25 junho 2007

"Mais bem" existe e é correcto!


No último número da revista Volta ao Mundo, deparei-me com este anúncio: "Melhor equipado só com mordomo incluído."

Certamente já estão à espera do que eu vou escrever a seguir: há ali um erro de português. Mas onde?

O erro está em escrever (ou dizer) "melhor equipado" - porque, quando estamos a modificar um adjectivo participial (ou seja, um adjectivo que provém do Particípio Passado de um verbo, como equipado, preparado, classificado, vendido, escrito...), não devemos flexionar em grau os advérbios bem e mal.

Talvez vos custe aceitar mais essa regra, que aparentemente ninguém cumpre, pois, ao que parece, ninguém sabe que ela existe. Mas isso não é verdade! Porque, como facilmente constatarão, raríssimas são as pessoas que ignoram essa regra quando se seguem Particípios (irregulares, mas ainda assim Particípios) como feito, dito, escrito. Por acaso costumam dizer que uma coisa está "melhor" ou "pior" feita do que outra?!

21 junho 2007

Roubo e furto

Uma das muitas (e boas!) sugestões do Jaime foi esta: elucidar os leitores sobre a diferença entre roubo e furto.

Embora em ambos os conceitos esteja subjacente a ideia de tirar a alguém, indevidamente, os seus haveres, no caso do furto essa acção não implica violência (ou ameaça), enquanto o roubo já pressupõe a ideia de que a vítima é forçada, sob ameaça ou mesmo violência, a entregar os seus bens.

Em rigor, portanto, quando descrevemos uma situação de qualquer um dos dois tipos, apenas uma das palavras se aplica, e não ambas: se um estranho entra em casa de alguém e leva os objectos de valor enquanto o dono dorme, há furto. Se alguém na rua é forçado a entregar o dinheiro que tem na carteira, sob a ameaça de uma arma ou de uma seringa contaminada, trata-se de roubo.

Todavia, o que acontece é que – sobretudo quando se usa o verbo correspondente – existe uma marcada tendência para escolher roubar, haja ou não violência inerente ao acto. Talvez porque o verbo furtar tenha vindo a ser preterido, na linguagem corrente, e cada vez mais associado a um registo formal e antiquado. E é preciso admitir que os dicionários actuais apresentam os termos roubar e furtar como sinónimos, portanto, dando razão a quem os usa indiferenciadamente. Na linguagem jurídica, porém, não há confusões. Roubo não é furto e furto não é roubo!

20 junho 2007

“Do” ou “de o”?

Será mais um preciosismo, mais uma batalha garantidamente perdida?

A verdade é que há uma diferença entre contrair ou não contrair preposições como a, de, por e determinantes ou pronomes como o, a, ele, ela, este, isto, etc.

A diferença reside no facto (e aqui já temos uma frase exemplificativa) de o referido determinante ou pronome ser ou não o sujeito de uma oração infinitiva. No caso da frase anterior, por exemplo, temos um verbo no Infinitivo (“ser”) cujo sujeito é “o referido determinante”. É por isso que seria incorrecto escrever: *“a diferença reside no facto do determinante ser ou não sujeito”. É como se a separação entre de e o servisse precisamente para evidenciar, a priori, a importância do determinante o enquanto sujeito da oração seguinte, para avisar os leitores de que a frase não acaba ali.

Se após o determinante ou pronome não houver nenhum verbo no Infinitivo, então já é recomendável contraí-lo com a preposição anterior. Por exemplo aqui: “Achei óptima a ideia dele.” (Em vez de: *“Achei óptima a ideia de ele.”). E até poderia haver uma oração a seguir, desde que ele não fosse o respectivo sujeito. Por hipótese: “Achei óptima a ideia dele, embora me parecesse um pouco ousada.”

Admito que esta regra cada vez é mais ignorada, até por pessoas que escrevem bem. Mas isso, como sabem, não é argumento que nos detenha. Se fosse, nem valeria a pena continuar este blogue!

15 junho 2007

A virtualidade da virtude de complicar

Muita gente complica.

Dizem que a língua portuguesa é traiçoeira, que engana, que é difícil, e por aí fora. Mas a verdade é que não são raras as vezes em que somos nós, os falantes, que atraiçoamos a própria língua.

Hoje o Jaime alertou-me para o facto de haver quem diga virtualidade em vez de virtude. Não me surpreendeu, uma vez que é frequente as pessoas optarem – sobretudo em contextos formais – por palavras mais compridas, mais “bem sonantes”, mas que afinal não significam aquilo que elas pensam e por isso tornam o discurso incorrecto ou até incoerente.

