Uma questão de género
Ingredientes: muitos erros, bastantes dúvidas e uma mão-cheia de reflexões. Juntam-se esclarecimentos, correcções e sugestões em quantidade generosa. Tudo polvilhado com bom humor. Porque queremos partilhar a nossa maneira de saborear a língua!
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S. Leite
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14:35
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Palavras-chave: flexão , masculino ou feminino?
1. ETC. – abreviatura do latim et caetera e significa “e outros”;
2. PUB – abreviatura do inglês public house, ex.: “Depois do cinema, foram a um pub”;
3. FÃ – abreviatura de fanático;
4. MOTEL – amálgama de motor + hotel (porque se encontra à beira da estrada);
5. INFORMÁTICA – amálgama de informação + automática.
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S. Duarte
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15:59
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Palavras-chave: palavras
Hélice tem várias acepções distintas, que acarretam a alteração do género.
No âmbito da geometria, enquanto espiral ou curva, o termo é feminino.
No âmbito da náutica e da aeronáutica, enquanto órgão propulsor, hélice é nome feminino, embora seja cada vez mais frequente, na aeronáutica, o seu uso no masculino, o que alguns dicionários mais recentes já contemplam.
No âmbito da anatomia, quando designa o rebordo do pavilhão auricular, hélice é sempre um nome masculino.
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S. Leite
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18:46
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Palavras-chave: masculino ou feminino? , palavras
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S. Leite
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16:04
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Palavras-chave: dicionários , divagações , variantes
Se pensam que para designar a máquina de filmar, só têm à disposição a palavra inglesa camera, porque câmara refere o edifício onde os vereadores de um município se reúnem, desenganem-se!
Camera e câmara são dois termos que podem designar a mesma realidade - equipamento de filmar/fotografar. Camera é um estrangeirismo, importado do inglês, e câmara é a palavra portuguesa, que, como tantas outras, é polissémica. Quer isto dizer que, para além de aposento, arca, edifício municipal, etc., também significa "máquina de filmar ou fotografar".
Mas é correcto usar a palavra camera? A resposta é afirmativa.
Apesar de os linguistas mais conservadores preferirem o termo português, é legítimo usar o anglicismo, até porque é muito comum a utilização da palavra cameraman, em vez de “operador de câmara”.
Tudo depende da intenção do locutor, do contexto comunicativo, do destinatário da mensagem, enfim, há um conjunto de factores que influem na nossa escolha: camera ou câmara?
Em conclusão, ambos os termos são legítimos para designar o mesmo conceito. Apenas dois conselhos:
1. Não misturar a grafia das duas palavras, dando origem a uma outra que não existe: *câmera.
2. Se se optar pelo estrangeirismo, devemos assinalá-lo como tal, colocando-o entre aspas, ou em itálico, por exemplo.
nota: O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa já inclui a grafia "câmera" . Isto só vem comprovar aquilo que já todos sabemos: são os falantes quem manda na língua...
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S. Duarte
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15:49
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Palavras-chave: estrangeirismos , palavras
Ora, aqui está uma mensagem misteriosa, que li num muro de tijolo...
Se não estou enganada, é um bom conselho, ainda que mal redigido (porventura escrito à pressa...).
O que acham?
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S. Leite
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15:41
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Palavras-chave: desafio , ortografia , parónimos
Há uma aparente incongruência nas onomatopeias: se são palavras que procuram reproduzir os sons que representam, como se justifica que sejam tão diferentes de língua para língua? Será que um inglês ouve o ladrar do cão de maneira diferente de um português?
Tudo indica que sim. É certo que o mugido das vacas soa mais ou menos ao mesmo em todo o lado. A divergência na sua representação escrita é mínima: de mu (italiano) para meu (francês), passando por muhh (alemão), não há nada que nos espante.
Mas como se explica que as rãs façam croac em Portugal e brekeke na Hungria, que o oinc-oinc dos porcos seja gmy na Catalunha, que o cacarejar das galinhas seja cró-cró para os portugueses e kut-kudaj para os russos? Sabem como relincha um cavalo inglês? Neeeigh! Francamente!
