27 julho 2007

Os “ÊM” e os “ÊEM”

Verbo TER – ele tem, eles têm
Verbo VIR – ele vem, eles vêm
Verbo VER – ele vê, eles vêem
Verbo LER – ele lê, eles lêem

Para não confundir a grafia destes verbos na 3ª pessoa do plural, há um velho truque que nos ajuda na hora da dificuldade!
Quem vê e quem lê usa (normalmente!) os dois olhos, logo, as formas verbais vêem e lêem escrevem-se com dois e!
Atenção também aos verbos compostos, que seguem o mesmo paradigma de flexão dos verbos que estão na sua base, ou seja, conter, intervir, prever e reler, por exemplo, conjugam-se como ter, vir, ver e ler, respectivamente:
1. Essas caixas contêm garrafas.
2. Eles nunca intervêm nas reuniões.
3. Os meteorologistas prevêem o tempo.
4. Os alunos relêem o texto com atenção.

24 julho 2007

A polivalência de QUALQUER

Já alguma vez imaginaram que pudesse haver uma palavra na Língua Portuguesa com significados tão contraditórios?
O mais comum é existir um elo semântico entre as várias acepções de uma palavra. Não é, porém, o que acontece com qualquer. Querem ver?

1. Qualquer = todos(as)
Qualquer peixe sabe nadar.
2. Qualquer = nenhum(a)
Esse assunto não tem qualquer importância.
3. Qualquer = algum(a)
Passa-se qualquer coisa estranha naquela casa.
4. Qualquer = não importa qual
Por favor, traz-me uma bebida do bar. Uma qualquer!
5. Qualquer = sem importância
Ele não é um escritor qualquer!
A Maria nunca sairia com um rapaz qualquer!

19 julho 2007

A eterna dúvida... à ou há?


Para muita gente, a eterna dúvida prende-se com a diferença entre à e .
à é a contracção entre o determinante (artigo definido feminino) a e a preposição a. O acento grave indica isso mesmo: que por “debaixo” daquela letrinha estão duas palavras diferentes. Usa-se sempre que a construção exige a preposição a e a ela se associa o artigo a. Por exemplo em: “Ontem fomos à praia” ou “Passa tu à frente.”
Entendo que não é fácil perceber que falta poderá fazer o artigo a naquelas frases (depreendendo que se juntam os a de ir / passar a + a praia / a frente). Mas, para dissiparem as dúvidas, basta substituírem a preposição por outra, por exemplo para: não só verificarão que a frase continuará a fazer sentido, mesmo que a preposição não tenha exactamente o mesmo significado (“Ontem fomos para a praia”, Vai tu para a frente.”), como ainda constatarão que usam o artigo a – portanto ele estava, de facto, lá.
é flexão do verbo haver no Presente do Indicativo, terceira pessoa do singular. Pode ter dois sentidos: existir e fazer (usado como verbo impessoal, com um sentido temporal). Assim, a palavra pode sempre ser substituída por um desses dois verbos no mesmo tempo: dizer “ dias assim” ou “ tempos que não o vejo” é o mesmo que dizer “Existem dias assim” e “Faz tempos que não o vejo”.
Portanto, na frase “Chegámos uma hora, ou seja, à uma em ponto”, temos os dois parónimos juntos. Mas nem por isso nos baralhamos: na primeira oração, confirmamos o uso do h com a substituição pelo verbo fazer: “Chegámos faz uma hora”. Na segunda, alteramos a preposição, para confirmar que se trata do à: “pela uma em ponto.”

17 julho 2007

Ainda a “rúbrica”!

“Rubrica, para um pequeno apontamento, e rúbrica, para uma assinatura breve” – assim pensa a maioria das pessoas.
RUBRICA é, hoje em dia, uma das palavras utilizadas incorrectamente, quer na oralidade, quer na escrita. Contudo, a sua história ajuda-nos a esclarecer eventuais dúvidas. Viajem comigo!
Tendo a sua origem no latim rubrica, estava relacionada com “rubro” (vermelho) e designava “terra, argila vermelha” ou “giz de cor vermelha”. Os títulos dos livros antigos e dos manuscritos medievais eram sempre escritos a vermelho, daí a designação rubricas.
Actualmente, os dicionários registam rubrica como o título dos capítulos de livros de direito civil, significado este que se foi alargando para “pequeno apontamento ou indicação”. Posteriormente, a palavra rubrica passou a designar também uma assinatura abreviada.
Em suma, trata-se de uma palavra com acento tónico na penúltima sílaba -bri- e sem qualquer acento gráfico na vogal u. RUBRICA, portanto, em todas as acepções.

Espero que esta rubrica tenha sido esclarecedora, para que na altura de assinarem um documento, possam perguntar com um ar decidido: “Desculpe, onde quer que eu faça a rubrica?”

13 julho 2007

À vontade ou à-vontade?


Aproveitando o esclarecimento que demos a uma leitora via e-mail, vimos hoje escrever sobre uma dúvida frequente: a diferença entre à vontade e à-vontade.