Virtualidade é a qualidade daquilo que é virtual, ou seja, potencial, possível, ou ainda simulado (por oposição a real); a virtude é uma qualidade moral positiva, por oposição a um defeito. Assim, será muito pouco provável haver um contexto em que ambas as palavras possam ser usadas como sinónimas. Vejam, por exemplo, o resultado de trocar uma pela outra nestas frases: “estamos a entrar numa era em que a virtualidade assume a mesma importância que o real” e “a honestidade continua a ser considerada uma virtude”.

Uma confusão semelhante ocorre com os termos referir / referenciar e notar / denotar, que também não têm o mesmo significado, mas que muitos falantes usam alternadamente, como se tivessem, consoante a formalidade da situação.

11 junho 2007

Há Portugueses e portugueses?


Sem dúvida :)

Portugueses, com maiúscula, e apenas enquanto substantivo, deve ser usado sempre que queiramos referir-nos a todos os indivíduos que o gentílico designa – seja no singular ou no plural –, ainda que estejamos a fazer uma daquelas generalizações pouco rigorosas, que dependem mais da experiência limitada ou da opinião subjectiva de cada um do que de uma análise rigorosa da realidade. Por exemplo, nas frases “os Portugueses são um povo pessimista” ou “o Português tem jeito para falar línguas”.
Enquanto substantivo, é preferível usar portugueses, com minúscula, nos contextos em que designa apenas algum ou alguns indivíduos, mas não todos, na generalidade. Por exemplo, se alguém escrever que “encontrou muitos portugueses quando esteve de férias em Espanha”, ou uma anedota sobre um português, um francês e um inglês que vão num avião (lembram-se dessa?!). Enquanto adjectivo, portugueses deve ser sempre escrito com minúscula, mesmo quando designa a generalidade dos indivíduos. Por exemplo em “as mulheres portuguesas são bonitas”, ou em “o homem português é corajoso”.
Enfim, são pormenores insignificantes, para quem nem se preocupa em pôr acentos gráficos nas palavras, mas que têm importância para os que fazem questão de escrever bem.

08 junho 2007

Os pombos-correio fizeram horas extras, ao contrário dos peixes-espada e dos porcos-espinhos!

Quem não teve já dúvidas aos formar os plurais de certas locuções nominais e de nomes compostos? É que algumas das regras que determinam a sua flexão em número nem sempre são fáceis de interpretar...

Vejamos estas duas: a) se o composto for formado por dois nomes ou nome e adjectivo, flexionam-se ambos os termos no plural; b) se o segundo termo, sendo um nome, funcionar como determinante do primeiro, só o primeiro se flexiona no plural.

Exemplifiquemos com hora extra e pombo-correio.

No primeiro caso, extra é um adjectivo (formado por truncamento a partir da palavra extraordinário). Logo, concorda em número com o nome que qualifica. Assim como diríamos “horas extraordinárias”, também devemos dizer “horas extras” – porque as palavras truncadas também têm plural (como fãs, motos, metros, pneus, etc.)

No segundo caso, o substantivo correio também, de certo modo, qualifica o nome pombo, mas não se flexiona no plural porque está a condicionar o significado do primeiro termo: podemos dizer que se trata de pombo(s) com função de “correio”. Não faria sentido dizer que, quando os pombos são vários, também passa a haver diversos “correios”. Há, nesse caso, vários pombos com a mesma função (de correio).

É a mesma lógica do peixe-espada: podemos referir-nos a vários peixes, mas nunca serão várias “espadas”, porque o termo espada apenas indica que os peixes têm essa forma.

Já a flexão de porco-espinho em número deve formar-se com ambos os termos no plural: porque, afinal, não se trata de um porco com forma de espinho, mas de um nome composto por dois substantivos em que nem um nem outro designa directamente a realidade representada. Por isso, ambos se flexionam: porcos-espinhos.

Conclusão: formar um plural de um nome composto dá muito que pensar!

(08.06.07)

05 junho 2007

E se recusasse fazer o teste da “alcoolémia”?