Torna-se óbvio que, ou os animais de países diferentes não conseguem comunicar quando se vêem, ou as línguas que falamos condicionam a nossa capacidade de ouvir.
Nota: a Wikipédia tem uma lista de onomatopeias em diversas línguas, de onde retirei alguns exemplos.
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S. Leite
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15:55
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Palavras-chave: divagações , sons
Estas expressões são claramente homófonas, ou seja, têm o mesmo som, mas grafia diferente.
Comecemos pela que origina mais erros ortográficos: acerca de. É muito frequente vermos um acento grave na primeira vogal desta palavra: * àcerca de. Apesar de se pronunciar /á/, não se escreve com qualquer acento.
Esta palavra significa “sobre, a respeito de”, por exemplo:
(1) Preciso de falar contigo acerca de um assunto.
A expressão há cerca de pode exibir dois significados: um relativo a tempo e outro relativo a espaço.
Quando significa tempo, pode ser parafraseada por “faz aproximadamente”:
(2) Não os vejo há cerca de dois anos. (faz aproximadamente dois anos)
Quando significa espaço, pode ser parafraseada por “existem aproximadamente”:
(3) Nesta gaveta, há cerca de trinta revistas antigas. (existem aproximadamente trinta revistas).
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S. Duarte
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19:44
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Palavras-chave: parónimos
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S. Leite
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22:48
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Palavras-chave: expressões , sintaxe
Eis duas expressões muito parecidas, mas que, pelo menos em português europeu, têm sentidos diversos:
A locução em rigor pode ser interpretada literalmente, pois costuma preceder explicações ou exposições de ideias que se pretendem exactas. Pode ser, portanto, substituída pelo advérbio rigorosamente: por exemplo, na frase: «Em rigor, deveríamos dizer “o afluxo de pessoas”, em vez de “o fluxo de pessoas.”»
A expressão a rigor não deve ser usada como sinónimo da anterior, pois o seu significado já tem um cariz mais idiomático. Usa-se, sobretudo, a propósito de indumentária e significa de acordo com as exigências da ocasião. Assim, se vamos vestidos a rigor para uma festa, tanto podemos ir mascarados de vampiros (se for um baile de máscaras), de fato escuro e gravata ou vestido comprido e saltos altos (se for um jantar de gala), como, até, de pijama!
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S. Leite
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13:12
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Palavras-chave: expressões , parónimos
Apenas uma das seguintes frases está correcta. Qual é?
E, já agora, atrevem-se a corrigir as que apresentam incorrecções sintácticas?
1. A Inês perguntou ao namorado onde é que ele foi depois de a deixar em casa.
2. Apesar do jornalista ter exibido o seu cartão, o polícia não o deixou entrar.
3. A falta de pontualidade foi talvez um dos motivos que mais contribuiu para o seu despedimento.
4. Um dos requisitos desse emprego é conseguir trabalhar sobre pressão.
5. As entrevistas dos jornalistas deverão ser o mais breves possível.
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S. Duarte
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17:47
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Todos os dias, na comunicação social, ouço os jornalistas dizerem "ter morto" ou "ter aceite".
Alguém explica a estes senhores que com o auxiliar TER se usam as formas participiais regulares (terminadas em -ado e -ido) dos verbos que têm duplo particípio passado?
Quando é que eles passarão a dizer TER MATADO e TER ACEITADO? Quando a hipercorrecção tiver vingado e o que está hoje errado se tornar correcto?!
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S. Leite
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23:59
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Palavras-chave: particípios , sintaxe , verbos
Na publicidade e nos programas de rádio, todos nós somos “você”. Você sabe, você escolhe, você para cá, você para lá.
Porém, apesar de se ter generalizado, essa forma de tratamento gera reacções, no mínimo, controversas. Por uns é considerada uma forma respeitosa, já que é proveniente de vossa mercê, depois contraída na versão vocemessê e, posteriormente, abreviada para você. Por outros é mal aceite, sendo encarada como uma falta de respeito para com a pessoa desconhecida que se pretende interpelar. Para esses, você implica demasiada confiança e deveria ser substituído por “o senhor” ou “a senhora”.
