente: por exemplo, na frase: «Em rigor, deveríamos dizer “o afluxo de pessoas”, em vez de “o fluxo de pessoas.”»

A expressão a rigor não deve ser usada como sinónimo da anterior, pois o seu significado já tem um cariz mais idiomático. Usa-se, sobretudo, a propósito de indumentária e significa de acordo com as exigências da ocasião. Assim, se vamos vestidos a rigor para uma festa, tanto podemos ir mascarados de vampiros (se for um baile de máscaras), de fato escuro e gravata ou vestido comprido e saltos altos (se for um jantar de gala), como, até, de pijama!


07 dezembro 2007

Desafio sintáctico

Apenas uma das seguintes frases está correcta. Qual é?
E, já agora, atrevem-se a corrigir as que apresentam incorrecções sintácticas?

1. A Inês perguntou ao namorado onde é que ele foi depois de a deixar em casa.

2. Apesar do jornalista ter exibido o seu cartão, o polícia não o deixou entrar.

3. A falta de pontualidade foi talvez um dos motivos que mais contribuiu para o seu despedimento.

4. Um dos requisitos desse emprego é conseguir trabalhar sobre pressão.

5. As entrevistas dos jornalistas deverão ser o mais breves possível.

05 dezembro 2007

TER MATADO, TER ACEITADO

Todos os dias, na comunicação social, ouço os jornalistas dizerem "ter morto" ou "ter aceite".

Alguém explica a estes senhores que com o auxiliar TER se usam as formas participiais regulares (terminadas em -ado e -ido) dos verbos que têm duplo particípio passado?

Quando é que eles passarão a dizer TER MATADO e TER ACEITADO? Quando a hipercorrecção tiver vingado e o que está hoje errado se tornar correcto?!

03 dezembro 2007

desafio


Quantas correcções fariam a este aviso?

30 novembro 2007

Você quem é?!

Na publicidade e nos programas de rádio, todos nós somos “você”. Você sabe, você escolhe, você para cá, você para lá.

Porém, apesar de se ter generalizado, essa forma de tratamento gera reacções, no mínimo, controversas. Por uns é considerada uma forma respeitosa, já que é proveniente de vossa mercê, depois contraída na versão vocemessê e, posteriormente, abreviada para você. Por outros é mal aceite, sendo encarada como uma falta de respeito para com a pessoa desconhecida que se pretende interpelar. Para esses, você implica demasiada confiança e deveria ser substituído por “o senhor” ou “a senhora”.

Seja como for, a verdade é que esta forma de tratamento gera algumas dificuldades aos falantes de língua portuguesa. Para começar, nem sequer é uma das seis pessoas que podem ditar a flexão dos verbos (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles).

A sua utilização obriga a uma combinação estranha entre tu, vós - porque vocês, tal como tu e vós, corresponde à pessoa a quem se fala - e ele/ela(s) - porque a flexão dos verbos, quando a pessoa é você(s), se faz de acordo com a terceira pessoa. Assim, dizemos “você está óptimo” e “vocês sabem muito”, e não *“você estás óptimo”, nem *“vocês sabeis muito”. Aliás, talvez tenha sido precisamente por causa da formalidade (e da dificuldade) das flexões da pessoa vós (estais, estiverdes, estivestes...) que se generalizou o uso, bem mais simples, de você (está, estiver, esteve), quando não queremos ou podemos tratar o nosso interlocutor por tu.

No entanto, você (pronome tónico) também não é assim tão fácil, sobretudo no que toca à pronominalização dos verbos – isto é, quando implica escolher o respectivo pronome átono. Por exemplo, muita gente hesita entre dizer “vou contar-vos uma história, se vocês se calarem” ou “vou contar-lhes uma história”.

Já agora... o que é que VOCÊS diriam?! (Perdoem-me a confiança!...)

28 novembro 2007

A vírgula e a sintaxe – amigas inseparáveis

Sabiam que as vírgulas podem alterar a sintaxe de uma frase?