Se for a conduzir e um agente da polícia o interceptar e lhe pedir que faça o teste da “alcoolémia”, pode negar-se a fazer esse teste, explicando, delicadamente, o motivo da sua recusa: esse teste simplesmente não existe! Passo a explicar:
Está a generalizar-se a pronúncia e grafia -émia de algumas palavras formadas pelo sufixo grego -emia, que significa “sangue”: *glicémia e *alcoolémia, por exemplo.
Esta grafia está incorrecta, uma vez que esse sufixo não contém qualquer acento gráfico desde a sua origem.
Não deixa de ser estranha esta tendência, visto haver várias palavras terminadas em -emia que são pronunciadas e escritas correctamente, tais como anemia (e não *anémia) e leucemia (e não *leucémia).

Por conseguinte, se não hesita em dizer e escrever anemia e leucemia, então seja coerente e diga que apenas se submete ao teste da alcoolemia!

04 junho 2007

Dispêndio, dispendioso e... despender?!

Estas palavras da mesma família geram confusão na cabeça de muita gente... e por uma boa razão. Pois se dispêndio e dispendioso se escrevem com i, por que razão havemos de escrever o verbo despender com e?

Na verdade, se consultarmos o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, concluiremos que estes dois termos têm uma origem muito próxima. E, em latim, o verbo dispendere escrevia-se com i. Mas, segundo o mesmo dicionário, pelo menos desde o século XIII que despender, em português, se grafa com e. O motivo será este: enquanto dispendiu entrou na língua portuguesa por via culta, dispendere terá entrado por via popular, pelo que se deu a transformação da primeira vogal, de acordo, aliás, com a forma como pronunciamos a palavra ainda hoje.

Não há nada a fazer, por enquanto é mesmo assim: o verbo com e, o adjectivo e o substantivo com i. Quem sabe não acham útil esta espécie de mnemónica de última hora: despender escreve-se com e de vErbo; dispêndio e dispendioso escrevem-se com i de adjectIvo e de substantIvo!

30 maio 2007

SE com hífen ou sem?

Por sugestão de uma leitora, voltamos a mencionar uma dúvida frequente, que é a do emprego (ou não) do hífen em certas formas verbais.

Já havíamos abordado a questão no texto intitulado “Lavaste e Lavas-te”, mas nem sempre a hesitação de quem escreve se prende com a terminação TE, pelo que agora nos referimos às formas terminadas em SE, que também causam confusão.

Assim, vejamos: existem várias diferenças entre telefona-se e telefonasse.

Quando escrevemos telefona-se, estamos a associar a forma verbal (que está no tempo Presente do Indicativo) ao pronome SE, que neste caso representa a indefinição do sujeito (alguém telefona, não interessa quem). Nesta situação, o pronome muda de lugar quando formulamos a frase na negativa (“Não SE telefona a ninguém a estas horas!”) e isso indica que devemos separá-lo do verbo por meio de hífen.

Se escrevermos telefonasse, o tempo é o Pretérito Imperfeito do Conjuntivo e o verbo está na primeira ou terceira pessoa do singular. Aqui, a terminação em -se não pode ser separada por meio de hífen porque faz parte do verbo, não se trata de um pronome. Prova disso é o facto de não mudar de lugar quando a frase está na negativa: “Ela pediu-me que não lhe telefonasSE para o emprego” (e não “ela pediu-me que não lhe SE telefona para o emprego”, o que seria absurdo).

Espero, com este texto, ter esclarecido a dúvida da leitora que nos enviou a sugestão, bem como a de muitos outros leitores! E que continuem a escrever-nos :)

29 maio 2007

Solução - Uma frase, várias interpretações

Estão, então, encontradas as três possíveis interpretações da frase:
“Durante as férias, o Pedro só escreveu cartas à Rita”.

1. A única pessoa a quem o Pedro escreveu cartas foi à Rita (Não escreveu à Maria, nem à Ana... Só à Rita).
2. A única coisa que ele fez durante as férias foi escrever cartas (Não foi à praia, não andou de bicicleta... Só escreveu).
3. A única coisa que ele escreveu foram cartas. (Não escreveu postais, nem e-mails... Só cartas).
O elemento desencadeador da ambiguidade é a palavra , que tem escopo (i.e., controlo) unicamente sobre as expressões que estão à sua direita. Quer isto dizer que não podemos inferir, por exemplo, que o Pedro foi a única pessoa que escreveu cartas à Rita.
A língua tem destes mistérios! Valeu o desafio?

25 maio 2007

Uma frase, várias interpretações

Na Língua Portuguesa, há algumas frases que são ambíguas, ou seja, podem ter mais do que uma interpretação.

A título de exemplo, observe-se a frase “O professor falou aos alunos de literatura”, que pode significar: 1. O Professor falou sobre literatura aos alunos; 2. O professor cumprimentou os alunos de literatura.