Seja como for, a verdade é que esta forma de tratamento gera algumas dificuldades aos falantes de língua portuguesa. Para começar, nem sequer é uma das seis pessoas que podem ditar a flexão dos verbos (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles).
A sua utilização obriga a uma combinação estranha entre tu, vós - porque vocês, tal como tu e vós, corresponde à pessoa a quem se fala - e ele/ela(s) - porque a flexão dos verbos, quando a pessoa é você(s), se faz de acordo com a terceira pessoa. Assim, dizemos “você está óptimo” e “vocês sabem muito”, e não *“você estás óptimo”, nem *“vocês sabeis muito”. Aliás, talvez tenha sido precisamente por causa da formalidade (e da dificuldade) das flexões da pessoa vós (estais, estiverdes, estivestes...) que se generalizou o uso, bem mais simples, de você (está, estiver, esteve), quando não queremos ou podemos tratar o nosso interlocutor por tu.
No entanto, você (pronome tónico) também não é assim tão fácil, sobretudo no que toca à pronominalização dos verbos – isto é, quando implica escolher o respectivo pronome átono. Por exemplo, muita gente hesita entre dizer “vou contar-vos uma história, se vocês se calarem” ou “vou contar-lhes uma história”.
Já agora... o que é que VOCÊS diriam?! (Perdoem-me a confiança!...)
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S. Leite
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12:31
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Sabiam que as vírgulas podem alterar a sintaxe de uma frase?
Observem os exemplos seguintes, que diferem apenas na presença/ausência de vírgulas:
(1) O irmão da Ana que mora em Paris não vem ao casamento.
(2) O irmão da Ana, que mora em Paris, não vem ao casamento.
Pois bem, a presença ou ausência de vírgulas dá origem a orações diferentes.
No exemplo (1), a oração “que mora em Paris” é uma relativa restritiva, que restringe o âmbito do nome “irmão”, ou seja, indica-nos que só o irmão que mora em Paris é que não vem ao casamento (e dá-nos a ideia de que a Ana tem mais irmãos para além desse).
Se omitíssemos a oração relativa “que mora em Paris”, o sentido da frase seria alterado:
“O irmão da Ana não vem ao casamento” (esta frase tem um significado diferente de “o irmão da Ana que mora em Paris não vem ao casamento").
Na frase (2), “que mora em Paris” é uma oração relativa explicativa, a qual nos dá apenas uma informação adicional, acessória, pelo que a sua omissão não altera o sentido global da frase: o irmão da Ana não vem ao casamento (ela só tem um irmão).
E termino com um desafio: por que razão os exemplos (3) e (4), SEM VÍRGULAS, são agramaticais (i.e. incorrectos do ponto de vista sintáctico-semântico)?
(3) * Os linces que são mamíferos estão em vias de extinção.
(4) * Steven Spielberg que realizou o “Parque Jurássico” ganhou celebridade mundial.
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S. Duarte
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09:42
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Palavras-chave: construção frásica , pontuação , sintaxe
Ouvimos falar, quase todos os dias, de pessoas que se recandidatam a cargos e de coisas, entidades ou até pessoas que conflituam ou são conflituantes – isto é, que provocam ou envolvem conflitos. Contudo, os verbos conflituar e recandidatar não constam dos dicionários mais à mão (ou melhor, mais ao dedo!), como o Priberam (Texto Editora) e a Infopédia (Porto Editora).
Porque será? Por lapso? Por se estar a aguardar mais um tempo, para se ter a certeza de que estes verbos vieram para ficar?
Em todo o caso, recandidatar e conflituar constam da Mordebe, valha-nos isso! Para não ficarmos a pensar que não existem, afinal de contas...
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S. Leite
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17:24
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Palavras-chave: dicionários , palavras

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S. Leite
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12:30
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Quem, como nós, é participante activo na blogosfera, já se ouviu certamente dizer que vai “postar um post”. Depois, talvez se tenha sentido um pouco envergonhado, ridículo, ou mesmo ligeiramente traidor – conforme o amor que tenha à sua própria língua.