Observem os exemplos seguintes, que diferem apenas na presença/ausência de vírgulas:

(1) O irmão da Ana que mora em Paris não vem ao casamento.
(2) O irmão da Ana, que mora em Paris, não vem ao casamento.

Pois bem, a presença ou ausência de vírgulas dá origem a orações diferentes.
No exemplo (1), a oração “que mora em Paris” é uma relativa restritiva, que restringe o âmbito do nome “irmão”, ou seja, indica-nos que só o irmão que mora em Paris é que não vem ao casamento (e dá-nos a ideia de que a Ana tem mais irmãos para além desse).
Se omitíssemos a oração relativa “que mora em Paris”, o sentido da frase seria alterado:
“O irmão da Ana não vem ao casamento” (esta frase tem um significado diferente de “o irmão da Ana que mora em Paris não vem ao casamento").

Na frase (2), “que mora em Paris” é uma oração relativa explicativa, a qual nos dá apenas uma informação adicional, acessória, pelo que a sua omissão não altera o sentido global da frase: o irmão da Ana não vem ao casamento (ela só tem um irmão).

E termino com um desafio: por que razão os exemplos (3) e (4), SEM VÍRGULAS, são agramaticais (i.e. incorrectos do ponto de vista sintáctico-semântico)?

(3) * Os linces que são mamíferos estão em vias de extinção.
(4) * Steven Spielberg que realizou o “Parque Jurássico” ganhou celebridade mundial.

26 novembro 2007

Recandidatar e conflituar

Ouvimos falar, quase todos os dias, de pessoas que se recandidatam a cargos e de coisas, entidades ou até pessoas que conflituam ou são conflituantes – isto é, que provocam ou envolvem conflitos. Contudo, os verbos conflituar e recandidatar não constam dos dicionários mais à mão (ou melhor, mais ao dedo!), como o Priberam (Texto Editora) e a Infopédia (Porto Editora).

Porque será? Por lapso? Por se estar a aguardar mais um tempo, para se ter a certeza de que estes verbos vieram para ficar?

Em todo o caso, recandidatar e conflituar constam da Mordebe, valha-nos isso! Para não ficarmos a pensar que não existem, afinal de contas...

23 novembro 2007

MOS com e sem hífen


Eu agradeço, tu agradeces, ele agradece, nós agradecemos, vós agradeceis, eles agradecem.
Quem é que não sabe que isto é o Presente do Indicativo do verbo agradecer?
Então por que razão há tanta gente a colocar o hífen (indevidamente) entre o radical e a terminação do verbo, na primeira pessoa do plural?

Trata-se de uma confusão entre essa forma verbal (agradecemos) e uma outra, que corresponde a outra pessoa (a terceira do singular ou a segunda do singular, se o verbo estiver no modo Imperativo) e traz uma contracção pronominal após o hífen: me + os (= mos).
Assim, vejamos estas frases:

Enfermeira - Levo-lhe jornais e revistas ao quarto e ele agradece-mos sempre.
A pessoa em causa (ele) agradece os jornais e revistas à enfermeira que fala, daí a contracção me (a mim) + os (jornais e revistas)

Doente - Nós agradecemos sempre às enfermeiras pelas suas atenções.
O doente fala por si e pelos outros doentes, usando a primeira pessoa do plural, que termina em "mos", sem hífen)

Doente - A enfermeira trouxe-me os jornais quando eu não estava no quarto. Se a vires, agradece-mos, por favor.
Neste exemplo (um pouco menos provável), o doente que fala pede a outro que faça algo por ele, por isso também usa "me" (como quem diz "por mim"), agregado ao pronome que representa o objecto directo (os , que substitui jornais). O verbo, aqui, está no modo Imperativo e refere-se à pessoa "tu".