O desafio que vos deixo neste fim-de-semana chuvoso é tentarem descobrir quais as TRÊS interpretações que a seguinte frase pode ter:


“Durante as férias, o Pedro só escreveu cartas à Rita.”

23 maio 2007

O Passado que nem sempre o é

Quem não usou já o verbo passar no Particípio Passado (precisamente: passado), como se fosse invariável?

Eu já me apanhei a mim própria a dizer “passado meia hora...”, confesso. No entanto, sei muito bem que se trata de um erro – daqueles que nos saem pela boca antes mesmo de podermos pensar no que estamos a dizer!

Mas é verdade, o Particípio Passado (nas orações participiais) deve sempre concordar com respectivo sujeito, quer esteja antes ou depois deste, ou seja, deve estar no masculino ou no feminino, no singular ou no plural, conforme o caso. Assim, diga-se (e escreva-se) “passadas duas horas” e não “passado duas horas”. Dá mais trabalho, leva mais tempo, mas fica melhor!


21 maio 2007

Se as palavras falassem...

Se as palavras falassem, certamente contariam histórias bastante interessantes! Muitas deliciar-nos-iam com o seu percurso de vida!
Viajem comigo pela história de algumas!

A palavra profissional começou por designar alguém que exerce uma determinada profissão, usada por oposição a amador, por exemplo: “Ele tira boas fotografias, mas não é profissional”, ou seja, “não faz da fotografia a sua profissão”.
O significado deste adjectivo estendeu-se a “alguém muito competente numa dada área”, por exemplo: “Ele é muito profissional naquilo que faz, trabalha com bastante profissionalismo”. Verificamos, portanto, a passagem de um adjectivo que não admitia variação em grau (ou é profissional, ou é amador) para um adjectivo que, sendo sinónimo de “eficiente, competente”, já admite flexão em grau: “muito/pouco profissional”.
Um percurso bastante interessante têm também os derivados pelo sufixo -aria, dos quais destaco a palavra ourivesaria, cujo significado original é: “arte, actividade do ourives”, por exemplo, na frase “Ele trabalha em ourivesaria há mais de 10 anos”.
O segundo significado surge em sequência do primeiro, quando se cria um local para exercer essa actividade. Temos, então, um sentido locativo, patente em “Comprei este anel na ourivesaria do centro comercial.”
E se considerarmos frases como “Ela guardou toda a sua ourivesaria no cofre, antes de ir de férias”, então estamos perante um sentido colectivo, que exprime “o conjunto dos objectos em ouro e prata”.
As palavras não falam, mas a sua história fala por elas!

17 maio 2007

Escreva-se mais poesia!

Confesso que não costumo comprar livros de poesia, nem tão-pouco escolher poemas em vez de contos ou romances, quando tenho tempo para ler. Confesso que muita da poesia que já tentei decifrar me deixou desconcertada, com a sensação frustrante de se ter mantido fechada a porta de acesso ao sentido final, por obscuridade intencional da linguagem do poeta ou por incompetência da minha parte. Ler poesia pode ser, de facto, mais do que um desafio, um trabalho árduo e desmotivador*.

Mas a poesia é sempre uma festa, quando nos propomos brincar com a língua, inventar frases como quem vai cantarolando. Escrever um poema é como jogar um jogo solitário do qual saímos sempre a ganhar, pelo simples prazer de alinhar palavras como quem brinca com um puzzle que permite um número infinito de combinações. Seja ou não rimado, o poema tem ritmo, tem aquela qualidade musical que faz dele o texto mais lúdico, mais divertido de compor. Talvez seja por isso o género mais indicado, quando se pretende motivar crianças e adolescentes para a escrita. Prova disso é que muitos o experimentam, mesmo sem que alguém o sugira ou imponha.

Todavia, hoje perguntei aos alunos de uma turma se não queriam trazer, na próxima aula, alguns poemas da sua autoria. Perante os olhares de admiração da maior parte deles, perguntei-lhes se não tinham escrito poemas na adolescência, o que eu achava que era normal e frequente. Uma resposta entristeceu-me: «Na nossa adolescência, o que escrevíamos eram mensagens de telemóveis!...»

Não me digam que já não há poesia na adolescência!

* Nota: experimentei procurar “desmotivante”, palavra legitimamente formada, mas os vários dicionários que consultei não a registam. Contudo, tem 507 ocorrências no Google, só em páginas de Portugal... começo a pensar que o Jaime tem mesmo razão em usar um motor de busca em vez de um dicionário para saber se uma palavra existe!