À vontade é locução adverbial, usa-se para modificar verbos, podendo ser precedida por outro advérbio. Por exemplo nas frases:
Ele está muito à vontade para meu gosto.
Sinto-me bastante à vontade em frente a uma audiência.
À-vontade é substantivo masculino, portanto deve escrever-se com hífen sempre que seja precedido por um determinante (o, um, algum, etc.). Por exemplo em:
O à-vontade dele naquela situação deixou-me perplexo.
Ele falou com um à-vontade incrível.
Há casos, porém, em que não temos tanta facilidade em determinar qual das duas grafias devemos adoptar. Um substantivo nem sempre é facilmente reconhecível como tal (aliás, nem sempre é precedido por um determinante), o mesmo se passando com a locução adverbial. Repare-se nas seguintes frases:
Ela não tem muito à-vontade com as crianças.
O meu carro leva, à vontade, quatro pessoas no banco de trás.
No primeiro caso, é preciso saber que "muito" – naquele contexto – é um determinante indefinido e, como tal, só pode preceder um substantivo. No segundo caso, por estar entre vírgulas, a expressão parece ser independente, mas na verdade é um advérbio que modifica o verbo (leva), podendo ser substituído por outro, como "facilmente". Daí escrevermos o primeiro à-vontade com hífen e o segundo sem.
Conclusão: a minha explicação pode não ter sido inteiramente esclarecedora, mas a intenção era boa :)

11 julho 2007

Quem é que se trata, afinal?

Quem se trata são os doentes, nas construções passivas. Por exemplo na frase “os diabéticos tratam-se com insulina.” Ou seja, eles não se tratam a si próprios, mas alguém os trata, tal como, na frase “vêem-se esquilos no Monsanto”, é evidente que não são os esquilos que se vêem a si próprios ou uns aos outros.

Com esta introdução algo confusa, queria apenas esclarecer os leitores sobre a expressão “tratar-se de”, que todos gostamos de usar em certos contextos, quando parece que o verbo ser não chega para dar um cunho formal à linguagem. Então, em vez de “é uma situação complicada”, dizemos “trata-se de uma situação complicada”. A frase torna-se logo mais bonita... e, até aqui, tudo bem.

O problema surge quando se começa a usar essa expressão, que é impessoal (exactamente como o verbo haver!), como se não o fosse. Então cai-se no erro de dizer ou escrever frases como “tratam-se de situações complicadas” ou, pior ainda, “estas situações tratam-se de casos complexos”. Portanto, atenção ao verbo tratar-se: se for seguido da preposição de, não admite sujeito.

09 julho 2007

“Hão” coisas que não percebo...!

O verbo haver, quando é verbo principal numa oração, com o significado de existir, ou acontecer, apenas se conjuga na 3ª pessoa do singular, por ser impessoal. Assim, dizemos “ coisas” e não “hão coisas”, “houve situações” e não “houveram situações”, “haverá riscos” e não “haverão riscos”, etc. Penso que poucos leitores deste blogue ficaram admirados com o que acabaram de ler.

Contudo, muita gente esquece que a regra de não flexionar o verbo haver de acordo com um pretenso sujeito (que afinal não é sujeito nenhum) também se aplica aos seus auxiliares, como ter, costumar, continuar, ir, poder, etc. Assim, acontece frequentemente ouvir-se “vão haver concertos” em vez de “vai haver concertos”, “continuam a haver vagas” em vez de “continua a haver vagas”, “têm havido reclamações” em vez de “tem havido reclamações”.

Portanto, o verbo haver é sempre impessoal se for verbo principal, o que se manifesta inclusivamente na flexão dos seus auxiliares. Só devemos conjugar o verbo haver em todas as pessoas quando é auxiliar: seja com o sentido de ter (ex.: “eles haviam feito”), seja como expressão de intenção (ex.: “eles hão de fazer”).

05 julho 2007

Erros que não dão nas vistas - “Isso foi uma das coisas que mais me impressionou”

Aqui está um erro de concordância bastante frequente, mas que passa muitas vezes despercebido. “Erro?” Estão os leitores a pensar. “Não encontro erro nenhum!”
Pois bem, a construção correcta é: “Isso foi uma das coisas que mais me impressionaram.”
Admito que “soa melhor” flexionar o verbo impressionar no singular por concordância com o elemento que se pensa ser o seu sujeito, ou seja, o determinante indefinido uma.
Desenganem-se e sigam o raciocínio sintáctico que passo a descrever:
Esta frase contém dois verbos - ser e impressionar -, que têm sujeitos diferentes: o sujeito do verbo ser é o pronome demonstrativo isso; o sujeito do verbo impressionar é o pronome relativo que, que por sua vez se refere ao nome coisas (estando flexionado no plural, obrigará o verbo a flexionar também no plural).
Se invertermos a ordem dos elementos da frase, perceberemos melhor:
Das coisas que mais me impressionaram, isso foi uma (delas).
Compreende-se, então, o motivo por que não é legítimo flexionar o verbo impressionar no singular, sob pena de se admitir uma estrutura como “*Das coisas que mais me impressionou, isso foi uma (delas).”
São erros discretos, mas não deixam por isso de ser erros.