Portanto, quando a pessoa que desempenha a acção expressa pelo verbo "somos" nós, não há hífen antes de mos. Quando se trata de outra pessoa e mos representa complementos do verbo, escreve-se com hífen.
E existe ainda outra forma de sabermos se a forma verbal em causa leva hífen ou não: quando não leva, a sílaba tónica fica mesmo junto à terminação: agradecemos; quando leva, a sílaba tónica "desloca-se" para trás: agradece-mos.

Foi muito confuso?!




21 novembro 2007

Post, postar, poster...

Quem, como nós, é participante activo na blogosfera, já se ouviu certamente dizer que vai “postar um post”. Depois, talvez se tenha sentido um pouco envergonhado, ridículo, ou mesmo ligeiramente traidor – conforme o amor que tenha à sua própria língua.

É inegável que vivemos numa era de importação desenfreada de palavras estrangeiras para o português, sobretudo vocábulos relacionados com as novas tecnologias (mas não só), e principalmente vindos da língua inglesa. É completamente impossível manter uma conversa sobre informática ou sobre o mundo virtual criado pela Internet sem dizer palavras que põem os avós a pensar que os netos já não falam a mesma língua do que eles, como software, e-mail, browser, save, blog, e por aí fora.

Os poucos que se esforçam por traduzir os conceitos, dizendo, por exemplo, “senha” em vez de password, “transferência” em vez de download, ou “caneta” em vez de pen, correm o risco de não serem entendidos, de ficarem de fora ou para trás. Porque a linguagem que se gerou é como um rio poderoso, que arrasta tudo e todos na sua frente.

No entanto, há termos ingleses que provêm do latim e que, apesar de parecerem, não são verdadeiros estrangeirismos. A palavra post, por exemplo, usada por quase toda a gente que tem ou lê blogues, é de origem latina. E desde, pelo menos, o século XIV que se usa o verbo postar em português (de posto, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado) – obviamente, não com o sentido de “publicar algo num blogue”, mas com um sentido muito próximo, apenas mais abrangente: “pôr, colocar”. Por isso, um poster (post + er), em inglês, designa um cartaz que é afixado, isto é, postado. Ou seja, o sufixo é deles, mas a raiz é nossa!

Portanto, se é ridículo pronunciar “paust” à inglesa, já não pode ser acusado de barbarismo aquele que disser postar, à portuguesa, em vez de “pôr on-line”. Da próxima vez que vos sair esse verbo supostamente moderno, não se retraiam. É do mais vernáculo que há!

19 novembro 2007

Quilos e não “kilos”



Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, -quilo- é um “elemento de composição de nomes e medidas criadas pelo estabelecimento do sistema métrico; traduz a ideia de «mil»” e vem do grego chílios.

Não se percebe, por isso, que ainda haja quem cometa o erro de escrever “kilos” em português – confundindo a palavra com o símbolo kg, ou copiando servilmente o inglês.


16 novembro 2007

Acentos a menos

Agora é a vez dos “pecados por defeito”: erros ortográficos por falta de acentos.
E não me venham dizer que os acentos não servem para nada, porque servem e servem muito. Reparem como nos seguintes exemplos a presença ou ausência de acento dá origem a uma palavra diferente:

- estudámos (Pretérito Perfeito do Indicativo) / estudamos (Presente do Indicativo)
- pôr (verbo) / por (preposição)
- pára (verbo parar) / para (preposição)
- influência (nome) / influencia (verbo)
- contínua (adjectivo) / continua (verbo)

Gostaria ainda de salientar algumas palavras graves terminadas em ão, que são frequentemente escritas sem acento: *benção, *orfão, *orgão e *sotão.
Eu até sei porque é que isso acontece. Generalizou-se a ideia de que o til é um acento gráfico e, por esse motivo, hesita-se em colocar um acento na primeira sílaba destas palavras, porque “ficariam com dois acentos e isso não é possível em Português”.
Ora, convém esclarecer que o til não é um acento gráfico, mas sim uma marca de nasalidade, indicando vogais nasais (ex. irmã) ou ditongos nasais (ex. irmão). Normalmente, este ditongo coincide com a sílaba tónica (leão, coração, etc.), mas há casos em que pode não coincidir. Em bênção, órfão, órgão e tão, o acento tónico encontra-se na primeira sílaba.
Experimentem pronunciar pausadamente estas palavras, sem acento, e vão verificar que a tónica recairá na sílaba em que ão se inclui. Vão com certeza achar graça a essa prosódia!