16 maio 2007

Dúvidas precisam-se

“Dúvidas precisam-se”... Será esta construção correcta? Cheguei a um ponto em que tenho dúvidas sobre cada frase que ouço ou digo, em português. Maldita profissão!

É que, embora aprenda muito a duvidar de mim própria, há muitas perguntas que ficam sem resposta, mas que nem por isso são esquecidas – voltando insistentemente para me atormentar. Perdoem-me o desabafo, mas o excesso de dúvidas sem resolução incomoda-me. Foi talvez por isso, também, que abracei com tanto entusiasmo a ideia de criar este blogue.

No entanto, agora que assumi a função de esclarecer as dúvidas alheias (além das minhas), de oferecer a todos respostas sobre as suas perguntas de português, deparei-me com a falta delas. Não de respostas, mas de perguntas. Não há por aí ninguém a quem eu possa esclarecer?

14 maio 2007

Entre impacto e impacte... afinal há diferença?

Serão poucos os que ainda têm dúvidas quanto à utilização da palavra impacto, que se generalizou como substantivo, com o significado de “embate” ou “forte repercussão”.

Mas na verdade, e em rigor, impacto é o Particípio Passado do verbo impactar (o mesmo que “meter à força”, “impelir contra”) e o termo a usar (enquanto substantivo) quando nos referimos a uma “colisão” ou a uma “consequência nefasta”, por exemplo no ambiente, seria impacte.

Todavia, há muito que os portugueses abandonaram a forma terminada em e, preferindo impacto em todas as circunstâncias. Talvez na assunção de que impacte fosse como equipe ou camionete, um termo provindo do francês e que deveria ser aportuguesado. Ou talvez por se ter criado a ideia de que impacte era um brasileirismo a evitar em Portugal.

O que é certo é que hoje, por cá, não só se usa pouco ou nada a versão impacte, como muito pouca gente sabe que o termo impacto foi (e ainda é!) um adjectivo participial, antes de ser um nome.

10 maio 2007

Calotas e calotes


Já experimentaram ir ao dicionário ver o que significa a palavra calota (ou calote)?
Certamente terão uma surpresa, se estiverem à espera de encontrar uma explicação do sentido que o termo pode ter em frases tão frequentes como estas: «Conselho do Árctico alerta para degelo na calota polar»; «degelo na calota polar da Groenlândia duplicou nos últimos 25 anos»; «Estacionaremos junto à calote polar, que é um mar impressionante de gelo». Trata-se de um daqueles vocábulos que comprovam o facto de os falantes andarem sempre, por assim dizer, um passo adiante, em relação aos dicionários.
Como é natural, se estes atestam o conhecimento lexical dos utilizadores da língua, é preciso que, primeiro, as palavras sejam consagradas pelo uso – só posteriormente aparecerão nas páginas impressas ou virtuais dos diversos dicionários disponíveis.
Mas é de lamentar que, nos dias que correm, com os instrumentos que temos, eles não sejam actualizados com maior frequência. Espanta-me que o dicionário Priberam apresente apenas a seguinte definição para calota: «(do Fr. calotte) s. f., Mat., parte de uma superfície esférica limitada por um plano que a corta; parte superior da caixa craniana; solidéu; peça que protege as extremidades dos eixos dos automóveis.» e esta para calote: «s. m., dívida que não se pagou ou que se contraiu com tenção de a não pagar.» - deixando omisso esse significado de “região coberta de gelo”, que anda ultimamente na boca de tanta gente e que a Wikipédia tão claramente apresenta.
Acaba por ser mais proveitoso fazer uma pesquisa no Google do que consultar um dicionário, pelo menos em certos casos, o que, a meu ver, é um mau sinal. E é de referir que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências, obra impressa publicada em 2001, tão criticada por muitos, apresenta essa acepção da palavra, que é sempre feminina e tem, para já, duas variantes: calota e calote.

09 maio 2007

Teatro com “is” a mais


Quem não vai ao teatro porque é muito caro só tem de agarrar no filho, sobrinho, afilhado ou vizinho e usufruir da excelente iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras (e não só, provavelmente...), que oferece a oportunidade de assistir, sem qualquer custo, a espectáculos diversos de animação infantil ao longo de três meses: de Abril a Maio de 2007. A única condição é que cada adulto se faça acompanhar de uma criança.