04 julho 2007

Junto ou separado?

É certo que temos, na nossa língua, muitas ex-locuções, sobretudo adverbiais, que se tornaram palavra única, como dantes (de antes), devagar (de vagar) e depressa (de pressa).

Contudo, enquanto os dicionários não registarem as novas tendências dos falantes, enquanto as alterações à ortografia de certas expressões não forem consagradas, ainda é ERRADO escrever, como muita gente hoje já escreve:

"afim de" (a fim de)
"apartir de" (a partir de)
"concerteza" (com certeza)
"derrepente" (de repente)
"secalhar" (se calhar)

Muitas vezes, o erro é dado sem que nos apercebamos disso - seja porque escrevemos à pressa, seja porque estamos distraídos, seja por outro motivo qualquer. Por isso, estejam atentos e não deixem que a vossa mão vos pregue estas partidas!

02 julho 2007

Ainda a ortografia

Cada vez é mais frequente pessoas adultas, com diferentes profissões e nos mais diversos meios – inclusive no ensino – escreverem com erros ortográficos.

O fenómeno terá origem em diversos factores, como a falta de leitura, o aumento de estímulos audiovisuais, a existência de correctores automáticos de escrita, a decrescente qualidade do ensino e a diminuição do grau de exigência, neste âmbito, sobretudo nos níveis básico e secundário, e talvez mesmo a falta de interesse generalizada por esse problema e pela sua resolução. Chegámos ao triste ponto em que professores recém-licenciados, ao candidatarem-se a empregos, enviam currículos com erros ortográficos para as escolas!

Sei que em certos países da Europa a correcção ortográfica é condição essencial para passar de ano, seja em que disciplina for. Cá, porém, estamos longe desse ideal... prova disso é que, como o atestam alguns comentários ao texto anterior, até se admite a ideia de um ESCRITOR dar erros ortográficos palavra sim, palavra não!

29 junho 2007

"Omenagem à Hortografia"

Um texto que não escrevemos, mas que, pela sua relevância e contundência, achámos pertinente publicar aqui:


Por: Francisco José Viegas, Escritor


A senhora menistra da Educação açegurou ao presidente da República que, em futuras provas de aferissão do 4.º e do 6.º anos de iscolaridade, os critérios vão ser difrentes dos que estão em vigor atualmente. Ou seja os erros hortográficos já vão contar para a avaliassão que esses testes pretendem efetuar. Vale a pena eisplicar o suçedido, depois de o responçável pelo gabinete de avaliassões do Menistério da Educação ter cido tão mal comprendido e, em alguns cazos, injustissado. Quando se trata de dar opiniões sobre educassão, todos estamos com vontade de meter o bedelho. Pelo menos.

Como se sabe, as chamadas provas de aferissão não são izames propriamente ditos limitão-se a aferir, a avaliar - sem o rigôr de uma prova onde a nota conta para paçar ou para xumbar ao final desses ciclos de aprendizagem. Servem para que o menistério da Educação recolha dados sobre a qualidade do encino e das iscólas, sobre o trabalho dos profeçores e sobre as competênssias e deficiênçias dos alunos.

Quando se soube que, na primeira parte da prova de Português, não eram levados em conta os erros hortográficos dados pelos alunos, logo houve algumas vozes excandalisadas que julgaram estar em curso mais uma das expriências de mudernização do encino, em que o Menistério tem cido tão prodigo. Não era o caso porque tudo isto vem desde 2001. Como foi eisplicado, havia patamares no primeiro deles, intereçava ver se os alunos comprendiam e interpetavam corretamente um teisto que lhes era fornessido.
Portantos, na correção dessa parte da prova, não eram tidos em conta os erros hortográficos, os sinais gráficos e quaisqueres outros erros de português excrito. Valorisando a competenssia interpetativa na primeira parte, entendiasse que uma ipotetica competenssia hortográfica seria depois avaliada, quando fosse pedido ao aluno que escrevê-se uma compozição. Aí sim, os erros hortográficos seriam, digamos, contabilisados - embora, como se sabe, os alunos não sejam penalisados: á horas pra tudo, quer o Menistério dizer; nos primeiros cinco minutos, trata-se de interpetar; nos quinze minutos finais, trata-se da hortografia.

Á, naturalmente, um prublema, que é o de comprender um teisto através de uma leitura com erros hortográficos. Nós julgáva-mos, na nossa inoçência, que escrever mal era pensar mal, interpetar mal, eisplicar mal. Abreviando e simplificando, a avaliassão entende que um aluno pode dar erros hortográficos desde que tenha perssebido o essencial do teisto que comenta (mesmo que o teisto fornessido não com tenha erros hortográficos). Numa fase posterior, pedesse-lhe "Então, criançinha, agora escreve aí um teisto sem erros hortográficos." E, emendando a mão, como já pedesse-lhe para não dar erros, a criancinha não dá erros.

