Escreva-se mais poesia!
Confesso que não costumo comprar livros de poesia, nem tão-pouco escolher poemas em vez de contos ou romances, quando tenho tempo para ler. Confesso que muita da poesia que já tentei decifrar me deixou desconcertada, com a sensação frustrante de se ter mantido fechada a porta de acesso ao sentido final, por obscuridade intencional da linguagem do poeta ou por incompetência da minha parte. Ler poesia pode ser, de facto, mais do que um desafio, um trabalho árduo e desmotivador*.
Mas a poesia é sempre uma festa, quando nos propomos brincar com a língua, inventar frases como quem vai cantarolando. Escrever um poema é como jogar um jogo solitário do qual saímos sempre a ganhar, pelo simples prazer de alinhar palavras como quem brinca com um puzzle que permite um número infinito de combinações. Seja ou não rimado, o poema tem ritmo, tem aquela qualidade musical que faz dele o texto mais lúdico, mais divertido de compor. Talvez seja por isso o género mais indicado, quando se pretende motivar crianças e adolescentes para a escrita. Prova disso é que muitos o experimentam, mesmo sem que alguém o sugira ou imponha.
Todavia, hoje perguntei aos alunos de uma turma se não queriam trazer, na próxima aula, alguns poemas da sua autoria. Perante os olhares de admiração da maior parte deles, perguntei-lhes se não tinham escrito poemas na adolescência, o que eu achava que era normal e frequente. Uma resposta entristeceu-me: «Na nossa adolescência, o que escrevíamos eram mensagens de telemóveis!...»
Não me digam que já não há poesia na adolescência!
* Nota: experimentei procurar “desmotivante”, palavra legitimamente formada, mas os vários dicionários que consultei não a registam. Contudo, tem 507 ocorrências no Google, só em páginas de Portugal... começo a pensar que o Jaime tem mesmo razão em usar um motor de busca em vez de um dicionário para saber se uma palavra existe!