Sei que já vem tarde este aviso, mas fiquem atentos, pois é muito provável que haja outras iniciativas do género, em ocasiões futuras. E hoje em dia, com a divulgação que a Internet permite, não há desculpa para não estarmos informados.

Este domingo, assisti a uma divertida peça encenada pelo Teatro Camarim, chamada “Zé Pateta, Zé Poeta”. História simples, mas contada com tanta naturalidade, tanta arte, que todos tivemos pena quando chegou ao fim. E nada melhor para nos arrancar umas boas gargalhadas, precisamente no dia mundial do riso!

Contudo, para mim, houve um momento em que me arrepiei, perante o mau uso do português: à semelhança do que já aconteceu numa certa novela cuja acção se passava num século distante, as personagens dirigiam-se umas às outras usando a segunda pessoa do plural, sem saberem conjugar convenientemente os verbos no Pretérito Perfeito. E assim, em vez de vós fizestes e vós visitastes, iam dizendo vós fizésteis e visitásteis, com toda a propriedade.

É pena... e, afinal, estão a complicar algo que até é simples! Mas é natural, se pensarmos bem. Porque há muita gente que usa “fizestes” e “visitastes” com a segunda pessoa do singular (tu), daí, talvez, a vontade inconsciente de criar uma flexão distinta. Por outro lado, a terminação em “is” é uma marca típica da pessoa vós, em tempos como o Presente ou o Pretérito Mais-Que-Perfeito do Indicativo (vós estais, vós estivéreis). Junte-se a isto o facto de já se usar muito pouco esta pessoa dos verbos e temos confusão garantida!

07 maio 2007

"vestoria"?!

Quando nos queremos referir a uma inspecção feita pelas autoridades competentes, podemos falar da vistoria, do vistor e usar o verbo vistoriar.

A "vestoria", embora muita gente se lhe refira, não existe em português. É uma deturpação popular, digam o que disserem os seus defensores. Porque os há, por incrível que pareça!

Talvez pensem que, por estar relacionada com o verbo ver, deve ser pronunciada assim, com aquele "e" inicial... mas afinal, o que fica visto, depois da vistoria, também deriva do verbo ver... então porquê a insistência em "vestoriar"?

04 maio 2007

A polivalência de TELE-


Não há ninguém que não utilize no seu dia-a-dia palavras como televisão, telecomando e telefone, que incluem o elemento de formação TELE- e significam: “visão à distância”, “comando à distância” e “som à distância”, respectivamente.
Esse elemento tornou-se tão produtivo na criação de palavras da mesma família de televisão e telefone, que passou a apresentar significados derivados a partir do seu significado original. Ora vejamos:
Em palavras como telejornal, telenovela e telescola, TELE- já não significa “à distância”, mas, sim, “relativo a televisão”, pois uma telenovela, por exemplo, não é uma novela à distância! É, sim, uma novela transmitida através da televisão.
Por sua vez, em palavras como telemóvel, telepizza e telemarketing, TELE- significa “relativo a telefone”: um telemóvel não é um móvel à distância, mas, sim, um telefone móvel, e uma telepizza não é uma pizza comida à distância, mas uma pizza encomendada através do telefone!

02 maio 2007

Por forma a ou de forma a?



Ao escrevermos, sobretudo quando pretendemos expressar-nos numa linguagem mais cuidada, temos tendência para usar certas estruturas perifrásticas que parecem tornar as frases mais bem sonantes, mais eruditas. Perifrásticas porque implicam, em muitos casos, usar mais palavras do que seria necessário para veicular uma ideia com clareza. Porque, bem vistas as coisas, tanto de forma a como por forma a servem para dizer para, com três palavras em vez de uma só.
Mas qual das duas será, para quem opta por usar esses termos, a mais legítima?
Sugeria um leitor, ao colocar-nos esta dúvida, que talvez fosse para evitar a ambiguidade da expressão de forma a (que, ao ser pronunciada, tem o mesmo som de “deforma-a”) que muita gente passou a usar antes a expressão por forma a, com o mesmo significado.
O problema – que não é um verdadeiro problema – está na escolha entre uma e outra, quando o objectivo é usar correctamente a nossa língua: é que a locução de forma a é desaconselhada pelos puristas, que a consideram um galicismo desnecessário (ver Ciberdúvidas) mas, por outro lado, a expressão por forma a ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos.
Todavia, trata-se de um falso problema, uma vez que nunca ninguém precisou que as locuções aparecessem nos dicionários para as utilizar. E quanto aos galicismos, há muitos outros que já vingaram em português e que passam hoje despercebidos, como pôr ou colocar uma questão, a nível de, face a, etc. ...