A questão é saber se as pessoas (os cidadões, os eleitores, os profeçores, "a comonidade educativa") querem que os alunos saião da iscóla a produzir
abundãnssia de erros hortográficos, ou seja, se os erros hortográficos não téêm importânssia nenhuma - ou se tem. Não entendo como os alunos podem amostrar "que comprenderam" um teisto, eisplicando-o sem interesar a cantidade de erros hortográficos. Em primeiro lugar porque um erro hortográfico é um erro hortográfico, e não deve de haver desculpas. Em segundo lugar, porque obrigar um profeçor a deixar passar em branco os erros hortográficos é uma injustiça e um pressedente grave, além de uma desautorizassão do trabalho que fizeram nas aulas. Depois, porque se o gabinete de avaliassão do Menistério quer saber como vão os alunos em matéria de competenssias, que trate de as avaliar com os instromentos que tem há mão sem desautorisar ou humilhar os profeçores.

Peçoalmente, comprendo a intensão. Sei que as provas de aferissão não contam para nota e hádem, mais tarde, ser modificadas. Paço a paço, a hortografia háde melhorar.

25 junho 2007

"Mais bem" existe e é correcto!


No último número da revista Volta ao Mundo, deparei-me com este anúncio: "Melhor equipado só com mordomo incluído."

Certamente já estão à espera do que eu vou escrever a seguir: há ali um erro de português. Mas onde?

O erro está em escrever (ou dizer) "melhor equipado" - porque, quando estamos a modificar um adjectivo participial (ou seja, um adjectivo que provém do Particípio Passado de um verbo, como equipado, preparado, classificado, vendido, escrito...), não devemos flexionar em grau os advérbios bem e mal.

Talvez vos custe aceitar mais essa regra, que aparentemente ninguém cumpre, pois, ao que parece, ninguém sabe que ela existe. Mas isso não é verdade! Porque, como facilmente constatarão, raríssimas são as pessoas que ignoram essa regra quando se seguem Particípios (irregulares, mas ainda assim Particípios) como feito, dito, escrito. Por acaso costumam dizer que uma coisa está "melhor" ou "pior" feita do que outra?!

21 junho 2007

Roubo e furto

Uma das muitas (e boas!) sugestões do Jaime foi esta: elucidar os leitores sobre a diferença entre roubo e furto.

Embora em ambos os conceitos esteja subjacente a ideia de tirar a alguém, indevidamente, os seus haveres, no caso do furto essa acção não implica violência (ou ameaça), enquanto o roubo já pressupõe a ideia de que a vítima é forçada, sob ameaça ou mesmo violência, a entregar os seus bens.

Em rigor, portanto, quando descrevemos uma situação de qualquer um dos dois tipos, apenas uma das palavras se aplica, e não ambas: se um estranho entra em casa de alguém e leva os objectos de valor enquanto o dono dorme, há furto. Se alguém na rua é forçado a entregar o dinheiro que tem na carteira, sob a ameaça de uma arma ou de uma seringa contaminada, trata-se de roubo.

Todavia, o que acontece é que – sobretudo quando se usa o verbo correspondente – existe uma marcada tendência para escolher roubar, haja ou não violência inerente ao acto. Talvez porque o verbo furtar tenha vindo a ser preterido, na linguagem corrente, e cada vez mais associado a um registo formal e antiquado. E é preciso admitir que os dicionários actuais apresentam os termos roubar e furtar como sinónimos, portanto, dando razão a quem os usa indiferenciadamente. Na linguagem jurídica, porém, não há confusões. Roubo não é furto e furto não é roubo!

20 junho 2007

“Do” ou “de o”?

Será mais um preciosismo, mais uma batalha garantidamente perdida?

A verdade é que há uma diferença entre contrair ou não contrair preposições como a, de, por e determinantes ou pronomes como o, a, ele, ela, este, isto, etc.

A diferença reside no facto (e aqui já temos uma frase exemplificativa) de o referido determinante ou pronome ser ou não o sujeito de uma oração infinitiva. No caso da frase anterior, por exemplo, temos um verbo no Infinitivo (“ser”) cujo sujeito é “o referido determinante”. É por isso que seria incorrecto escrever: *“a diferença reside no facto do determinante ser ou não sujeito”. É como se a separação entre de e o servisse precisamente para evidenciar, a priori, a importância do determinante o enquanto sujeito da oração seguinte, para avisar os leitores de que a frase não acaba ali.

Se após o determinante ou pronome não houver nenhum verbo no Infinitivo, então já é recomendável contraí-lo com a preposição anterior. Por exemplo aqui: “Achei óptima a ideia dele.” (Em vez de: *“Achei óptima a ideia de ele.”). E até poderia haver uma oração a seguir, desde que ele não fosse o respectivo sujeito. Por hipótese: “Achei óptima a ideia dele, embora me parecesse um pouco ousada.”

Admito que esta regra cada vez é mais ignorada, até por pessoas que escrevem bem. Mas isso, como sabem, não é argumento que nos detenha. Se fosse, nem valeria a pena continuar este blogue!

15 junho 2007

A virtualidade da virtude de complicar

Muita gente complica.

Dizem que a língua portuguesa é traiçoeira, que engana, que é difícil, e por aí fora. Mas a verdade é que não são raras as vezes em que somos nós, os falantes, que atraiçoamos a própria língua.