Estas palavrinhas são muito vaidosas, por isso, não se contentam com um adereço apenas, e exigem sempre mais um! Digam lá se não ficam bem mais elegantes com dois!

bênção, órfão, órgão e sótão

14 novembro 2007

Acentos a mais

Alguns erros ortográficos decorrem da falta de acentos, mas muitos resultam também do seu excesso. Considerem-se as seguintes palavras que costumam“pecar” por excesso:

*alcoolémia, *rúbrica, *outrém, *inclusivé, *à priori, *sózinho e *diáriamente.

Alguns destes erros têm origem em vícios de pronúncia, é o caso de *alcoolémia e *rúbrica. (ver E se recusasse fazer o teste da “alcoolémia? e ainda a “rúbrica).

Outros são cometidos por analogia com palavras semelhantes, por exemplo, *outrém (por analogia com ninguém e alguém). Uma das regras de acentuação diz que são acentuadas apenas as palavras agudas (não monossilábicas) terminadas em -em. Ora, outrem é uma palavra grave.

Verifica-se, ainda, uma tendência para colocar um acento gráfico em determinadas vogais abertas: *à priori e *inclusivé. Estas palavras são expressões latinas e, por isso, a sua grafia original deve ser respeitada (em latim não havia acentuação gráfica). Para além disso, se pronunciarmos a palavra inclusive pausadamente, verificamos que o acento tónico recai na sílaba si, logo, não faz sentido colocar um sinal gráfico na vogal /e/.

Por fim, palavras terminadas em -mente e em -zinho têm também por hábito receber um acento! Por exemplo: *sózinho e *diáriamente. Ao associar qualquer sufixo a uma palavra base, o acento tónico avança “uma casa”, passando a recair na primeira sílaba do sufixo. Por isso, essas palavras não devem ter qualquer acento gráfico, já que este daria uma falsa indicação do acento tónico.

Digam lá, então, se as ditas palavrinhas não ficam mais bonitas sem qualquer adereço!

alcoolemia, rubrica, outrem, inclusive, a priori, sozinho e diariamente.

12 novembro 2007

“Encontrar-se-á” ou “encontrar-se-à”?

Muitos têm a tentação de colocar um acento grave nesse a que fica “pendurado” no final das flexões de verbos no Futuro do Indicativo, quando existe mesóclise.

“Mesóclise?! Que palavra estranha! O que é isso?”, estarão alguns leitores a perguntar. Simples: vem de -meso-, elemento de composição de origem grega que significa meio, e usa-se para designar as formas verbais em que o pronome não aparece antes, nem depois, mas sim no meio do verbo. Já agora, porque os palavrões são só três, sistematizemos:

Próclise: pronome antes do verbo. Ex.: “Quem te disse isso?”

Mesóclise: pronome no meio do verbo. Ex.: “Entregar-te-ei em breve”

Ênclise: pronome depois do verbo. Ex.: “Deram-nos mais tempo.”


Ora, na realidade, a mesóclise só o é hoje em dia. Porque aquele á, ou aquele ei, que aparece depois do pronome, no Futuro do Indicativo, e que dizemos ser a terminação do verbo, é o que resta da flexão do verbo haver, que se usava (e ainda usa!) como auxiliar, para exprimir a ideia de futuro. Reparem:


Encontrar-se-á é, na verdade, encontrar-se-(h)á – ou seja: há-de se encontrar

Entregar-te-ei é, na verdade, encontrar-te-(h)ei – ou seja: hei-de te entregar


Assim, não há dúvida: o acento do -á é agudo, exactamente como o acento de . Só lhe falta o h!