01 maio 2007

Quis, pus, quiseres, puseres, quiseste...


É grande a tentação de escrever certas formas dos verbos pôr e querer com z – aquelas em que a vogal s tem esse som (o que acontece sempre que está entre duas vogais).

Muitos são, até, os que já nem têm dúvidas: escrevem “quiz”, “puzeres”, “quizeste”, com segurança e à-vontade, infelizmente.

Mas para aqueles que se questionam sobre a forma correcta de grafar estas e outras palavras, que gostariam de encontrar uma maneira fácil e inequívoca de saberem quando é que devem usar o z nas formas verbais, aqui fica uma verdade simples e eficaz: só se escrevem com z as formas dos verbos que no Infinitivo têm z. Assim, não restam dúvidas de que pus, puseste (de PÔR) e quiseres (de QUERER) se grafam com s, ao contrário de fizeres (de FAZER), traz e trazeres (de TRAZER) - embora em todas elas o som dessas duas consoantes seja o mesmo.


27 abril 2007

Piada seca

- Qual a palavra mais comprida em português?
- ?
- ARROZ!
- Arroz?
- Sim. Porque começa em A e acaba em Z! :)


A propósito, de onde terá surgido a expressão "piada seca"?

26 abril 2007

Dilema

"Um garoto, sozinho em casa, tenta-se a provar a bebida que está numa garrafa. Diz lá «Veneno». Hesita, e à semelhança do que o pai costumava fazer, consulta um dicionário: «substância que envenena». Envenenar, nova consulta: «tornar venenoso». Já agora (o pai também procura muito) venenoso = «que contém veneno». Fechou-se o círculo. Bebo ou não bebo?”

Aldónio Gomes e Fernanda Cavacas, A Vida das Palavras: Léxico

O pai do garoto até incutia um excelente hábito ao rapaz. Infelizmente, não dera a devida importância à escolha de um bom dicionário, que não caísse numa circularidade viciosa, e que definisse os termos de forma rigorosa e inequívoca...!

23 abril 2007

No embalo da "embalagem"

Há dois substantivos derivados do verbo embalar - embalo e embalagem - que podemos usar para nos referirmos ao "acto ou efeito de embalar". No entanto, apenas um deles deve ser usado, em sentido figurado, para designar "ímpeto", o "impulso recebido por alguém ou alguma coisa": embalo.
Há uns bons anos, começou-se a falar em "ganhar embalagem" (como quem diz ganhar balanço) e muita gente aderiu a essa moda, passando a preterir o termo "embalo" nesse e noutros contextos. Todavia, se forem à Infopédia, confirmá-lo-ão: além de significar o acto de embalar, a embalagem é mesmo o pacote...

20 abril 2007

O Torneio

Foi hoje o dia das provas finais e já apurámos os vencedores! Desde já, queremos felicitá-los pela sua excelente prestação.
Mas todos os finalistas estão de parabéns e a todos agradecemos o facto de se terem submetido às provas - sim, porque, afinal, tratou-se de um momento de tensão, apesar de tudo.

ALUNOS DO ISEC:

1º LUGAR - Sara
2º LUGAR - Vera
3º LUGAR - Raquel

ALUNOS DO 4º ANO DO 1º CICLO:

1º LUGAR - Tiago
2º LUGAR - Catarina
3º LUGAR - Afonso

Como sabem, os prémios serão entregues no domingo, na festa do ISEC. Até lá, bom fim-de-semana. Descansem, que bem merecem! E, se quiserem, deixem aqui comentários e sugestões, para que o Torneio do próximo ano seja mais do vosso agrado.

19 abril 2007

As valências do “vá lá”


É curioso como uma expressão aparentemente simples e linear pode ser tão rica e variada em significados, graças aos poderes da entoação.

A expressão “vá lá” é das minhas preferidas e, embora ainda não tenha procurado, desconfio que nos dicionários não se encontra toda a informação que faça justiça à sua expressividade e à sua potencialidade semântica. Aqui fica o meu contributo para que sejam registados esses dados:

a) vá lááá! [entoação arrastada, semi-cantada, decrescente]: súplica, pedido de concessão de algum favor. Ex.: “Vá lá, deixa-me ver o que tens aí escondido!”

b) vá lá! [entoação crescente, exclamativa, breve]: o m.q. menos mal, tanto melhor; expressão usada quando o resultado de uma acção é satisfatório e/ou excede as expectativas. Ex.: “Pensei que ele ia ser apanhado, mas, vá lá, safou-se!”

c) vá lá... [entoação breve, peremptória, seca]: concessão algo contrariada de um favor, indica permissão, especialmente quando não seria suposto concedê-la. Ex.: “Vá lá... podes deixar isso assim. Mas a próxima tem mais cuidado.”

d) vá lááá! [entoação desesperada, prolongada q.b., subindo e logo descendo em "lá"]: incitamento a uma acção urgente, instigação para que outrem se apresse. Ex.: “Vá lá, anda para a frente, depressa!”