Hoje o Jaime alertou-me para o facto de haver quem diga virtualidade em vez de virtude. Não me surpreendeu, uma vez que é frequente as pessoas optarem – sobretudo em contextos formais – por palavras mais compridas, mais “bem sonantes”, mas que afinal não significam aquilo que elas pensam e por isso tornam o discurso incorrecto ou até incoerente.

Virtualidade é a qualidade daquilo que é virtual, ou seja, potencial, possível, ou ainda simulado (por oposição a real); a virtude é uma qualidade moral positiva, por oposição a um defeito. Assim, será muito pouco provável haver um contexto em que ambas as palavras possam ser usadas como sinónimas. Vejam, por exemplo, o resultado de trocar uma pela outra nestas frases: “estamos a entrar numa era em que a virtualidade assume a mesma importância que o real” e “a honestidade continua a ser considerada uma virtude”.

Uma confusão semelhante ocorre com os termos referir / referenciar e notar / denotar, que também não têm o mesmo significado, mas que muitos falantes usam alternadamente, como se tivessem, consoante a formalidade da situação.

11 junho 2007

Há Portugueses e portugueses?


Sem dúvida :)

Portugueses, com maiúscula, e apenas enquanto substantivo, deve ser usado sempre que queiramos referir-nos a todos os indivíduos que o gentílico designa – seja no singular ou no plural –, ainda que estejamos a fazer uma daquelas generalizações pouco rigorosas, que dependem mais da experiência limitada ou da opinião subjectiva de cada um do que de uma análise rigorosa da realidade. Por exemplo, nas frases “os Portugueses são um povo pessimista” ou “o Português tem jeito para falar línguas”.
Enquanto substantivo, é preferível usar portugueses, com minúscula, nos contextos em que designa apenas algum ou alguns indivíduos, mas não todos, na generalidade. Por exemplo, se alguém escrever que “encontrou muitos portugueses quando esteve de férias em Espanha”, ou uma anedota sobre um português, um francês e um inglês que vão num avião (lembram-se dessa?!). Enquanto adjectivo, portugueses deve ser sempre escrito com minúscula, mesmo quando designa a generalidade dos indivíduos. Por exemplo em “as mulheres portuguesas são bonitas”, ou em “o homem português é corajoso”.
Enfim, são pormenores insignificantes, para quem nem se preocupa em pôr acentos gráficos nas palavras, mas que têm importância para os que fazem questão de escrever bem.

08 junho 2007

Os pombos-correio fizeram horas extras, ao contrário dos peixes-espada e dos porcos-espinhos!

Quem não teve já dúvidas aos formar os plurais de certas locuções nominais e de nomes compostos? É que algumas das regras que determinam a sua flexão em número nem sempre são fáceis de interpretar...

Vejamos estas duas: a) se o composto for formado por dois nomes ou nome e adjectivo, flexionam-se ambos os termos no plural; b) se o segundo termo, sendo um nome, funcionar como determinante do primeiro, só o primeiro se flexiona no plural.

Exemplifiquemos com hora extra e pombo-correio.

No primeiro caso, extra é um adjectivo (formado por truncamento a partir da palavra extraordinário). Logo, concorda em número com o nome que qualifica. Assim como diríamos “horas extraordinárias”, também devemos dizer “horas extras” – porque as palavras truncadas também têm plural (como fãs, motos, metros, pneus, etc.)

No segundo caso, o substantivo correio também, de certo modo, qualifica o nome pombo, mas não se flexiona no plural porque está a condicionar o significado do primeiro termo: podemos dizer que se trata de pombo(s) com função de “correio”. Não faria sentido dizer que, quando os pombos são vários, também passa a haver diversos “correios”. Há, nesse caso, vários pombos com a mesma função (de correio).

É a mesma lógica do peixe-espada: podemos referir-nos a vários peixes, mas nunca serão várias “espadas”, porque o termo espada apenas indica que os peixes têm essa forma.

Já a flexão de porco-espinho em número deve formar-se com ambos os termos no plural: porque, afinal, não se trata de um porco com forma de espinho, mas de um nome composto por dois substantivos em que nem um nem outro designa directamente a realidade representada. Por isso, ambos se flexionam: porcos-espinhos.

Conclusão: formar um plural de um nome composto dá muito que pensar!

(08.06.07)

05 junho 2007

E se recusasse fazer o teste da “alcoolémia”?

Se for a conduzir e um agente da polícia o interceptar e lhe pedir que faça o teste da “alcoolémia”, pode negar-se a fazer esse teste, explicando, delicadamente, o motivo da sua recusa: esse teste simplesmente não existe! Passo a explicar:
Está a generalizar-se a pronúncia e grafia -émia de algumas palavras formadas pelo sufixo grego -emia, que significa “sangue”: *glicémia e *alcoolémia, por exemplo.
Esta grafia está incorrecta, uma vez que esse sufixo não contém qualquer acento gráfico desde a sua origem.
Não deixa de ser estranha esta tendência, visto haver várias palavras terminadas em -emia que são pronunciadas e escritas correctamente, tais como anemia (e não *anémia) e leucemia (e não *leucémia).