É inegável que vivemos numa era de importação desenfreada de palavras estrangeiras para o português, sobretudo vocábulos relacionados com as novas tecnologias (mas não só), e principalmente vindos da língua inglesa. É completamente impossível manter uma conversa sobre informática ou sobre o mundo virtual criado pela Internet sem dizer palavras que põem os avós a pensar que os netos já não falam a mesma língua do que eles, como software, e-mail, browser, save, blog, e por aí fora.
Os poucos que se esforçam por traduzir os conceitos, dizendo, por exemplo, “senha” em vez de password, “transferência” em vez de download, ou “caneta” em vez de pen, correm o risco de não serem entendidos, de ficarem de fora ou para trás. Porque a linguagem que se gerou é como um rio poderoso, que arrasta tudo e todos na sua frente.
No entanto, há termos ingleses que provêm do latim e que, apesar de parecerem, não são verdadeiros estrangeirismos. A palavra post, por exemplo, usada por quase toda a gente que tem ou lê blogues, é de origem latina. E desde, pelo menos, o século XIV que se usa o verbo postar em português (de posto, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado) – obviamente, não com o sentido de “publicar algo num blogue”, mas com um sentido muito próximo, apenas mais abrangente: “pôr, colocar”. Por isso, um poster (post + er), em inglês, designa um cartaz que é afixado, isto é, postado. Ou seja, o sufixo é deles, mas a raiz é nossa!
Portanto, se é ridículo pronunciar “paust” à inglesa, já não pode ser acusado de barbarismo aquele que disser postar, à portuguesa, em vez de “pôr on-line”. Da próxima vez que vos sair esse verbo supostamente moderno, não se retraiam. É do mais vernáculo que há!
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S. Leite
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21:26
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Palavras-chave: palavras
Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, -quilo- é um “elemento de composição de nomes e medidas criadas pelo estabelecimento do sistema métrico; traduz a ideia de «mil»” e vem do grego chílios.
Não se percebe, por isso, que ainda haja quem cometa o erro de escrever “kilos” em português – confundindo a palavra com o símbolo kg, ou copiando servilmente o inglês.
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S. Leite
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11:58
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Palavras-chave: ortografia
Agora é a vez dos “pecados por defeito”: erros ortográficos por falta de acentos.
E não me venham dizer que os acentos não servem para nada, porque servem e servem muito. Reparem como nos seguintes exemplos a presença ou ausência de acento dá origem a uma palavra diferente:
- estudámos (Pretérito Perfeito do Indicativo) / estudamos (Presente do Indicativo)
- pôr (verbo) / por (preposição)
- pára (verbo parar) / para (preposição)
- influência (nome) / influencia (verbo)
- contínua (adjectivo) / continua (verbo)
Gostaria ainda de salientar algumas palavras graves terminadas em ão, que são frequentemente escritas sem acento: *benção, *orfão, *orgão e *sotão.
Eu até sei porque é que isso acontece. Generalizou-se a ideia de que o til é um acento gráfico e, por esse motivo, hesita-se em colocar um acento na primeira sílaba destas palavras, porque “ficariam com dois acentos e isso não é possível em Português”.
Ora, convém esclarecer que o til não é um acento gráfico, mas sim uma marca de nasalidade, indicando vogais nasais (ex. irmã) ou ditongos nasais (ex. irmão). Normalmente, este ditongo coincide com a sílaba tónica (leão, coração, etc.), mas há casos em que pode não coincidir. Em bênção, órfão, órgão e sótão, o acento tónico encontra-se na primeira sílaba.
Experimentem pronunciar pausadamente estas palavras, sem acento, e vão verificar que a tónica recairá na sílaba em que ão se inclui. Vão com certeza achar graça a essa prosódia!
Estas palavrinhas são muito vaidosas, por isso, não se contentam com um adereço apenas, e exigem sempre mais um! Digam lá se não ficam bem mais elegantes com dois!
bênção, órfão, órgão e sótão
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S. Duarte
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09:39
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Palavras-chave: acentuação , ortografia
Alguns erros ortográficos decorrem da falta de acentos, mas muitos resultam também do seu excesso. Considerem-se as seguintes palavras que costumam“pecar” por excesso:
*alcoolémia, *rúbrica, *outrém, *inclusivé, *à priori, *sózinho e *diáriamente.