18 abril 2007

Um cheirinho da prova...

Para os excelentíssimos finalistas - e para quem tiver curiosidade - aqui ficam algumas das perguntas que fizemos no Torneio ISEC de Língua Portuguesa 2006 e que servem como amostra do tipo de questões que podem ser feitas este ano:

1. A palavra pus:

A – escreve-se com z apenas quando é uma flexão do verbo pôr
B – escreve-se com s, apenas quando é uma flexão do verbo pôr
C – escreve-se com s, seja qual for o seu significado

2. A flexão terdes, do verbo ter:

A – não existe
B – corresponde à segunda pessoa do plural no Futuro do Conjuntivo
C – corresponde à segunda pessoa do plural no Infinitivo Pessoal

3. Imiscível designa algo que não se pode:

A – saber
B – imiscuir
C – misturar

4. Sóbrio manifesta sobriedade, parco manifesta...?

5. Como se denomina a antipatia pelas pessoas ou coisas estrangeiras?


E lembrem-se: o importante é participarmos, divertirmo-nos e também aprendermos um pouco. O resto é extra!

17 abril 2007

O fenómeno do "muita"

Todos os dias passo por um grande cartaz de publicidade ao Jardim Zoológico onde se pode ler "os nossos gatos são muita graaaaaaaaandes" ou algo parecido.
Primeiro pensei que talvez fosse gralha, aquele "a" do muita. Mas depois concluí que devia ser propositado, para que a frase se aproximasse mais do discurso familiar. De facto, há muita gente que diz muita em vez de muito! Sobretudo quando fala com amigos, em ambiente informal.
Então fiquei a pensar (até parece que não tenho mais nada em que ocupar a mente...!): a que propósito é que tantos portugueses se renderam a esta estranha mudança de género do advérbio muito, MESMO quando esse advérbio modifica adjectivos masculinos (por exemplo, em "ele é muita bom" ou "isto é muita giro").
Não sei qual é a vossa opinião, mas estou curiosa. E tenho uma teoria (sim, daquelas que não servem para nada, apenas para me divertir a degustar a nossa língua!): concluí que a transformação do o em a não tem nada que ver com género, mas acontece porque o a, sendo uma vogal aberta (bem mais aberta do que o u, que é o som que tem o o de muito), é muito mais ENFÁTICA. Ou seja, ao abrirmos mais a boca (para dizer muitA em vez de muito), tornamos a palavra bem mais expressiva. E é isso que normalmente pretendemos quando usamos "muita": conferir maior expressividade à frase. Concordam ou discordam?

16 abril 2007

"Há-des cá vir..."

Quem é que não ouviu já esta expressão? Poucos, certamente...

As formas "há-des" e "há-dem" são flexões erradas, como muitos sabem, do verbo haver (de), no Presente do Indicativo, usadas em vez de hás-de e hão-de. A maioria dos portugueses bem falantes, sobretudo professores, sente arrepios cada vez que ouve essas pseudo-flexões.

Mas o que é curioso é que muitas das pessoas que cometem este erro SABEM que se trata de uma incorrecção, mas usam-no, ainda assim, "porque dá mais jeito."
E a verdade é que grande parte das alterações que ocorrem nas línguas, ao longo do tempo, acontece precisamente porque aos falantes "dá mais jeito" dizer as palavras de determinada forma em vez de outra, trocando consoantes (de semper para sempre), acrescentando (de mostrar para amostrar) ou suprimindo sons (de mare para mar), etc. Quem não se lembra de ter decorado, na escola, os "fenómenos" fonéticos", com aqueles nomes difíceis como apócope, epêntese ou paragoge?

A nossa tendência, em cada momento histórico, será naturalmente a de condenar as alterações que se vão insinuando como resultado da ignorância, do "desrespeito" pela língua. Mas até mesmo os puristas acabam por ser apanhados a usar um termo que, tempos atrás, fora condenado por outros como eles.