Por conseguinte, se não hesita em dizer e escrever anemia e leucemia, então seja coerente e diga que apenas se submete ao teste da alcoolemia!

04 junho 2007

Dispêndio, dispendioso e... despender?!

Estas palavras da mesma família geram confusão na cabeça de muita gente... e por uma boa razão. Pois se dispêndio e dispendioso se escrevem com i, por que razão havemos de escrever o verbo despender com e?

Na verdade, se consultarmos o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, concluiremos que estes dois termos têm uma origem muito próxima. E, em latim, o verbo dispendere escrevia-se com i. Mas, segundo o mesmo dicionário, pelo menos desde o século XIII que despender, em português, se grafa com e. O motivo será este: enquanto dispendiu entrou na língua portuguesa por via culta, dispendere terá entrado por via popular, pelo que se deu a transformação da primeira vogal, de acordo, aliás, com a forma como pronunciamos a palavra ainda hoje.

Não há nada a fazer, por enquanto é mesmo assim: o verbo com e, o adjectivo e o substantivo com i. Quem sabe não acham útil esta espécie de mnemónica de última hora: despender escreve-se com e de vErbo; dispêndio e dispendioso escrevem-se com i de adjectIvo e de substantIvo!

30 maio 2007

SE com hífen ou sem?

Por sugestão de uma leitora, voltamos a mencionar uma dúvida frequente, que é a do emprego (ou não) do hífen em certas formas verbais.

Já havíamos abordado a questão no texto intitulado “Lavaste e Lavas-te”, mas nem sempre a hesitação de quem escreve se prende com a terminação TE, pelo que agora nos referimos às formas terminadas em SE, que também causam confusão.

Assim, vejamos: existem várias diferenças entre telefona-se e telefonasse.

Quando escrevemos telefona-se, estamos a associar a forma verbal (que está no tempo Presente do Indicativo) ao pronome SE, que neste caso representa a indefinição do sujeito (alguém telefona, não interessa quem). Nesta situação, o pronome muda de lugar quando formulamos a frase na negativa (“Não SE telefona a ninguém a estas horas!”) e isso indica que devemos separá-lo do verbo por meio de hífen.

Se escrevermos telefonasse, o tempo é o Pretérito Imperfeito do Conjuntivo e o verbo está na primeira ou terceira pessoa do singular. Aqui, a terminação em -se não pode ser separada por meio de hífen porque faz parte do verbo, não se trata de um pronome. Prova disso é o facto de não mudar de lugar quando a frase está na negativa: “Ela pediu-me que não lhe telefonasSE para o emprego” (e não “ela pediu-me que não lhe SE telefona para o emprego”, o que seria absurdo).

Espero, com este texto, ter esclarecido a dúvida da leitora que nos enviou a sugestão, bem como a de muitos outros leitores! E que continuem a escrever-nos :)

29 maio 2007

Solução - Uma frase, várias interpretações

Estão, então, encontradas as três possíveis interpretações da frase:
“Durante as férias, o Pedro só escreveu cartas à Rita”.

1. A única pessoa a quem o Pedro escreveu cartas foi à Rita (Não escreveu à Maria, nem à Ana... Só à Rita).
2. A única coisa que ele fez durante as férias foi escrever cartas (Não foi à praia, não andou de bicicleta... Só escreveu).
3. A única coisa que ele escreveu foram cartas. (Não escreveu postais, nem e-mails... Só cartas).
O elemento desencadeador da ambiguidade é a palavra , que tem escopo (i.e., controlo) unicamente sobre as expressões que estão à sua direita. Quer isto dizer que não podemos inferir, por exemplo, que o Pedro foi a única pessoa que escreveu cartas à Rita.
A língua tem destes mistérios! Valeu o desafio?

25 maio 2007

Uma frase, várias interpretações

Na Língua Portuguesa, há algumas frases que são ambíguas, ou seja, podem ter mais do que uma interpretação.

A título de exemplo, observe-se a frase “O professor falou aos alunos de literatura”, que pode significar: 1. O Professor falou sobre literatura aos alunos; 2. O professor cumprimentou os alunos de literatura.

O desafio que vos deixo neste fim-de-semana chuvoso é tentarem descobrir quais as TRÊS interpretações que a seguinte frase pode ter:


“Durante as férias, o Pedro só escreveu cartas à Rita.”

23 maio 2007

O Passado que nem sempre o é

Quem não usou já o verbo passar no Particípio Passado (precisamente: passado), como se fosse invariável?

Eu já me apanhei a mim própria a dizer “passado meia hora...”, confesso. No entanto, sei muito bem que se trata de um erro – daqueles que nos saem pela boca antes mesmo de podermos pensar no que estamos a dizer!

Mas é verdade, o Particípio Passado (nas orações participiais) deve sempre concordar com respectivo sujeito, quer esteja antes ou depois deste, ou seja, deve estar no masculino ou no feminino, no singular ou no plural, conforme o caso. Assim, diga-se (e escreva-se) “passadas duas horas” e não “passado duas horas”. Dá mais trabalho, leva mais tempo, mas fica melhor!