Alguns destes erros têm origem em vícios de pronúncia, é o caso de *alcoolémia e *rúbrica. (ver E se recusasse fazer o teste da “alcoolémia? e ainda a “rúbrica”).
Outros são cometidos por analogia com palavras semelhantes, por exemplo, *outrém (por analogia com ninguém e alguém). Uma das regras de acentuação diz que são acentuadas apenas as palavras agudas (não monossilábicas) terminadas em -em. Ora, outrem é uma palavra grave.
Verifica-se, ainda, uma tendência para colocar um acento gráfico em determinadas vogais abertas: *à priori e *inclusivé. Estas palavras são expressões latinas e, por isso, a sua grafia original deve ser respeitada (em latim não havia acentuação gráfica). Para além disso, se pronunciarmos a palavra inclusive pausadamente, verificamos que o acento tónico recai na sílaba si, logo, não faz sentido colocar um sinal gráfico na vogal /e/.
Por fim, palavras terminadas em -mente e em -zinho têm também por hábito receber um acento! Por exemplo: *sózinho e *diáriamente. Ao associar qualquer sufixo a uma palavra base, o acento tónico avança “uma casa”, passando a recair na primeira sílaba do sufixo. Por isso, essas palavras não devem ter qualquer acento gráfico, já que este daria uma falsa indicação do acento tónico.
Digam lá, então, se as ditas palavrinhas não ficam mais bonitas sem qualquer adereço!
alcoolemia, rubrica, outrem, inclusive, a priori, sozinho e diariamente.
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S. Duarte
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17:04
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Palavras-chave: acentuação , ortografia
Muitos têm a tentação de colocar um acento grave nesse a que fica “pendurado” no final das flexões de verbos no Futuro do Indicativo, quando existe mesóclise.
“Mesóclise?! Que palavra estranha! O que é isso?”, estarão alguns leitores a perguntar. Simples: vem de -meso-, elemento de composição de origem grega que significa meio, e usa-se para designar as formas verbais em que o pronome não aparece antes, nem depois, mas sim no meio do verbo. Já agora, porque os palavrões são só três, sistematizemos:
Próclise: pronome antes do verbo. Ex.: “Quem te disse isso?”
Mesóclise: pronome no meio do verbo. Ex.: “Entregar-te-ei em breve”
Ênclise: pronome depois do verbo. Ex.: “Deram-nos mais tempo.”
Ora, na realidade, a mesóclise só o é hoje em dia. Porque aquele á, ou aquele ei, que aparece depois do pronome, no Futuro do Indicativo, e que dizemos ser a terminação do verbo, é o que resta da flexão do verbo haver, que se usava (e ainda usa!) como auxiliar, para exprimir a ideia de futuro. Reparem:
Encontrar-se-á é, na verdade, encontrar-se-(h)á – ou seja: há-de se encontrar
Entregar-te-ei é, na verdade, encontrar-te-(h)ei – ou seja: hei-de te entregar
Assim, não há dúvida: o acento do -á é agudo, exactamente como o acento de há. Só lhe falta o h!
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S. Leite
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11:59
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Palavras-chave: acentuação , flexão , verbos
Ainda há quem confunda estas duas palavras, tão distintas em termos de significado!
Traz é flexão do verbo trazer (por isso se escreve com z...), na terceira pessoa do singular no Presente do Indicativo (“Ele traz os teus livros”) e também na segunda pessoa do singular no Imperativo (“Traz aquela cadeira, por favor”).
Trás é preposição e é pouco habitual aparecer sozinha, pois costuma usar-se em locuções (por trás, de trás...), ou ser substituída pelo composto atrás.
Porém, não há que enganar: quando é forma do verbo trazer, traz o z do Infinitivo!
Sempre que vejo a porta da imagem, tenho vontade de ir lá bater, para perguntar: “trago o quê?”
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S. Leite
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11:46
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O verbo poder assume diferentes valores semânticos, consoante o contexto frásico. Vejamos quais são esses valores:
1º valor: permissão - Ex.: Podes usar o meu telefone à vontade!
2º valor: probabilidade - Ex.: Leva o guarda-chuva, porque pode chover.