21 maio 2007

Se as palavras falassem...

Se as palavras falassem, certamente contariam histórias bastante interessantes! Muitas deliciar-nos-iam com o seu percurso de vida!
Viajem comigo pela história de algumas!

A palavra profissional começou por designar alguém que exerce uma determinada profissão, usada por oposição a amador, por exemplo: “Ele tira boas fotografias, mas não é profissional”, ou seja, “não faz da fotografia a sua profissão”.
O significado deste adjectivo estendeu-se a “alguém muito competente numa dada área”, por exemplo: “Ele é muito profissional naquilo que faz, trabalha com bastante profissionalismo”. Verificamos, portanto, a passagem de um adjectivo que não admitia variação em grau (ou é profissional, ou é amador) para um adjectivo que, sendo sinónimo de “eficiente, competente”, já admite flexão em grau: “muito/pouco profissional”.
Um percurso bastante interessante têm também os derivados pelo sufixo -aria, dos quais destaco a palavra ourivesaria, cujo significado original é: “arte, actividade do ourives”, por exemplo, na frase “Ele trabalha em ourivesaria há mais de 10 anos”.
O segundo significado surge em sequência do primeiro, quando se cria um local para exercer essa actividade. Temos, então, um sentido locativo, patente em “Comprei este anel na ourivesaria do centro comercial.”
E se considerarmos frases como “Ela guardou toda a sua ourivesaria no cofre, antes de ir de férias”, então estamos perante um sentido colectivo, que exprime “o conjunto dos objectos em ouro e prata”.
As palavras não falam, mas a sua história fala por elas!

17 maio 2007

Escreva-se mais poesia!

Confesso que não costumo comprar livros de poesia, nem tão-pouco escolher poemas em vez de contos ou romances, quando tenho tempo para ler. Confesso que muita da poesia que já tentei decifrar me deixou desconcertada, com a sensação frustrante de se ter mantido fechada a porta de acesso ao sentido final, por obscuridade intencional da linguagem do poeta ou por incompetência da minha parte. Ler poesia pode ser, de facto, mais do que um desafio, um trabalho árduo e desmotivador*.

Mas a poesia é sempre uma festa, quando nos propomos brincar com a língua, inventar frases como quem vai cantarolando. Escrever um poema é como jogar um jogo solitário do qual saímos sempre a ganhar, pelo simples prazer de alinhar palavras como quem brinca com um puzzle que permite um número infinito de combinações. Seja ou não rimado, o poema tem ritmo, tem aquela qualidade musical que faz dele o texto mais lúdico, mais divertido de compor. Talvez seja por isso o género mais indicado, quando se pretende motivar crianças e adolescentes para a escrita. Prova disso é que muitos o experimentam, mesmo sem que alguém o sugira ou imponha.

Todavia, hoje perguntei aos alunos de uma turma se não queriam trazer, na próxima aula, alguns poemas da sua autoria. Perante os olhares de admiração da maior parte deles, perguntei-lhes se não tinham escrito poemas na adolescência, o que eu achava que era normal e frequente. Uma resposta entristeceu-me: «Na nossa adolescência, o que escrevíamos eram mensagens de telemóveis!...»

Não me digam que já não há poesia na adolescência!

* Nota: experimentei procurar “desmotivante”, palavra legitimamente formada, mas os vários dicionários que consultei não a registam. Contudo, tem 507 ocorrências no Google, só em páginas de Portugal... começo a pensar que o Jaime tem mesmo razão em usar um motor de busca em vez de um dicionário para saber se uma palavra existe!

16 maio 2007

Dúvidas precisam-se

“Dúvidas precisam-se”... Será esta construção correcta? Cheguei a um ponto em que tenho dúvidas sobre cada frase que ouço ou digo, em português. Maldita profissão!

É que, embora aprenda muito a duvidar de mim própria, há muitas perguntas que ficam sem resposta, mas que nem por isso são esquecidas – voltando insistentemente para me atormentar. Perdoem-me o desabafo, mas o excesso de dúvidas sem resolução incomoda-me. Foi talvez por isso, também, que abracei com tanto entusiasmo a ideia de criar este blogue.

No entanto, agora que assumi a função de esclarecer as dúvidas alheias (além das minhas), de oferecer a todos respostas sobre as suas perguntas de português, deparei-me com a falta delas. Não de respostas, mas de perguntas. Não há por aí ninguém a quem eu possa esclarecer?

14 maio 2007

Entre impacto e impacte... afinal há diferença?

Serão poucos os que ainda têm dúvidas quanto à utilização da palavra impacto, que se generalizou como substantivo, com o significado de “embate” ou “forte repercussão”.

Mas na verdade, e em rigor, impacto é o Particípio Passado do verbo impactar (o mesmo que “meter à força”, “impelir contra”) e o termo a usar (enquanto substantivo) quando nos referimos a uma “colisão” ou a uma “consequência nefasta”, por exemplo no ambiente, seria impacte.

Todavia, há muito que os portugueses abandonaram a forma terminada em e, preferindo impacto em todas as circunstâncias. Talvez na assunção de que impacte fosse como equipe ou camionete, um termo provindo do francês e que deveria ser aportuguesado. Ou talvez por se ter criado a ideia de que impacte era um brasileirismo a evitar em Portugal.

O que é certo é que hoje, por cá, não só se usa pouco ou nada a versão impacte, como muito pouca gente sabe que o termo impacto foi (e ainda é!) um adjectivo participial, antes de ser um nome.

10 maio 2007

Calotas e calotes


Já experimentaram ir ao dicionário ver o que significa a palavra calota (ou calote)?
Certamente terão uma surpresa, se estiverem à espera de encontrar uma explicação do sentido que o termo pode ter em frases tão frequentes como estas: «Conselho do Árctico alerta para degelo na calota polar»; «degelo na calota polar da Groenlândia duplicou nos últimos 25 anos»; «Estacionaremos junto à calote polar, que é um mar impressionante de gelo». Trata-se de um daqueles vocábulos que comprovam o facto de os falantes andarem sempre, por assim dizer, um passo adiante, em relação aos dicionários.
Como é natural, se estes atestam o conhecimento lexical dos utilizadores da língua, é preciso que, primeiro, as palavras sejam consagradas pelo uso – só posteriormente aparecerão nas páginas impressas ou virtuais dos diversos dicionários disponíveis.
Mas é de lamentar que, nos dias que correm, com os instrumentos que temos, eles não sejam actualizados com maior frequência. Espanta-me que o dicionário Priberam apresente apenas a seguinte definição para calota: «(do Fr. calotte) s. f., Mat., parte de uma superfície esférica limitada por um plano que a corta; parte superior da caixa craniana; solidéu; peça que protege as extremidades dos eixos dos automóveis.» e esta para calote: «s. m., dívida que não se pagou ou que se contraiu com tenção de a não pagar.» - deixando omisso esse significado de “região coberta de gelo”, que anda ultimamente na boca de tanta gente e que a Wikipédia tão claramente apresenta.
Acaba por ser mais proveitoso fazer uma pesquisa no Google do que consultar um dicionário, pelo menos em certos casos, o que, a meu ver, é um mau sinal. E é de referir que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências, obra impressa publicada em 2001, tão criticada por muitos, apresenta essa acepção da palavra, que é sempre feminina e tem, para já, duas variantes: calota e calote.

09 maio 2007

Teatro com “is” a mais


Quem não vai ao teatro porque é muito caro só tem de agarrar no filho, sobrinho, afilhado ou vizinho e usufruir da excelente iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras (e não só, provavelmente...), que oferece a oportunidade de assistir, sem qualquer custo, a espectáculos diversos de animação infantil ao longo de três meses: de Abril a Maio de 2007. A única condição é que cada adulto se faça acompanhar de uma criança.

Sei que já vem tarde este aviso, mas fiquem atentos, pois é muito provável que haja outras iniciativas do género, em ocasiões futuras. E hoje em dia, com a divulgação que a Internet permite, não há desculpa para não estarmos informados.

Este domingo, assisti a uma divertida peça encenada pelo Teatro Camarim, chamada “Zé Pateta, Zé Poeta”. História simples, mas contada com tanta naturalidade, tanta arte, que todos tivemos pena quando chegou ao fim. E nada melhor para nos arrancar umas boas gargalhadas, precisamente no dia mundial do riso!

Contudo, para mim, houve um momento em que me arrepiei, perante o mau uso do português: à semelhança do que já aconteceu numa certa novela cuja acção se passava num século distante, as personagens dirigiam-se umas às outras usando a segunda pessoa do plural, sem saberem conjugar convenientemente os verbos no Pretérito Perfeito. E assim, em vez de vós fizestes e vós visitastes, iam dizendo vós fizésteis e visitásteis, com toda a propriedade.

É pena... e, afinal, estão a complicar algo que até é simples! Mas é natural, se pensarmos bem. Porque há muita gente que usa “fizestes” e “visitastes” com a segunda pessoa do singular (tu), daí, talvez, a vontade inconsciente de criar uma flexão distinta. Por outro lado, a terminação em “is” é uma marca típica da pessoa vós, em tempos como o Presente ou o Pretérito Mais-Que-Perfeito do Indicativo (vós estais, vós estivéreis). Junte-se a isto o facto de já se usar muito pouco esta pessoa dos verbos e temos confusão garantida!

07 maio 2007

"vestoria"?!

Quando nos queremos referir a uma inspecção feita pelas autoridades competentes, podemos falar da vistoria, do vistor e usar o verbo vistoriar.

A "vestoria", embora muita gente se lhe refira, não existe em português. É uma deturpação popular, digam o que disserem os seus defensores. Porque os há, por incrível que pareça!

Talvez pensem que, por estar relacionada com o verbo ver, deve ser pronunciada assim, com aquele "e" inicial... mas afinal, o que fica visto, depois da vistoria, também deriva do verbo ver... então porquê a insistência em "vestoriar"?