3º valor: capacidade - Ex.: Este elevador pode levar até 5 pessoas.
Por vezes, este verbo exibe simultaneamente dois valores, dando origem a frases ambíguas. Por exemplo, a frase
“Os ciclistas podem passar por aqui” pode significar:
1. “É-lhes permitido que passem por aqui” (valor de permissão);
2. “É provável que passem por aqui” (valor de probabilidade).
Porém, se substituirmos o sujeito “ciclistas” por um fenómeno da natureza, como “ciclone” (o ciclone pode passar por aqui), há uma leitura que é automaticamente bloqueada. Qual é e porquê?
Nesta linha de pensamento, deixo-vos mais um desafio. Considerem as seguintes frases e digam que interpretações podem ter:
(a) O Tomás pode ir à festa.
(b) O Tomás não pode ir à festa.
(c) O Tomás pode não ir à festa.
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S. Duarte
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14:53
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Palavras-chave: verbos
Há tempos, havia por Lisboa cartazes que sensibilizavam a população para a necessidade de reciclar as pilhas. O texto, destacado no meio de um fundo verde, era simplesmente assim:
NO LIXO, NÃO
NO PILHÃO.
Repararam como a vírgula, aliada à falta de pontuação logo após o advérbio não, compromete o sentido da frase?
É que, em muitos casos, a vírgula serve para separar orações. Assim, e sabendo que a linguagem publicitária é muitas vezes elíptica, podíamos perfeitamente interpretá-la da seguinte forma:
1ª oração – uma imperativa, com omissão do verbo e do objecto directo: “[deitem as pilhas] no lixo,”
2ª oração – outra imperativa, com as mesmas omissões: “não [as deitem] no pilhão”.
Resultado: veiculava-se, ali, exactamente o oposto do que se pretendia!
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S. Leite
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12:02
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Palavras-chave: pontuação
Eis uma confusão que persiste, embora as palavras em causa tenham sentidos opostos. Sob significa “debaixo de” (vem de sub, que se usa como elemento de formação em palavras como subterrâneo e subentender), sobre é “por cima de” e vem de super, que tem o mesmo sentido em latim.
Talvez por se tratar de duas palavrinhas curtas e semelhantes, ouve-se às vezes dizer, erradamente, que alguém está, por exemplo, “sobre pressão”, ou seja, usa-se sobre em vez de sob.
Há dias, numa série informativa do canal Panda, explicaram que “os gorilas vivem em grupos, sobre o comando de um macho líder.” Até estremeci! Uma coisa é ouvir uma pessoa cometer um erro destes na rua... mas num programa supostamente educativo para crianças e adolescentes? Como é que um tradutor comete um erro desses? E como se admite que quem edita e narra o texto não dê por ele?
Os gorilas obviamente obedecem ao líder. Como tal, estão debaixo do seu comando (sob) e não “acima” dele (“sobre”)...
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S. Leite
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13:00
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Palavras-chave: parónimos
“Ele é a ovelha ranhosa da família!” Quem nunca ouviu esta expressão?
Espero, com este pequeno texto, surpreender-vos, sem vos desiludir!
Pois é, todas as vezes em que usamos a expressão “ovelha ranhosa”, estamos a cometer um erro. Sabem porquê?
Ronha é uma doença que ataca alguns animais, é uma espécie de sarna. A partir deste nome, formou-se o adjectivo ronhoso, que significa “que tem ronha”. E como sabem, muitas palavras assumem sentidos figurados ou são usadas em registo familiar. É o caso. Ronhoso também significa “manhoso, velhaco”, que origina então a expressão tão conhecida OVELHA RONHOSA.
Quanto a ranhoso, ninguém precisa de esclarecimento acerca do seu significado literal! Esta palavra tem também um sentido figurado, que é “desprezível, reles”, mas nunca é usada como combinatória de OVELHA.
Portanto, nunca mais digam que alguém é a ovelha ranhosa da família!
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S. Duarte
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09:46
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Palavras-chave: palavras
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S. Leite
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Palavras-chave: dicionários , palavras
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S. Leite
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13:29
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Palavras-chave: dicionários , hífen